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Como estudar música

8 coisas que os melhores


estudantes fazem de
forma diferente
Algum tempo e repetição são necessários para desenvolver e afiar nossas
habilidades, é claro. Mas nós também sabemos em algum nível intuitivo que
para maximizar os ganhos, nós deveríamos praticar de forma “mais inteligente,
não mais árdua”.

Mas o que cargas d’água isso realmente significa? O que exatamente os


melhores estudantes fazem de forma diferente?

Pianistas aprendendo Shostakovich


Um grupo de cientistas liderados por Robert Duke, da Universidade do Texas
em Austin, conduziu um estudo há alguns anos atrás para ver se eles
conseguiam estimular comportamentos de estudo específicos que distinguiriam
os melhores músicos e os estudantes mais efetivos.

Dezessete estudantes de graduação em piano e pedagogia do piano


concordaram em aprender uma passagem de três compassos do Concerto nº.
1 para Piano de Shostakovich. Essa passagem tinha alguns elementos
complicados, tornando-a muito difícil de ler bem à primeira vista, mas não tão
desafiadora a ponto dela não poder ser aprendida em uma única sessão de
estudo.

A montagem
Foram dados dois minutos para os estudantes aquecerem e então entregue o
excerto de três compassos, um metrônomo e um lápis.
Foi permitido aos participantes estudar por quanto tempo eles quisessem, e
eles poderiam sair a qualquer momento que sentissem que tivessem
terminado. O tempo de estudo variou bastante, indo de 8 minutos e meio até
perto de 57 minutos.

Para ter certeza de que o teste do dia seguinte seria justo, eles foram
especificamente instruídos a NÃO praticar esse trecho, mesmo de memória,
nas 24 horas seguintes.

24 horas depois…
Quando os participantes voltaram no dia seguinte para seus testes, foram
dados 2 minutos para aquecimento e então foi solicitado para que se
executasse o trecho completo dos 3 compassos, sem parar, 15 vezes (com
pausas entre as tentativas, claro).

Cada uma das performances dos pianistas foram então avaliadas em dois
níveis. Acertar as notas certas com os ritmos certos foi o critério primário, mas
os pesquisadores também ranquearam cada performance dos pianistas da
melhor à pior, baseados no timbre, caráter e expressividade.

Isso levou a algumas descobertas interessantes:

1. Praticar por mais tempo não levou a rankings mais altos.


2. Repetir mais vezes também não teve impacto no ranking.
3. O número de vezes que eles tocaram corretamente durante o estudo também não
interferiu no ranking.

O que realmente importou foi:

1. Quantas vezes eles tocaram incorretamente. Quanto mais vezes eles tocaram
incorretamente, pior o ranking tendeu a ser.
2. A porcentagem de tentativas corretas parece ter importado. Quanto maior a proporção
de tentativas corretas na sessão de estudo, mais alto o ranking tendeu a ser.

As 8 melhores estratégias
Três performances de pianistas se sobressaíram em relação às demais e foram
descritas como tendo “um timbre mais consistente, maior precisão rítmica,
maior caráter musical (dinâmicas com propósitos e inflexões rítmicas) e uma
execução mais fluente.”

Olhando de mais perto os vídeos das sessões de estudos, os pesquisadores


identificaram 8 estratégias de estudo distintas que foram comuns aos melhores
pianistas, mas que ocorreram menos frequentemente nas sessões de estudos
dos outros:

1. “A execução foi desde cedo com as duas mãos.


2. O estudo foi com inflexões desde cedo; a concepção inicial da música foi com
inflexões.
3. O estudo foi pensativo, sendo evidenciado por pausas silenciosas enquanto se olhava
para a partitura, cantando/sussurrando, escrevendo anotações na página, ou
expressando “ah-há”s verbais.
4. Erros foram prevenidos parando antes de ocorrerem.
5. Erros foram trabalhados imediatamente quando eles apareceram.
6. A localização precisa e a fonte de cada erro foi precisamente identificada, ensaiada e
corrigida.
7. O andamento de tentativas de performance variou sistematicamente; logicamente
mudanças compreensíveis de andamento ocorreram entre tentativas (por exemplo,
diminuindo a velocidade para conseguir executar seções complicadas).
8. Passagens foram selecionadas e repetidas até que o erro tivesse sido corrigido e a
passagem tivesse sido estabilizada, sendo evidenciado pela ausência de erro em
tentativas subsequentes.”

As 3 melhores estratégias
Das oito estratégias acima, há três que foram usadas por todos os
três melhores pianistas, mas raramente utilizadas por outros. De fato, apenas
outros dois pianistas (ranqueados em 4º e 6º lugar) usaram mais de uma delas:

6. A localização precisa e a fonte de cada erro foi precisamente identificada, ensaiada e


corrigida.
7. O andamento de tentativas de performance variou sistematicamente; logicamente
mudanças compreensíveis de andamento ocorreram entre tentativas (por exemplo,
diminuindo a velocidade para conseguir executar seções complicadas).
8. Passagens foram selecionadas e repetidas até que o erro tivesse sido corrigido e a
passagem tivesse sido estabilizada, sendo evidenciado pela ausência de erro em
tentativas subsequentes.

Qual é o fio em comum que as enlaça juntas?

Os pesquisadores notam que a diferença mais significativa entre os três


melhores pianistas e o resto foi como eles lidaram com os erros. Não é que os
melhores pianistas erraram menos no começo e simplesmente tiveram mais
facilidade em aprender o trecho.

Os melhores pianistas erraram também, mas eles administraram a correção


dos erros de tal maneira que os ajudou a evitar fazer os mesmos erros de novo
e de novo, levando a uma proporção mais alta de tentativas corretas no total.
E uma para todas governar
Os melhores pianistas utilizaram uma variedade de métodos de correção de
erro, como tocar com uma só mão ou só tocar uma parte do excerto, mas
houve uma estratégia que parece ter tido o maior impacto.

Diminuir a velocidade.

Depois de terem errado, os melhores pianistas tocavam o trecho de novo, mas


diminuindo a velocidade ou hesitando – sem parar – logo antes do lugar onde
eles erraram anteriormente.

Isso pareceu permitir a eles tocar a seção desafiadora de forma mais precisa, e
presumivelmente coordenar os movimentos motrizes corretos em um
andamento que eles podiam lidar, ao invés de continuar a errar e falhar em
identificar a natureza precisa do erro, o problema técnico subjacente e o que
eles deveriam fazer diferentemente na próxima tentativa.

E se isso soa vagamente familiar, você pode relembrar que um estudo sobre
basquete encontrou algo muito similar nos hábitos dos melhores
arremessadores de lances livres…

Tome uma atitude


O que você leva desse texto como ponto principal? Como você poderia integrar
essas descobertas não só em seu estudo, mas nos hábitos de estudo de seus
alunos?

Por que o estudo parece


desaparecer da noite para
o dia?
Você alguma vez já se sentiu frustrado pelo fato de pegar para estudar um
trecho de uma música difícil, trabalhar nele um pouco, deixá-lo soando bem,
mas retornar para a sala de estudos no dia seguinte e descobrir que você está
de volta na estaca zero? Que nada realmente mudou? E que não importa quão
bem ele tenha ficado ontem, agora ele está tão ruim quanto antes de você o ter
estudado?

A maioria de nós pode viver com “dois passos para frente, um para trás”. É o
“dois passos para frente e dois passos para trás” que faz com que a gente
queira arrancar os cabelos.

Então, o que devemos fazer?

Devemos manter essa prática e aprender como ser mais pacientes? Ou existe
uma forma diferente de praticar que pode tornar as melhorias mais
permanentes?

Conheça Christine Carter


A Dra. Christine Carter é uma clarinetista que dá aulas na Manhattan School of
Music e fez sua dissertação sobre o efeito de interferência contextual – um
fenômeno que pode ajudar você a fazer seu progresso diário na sala de
estudos realmente ser fixado. Nesse post, ela compartilha algumas sugestões
em como podemos fazer o máximo do nosso tempo de estudo.

Vai lá, Christine!

Fazendo o máximo das suas horas


na sala de estudos: Uma simples
mudança que pode drasticamente
aumentar sua produtividade
Quando falamos de estudo, frequentemente pensamos em termos de tempo:
quantas horas são necessárias para conseguir o progresso de forma ótima?
Apesar dessa ser uma preocupação válida, uma questão mais importante é
como podemos fazer com que cada hora conte. Qual é a maneira mais
eficiente de trabalhar para que o que seja praticado hoje permaneça até
amanhã? Não existe nada mais frustante do que gastar um dia de trabalho
duro só para voltar no dia seguinte na linha de início. Infelizmente, nosso
corrente modelo de estudo está nos direcionando para esse desapontamento
diário.
Repetição, bebês e scans de cérebro
Cedo no nosso treinamento musical, nós somos ensinados sobre a importância
da repetição. Quão frequentemente nos disseram para “tocar cada passagem
dez vezes perfeitamente antes de seguir”? O desafio desse conselho bem-
intencionado é que ele não está alinhado com o jeito que nossos cérebros
trabalham. Nós somos estruturados para prestar atenção na mudança, não na
repetição. Essa estrutura já pode ser observada em crianças no estágio pré-
verbal. Mostre para um bebê o mesmo objeto repetidamente e ele vai
gradualmente parar de prestar atenção através de um processo
chamado habituação. Mude o objeto e a atenção voltará com força total. O
mesmo vale para adultos. Imagens de ressonâncias magnéticas funcionais
demonstraram que existe progressivamente menos ativação cerebral quando
estímulos são repetidos. O fato é que informação repetida não recebe a mesma
quantidade de processamento como informação nova. E em algum nível, nós
todos sabemos disso. Repetição constante é entediante e nosso tédio está
dizendo que nossos cérebros não estão engajados. Mas ao invés de ouvir essa
instintiva voz da razão, nós nos culpamos por nossa falta de atenção e
gritamos para nós mesmos “FOCO!”. Por sorte, existe uma alternativa.

Sessão de prática em bloco


No campo de psicologia do esporte, a repetição contínua discutida acima é
chamada de prática em bloco. Em uma sessão de prática em bloco, todas as
repetições de uma atividade são completadas antes de seguir para uma
segunda atividade. Por exemplo, um jogador de beisebol que precisa
arremessar quinze bolas rápidas, quinze bolas curvas e quinze bolas lentas, no
treino iria completar todas as bolas rápidas antes de ir para as bolas curvas e
assim por diante. Isso é o que mais lembra a maneira que a maioria dos
músicos praticam, especialmente quando se trata de passagens desafiadoras.
Nós trabalhamos em um excerto por uma certa quantidade de tempo e então
seguimos para o próximo excerto até que todas as tarefas do dia
estejam completas. Uma abordagem em bloco parece lógica. A memória
muscular requer repetição, então por que não faríamos todas as repetições em
seguida? Até porque, se estamos trabalhando uma passagem difícil, nos
sentimos muito mais confortáveis depois que passaram 10 minutos de estudo
em relação ao início. É precisamente esse sentimento de conforto e
aprimoramento que reforça nossa confiança na prática em bloco. O problema
com esse tipo de treinamento, porém, é que os resultados positivos que nós
sentimos na sala de estudo hoje não levam ao melhor aprendizado de longo
prazo amanhã. Praticar de um jeito que otimiza a performance na sala de
estudos não otimiza o aprendizado.
Sessão de prática aleatória
E se pegássemos os blocos de prática em tarefas particulares e os
quebrássemos em segmentos menores em cada tarefa? No exemplo do
beisebol acima, os jogadores poderiam fazer os três diferentes tipos de
arremessos de uma forma alternada, ao invés de fazer todos de um tipo em
seguida. Duas opções de quebra são uma ordem repetida (por exemplo, abc
abc abc…) ou uma ordem arbitrária (por exemplo, acb cba bca…). Em ambos,
o resultado total ainda será 15 execuções de cada tipo de arremesso,
exatamente o mesmo resultado da sessão de prática em bloco. A única
variável que muda é a ordem na qual os arremessos são praticados. Esse tipo
de segmento intercalado é chamado sessão de prática aleatória (também
conhecido como sessão de prática intercalada).

Em uma sessão de prática aleatória, o músico deve se manter reiniciando


tarefas diferentes. Não será tão confortável como praticar a mesma coisa
repetidas vezes, porque inícios são sempre a parte mais difícil. Mas esse
desafio se encontra no coração do porquê das sessões de prática aleatória
serem mais efetivas. Quando nós voltamos a uma tarefa depois de uma tarefa
intercalada, nosso cérebro precisa reconstruir o plano de ação para o que nós
estamos prestes a fazer. E é nesse momento de reconstrução que nossos
cérebros estão mais ativos. Mais atividade mental leva para maior aprendizado
a longo prazo. Na sessão em bloco, os jogadores de beisebol precisam
construir o plano de ação apenas uma vez para cada tipo de arremesso, no
início de cada bloco. Na sessão aleatória, eles precisam construir e depois
reconstruir um plano de ação quinze vezes para cada arremesso. Apesar da
sessão em bloco poder produzir performances superiores durante a prática,
estudo após estudo tem mostrado que uma sessão de prática aleatória produz
consistentemente uma retenção superior depois da prática, um dia depois ou
mais (isto é, a quantidade de fato aprendida). Esse fenômeno é chamado efeito
de interferência contextual.

Quão melhor é a sessão de prática


aleatória?
Acontece que o exemplo hipotético de beisebol usado acima não é hipotético.
Em um estudo de 1994 conduzido por Hall, Domingues e Cavazos, foram
atribuída sessões de prática em bloco ou aleatória para jogadores de beisebol
de elite. Depois de doze sessões de treinamento, os jogadores de beisebol na
sessão de prática aleatória acertaram 57% mais arremessos do que quando
eles começaram. O grupo em bloco acertou apenas 25% mais dos arremessos,
significando que a sessão de prática aleatória foi quase duas vezes mais
efetiva, mesmo quando os dois grupos arremessaram o mesmo número de
bolas. Resultados similares foram encontrados em uma grande variedade de
campos. Mais pertinente aos nossos interesses como músicos, minha pesquisa
preliminar no Brain and Mind Institute, no Canadá, fornece suporte empírico
para o uso de sessões de prática aleatória em Música. Essa pesquisa não
apenas sugere que uma prática aleatória é mais efetiva do que uma sessão em
bloco para praticar passagens musicais, mas entrevistas com os participantes
também revelam que a prática aleatória tem efeitos positivos em fatores como
estabelecimento de metas e foco.

Como usar uma sessão de prática


aleatória na sala de estudos
Ao invés de gastar períodos longos e ininterruptos lapidando cada excerto ou
seção de uma peça, pegue algumas passagens nas quais você gostaria de
trabalhar e alterne entre elas. Se você quer gastar um total de 30 minutos em
um excerto particular, pratique em pedaços menores, continuamente
retornando a esse excerto até que você tenha conseguido atingir sua meta de
30 minutos. Experimente com durações de tempo. Se você está praticando
excertos que são muito curtos, você pode conseguir trocar entre eles em um
ritmo mais rápido do que seria requirido para seções mais longas. Você pode
usar um pequeno relógio para cronometrar especificamente intervalos ou trocar
depois de cada repetição. Em seu nível mais básico, a prática aleatória pode
parecer assim:

3 minutos: Excerto A
3 minutos: Excerto B
3 minutos: Excerto C
3 minutos: Excerto A
3 minutos: Excerto B
3 minutos: Excerto C
etc.

Praticar passagens em variações rítmicas diferentes é um ótimo jeito de


introduzir interferência contextual em uma escala menor. Mas invés de fazer
todas as variações rítmicas em um único excerto antes de seguir para o
próximo, faça uma variação no excerto A, uma no excerto B e aí volte para o
excerto A para uma segunda variação etc. Exercícios de técnica também
podem ser intercalados na sessão de prática aleatória, ao invés de fazer todos
os exercícios em um grande bloco. Um exemplo de uma sessão de prática
aleatória mais complicada pode parecer como a seguinte:

2 minutos: Notas longas, escalas, notas longas, escala…


3 minutos: Excerto A (usando a primeira variação rítmica)
2 minutos: Progressão em terças, arpejos, progressão em terças, arpejos…
3 minutos: Excerto B (usando a primeira variação rítmica)
2 minutos: Notas longas, escalas, notas longas, escala…
3 minutos: Excerto A (usando a segunda variação rítmica)
2 minutos: Progressão em terças, arpejos, progressão em terças, arpejos…
3 minutos: Excerto B (usando a segunda variação rítmica)
Etc.

As permutações são infinitas e a divisão exata do tempo não é importante. O


que é crucial é que você está mantendo seu cérebro engajado pela variação do
material. Mais engajamento significa que você ficará menos entediado, mais
orientado a uma meta (você tem que estar, se você só tem 3 minutos para
fazer alguma coisa), e substancialmente mais produtivo. E o mais importante,
quando você voltar para a sala de estudos no dia seguinte, você pode começar
de onde parou. Esse tipo de prática fica.

Recursos adicionais
Dr. Robert Bjork, sobre os benefícios da prática intercalada em Go Cognitive
(vídeo de 6 minutos, em inglês)

Sobre a dra. Christine Carter


A dra. Christine Carter é interessada em relação a como músicos podem ser
mais efetivos no palco e na sala de estudos. Ela conduziu pesquisas em vários
laboratórios de imagens cerebrais e de psicologia da música, e é atualmente
professora visitante no Brain and Mind Institute da Western University.

Christine é também uma clarinetista ativa. A música já a levou ao redor do


mundo, incluindo lugares tão diferentes como o Carnegie Hall, antigos
mosteiros de Avignon, a Sydney Opera House, o Heritage Theatre em
Newfoundland e até um palácio barroco no sul da Alemanha. Completou seu
doutorado em Musical Arts na Manhattan School of Music, onde ela agora
ensina no laboratório de madeiras.

Quantas horas por dia


você deve estudar?
2 horas? 4 horas? 8 horas? 12 horas?

Quanto é o suficiente?

“Estudar demais” é possível?


Existe um número ótimo de horas que se deve praticar?

O que os artistas dizem?


Alguns dos grandes artistas do século XX compartilharam seus pensamentos
sobre essas questões. Eu me lembro de ler uma entrevista com Rubinstein há
alguns anos na qual ele dizia que ninguém deve praticar mais do que quatro
horas por dia, explicando que se você precisa praticar mais de quatro horas,
você provavelmente não estaria praticando da maneira correta.

Outros grandes artistas expressaram sentimentos similares. Dizem que o


violinista Nathan Milstein perguntou uma vez ao seu professor Leopold Auer
quantas horas por dia ele deveria praticar. Auer respondeu dizendo: “Pratique
com seus dedos e você precisará do dia inteiro. Pratique com sua mente e terá
feito o mesmo tanto em uma hora e meia”.

Heifetz também indicava que ele nunca acreditou em praticar demais e que
prática excessiva é “tão ruim quanto praticar pouco”. Ele alegou praticar uma
média nunca maior de três horas por dia e que não praticava nada nos
domingos. E sabe, isso não é uma má ideia – um de meus professores, Donald
Weilerstein, uma vez sugeriu que eu estabelecesse um período de 24 horas em
cada semana no qual eu não podia pegar meu instrumento.

O que os psicólogos dizem?


Quando o assunto é especialização e performances especialistas, o
psicólogo Dr. K. Anders Ericsson é possivelmente a maior autoridade do
mundo. Sua pesquisa é a base para a “regra dos 10 anos” e a “regra das 10 mil
horas”, que sugerem que é necessário pelo menos 10 anos e/ou 10 mil horas
de prática deliberada para se alcançar uma performance em nível de
especialista, qualquer que seja o campo de estudo – e no caso de músicos, é
frequentemente perto de 25 anos o tempo necessário para se atingir um nível
de elite internacional. Note que o ponto principal aqui não é a quantidade de
prática requerida (o exato número de horas é debatível), mas o tipo de prática
requerida para se conseguir uma performance em nível de especialista. Em
outras palavras, praticar de qualquer jeito não é suficiente.

Prática desatenta
Você já ouviu alguém praticando? Você já se ouviu praticando? Grave você
estudando por uma hora, dê um passeio pelas salas de estudo na escola e
ouça seus colegas estudando, ou peça aos seus alunos para fingirem que
estão em casa e observe-os praticando durante uma aula. O que você
perceberá?
Perceberá que a maioria das pessoas praticam de forma desatenta, seja
fazendo meras repetições (“praticar essa passagem 10 vezes” ou “praticar essa
peça por 30 minutos”) ou praticando no piloto automático (quando nós tocamos
a peça até que escutemos algo que não gostamos, então paramos, repetimos a
passagem até que ela soe melhor e continuamos a tocar até que ouçamos uma
outra coisa com a qual não estamos satisfeitos e repitamos o processo).

Existem três grandes problemas com o método desatento de praticar.

1. É uma perda de tempo

Por que? Por um lado, pouquíssimo aprendizado produtivo ocorre quando


praticamos desse jeito. É assim que nós acabamos por praticar uma peça por
horas, dias, semanas e ainda não sentimos que melhoramos tanto. E até pior,
você está na verdade cavando seu próprio buraco praticando desse jeito,
porque o que esse modelo de prática faz é reforçar hábitos e erros
indesejáveis, literalmente aumentando a chance de você estragar tudo mais
consistentemente no futuro. A prática desatenta torna mais difícil corrigir esses
hábitos no futuro – você está efetivamente adicionando uma quantidade de
tempo de prática futura que você precisará para eliminar esses maus hábitos e
tendências. Uma vez eu trabalhei com um professor de saxofone que gostava
de lembrar aos seus alunos que “Prática não leva à perfeição, prática torna
permanente”.

2. Isso torna você menos confiante

Além do mais, praticar desse jeito na verdade prejudica sua confiança, porque
existe uma parte de você que percebe que você não sabe realmente como
produzir consistentemente os resultados que você está procurando. Mesmo
que você estabeleça uma taxa de sucesso razoavelmente alta na maioria das
passagens através da prática desatenta, que você descubra que consegue
acertar 3 ou 4 de cada 5 tentativas, sua confiança não crescerá muito. A
confiança real no palco vem de: a) ser capaz de acertar 10 a cada 10
tentativas, b)saber que isso não é uma coincidência, mas que você sabe fazer
da forma correta sob demanda, principalmente porque c) você sabe
precisamente o porquê de você ter acertado ou errado, isso é, você sabe
exatamente o que precisa fazer de um ponto de vista técnico para tocar a
passagem perfeitamente todas as vezes. (Nota do tradutor: sobre esse
assunto, recomendo outro texto do mesmo autor, traduzido em Duas coisas
que especialistas fazem de forma diferente quando praticam.)

Você pode não ser capaz de tocar perfeitamente todas as vezes no início, mas
é para isso que serve a repetição – para reforçar hábitos corretos até que eles
fiquem mais fortes que hábitos ruins. É um pouco como tentar fazer um bonito
jardim. Ao invés de lutar numa batalha sem fim contra as ervas-daninhas, seu
tempo será melhor gasto tentando cultivar a grama para que ela com o passar
do tempo expulse as ervas-daninhas.
E isso é importante. Nós tendemos a praticar inconscientemente e aí
terminamos por tentar tocar conscientemente – o que não é uma boa fórmula
para o sucesso. Lembre desse artigo (em inglês, mas em breve traduzido aqui
no site) que você tem uma tendência para mudar para um modo hiper-analítico
do lado esquerdo do cérebro quando você entra no palco. Bom, se você fez a
maior parte da sua prática inconscientemente, você na verdade não sabe como
tocar sua peça perfeitamente sob demanda. Quando seu cérebro de repente
vai para o modo de consciência total, você acaba surtando, porque você não
sabe que instruções dar para ele.

3. É entediante e chato

Praticar desatentamente é como se fosse um afazer doméstico. A música pode


ser uma das únicas atividades baseadas em habilidade nas quais as metas da
prática são medidas em unidades de tempo. Nós todos já tivemos professores
que nos disseram para ir para casa e praticar uma certa passagem X vezes, ou
praticar X horas, certo? O que nós realmente precisamos são metas mais
específicas – como praticar essa passagem até que ela soe _____, ou praticar
essa passagem até que você descubra como fazê-la soar _____.

Afinal, não importa realmente quanto tempo nós gastemos praticando alguma
coisa, mas apenas que nós saibamos como produzir os resultados que
queremos e possamos fazê-los consistentemente, sob demanda.

Prática deliberada
Então o que é prática deliberada, ou prática atenta? Prática deliberada é uma
atividade sistemática e altamente estruturada, que é, por falta de uma
palavra melhor, científica. Ao invés da tentativa e erro desatenta, é um
processo ativo e profundode experimentação com metas
claras e hipóteses. O violinista Paul Kantor uma vez disse que a sala de
estudos deve ser como um laboratório, onde se pode experimentar ideias
diferentes, tanto musicais quanto técnicas, para ver que combinação de
ingredientes produzem o resultado que você está buscando.

Prática deliberada é frequentemente lenta e envolve repetição de seções


pequenas e muito específicas do seu repertório, ao invés de só tocar direto (por
exemplo, trabalhar somente na nota inicial do seu solo para ter certeza que ela
“fala” exatamente o que você quer, ao invés de tocar a frase inicial inteira).

Prática deliberada envolve monitorar sua própria performance (em tempo real,
mas também via gravações), continuamente procurando novas maneiras de
melhorar. Isso significa realmente ouvir o que acontece, para que você possa
se dizer exatamente o que deu errado. Por exemplo, a primeira nota foi
desafinada? Muito forte? Muito macia? Muito áspera? Muito curta? Muito
longa?
Digamos que a nota estava desafinada e muito longa, sem muito ataque no
início. Bom, quão desafinada ela estava? Pouco? Muito? Quão longa era a
nota que você queria ter tocado? Quanto mais de ataque você queria?

OK, a nota estava um pouco desafinada para cima, um pouquinho longa


demais e precisava de um ataque muito mais claro para que estivesse
consistente com a articulação e dinâmica marcadas. Então, por que a nota
estava desafinada? O que você fez? O que você precisa para ter certeza que a
nota saia perfeitamente afinada todas as vezes? Como você garante que a
duração seja justamente a que você quer que seja, e como você consegue
consistentemente um ataque limpo e claro para começar a nota, para que ela
comece no caráter certo?

Agora vamos imaginar que você gravou tudo isso e pode ouvir como essa
última tentativa soou. Essa combinação de ingredientes te deu o resultado
desejado? Em outras palavras, essa combinação de ingredientes transmitem o
caráter ou clima que você quer comunicar ao ouvinte tão efetivamente quanto
você pensou que ela iria?

Poucos músicos usam seu tempo para parar, analisar o que deu errado, por
que isso aconteceu e como eles podem corrigir o erro permanentemente.

Quantas horas por dia eu devo


estudar?
Você descobrirá que a prática deliberada é muito cansativa, dada a tremenda
quantidade de energia requerida para manter a atenção completa para a tarefa.
Praticar mais de uma hora por vez tende a ser improdutivo e, honestamente,
provavelmente nem mesmo mental ou emocionalmente possível. Mesmo os
indivíduos mais dedicados acharão difícil praticar mais de quatro horas por dia.

Estudos têm variado a duração da prática diária de uma a 8 horas e os


resultados sugerem que geralmente existe pouco benefício em praticar mais de
4 horas por dia. Na verdade, os ganhos começam a diminuir depois da marca
de 2 horas. O ponto-chave é saber por quanto tempo você é capaz de
sustentar o nível de concentração.
5 pontos fundamentais para a
prática mais efetiva
1. Duração

Mantenha sessões de estudo limitadas a uma duração que permita você estar
focado. Elas podem durar de 10 a 20 minutos para alunos mais novos e entre
45 e 60 minutos para alunos mais velhos.

2. Momento

Saiba os momentos durante o dia que você tende a ter a maior energia. Pode
ser a primeira coisa da manhã, logo depois do almoço etc. Tente fazer sua
prática durante esses períodos naturalmente produtivos, pois esses são os
momentos nos quais você será capaz de focar e pensar mais claramente.

3. Metas

Tente usar um caderno de prática. Mantenha-se ciente das suas metas de


estudo e o que você descobre nas suas sessões de estudo. A chave é entrar
na “zona” onde praticar é estar constantemente buscando ter clareza de
intenção. Em outras palavras, ter uma ideia clara do som que você quer
produzir, ou fraseado particular que você gostaria de tentar, ou articulação
específica que você gostaria de ser capaz de executar constantemente.

Quando você descobrir algo, escreva. Enquanto eu praticava mais


atentamente, eu comecei a aprender tanto durante sessões de estudo que se
eu não escrevesse, eu esquecia.

4. Mais inteligentemente, não mais arduamente

Às vezes se uma passagem em particular não está saindo do jeito que nós
queremos, só significa que nós precisamos praticar mais. Entretanto, também
há vezes que nós não precisamos trabalhar de forma mais árdua, mas sim de
uma estratégia ou técnica diferente.

Eu me lembro de brigar com a variação de pizzicato de mão esquerda no


Capricho nº. 24 de Paganini. Eu estava ficando frustrado e me mantive
tentando cada vez mais arduamente fazer as notas falarem, mas tudo que eu
consegui foram dedos esfolados, alguns até começaram a sangrar. Eu percebi
que para atingir minha meta tinha que haver um jeito mais inteligente, mais
efetivo.
Ao invés de ser teimoso e manter uma estratégia ou técnica que não estava
funcionando para mim, eu me forcei a parar de praticar toda essa seção. Eu
tentei pensar em diferentes soluções para o problema por uns dias e assim que
elas me ocorriam, eu as escrevia. Quando eu senti que eu cheguei em
soluções promissoras, eu comecei a experimentar. Eventualmente eu descobri
uma solução na qual eu trabalhei durante cerca de uma semana e quando eu
toquei o capricho para meu professor, ele me perguntou sobre como eu fiz as
notas falarem tão claramente!

5. Modelo de resolução de problemas

Considere esse modelo sintetizado de resolução de problemas em 6 passos


(adaptado de vários processos de resolução de problemas online).

1. Defina o problema (como eu quero que essa nota ou frase soe?)


2. Analise o problema (o que está causando ela soar do jeito que está?)
3. Identifique possíveis soluções (o que eu posso mudar para fazê-la soar mais do jeito
que eu quero?)
4. Teste as possíveis soluções para selecionar a mais efetiva (que mudança parece
funcionar melhor?)
5. Implemente a melhor solução (torne essas mudanças permanentes)
6. Monitore a implementação (essas mudanças continuam a produzir os resultados que
estou procurando?)

Não importa se estamos falando sobre aperfeiçoar a técnica ou experimentar


ideias musicais diferentes. Qualquer modelo que encoraja o pensamento mais
inteligente e mais sistemático e metas mais claramente articuladas ajudará a
economizar o tempo de prática perdido e ineficiente.

Afinal, quem quer passar o dia todo na sala de estudos? Entre, resolva coisas e
caia fora!

UPDATE: Você acha que isso só se relaciona à música clássica? Fãs do jazz,
vejam só esse post sobre praticar eficientemente escrito pelo aclamado
violinista de jazz Christian Howes para uma prestativa perspectiva e dicas
sobre estudar jazz. Engraçado, nós fizemos o método Suzuki juntos quando
crianças em Columbus, Ohio.

UPDATE 2: Descobri esse interessante post sobre prática deliberada escrito


por um jovem e astuto violoncelista da Northwestern University.

UPDATE 3: E um excelente e provocativo material sobre prática


deliberada para gente de negócios e outros campos não-musicais (em um
fascinante blog).
A reflexão deve ser uma
parte regular da rotina de
estudos?
Uma parte de mim sempre apreciou a mentalidade do “no pain, no gain”.
Aquela atitude de “dar 110%”, e a ideia de que se você não está ativamente
engajado em uma atividade que exige esforço, nada acontece.

Mas eu viria a perceber que os ganhos não acontecem sempre quando nós
estamos no decorrer de uma atividade. Eu aprendi, por exemplo, que o
crescimento muscular não acontece durante o exercício, mas entre exercícios,
quando nós estamos no modo de recuperação – daí a importância da nutrição
e sono adequados para ajudar nosso corpo a se recuperar (numa nota
paralela, não é curioso como nós precisamos de desculpas para justificar mais
horas de sono?).

E como se pode perceber, o aprendizado também pode ser melhorado pelo


tipo certo de descanso. No qual ao invés de se sentir culpado em relação a
pausas e tempo longe do instrumento, ele pode ser uma parte integral de
maximizar o aprendizado que ocorre nas sessões de estudo, assim como o
momento entre aulas e performances.

Mas é importante notar que nem todo descanso é feito da mesma forma. Existe
uma atividade em particular que nós podemos nos engajar durante nossos
períodos de descanso que aparentemente nos ajuda a aprender mais
efetivamente – e pode até fazer nossa próxima sessão de estudo mais
produtiva.

Refletir vs. Remoer


Se você já disse alguma coisa e se arrependeu de ter dito, ou fez algo que
queria não ter feito, você provavelmente tem alguma experiência em remoer
eventos do passado que você adoraria voltar no tempo para apagar.

A reflexão é uma atividade que tem algumas similaridades com remoer gafes,
mas é diferente porque é estruturada ao redor do aprendizado a partir de erros
do passado e em guiar a prática futura, e não simplesmente ruminar o passado
e nos fazer sentir mal.

Como descrito no livro Make it Stick, “A reflexão pode envolver várias


atividades cognitivas que levam para um aprendizado mais forte: recuperar
antecipadamente conhecimento e treinamento de memória, conectar essas a
novas experiências, e ensaiar visual e mentalmente o que você pode fazer
diferente da próxima vez.”

A ideia é a de que já que nós normalmente não temos tempo para fazer uma
reflexão significativa durante uma performance (ou procedimento cirúrgico,
discurso importante, ou conversas cruciais com os parentes), refletir sobre
essas experiências depois pode ser uma parte chave do processo de
aprendizado.

Atletas nacionais vs. Internacionais


Um grupo de pesquisadores na Holanda conduziu um estudo com 222 jovens
atletas para ver se existiam fatores específicos que separavam atletas de nível
nacional dos de um nível internacional, de elite.

Em particular, eles estavam curiosos para ver que diferenças podem existir em
quão efetivamente os atletas eram capazes de guiar seus próprios processos
de aprendizagem. Intuitivamente, poderíamos dizer que quem aprende de
forma “auto-regulada”, aqueles que são melhores em planejar, monitorar e
avaliar suas próprias performances, obteriam geralmente um nível mais alto
de performance em relação aos que dependem de alguém para lhes dizer o
que fazer.

Então todos os atletas foram avaliados em seis diferentes áreas de auto-


regulação: planejamento, auto-monitoração, avaliação, reflexão, esforço e auto-
eficácia.

Posteriormente, os resultados de atletas de nível nacional foram comparados


com os dos atletas de nível internacional para ver se existiam quaisquer
diferenças entre os dois.

Acontece que não existiam diferenças significantes nessas medições entre os


competidores de nível nacional e internacional.

Exceto em uma área.

A reflexão.

Todos os atletas de nível internacional tiveram resultados de médio a alto no


teste de reflexão, enquanto os resultados de atletas de nível nacional variaram.

Os autores sugerem que para atuar em nível internacional, parece que um


atleta tem que ter pelo menos uma quantidade mediana de habilidade na área
da auto-reflexão.
Reflexão & esforço
Outro estudo holandês de 444 jovens jogadores de futebol de elite e sub-elite
rendeu descobertas similares. Especificamente, que atletas de elite tendem a
ter resultados altos não só em reflexão, mas em esforço também.

Parece que refletir no treino e na competição pode ajudar atletas de elite a


identificar mais claramente as fraquezas na sua maneira de jogar, o que torna
mais fácil o planejamento estratégico de como trabalhar nelas nos treinos e
jogos subsequentes – talvez levando a uma motivação aumentada para
resolver essas áreas na sessão de treinamento futura também.

Tome uma atitude


Então, na próxima vez que você terminar seu estudo, ao invés de correr para
qualquer coisa que vá fazer em seguida, tente por um minuto refletir sobre o
que você aprendeu na sessão de estudo.

Ou depois do seu próximo ensaio ou performance, reflita sobre o que


aconteceu e o que você pode fazer de diferente da próxima vez para tornar as
coisas ainda melhores.

Ou depois da sua próxima aula, reflita por um momento sobre o que você
acabou de aprender (ou, se você é o professor, pode valer a pena guardar um
minuto ou dois no fim para ajudar seu aluno a fazer um pouco de auto-reflexão
sobre o que ele aprendeu).

Leituras adicionais
Pensamentos interessantes por um cirurgião sobe prática deliberada e reflexão
(em inglês): Maximizing postgraduate surgical education in the future

Um recente estudo da Universidade do Texas descobriu que refletir durante o


descanso sobre material aprendido anteriormente melhora o aprendizado do
material futuro. Tarefas de memória e polir o repertório atual são duas coisas
muito diferentes, mas ainda assim, é intrigante (em inglês): Mental Rest and
Reflection Boost Learning

O resumo de uma frase


“Depois da ação efetiva, a reflexão silenciosa. Da reflexão silenciosa virá ainda
mais ação efetiva.” – Peter Drucker
Duas coisas que
especialistas fazem de
forma diferente quando
praticam
Você alguma vez já viu aquele tipo de infomercial que uma pessoa vai do
tamanho 52 para o 36 em oito semanas, joga fora as calças antigas, casa com
alguém e vive feliz para sempre? (Se não, você precisa checar esses cinco
piores infomerciais de fitness de todos os tempos – especialmente a Hawaii
Chair, que com certeza você poderia usar para tonificar seu abdômen enquanto
estuda seu instrumento.)

Eu admito que fui tentado pelo AB Toner, AB Swing e vários outros


equipamentos, porque a coisa mais frustrante sobre fazer exercícios é que é
difícil saber se você está fazendo o melhor uso do seu tempo.

Quero dizer, é claro que fazer alguma coisa é melhor do que fazer nada, mas e
se existir outra rotina de exercícios que poderia me levar a resultados muito
melhores na mesma quantidade de tempo?

O que as pessoas em boa forma fazem que eu não faço? Como seus
exercícios são diferentes? Existem coisas importantes que eles
fazem enquanto se exercitam que dão maior retorno do que as coisas que eu
faço? Em outras palavras, eles estão extraindo do tempo deles na academia
resultados desproporcionalmente maiores do que os meus?

O mesmo pode ser dito em relação à sala de estudos. O que os melhores


músicos fazem na sala de estudos? O que os estudantes menos efetivos
fazem? Existem diferenças?

De fato, parece que existem.

Melhor vs. pior


Dois pesquisadores da City University of New York fizeram um estudo em
jogadores de basquete para ver se eles poderiam discernir a diferença enter os
hábitos de treinamento dos melhores arremessadores de lance livre (70% de
acertos ou mais) e os piores arremessadores (55% de acerto ou menos).

Descobriram várias diferenças, mas elas se resumiam a duas em particular.

Diferença nº. 1: Metas foram específicas

Os melhores arremessadores de lances livres tinham metas específicas sobre


o que eles queriam obter ou focar antes de fazerem um treino de arremessos.
Algo como “eu vou acertar 10 dos 10 arremessos” ou “eu vou manter meus
cotovelos para dentro”.

Os piores arremessadores tinham metas mais genéricas, como “fazer o


arremesso” ou “usar boa posição”.

Diferença nº. 2: Atribuições do erro


foram específicas

Invariavelmente, os jogadores erravam arremessos algumas vezes, mas


quando os melhores arremessadores erravam, eles tendiam a atribuir seus
erros a problemas técnicos específicos, como “eu não dobrei meus joelhos”.
Isso os levava a uma meta mais específica para a próxima tentativa e um
processo de reflexão mais consciente sobre o acerto ou erro do arremesso
subsequente. Muito melhor do que dizer “sou ruim”, “o que há de errado
comigo?” ou “droga, eu nunca vou conseguir fazer isso”.

Em contraste, os piores jogadores tendiam a atribuir o fracasso a fatores não-


específicos, como “meu ritmo não estava bom” ou “eu não estava focado”, o
que não informa muito para a próxima tentativa.

Não é o que você sabe, mas o que


você usa
Você pode estar pensando que talvez os piores jogadores não tenham focado
em estratégias técnicas específicas simplesmente porque eles não as
conheciam. Você poderia achar que talvez os melhores jogadores
fossem aqueles que focaram na técnica e estratégia porque eles sabiam mais
sobre como arremessar com a posição correta.

Os pesquisadores também pensaram nisso e especificamente controlaram


essa possibilidade testando o conhecimento dos jogadores em relação a
técnica de arremesso. Descobriram que não havia diferenças significativas do
conhecimento de especialistas e não-especialistas.
Tanto os melhores quanto os piores jogadores tinham o mesmo nível de
conhecimento para se basear, mas pouquíssimos dos piores jogadores
realmente usaram essa base. Enquanto isso, os melhores jogadores usaram
com muito mais frequência seus conhecimentos para pensar, planejar e
direcionar seu tempo de treinamento de forma mais produtiva.

Tome uma atitude


Quando você estiver praticando algo técnico, tente usar metas
mais específicas.

Mas talvez mais importante do que isso é prestar atenção em como você fala
com você mesmo depois de errar. Você foca na técnica? Ou só xinga um
pouco e já segue para mais uma tentativa sem tentar descobrir o que você
errou na última?

O resumo em uma frase


“Sem conhecimento, a ação é inútil. Sem ação, o conhecimento é fútil.” – Abu
Bakr

A prática lenta é
realmente necessária?
Assim como todo mundo que já teve aula de música alguma vez na vida,
muitas vezes me disseram para praticar lentamente.

Mas eu ouvi com atenção o conselho dos meus professores?

Não.

Afinal, qual é o objetivo de tocar lentamente? Tudo é mais fácil quando é mais
lento – é claro que você consegue tocar coisas de forma mais precisa em um
andamento lento. Qual seria o grande negócio?

Mas então por que tantas pessoas idolatram a prática lenta?


Prática lenta nas artes marciais
Eu comecei a me arriscar nas artes marciais quando eu fui para a universidade.
Meu sensei do caratê frequentemente nos fazia praticar as técnicas em câmera
super lenta para garantir que estávamos usando a forma correta e realmente
desenvolvendo um entendimento das nuances de cada movimento.

É claro, levou tempo para que eu entendesse o porquê de nós estarmos


fazendo aquilo. De início, como na música, eu pensei que era uma perda de
tempo. Mas então eu percebi como era mais difícil socar ou chutar em câmera
lenta. Isso exigia um entendimento muito mais profundo do que cada
movimento realmente requeria. Lentamente (hehe) eu fui entendendo onde eu
perdi o bonde por todos esses anos.

O objetivo não é se o soco ou chute acerta o alvo (ou se você acerta um


salto ou toca a nota afinada), mas se você faz tudo corretamente no caminho.
Quer dizer, você está mantendo seus principais músculos soltos? Você está
movendo todos os seus músculos da maneira mais eficaz? Você está
maximizando a acurácia e a eficiência? Você está acertando todos os mínimos
detalhes?

Prática lenta em música


Eu esqueci sobre tudo isso até muito recentemente, quando tive o prazer de
entrevistar o spalla da Orquestra de Philadelphia, David Kim, para um projeto
que estou trabalhando (incidentalmente, cheque esse remédio pessoal para
jetlag).

Ele revelou que uma das chaves do seu sucesso (e da construção da sua
confiança também) é a prática super lenta. Um processo de praticar em câmera
lenta, enquanto se está completamente atento, altamente engajado e pensando
profundamente em tempo real sobre o que se está fazendo.

A propósito, esse não é um processo doloroso e torturante, mas


frequentemente um processo cativante e gratificante. É uma forma de abrir a
porta para muitas prazerosas micro-descobertas que podem ser a chave para
uma frase soar do jeito que você quer e comunicar exatamente o que você
pretende.

Isso é muito parecido com o que o grande golfista Ben Hogan aparentemente
fez para aprimorar seu tacada – veja só esse vídeo de Hogan demonstrando
como ele trabalha seu movimento em câmera lenta.
Dois mal-entendidos
Então por que nós não praticamos lentamente? Não é porque somos
preguiçosos, eu acho é que é um grande mal-entendido.

1. Nós estamos muito preocupados com o


resultado, não com o processo

Quer dizer, nós esquecemos que o como nós chegamos lá é tão importante
quanto se nós chegamos ou não.

O objetivo da prática lenta não é só desacelerar as coisas para se tocar


perfeitamente. É sobre lapidar a execução e procurar por maneiras adicionais
de tocar ainda melhor, enquanto nós estamos tocando devagar o suficiente
para monitorar e pensar sobre os pequenos detalhes.

Você está cultivando os hábitos corretos, de forma que quando o andamento


sobe, você ainda está tocando da maneira correta? Ou existem muitas
ineficiências, ou hábitos ruins que levarão a colapsos quando você aumenta o
andamento?

2. Nós não praticamos suficientemente devagar

Desde que o objetivo maior é ser capaz de pensar, monitorar e analisar nossa
técnica enquanto tocamos, praticar em um andamento moderado vai contra o
propósito. É muito rápido para que observemos, processemos completamente
e ajustemos todos os pequenos detalhes.

A ideia é utilizar a prática super lenta para que possamos prestar atenção em
todas as sutis nuances da nossa mecânica, aumentar nossa consciência do
que está realmente acontecendo e encontrar maneiras de fazer melhor as
coisas.

Então pode ser mais preciso pensar nisso como uma prática em câmera lenta
ou em uma prática super lenta, ao invés da velha conhecida prática lenta, que
tende a nos levar para execuções desatentas de uma passagem em um
andamento moderadamente lento.

Leia esse artigo escrito pelo especialista em artes marciais Peter Freedman,
que ajuda a clarificar o que nós devíamos estar fazendo quando estamos
praticando lentamente. (Nota da tradução: infelizmente o artigo citado está com
o link quebrado e não encontrei outras referências. O título é “Train Slow to
Learn Fast”.)
Tome uma atitude
Tente! E não esqueça de estar com seu caderno de prática à mão, pois você
sem dúvidas descobrirá novas soluções e sutis detalhes técnicos dos quais
você não estava anteriormente consciente.

Leitura bônus: faça o download desse ótimo artigo sobre como o cérebro e os
músculos trabalham juntos para desenvolver nossas habilidades,
especificamente em música. Ele foi escrito pelo neurologista e autor Dr. Frank
Wilson e é um daqueles “clássicos que você precisa ler”, passados de músico
para músico.

UPDATE: Precisa de ajuda para ir do devagar para o rápido? Aqui


estão algumas ideias do Gerald Klickstein.

UPDATE: Eu encontrei um estudo uma vez que sugeria que em alguns casos
nós aprendemos mais rápido quando nós enfatizamos velocidade ao invés da
precisão (O que?! Soa como heresia, eu sei). Aqui está um exercício
esperto que usa essa ideia.

A prática mental
funciona?
É dito que os legendários pianistas Rubinstein e Horowitz não eram muito
afeiçoados à prática. Rubinstein simplesmente não gostava de praticar por
horas a fio, enquanto Horowitz supostamente temia que praticar em pianos
diferentes do seu próprio afetaria negativamente seu toque. A solução deles?
Uma dose saudável de prática mental.

Embora muitos de nós possamos nunca ser legendários, a prática mental é


algo que pode beneficiar absolutamente todos os músicos, independentemente
do nível de proficiência.

Você tem um concerto em breve, não está preparado para ele, mas está muito
cansado para praticar? Quer praticar, mas não pode, por causa de uma
tendinite ou uma gripe? As salas de estudo estão cheias? O instrumento está
em manutenção? É muito cedo ou muito tarde para praticar? Só tem 15
minutos, então não vale a pena tirar seu instrumento do armário, achar uma
sala de estudos e se acomodar, só pra ter poucos minutos depois?
Soa familiar?

É claro, mas só se imaginar tocando não pode ser o mesmo do que a prática
física real, certo?

Você está certo. Não é o mesmo, mas a partir de estudos feitos com atletas,
nós sabemos que indivíduos bem-sucedidos tendem a se engajar em ensaios
mentais de forma mais sistemática e extensa do que indivíduos de menos
sucesso. Sim, eu sei que existem algumas diferenças entre atletas e músicos –
mas não tantas quanto você pode achar quando se trata do aspecto mental
da performance.

Além disso, pesquisadores estão achando mais evidências neurológicas e


psicológicas para dar suporte ao que atletas de ponta como o grande jogador
de basquete Larry Bird, o mergulhador olímpico Greg Louganis e o golfista
Tiger Woods sabem há anos – que a prática mental produz mudanças reais e
aprimoramentos tangíveis na performance. Em um estudo, participantes que
praticaram mentalmente uma sequência de 5 dedos em um piano imaginário
por duas horas por dia tiveram as mesmas mudanças neurológicas (e redução
de erros) do que participantes que praticaram fisicamente a mesma passagem
em um piano real. Alguns sugeriram que a prática mental ativa as mesmas
regiões do cérebro que a prática física ativa, e pode até levar às mesmas
mudanças na estrutura neural e conectividade sináptica.

Em outras palavras, existem crescentes evidências que a prática mental (se


feita corretamente), pode absolutamente fazer diferença no seu tocar.

Minha experiência com prática


mental
Eu me lembro de quando tinha 4 ou 5 anos: minha mãe me punha para tirar
uma soneca antes de performances e dizia para eu deitar silenciosamente no
meu quarto imaginando minha performance nota por nota. Eu achava isso bobo
na época, mas isso ficou e se tornou parte do que eu fiz.

Descobri anos depois que esse hábito de prática mental contribuiu para
o desenvolvimento da minha reputação de não estudar na universidade, porque
eu passava pouco tempo nas salas de estudo. A reputação era verdadeira – eu
praticava talvez umas duas horas por dia no máximo, e normalmente até
menos nos finais de semana. Eu fiquei sabendo que outro violinista da turma
perguntou à nossa professora como eu podia tocar tão bem, apesar de praticar
tão pouco. Ela lhe disse que a maioria da minha prática acontecia na minha
cabeça, então eu não precisava gastar tanto tempo na sala de estudo. Eu não
sei como ela sabia disso, mas ela estava certa. Vez ou outra durante o dia,
quando eu estava indo para a aula, comendo ou só sentado por aí, eu
frequentemente me encontrava ouvindo as músicas nas quais eu estava
trabalhando, vendo e sentindo meus dedos tocarem as notas, testando
digitações ou arcadas diferentes, experimentando deslocamentos e pressões
de dedos, corrigindo erros, tudo na minha cabeça. No fim do dia, eu
gastava uma hora ou duas passando as coisas que eu já havia trabalhado no
dia inteiro, e era só.

Honestamente, eu realmente deveria ter praticado mais, então eu não posso


apoiar a ideia de tentar se safar praticando só uma hora ou duas por dia
(embora você possa querer ler esse artigo sobre como praticar de forma mais
eficiente). Eu também não posso prometer que você soará como um Rubinstein
ou Horowitz se você se engajar mais em ensaios mentais, mas eu sei que se
você não fizer isso, você estará perdendo uma ferramenta incrível para
melhorar seu jeito de tocar.

Pontos importantes para a prática


mental
A literatura psicológica sobre ensaio mental sugere que existem dois pontos
principais para se prestar atenção quando se ensaia mentalmente – que esse
ensaio seja sistemáticoe vívido. Em outras palavras, a prática mental não é a
mesma coisa que sonhar acordado, do mesmo jeito que praticar no piloto
automático não ajuda muito. Para ser eficaz, ela precisa ser estruturada assim
como a prática no instrumento, com auto-avaliação, solução de problemas e
correção de erros.

Algumas guias para o ensaio mental


Aqui estão algumas ideias sobre como começar.

1. Acalme-se

Feche seu olhos. Foque apenas na sua respiração por um minuto. Inspire
devagar e completamente pelo seu nariz e expire devagar pela sua boca.
Então faça um exame completo de tensão no seu corpo: cheque sua cabeça e
músculos faciais, sua mandíbula, pescoço, ombros, braços, pulsos, mãos,
costas, quadris, pernas, tornozelos e até dedos do pé. Deixe toda tensão que
você encontrar se derreter.

2. Expanda seu foco

Pode ser em qualquer coisa – seu instrumento, a estante na sua sala de


estudo, uma parede específica. Veja essa coisa na sua cabeça. No começo,
ela pode não ter muito detalhe, ou você pode ter problemas para trazê-la para
o foco. Tudo bem, seu objetivo é pegar algo pequeno e tornar mais vívido, e
começar a expandir essa vividez no resto de seu ambiente imaginado. Você
ficará melhor com a prática.

3. Faça aquecimento

Imagine-se tocando escalas ou aquecendo com algo fácil. Você consegue se


escutar? Exatamente como soa? O que você sente? Você pode sentir seus
dedos, seus braços, ombros, pulmões, gargantas etc.? Veja quão vividamente
você pode se lembrar mentalmente dos elementos cinestésicos envolvidos
quando você toca seu instrumento.

4. Imagine

Veja, sinta e ouça você começando a tocar. Concentre nos movimentos que
produzem os sons e efeitos que você quer enquanto você passa pela música
na sua cabeça, nota por nota, frase por frase. Continue “tocando” até que você
erre ou sinta a necessidade de corrigir o jeito que alguma coisa soou.

5. Controle seu filme

Quando você se “escutar” ou se “ver” tocando alguma coisa que não soa como
você quer, imediatamente pause o seu filme mental. Volte para um lugar antes
do erro. Comece desse ponto, indo vagarosamente para frente, em uma
velocidade que você possa controlar. Repita esse processo várias vezes, assim
como você faria na prática real, até que você esteja fazendo corretamente na
velocidade desejada. Não fique voltando e tentando novamente sem pensar –
assegure-se de apertar o pause, pensar sobre o porquê do erro ter ocorrido,
apertar o play, tentar novamente e então seguir em frente quando você estiver
satisfeito por ter resolvido o problema e tiver entendido por que o erro
aconteceu na primeira vez.

6. Mantenha real

É importante fazer as experiências tão vívidas e reais quanto você puder –


sinta o instrumento nos seus dedos, mãos, lábios. Realmente ouça o som, as
texturas, o volume. Veja a sala ao seu redor e o instrumento que você está
tocando.

Sugestões adicionais
Quando você for usar essa técnica, divida a peça em segmentos pequenos,
como frases ou seções curtas. Você não precisa sempre tocar do começo ao
fim.
Tente se visualizar em lugares diferentes, usando roupas diferentes e em
diferentes condições.

Quando você sentir que pegou o jeito da prática mental, tente se testar. Grave-
se tocando um trecho, examine e dê uma nota para sua performance, e então
faça uma série de ensaios mentais desse trecho tomando nota do que você
percebe. Então toque novamente, examine e dê uma nota para
sua performance, tomando nota do que mudou.

Uma vez que você fizer da prática mental sistemática uma parte da sua rotina
de estudos diários, eu estou certo que em breve você imaginará como é que
fazia sem ela.

Quando erros são bons:


uma estratégia estranha
para consertar hábitos
ruins
Todos nós temos hábitos. Alguns bons, como comer coisas saudáveis,
exercitar-se regularmente e espremer a pasta de dente a partir do fim do tubo.
E outros não tão bons, como pular o café-da-manhã, se sentar com a coluna
torta e deixar toalhas molhadas no chão.

Não é diferente quando se trata de música – todos nós temos vários hábitos de
técnica bons e ruins. Aqueles bicho-papões contra os quais lutamos para nos
livrar, mas que ficam ao redor como um gato de rua que uma vez nós
cometemos o erro de alimentar.

A abordagem tradicional é tentar ensinar nossos alunos (e nós mesmos) como


fazer as coisas da forma correta. Manter o reforço dos movimentos
técnicos corretos e esperar que eventualmente as coisas boas permaneçam.

Mas mudar hábitos ruins parece levar uma eternidade e eles têm uma
tendência de se esconder e ficar dormentes até o pior momento possível –
como no meio de uma performance.
Pesquisas recentes sugerem que pode haver um jeito melhor. Uma maneira
mais eficaz e rápida de corrigir permanentemente questões técnicas, reduzindo
nosso tempo de aprendizado e melhorando a eficácia do nosso ensino.

É, eu sei. Isso tudo soa muito bom pra ser verdade. Mas vamos dar uma
olhada.

O jeito tradicional
Os métodos de ensino tradicionais envolvem o fornecimento de um feedback
externo – normalmente dizendo a um estudante o que fazer ou o que não fazer
(i.e. instrução/feedback verbal) ou mostrando a um estudante o que fazer ou o
que não fazer (i.e. demonstração/feedback visual).

O problema, é claro, é que esse pode ser um processo dolorosamente lento.


Corrigir repetidamente um “erro” aprendido pode ser desmotivante e frustrante
tanto para o estudante quanto para o professor.

Pode ser tentador concluir que o estudante é incorrigível e não tem aquilo que
é necessário para aprender, mas na verdade, a presença do erro persistente é
um sinal de que o aprendizado ocorreu. Infelizmente, eles aprenderam
inadvertidamente o jeito “errado” muito, mas muito bem!

Em situações como essa, eu tive um professor que ocasionalmente invertia os


papeis comigo, demonstrando o que eu estava fazendo e me pedindo para ser
o professor por um momento. Isso era sempre desconfortável para mim, mas
era uma maneira que ajudava a ver o que não fazer.

Essa nova estratégia pega essa ideia e a aumenta em alguns níveis.

Aprendendo a saltar em distância


Pesquisadores na Universidade de Verona conduziram um estudo com trinta
adolescentes de 13 anos que estavam aprendendo a fazer um salto em
distância parado (como o do vídeo abaixo), em três sessões espalhadas
por um período de três semanas.

Sessão 1

O principal objetivo da primeira sessão foi simplesmente medir suas


performances iniciais. Então eles não receberam muitas instruções, só a de
que eles deveriam tentar pular tão longe quanto pudessem e que eles
poderiam balançar os dois braços ao mesmo tempo e pular com os dois pés
para maximizar a distância.
Foram dadas três chances para saltar e o resultado final foi a média entre os
três saltos.

Sessão 2

Antes da segunda sessão, os adolescentes foram divididos em três grupos –


um grupo para receber instruções usando o método experimental de ensino
chamado “Método de Amplificação do Erro” (MAE), outro para receber o
método tradicional de instrução verbal (Instrução Direta) e o terceiro grupo para
não receber nenhuma instrução, mas para praticar do jeito que quisessem
(grupo de controle).

Cada sessão de treinamento consistiu de 6 saltos, depois dos quais foi pedido
para que os alunos não praticassem o salto até que eles retornassem para um
teste final na semana seguinte.

Sessão 3

Uma semana depois (para ver quão bem o treino “permaneceria”), os


estudantes voltaram e cada um deu três saltos, com a média entre eles sendo
o resultado final.

Como eles foram?


Os estudantes que não receberam nenhuma instrução não melhoraram no
decorrer das três sessões (158.9cm contra 160.6cm). Sem surpresas aqui.

Por outro lado, os estudantes que receberam instruções e feedbacks


verbais exibiram uma melhora estatisticamente significante no decorrer das três
semanas (159.4cm contra 162.3cm – um ganho de 2.9cm).

Uma melhora de 2.9cm não é tão ruim… Mas não chegou aos pés da marca
que as crianças no método experimental tiveram.

Os estudantes que foram instruídos com o Método de Amplificação do Erro


melhoraram uma média de 20.4cm (159.5cm contra 179.9cm). Isso é um
aumento de quase 7 vezes!

Espera, o quê?!
Antes de olharmos no protocolo do MAE, aqui está o que foi a Instrução Direta:
Baseado em quaisquer erros, enganos ou ineficiências na técnica de salto que
o estudante demonstrasse na primeira sessão, o instrutor identificava o erro
principal mais responsável por causar uma performance ruim e dizia como
regular sua técnica para melhores resultados. Por exemplo: “Salte estendendo
completamente as pernas e tronco antes de sair do chão”.

Então o estudante saltava uma vez para praticar essa nova informação
prescrita.

Depois, o estudante ganhava um salto livre para experimentar como quisesse,


sem instruções.

Depois do salto livre, o instrutor provia algum feedback adicional para o


estudante sobre o que ele fez de errado na sua tentativa mais recente e repetia
o que ele precisava mudar para melhorar sua técnica e se sair melhor na
próxima vez.

Esse padrão foi repetido três vezes, em um total de 6 saltos – i.e.,


feedback+salto, salto livre, feedback+salto, salto livre, feedback+salto, salto
livre – e então a sessão acabava.

Na superfície, o treinamento do Método de Amplificação do Erro não foi muito


diferente. A única diferença foi que ao invés de ser instruído para saltar com a
técnica correta, foi pedido para que o estudante saltasse exagerando quanto
mais fosse possível o erro principal que o instrutor identificou.

O salto livre dos estudantes foi então usado para medir quão eficazmente o
estudante entendeu a natureza do seu erro, porque se o salto livre parecesse
com o salto do erro exagerado, o instrutor saberia que ele não identificou
verdadeiramente o erro principal, ou o estudante não estava entendendo bem.

Des-aprendizagem contra reensino


Parece totalmente contra-intuitivo praticar fazendo alguma coisa exatamente da
maneira errada, mas a ideia é que isso aprofunda nosso entendimento do
que não fazer e inicia uma busca interna pela maneira correta de fazer algo.
Novamente, erros consistentes não são um sinal de que nós não aprendemos,
mas que aprendemos… como fazer do jeito errado consistente e
automaticamente! Como os autores sugerem, esse método é mais uma
estratégia de des-aprendizagem do que de reensino.

Afinal, fica cansativo dizer a mesma coisa de novo e de novo (e ouvir a mesma
coisa de novo e de novo) e não ver mudanças. Essa estratégia tem o benefício
de colocar o estudante mais no assento do motorista e ajudá-lo a se tornar
mais capaz de procurar internamente e encontrar um padrão de movimentos
mais otimizado.
É claro que iniciantes aprendendo a saltar em distância é bem diferente do
que um músico de nível avançado tentando resolver um movimento mais
intricado ou complexo, e que os autores reconhecem que há mais pesquisa
nessa área ainda por fazer. Apesar disso, existem outros pesquisadores que
encontraram resultados similares em esportes, indo do golfe (N.T.: infelizmente
com o link quebrado. O artigo se chama “Learning By Mistakes: How the
Amplification of Errors Can Improve Ability” e consta o e-mail “aw arroba
pgae.com” para a solicitação do artigo completo) para a natação e atletismo,
então essa parece uma abordagem promissora!

Tome uma atitude


Você já usou esse tipo de abordagem no seu método de ensino e na sua
prática?

Se você pretende experimentar isso, por favor, leia o artigo completo, no link
abaixo. Na seção “Discussão” são apresentadas algumas guias gerais que
precisam ser entendidas para que se use essa técnica corretamente.