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Oficina de Análises

PET-REL

Heitor Torres
2011 set 13
(a partir de apresentação elaborada em 2011 out 27)

OFICINA DE ANÁLISES 1
Oficina de Análises
Heitor Torres
O que é uma análise?
Uma análise de conjuntura é um texto breve que visa a explicar um evento do
cenário internacional.

• Quão breve? Pouco mais de duas páginas com espaçamento simples.

O que significa explicar um evento do


cenário internacional?
Explicar é, no sentido mais clássico, encontrar relações de causalidade para tornar
um exemplar — o nosso evento — lógico, compreensível e claro.

• Isso vale até mesmo para eventos hipotéticos.


• "Israel usou uma tática de ataque preventivo contra o Irã" diz muito
pouco sobre o evento — além de ser uma formulação especialmente
sujeita a julgamentos de valor.
• "Israel usou uma tática de ataque preventivo contra o Irã porque se
considerou ameaçado por um país potencialmente detentor de armas
nucleares, que se posiciona reiteiradamente como seu inimigo e que
cogita ataques a um país muito pequeno. Além disso, o precedente dos
bombardeios a unidades militares iraquianas no início dos anos 1980
faz crer que o governo israelense considera essa tática legítima", nesse
sentido, explica o fato.
• O evento se tornou lógico, claro e compreensível porque uma
explicação foi oferecida.

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Como estabelecer relações de causalidade?
Deve-se partir da premissa de que o evento é parte de um fenômeno maior.

O evento, por si só, é único.

• Para submetê-lo a relações de causalidade, é preciso demonstrar que


certos padrões se aplicam a ele.

• Os padrões caracterizam os fenômenos.


• Logo, todo o fardo explicativo de uma análise está no fenômeno — ou
melhor, nos padrões de um fenômeno —, não no evento.

É por isso que o LARI e as análises devem ter como preocupação fundamental
relacionar fato a processo.

• A conjuntura internacional é um conjunto de processos que se


revelam por meio de fatos.

• Para estabelecer causalidade, é preciso adentrar um fato para


evidenciar processos que o tornaram possível.

Como ligar fato a processo em um texto


curto?
Dificuldades aparentes:

• É uma verdade universal que todos os eventos sociais são


exaustivamente multicausais.

• Cada evento carrega consigo milhares de causas que o explicam.


• Isso se torna penosamente claro quando analisados eventos históricos.
• Uma pergunta simples e historicamente bem delimitada — "o que
permitiu que um império como o chinês do século XV tivesse um
avanço científico e tecnológico tão notável em relação aos estados

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europeus da época?" — pode levar a uma obra com mais de 15.000
páginas e 27 volumes [a coordenada por Joseph Needham].

A lição que fica é que é necessário salientar apenas poucas causas para desenvolver
uma análise.

• Torna-se crucial selecionar bem os argumentos.


• No jargão das ciências sociais, é preciso delimitar bem as variáveis em
ação.

Tudo isso pode ser resumido em uma ideia: a de que o recorte analítico deve ser
bem feito.

Como proceder à delimitação de um bom


recorte analítico?
Os elementos de uma análise de conjuntura são

FATO — (ligação fato-processo) — PROCESSO

A qualidade de um recorte analítico está intimamente relacionada à ligação


estabelecida entre fato e processo.

• Ligação original = recorte original = análise original.


• Ligação ilógica = recorte ilógico = análise ilógica.
Quando da escrita de uma análise, devem ser feitas três perguntas, que
normalmente tomam essa ordem:

1. Qual é o fato analisado?

2. Qual é o processo a que esse fato se refere?

3. Como o fato se insere nesse processo?

Perguntas qual recebem respostas diretas.

• Trata-se da descrição.

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• A descrição, dada a extensão de uma análise, deve ser breve.
• Deve ser restrita a um ou dois parágrafos introdutórios e a
informações para sustentar a argumentação, apresentadas nos
parágrafos de desenvolvimento.

Perguntas como recebem respostas elaboradas.

• Trata-se da argumentação.

Como responder a perguntas como?


Por meio de teorias.

Teorias permeiam fato, processo e ligação fato-processo.

Fato e processo são decorrências ontológicas de uma teoria: são exemplares do que há
de relevante para ser observado no sistema internacional.

• Exemplo: Discursos de ameaça só são fatos relevantes porque se ligam


a um processo relevante às teorias construtivistas de segurança, isto é, a
securitização.

A ligação fato-processo é uma decorrência epistemológica de uma teoria: como


abstrair causas de um fenômeno e de sua materialização.

• Exemplo: Discursos de ameaça securitizam as reações de um tomador


de um decisão porque comandam uma reação buscando garantir a
sobrevivência de um ator, por meios bélicos ou diplomáticos.

• A ligação entre o discurso de ameaça e a reação que o securitiza é


produto da abstração construtivista.

Ao definir fato, processo e sua ligação, as teorias delimitam também os níveis de


análise de um argumento: governos, estados, um sistema, indivíduos.

• Logo, diferentes teorias consideram distintos níveis de análise como


válidos e/ou adequados.

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Empregar teorias não significa necessariamente aplicar quadros teóricos de grandes
tradições, como liberalismo, realismo e outro "ismos" com pretensões mais ou
menos universalizantes.

• Teoria, aqui, deve ser entendida como qualquer construção abstrata


que forneça explicações por deslindar causas.

• Teorias com pretensão de explicação parcial dos fenômenos — como


a teoria das vantagens comparativas — e mesmo hipóteses
academicamente consolidadas — como o dilema da ação coletiva —
podem ser empregadas.

Finalmente, empregar teorias não é sinônimo de representar fatos como peões de


um tabuleiro representado de maneira abstrata — ou de construir um esquema de
explicação e simplesmente reproduzí-lo ao leitor. Por dois motivos isso não deve ser
feito: por prejuízos de estilo e de poder explicativo.

• Frases como "segundo a teoria construtivista, o tomador de decisão,


como agente discursivo, é capaz de alterar o curso dos eventos em que
se insere, os quais são moldados linguisticamente" são enfadonhas
para o leitor e, ao desnudar as variáveis em questão, estão mais
sujeitas a contra-argumentações originadas de tradições teóricas
diferentes.

O público para o qual se escreve uma análise de conjuntura aprecia bons


argumentos e tiradas sábias, mas abomina verborragia e academicismos.

• Utilizar bem uma teoria em uma análise de conjuntura é, portanto,


impregná-la de tal maneira com pressupostos e raciocínios teóricos
que a teoria passará passará a ficar invisível.

Os argumentos fluem, parecem lógicos, corretos e naturais e, finalmente, são


capazes de persuadir leitores com opiniões diversas — grandes atributos para um
texto de interesse geral.

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Exercícios
A Economist publica, todas as semanas, artigos com teor mais descritivo — os que
estão no corpo das seções regionais Americas, Middle East and Africa, Asia etc — e
artigos com teor mais analítico sobre atualidades da política internacional e da
economia mundial. Os artigos com teor mais analítico são:

• Os leaders;
• Os editoriais por região (Lexington, Charlemagne, Banyan, Bagehot);
• Os editoriais por área de interesse (Schumpeter, Buttonwood);
• Os artigos de reportagens especiais ou agrupados em briefings.
Nos artigos analíticos, normalmente é possível identificar fato, processo, ligação
fato-processo, teoria subjacente ao texto e recorte analítico — tudo isso em textos
muito curtos e com argumentos incisivos.

• O leader sobre as modalidades de privatização de empresas na China


(2011 set 03) é uma excelente análise de conjuntura. É extremamente
informativo, traz argumentos não só da teoria defendida pelo jornal,
como também em favor do governo chinês, e é muito curto.

• Ler os artigos mais analíticos, identificar os elementos citados e relê-los


é um ótimo exercício para planejar uma análise.

Sobre a inspiração para escrever uma


análise
É impossível sistematizar os processos que geram inspiração e é muito difícil
uniformizar maneiras para estimulá-la. Tenho algumas sugestões que, na ordem
apresentada, podem ajudar nos dois processos:

A) Abundância ordenada de informações: muitos textos lidos, muitas notas feitas


durante as leituras e muitas ideias relacionando textos diferentes quase que
necessariamente produzirão inspiração para uma análise.

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B) Fontes pouco usuais: blogs e tweets de escritores importantes (a Foreign Policy
emprega vários deles) podem trazer informações condensadas e raciocínios
experimentais sobre os eventos recentes, caso a inspiração não venha com as fontes
tradicionais.

C) Seja analiticamente original. A maioria das ideias que surgirão serão derivadas
de textos lidos e talvez até muito parecidas com argumentos conhecidos. Isso é
natural e bom: as ciências sociais são raramente contra-intuitivas. Os bons
exemplares das ciênciais sociais também são analiticamente originais, isto é, capazes
de usar informações e variáveis conhecidas para produzir análises originais. Para
isso, nada de lampejos de inspiração. É necesário conhecer bem as informações
usadas e construir cautelosamente os argumentos, o que demanda leituras atentas,
releituras e notas.

D) Depois de desenvolver o raciocínio, limitar o seu escopo (o seu recorte analítico). A


maioria das ideias que surgirão para uma análise poderão ser uteis também para
artigos ou até livros. Por isso, será fundamental, inescapável e prudente limitar o
seu escopo para um texto ensaístico de 2 ou 3 páginas.

E) Para limitar o escopo, pense mais como um tomador de decisões que como um
acadêmico. Uma análise pode ser vista como um ensaio curto sobre um tópico
atual. Mas também pode ser vista como um relatório analítico sobre um tópico
com interesse político premente. Esses relatórios são marcados pela concisão e
objetividade — qualidades de uma boa análise. Tente escrever imaginando que o
seu texto vai ser entregue a um tomador de decisão que usará seu tempo limitado
para compreender tópicos complexos em uma viagem ou antes de uma reunião.
Use os recursos que chamariam sua atenção: repercussões relevantes, atores
envolvidos, interesses em questão.

F) Releia o texto final e apague tudo que não estiver relacionado ao escopo que
você delimitou. Vítimas comuns são passagens para contextualizar excessivamente
uma informação; especulações relacionadas ao tópico, mas que estão fora do seu
recorte analítico e que, logo, estão precariamente argumentadas; e argumentos
com contra-argumentação automática, ou seja, com fragilidades muito evidentes.

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