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Episódio das despedidas em Belém

Canto IV de «Os lusíadas de Luís de Camões

Insere-se no plano da Viagem ( acção principal de «Os Lusíadas»)

Este episódio inicial só surge no final do Canto IV porque., segundo


as normas da epopeia clássica, a Narração devia começar in media res, ou
seja, quando a acção já se encontrava numa fase adiantada. Os momentos
iniciais da acção deviam surgir posteriormente, contados em retrospectiva.

O narrador é Vasco da Gama. Narrador participante e


subjectivo
«As naus prestes estão; e não refreia / Temor nenhum o juvenil despejo, /
porque a gente marítima e a de Marte / Estão para seguir-me a toda a parte.»
Estrofe 84
O narratário do episódio é o Rei de Melinde

«Certifico-te, ó Rei…» - estrofe 87


O tema deste excerto tão emotivo é a partida dos marinheiros
da praia do Restelo e a despedida dos seus familiares e amigos.

Estrutura do episódio

1. Introdução: 84 -86

Localização espácio – temporal: estrofe 84


Vista geral da praia : estrofe 85
Preparação religiosa dos marinheiros: estrofe 86

Localizada a acção no espaço, observamos o alvoroço geral dos


últimos preparativos para o embarque da «gente marítima e a de
Marte». Prontas as naus, os marinheiros reúnem-se em oração na
ermida de Nossa senhora de Belém
Estrofe 84

Espaço onde decorre a acção narrada No porto de Lisboa

“ E já no porto da Ínclita Ulisseia”

Local de onde partiram as naus Segundo as palavras do narrador


partiram de Lisboa, mais
precisamente da zona onde o rio Tejo
desagua no Oceano

«(Onde o licor mistura e branca areia / Co salgado Neptuno o doce Tejo)»

Integravam a expedição marítima Marinheiros e soldados

«gente marítima e a de Marte»


Estrofe 86

«Despois de aparelhados desta sorte / De quanto tal viagem


pede e manda / Aparelhámos a alma pera morte».

Os dois primeiros versos referem-se aos preparativos das


naus e respectivos tripulantes para o momento da partida.

Os que partiam faziam preparativos “ da alma pera a morte”


numa igreja próxima do local de embarque rezando e implorando a
Deus que os guiasse e protegesse.
2. Desenvolvimento: 87-92

Nesta parte descreve-se a “procissão solene” do Gama e seus


companheiros desde aquele “santo templo” até aos batéis, pelo meio
da “gente da cidade”, homens e mulheres, velhos e meninos, com
relevo especial para as mães e para as esposas.

Tanto os que partiam como os que ficavam se entristeciam e a


despedida assume grande emotividade. E o narrador Vasco da Gama,
certamente com o propósito de emprestar uma maior autenticidade ao
seu discurso narrativo - descritivo perante o rei de Melinde, evoca
mesmo as palavras emocionadas de uma mãe ( estrofe 90) e de uma
esposa ( estrofe 91)
A construção desta cena é feita principalmente através da alternância de
planos:
→ Plano de conjunto inicial (“As gentes…por perdidos nos julgavam”)
→ Planos de pormenor (“as mulheres…os homens”)
→ Grandes planos ( a mãe – “ Qual vai dizendo…” – e a esposa – “Qual em
cabelo…”)
→ Novo plano de conjunto ( “os velhos e mininos (…) os montes…”)
“ A consternação era geral na cidade e a bordo: tinha-se a noção
dos perigos, de que o caminho era «tão longo e duvidoso», de que,
muito provavelmente, os que partiam não iriam regressar. Deste clima
de consternação davam conta as mulheres «cum choro piadoso» e os
homens «com suspiros que arrancavam». Particularmente débeis eram,
contudo, as mulheres: «Mães, esposas, Irmãs, que temerosos /Amor
mais desconfia acrescentavam /A desesperação e frio medo /De já nos
não tornar a ver tão cedo».
Surgem então, como a comprová-lo, dois grandes planos, com
as palavras de uma Mãe e de uma Esposa, personagens colectivas,
dadas em discurso directo.
A Mãe que nos fala na estrofe 90 é o símbolo da velhice que se
abandona, em troca de uma morte mais que certa no mar. Daí que as
suas palavras sejam de incompreensão e de perplexidade, dadas pelas
interrogações angustiadas que ficam no ar, sem resposta.
Repare-se nas sonoridades suaves em - i – (vogal doce),
contrastando, depois, com a dureza das sonoridades em vogal aberta –
a–
O mesmo discurso dorido, perplexo, interrogativo é a tónica das
palavras da Esposa na estrofe 91.
Como se vê, esta esposa interroga, queixa-se e de certo modo,
censura e acusa. A adjectivação é extremamente expressiva: «doce e
amado esposo»;ó amor é reafirmado como «vão contentamento», «sem
quem não quis amor que viver possa», «afeição tão doce nossa» ( veja-
se a doçura destas aliterações em – s -.
Aquele que parte não tem o direito de o fazer, pois aventura
algo que lhe não é pertença privada, «essa vida que é minha e não é
vossa». Ainda no capítulo de sonoridades, repare-se nas aliterações e
rima interna do último verso: «Quereis que com velas leve o vento?»
(…)
após estes dois grandes planos, retoma-se na estrofe 92 a visão
de conjunto: frágeis são os que ficam, mães, esposas, irmãs, é certo,
mas também os velhos e os meninos. A própria natureza se comove e se
associa numa dor à escala cósmica. Aos que partem só resta uma saída :
partir depressa, sem o «despedimento costumado» !”

Notas de Amélia Pinto Pais na Obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões - Areal Editores
3. Conclusão: Estrofe 93

Refere-se ao embarque que, por determinação do gama, se fez


sem as despedidas habituais, para diminuir o sofrimento tanto dos que
partiam como dos que ficavam.