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_________ Prólogo

POR QUE ESTE LIVRO?


A interrogação que encabeça este livro não tem uma resposta
simples. Existem muitos motivos para se escrever e, às vezes, aqueles que
o autor tem e os que os leitores lhe atribuem não são coincidentes. Assim,
é necessário deixar claro o que me levou a empreender esta aventura e,
principalmente, é importante mencionar o que de modo algum pretendi,
embora às vezes o tom categórico, ou no mínimo apaixonado, possa
induzir a pensar o contrário.
Embora o título do livro seja A prática educativa: como ensinar, minha
intenção não é, naturalmente, dizer a última palavra sobre o tema. Por
outro lado, não acredito que nenhuma obra com tais características
possa pretender isso. O campo da intervenção pedagógica é tão rico, tão
complexo e tão dinâmico, que provoca a discussão e o debate entre
posturas às vezes coincidentes, às vezes discrepantes. O livro pretende
propor alguns critérios que contribuam para articular uma prática tão
reflexiv a e coerente como o permitam as condições presentes num
dete rminado momento. Também quer oferecer elementos que possibili­
tem a análise dessas condições e, em caso de necessidade, que ajudem a
modificá-las num sentido determinado.
. . Este não é um livro sobre técnicas de ensinar, tampouco quer se
�tar ao enunciado de princípios gerais. Ambos os aspectos são
Importa_ntes, mas o livro que você tem em mãos não pretende ser nem
� a coIS a nem outra. De fato, quer mostrar que a resolução dos pr<;>-
lem as qu a prática educativa coloca exige o uso de alguns referenc1a1S
que p ermi�tam interrogá-la, ao mesmo tempo que proporcionem os
para.. .metros para as .
decisões que devam ser tomadas. E um livro prático
�orque se ocupa dos problemas que a prática gera e porque os aborda
escte c ertos marc
os que, em minha opinião, ajudam a lhes dar 0
10 / ANTON/ ZARALA

im, também nos conscientizamos de


v erdadeiro sentido que possuem; ass
sua importância, da trans
cendência de alg umas opções, do pap el que
temos como p essoas q ue ensina
m. . . _ . . ,.
ao, o hvro parte_ da 1de1a se-
Em relação a esta última cons1deraç
te� ente do ruv el em que
gundo a qual os docent es, independen 8:1o �hc
.
ar o co1:tex to ?e
e d�v m d1�
trabalhem, são profissionais qu e
rtinenc1a das atuaço es, a fim
trabalho, tomar decisões, atuar e avaliar a pe se aceita q ue a funç ão
de reconduzi-las no sentido adequado. Se não
ig ualmente complexas, o
doc ente implica essas e outras atrib uiçõ es
eguintes será totalmente
discurso que se vai construindo nas páginas s
fa d e ens inar é o que
incompreensív el. Convenc er da dificuldade da tare
a lhe conferir um
me l evou a escrever este livro, e o que me moveu
esta dificuldade não pode ser
enfoque determinado é a certe za d e que
supe rada com respo stas simpl es.
erado
Quanto ao enfoque, de certa forma o livro poderia ser consid
iáveis
um resumo, porque aparecem idéias gerais sobre algumas das var
qu e incidem no ensino que acaba se concretizando em sala de aula. Para
tratar cada uma dessas variáveis com a profundidad e acons
elhável seria
necessário um livro - na verdade uns quantos, porque também haveria
diversas opções de análise.
A perspectiva que adotei apresenta alguns riscos ind ubitáveis. O
m?is importante deles consiste em que o tratamento que faço de deter­
minados aspect�s possa p�recer superficial o u generalista. Contudo,
trata-se de um nsco assumido. No mundo do ensino e certamente em
muitos o�tros âmbitos, às vezes a �álise muito p r�cisa num asp ecto
concreto, a margem �o contexto mais amplo e do conjunto de o utros
aspect�s que o rodeiam, leva a adotar discursos e opções descon­
textualizados, pouc? �<lamentados d esde um ponto de vista global
e com J?Ouca potenc1ahdade como instrumento de compreens ão e análise
da reahdad� a q:1 e se referem. Para explicar tal aspecto com um ditado
f em conhecido: as vezes as árvores não nos deixam ver a floresta. Neste
1vro quero falar da_ floresta, situando cada árvore no conjunto a que
pertence e propo�c1onando instrumentos que nos a·udem a conhe­
c�r e, se f�r p�ss1v�l, a melhorar cada elem ento, ma! sem erder de
v�sta que isso implica necessariamente o conhecimento e
çao da fl oresta.
f otim·iza­
Também devo dizer que escrever um livro como este supôs, ao
menos em parte, uma li ão de humilda . d:. No proces so, a gente tem a
sensação de qu e tudo já Íoi d'1t de 9-ue nao rest
am fdéias novas, d e que
no máximo pode se as irar a ºô-las untas
,l?tos J de mane1ra coerente, analisá-
las desde ref erenciai; expl1c1 e de potencia .
. -lhes, entã
a�1. bu1r . . · 11· dade reconhecida e
o, um si ficad0 pec�iar. Para alguns iss talv ez
seJa pouco - porque sem � o
p e e.s peram coisas novas e revolucionárias.
Para outros, talvez se1·a demas1a d
o - porque cons1. d erarao _
q ue minha
A PRÁTICA EDUCATIVA/ 11

interpretação talvez seja excessivamente original. De qualquer forma,


vo cê tem o resultado em suas mãos.
A sen�ação a q:1e �cabo de alu�ir teve al�a� repercussões que
afetam o hvro. Voce nao encontrara nele muitas citações de autores·
muitas das idéias que aparecem deveriam ser acompanhadas de �
p arêntese com um longa lista de nomes e datas, que evitei na maioria dos
casos. Não se trata de um texto acadêmico e não me parece útil nem
necessário proceder neste sentido. No entanto, espero ter sido suficien­
temente respeitoso e que este prólogo ajude a escla recer minha postura.
A bibliografia que aparece no final de cada capítulo não deve ser
considerada de nenhum modo exaustiva; registra, entre os documentos
que consultei, aqueles que por algum motivo me parecem mais interes­
santes, provocadores ou vanta josos em relação ao tema trata do.
Entretanto, há ainda um conjunto de questões que afeta o livro e
que, contrariamente ao que poderia pa recer, não é em absoluto formal.
Devo manifestar que não fui capaz de encontrar uma forma cômoda de
utilização do gênero gramatical; quer dizer, que reflita minha maneira de
pensar sobre este tema e a o mesmo tempo seja cômoda para o leitor, isto
é, que não contribua para uma leitura pesada devido à utilização
constante dos dois gêneros. Tenho consciência de que não foi possível
conciliar ambos os aspectos.
No livro se fala de professores em vez de mestres. Pessoa lmente, isto
me causa certo conflito, já que, em minha opinião, o segundo termo tem
mais categoria e reflete melhor algumas conotações da finalidade da
profissão, que sempre é educar e formar globalmente. No entanto, o ob­
jetivo de não impedir a identificação de qualquer docente, independen­
temente do nível ou etapa em que desempenhe sua tarefa, impulsionou­
me a utilizar preferencialmente os termos professores e educadores.
Num sentido similar é preciso interpretar minha opção de me referir aos
meninos e meninas, os alunos e as alu nas, em vez de falar de crianças.
Por outro lado, utilizei textos e artigos próprios que já havia
publicado, em alguns casos de forma quase literal. Sempre considerei um
artifício quer er dizer com outras palavras o que já havia sido escrito e
p arecia razoavelmente correto, simplesmente por se tratar de um texto
novo. Devo acrescentar que para mim o livro não tem muitos traços
característicos de um trabalho inédito. De fato, registra um conjunto de
r
ro eocupações, idéias, conflitos e também soluções que fui reunindo ao
ngo de muitos anos de trabalho educativo em diversos âmbitos.
. . �aturalmente, nem as idéias, nem as preocupações são um produto
�tvidual. O âmbito educativo exige a relação, a tarefa conj�ta e o
ª alho de equipe. Seria impossível para mim lembrar aqui todos
:9u�l�s �om quem compartilhei e trabalhei e que tiveram W;1 pap�l
. igntfic�tivo em minha trajetória profissional. No entanto, tambeJ? sena
Ltnpos siv el para
mim não manifestar meu a gradecimento genérico a os
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centros educativos onde tive a oportunidade de trabalhar e discutir, onde


pude ter contato com suas preocupações, interesses e dificuldades. Devo
ainda lembrar aqui meus filhos que, entre muitas outras coisas, ensi­
naram-me a considerar aspectos difíceis de ver quando você está em sala
de aula. Suas perguntas, suas queixas e seus comentários muitas vezes
me levaram a questionar a viabilidade e a pertinência dos conteúdos, das
propostas e das decisões que configuram o ensino.
Ao longo destes anos, o contato, às vezes esporádico, às vezes mais
contínuo, com determinadas pessoas representou para mim um estímulo
intelectual fundamental. Sempre foi um estímulo o trabalho cotidiano
compartilhado com meus companheiros de GRAÓ, Gregori Casamayor,
Rosa Guitart, Francesc Imbernón e Artur Parcerisa. Foi importante a
estreita colaboração com Luís del Carmen durante uma longa
temporada. Também o foi o fato de conhecer e compartilhar o trabalho
com César Coll e seus colaboradores do Departamento de Psicologia
Evolutiva e da Educação da Universidade de Barcelona. Por meio deste
contato pude compreender e fundamentar muitas das idéias que
defendia de uma maneira talvez mais intuitiva, o que reafirmou minha
b �ligerância_. O leit�r tem_ este livro em suas mãos especialmente porque
amda acredito que e preciso ser beligerante.