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Teste 2

Sequência 1. Fernando Pessoa Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 2

Grupo I
Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada.

A
Lê o excerto do Livro do Desassossego.

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida.
Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. […]
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Cer- tos
quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes
5 com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensa-
ção era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem
reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele
bosque, ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em
pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por
1 aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco
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por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente
doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero
eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angús-
tia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito
de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a di-
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5 reção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para
mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear
pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar
matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus… e tudo isto mais perfeita-
mente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa
2 forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de
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uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades…
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo… É cedo ainda. Mal passa o meio-
-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu pró-
prio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas,
inencontráveis de outros, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que
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5 seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter
de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não
poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma
construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as
lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encan-
3 tado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Dis-
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tante, sem sentido nenhum exceto Deus.
PESSOA, Fernando, 2008. Livro do Desassossego. 3.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim (pp. 110-113)

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 2

1. Estabelece uma relação entre a primeira frase do texto e a reflexão do narrador sobre “Certos
quadros” (ll. 3-4).

2. Descreve o estado de espírito do sujeito enunciador, confirmando as tuas afirmações com


elementos
textuais.

3. Explica, fundamentando, a relevância do sonho no quotidiano do narrador.

B
Lê o soneto de Antero de Quental.

Das Unnennbare1
Oh quimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças c’os vestidos vaporosos
A minha fronte pálida e cansada!
5
Leva-te o ar da noite sossegada…
Pergunto em vão, com olhos ansiosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu país, misteriosa fada!
10 Mas que destino o meu! e que luz baça
A desta aurora, igual à do sol-posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!
Que nem a noite uma ilusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te pressinta…
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!
QUENTAL, Antero de, 2001. Os Sonetos Completos.
Porto: Porto Editora (p. 72)

1. O indizível.

4. Explicita dois recursos expressivos utilizados na apresentação do Ideal e respetivo valor.

5. Relaciona a estrutura interna do soneto com a situação emocional do sujeito poético.

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 2

Grupo II

Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.


Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Lê atentamente o texto.

O diário é uma modalidade de escrita que não tem, por assim dizer, começo, meio ou fim.
Ausente de unidade, o seu percurso faz-se por um caminho sinuoso e oscilante, sem ânsias de
chegada, mas preso pelo autor às circunstâncias do espaço e do tempo em que toda a escrita
se desenrola. Pensamentos e sentimentos acomodam-se no papel e ganham a força de um real
5 que o autor começa por combater, mas que a força da palavra ajuda a transfigurar, sentindo-se
ele liberto para dominar o espaço que a escrita lhe oferece. Sendo o diarista um solitário que
procura na escrita a força necessária para poder enfrentar o dia a dia de um mundo que lhe
dói ter de aceitar e onde dificilmente encontra lugar para o que a imaginação, tantas vezes,
tece, ele vai permitir que o seu eu se exprima na primeira pessoa e que o seu tom confessional
10 crie uma dinâmica nas suas jornadas de realismo, idealismo, passividade e espírito criador.
A sua escrita torna-se, assim, não só um escudo que lhe permite enfrentar os desafios que o
seu “eu” teimosamente insiste em valorizar, mas também uma alavanca que o ajuda a quebrar
as suas hesitações e o instiga a vencer as incertezas da vida. O autor sente que o diário o apoia
na fadiga quotidiana ao conseguir, através dele, criar um espaço onde os seus pensamentos se
15 espraiam e ganham a dimensão do momento que a realidade dificilmente consegue manter.
Poderá iludir-nos, mas haverá sempre nele um querer e um saber, um sossego e um desassos-
sego de alguém que encontrou na palavra a razão para conviver com todas as suas angústias e
as suas alegrias. […]
A vida de Fernando Pessoa e Henri-Frédéric Amiel1 foi demasiado introspetiva e desas-
20 sossegada. Encontraram na escrita uma dupla sensação de alívio e de dor, […] um espaço
onde o silêncio foi parte de um todo que os fez mergulhar num mar profundo e incerto, numa
solidão imensa, marcada pelo julgamento de si e do mundo.
Se em Amiel estes escritos tomaram uma forma de diário, em Pessoa são antes peças frag-
mentadas, que ele procurou teimosa e infrutiferamente encaixar com a ajuda do seu duplo
25 Bernardo Soares. Ambos tiveram consciência da vida que não queriam viver […], mas ambos
se distraíram da vida escrevendo! Pessoa, com o seu Livro do Desassossego, e Amiel, com o seu
Journal intime […].
O desassossego de ambos tem em Pessoa uma marca mais forte do que em Amiel, talvez
pela sua forma tão fragmentária, pela sua incapacidade de gerir um dia a dia que se escreve e
30 que fica como memória.
CORREIA, Maria Teresa Fragata, 2007. “A diarística em Fernando Pessoa e Henri-Frédéric Amiel
– uma escrita no silêncio”. In DIX, Steffen, e PIZARRO, Jerónimo (Org.), 2007. A Arca de Pessoa.
Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais (pp. 285-287) (adaptado)

1. Poeta e filósofo suíço (1821-1881) cujo diário – Journal intime – foi publicado após a sua morte, a partir de 1886, em fragmentos.

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 2

1. A primeira frase do texto apresenta um valor aspetual


(A) perfetivo.
(B) habitual.
(C) iterativo
(D) genérico.

2. O recurso aos vocábulos “percurso” (l. 2), “caminho” (l. 2) e “jornadas” (l. 10) configura
(A) um campo semântico de “diário” (l. 1).
(B) um campo lexical que remete metaforicamente para o processo de construção do diário.
(C) um campo lexical de “diário” (l. 1).
(D) um campo semântico que remete metaforicamente para as diversas funções do diário.

3. Nas linhas 11 a 13, o diário é apresentado através de


(A) hipérboles.
(B) metáforas.
(C) antíteses.
(D) anáforas.

4. Segundo a autora, não se constitui como traço distintivo do diário


(A) o registo privilegiado de reflexões realistas.
(B) o estímulo emocional ao diarista.
(C) a potencialidade transfiguradora do real.
(D) a dimensão intimista.

5. O constituinte sublinhado na oração “o instiga a vencer as incertezas da vida” (l. 13)


desempenha
a função sintática de
(A) modificador.
(B) complemento direto.
(C) complemento oblíquo.
(D) predicativo do complemento direto.

6. Nas linhas 13 e 28, a palavra “que” introduz


(A) uma oração subordinada adjetiva relativa em ambos os casos.
(B) uma oração subordinada substantiva completiva em ambos os casos.
(C) uma oração subordinada substantiva completiva e uma oração subordinada adverbial
comparativa, respetivamente.
(D) uma oração subordinada substantiva completiva e uma oração subordinada adverbial
consecutiva, respetivamente.

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7. As passagens “Poderá iludir-nos” (l. 16) e “talvez pela sua forma tão fragmentária” (ll.
28-29) apresentam valor modal de
(A) permissão, em ambos os casos.
(B) probabilidade, em ambos os casos.
(C) de permissão e probabilidade, respetivamente.
(D) de obrigação e certeza, respetivamente.

8. Identifica o antecedente do pronome pessoal presente em “uma alavanca que o


ajuda a quebrar as suas hesitações” (ll. 12-13).

9. Classifica a oração subordinada introduzida por “onde”, na linha 8.

10. Indica a função sintática desempenhada pelo constituinte “demasiado introspetiva


e desassossegada” (ll. 19-20).

Grupo III

O autor sente que o diário o apoia na fadiga quotidiana ao conseguir, através dele, criar
um espaço onde os seus pensamentos se espraiam e ganham a dimensão do momento que
a realidade dificilmente consegue manter.
CORREIA, Maria Teresa Fragata, 2007. Op. cit.

Partindo da transcrição, redige um texto de opinião em que defendas um ponto de vista pessoal
sobre a perspetiva apresentada relativamente à redação de um diário.
Escreve um texto bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras, respeitando as marcas do
género.

Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco,
mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única
palavra, independentemente dos algarismos que o constituam (ex.: /2017/).
2. Desvios dos limites de extensão indicados implicam uma desvalorização.

Cotações

Item
Grupo
Cotação (em pontos)
1. a 5.
I
5 x 20 pontos 100
1. a 10.
II
10 x 5 pontos 50

III Item único


50
TOTAL 200

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