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Introdução

O título da obra pode ser pensado sobre duas vvertentes. A primeira foca no modelo
mais pragmático, buscando achar a resposta na sua aplicabilidade. Enquanto que a outra se
preocupa na influência dela na cultura, bem como suas novidades para a mesma. Para saber
para que serve a ação de um psicanalista, deve-se retornar para o sentido da ação, fazendo uma
reflexão ética. Essa tarefa, de transmitir aquilo que a psicanálise diz respeito, é bastante difícil
pois nem mesmo o discurso científico é suficiente para abordar a complexidade do psiquismo
humanos. Até mesmo Freud fez uso da mitologia, filosofia, literatura e outros meios para tentar
explicar seus pressuspostos. É como se ele encontrasse nesses meios uma forma de mostrar a
dimensão do indizível

Dessa forma, a psicanálise se situa entre a ciência e a arte. O cientista tem sempre muito
a aprender com aquilo que o artista antecipa.

A Psicanálise e o mundo de hoje

Em uma mesa redonda com o tema sobre a subjetividade na contemporaneidade, um


expositor disse que as novas tecnologias de processamento e difusaõ de informação (internet,
rádio, televisão etc) seriam efetivos espaços vivenciais contemporâneos e que falar a um
analista sobre problemas, explorar ideias e reflexões estaria ultrapassado frente às novas
inquietações e aos recursos disponíveis em nossos tempos.

É uma ideia bastante negada pela autora, uma vez que o que mais acelerou nos tempos
atuais foram os laões que nos ligam, ou tentam nos ligar uns aos outros. O avanço é notável,
mas o que está no centro da cena é o apelo à criação de laços com os outros.

Em outras épocas, o apelo era para outros valores para lidar com as dificuldades da vida
como a lei, fé em deus. Na contemporaneidade esse apelo parece estar voltado para o anseio de
criar laços, de comunicar-se como forma de alcançar a solução para suas dificuldades e,
sobretudo, desamparo. Isso é visto na obra A parábola dos cegos de 1568 onde há uns tantos de
cegos andando pela rua em fila, uns apoiados nos ombros dos outros, todos juntos não sabem
onde chegar.Esse apelo de se ligar aos outros, sem dúvida, faz parte da história da humanidade,
mas, na contemporaneidade, essa estratégia tem sido bastante influenciada.

Face a um problema, as pessoas tendem a buscar alguém ao alcance de sua mão, ou da


linha telefônica, ou de templos religiosos, não crendo mais nos poderes da racionalidade para
encontrarem uma forma de para melhor viver. Parece que estamos sob o império de Eros sendo
não só o deus do amor, quanto uma tendência à promoção de laços, a estabelecer ligações.O
que a psicanálise chamou de libido, energia de Eros, cobra incansáveis investimentos, sobretudo
no amor e na sexualidade, e traz em seu rastro outra face da moeda: o ódio.

Foi a inquietação da falta que deu origem à invenção da psicanálise. Ela surgiu para
tratar dos impasses decorrentes disso. Aquilo que faziam sofrerem as mulheres que Freud
atendia, e lhes fazia produzir sintomas inexplicáveis aos olhos dos médicos. Expressões do mal
do amor. Freud deu conta que o tratamento para isso se passava pela fala, e não importava se
era um surdo-mudo, pois este também está incluído nas relações tecidas pela linguagem.

Sabe-se que muita coisa mudou na sociedade, mas não creio que tenhamos nos
deslocados do apelo à libido como modo de operar com nossas inquietações. Muito pelo
contrário, nunca se produziram tantos artifícios para ampliarmos nossos laços. Diante da
compatibilidade entre a natureza da inquietação do cenário atual e a natureza da invenção
psicanalítica, esta última continua sendo um recurso privilegiado em nossos tempos. Diante dos
sintomas do mal de amor, a psicanálise apresenta-se como opção para tratar dessa questão.

Muitas vezes se recorre à psicanálise depois de inúmeras tentativas fracassadas de


suprimir seu mal-estar. É como se a sensação de vazio e desamparo fosse um indicativo de uma
doença que acomete a uns poucos desprivilegiados, da qual teríamos a todo custo que nos livrar
o mais rápido possível. Contudo, as ilusões são alimentos fundamentais de nossas vidas. Por
mais que a difusão das estratégias psicanalíticas tenham sido propagadas de forma estapufarda,
sua proposta foi de ser uma estratégia para tratar desse vazio caracterizado, muitas vezes, como
falta de alguém. Sua intenção não foi saná-lo ou curá-lo pois não podemos nos curar da ferida
de sermos humanos.

O vazio é impossível de ser extirpado, mas cabe-nos encontrar meios menos nefastos
(péssimos) de abordá-lo. Viver sem a dor da falta é simplesmente inumano. Ela a nossa
diferença em relação aos outros animais. A psicopatologia é justamente, se traduzida ao pé da
letra, uma busca de sentido (logia), daquilo que causa espanto (pathos) à alma (psico). Esta
incompletude nos espanta e podemos reagir a isso neurótica, psicótica ou perversamente. Não
é uma visão pessimista que toma essa incompletude como defeito de fabricação com o qual
teríamos que nos conformar, mas sem uma orientação ética que funda a proposta psicanalítica,
acolhendo a vida não em uma dimensão ideal, mas em sua dimensão real.

Sofremos os efeitos desse real ao confrontarmos com o fato de que as coisas não estão
ao alcance de nossas mãos, como gostaríamos que estivessem. Afirmar a vida com tudo o que
nela há, de alegria e de sofrimento, é não mutilar de nenhum de seus componentes. Assim,
estamos nós em nossa radical humanidade, nessa condição de errantes, suplicantes, de algo que
nos oriente, que nos complete e acene na adequação de nossas ações, dado que nunca sabemos
se o que resolvemos fazer está certo ou não. Como humano, não subverteremos às vontades do
instinto. Não comemos só por fome, nem temos atividades só por instinto.

Nosso universo de necessidades é intermediado pelo das representações. As coisas são


o que representam para nós. Podemos perder o apetite ou comer demais quando estamos tristes,
o que nos rege não é propriamente um instinto, mas algo de outra natureza. A pulsão. Na
ausência de acesso ao objeto, criamos estratégias para contornar esse abismo. Inventamos a
linguagem, a palavra para designar coisas, nomear o que nos falta, criar ícones para adorar,
ideologias para nos salvar do desamparo. O universo da linguagem é, também, o universo da
mais absoluta arbitrariedade, afinal palavras não são as coisas e seu sentido deixa sempre
margem a diferentes interpretações.

A Psicanálise, a História e a Arte

Ao longo da história a cultura obteve diferentes valores de sustentação para o sujeito.


Na antiguidade grega o anseio era que o direito fosse uma saída para a indeterminação das ações
humanas. Esperava que as leis resolvessem o que era correto ser feito, acabando com o dilema
que o livre-arbítrio nos impõe. A qualidade de cidadão mostrou-se insuficiente para abarcar
todas as dimensões do sujeito, logo, houve um apelo à religião que perdurou por quase 15
séculos, onde Deus foi o recurso.

Até que, pelos efeitos da reforma luterana e o afloramento das mudanças sociais,
políticas e artísticas radicais, o apelo à salvação divina deslocou-se para a razão. Descartes
encarna nessa aspiração de tomar a razão, o pensamento como medida de avaliação de si mesmo
e tudo mais. Através dessa autoavaliação, Descartes chama atenção para os elementos da nossa
subjetividade que podem confundir nosso raciocínio objetivo, fazendo que se chegue a
conclusões precipitadas. No anseio para criar métodos para neutralizar a interferência subjetiva,
ele abre as portas para o surgimento da ciência moderna, possibilitando a criação de leis gerais
e de previsibilidade.

Porém, quando desartes focaliza a interferência da singularidade, seu gesto só faz


ressaltar a importância da subjetividade. Essa focalização abriu canais para o movimento oposto
ao da valorização da razão cartesiana: a ênfase na emoção nas intensidade psíquicas, chamado
também de dimensão do psiquismo. Esse novo movimento é caracterizado pelo apelo à libido,
ao amor e a sexualidade como via de solução dos problemas de vida, dando a margem ao
surgimento da psicanálise.

Essa valorização da emoção já havia sido acolhida na cultura pela via das artes, ainda
no tempo de descarte. A arte barroca, no sec XVII é expressão da visão do sujeito afetado pela
paixaõ que iria interessar à psicanálise. Mesmo ainda que a libido e a sexualidade não fossem
o foco temático naquela época, não se pode deixar de observar a exuberância dos afetos,
expressos pelos corpos dos santos que chega quase à obscenidade, como se o ardor da alma
fosse tornado visível pela focalização do corpo.

Somento no século XIX que Heinrich Wolfflin reconheceu a obra barroca como sendo
algo bizarro, desproporcional, esquisito. O barroco indica uma visão de beleza que escapa às
exig~encias da ordem, da hamonia e do equilíbrio. Dividada por visões de mundo opostas, a
obra barroca é a configuração de uma crise que abriga as cruzadas pelos mares, mercantilismo,
reforma luterana e outras causas consideradas como prenúncias da liberdade. Charles
Baudelaire fala sobre uma beleza em duas metades. A do espirito clássico que fixa as imagens
na dimensão da eternidade. O que neça está posto não sugere nenhuma alteração. Exp: Vênus
de milo. Mas o poeta lembra que a modernidade introduziu uma outra relação com a beleza: a
beleza do que se movimenta, transitório e mesmo do que aparece. A beleza é vita nos getos, nas
rugas e maras do tempo. É uma dimensão de beleza especialmente valorizada pela psicanálise.
Ela vê no movimentodo tempo uma afirmação da vida..

O poema “A uma ausência” mostra que não estamos no mundo da contradição, mas no
mundo do paradoxo. O que se faz nele é afirmar a presença simultânea de elementos que são
heterogêneos. Isso é tão presente na arte barroca quanto nas manifestações do inconsciente. Nos
sonhos podemos aparecer simultaneamente como crianças e velhos, pobres e ricos, gloriosos e
decadentes, sem que uma coisa anule a ooutra. Também nos atos falhos (Equívocos da
linguagem que ocorrem quando dizemos uma coisa quando queremos dizer outra) a presença
do inconsciente é testada relevando seu modo particular de funcionamento. Isso ocorre também
em nossas fantasias, em nossos sintomas. Nossos atos falhos, fantasias, sintomas e chistes são
abordados pela psicanálise como funções do inconsciente, não obedecendo às leis da
racionalidade consciente que exige clareza, coerência, ausência de contradições.

Influenciados pela consciência, temos a tendência de sempre buscar semelhanças entre


as coisas, abolindo diferenças e contradições. Desprezando o que parece ilógico ou incoerente.
O reconhecimento do diferente como o que é errado afeta nosso pensamento racional e motia
inúmeros conflitos étnicos, religiosos, políticos, etc.

Quando a psicanálise sublinha que o psiquismo não é só a consciência, implica


simultaneamente em uma subversão na visão tradicional da vida e do mundo. Isso explica por
que a psicanálise pode ser melhor compreendida pela arte do que pela ciência tradicional. Não
que o inconsciente seja o domínio do caótico e do ilógico. A questão é que a psicanálise ressalta
o funcionamento de uma outra lógica, da lógica do paradoxo. Nesse plano, a visão que se tem
de Eu, de afirmação de si mesmo passa a ser um tema sobre o qual recai todo questionamento.
Para a psicanálise, o Eu não é, senão, a fachada de nós mesmos, do sujeito que somos. O que
realmente somos escapa às possibilidades de apreensão do Eu. Na arte barroca exibe-se um
comportamento passional que revela que é preciso todo o vigor para nos defendermos do
aniquilamento, sem que a morte seja por ela negada. A ideia de confrontação do homem com
um limite onde em ultima instância situa-se a morte

No barroco, o Eu e a natureza são tidos como manifestações legítimas e únicas


p´roximas da verdade, que não deve ser interpretada pela lógica intelectualista, mas sim deixada
para ser expressa livremente. Trata-se de situar o infinito do ser na dimensão finita da natureza
e do humano. O sujeito encontra-se impregnado de mundo e é mesmo confudido com ele. Essa
noção de dessubjetivação, chamada de destituição subjetiva, será preciosa para que se possam
abordar questões inerentes ao que se espera do final de uma análise. Trata-se de destituir o herói
épico que fizemos de nós mesmo, para melhor ou para o pior, em detrimento de vivermos a
dimensão mutante da vida.

A psicanálise trata desse sujeito que cai de uma perspectiva ideal e vai ter que se haver
com seus conflitos, suas divisões, e que tem particularidade de aspirar que o sucesso no amor e
na sexualidade resolva suas questões. É óbvio que a abordgem da condição humana enfatizando
nossa fragilidade, a força de nossa fragilidade, idenfitiada ainda nos primórdios da civilização
ocidental através do teatro mágico, quando o homem resolveu colocar em cena não as facilidade
da existência, mas justamente seus impasses.

Foi somente na atualialidade que a tentativa de resolução dos impasses da vida pela via
da libido ganhou a cena. A clinica psicanalítica consttui uma “hora da verdade”, promovendo
a experiencia do amor em um contexto, de certo modo, artificial.

Quando cabe procurar um psicanalista?


O Pedido de ajuda precisa ser avaliado para que o analista averigue se há algo a ser feito
de acordo com a sua competência de função. Nem todo sofrimento, ainda que psíquico, está na
ordem de competência da intervenção de um analista. Não porque um analista não é indicato
para tratar de certos problemas, pois a psicanálise é indicada para lidar com todo tipo de doença,
dado que não tratam a doença, mas o sujeito que nela está implicado. O sujeito que faz da
doença um sintoma que chamamos analítico.

O que é esse sintoma: é um sintoma que seja tomado pelo sujeito como fonte de
questionamento de si mesmo, mas não se trata de um questionamento qualquer, mas um dirigido
ao saber inconsciente. Um questionamento dirigido pela aposta de que existe, em alguma esfera
do meu psiquismo, um saber que age em mim através de uma outra lógica. Posso dizer que
minha depressão é maldição dos céus, que é praga do vizinho ou que há em minha depressão,
saber inconsciente que nela opera.

Acontece de alguém passar tempos intrigado com suas questões, percebendo-se nos
sintomas, trabalhando de certa forma sobre eles, até que um dia resolve procurar um analista.
Acontece também de uma pessoa ser identificada pelos amigos como alguém que precisa de
análise, mas a própria pessoa nem se dá conta disso. Isso explica o porquê que a psicanálise é
uma questão de desejo e não de necessidade. Sem desejo não há análise possível. Não é a
natureza do problema que delimita o campo de interven~çao do analista, mas o modo de relação
do sujeito com o sofrimento.

É necessário compreender a diferença entre um psicólogo, psiquiatra e psicanalista. O


psiquiatra trata o sintoma enquanto que a doença permanece intecta. A psiquiatria se difere
bastante dos outros ramos da medicina, pois não trata a doença em si e sim seus sintomas. Se
você vai ao médico com queixa de azias, ele vai medicar a gastrite ou úlcera ou qualquer doença
que esteja causando a azia. Psicofármacos são a maior fonte de rendimento dos laboratórios.
Entretanto, apesar dos esforços, nada se consegue encontrar de definitivo no que diz respeito à
relação entre sintomas psíquicos e a doença de qual esse sintoma é sinal.

Claro que, mesmo tratando somente o sintoma, a psiquiatria não deixa de ser útil, uma
vez que há sintomas que são insuportáveis e que incapacitam a pessoa para fazer o que quer,
colocando atémesmo suas vidas em risco. Contudo, iludidas com a ideia de que em algum lugar
existe pessoas com nenhum problema, dificuldades, conflitos, etc. as pessoas tendem a avaliar
qualquer mal estar inerente aos impasses de ser humano como sinais de doenças sanáveis por
medicação. A situação poderia ser pior se as lobotomias/cirurgias cerebrais se encaixassem tão
bem na sociedade de consumo quanto os medicamentos.

Existe também a possibilidade de achar que o sintoma é decorrente de estresse, baixa


motivação, insegurança, etc. e decidir ir ver um psicólogo para obter algumas sugestões, um
certo apoio e incentivo. O psicólogo focalizará suas questões para o campo do consciente, ou
mesmo comportamentos e exercícios cognitivos.

Há também a possibilidade de perceber que o sintoma não diz respeito a um estresse


qualquer, mas que apareceu rente a um momento especial de sua vida e a partir de certos fatores
que escapam a sua possibilidade de apreensão consciente, daí surge a necessidade de um
psicanalista para ajudar o cliente a compreender o seu próprio funcionamento, como você reage
a vida. O sintoma será abordado numa análise como um sinal do que você é: como um modo
paradoxal de obter algum tipo de satisfação. Chama-se isso de gozo, onde o prazer e dor se
entrelaçam secretamente.

São satisfações que respondem a processos inconscientes, não se submetendo a injuções


como “não devo pensar isso”, “devo pensar aquilo”, ou outros modos de auto-sugestões. Refiro-
me a sintomas que escapam à possibliidade de dominação consciente.

As condições preliminares de uma psicanálise

Nem mesmo as evidencias de fatores psíquicos atuando na produção de sintomas é


suficiente para resultar num processo psicoanalítico. Vai depender de uma retificação que o
sujeito faz de sua própria posição queixosa. Exemplo: A moça chega na psicanalista com a mãe
e durante as 2 sessões diz que foi o vizinho que jogou macumba e que ela não tinha nada a ver
com as placas que apareciam em sua pele. Na 3ª sessão, ainda com sua mãe, diz que o problema
foi resolvido através de um banho de leite.

Esse caso é suficiente para mostrar que um pedido de ajuda não é, necessariamente, um
pedido de análise. Daí a importância das entrevistas proliminares. Ela permite ao analista,
averiguiar se há um trabalho possível a ser realizado naquela pessoa, naquele momento e à
disposição tanto do candidato/cliente quanto analista. Lacan alerta sobre os riscos de se tomar
em análise, psicóticos que não tenham ainda deslanchado um surto. Certas intervenções podem
provocar o desencadeamento de uma psicose até então não manifestada.

Surto psicótico é uma crise que mobiliza a angústica tal, uma avalanche de
vivencias terrivelmente dolorosas, que é melhor serem evitadas. Caso se perceba que úma
análise pode vir dar inicio a um surto psicótico, é melhor evita-la. Mas caso a psicose já esteja
instaurada, só resta trata-la.

A questão do diagnóstico em psicanálise tem um caráter particular. A psicanálise toma


alguns termos da psiquiatria como: Neurose, Psicose, Histeria etc. Contudo, tais termos
recebem um novo sentido. Primeiramente o diagnóstico é, senão, uma hipótese que orienta o
trabalho, não definindo doença, mas revelando uma modalidade de defesa provilegiada pelo
sujeito. Para fazer essa avaliação, o psicanalista pressupõe o modo como o sujeito se dirige a
ele, o modo como ele o investe dentro do campo das pessoas com quem estabelece laços
importantes (transferência), denota a posição que o sujeito ocupa frente ao outro. Só pela
observação do comportamento não há como fazer avaliação alguma.

Nos constituirmos como sujeito é uma forma de nos defendermos de não sermos nada.
A delimitação de um limite, um traçado, implica a confrontação com limites, confrontação com
uma lei inerente à própria delimitação do sujeito. Tal lei é tão necessária quanto dolorosa. É
denominada lei da castração. Ela faz referência a algo que vem simbolizar para nós a plena
potencia vital, a ausência de limites. Referencia ao falo, que na Grécia antiga indicava poder ou
plenitude.

Freud diz que a lei da castração é a confrontação que fazemos com o fato de nós não
termos essa plenitude creditada a esse símbolo. Os homens têm o seu representante (pênis),
mas não tem o falo (plena plenitude vital). Creditamos um gozo à suposta posse dessa plena
potencia vital, porém só acedemos a esse gozo parcialmente. Nossa satisfação é sempre parcial,
mas isso não é ruim.

A maneira pela qual a lei de castração intervém irá constituir o modo privilegiado de
defesa que atuou no processo de subjetivação. Lacan delimita 3 diferentes modalidades de
defesa: Neurose, Psicose e Perversão. 3 maneiras de o cliente se posicionar diante da lei de
castração. O neurótico sofre com a lei, exigindo a si mesmo não a perder de vista, ainda que
sonhe em burlá-la e, quem sabe, arranjar um jeito de ver-se pleno.

O psicótico a burla, não se percebendo dos limites, não por vontade própria, mas por
contigências operantes em seu processo de tornar-se um sujeito. Isso permite, no direito, a
inimputabilidade do psicótico (NÃO RESPONDE JURIDICAMENTE).
O perverso, por outro lado, não desconhece a lei, muito pelo contrário, a conhece muito
bem, porém não quer saber nada dela nem de limite nenhum, quer justamente gozar com a
transgressão do limite. É o oposto do neurótico, que sofre quando acontece de transgredi-la.

A suposição diagnóstica é fundamental para avaliar suas possibilidades de iinterrvenção.


Quanto às estratégias de tratamento, será necessário averiguar as possibilidades de
“histericização” do sujeito, ou seja, a possibilidade de o sujeito engajar-se na transfer~encia
com o analista para que, através do manejo dessa transferência, sejam traçados os rumos da
direção do tratamento. A transferência na análise presta-se a ser analisada, não insuflada.

“Ensaio da análise” é o termo usado por Freud para se referir ao período inicial do
trabalho, servindo ainda para que se evite a dimensão do equívoco presente no fato de se
confundir a frequência ao consultório de um analista com uma análise propriamente dita,
evitando que se pense que o analista fracasso, quando nem começou ainda.

A psicanálise não é indicada para todo tipo de problema, por mais que seja possível de
ser abordado analiticamente, se não houver a possibilidade de o sujeito não escutar a sí mesmo,
no próprio ato de se queixar. É preciso que ele se situe no que está falando e, no mínimo, se
intrigue com o que está falando. A função do analista é fundamental para formentar, no sujeito,
esse trabalho de investifação, de escuta da própria fala.

Acontece de o sujeito chegar se queixcando do mundo e perceber que ele tem a ver com
seus insucessos. Que suas atitudes implicam certas manifestações que promovem a situação da
qual ele se queixa. Aperceber-se disso pode provocar uma vontade de investigar as motivações
que conduzem malgrado a sua vontade ou uma vontade de não querer mexer nisso e interromper
o processo. O trabalho do analista vem na pista do trabalho do sujeito. A plavra paciente não é
designativo da pessoa que está em análise: Freud usa o termo analisando e Lacan analisante.

Analisando diz respeito ao cliente (Dom quixote e sua fantasia), Analista faz referência
ao terapeuta (Sancho pança, realista). Este último é pago para abster-se de suas opiniões,
vontades. Ele empresta-se como veículo para seu sujeito explorar suas possibilidades de existir.
O analista é responsável por dirigir o trabalho para que ele vá nessa direção. Não cabe a ele dar
sugestões, ideias, fazer avaliações. Freud já se afastou da hipnose para evitar-se fazer uso da
sugestão que tem sempre um poder hipnótico. Pelo fato de sermos vulneráveis à sugestões, um
analista deve acautelar-se ao máximo em explorar essa via de trabalho.
A difusão da psicanálise trouxe um desvirtuamento desastroso dos fundamentos que são
a base de sua eficácia no tratamento do sofrimento psíquico. A psicanálise chama a atenção e
atrai as pessoas. Eis aí um dos efeitos da nefasta difusão da psicanálise. Em seu nome, se
propões de tudo e mais um pouco.

O que fundamenta uma psicanálise não é uma relação dual. Ela não serve à confrontação
de duas pessoas que trocam opiniões. Trata-se de um trabalho que tem funções específicas para
o analisando e para o analista. O pedido de análise aparece não apenas como queixa acerca do
sintoma, mas também uma vontade de querer saber o que se tem a ver com isso. Ainda é preciso
outro passo. O desejo de análise, ou seja, o analisando deve se empreender na análise, apesar
dos riscos nela atribuídos.

O sintoma, por mais danos que traga, não está ali à toa. Freud trata o sintoma não como
um defeito/degeneração, mas como via de expressão do sujeito. É uma defesa frente a algo
intolerável psiquicamente. É o efeito de um desejo que não nos anima, é expressão desse desejo
e, ao mesmo tempo, é a marca de seu recalcamento. Exp: Filha de uma mãe que queria um filho,
passa a ficar “careca” como forma de estratégia de fazer-se o filho homem que a mãe desejou
e não teve. Era sua forma de ocupar esse lugar que estava vago no desejo materno, buscando
sanar a insatisfação que percebeu na mãe.

Por mais que o sintoma trouxesse incomodo, ele também apresentava-se como fonte de
satisfação (via de solução).

Os destinos do desejo e a clínica psicanalítica

A psicanálise parte da ideia de que aa prematuridade na qual nasce o homem vêm situa-
lo numa radical condição de desamparo. O bebê reage gritando e chorando, porém nada disso
muda sua situação. Ela só se modifica com a intervenção de alguém, produzindo uma marca
psíquica, configurando uma primeira experiência de satisfação, pois no desamparo, o que quer
que venha de socorro é lucro.

Quando o desconforto sobreviesse novamente, o modo de saná-lo seria reeditar a


memória. E a via mais imediata seria reativando a percepção da “coisa” que teria propiciado a
dita experiência, ou seja, alucinando a percepção primeira. Freud nomeia como desejo essa
noção psíquica que busca fazer esse resgate.

O desejo é o rementimento a uma falta, nostalgia da suposta presença da “coisa”


que teria nos salvado do desamparo. Já somos desprovidos do savior-faire (saber fazer), que
o instinto propicia, resta-nos a solução encontrada pela via do desejo. Por um lado, isso nos
salva, por outro nos assujeita ao outro que também não opera sobre nós pela via de um saber-
fazer institual, mas pelas vias dos modos de constituição de seu próprio desejo. Sem esse
“outro” nada feito. É isso que faz com que nós não sejamos propriamente indivíduos, mas sim
sujeitos, palavra advinda de subjectum, ou seja, posto debaixo.

Nossa subjetivação se dá por uma dupla operacional: Nos alienamos no desejo desse
“outro”, como via de salvação; por outro lado é preciso que nos separemos dele, para podermos
constituir o nosso próprio desejo. Se assim o fazemos é porque há uma dimensão letal na
alienação. Alienados no outro, nos safamos em parte do desamparo, ancoramos em alguma
significação, porém, como nenhuma significação pode resumir a complexidade da existência
humana, resta sempre um ponto de vacilação do sentido, via pela qual exi