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METROLOGIA-2003 – Metrologia para a Vida

Sociedade Brasileira de Metrologia (SBM)


Setembro 01−05, 2003, Recife, Pernambuco - BRASIL

INTERPRETAÇÃO E APLICAÇÃO DAS NORMAS NBR 12240 E


ISO 6789 NA CALIBRAÇÃO DE INSTRUMENTOS DE MEDIÇÃO DE
TORQUE

Rafael S. Oliveira 1 , Luiz C. Cabral de Freitas 1 , Jorge A. P. Cruz 1


1
Laboratório de Força, Torque e Dureza - Inmetro, Duque de Caxias, Brasil

Resumo: O constante desenvolvimento dos instrumentos e Podemos citar alguns exemplos bem característicos desta
equipamentos utilizados para aplicação e medição de torque diversidade de instrumentos:
na indústria em geral, incluindo suas técnicas de uso e
instrumentação, cada vez mais exatas e abrangentes, • transdutores de torque e torquímetros;
qualifica a metrologia em torque como uma das áreas da • torquímetros de alavanca e torquímetros axiais;
mecânica em maior desenvolvimento tecnológico e com
crescente demanda em serviços de calibração. Para o • torquímetros de indicação e torquímetros de estalo
atendimento a esta demanda, é necessária uma correta (quebra);
aplicação e interpretação das normas de calibração destes • alto torque e baixo torque.
instrumentos, de modo a disponibilizar aos laboratórios de
calibração e ensaios, maior confiabilidade na qualificação Atualmente no Brasil a norma NBR 12240:2000 (Materiais
final dos instrumentos medidores de torque. metálicos – Calibração e classificação de instrumentos de
medição de torque) é a única norma utilizada para a
Atualmente, a norma brasileira que trata da calibração e calibração de instrumentos medidores de torque em geral.
classificação dos instrumentos medidores de torque é a NBR Embora o item 2.2 da norma defina instrumento de medição
12240:2000 (Materiais metálicos – Calibração e de torque como um sistema que compreende um transdutor
classificação de instrumentos de medição de torque). Esta, de torque elétrico, mecânico, hidráulico ou ótico [1], a
por ser a única norma nacional tratando de calibração em norma está sendo utilizada também para a calibração de
torque, tem sido utilizada para a calibração e classificação torquímetros. Alguns fatores contribuem para esta situação:
tanto de transdutores de torque quanto de torquímetros. O a) “torquímetro” é uma das palavras-chave identificadas no
propósito deste trabalho é apresentar, por meio de dados cabeçalho da norma; b) a versão atual, segundo o próprio
obtidos em calibrações e medições realizadas no Laboratório cabeçalho da norma, substitui a NBR 12240:1989, que
de Torque do Inmetro, a justificativa técnica para a não tratava em seu escopo da calibração de torquímetros
aplicação da norma NBR 12240:2000 em calibrações de especificamente; c) esta é a única norma nacional que trata
torquímetros e propor a utilização, por parte dos da calibração de instrumentos medidores de torque.
laboratórios, da norma ISO 6789:1992 (Assembly tools for
screws and nuts – Hand torque tools – Requirements and Este artigo tem o objetivo de expor as dificuldades de
test methods) como documento de referência para o adequação dos torquímetros aos critérios de avaliação da
atendimento desta categoria de serviços. NBR 12240:2000, e de propor, por parte dos laboratórios, a
utilização da ISO 6789:1992 (Assembly tools for screws and
Palavras chave: torque, calibração, normalização. nuts – Hand torque tools – Requirements and test methods)
para a calibração destes instrumentos.

1. INTRODUÇÃO
2. METODOLOGIA E RESULTADOS
No estudo da Grandeza Torque, um foco importante é a
diversidade de instrumentos e sistemas existentes para a Para demonstração e avaliação da situação mencionada, um
realização de medições desta grandeza. No âmbito da torquímetro de indicação tipo relógio, de faixa nominal
metrologia, são necessárias a elaboração e adaptação de 5 Nm, foi calibrado no Laboratório de Torque do Inmetro
normas e procedimentos de calibração para estes diversos utilizando-se as duas normas, NBR 12240:2000 e ISO
instrumentos, no intuito de prover maior confiabilidade na 6789:1992. O mesmo sistema padrão foi mantido para as
qualificação destes. Para tal, a avaliação e classificação duas calibrações: o padrão primário com massas calibradas,
apresentadas nas normas devem ser compatíveis com as valor da aceleração da gravidade local e o braço do próprio
características de funcionamento, aplicação final e posição torquímetro como alavanca .
na cadeia de rastreabilidade em metrologia de torque destes
As seções a seguir identificam os pontos importantes das
instrumentos. normas, analisando e comparando condições e resultados
apresentados para a avaliação final do ni strumento, e a
proposta de emprego destas normas dentro da cadeia de entre os pontos e a leitura realizada no instrumento a torque
rastreabilidade em metrologia torque. zero.
Através deste exemplo, podemos observar que a NBR
12240:2000 descreve mais um procedimento de calibração
2.1. Identificação do instrumento e o procedimento de para transdutores de torque do que para torquímetros,
calibração diferentemente da ISO 6789:1992, como apresentados a
seguir.
A identificação do tipo de torquímetro que será calibrado é A norma ISO 6789:1992, orienta a determinação dos
importante na adaptação dos procedimentos e sistemas de carregamentos a partir da identificação do torquímetro a ser
calibração para a sua correta aplicação. A norma NBR calibrado. Para tal, dois anexos são utilizados: Anexo A –
12240:2000 não faz qualquer distinção entre os tipos de Tipo I torquímetros de indicação e Anexo B – Tipo II
instrumentos a serem calibrados, utilizando o mesmo torquímetros de ajuste (estalo). Em cada anexo estão
procedimento de carregamento para todos. A calibração de identificados os grupos de torquímetros, subdivididos pelo
um torquímetro de estalo é um bom exemplo da importância método de operação e medição do torque (exemplos da
da identificação do instrumento calibrado. figura 1). O torquímetro, faixa nominal 5 Nm, utilizado
Um torquímetro de estalo ou quebra (fig. 1a)[2] não pode ter nesta prática é do tipo I (indicação), classe B (relógio).
o mesmo procedimento de calibração que um torquímetro de Com base nos modelos de torquímetros apresentados nos
indicação (fig. 1b)[2]. anexos, o operador pode identificar, por tipo e classe, o
torquímetro que será calibrado e, conforme o item 4.4 –
procedimento de medição – da ISO 6789:1992, estabelecer
as séries de carregamento.
A figura 2 exemplifica os diagramas de carregamento
sugeridos pelas duas normas para o torquímetro de
indicação utilizado na prática deste trabalho. Através destes
diagramas podemos observar a maior praticidade dos
(a) carregamentos estabelecidos pela norma ISO 6789:1992
(item 4.4), sendo aplicáveis inclusive aos torquímetros de
estalo.

(b)
Figura. 1. : Identificação dos torquímetros ISO 6789:1992
(a) torquímetro de estalo, (b) torquímetro de indicação

O torquímetro de estalo é carregado até o valor nominal de


torque e descarregado automaticamente após o desarme,
assim, os itens da norma NBR 12240:2000 relativos ao
procedimento de carregamento, tornam-se insuficientes para
a calibração deste tipo de instrumento, como veremos a
seguir. Figura 2 – séries de carregamentos. (a) NBR 12240:2000; (b) ISO
O item 3.6.4 – medição da força adicional – estabelece que o 6789:1992 (torquímetro tipo I, classe B)
instrumento deve ser carregado três vezes, sucessivamente,
com um torque de no mínimo 8% e no máximo 12% acima
do valor nominal do instrumento, o que não pode ser 2.2. Sistemas de calibração e o padrão de referência
realizado pelo torquímetro de estalo, que atua no máximo
O item 2.3 – padrão de referência – da norma NBR
com o seu valor nominal. 12240:2000 define como padrão de referência aquele
O item 3.7.2 – seleção das faixas de torque – define a
utilizado para gerar ou medir torques aplicados ao
seleção de no mínimo cinco pontos entre 20% e 100% da
instrumento de medição de torque a ser calibrado [1]. Tal
faixa nominal que deverão ser medidos. Alguns definição generaliza a sua aplicação por não especificar que
torquímetros de estalo possuem somente o valor nominal da
tipo de padrão será utilizado para a calibração de um
faixa, impossibilitando este procedimento.
torquímetro ou um transdutor de torque, por exemplo. Ao se
O item 3.7.3 – aplicação de torques de calibração – descreve iniciar a calibração de um torquímetro, é necessária a
o procedimento de aplicação dos torques de calibração
definição clara não só do instrumento padrão a ser utilizado,
selecionados em 3.7.2, com o sentido de aplicação, horário
como também do sistema de calibração, modos de
ou anti-horário, as séries de medição com os torques montagem e aplicação do torque ao instrumento, de forma
crescentes seguidos de decrescentes, o tempo de intervalo
que o sistema seja compatível ao instrumento em calibração,
como vimos na seção anterior.
Para tal adaptação, a norma ISO 6789:1992 define nos itens Cl = a ⋅ r (1)
4.1, 4.2 e 4.3 as características para o sistema padrão, como
por exemplo: a) o desvio máximo permissível ao padrão de Onde r é a resolução do instrumento e a um coeficiente com
±1%; b) a velocidade de aplicação da força ao instrumento; os seguintes valores:
c) as tolerâncias na montagem do sistema (alinhamentos).
Entre estes exemplos, as características de montagem e
alinhamento do sistema são as mais importantes a serem Tabela 1. Valores de a para as respectivas classes
destacadas aqui para uma comparação entre as normas. Coeficiente a Classe
A descrição do alinhamento entre o padrão e o objeto
constante nos itens 3.6.1.2 e 3.6.1.3 da norma NBR 2000 0,1
12240:2000 é insuficiente para uma montagem de calibração 1000 0,2
de torquímetro pois, este alinhamento depende de uma série
400 0,5
de fatores: a) o tipo de aplicação do torque ao instrumento,
pode ser de alavanca ou axial; b) o método de aplicação do 200 1,0
torque, no corpo do torquímetro ou diretamente na conexão 100 2,0
do calibrador; c) as folgas e acomodações entre os 40 5,0
conectores utilizados entre as partes durante a calibração.
É necessária então a definição de tolerâncias na geometria
da montagem, como o exemplo da figura 3 apresentada na O torquímetro utilizado para a prática de calibração neste
norma ISO 6789:1992. trabalho tem o valor de divisão de 0,5 Nm, com uma
resolução estimada de 0,1 Nm1 . Este valor faz com que o
instrumento tenha sua melhor classe a 5,0 , para uma faixa
com o limite mínimo de calibração de 2 Nm (40 x 0,1 Nm) e
máximo de 5 Nm, faixa nominal do torquímetro. Através
deste cálculo podemos observar que para torquímetros, a
resolução é fundamental para a sua classificação segundo a
NBR 12240.
A norma ISO 6789:1992 não faz nenhuma observação sobre
a resolução do instrumento.
Quanto à resolução do padrão, é importante que esta não
seja superdimensionada para a aplicação em calibração de
torquímetro, uma vez que o movimento do ponteiro em
relação ao incremento de torque no sistema padrão seja
imperceptível ao operador.

2.4. Classificação do instrumento

Figura. 3: Identificação segundo a ISO 6789:1992 (a) A classificação final do instrumento calibrado é o ponto de
torquímetro de estalo, (b) torquímetro de indicação. maior divergência entre as normas. A classificação pela
NBR 12240:2000 utiliza como parâmetros: repetitividade,
reprodutibilidade, erro de reversibilidade, erro de zero e erro
2.3. A resolução de indicação (ou interpolação) e a incerteza do padrão
utilizado. O parâmetro utilizado pela norma ISO 6789:1992
Este é sem dúvida um ponto fundamental para a para classificação do torquímetros é o erro de indicação
classificação dos instrumentos segundo a norma NBR calculado para cada ponto calibrado, sendo seu limite
12240:2000. Inicialmente o item 3.2 especifica um admissível convencionado de acordo com o tipo e a classe
espaçamento mínimo de 1,25 mm para a estimativa de um do instrumento, item 3.4 – limite admissível – da norma.
décimo da divisão na escala. Assim, devido à razão entre a Segundo este item, o limite admissível para o torquímetro de
largura do ponteiro e a distância entre os traços do indicação tipo relógio, utilizado na prática, é de ± 4% do
mostrador ser pequena, a resolução estimada de um valor indicado pelo padrão.
torquímetro não consegue alcançar esse valor de 1/10 da
escala, ficando prejudicada e atendendo valores de no A tabela 2 mostra os valores máximos admissíveis para os
mínimo ½ do valor de uma divisão. Esta estimativa da vários parâmetros adotados pela norma NBR 12240:2000 e
resolução é fundamental para o item 3.3 da norma, que a respectiva classificação. A tabela 3 mostra a classificação
define o limite mínimo de calibração (C l ) como o valor a atingida pelo torquímetro referente a cada parâmetro e a
partir do qual o instrumento poderá ser calibrado atendendo classe final em cada ponto da faixa de medição.
à respectiva classe escolhida. É apresentada então uma 1
equação para o levantamento deste valor limite: Neste exemplo, trabalhamos com uma resolução estimada de
0,1 Nm pois era o mínimo notado pelo observador.
Tabela 2. Valores admissíveis para classificação. NBR 12240:2000
Erros máximos admissíveis (%) Limite mínimo Incerteza
Classe de calibração expandida do
Repetitividade Reprodutibilidade Indicação Zero (Nm) padrão (%)
0.1 0,05 0,10 ± 0,05 ± 0,02 200,0 ± 0,02
0.2 0,10 0,20 ± 0,10 ± 0,04 100,0 ± 0,04
0.5 0,25 0,50 ± 0,25 ± 0,10 40,0 ± 0,10
1.0 0,50 1,00 ± 0,50 ± 0,20 20,0 ± 0,20
2.0 1,00 2,00 ± 1,00 ± 0,40 10,0 ± 0,40
5.0 2,50 5,00 ± 2,50 ± 1,00 4,0 ± 1,00

Tabela 3. Classificação atingida pelo torquímetro referente a cada parâmetro e a classificação final. NBR 12240:2000
Pontos da Classificação atingida pelo torquímetro
faixa de Incerteza Classificação
medição Limite mínimo final
Repetitividade Reprodutibilidade Indicação Zero expandida do
(Nm) de calibração
padrão
1,0 5.0 5.0 5.0 0.1 sem classe sem classe
2,0 0.1 0.1 5.0 0.1 sem classe sem classe
3,0 2.0 1.0 5.0 0.1 sem classe 0.5 sem classe
4,0 2.0 1.0 5.0 0.1 5.0 5.0
5,0 1.0 0.5 2.0 0.1 5.0 5.0

Tabela 4. Erros de indicação. ISO 6789:1992

Pontos da faixa Carregamento 1 Carregamento 2 Carregamento 3 Carregamento 4 Carregamento 5


de medição (Nm)
(%)
1,0 -2,5 -2,5 -2,4 -2,7 -2,7
3,0 -2,0 -2,0 -1,3 -2,0 -1,3
5,0 -1,1 -1,1 -1,1 -1,1 -1,1

Depois da análise individual dos parâmetros, o torquímetro


Padrão Primário
foi classificado, ainda que com classe 5.0, somente na faixa
Nacional de Torque
de 4 Nm até 5 Nm.
A tabela 4, calibração referente a norma ISO 6789:2000,
apresenta os valores de erro de indicação calculados para Padrões de
cada ponto da faixa de medição. Todos os valores de erro
Referência
ficaram dentro do limite admissível (± 4%) para este tipo de
torquímetro.
Padrões de
3. PROPOSTA DE RASTREABILIDADE DAS Transferência
NORMAS
Finalmente o artigo propõe aos laboratórios de calibração e NBR 12240:2000
ensaios uma nova configuração da rastreabilidade em torque
em relação à utilização das normas de calibração Calibradores de
apresentadas. Torquímetros
A figura 4 ilustra a sequência de rastreabilidade e a locação
das normas em suas respectivas funções de acordo com o ISO 6789:1992
instrumento a ser calibrado.
Torquímetros

Figura. 4: Cadeia de Rastreabilidade em Torque


4. CONCLUSÃO incorporação desta norma e conseqüente elaboração da
versão ABNT NBR/ISO em português.
É atribuição do Laboratório de Torque do Inmetro orientar
os laboratórios de calibração e ensaios na utilização correta REFERÊNCIAS
das normas referentes aos instrumentos medidores de
[1] Norma ABNT NBR 12240:2000, “Materiais metálicos –
torque. calibração e classificação de instrumentos medidores de
A norma NBR 12240:2000, por ter uma avaliação rigorosa torque”
dos instrumentos, com uma tabela final de classificação
utilizando vários parâmetros, é adequada para a calibração [2] Norma ISO 6789:1992, “Assembly tools for screws and nuts
– requirements and test methods”
de transdutores e calibradores de torque, instrumentos de
fabricação mais exata e aplicação seleta. [3] Oliveira R. S., Freitas L. C. C, Cruz J. A. P., Jornada J. A.
Devido ao processo de fabricação dos torquímetros e de sua H., “Implementação da Cadeia de Rastreabilidade em
aplicação final, último estágio na cadeia de rastreabilidade, Metrologia de Torque no Inmetro”, Metrosul III, outubro
concluímos ser a ISO 6789:1992 a norma mais adequada 2002.
para sua calibração.
As duas normas não possuem em seu escopo uma orientação Autor: Engenheiro Mecânico, Rafael Soares de Oliveira, Inmetro,
para o cálculo da incerteza de medição dos instrumentos Av. Nossa Senhoras das Graças 50, Xerém, Duque de Caxias, tel.:
calibrados. Este fato é significativo e apropriado para uma (21) 2679-9037, fax: (21) 2679-1505, rsoliveira@inmetro.gov.br.
discussão mais ampla, já que o conceito de incerteza de
medição está cada vez mais difundido, nacionalmente e Autor: Físico, Luiz Carlos Cabral de Freitas, Inmetro,
internacionalmente, entre os vários setores da pesquisa e lccabral@inmetro.gov.br
indústria.
A norma ISO 6789:1992 ainda não possui uma versão em Autor: Engenheiro Mecânico, MSc., Jorge Antônio da Paz
português. Sua versão mais atualizada, ISO 6789:2003, está Cruz, Inmetro, jacruz@inmetro.gov.br.
em fase final de revisão e já foi proposto a ABNT a