Você está na página 1de 7

Contextos Clínicos, 4(1):1-7, janeiro-junho 2011

© 2011 by Unisinos - doi: 10.4013/ctc.2011.41.01

Considerações clínicas sobre a psicoterapia


cognitivo-comportamental de bancários com Transtorno
de Estresse Pós-Traumático

Clinical considerations about cognitive-behavioral psychotherapy


of bank employees with Post-Traumatic Stress Disorder

Patricia Gaspar Mello


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga, 6681, Partenon,
90619-900, Porto Alegre, RS, Brasil. patriciagmello@gmail.com

Renato Maiato Caminha


Instituto da Família de Porto Alegre. Rua João Abbott, 441, Petrópolis,
90460-150, Porto Alegre, RS, Brasil. caminhar@terra.com.br

Pânila Longhi Lorenzzoni


Instituto Fernando Pessoa. Rua Mariante, 356, Rio Branco,
90430-180, Porto Alegre, RS, Brasil. panilalonghi@yahoo.com.br

Christian Kristensen
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga, 6681, Partenon,
90619-900, Porto Alegre, RS, Brasil. christian.kristensen@pucrs.br

Resumo. Os profissionais da área da saúde mental com frequência são desa-


fiados a encontrar novos tratamentos para situações adversas e peculiares dos
indivíduos. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é um dos dis-
túrbios psiquiátricos mais comuns e que deixam sequelas, tendo em vista que
afeta a vida funcional das pessoas que sofreram um trauma e desenvolvem o
transtorno. Dessa forma, este estudo visa a uma revisão da literatura a respeito
das estratégias terapêuticas utilizadas em Terapia Cognitivo-Comportamental
(TCC) no tratamento do TEPT em bancários. Para tanto, foi realizada uma
busca por artigos que descreveram protocolos de tratamento para o TEPT e as
particularidades encontradas nos bancários, a fim de adequar a TCC para essa
população. Os resultados sugerem que a população de bancários apresenta
algumas diferenças em termos de cognições pós-traumáticas se comparada a
outras populações, de forma que é sugerida uma adaptação dos protocolos de
tratamento para atender às necessidades desses pacientes.

Palavras-chave: Terapia Cognitivo-Comportamental, Transtorno de Estresse


Pós-Traumático, bancários.

Abstract. Professionals in mental health area are oen challenged to find


new treatments to adverse and peculiar situations of individuals. The Post-
Traumatic Stress Disorder (PTSD) is one of more common psychiatric dis-
Considerações clínicas sobre a psicoterapia cognitivo-comportamental de bancários com TEPT

orders that cause sequels considering that it affects functional life of people
who suffered a trauma and develop the disorder. Thus, this research intends
to do a literature review about therapeutic strategies used on Cognitive Be-
havior Therapy (CBT) in PTSD treatment in bank employees. In order to do
this, a research was made for articles that describe treatment protocols for
PTSD and the particularities found in bank employees, with the purpose
to suit CBT for this group of people. The results suggest that the popula-
tion of bank employees presents some differences in terms of post-traumatic
cognitions if compared to other populations, so an adaptation of treatment
protocols to meet the needs of these patients is suggested.

Key words: Cognitive Behavior Therapy, Posraumatic Stress Disorder,


bank employees.

Introdução e vem obtendo resultados positivos no que se


refere à eficácia de suas técnicas. Inicialmente
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático desenvolvida para o tratamento da depressão
(TEPT) é uma perturbação classificada no por Beck et al. (1979), a TCC se expandiu rapi-
DSM-IV-TR entre as patologias de ansiedade damente e passou a ser utilizada como trata-
(American Psychiatric Association, 2000). Essa mento eletivo ou tratamento coadjuvante para
desordem já está sendo considerada uma das um grande número de transtornos mentais ou
doenças que mais causa prejuízo funcional na mesmo de condições clínicas (Dobson, 2006).
vida dos indivíduos, pois os impede de en- Tal disseminação deve-se, em parte, a algumas
frentar locais e situações que causam extremo características fundamentais da TCC para o
medo e ansiedade (Kristensen et al., 2006). tratamento de transtornos de eixo I, incluindo
As pesquisas atuais (Kessler et al., 2005; Kris- seu caráter focal e objetivo, o papel ativo que
tensen et al., 2006) apontam para o fato de que o paciente desempenha no curso da terapia. A
grande parte das pessoas vivenciou, vai viven- situação terapêutica se estende ao cotidiano
ciar ou tem contato com alguém que experien- do paciente, é orientada para a sintomatologia
ciou ao menos um evento traumático ao longo atual e tudo isso é orientado pelo conhecimen-
da vida. De fato, há estudo que indica que entre to empírico da TCC (Beck, 1997).
60 e 80% dos indivíduos na população geral vai Atualmente, considera-se a TCC o trata-
passar por alguma situação estressora poten- mento de escolha para o TEPT se comparado
cialmente traumática (Kristensen et al., 2006). a outras abordagens psicossociais ou mesmo
Ainda na população geral, estima-se que em a abordagens farmacológicas (Bisson et al.,
torno de 6,8% das pessoas irão desenvolver o 2007). Porém, observa-se que existe uma me-
TEPT (Kessler et al., 2005). nor atenção na adequação de tratamentos que
A literatura indica uma série de preditores considerem especificidades de cada população
individuais para desenvolver TEPT após um acometida pelo transtorno. Há uma série de
evento estressor (Butler et al., 2006). Também protocolos de tratamento que apresentam eficá-
é possível observar que algumas profissões, cia comprovada para uma série de patologias e
como bancários, policiais e bombeiros, ofere- populações. No que tange ao TEPT, tais propos-
cem mais riscos do que outras para o desen- tas se referem a casos devidos a abuso sexual
volvimento do TEPT por exporem mais os su- (Jaycox et al., 2002; Foa et al., 2005), a traumas de
jeitos a situações de ameaça ou perigo. Sendo guerras (Foa et al., 2002), a indivíduos vítimas
assim, faz-se necessário entender quais abor- de acidentes de trânsito (Bryant et al., 2008) ou
dagens terapêuticas são mais eficazes para o ainda para o tratamento de populações com do-
tratamento desses grupos de risco, conside- ença mental severa (Lindy e Lifton, 2001). Con-
rando que as estratégias de intervenção devem tudo, não estão disponíveis protocolos direcio-
contemplar as especificidades da população nados a bancários vítimas de ataques a bancos,
envolvida. de forma que essa população ainda se encontra
A Terapia Cognitivo-Comportamental desassistida em suas particularidades.
(TCC) é uma abordagem terapêutica utilizada Dessa forma, a proposta dessa revisão é
para o tratamento de diversas psicopatologias iniciar o preenchimento dessa lacuna, explo-

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 2


Patricia Gaspar Mello, Renato Maiato Caminha, Pânila Longhi Lorenzzoni e Christian Kristensen

rando adaptações da TCC para o tratamento Pareado 1 (EP1) refere-se a situações geradoras
de um dos grupos de risco para o TEPT: os de ansiedade relacionadas diretamente com o
bancários. Essas pessoas estão diariamente evento traumático. O Estímulo Pareado 2 (EP2)
expostas ao risco para a ocorrência de situa- refere-se a situações que não estão relacionadas
ções traumáticas, como assaltos e sequestros. diretamente com o evento traumático, mas es-
Ainda que existam programas e equipes de tão relacionadas em paralelo e desencadeiam
intervenção imediata pós-assalto em várias ansiedade relacionada ao trauma. O Estímulo
instituições bancárias, na maior parte das situ- Pareado 3 (EP3) refere-se a pareamentos ocor-
ações, os bancários não são contemplados com ridos a partir do EP2, sendo alheio ao processa-
psicoterapia focada no trauma. Sendo assim, mento central da informação e tendo caracterís-
realizou-se uma revisão da literatura, anali- ticas associativas e tendência à generalização da
sando quais as estratégias terapêuticas utili- memória. Esse processo intenso de condiciona-
zadas na TCC para a psicoterapia do TEPT e mento estímulo-resposta e estímulo-estímulo
quais as vantagens dessas estratégias frente a é uma das características distintivas do TEPT,
outras abordagens. Após, analisou-se as pecu- sendo central para a compreensão de seu cur-
liaridades cognitivas e comportamentais da so crônico (Ehlers e Clark, 2000). Logo, esse
população de bancários se comparadas a ou- processo de condicionamento facilita com que
tros grupos de risco para o TEPT para, então, a evocação da memória traumática ocorra de
propor a adequação do tratamento. forma involuntária, comumente acompanhada
Trata-se de uma temática ainda pouco dis- pelas respostas emocionais, fisiológicas e com-
cutida, de maneira que não há registros na li- portamentais típicas do TEPT (Foa et al., 2005;
teratura sobre formas de tratamento específicas Taylor, 2006). Por exemplo, a vítima de um as-
para esse grupo de indivíduos em situação de salto a banco pode fazer o pareamento de me-
risco. Logo, além dos artigos e livros encontra- mória com a agência bancária em que foi assal-
dos sobre o tema, será exposta a experiência clí- tada e, a partir disso, generalizar para qualquer
nica dos autores com esses indivíduos, a fim de outra agência, ampliar para lotéricas e seguir
ilustrar situações, perfis e estratégias utilizadas. para supermercados ou lojas que tenham cai-
xas, mesmo que nenhum dos exemplos se vin-
Transtorno de Estresse cule diretamente ao assalto sofrido.
Pós-Traumático Estudos de prevalência indicam que entre
57,1% a 89,6% da população já passou ou vai
O TEPT é um transtorno classificado entre os passar por algum evento estressor ao longo da
transtornos de ansiedade (American Psychia- vida (Creamer et al., 2001; Breslau et al., 1998).
tric Association, 2000), incluída como diagnós- O TEPT é o quarto distúrbio psiquiátrico mais
tico a partir do DSM-III (American Psychiatric comum, atingindo uma média de 10,3% dos
Association, 1980). Essa perturbação, advinda homens e 18,3% das mulheres em algum mo-
da exposição a um evento traumático, apresen- mento da vida (Yehuda e Davidson, 2000). A
ta prejuízos significativos na vida do indivíduo, prevalência na população geral, segundo Kes-
impedindo-o, por vezes, a realizar atividades sler et al. (2005), é de 6,8%, de maneira que
laborais que lhe exijam exposição a estímulos podemos considerar o TEPT um problema de
associados ao estressor original. saúde pública.
As características principais do transtorno Crescente atenção tem sido dada na identi-
envolvem sintomas de revivência, evitação/en- ficação dos fatores que contribuem para a etio-
torpecimento e excitabilidade aumentada e im- logia do TEPT, levando à identificação de gru-
plicam em alto nível de sofrimento aos indiví- pos de risco (Taylor, 2006). Entre os grupos em
duos acometidos pela doença, sendo, portanto, uma situação de risco elevado para o desen-
considerada invalidante (American Psychiatric volvimento do transtorno, destacam-se: crian-
Association, 2000). Além disso, Foa et al. (1999) ças em situação de vulnerabilidade, por serem
consideram três fatores característicos de pa- vítimas de abusos e maus-tratos; trabalhado-
cientes com TEPT, sendo esses (i) visão nega- res como bombeiros, que testemunham tragé-
tiva de si, (ii) visão negativa do mundo e (iii) dias diariamente; ou mesmo bancários, cujas
autorresponsabilização pelo evento traumático. agências são assaltadas com mais frequência
Por tratar-se de um transtorno da memó- do que é divulgado na mídia (Departamento
ria, a partir do evento estressor, o sujeito ini- de Comunicação do SindBancários, 2010).
cia pareamentos de memória semelhantes aos Mesmo que os sintomas do TEPT estejam
realizados em processos de fobia. O Estímulo presentes nos sujeitos com o diagnóstico, essa

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 3


Considerações clínicas sobre a psicoterapia cognitivo-comportamental de bancários com TEPT

variedade de grupos de risco sugere particula- Durante a terapia, também são utilizadas
ridades na sintomatologia de cada população. estratégias comportamentais, como a “respi-
Esse fato exige que as estratégias cognitivo- ração diafragmática”, o “relaxamento muscu-
comportamentais utilizadas estejam de acordo lar progressivo” e o “treino de inoculação do
com o perfil dos indivíduos para o sucesso do estresse”, técnicas efetivas no tratamento de
tratamento. transtornos de ansiedade (Caballo, 2003).
Por fim, dentro dos protocolos de tratamen-
Terapia Cognitivo-Comportamental to, também são utilizadas técnicas direciona-
das à reestruturação cognitiva, que objetivam
Os estudos utilizando a abordagem da o questionamento de pensamentos e esque-
TCC vêm apresentando um crescimento im- mas disfuncionais vinculados aos domínios do
portante ao longo dos anos. Isso só aumenta transtorno. Assim, utiliza-se o questionamento
a já animadora quantidade de estratégias tera- socrático e também o Registro de Pensamen-
pêuticas dedicadas a diversos transtornos psi- tos Disfuncionais (RPD), que já demonstraram
cológicos, incluindo o TEPT (Beck, 1997). Por utilidade na modificação desses esquemas em
se tratar de uma psicoterapia empiricamente diversos transtornos, inclusive no TEPT (Ca-
validada, os pesquisadores vêm divulgando ballo, 2003; Beck, 2005).
os resultados de sua eficácia no meio acadêmi- As estratégias recém-descritas são padrão
co (Butler et al., 2005). na maioria dos protocolos de tratamento
cognitivo-comportamentais publicados. Há
Estratégias terapêuticas uma discussão na literatura acerca da ordem
de apresentação das técnicas e no manejo de
Há uma série de estratégias a serem utili- comorbidades, mas a exposição e a reestrutu-
zadas no tratamento do TEPT que envolvem ração cognitiva são estratégias presentes na
o entendimento do paciente do modelo cog- maioria dos protocolos (Foa et al., 2000; Taylor,
nitivo e da própria psicopatologia, a remissão 2006; Bryant et al., 2003). Os estudos são rea-
dos sintomas de ansiedade e a organização da lizados com diversas populações, como crian-
memória traumática. Além disso, observa-se ças sexualmente abusadas, mulheres vítimas
a necessidade da reestruturação cognitiva de de violência doméstica, bombeiros, veteranos
crenças negativas sobre o self, mundo e autor- de guerra e sobreviventes de desastres natu-
responsabilização (Taylor, 2006). rais ou catástrofes provocadas pelo homem.
Autores de técnicas efetivas para o trata- Porém, esta revisão encontrou apenas um es-
mento do TEPT, que visam à remissão da sin- tudo de caso com um bancário, que não refere
tomatologia pós-traumática, concordam que a o processo terapêutico, sugerindo a escassez
principal estratégia a ser utilizada é a terapia de pesquisas com esses indivíduos, ainda que
de exposição (Foa et al., 2000; Caballo, 2003), esses profissionais constituam um grupo com
que consiste em fazer com que o paciente re- elevada exposição a eventos estressores poten-
lembre e relate o evento traumático diversas cialmente traumáticos (Bucasio et al., 2005).
vezes no setting terapêutico a fim de auxiliar
na organização da memória traumática e da Bancários vítimas de ataques a banco
emoção vinculada a ela (Taylor, 2006). O au-
mento da ansiedade apresentado pelo pacien- Segundo o relato do Departamento de Co-
te tende a subir na medida em que o relato é municação do SindBancários (2010), foram re-
realizado, chegando a um grau elevado e cain- gistrados cerca de 660 casos de ataques a ban-
do com a continuidade do processo. cos no período de maio de 2006 a julho de 2010,
Além da Terapia de Exposição, também é provocando mortes, ferimentos e traumas.
utilizada a psicoeducação, já bem consolidada Referente ao perfil de bancários com TEPT,
para qualquer outro transtorno, durante a qual se percebe que muitos apresentam algum tipo
o terapeuta explica ao paciente a sintomatolo- específico de sintomas que preenchem os cri-
gia do transtorno e esclarece dúvidas, a fim de térios do DSM-IV-TR, porém com algumas
mostrar que o sujeito não está ficando “louco” características específicas em relação ao perfil
ou que seu problema tem solução. Além disso, pessoal e ao ambiente em que estão inseridos.
é explicado ao paciente o modelo cognitivo no Exemplo disso são as pessoas que não podem
qual a TCC se embasa, observando o papel dos se manter por longos períodos de tempo afas-
pensamentos nas emoções e, destas, no com- tadas do ambiente e das situações relacionadas
portamento (Foa et al., 2000). ao trauma, pois existe a necessidade de voltar

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 4


Patricia Gaspar Mello, Renato Maiato Caminha, Pânila Longhi Lorenzzoni e Christian Kristensen

ao trabalho, mesmo conseguindo licença para sido vítima de um único ataque a banco. Dessa
tratamento quando buscam ajuda especializa- forma, pode ser necessário que as sessões de
da. Algumas agências bancárias nem fecham exposição aumentem de número.
durante o restante do dia em que foram assal- Além disso, o tratamento deve manter um
tadas, mantendo os funcionários obrigados a foco intenso em sintomas de excitabilidade, em
trabalhar e expostos à situação traumática que razão de ser aquilo que, provavelmente, mais
acabaram de vivenciar. Assim, aparentemente, perturba o sujeito. Exercícios para evitar a hi-
o sujeito pode ser percebido como apto a con- pervigilância devem ser desenvolvidos, pois
tinuar seu trabalho por ainda estar exercendo são indivíduos que tendem a verificar constan-
suas funções, sem considerar o prejuízo fun- temente o ambiente de trabalho à procura da
cional evidente em todas as áreas da vida pes- ameaça. A investigação e o tratamento daqueles
soal e/ou profissional desse sujeito. sintomas de evitação que podem não aparecer
Porém, mesmo que os sintomas de evitação tão fortemente devem ser cuidadosos, pois os
não se estendam tão fortemente a situações de sintomas podem estar presentes com menor
trabalho, podem se apresentar em questões de intensidade sem, necessariamente, apresentar
lazer ou mesmo com a família, de forma que o poucos danos. Além disso, sugere-se utilizar as
indivíduo se torne emocionalmente evitativo, técnicas de exposição no momento mais inicial
mesmo que, aparentemente, não esteja evi- do tratamento e as técnicas de reestruturação
tando muitas situações. Além disso, já que ele cognitiva, em seguida a estas, já que os sintomas
precisa encarar diariamente o ambiente parea- de estresse podem ser demasiado invalidantes
do como traumático, é natural que sintomas de para que o sujeito consiga refletir sobre pensa-
hiperexcitabilidade estejam presentes; afinal, mentos e crenças com a ansiedade tão elevada.
trata-se de uma resposta aprendida e utilizada Por fim, no que se refere à reestruturação
frente a ambientes ameaçadores. cognitiva, sugere-se especial atenção ao fator
Os pesadelos e flashbacks também podem relacionado à visão negativa de mundo, já que
ser constantes e causar intenso sofrimento, po- é muito difícil que o bancário não perceba o
rém, como são vivenciados somente pelo sujei- mundo como perigoso, apresentando dificul-
to, seu prejuízo não é observado pelos demais, dades para vê-lo de forma positiva frente aos
o que pode levar a uma falsa impressão de que sintomas do transtorno desenvolvido pela si-
não há consequências mais graves. Problemas tuação traumática.
relacionados ao sono podem estar presentes,
afetando as tarefas que exijam atenção e cau- Considerações finais
sando prejuízos na atividade laboral.
A primeira regra para o tratamento do O TEPT é um dos transtornos psiquiátri-
TEPT é cessar a exposição ao trauma, o que se cos mais prevalentes. O prejuízo causado pelo
torna impraticável pelos bancários, pois con- evento traumático que origina o transtorno e
tinuamente se encontram expostos aos riscos também as consequências da falta de trata-
de um novo ataque a bancos. Assim como é mento são demonstrados em muitos estudos.
impossível trabalhar com crianças vítimas de A existência de particularidades em grupos de
abuso que se mantêm em contato com o abusa- risco deve ser levada em consideração para o
dor, da mesma forma acontece com bancários, tratamento do TEPT. Dessa forma, este estudo
pois necessitam manter-se no local de traba- teve como objetivo explicar as principais estra-
lho, o que significa estar frequentemente em tégias terapêuticas utilizadas para o tratamen-
contato com a possibilidade da ocorrência de to do TEPT, sendo que a população de bancá-
um novo trauma. rios foi escolhida para exemplificar uma série
de peculiaridades do transtorno que precisa
TCC em Bancários com TEPT ser observada durante o tratamento para que
este seja eficaz e cesse o sofrimento do grupo
A TCC precisa ter seu protocolo de trata- de pacientes.
mento adaptado para atingir de forma eficaz a Tendo em vista essas observações, pode-se
população de bancários com TEPT e suas pe- concluir que há uma necessidade de adequar
culiaridades. É importante frisar que as técni- as estratégias terapêuticas vigentes para o tra-
cas de exposição devem ser mantidas, porém tamento cognitivo-comportamental em bancá-
talvez seja importante realizar a exposição rios com TEPT. Embora a maioria dos protoco-
para vários eventos estressores, tendo em vista los já esteja bem elaborada para o tratamento,
que é raro encontrar algum bancário que tenha sugere-se que as sessões de exposição sejam

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 5


Considerações clínicas sobre a psicoterapia cognitivo-comportamental de bancários com TEPT

ampliadas de acordo com a quantidade de ata- DANG, S.T.; NIXON, R.D. 2003. Imaginal expo-
ques sofridos e que, na reestruturação cogniti- sure alone and imaginal exposure with cogni-
va, seja dada especial atenção à visão de mun- tive restructuring in treatment of posttraumatic
stress disorder. Journal of Consulting and Clinical
do negativa e aos sintomas de excitabilidade
Psychology, 71(4):706-712.
aumentada, visto que, segundo Taylor (2006), http://dx.doi.org/10.1037/0022-006X.71.4.706
a reestruturação cognitiva potencializa o efeito BRYANT, R.A.; MOULDS, M.L.; GUTHRIE, R.M.;
da TCC em sintomas fisiológicos. DANG, S.T.; MASTRODOMENICO, J.; NIXON,
No que se refere às limitações deste estu- R.D.V.; FELMINGHAM, K.L.; HOPWOOD, S.;
do, observa-se a impossibilidade de encontrar CREAMER, M. 2008. A Randomized Controlled
publicações direcionadas ao tratamento cogni- Trial of Exposure Therapy and Cognitive Re-
structuring for Posttraumatic Stress Disorder.
tivo-comportamental de bancários com TEPT,
Journal of Consulting and Clinical Psychology,
de forma que as sugestões aqui mencionadas 76(4):695-703.
estão mais relacionadas à experiência clínica http://dx.doi.org/10.1037/a0012616
dos autores. BUCASIO, E.; VIEIRA, I.; BERGER, W.; MARTINS,
Considera-se importante a realização de D.; SOUZA, C.; MAIA, D.; FIGUEIRA, I.; JAR-
um estudo epidemiológico para avaliar a gra- DIM, S. 2005. Transtorno de estresse pós-trau-
vidade da exposição traumática, os sintomas mático como acidente de trabalho em um ban-
mais frequentes e a interferência na qualida- cário: relato de um caso. Revista de Psiquiatria do
Rio Grande do Sul, 27(1):86-89.
de de vida dos bancários vítimas de ataques a http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81082005000100011
bancos. Como última sugestão, não é possível BUTLER, A.C.; CHAPMAN, J.E.; FORMAN, E.M.;
deixar de mencionar a necessidade de estudos BECK, A.T. 2006. The empirical status of cogni-
que elaborem protocolos de tratamento e de tive-behavioral therapy: a review of meta-anal-
pesquisas de efetividade da TCC para bancá- yses. Clinical Psychology Review, 26(2006):17-31.
rios com TEPT. Essa população não deve ficar http://dx.doi.org/10.1016/j.cpr.2005.07.003
desassistida, considerando seu elevado risco CABALLO, V.E. 2003. Manual para o tratamento cog-
nitivo-comportamental dos transtornos psicológicos:
para o desenvolvimento desse transtorno.
transtornos de ansiedade, sexuais, afetivos e psicóti-
cos. São Paulo, Santos Livraria Editora, 681 p.
Referências CREAMER, M.; BURGESS, P.; McFARLANE, A.C.
2001. Post-traumatic stress disorder: findings
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. 1980. from the Australian National Survey of Mental
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Dis- Health and Well-being. Psychological Medicine,
orders: DSM-III. Washington (DC), American 31:1237-1247.
Psychiatric Association, 494 p. http://dx.doi.org/10.1017/S0033291701004287
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. 2000. DOBSON, K.S. 2006. Manual de terapias cognitivo-
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Dis- comportamentais. Porto Alegre, Artes Médicas,
orders: DSM-IV-TR. 4ª ed., Washington (DC), 340 p.
American Psychiatric Association, 944 p. FOA, E.B.; EHLERS, A.; CLARK, D.M.; TOLIN, D.F.;
BECK, A.T.; RUSH A.J.; SHAW, B.F.; EMERY, G. ORSILLO, S.M. 1999. The Posttraumatic Cog-
1979. Cognitive Therapy of Depression. New York, nitions Inventory (PTCI): Development and
The Guilford Press, 435 p. validation. Psychological Assessment, 11:303-314.
BECK, A.T. 2005. The Current State of Cognitive http://dx.doi.org/10.1037/1040-3590.11.3.303
Therapy: A 40-Year Retrospective. Archives of FOA, E.B.; KEANE, T.M.; FRIEDMAN, M.J. 2000.
General Psychiatry, 62:953-959. Effective Treatments for PTSD:Practice Guidelines
http://dx.doi.org/10.1001/archpsyc.62.9.953 from the International Society for Traumatic Stress
BECK, J. 2007. Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Por- Studies. New York/London, The Guilford Press,
to Alegre, Artmed, 348 p. 658 p.
BISSON, J.I.; EHLERS, A.; MATTHEWS, R.; PIL- FOA, E.B.; ZOELLNER, L.A.; FEENY, N.C.; HEM-
LING, S.; RICHARDS, D.; TURNER, S. 2007. BREE, E.A.; ALVAREZ-CONRAD, J. 2002. Does
Psychological treatments for chronic post-trau- imaginal exposure exacerbate PTSD symptoms?
matic stress disorder: Systematic review and Journal of Consulting and Clinical Psychology,
meta-analysis. The British Journal of Psychiatry, 70(4):1022-1028.
190:97-104. http://dx.doi.org/10.1037/0022-006X.70.4.1022
http://dx.doi.org/10.1192/bjp.bp.106.021402 FOA, E.B.; KEANE, T.; FRIEDMAN, M. 2005. Guide-
BRESLAU, N.; KESSLER, R.C.; CHILCOAT, H.D.; lines for treatment of PTSD. Journal of Traumatic
SCHULTZ, L.R.; DAVIS, G.C.; ANDRESKI, P. Stress, 13:539-599.
1998. Trauma and posttraumatic stress disorder http://dx.doi.org/10.1023/A:1007802031411
in the community: The 1996 Detroit Area Survey JAYCOX, L.; ZOELLNER, L.; FOA, E.B. 2002. Cog-
of Trauma. Archives of General Psychiatry, 55:626- nitive–behavior therapy for PTSD in rape sur-
632. http://dx.doi.org/10.1001/archpsyc.55.7.626 vivors. Journal of Clinical Psychology, 58:891-906.
BRYANT, R.A.; MOULDS, M.L.; GUTHRIE, R.M.; http://dx.doi.org/10.1002/jclp.10065

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 6


Patricia Gaspar Mello, Renato Maiato Caminha, Pânila Longhi Lorenzzoni e Christian Kristensen

KESSLER, R.C.; CHIU, W.T.; DEMLER, O.; MERI- SINDIBANCÁRIOS. 2010. Disponível em: http://
KANGAS, K.R.; WALTERS, E.E. 2005. Preva- www.bancariospoa.com.br/Institucional/segu-
lence, severity, and comorbidity of 12-month ranca.asp. Acessado em: 23/08/2010.
DSM-IV disorders in the National Comorbidity TAYLOR, S. 2006. Clinician’s Guide to PTSD: A Cogni-
Survey Replication. Archives of General Psychia- tive-Behavioral Approach. London, Guilford Press,
try, 62:617-627. 322 p.
http://dx.doi.org/10.1001/archpsyc.62.6.617 YEHUDA, R.; DAVIDSON, J. 2000. Clinician’s manu-
KRISTENSEN, C.H.; PARENTE, M.A.M.P.; KASZ- al on post traumatic stress disorder. London, Scien-
NIAK, A.W. 2006. Transtorno de Estresse Pós- ce Press, 68 p.
Traumático e Funções Cognitivas. Psico-USF,
11(1):17-23.
LINDY, J.D.; LIFTON, R.J. 2001. Beyond invisible Submetido: 16/09/2010
walls. New York, Brunner-Routledge, 272 p. Aceito: 09/03/2011

Contextos Clínicos, vol. 4, n. 1, janeiro-junho 2011 7

Você também pode gostar