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Universidade Federal de Minas Gerais

Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo-NPGAU

TERMOS DE REFERÊNCIA - 2018

Arquitetura, Construção e Cultura Material


Arquitetura é todo espaço modificado pelo trabalho humano e, como tal, traz em suas construções
a marca das relações sociais que aí têm lugar. Indícios do modo como uma cultura se organiza e
funciona estão impressos nos objetos que ela produz ao longo do tempo, bem como nas técnicas
e no tipo de trabalho envolvidos na sua construção. Para além das técnicas e do espaço em si, a
prospecção desses objetos pode revelar os interesses dos diferentes grupos sociais implicados na
produção do espaço que, em maior ou menor grau, o disputam e controlam. O controle do espaço
é essencial para a manutenção do poder político e para a rentabilidade da produção, isto é, para a
reprodução do modo de produção. Nessa perspectiva, as tecnologias não podem ser
consideradas neutras já que nas suas dinâmicas, para além dos aspectos materiais, técnicos e
científicos, também estão implicados fatores de ordem social, econômica e política.
Com base em tais pressupostos, a pesquisa enfoca a história da arquitetura e da cidade como
parte da cultura material, sendo portanto indissociável da análise das condições materiais das
sociedades que as produzem e da crítica às tecnologias que desenvolvem. Nesse contexto, são
de interesse da pesquisa: (a) investigar criticamente a difusão de tecnologias e processos de
trabalho na construção de edifícios; (b) reconstituir a história da urbanização e das obras públicas
de infraestrutura (parcelamento, drenagem, redes urbanas), principalmente, por meio da
visualização de processos a partir do processamento de mapas e imagens aéreas históricos. Além
disso, a pesquisa tem por horizonte (c) discutir as assessorias técnicas a processos
cooperativistas de projetos e de obras e a autonomia coletiva de seus usuários.

Arquitetura, Renascimento e Humanismo


Tendo como matriz o quattrocento italiano, especialmente Alberti, este termo envolve dois eixos
de pesquisa:
• Estudar a formação e o desenvolvimento da arquitetura renascentista atentando-se para
sua interação com o surgimento do humanismo cívico e do “republicanismo” moderno e
com os studia humanitatis do período. Comparece neste eixo o possível cotejamento com
a produção contemporânea, entrelaçando o estudo do passado, o exame do presente e a
prospecção do futuro de nossos edifícios e cidades.
• Estudar a produção arquitetônica, a produção artística e as ciências no quattrocento
italiano e, se possível, relacioná-la com o quadro contemporâneo.

Arquiteturas da Insurreição: modos de engajamento das sociedades urbanas no presente


das cidades e repercussão das lutas urbanas na produção do espaço
Partindo da relação necessária que se estabelecida entre a produção do espaço e a política,
articula-se o debate sobre formas da experiência urbana, apropriação social e a produção do
espaço, estabelecendo como objeto empírico as lutas insurreicionais urbanas. Tem-se o objetivo
de discutir as implicações sociais e espaciais desses processos, com vistas a refletir sobre: a
transformação social deles decorrentes, formas empoderadoras de exercício da política, formas
de apropriação efetiva de lugares urbanos por parte de seus habitantes.
Busca-se identificar e discutir novas configurações sócio-espaciais advindas, parcial ou
integralmente, dos processos de lutas insurreicionais urbanas. Trabalha-se com a hipótese de que
as diferentes insurreições têm também, para além do peso político e institucional, implicações
espaciais distintas e ainda pouco conhecidas em sua diversidade.
Tais configurações sócio-espaciais consecutivas às diferentes insurreições poderiam ser
identificadas, em princípio, por diferentes formatos de apropriação dos lugares por seus
habitantes, ou por níveis de respostas dos governos em termos de planejamento e/ou desenho
urbano.
Fundamentada em teorias dos autores Henri Lefebvre, Guy Debord, Walter Benjamin e Michel
Foucault, a pesquisa indaga em que medida espaços urbanos que acolhem os levantes resultam
diferenciados quanto aos modos de atuação dos agentes sociais no processo de produção do
espaço e de reprodução social mais ampla.
Tópicos de interesse para a pesquisa (não exclusivos): conflitos urbanos desde o século XIX até a
contemporaneidade, produção contemporânea do espaço urbano, cotidiano e redes sociais no
espaço urbano, relações socioespaciais em contextos urbanos contemporâneos, interface entre
teoria urbana e política, interface entre estética e política.

Conservação e Preservação Ambiental e Patrimonial e os Instrumentos de Gestão


O problema da conservação e da preservação das preexistências não é novo. Se analisarmos sob a
perspectiva histórica, remonta ao início do século XIX, em uma clara resposta aos problemas postos
pela Revolução Industrial, que impôs ao ambiente das cidades condições de insalubridade em uma
primeira instância, mas de paulatina perda da memória, provocada pelo processo de modernização.
A longevidade do campo de conhecimento – inicialmente denominado “ciência do restauro” – não se
mostrou suficiente para alcançar o equilíbrio desejado na conservação dos bens ambientais e
patrimoniais, dada a complexidade do tema, ampliada a partir da segunda metade do século XX
com a contribuição de áreas afins – tais como a filosofia, o direito, a geografia, e mais recentemente
a estética. Esta condição contemporânea complexa exige uma constante reflexão crítica acerca dos
postulados teóricos então preconizados, de modo a garantir a necessária coerência entre teoria e
prática, tão tênues neste campo de conhecimento. Neste sentido, abre-se o possível horizonte de
investigações:
- Discussão dos conceitos fundamentais e postulados teóricos da disciplina, elaborados a partir de
uma reflexão crítica acerca do conceito de patrimônio cultural e ambiental na contemporaneidade;
- Conhecimento e avaliação crítica da legislação e dos instrumentos frente aos resultados para a
salvaguarda ambiental e patrimonial promovendo a reflexão sobre o papel do Estado e da
sociedade diante do problema;
- Estudo e desenvolvimento de metodologias de aproximação ao problema da conservação e
preservação de preexistências, na esfera paisagística, urbana e arquitetônica;
- Reflexão acerca do problema da reabilitação urbana e ambiental, face à linguagem
contemporânea, tendo como pressuposto a necessidade de resgate de uma perspectiva estético-
pictórica para o tema.

Cultura Arquitetônica na formação da Arquitetura do Brasil e Patrimônio Cultural


Estudo da produção da cultura arquitetônica no Brasil entre os séculos XVI e XX, abordando a
formação da arquitetura religiosa, civil e oficial no Brasil e no mundo luso-brasileiro com base no
aporte teórico-conceitual do trânsito de culturas, do estudo da tratadística, da produção dos arquitetos
e dos manifestos e teorias ligadas à produção da arquitetura no Brasil até o período de Brasília.
Estudo das questões relativas à teoria e à história da preservação do patrimônio arquitetônico e
urbanístico no Brasil, abordando tanto o problema da memória sócio-cultural, quando o estudo das
questões teóricas e críticas que condicionam as novas demandas contemporâneas sobre a
reabilitação dos edifícios e Centros históricos de valor cultural no Brasil e na Europa. Estudo das
técnicas e dos processos vernaculares de materialização construtiva do Patrimônio Cultural Brasileiro.

Design universal
O design universal é um movimento pela transformação da prática profissional do
designer/arquiteto/urbanista a partir do enfoque sobre desajustes entre as habilidades dos
usuários num perfil diversificado e os recursos convencionais de tecnologia excludente. Evoluindo
da busca formal, normativa e jurídica de serem garantidos os direitos pela acessibilidade
ambiental e usabilidade do espaço construído, o design universal tem grande importância
enquanto melhor resposta dos profissionais à crescente demanda por espaços inclusivos que
acomodem pessoas ativas com deficiências distintas e à crescente população que envelhece
numa razão exponencial.
A pesquisa sobre design universal é multidimensional e envolve, portanto, a caracterização, o
registro e a análise crítica das transformações ambientais do espaço construído para aplicação
dos princípios do design universal em diferentes tipologias nos objetos, nos edifícios e nas
cidades. Abrange ainda a exploração dos processos psicossociais pelos quais a experiência de
vida dos usuários com deficiência pode contribuir para a melhoria de qualidade das soluções de
design e arquitetura que beneficiem a todos. Finalmente, explora metodologias de projetação,
representação e de comunicação de novos conceitos sobre o uso ambiental compatíveis com a
abordagem holística e multidisciplinar das ciências cognitivas, com as formas de atuação
participativa dos usuários no processo de design, e com a contextualização da deficiência nos
problemas de design com base na construção de uma sociedade inclusiva.

Dinâmicas socioterritoriais e planejamento urbano e metropolitano na atualidade (Somente


Mestrado)
Os territórios metropolitanos apresentam profundas diferenciações qualitativas, expressando o
caráter desigual e excludente da sociedade brasileira. Tais diferenciações traduzem, historicamente,
as variadas formas de atuação dos agentes que intervêm na produção do espaço urbano,
notadamente o Estado e o capital privado. Diante desse quadro, faz-se importante desenvolver
análises explicativas dos processos de estruturação recente do espaço urbano e metropolitano,
notadamente as formas de distribuição populacional, bem como a dinâmica imobiliária produtora
dessa estruturação, de modo a informar políticas de gestão urbana e metropolitana.

Ensino de projeto de Arquitetura


A pedagogia do ensino de projeto em Arquitetura. Técnicas e métodos didáticos ligados ao ensino
de projeto. Questões relativas ao ensino-aprendizado e a sua aplicação no campo específico da
formação do arquiteto.

Espaço das Américas


Estudo do ambiente construído das Américas buscando teorizar o entendimento do espaço
continental, explicitando-se a diferenciação entre a experiência espacial das Américas (ainda
pouco elaborada) e a experiência Europeia que forma a base do conhecimento de nossa
disciplina. Explicar as arquiteturas moderna e contemporâneas das Américas a partir das
experiências espaciais do continente, reconstruindo o conhecimento existente no nosso próprio
continente e buscando uma síntese, uma teoria do espaço americano. Nossas cidades
funcionaram nos últimos 500 anos como máquinas de excluir e máquinas de esquecer. Urge
inverter esta lógica e fazer dos nossos espaços americanos lugares de inclusão e de memória.

Estudo de Tratados de Arquitetura


Este termo dedica-se a estudar tratados de arquitetura, especialmente clássicos como os de
Vitrúvio e Alberti, e relacioná-los tanto com as outras artes e áreas do conhecimento quanto com a
produção e a teoria arquitetônica e urbanística, inclusive no momento atual.

Geoprocessamento no planejamento e gestão da paisagem urbana e cultural


Estudo de métodos e técnicas de geoprocessamento para a modelagem da paisagem urbana,
ambiental e cultural. Exploração de formas de representação espacial, análise e síntese de
variáveis e construção de estudos diagnósticos e prognósticos da questão urbana. Estudos de
evolução temporal e de áreas potenciais e de restrições à ocupação antrópica. Métodos e técnicas
de visualização, Geodesign, banco de dados geográficos, Infraestrutura de Dados Espaciais,
Sistemas de Informações Geográficas, mapeamento por mídia social e big data, apoio a tomada
de opiniões e a tomada de decisões, Modelagem Paramétrica da paisagem urbana e da ocupação
territorial, Smart Cities. Há interesse especial no território do Quadrilátero Ferrífero, tanto nas
ocupações urbanas como na gestão da paisagem cultural.

História e teoria da arquitetura, da arte e da cidade e seus desdobramentos


contemporâneos
Estudos sociais, culturais e estéticos que voltados para as análises da arte, da arquitetura, da
cidade e suas interlocuções. As origens e atualizações das centralidades urbanas, estilos de vida,
cultura do consumo, arte pública e suas principais caracterizações. Patrimônio, identidade,
memória e sociabilidade, convergências e aproximações no contexto urbano e arquitetônico.
Teorias e análises sobre a arquitetura nos séculos XIX, XX e XXI e suas articulações nossa
âmbitos nacional e internacional. Estudos sobre museologia, novos suportes expográficos e seus
diálogos com a arquitetura e a cidade.

História urbana e aportes para o planejamento urbano e regional


A ocupação do território brasileira é longeva e a diversidade de seus atores imprimiu no território
permanências não só de base material, mas também culturais, sociais, políticas e econômicas. A
compreensão de tais processos – à luz da tríade braudeliana “longa duração-conjuntura e evento”
(durée, conjoctureet évenément) – pauta nossos interesses de pesquisa, buscando uma reflexão
que possa articular aportes das ciências humanas e sociais e, sobretudo, produzir conhecimentos
que deem suporte às reflexões e ações do planejamento urbano e regional contemporâneo. Mais
especificamente, na discussão sobre os caminhos teóricos e metodológicos sobre o processo de
urbanização brasileira, entendemos que pesquisar a trajetória da (re)produção do(no) território
brasileiro, em suas várias escalas, bem como suas dinâmicas socioespaciais – abordando a
formação da rede urbana brasileira, a evolução dos tecidos inter e intraurbanos e os processos de
transformação da paisagem natural e cultural – possibilita uma atuação mais consistente e
responsável frente a questões contemporâneas emergentes e prementes, muitas vezes tratadas
em separado, porém sempre reaproximadas no curso da existência e ações humanas. Dentre
elas, destacamos as relacionadas aos desafios impostos pela ampliação do conceito de
patrimônio – tangível e intangível; patrimônio ambiental urbano; patrimônio minerário e industrial,
etc. –; à reabilitação e a reconversão de áreas degradadas (em especial as minerárias); à cultura
urbana e às formas de manifestação das identidades locais e seu imaginário; ao desenvolvimento
acelerado da exploração turística dos territórios, bem como a busca da participação efetiva da
sociedade na gestão de seus territórios. Nossa abordagem orienta-se pelos aportes teórico-
conceituais e metodológicos da pesquisa em História Urbana, privilegiando as diversas fontes
documentais coevas, com destaque para os registros cartográficos e iconográficos, considerando
seu potencial – ainda pouco explorado – de espacializar as narrativas históricas e, com isso,
possibilitando análises e abordagens ao mesmo tempo sincrônicas e diacrônicas.

Modernidade e modernismo no Brasil


No momento em que o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Pampulha foi nominado Patrimônio
da Humanidade, retoma-se o vigor na discussão sobre a produção modernista no Brasil. A
constante investigação sobre o tema justifica-se na amplitude e na diversidade desta produção. Há
que se considerar que estendia-se não apenas a centros industriais – embora ali gerasse um
resultado que seria considerado hegemônico –, mas a localidades desejosas de utilizar dos objetos
produzidos como signos de uma modernização ainda por instalar-se. Do mesmo modo, a
diversidade correspondeu a regionalismo latentes, que incorporavam práticas consolidadas na
tradição em associação à nova figuração estética estabelecida. Considerando a complexidade do
quadro de formação do modernismo no Brasil, propõe-se a investigação crítica sobre a produção da
arte, do design, da arquitetura, da paisagem e da cidade a partir do início do século XX, e suas
interfaces com o problema da conservação e preservação destes objetos na atualidade.

Narrativas do Poder e Espaço: Investigações Interdisciplinares


O campo de pesquisa aqui proposto se baseia numa investigação histórica, geográfica, social,
crítica e/ou propositiva da produção de novas subjetividades, novos campos epistemológicos,
novas narrativas e novos regimes de sensibilidade pelo recorte da produção do espaço, sendo
este compreendido como ações territorializantes desempenhadas nas escalas estratégicas -
normalmente associadas ao poder repressivo, disciplinador e biopolítico - e táticas - subversivas,
contra-hegemônicas -, contínua e cotidianamente negociadas. É interesse investigar diagramas de
exercício de poder, agenciamentos coletivos e dispositivos (a)normalizantes como produtores
estéticos de formas de controle e violência e, ao mesmo tempo, novas formas de
habitar/ocupar/negociar os espaços nas mais diversas escalas de abrangência - do global ao local
e vice versa – e seus produtos indo desde o cotidiano metropolitano aos desastres ambientais e
urbanos chegando até mesmo nas idiossincráticas espacialidades indígenas. Interessa-nos
discutir dentro do campo da filosofia política as formas como tais produções espacializadas são
capazes de inventar novas formas constituintes de ecologia, de legalidades (rediscutindo sua
relação com a legitimidade), de autonomia e soberania, constituindo-se em sociedades contra o
estado ou novos regimes de socialidade. Interessa o estudo de emergências territoriais
produzidas no confronto entre os diferentes campos dos saberes engajados com a temática
espacial, a saber, a arquitetura, o urbanismo, o planejamento urbano, a arte, a antropologia, a
ciência política, o direito entre outros. Interessa-nos discutir as imagens produzidas nestas
narrativas, indo desde as mais massificadas até as mais dissensuais, singulares e idiossincráticas,
a partir do cinema, da fotografia, das mídias e redes. Sendo assim, é campo de pesquisa o
urbanismo como saber e poder voltado para o conflito; a arquitetura como campo de expressão e
produção de uma violência capaz de reproduzir o status quo ou produzir novas formas
espacializadas; a paisagem como território da produção de novas formas de ver, ocupar, produzir,
sentir e habitar o espaço; as narrativas como registros de uma ciência forense da história,
geografia e sociedade e suas epistemologias.

O espaço como interface para transformação social


Interessa aqui a investigação histórica, crítica e/ou propositiva de espaços cotidianos urbanos e
arquitetônicos que apontem possibilidades de transformação social. Interessam particularmente as
manifestações de resistência ao modo de produção capitalista do espaço que preconizam a
emancipação social, principalmente no Brasil. São também tópicos de interesse para a
investigação: espaços efêmeros, espaços como processos de produção abertos e não produtos
acabados, autonomia dos usuários na produção dos espaços, instrumentos que viabilizem a
simultaneidade de projeto, construção e uso, arquiteturas interativas, ambientes híbridos (físico-
digitais), além de outras possíveis interfaces que os candidatos entendam como potencialmente
transformadoras sociais.

O processo de projeto de arquitetura e urbanismo: atualidades


Partindo das hipóteses que: (1) o raciocínio construtivo é um dos fatores essenciais para
o desenvolvimento de processos criativos de projeto em arquitetura e urbanismo; (2) o
maior potencial das tecnologias digitais para apoiar o desenvolvimento da criatividade em
projeto de arquitetura e urbanismo está na sua capacidade de simulação/avaliação de
edificações e assentamentos humanos, acolhem-se investigações teóricas, metodológicas ou
aplicadas nessa temática.

Planejamento urbano, gestão das cidades e manifestações coletivas (Somente Mestrado)


O desgaste do padrão de desenvolvimento baseado na combinação de crescimento e
desigualdade, a crise do planejamento tradicional, calcado nas ideias tecnocráticas e autoritárias e
as contundentes críticas a esse modelo conduziram a uma busca, tanto no meio acadêmico, como
nos movimentos sociais urbanos e nos quadros técnicos, por atributos que dessem corpo a um
padrão alternativo de planejamento. Democracia, participação, descentralização e fortalecimento
do poder local estariam entre esses parâmetros perseguidos e passam a ser palavras de ordem
nos novos discursos e propostas que surgem. Palavras de ordem sim, mas nem sempre
transformadas em realidade ou concretizadas da forma esperada.
Apesar das possibilidades práticas no sentido de estimular a participação popular serem diversas,
a tradição histórica da imposição e autoritarismo e a resistência em mudar os rumos das questões
urbanas acabam dificultando as ações que buscam criar e/ou resgatar a consciência das reais
condições de vida de grande parte dos moradores das cidades brasileiras.
Por um lado, é possível encontrar em vários municípios brasileiros tentativas de colocar em
prática os preceitos da Constituição Federal de 1988 e do Estatuto da Cidade. Nos discursos
políticos e planos de governo, nos planos diretores, na criação de conselhos, na realização de
conferências e na instituição do Orçamento Participativo ocupa lugar central a ideia de democracia
participativa. Por outro lado, contudo, encontramos corpo técnico-administrativo pouco capacitado;
métodos pouco claros e cidadãos despreparados para atuarem como sujeitos e pouco
estimulados à participação. Ao mesmo tempo, nos processos participativos, em geral, no jogo de
forças e disputas por interesses, torna-se difícil colocar lado a lado, em pé de igualdade, atores
dos mais diversos segmentos sociais e culturais, sem que a opinião do grupo mais forte em
termos político econômicos prevaleça.
Há, nesse sentido, um especial interesse no tema da democracia participativa presente nos
debates e algumas práticas de gestão de cidades, sobretudo a partir da transição democrática
vivenciada no Brasil na década de 1980, analisando os limites e possibilidades do chamado
“planejamento participativo” e da gestão democrática participativa das cidades, assim como nos
temas que abordem os conflitos urbanos e manifestações coletivas que tenham a cidade como
espaço e objeto de suas reivindicações.

Práticas sociais no espaço urbano


O espaço é meio estruturado e estruturante que carrega um conjunto de informações (artísticas,
ambientais, científicas, técnicas, sociológicas, econômicas, políticas e históricas) que se revelam
por meio das práticas sociais, portanto, nascidas dos traços estruturais da sociedade e das
estratégias e ações dos indivíduos e da coletividade. Logo, trata-se de investigar o espaço urbano
criticamente, em distintas vertentes de investigação: (1) condições contemporâneas dos
processos de projeto, produção e uso da moradia e do espaço urbano; (2) mediação entre
tecnologia, projeto, construção, informação, vivência e criatividade em torno dos indivíduos e da
coletividade envolvidos; (3) instrumentos, mecanismos, linguagens e processos de representação,
interpretação, interação, leitura, intervenção, decisão e resistência presentes nos processos de
produção da cidade; (4) redes socioespaciais em contextos contemporâneos; (5) leituras teórico-
metodológicas sobre o sistema de exclusão socioespacial contemporâneo; (6) estratégias na
formação da corporação estado-capital e seus impactos socioespaciais na cidade; (7) processos
de ocupações, remoções, despejos e resistências diante dos processos de produção das cidades.

Preservação do Patrimônio Histórico-Artístico-Cultural


Projeto arquitetônico e urbanístico em relação à pré-existência física e sociocultural. Intervenções
físico-espaciais em contextos pré-existentes. Estudo de metodologias projetuais e crítica das
correntes de restauro arquitetônico e revitalizações urbanísticas. Interfaces entre arquitetura,
urbanismo e cultura: questões de preservação do patrimônio histórico-artístico-cultural.
Investigação sobre o conceito de paisagem cultural ligado a questões do patrimônio cultural,
incluindo pesquisas sobre alternativas urbanísticas e arquitetônicas de áreas pós-mineradas.

Produção do espaço cotidiano


Interessam pesquisas teórico-críticas, históricas, experimentais e propositivas relacionadas à
produção do espaço cotidiano, considerando seus aspectos econômico-políticos, sociais e
materiais. A ênfase está em grupos sócio-espaciais marginalizados e nas possibilidades de ganhos
de autonomia por parte desses grupos. O aparato conceitual privilegiado inclui Marx, Adorno,
Lefebvre, Ivan Illich, Sérgio Ferro e William Morris.

Produção espacial considerando os processos de globalização e neoliberalização


Destacando a importância da produção biopolítica do espaço, assim como o avanço dos
processos geopolíticos de globalização, pretende-se abordar as disputas territoriais
contemporâneas. Entendendo que o neoliberalismo é uma nova razão do mundo, pretende-se
criar um ambiente teórico e prático de investigação para possibilitar o mapeamento: da produção
do espaço neoliberal envolvendo a financeirização do território, própria do capitalismo pós-
fordista, cognitivo e criativo; dos processos de constituição de espaços engendrados pela
coletividade cidadã em busca da produção do comum; dos espaços públicos que oscilam entre
processos de neoliberalização privatista e do uso público e coletivo. Acredita-se que é necessário
envolver também uma investigação crítica e destituinte sobre: as parcerias público-privadas; os
processos de financeirização e geração de dívida; os novos mecanismos de colonização e
gentrificação; os modos cognitivos e criativos de geração espacial, que utilizam os conceitos de
cidades criativas e/ou de smart cities. Também interessa investigar o campo biopotente e
constituinte que atravessa a produção espacial lançando mão: dos espaços que agenciam a
produção do comum; das resistências urbanas e das lutas territoriais; dos movimentos sociais e
dos ativismos; dos okupas e ocupações. O método cartográfico, ou mais especificamente o
método político, faz parte da proposta em defesa da pesquisa-intervenção como possibilidade de
investigação acadêmica, ou seja, propõem-se um conjunto de táticas e estratégias investigativas
em busca de novos modos de produção de conhecimento que possam ativar dispositivos
tecnopolíticos (envolvendo redes e ruas) em prol de menos segregação e mais justiça social. No
intuito de possibilitar análises complexas e transescalares dos processos biopolíticos de
constituição de territórios, pretende-se agenciar: mapeamento dos múltiplos atores presentes nas
lutas territoriais, conjuntos de informações espaciais e eventos temporais.
Sistemas de Tecnologia de Informação aplicados
Com o crescimento das cidades em todo mundo e o consequente aumento populacional dos
complexos urbanos, o problema contemporâneo a ser estudado nesse módulo é a incorporação
dos recursos potenciais da Tecnologia da Informação (TI), tanto o hardware quanto o software na
concepção, representação, projeto, apropriação e gestão eficiente dos espaços e recursos
públicos, considerando sua extensa variedade e diversidade. A hipótese é a de que a TI pode
contribuir na criação de instrumentais, sejam metodológicos ou a partir de planos e projetos, que
auxiliem esse processo, numa visão transversal dos campos de conhecimento e na busca
transdisciplinar.
Principais tópicos:
Tecnologia e sociedade, mitos e desditos das ondas da evolução tecnológica na história;
O estado contemporâneo da Tecnologia da Informação, para além dos experimentalismos do
início do milênio;
Indicativos para abordagens contemporâneas: o SDG´s para 2030, a saúde urbana, a cidade
saudável, a inteligência da cidade e o Big Data;
Dilemas acerca da informação aplicada ao espaço arquitetônico e urbano: a busca de novos
paradigmas no suporte de um quadro teórico para o desenvolvimento de sistemas computacionais
úteis para a cidade (GIS, Análise sintática e outras novas métricas urbanas);
Novos quadros teóricos para aplicações futuras: inovação tecnológica na acessibilidade urbana e
no desenho universal para a cidade.

Questões contemporâneas sobre a paisagem


Este Termo de Referência acolhe investigações nas quais a Paisagem seja lida como
categoria sintética entre os planos das horizontalidades das vivências cotidianas e o das
verticalidades do pensamento, posicionando suas reflexões nas seguintes abrangências: ôntica, a
discutir o que lhe é essencialmente constitutivo; teleológica, considerando-a como devir e projeto;
estética, investigando os modos sensíveis de percebê-la, construí-la e valorá-la; ética, que busca
uma crítica da ação humana sobre o ambiente. Nesse sentido, está aberto, dentre outros, a temas
que discutam sobre: as transformações paisagísticas produzidas pela aniquilação da natureza,
pela urbanização e demais atividades econômicas impactantes, tais como mineração e turismo; o
rompimento da experiência perceptiva e seus danos estéticos na urbanização contemporânea; o
Jardim, encarado como realidade dúplice, materialidade e idealidade; as narrativas paisagísticas
que contam histórias comuns; as ações paisagísticas como projetos de espaços de liberdade.
Recepciona também os temas que buscam convergências entre a Teoria e a Filosofia da
Paisagem e a Arquitetura Paisagística, bem como as discussões sobre metodologias de
investigação em Paisagem.