Você está na página 1de 88

Editor

Valdinei Aparecido Ferreira

Comissão Editorial
Eduardo Galasso Faria, Fernando Bortoleto Filho,
Gerson Correia de Lacerda, Shirley Maria dos Santos
Proença, Paulo Proença e Valdinei Aparecido Ferreira.

Teologia e Sociedade é editada pelo


Seminário Teológico de São Paulo da
Igreja Presbiteriana Independente do Brasil
E-mail: teologiaesociedade@seminariosaopaulo.org.br
Endereço: Rua Genebra, 180 – CEP 01316-010
São Paulo, SP, Brasil
Telefone (11) 3106-2026
www.seminariosaopaulo.org.br
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA
PUBLICAÇÃO
Teologia e Sociedade / Seminário Teológico de São Paulo /
Vol. 1, nº 1 (agosto 2004). São Paulo: Pendão Real, 2004.

Publicação Semestral
ISSN 1806-5635

1. Teologia – Periódicos. 2. Teologia e Sociedade.


3. Presbiterianismo no Brasil. 4. Bíblia. 5. Pastoral.

Revisão: Gerson Correia de Lacerda


Planejamento Gráfico, Capa e
Editoração eletrônica: Sheila de Amorim Souza
Impressão: Potyguara

As informações e as opiniões emitidas nos artigos assinados


são de inteira responsabilidade de seus autores.
Apresentação

O
primeiro número da Re-
 Valdinei Aparecido F

vista Teologia e Socieda-


de é a materialização de
um sonho antigo do Seminário Teoló-
gico de São Paulo e a ocasião para o
lançamento não poderia ser melhor – segundo artigo, o Rev. Eduardo
o ano do Centenário do Seminário. Galasso Faria discute a relação entre
Em geral os seminários protestantes a teologia da criação e a crise ecológi-
Ferreira

trabalham numa constante tensão ca. A discussão é feita na perspectiva


erreira - Editor

entre o serviço que prestam à igreja, da teologia sistemática. O terceiro ar-


na formação de pastores, e sua voca- tigo, escrito pelo Rev. Áureo
ção propriamente acadêmica. Sabe-se Rodrigues de Oliveira, destaca a vi-
que, em alguns momentos, formação são de João Calvino a respeito da
e pesquisa se aproximam e que, em espiritualidade cristã. O autor descre-
outros, se distanciam. Não poderia ser ve detalhadamente aspectos da
diferente com a nossa Centenária espiritualidade medieval popular e,
Casa de Profetas. Teologia e Socieda- com base na proposta de João
de deseja oferecer sua contribuição, Calvino, apresenta sugestões para a
ainda que modesta, ao labor teológi- espiritualidade contemporânea. A vi-
co feito no Brasil. são de Santo Agostinho sobre a His-
Os artigos deste número estão di- tória é objeto de exame no artigo
vididos nas principais áreas do traba- intitulado “Se Roma perecer, o que
lho teológico. No primeiro, o Rev. se há de salvar? - Santo Agostinho e a
Archibald M. Woodruff, exegetica- Queda de Roma”. O autor, Rev. Ger-
mente, examina as ocorrências e o sig- son Correia de Lacerda, demonstra
nificado da expressão “Evangelho de que a resposta elaborada por Santo
Deus”, no Evangelho de Marcos. No Agostinho em a “Cidade de Deus”

























sobre a queda de Roma é uma verdadei- ○

ra filosofia da história. Deixando o cam-



po da história, encontramos o quinto ar-


tigo, escrito pela Reva. Shirley Maria dos



Santos Proença, que examina os “usos”



da Bíblia no aconselhamento pastoral. Por


fim, no campo da sociologia, temos o ar-



tigo sobre o “desencantamento do mun-



do em Max Weber”. Max Weber é um


dos fundadores da sociologia da religião



e um autor fundamental para a compre-



ensão das afinidades entre protestantis-


mo e modernidade.

Esperamos que Teologia e Sociedade



continue caminhando na fecunda tensão



entre formação e vida acadêmica. Afinal


de contas, todo extremismo está fadado



ao fracasso diante da plenitude da vida!























Sumário

6 O EVANGELHO DE MARCOS
Archibald Mulford
Woodruff

16 A CRIAÇÃO MANIFESTA A
GRAÇA DE DEUS
Eduardo Galasso Faria

28 NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE


EM CALVINO
Áureo Rodrigues de Oliveira

46 “SE ROMA PERECER, O QUE SE


HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO
E A QUEDA DE ROMA
Gerson Correia de Lacerda

60 A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO
PASTORAL
Shirley Maria dos Santos Proença

74 DESENCANTAMENTO
DO MUNDO EM MAX WEBER
Valdinei Aparecido
Ferreira
O Evangelho de Marcos como
evangelho de Deus 1

E
vangelho de Deus2 é
uma frase encontrada  Archibald Mulford W
no trecho programático
do Evangelho de Marcos, logo no iní-
cio (1.14). A frase pode nos surpre-
ender. Evangelho de Jesus Cristo
(1.1) é uma frase melhor conhecida
e soa mais natural para os nossos ou-
Woodruff

vidos. Somos, ainda, filhos do sécu-


oodruff

lo XX, o século da teologia farta literatura científica sobre a


cristocêntrica. Entendemos, de an- cristologia do Evangelho de Marcos3
temão, que o Evangelho de Marcos e a quase inexistência de literatura
procura responder à pergunta: sobre a teologia de Marcos. Mas jus-
“Quem é Jesus?” Nada nos surpre- tamente esta frase surpreendente,
ende menos que a existência de uma Evangelho de Deus, pode ser frutí-
fera quando usada como ponto de
1
A pesquisa deste artigo se baseia em uma partida para uma leitura deste Evan-
palestra intitulada “God, Mission and Partnership
in the Gospel of Mark”, proferida em inglês em 30 gelho que procura ressaltar as linhas
de outubro de 2002 em Águas de Lindóia – SP mestras da mensagem de Marcos. É
num retiro chamado “Mission Co-Workers’
Retreat”, da PC(USA). esse o objetivo do presente ensaio.
2
As traduções do grego neste artigo são do autor. Outras colocações gerais sobre Mar-
Ver esp. Jack Dean KINGSBURY, The Christology cos, como sendo uma narrativa da
3

of Mark’s Gospel (Philadephia: Fortress, 1989).


4
A bibliografia sobre Marcos é enorme, e o autor Paixão com longa introdução, uma
deste ensaio tem trabalhado com Marcos durante biografia, um romance grego ou uma
os últimos 15 anos. Um relato completo da
bibliografia usada seria difícil de se fornecer aqui. novela judaica, servem a fins que são
As propostas são originais? Esperamos que o
sejam. Pelo menos, o que está relatado aqui foi
alheios a este ensaio, e não precisa-
por mim observado. mos nos deter nelas.4





O método empregado é eclético, mas na perspectiva dele, mais importa. E o




tira proveito da “estrutura” ou “textura” que mais importa tem algo a ver com



do Evangelho de Marcos na sua íntegra, Deus.

O EV
PÁGINAS 6 A 15
REVIST
REVISTA

entendendo que Marcos tem uma coe-

EVANGELHO


rência considerável, desde 1.1 até 16.8,
Deus fala,

ANGELHO DE MARCOS COMO EV


A TEOL

seja a coerência de uma composição lite-

TEOLOGIA
ora por um


rária, seja a coerência de um mosaico



muito bem feito.
profeta, ora

OGIA E SOCIEDADE



O título do ○

diretamente
do céu

livro já abre

Não demora muito, e o leitor/ouvin-


o jogo

te de Marcos ouve as palavras Eis que


O nome de Deus já está destacado


eu mando... (1.2). São palavras de pro-


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


na parte final do primeiro versículo de

fecia pelo tom e pelo contexto e o eu da


Marcos, que caracteriza Jesus Cristo frase só pode ser Deus mesmo. Marcos

EVANGELHO

como Filho de Deus. Este primeiro primeiro promete uma palavra escrita do

ANGELHO DE DEUS
versículo serve como título da obra, e a

profeta Isaías e, ainda antes de citar as


frase Filho de Deus já abre uma ques- palavras famosas sobre voz e deserto

tão, pois o seu sentido não era tão óbvio (Isaías 40.3), insere outras palavras de

para os primeiros leitores/ouvintes. Eles


profecia, de Êxodo 23 e Malaquias 3,


não eram, como nós, filhos de uma cul- criando assim um contexto para Isaias,

tura e de uma educação cristãs. Para eles, que identifica a voz com o mensageiro

um filho de Deus pode ser um rei, um (ou anjo)5 que Deus prometeu, primei-

grande místico ou uma pessoa muito fiel


ro, para o êxodo do Egito e depois, para


Paulo
a Deus. Os primeiros leitores/ouvintes
aulo
aulo,, SP
o tempo final.

de Marcos por certo vislumbravam algo, Desta forma, após a voz autoral do

mas ficou a cargo de Marcos explicar isto.


título e a referência ao profeta Isaías, a


Ou melhor, mostrar. primeira voz ouvida no Evangelho de


Archibald Mulford W

Ao ver este título, o ouvinte pode Marcos é a voz de Deus, ouvida através

recordar um outro, o “título” que Pilatos


de profecia.

pendurou sobre o homem Jesus ao



condená-lo: rei dos judeus. O título ou-



torgado por Pilatos não é errado, mas 5


A palavra normalmente traduzida por anjo
anjo, no

fundo, significa mensageiro


mensageiro, tanto no grego como no
Woodruff

também não capta o que mais importa


oodruff

anjo
hebraico. Em conseqüência, um “anjo
anjo” prometido

no homem Jesus. Porém Marcos, ao cor- pode ser um mensagerio humano, João Batista. De

fato, o mensageiro de Mc 1,2 pode ser ou João ou o


rigir o outro título, destaca aquilo que, próprio Jesus.







7





Entende-se que os profetas ouviram Cafarnaum. Ganhamos perspectiva ao
O EVANGELHO DE MARCOS COMO EVANGELHO DE DEUS



a voz de Deus no contexto de visões. perceber que evangelho é um quase-si-



Marcos não tarda em trazer o leitor/ou- nônimo de anúncio. Um evangelho é um


vinte o mais próximo possível de uma anúncio bom, forte, oficial. O evange-



experiência semelhante à que foi vivida lho de Deus é o anúncio de Deus. É o



pelos profetas. O que Jesus viu é descri- anúncio que anuncia a Deus ou o anún-


to para o leitor/ouvinte: o céu abre e não cio que Deus anuncia?7 Considerando



só abre, como abre de cima em baixo. que Deus já entrou nesta história falan-



Falta pouco para Jesus ver um trono. do, a segunda opção deve ser a certa. Se


Enquanto o Espírito desce sobre ele (o o anúncio no seu conteúdo versa sobre



Espírito tem semblante de pomba ou a Deus e o que Deus está fazendo, este



descida é semelhante à de uma pom- fato é simples conseqüência do fato pri-
ba), Jesus ouve a voz que diz Tu és meu ○

○ mário que é: Deus está falando e se re-
filho, o bem-amado, resolvi favorecer- velando.

te (1.11). A voz retorna bem depois, no Como a narrativa nesta perícope tem

meio do evangelho, quando a transfigu- caráter de resumo, as palavras de Jesus



ração fornece um outro momento, com resumem a mensagem que ele procla-

visual extraordinário (9.7): Este é meu mou naquela fase. Neste resumo-de-en-

filho, o bem-amado. Dai ouvidos para sino figura o reino. O reino também é


páginas 6 a 15

ele. de Deus. Jesus fala, ao longo da primei-



Obviamente, Deus vai se fazer pre- ra fase do seu ministério: O tempo cum-

sente no Evangelho de Marcos através priu-se e o reino de Deus chegou per-


de Jesus. Mas, primeiro, Deus age e fala to. Não é nosso objetivo neste ensaio

diretamente. Em seguida, Jesus vai re- resolver todas as questões relacionadas



presentar a presença de Deus. ao termo reino, mas tentaremos contri-


buir com algumas observações. É uma



O anúncio e palavra que se encontra bem pouco no



Evangelho de Marcos, nem mesmo no


o reino são

cap. 13, que trata das tribulações e das



glórias do futuro. Existem duas fortes


dele

referências à vinda futura do Reino, em


A frase citada no início deste artigo



aparece em Marcos 1.14-15. As palavras:



Jesus foi para a Galiléia, proclamando 6


Como outros “resumos” em Marcos, 1,14-15 não

resume informações que são fornecidas de outra


o evangelho de Deus servem como “re-

maneira. Apesar da generalidade, estes resumos são


sumo”6 de um período de atividade de bem informativos.



Jesus antes do chamamento dos pesca-


7
Em termos de gramática, trata-se de um genitivo

objetivo ou um genitivo subjetivo? A resposta deste


dores e antes da sua estréia em

ensaio será: um genitivo subjetivo.






8







9.1 e 11.10. As duas parábolas do Reino sus também têm que entrar, mas a ênfa-

REVISTA


tratam, na verdade, da vinda do Reino se em Marcos não cai sobre isto, pois o



(4,26-29.30-32). Várias vezes aparece a que precisa acontecer com eles está acon-


expressão entrar no Reino (9.47; 10.23- tecendo com uma outra linguagem.8



25), ao lado da expressão receber o Rei- A conseqüência da proximidade do

TEOLOGIA E SOCIEDADE


no (10.15). O Reino chegou (ou quase) Reino é a necessidade do arrependimen-


ao bom escriba, que não está longe do to. Arrepender-se e crer no anúncio es-



reino de Deus (12.34). Os discípulos já tão muito ligados, são quase a mesma



receberam o “mistério” do reino, que coisa. O Reino está próximo, Deus está


nada mais precisa ser do que a informa- próximo, tudo muda, inclusive você.


ção que Deus já estabeleceu o propósito ○

Oração a

de que o Reino chegue. Realmente, o


que podemos dizer refere-se à vinda do


Deus

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Reino, não respondendo à questão sobre

“O que é o Reino?” mas “O que é o Rei-


importa

no chegar?” O Reino é de Deus, e o que



Deus quer e o que vai trazer saberemos No Evangelho de Marcos a oração a


Deus é um dos fatores mais dramáticos,


de outra maneira e sem precisar de mui-


ta retórica. Mais ainda: este termo pare- se não o maior. Jesus olha para o céu ao

ce ter um lugar especial no encontro en- abençoar os pães e os peixes quando da


alimentação dos cinco mil (6.41), e faz


tre Jesus e os que o encontram para va-


ler, pela primeira vez. Esta linguagem é questão de orar em outros momentos

central no início de sua pregação. Para (1.35; 14.32-39). O último clamor de



aqueles que ouvem só parábolas de Je- Jesus é dirigido a Deus (15.34). No en-

tanto, é possível olhar para o céu de ma-


sus, o mistério não lhes é dado ainda


(4.11), talvez porque a hora vai chegar neira errada, como fazem os fariseus de

para eles num outro momento (4.26-29). Dalmanuta, que querem um sinal do céu

(8.11). A oração certa é feita com fé, e


O Reino tem que ser recebido como por


uma criança (10.15) – como novidade. mais especificamente com fé em Deus



Em Jerusalém é aclamado o reino, quan- (11.22)9, o que não surpreende o leitor/


ouvinte.

do Jesus vem chegando de fora (11.10).



Para o bom escriba, ouvir que não está


longe do reino (12.34), deve ser uma



grande surpresa. Finalmente, José de 8


Em Mateus e Lucas, a linguagem do Reino é mais

freqüente, aparecendo muito em textos da Fonte Q.


Arimatéia é caracterizado como “espe- A análise proposta aqui é somente para Marcos.

rando pelo Reino” (15.43) pois ele é sim-


9
A expressão em grego, pistis theou
theou, merece um

comentário maior, que não podemos fornecer neste


patizante, menos chegado a Jesus do que

momento, por causa do genitivo theou


theou. Cf. dia

os seus discípulos. Os discípulos de Je- pisteos Iesou Christou


Christou, em Rm 3.22.




9







O conflito é negando a ressurreição mas ridiculari-
O EVANGELHO DE MARCOS COMO EVANGELHO DE DEUS



zando-a. O Deus deles é distante, mui-


sobre Deus,


to sagrado mas inoperante no mundo.


O mesmo assunto volta no momen-
o Poder
Poder



to dramático do confronto entre Jesus


Que o evangelho de Marcos está re-


e o sumo-sacerdote, em que este, de-


pleto de conflitos, disso ninguém duvi- sesperado porque o interrogatório vai



da. Intérpretes divergem, no entanto, mal, pergunta (14.61) És tu o Messias,


sobre a natureza destes conflitos. Os


o filho do Bendito? O Deus deste sa-


conflitos de Jesus registrados em Mar- cerdote é o Bendito, sagrado, no céu,



cos seriam todos com o império roma- gozando de uma perfeição que não exis-


no, ou com o judaísmo, ou com Sata-

te na terra. O Deus dos epicureus gre-

nás, ou com o Templo e os sacerdotes. ○
○ gos é também assim. Jesus replica: Eu
Na verdade, os conflitos envolvem vári- sou, e tu verás o Filho da Humanida-

os grupos diferentes e a particularida-


de assentado à direita do Poder e vin-


de de cada grupo recebe um tratamen- do com as nuvens do céu (14.62). Para



to diferenciado. Os escribas, quando Jesus, não é o Bendito mas o Poder, que


cumprem bem a sua vocação, não estão


não fica longe da bagunça que é este


longe do reino, e os seguidores de João mundo, mas manda um ser interessan-



Batista recebem um tratamento bran-


páginas 6 a 15

te, que vem. Engana-se quem despreza


do (2.18-22). Jesus manda os fariseus


o poder de Deus, e engana-se quem não


entregarem a Deus o que é de Deus


espera que Deus aja.


(12.17). Somente um grupo Jesus diz O motivo do poder de Deus tam-



que é muito errado: o dos saduceus bém aparece em 10.27 (“Tudo é possí-

(12.27). E por que são eles muito erra-


vel para Deus”) e em 9.1 (“até que ve-


dos? Porque eles desconhecem as Es- jam o reino de Deus vindo em poder”).

crituras e o poder de Deus (12.24).


Considerando que os saduceus são mui-


Os conflitos

to versados nas Escrituras, seu desco-


do Filho de
Filho

nhecimento deve ser explicado pelo se-



gundo termo do binômio: eles desco-


Deus

nhecem o poder de Deus. O fato está



visível no comportamento deles, não só O Evangelho de Marcos relata dois



grandes ciclos de conflitos: o primeiro,


de 1.40 a 3.6 e o segundo, no capítulo



10
Os conflitos de Jesus em Marcos não se esgotam 12 do qual, parcialmente, acabamos de

nos dois grandes ciclos. Os outros são grandes


conflitos com autoridades vindas de Jerusalém para tratar.10 Em geral, o início do evangelho

a Galiléia, em 3.22-30; 7.11-21. de Marcos prepara o leitor/ouvinte para







10







o final, e os dois ciclos de conflitos ca- na sua estréia em Cafarnaum (1.22,27),

REVISTA


bem plenamente neste esquema. No ca- autoridade esta que se manifesta no en-



pítulo 2, um desfile de opositores dife- sino e nos exorcismos, sendo sempre a


rentes vão entrar em conflito com Jesus: mesma.



escribas, escribas dos fariseus, discípu- Se o primeiro ciclo trata da autorida-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


los de João Batista junto com discípulos de do Filho da Humanidade, o segundo


dos fariseus, os fariseus, uma combina- ciclo não trataria da mesma questão? A



ção de farsiseus e herodianos, uma com- resposta, embasada na moldura do segun-



binação não só improvável como do ciclo, aponta para uma diferença en-


marcante. No capítulo 12 o desfile é uma tre os dois ciclos. O título de Jesus que


combinação de fariseus e herodianos, ○

está em jogo é diferente, e a diferença
saduceus e um escriba. Considerados vai ter uma conseqüência enorme. O tí-

juntos, estes dois blocos têm uma estru- tulo em jogo no segundo ciclo é “Filho

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


tura maior: o primeiro desfile começa de Deus”.

com escribas, e o segundo termina com Na parábola dos vinhateiros, o senti-


escribas; o primeiro desfile termina com do do título Filho de Deus está saindo

uma combinação de fariseus e herodianos do armário, por assim dizer. O leitor/



e o segundo desfile, retomando o tema ouvinte já conhece o armário. Na pará-


dos conflitos, começa com a mesma com- bola dos vinhateiros, o sentido do título

binação. Filho de Deus está se tornando claro. O



O leitor pode perguntar então: os dois leitor/ouvinte já conhece o contexto. Por


ciclos de conflito tratam da mesma ques- um lado, a voz do céu já anunciou o fato

tão? A questão seria, talvez, sobre a pes- (1.11; 9.7). Os demônios também sabem

soa de Jesus, de aceitá-lo ou não, ou de da filiação de Jesus (3,11; 5,7). A curio-



aceitá-lo ou não como Messias. A julgar sa colocação do demônio de Cafarnaum


pela moldura11 do primeiro ciclo, a ques- (1.24), de que Jesus é “o Santo de Deus”

tão envolve a pessoa de Jesus mesmo. deve ser vista como uma variante do

Na primeira perícope do ciclo (2.1-12), mesmo título. O Santo de Deus ou Fi-


foi afirmada a autoridade do Filho da Hu- lho de Deus enlouquece os demônios



manidade para perdoar pecados (2.10),



e na penúltima perícope do ciclo foi afir-



mado que o Filho da Humanidade é Se- 11


Por moldura (em inglês, “framing”), entendo o

nhor do Sábado (2.28). A questão do pri- início e o fim de um trecho maior, tomados juntos,

ou uma feicão específica deste início e fim, que


meiro ciclo, portanto, refere-se justa- fornece o contexto do trecho e marca os seus limites.

mente à autoridade do Filho da Huma- 12


Pelo contexto em Marcos, o Filho da Humanidade

deve ser Jesus. Existem textos nos Evangelhos em


nidade, que só pode ser Jesus.12 Jesus,

que o Filho da Humanidade, representado como


por sua vez, acaba de demonstrar a sua uma figura apocalíptica, não tem identidade

garantida com o Jesus que fala sobre o futuro


autoridade (a mesma palavra de 2.10) escatológico.






11







porque Deus enlouquece os demônios, 37, depois do diálogo com o bom escriba.
O EVANGELHO DE MARCOS COMO EVANGELHO DE DEUS



e com a presença de Jesus o próprio Deus Esta pequena perícope vai fechar a mol-



se faz presente. Ainda mais: os demôni- dura. Acabou-se a fila, já passaram os


os são usurpadores de espaços (sinago- fariseus com herodianos, saduceus e o



ga, terra) que são de Deus e Jesus ex- bom escriba e, diz o texto, ninguém mais



pulsa-os. No templo Jesus também ex- ousava questioná-lo (12,34b). Com isso,


pulsa usurpadores de um espaço, a co- o leitor/ouvinte deverá perceber que



meçar pelos cambistas (11.15-17). Jesus está agora saindo das controvérsi-



A moldura do ciclo de Marcos 12 abre as como tais e passando a oferecer o seu


com a parábola dos vinhateiros e o desa- ensino, ensinando o que ele quer. Quan-



fio sobre a pedra rejeitada. Na parábola, do isto aconteceu na primeira parte de



o filho do dono do vinhedo vem receber Marcos, Jesus passou a ensinar por pa-
o aluguel em nome do pai. Os alvos da ○

○ rábolas (capítulo 4), depois de passar
parábola são as autoridades do templo pelo primeiro desfile de opositores (2.1-

que acabaram de questionar a Jesus so- 3,6), receber a primeira ameaça de mor-

bre a expulsão dos cambistas (11.27). te (por parte de incompetentes, 3.6; cf.

Esses sacerdotes aristocráticos13, escribas 6.14-29), fulminar contra a inquisição



e anciãos são também donos de proprie- vinda de Jerusalém (3.22-30), e mos-


dades, vinhedos e outras fazendas.14 Eles trar-se imune às idéias de sua família


páginas 6 a 15

naturalmente torceriam pelo dono do (3.21,31-35). Dali para a frente vêm as



vinhedo, que tem dificuldades para re- parábolas, que são ensinos dele não

ceber o aluguel; eles também mandam provocados pelos conflitos.


servos e filhos para receberem aluguéis. Desta vez (12.35-37) é diferente:



Mas esta parábola é uma parábola de in- Jesus toma a iniciativa de desafiar os

versão15, e eles vão perceber logo que escribas sobre a questão do Messias. “Os

torcer pelo dono do vinhedo da parábola escribas” dizem que o Messias é Filho

é cair numa armadilha. O vinhedo é, na de Davi (descendente de Davi) e Jesus



verdade, a Judéia e o templo em parti- questiona-os citando o Salmo 110. En-


cular; os maus vinhateiros são eles, en- tende-se que o autor do Salmo é Davi, e

carregados dos cuidados com o templo



de Deus, a quem desrespeitam. No fim,



entendem que a parábola é contra eles 13


“Sacerdotes aristocráticos” é uma tradução de

archiereis, normalmente traduzido como “sumos


archiereis
(12.12). O Filho de Deus acabou de che-

sacerdotes”. O termo aparece repetidas vezes no


gar ao templo, que é o vinhedo de Deus, plural e se refere aos membros das famílias

sacerdotais mais prestigiadas de Jerusalém.


para fazer cobranças. Quais cobranças, o Em tese, sacerdotes não devem possuir terras,

14

leitor/ouvinte aguarda para saber.


“pois Javé é a herança” deles. Na prática, como


Flávio Josefo demonstra, eles possuíam terras.


O leitor vai se lembrar do motivo Fi-

15
Adaptação da expressão em inglês “parable of

lho de Deus ao chegar a Marcos 12.35- reversal”.






12







o Salmista chama o Messias de “meu (Deuteronômio 6.4-5), o mandamento

REVISTA


Senhor”, o que é incompatível com a de amar a Deus. Se pairava uma dúvida



opinião dos escribas. O Messias é tam- sobre os fariseus e herodianos, desta vez


bém Senhor, sentado à direita de Deus. não há dúvida: o bom escriba aceita este



Filho de Deus no início do desfile, à di- mandamento da boca de Jesus.17 Cabe

TEOLOGIA E SOCIEDADE


reita de Deus depois do desfile, Jesus é lembrar que Jesus chegou a Jerusalém


marcado como estando bem próximo a em nome do Senhor (11.9).



Deus. Assim se fecha a moldura do desfi- Lembranças da cobrança de Deus



le de opositores. Que Jesus é Filho de são encontradas em outros momentos


Deus, a confissão do Centurião (15.39) do evangelho de Marcos também: o


vai reforçar. ○

templo é minha casa (11.17). Os ver-
Dentro desta moldura, o Filho de dadeiros irmãos e as verdadeiras irmãs

Deus, se não estiver exatamente cobran- fazem a vontade de Deus (3.35). Os “hi-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


do aluguel do vinhedo, está fazendo co- pócritas” abandonaram a palavra e o

branças, em duas perícopes separadas mandamento de Deus em favor de tra-


(12.13-17,28-34a), que por sua vez for- dição humana (7.6-13). O que Deus

mam a moldura que cerca (e, cercando, juntou, que nenhum homem separe

destaca) a primeira afirmação do poder (10.9). Ninguém é bom a não ser Deus

de Deus (12.18-27, já apresentada).16 Na (10.18). Pedro não pensa as coisas de



primeira destas cobranças, o assunto é Deus, mas as coisas humanas (8.33).



tributação, pois os fariseus e herodianos Fica demonstrado, então, que em


questionam a legalidade de pagar impos- Marcos 12 o Filho de Deus apresenta



tos a César. A resposta de Jesus é mui- as cobranças de Deus, com uma afirma-

to mais que uma saída inteligente da ção do poder de Deus em lugar de des-

famosa armadilha, pois Jesus inverte a taque, no centro. Em cada perícope den-

questão. Será que os fariseus e tro da grande moldura (12.1-12,35-37),



herodianos estão pagando a Deus o que a ênfase cai sobre Deus. Nestas

é de Deus? O texto pode ser lido como


uma condenação deles, mas ao pé da



letra não passa de um desafio. Futura-


16
A estrutura concêntrica pode ser visualizada

mente, estas lideranças do povo de Deus assim:



serão desafiadas a devolver a Deus o que A – JESUS E DEUS: parábola dos vinhateiros

(12.1-12)
é de Deus.

B – COBRANÇA: confronto sobre tributos (12.13-17)


C – PODER DE DEUS: confronto com saduceus


Na segunda cobrança (12.28-34a),

(12,18-27)

o bom escriba pergunta: Qual dos man- B’ – COBRANÇA: o primeiro mandamento (12.28-34)

A’ – JESUS E DEUS: Salmo 110 (12.35-37).


damentos é o primeiro [em importân-

17
Em Lc 10.25-29 um escriba recita este

cia] de todos. A resposta de Jesus é mandamento para Jesus. Marcos é diferente, e


coloca Jesus a falar estas já famosas palavras ao


recitar o judaiquíssimo xem’a escriba.






13







perícopes o leitor crítico procura em vão um assunto, abre-se outro. Ou melhor,
O EVANGELHO DE MARCOS COMO EVANGELHO DE DEUS



por detalhes que apontem para a im- reabre-se uma questão. A questão da



portância de Jesus. Jesus nestas autoridade de Jesus abriu-se no primei-


perícopes mostra muita habilidade18 no ro desfile de conflitos atrelada ao título



debate, bem como um jeito de inverter Filho da Humanidade, como já vimos,



sempre as questões. Este Jesus fala com e não vai se fechar nos últimos capítu-


autoridade, mas o leitor/ouvinte de Mar- los de Marcos sem este título, que vol-



cos já espera isto. Nas controvérsias do ta com previsões de glória (13.26;



primeiro desfile no capítulo 2, uma 14.62). Na segunda destas previsões,


questão pode ficar resolvida por um dita ao sumo-sacerdote, o Filho da Hu-



milagre de Jesus que confirme a autori- manidade estará assentado à direita do



dade do Filho da Humanidade, mas no Poder, quer dizer, à direita de Deus. Lá,
segundo desfile, no capítulo 12, a auto- ○

○ com um título que não é Filho de Deus,
ridade que resolve as questões é de a leitura do Salmo 110 receberá uma

Deus, que resolve sem ser mencionada explicação maior.20


e sem outros sinais e milagres.19



O resultado é diferente da nossa



expectativa. Facilmente pensamos que


chamar Jesus de Filho de Deus é uma




páginas 6 a 15

maneira de responder à questão Quem



é Jesus? Facilmente pensamos que cha-



mar Jesus de Filho de Deus é uma ma-


neira de engrandecer Jesus e de dizer



que Ele é muito importante. Porém, o



que acontece é que, quando o título Fi-


lho de Deus está em consideração, uma



outra questão está sendo respondida.



Esta outra questão é: Deus está fazen-


do o quê no mundo? Mandando seu Fi-


18
Um grego pode dizer deste Jesus que ele é deinos

legein, poderoso ao falar.


legein
lho com cobranças.

19
Mateus, diferentemente de Marcos, relata que

Realmente, o que Jesus proclama no Jesus também fez milagres no templo.



templo pode ser chamado de anúncio Se for aceita a proposta que o Messias sentado à
20

direita de Deus em 12,35-37 é a mesma figura do


de Deus. A perícope que encerra os

Filho da Humanidade sentado à direita de Deus em


14,62, uma consequência é que as perícopes


conflitos do Filho de Deus (12.35-37)

cristológicas 8,27-30.31-33 apresentam, juntas, a


deixa a questão sobre Jesus sem con- mesma mensagem de 12,35-37: o Messias é melhor

entendido como Filho da Humanidade. Um estudo


clusão, mas com uma nova provocação

recente da relação entre estes dois títulos é: Paul


tirada do Salmo 110 sobre o Messias DANOVE, “The Rhetoric of the Characterization of

Jesus as the Son of Man and Christ in Mark”, em


sentado à direita do Senhor. Fecha-se Biblica, Roma, 2003, v.84, n.1, p.16-34.




14







O Centurião

REVISTA



encerra o



assunto


TEOLOGIA E SOCIEDADE

Um dos momentos mais dramáticos



do Evangelho de Marcos é a “confissão”



do centurião em 12.39: De verdade,


este homem era Filho de Deus. O



Centurião é, provavelmente, experien-
te no serviço dele, assistiu a outras tor- ○

turas e outras mortes. Agora ele perce-



be alguma coisa no último grito de Je-



sus e faz a afirmação que, por estar tão

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


próxima do final do Evangelho de Mar-



cos, o leitor/ouvinte vai lembrar. É fácil



perceber esta afirmação como


cristológica, como a dizer que Jesus foi



um ser extraordinário, que é provavel-



mente a chave da cristologia de Mar-


cos.21 Porém, o resultado de um estudo



do capítulo 12 é outro: a “confissão” é



teológica. Este homem era Filho de



Deus. Quer dizer: Deus esteve aqui.
























Eis a tese de Kingsbury, op.cit.


21




15


A criação manifesta
a graça de Deus

V
ivemos um tempo
em que a consciên- Eduardo Galasso F
cia ecológica mundial
se manifesta e chama atenção com
urgência para os perigos que o pla-
neta terra (nossa casa) enfrenta e o
que isto pode significar para o fu-
Faria
aria

turo da humanidade. Previsões ca-


tastróficas bastante pessimistas, ou
realistas como diriam alguns, indi- pessimista. A doutrina da providên-
cam que, continuando as práticas do cia divina parece esquecida e sem
ser humano como andam, pratica- atualidade. Tudo parece indicar que
mente estaremos destruindo o que o mundo pode ser destruído mes-
temos de belo no planeta ou não mo e o melhor seria aguardar o além.
teremos mais recursos para os nos- A falta de uma leitura mais conso-
sos descendentes. ante com o ensino bíblico tem cria-
Do ponto de vista cristão, os do apatia e desencanto como tam-
questionamentos clamam para o en- bém dificultado o surgimento de
sino bíblico acerca da criação, da uma teologia que permita uma com-
providência, do destino da terra e preensão atual das questões resul-
dos seres viventes, bem como para tantes dessa nova situação. Daí, a
uma revisão das tradicionais aborda- pequena sensibilidade de muitos na
gens da teodicéia e do problema do igreja para se envolver e atuar a fim
mal. Para muitos, caminhamos para de testemunhar a ação providencial
uma catástrofe final neste mundo de Deus para preservar o mundo
como escape ou única possibilidade criado. Neste escrito, procuramos
salvadora em uma visão bastante nos estender sobre a reflexão teo-





lógica reformada que, nos últimos tem- e movido por interesses egoístas, tem




pos, indica um caminho diferente, evan- provocado enormes prejuízos para si



gélico e bastante esperançoso para o mesmo com o esgotamento da natu-

A CRIAÇÃO MANIFEST
PÁGINAS 16 A 27
REVIST
REVISTA

mundo criado por Deus e mantido pela reza, sua fauna e flora. A terra está



sua providência. sendo destruída. As águas dos mares

A TEOL

Uma nova leitura teológica do tes- e rios estão sendo envenenados e os

TEOLOGIA

temunho bíblico acerca da criação tem ecossistemas se acham ameaçados. O



proporcionado uma elucidativa reflexão consumo exagerado de camadas

MANIFESTA
OGIA E SOCIEDADE


teológica, que merece ser examinada e populacionais privilegiadas tem au-


desenvolvida. Alguns teólogos têm res- mentado a poluição, o clima tem mu-


saltado ora a doutrina da encarnação de ○

dado, as áreas de plantio perdem sua
Deus, ora a idéia de promessa e espe- condição de fertilidade, a água deixa

A A GREAÇA DE DEUS

rança dentro de uma nova visão da de ser potável. Sobre o ser humano

escatologia cristã. Ora se fala da natu- paira a ameaça de uma catástrofe eco-

reza como expressão do ser de Deus lógica e nuclear. Pela forma irrespon-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


(visão sacramental), ora da criação con- sável como é tratada, a terra sofre e

tínua com novos céus e nova terra (res- corre perigos cada vez maiores. A

surreição) juntamente com a chegada do humanidade tem mantido com a na-



reino de Deus. O primeiro ponto me tureza um relacionamento pouco ami-


parece ser a necessidade de tomarmos gável e responsável, prejudicando a



consciência da gravidade da situação sobrevivência biológica de muitos.



que o ser humano com a sua ganância Quantas não são as espécies animais

tem criado para, em seguida, reconhe- que desapareceram e continuam a



cermos a parte que nos cabe no que vem desaparecer a cada dia? Com os paí-

Eduardo Galasso F

acontecendo e, então, recriarmos a ses industrializados veio a destruição



orientação que como cristãos temos da natureza e hoje, com as armas nu-

Paulo
aulo
aulo,, SP
desenvolvido na igreja, com reflexos em cleares, os perigos são ainda maiores.

toda a sociedade ocidental e no mundo. O mesmo tem acontecido nos relaci-



Faria

onamentos sociais, na maneira de pen-


aria

sar e construir os valores que possibi-


A crise ecológica

litem uma vida cultural e política sau-



O mundo atual vive enormes proble- dável. Sem dúvida, o ser humano é

mas com relação ao meio ambiente na parte de todo um sistema global e


terra, lar dos seres humanos no univer- deveria ser o primeiro a lutar pela exis-

so. Em sua relação com o mundo exteri- tência verdadeiramente humana que

or o ser humano, atuando com meios no entanto, se encontra grandemente


tecnológicos cada vez mais sofisticados ameaçada.









17





contribuição à teologia protestante e
A CRIAÇÃO MANIFESTA A GRAÇA DE DEUS



ecumênica na atualidade, observa que “a



crise ecológica do mundo moderno par-


te dos modernos países industriais... que



surgiram no âmbito da cultura predomi-



nantemente determinada pelo cristianis-


mo” (Doutrina Ecológica da Criação,



1993, p. 42). Isso quer dizer que, de



certa forma, o modo como o cristianis-


mo tem compreendido e explicado o



mundo e o papel do ser humano nele,


Crise ecológica e

contribuiu para crise ecológica em que

cristianismo ○

○ estamos envolvidos. O “sujeitai a terra”
no âmbito de “uma fé bíblica da criação
Durante séculos, a teologia judaico-

mal-entendida e mal usada” (p. 43) le-


cristã tem pensado em Deus como um vou as pessoas ambiciosas a se atribuí-



ser absoluto e transcendente, criador e rem poder semelhante ao do Deus todo-


senhor, de modo muito mais monoteísta



páginas 16 a 27

poderoso, no sentido de justificar a sua


do que trinitário. De certa forma, so- maneira imprópria de usar o poder para

mente o Deus Pai tem sido apresentado atender apenas aos seus interesses ime-

como o criador e senhor da criação. Sen-


diatos.

do Deus absoluto, aparece como o seu


A fé cristã, como está representada


único criador e preservador. O Filho no cristianismo europeu e norte-ameri-


aparentemente teria iniciado sua atuação


cano, “não está isenta de culpa na atual


como redentor muito depois e o Espíri-


crise mundial.” O mundo passou a ser


to, apenas depois. Com a entrada do tratado como propriedade humana quan-

pecado, a criação foi corrompida e, a par- do deveria ser recebido como “emprés-

tir dessa ênfase, faz-se uma diferencia-


timo” para ser cuidado como um jardim.


ção entre Deus e mundo alienado, que Na verdade, o que parece existir é uma

acabou se tornando o fundamento concepção antropocêntrica de mundo (p.


justificador para uma atitude de explo-


56) em que todas as coisas teriam sido


ração predatória da natureza e de domí-


criadas por causa do ser humano, enten-


nio irresponsável. O ser humano, feito à dido como “coroa da criação” de forma

imagem de Deus, passou a relacionar o


errônea e não a partir do amor e para a


seu papel frente à criação, como de do-


glória de Deus.

mínio inquestionável sobre a terra. Com tal pressuposto, a visão do Deus



O teólogo reformado alemão, Jürgen bíblico foi desaparecendo para ser subs-

Moltmann, que tem dado uma original







18







tituída por uma imagem distorcida, ide-

REVISTA


ológica, como fruto de uma compreen-



são conveniente a interesses vários. Ou-


tras acusações são feitas ao cristianismo



e à teologia cristã pelo descaso com que

TEOLOGIA E SOCIEDADE


a natureza é tratada no ocidente. Exis-


tem mesmo os que afirmam que só os



naturalistas, que não acreditam em Deus



e aceitam este mundo como a única rea-


lidade existente, sem preocupação com


o além, se preocupam com o que está ○

A Trindade na
Trindade

acontecendo. Outros ainda chegam a di-


zer que o cristianismo, muito mais vol-


criação

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


tado para o além e o futuro, é “irremedi-

Não há dúvida de que precisamos de


avelmente antiecológico”. Embora se re-


conheça que “a base religiosa para uma uma nova abordagem da doutrina da cri-

teoria ecológica certamente é rica de fon- ação que, atenta aos fundamentos bíbli-

cos, evidencie de forma mais pertinente


tes bíblicas e tradicionais”, também se


afirma que os teólogos nem sempre po- o evangelho da salvação anunciado em



dem “apresentar convincentes razões nosso Senhor Jesus Cristo. Há os que


afirmam que os reformadores estavam


teológicas para que a responsabilidade


ecológica seja levada a sério” ( Haught, tão preocupados em formular uma dou-

2000). trina correta da justificação e da reden-


ção que se esqueceram da doutrina da


Por outro lado, a doutrina da criação


criação. Para Moltmann, necessitamos de


tem sido compreendida de modo


dualista, praticamente colocando em uma doutrina cristã da criação que en-



departamentos separados o plano da cri- cha de esperança e favoreça uma “con-


dição de viver de forma agradável a exis-


ação e o da redenção. É tempo de se


perguntar se os textos bíblicos, muitas tência e as relações descontraídas e pací-



vezes, ao serem tirados de seus contex- ficas entre Deus, a pessoa humana e a

natureza” (p. 22). E, para isso, seria ne-


tos, não foram utilizados apenas para jus-


cessária uma nova maneira de se pensar


tificar a ganância das pessoas e de gru-


pos econômicos. sobre Deus. Assim, “Deus na verdade,


não está separado do mundo mas, sem



se confundir com ele (panteísmo), está



no seu centro. Por isso, é preciso ensinar



a “imanência de Deus no mundo.” È pre-


ciso saber que Deus está presente no







19







mundo e o mundo está presente em vida” (p. 58). Esse (re)conhecimento, ao
A CRIAÇÃO MANIFESTA A GRAÇA DE DEUS



Deus. E é preciso compreender a “cria- contrário do saber dominador, promove



ção no Espírito” que no futuro, condu- intensa e genuína forma de comunhão


zirá a uma “comunhão ecológica univer- solidária.



sal, não violenta, pacífica e solidária” (p. Outras questões estão relacionadas



31). com o ato da criação de Deus e têm afe-


De maneira geral, a doutrina da cria- tado nossa maneira de lidar com a natu-



ção é exposta a partir dos dois primeiros reza. Como encarar, por exemplo, o pro-



capítulos de Gênesis e sua expressão te- blema do mal na criação? E o drama do


ológica na história da igreja está ligada ao pecado?



Credo dos Apóstolos: “Creio em Deus



Pai todo-poderoso, criador dos céus e da
terra”. Uma observação mais acurada, no ○

entanto, ensina que desde o princípio a



criação tem sido afirmada como um ato


da Trindade. Tudo se origina do Pai por



meio do Filho e no Espírito. A comunhão




páginas 16 a 27

entre Pai e Filho (Jo 10.30) e o Espírito


pode ser recuperada e bastante clareada



através do conceito de pericórese (João



Damasceno, século VIII), que se explica



pela compenetração e comunhão eterna


entre eles. Nessa pericórese está presen-



te de maneira plena a comunhão e a in-



tensidade da vida, não de modo estático


mas dinâmico, “como absoluta paz daque-



le amor que é a fonte de tudo o que vive...”



fazendo com que o dom do amor nos al-


cance também na teologia da criação, para



que nos sintamos partícipes dela, como



comunidade. Moltmann lembra o dito



de Agostinho que “nós (re)conhecemos


na medida em que amamos.” Nessa for-



ma de conhecimento em que se “admira,



maravilha e ama, não nos apossamos das


coisas, mas reconhecemos a independên-



cia das mesmas e participamos de sua








20







Karl Barth (The Triumph of Grace in the

REVISTA


Theology of Karl Barth. 1956), apresen-



ta um capítulo sobre doutrina da cria-


ção do teólogo suíço, “O Triunfo da



Graça na Criação”, que merece ser ana-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


lisado e reproduzido em algumas de suas


ênfases.



Enquanto os teólogos ortodoxos es-



tavam preocupados em mostrar a queda


e a superação da inimizade entre a mu-



lher e a serpente (Gn 3.14-15) por meio
Criação e graça

de uma redenção futura, a contribuição


de Barth foi mostrar como a criação já


No mundo teológico, antes de


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Moltmann e como uma das primeiras tem manifestados em si os sinais da re-

abordagens renovadoras e corretivas da denção, apontando para o triunfo da gra-


ça de Deus de tal forma que podemos


fé criacionista, está a Escola Dialética,


no século passado. O teólogo reformado dizer que nela já estava presente a pro-

suíço Karl Barth (1886-1968) está en- posta da redenção.


O relato da criação dificilmente pode


tre os que desenvolveram uma nova com-


preensão dessa doutrina, com amplas im- ser compreendido adequadamente com

plicações para o tempo em que vivemos. o auxílio do pensamento aristotélico, pre-


ocupado em provar a existência de Deus,


Uma boa parte de sua Dogmática Ecle-


por meio de uma “causa primeira”,


siástica (II,1 e IV) foi dedicada à com-


preensão da criação, suas questões e im- cosmológica, na origem de todas as coi-



plicações. Barth, que para estranhamento sas, mas sim pelo testemunho bíblico

sobre a salvação que nos vem por inter-


de alguns exegetas, interpreta de modo


cristológico os três primeiros capítulos médio de Jesus Cristo. Para Barth, não

de Gênesis, elaborou uma doutrina é possível falar no ato criador de Deus


de modo isolado, como cosmologia ou


cristológica da criação enfatizando que


Cristo, como verdadeiro Deus e parte da como uma questão para reflexão teoló-

Trindade, atua na criação de tal forma que gica, à parte do pacto da graça estabele-

esta só pode ser compreendida a partir cido em Jesus Cristo.


Assim, falar da história da criação é o


dele. O teólogo reformado holandês


G.C. Berkouwer, que analisou o pensa- mesmo que falar da história da salvação

mento de Barth em um importante li- (p. 53). A criação em si não tem sentido

a não ser à luz da encarnação de Jesus de


vro, ainda não traduzido para o portugu-


ês, O Triunfo da Graça na Teologia de Nazaré. É através do pacto feito com o








21







O caos e as
A CRIAÇÃO MANIFESTA A GRAÇA DE DEUS



trevas




O caos e as trevas são tratados inici-



almente por Barth como uma realidade



existente no limite da criação de Deus,


do seu lado de fora. Como ele afirma,



eles formam uma realidade que tem exis-



tência apenas no limite. O que não é bom


ser humano por meio de Jesus Cristo que não foi criado, e se vamos admitir a sua


a criação e o homem devem ser compre-


existência “devemos dizer que é somen-


endidos. O importante, pois, não são ver-

te o poder do ser que emerge do não di-

dades ontológicas ou cosmológicas ○
vino”. Só pode existir como algo que foi
explicativas sobre a criação do mundo,

rejeitado. A terra “sem forma e vazia”


mas o ato da graça de Deus que por meio


(Gn 1.2) não tem a ver com a existência


de Cristo, antes da criação, decide man- de algo que Deus teria utilizado na cria-

ter comunhão com o ser humano e com ção, mas seria um abismo, um “nada”,

ele faz uma aliança. O pacto precede a



páginas 16 a 27

uma escuridão. Portanto, nada que indi-


criação e revela a obra sempre graciosa e que uma teoria cosmológica dualista con-

reconciliadora de Deus. Antes do mun- trapondo bem e mal, mas o Sim triun-

do ser criado, já existia a decisão de Deus


fante de Deus, pelo qual o perigo e ame-


de, em Cristo, manter comunhão com o aça à criação são vencidos. “Sem forma e

ser humano. Por esse motivo é que vazia” (Gn 1.1) refere-se muito mais ao

Berkouwer fala de um “triunfo da gra-


mundo que Deus não criou e sim des-


ça” na teologia de Barth ( p. 56).


prezou, excluindo essa possibilidade te-


No princípio de tudo está a vontade nebrosa. No entanto, essa sombra, sobre


de Deus em Cristo, que desejou a exis-


a qual Deus passou e rejeitou, pode se


tência do cosmos e, nele, o ser humano


tornar realidade na medida em que o ho-


em comunhão com Deus. Tudo o que mem faz a escolha errada e dela se ena-

fosse neutro ou oposto à vontade divina mora. Essa liberdade do ser humano é o

se transformou no caos, “o mundo im-


“risco inegável” que Deus resolveu cor-


possível em si”. Aí a explicação da rea- rer e do qual não teve medo.



lidade do mal, intimamente relaciona- Apesar disso, a criação da luz, que faz

da com a existência das trevas. “A pos-


a separação das trevas, é a grande e deci-


sibilidade excluída (o caos e as trevas)


siva marca na obra de Deus. Ela torna


é, porque está excluída, uma realidade impossível a existência das trevas. “O dia

que existe no limite, o limite exterior,


é o tempo da salvação, o dia bom de


daquilo que Deus criou.” (p. 57)


Deus, não o tempo do mal... A luz bri-






22







lha nas trevas e, portanto, a natureza vel realidade. E, assim, o homem faz a

REVISTA


não é abandonada a si mesma mas per- escolha irracional e absurda que é a pos-



manece sob da graça de Deus” (p. 59). sibilidade impossível do pecado. Aí o


Toda a criação existe sob a luz que vem homem exerce a “absurda capacidade”



de Deus e como primeira obra (Gn 1.3) de se submeter à influência do caos, des-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


em sua criação é o seu “Sim à criatura”. crita em Gn 3. O pecado é “a invasão do


O que Deus fez mostra a sua bonda- caos, a revolução do nihilismo”, o algo



de manifesta no pacto da graça feito com errado que não tem o mínimo direito de



o ser humano e a criação e que tem como se realizar. Mas isso não deriva do mun-


centro Jesus Cristo e sua misericórdia. do criado por Deus nem da liberdade


Para Barth, Ele é a luz que inunda toda a ○

concedida ao homem. A liberdade con-
criação e significa o triunfo da graça. Como cedida ao homem é a liberdade saudável

temos em Gênesis 1.31, “viu Deus tudo que nunca pode conduzi-lo à destruição.

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


quanto fizera, e eis que era muito bom”.As É a liberdade de decisão que lhe permi-

trevas e o caos só têm lugar na criação te “ser voluntariamente obediente, de


como realidades rejeitadas e escarnecidas. acordo com a sua criação”. Por isso, o

Aqui é levantada a questão da realidade e pecado não pode ser explicado. O peca-

da existência do mal, pois embora tenham do é um mistério e, em relação com a


sido rejeitados “caos e trevas são reais e criação do homem, ele é simplesmente

então o triunfo do Sim não significa que o caos, trevas.



mundo não esteja no pecado ou que este- Embora a Bíblia fale do pecado, do

ja pleno de luz.”. mal e da morte, o que se pode dizer é



Do mesmo modo, Barth rejeita a idéia que Deus é o vencedor “desse absurdo,

de que o homem tenha sido criado com dessa possibilidade impossível...”. Mas,

a possibilidade de escolher entre o bem mesmo existindo a realidade do caos, é


e o mal, ou seja, a possibilidade do livre preciso muito cuidado para não enxergá-

arbítrio. A liberdade concedida ao ho- lo onde ele não se encontra. Ou seja, o



mem “não é a liberdade de escolher en- caos não existe como algo negativo que

tre obediência e desobediência”, entre o faz parte da criação, mas como algo es-

bem e o mal. Não existe para o homem tranho que precisa ser vencido. E é só

um livre arbítrio neutro. A liberdade lhe dessa forma que a realidade pode ser

foi dada “exclusivamente com o propó- compreendida. Para Barth existe uma

sito de ser verdadeiramente obediente”. harmonia na criação e esta inclui o as-



O que acontece é que o homem não é pecto negativo que está no limite da vida.

invulnerável e essa sua vulnerabilidade O caos pertence à obra criada. Para o


faz com que as coisas do lado do caos gnosticismo, ao contrário, as trevas cons-

constituam uma ameaça real.Então, o pe- tituem o caos ameaçador que submete a

cado torna-se uma realidade, uma horrí- boa criação de Deus ao mal.




23







mundo, embora imperfeito, está sob o
A CRIAÇÃO MANIFESTA A GRAÇA DE DEUS



poder da ação reconciliadora de Deus”.



Mesmo tendo esses dois aspectos – ne-


gativo e positivo – a criação não participa



do caos. O lado das trevas apenas mos-



tra o caos no limite do que vivemos. Por


causa da bondade de Deus manifestada



concretamente na eleição e encarnação



de Jesus Cristo, não podemos identifi-


car o lado tenebroso com o caos ameaça-



Em Jesus Cristo, dor. Daí porque os dois lados da criação



constituem a boa criação de Deus, em
a vitória sobre o ○

○ oposição ao caos.

caos Todos os aspectos da criação – choro,



riso, derrota e êxito, morte e nascimen-


Como vemos, Barth não nega que to – constituem a boa criação de Deus, o

existe um aspecto negativo da criação, oposto do caos. A harmonia da criação


que é o seu lado tenebroso,e que beira o



páginas 16 a 27

inclui o limite negativo que está no limi-


caos. O choro, a derrota, a morte, o so- te da vida. O caos não constitui o polo

frimento estão presentes mas não dei- oposto da boa criação de Deus, em uma

xam de constituir a boa criação de Deus.


espécie de dualismo. Ele só tem existên-


Esse lado tenebroso pode até ter afini-


cia por causa da rejeição que está implí-


dade com o caos, mas não identidade. O cita na eleição de Deus. Da parte de Deus

mundo imperfeito, a parte carente da só podemos esperar boas dádivas e gra-


criação, as trevas e a miséria da existên-


ça. É por isso também que toda a criação


cia são diferentes do caos ameaçador. é um hino de louvor ao criador que fez

Mesmo ameaçada e em perigo, toda cri- todas as coisas muito boas. As trevas e o

atura é algo, nunca é o “nada”. A criação


caos ameaçador não podem submeter a


em sua totalidade é boa sim, como está boa criação de Deus, como ensinavam

em Gn 1.31: “Viu Deus tudo quanto fi- os gnósticos.


zera, e eis que era muito bom”. É a me-


Em sua Dogmática, Barth ilustra o


lhor possível e o próprio criador quis


que quer dizer sobre a bondade da cria-


manter a contradição da existência cria- ção referindo-se à música de Mozart, que



da. Pode-se então falar, isto sim, da mi- apreciava de modo especial. Para ele, a

séria da existência, de um duplo destino


música desse grande gênio musical de-


que tem sua base na vontade divina. via ser adotada pela teologia, já que com

Esses dois lados da realidade consti- ela foi capaz de perceber e expressar as-

tuem o teatro da ação divina mas “o


pectos da boa criação de Deus que a or-






24







todoxia e os reformadores não enxerga- afirma que o caos não foi criado mas “es-

REVISTA


ram. No tempo em que ocorria o trágico tabelecido”. E isso nada tem a ver com a



terremoto de Lisboa (1755) quando mi- criação do bem e do mal. Por isso o caos


lhares morreram e as pessoas pergunta- não é o eterno antagonista do poder divi-



vam onde estava Deus, ele continuava a no. Na cruz esse dualismo está excluído.

TEOLOGIA E SOCIEDADE


expressar musicalmente um lado da cri- Em Cristo, Deus tomou sobre seus om-


atura que estava no limite, mas não era o bros essa contradição ameaçadora e a der-



mal. Barth vê aí uma música que expres- rotou. A fidelidade de Deus para com a



sa a harmonia da criação, onde está in- criação se manifestou triunfante ao ser


cluído o aspecto negativo e o limite da pronunciado o “haja luz!”


vida. São trevas é certo, mas não é o caos ○

Em Cristo, diz Barth, temos a reden-
dos gnósticos. ção vitoriosa sobre o caos para já e não

Embora a tristeza nos alcance no li- como possibilidade futura. O medo e a



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


mite do mal, a luz triunfante de Cristo melancolia podem querer prevalecer em

raia sobre o mundo. O caos na verdade é nós, mas isto não é a fé cristã. A existên-

a realidade não-existente, pela qual Deus cia de um otimismo cristão tem lugar,

passou e rejeitou. O caos não é criação mas não resulta de qualquer visão super-

de Deus e “a base de sua existência é ficial e sim da alegria que vem de Jesus

somente o não querer de Deus”. A ver- Cristo. Ele tem a ver com “a alegria do

dadeira obra de Deus se encontra na cri- triunfo divino revelado na salvação do



ação, na eleição e na sua graça. O caos mundo pela primeira obra de Deus cha-

existe como sua antítese, sua obra alie- mada à existência, a luz”. Na verdade,

nada, o seu não querer. O caos é uma para o teólogo suíço, o cristianismo não

realidade impossível e intolerável. Por- tem vivido com seriedade a alegria dessa

tanto, é uma possibilidade real, mas não condição triunfante e por séculos tem

desejada por Deus. A vitória sobre ele só errado, não sendo obediente a essa vi-

pode ser alcançada pela graça de Deus. são. Ao ser rejeitado em Cristo, o caos

Contra o caos Deus pronuncia o seu Não foi esvaziado e agora seu único papel é o

ao mesmo tempo que diz o seu Sim à de inimigo derrotado. Não devemos nos

criação. Em sua misericórdia, Deus, atra- iludir com o seu real poder (vencido) que

vés de Jesus Cristo, se pronuncia contra ainda é atuante, porém aparente. Em



a ameaça caótica à sua criação. Aí temos Cristo, mantém-se o triunfo de Deus na


o triunfo sobre a contradição que o caos separação entre luz e trevas. Com Ele,

representa. O caos só existe à esquerda Deus não permite a desintegração da sua



de Deus. Não é sua criatura embora seja criação. Aí está a transformação que dá

real e, mesmo assim, está sujeito ao seu vida ao mundo, superando as coisas ve-

poder. É justamente por não ser criatura lhas que se passam e trazendo o reino de

de Deus que ele existe. Assim, Barth Deus.






25







sério. Eles se manifestam como o reino
A CRIAÇÃO MANIFESTA A GRAÇA DE DEUS



da mentira (Jo 8.44), como imitação do



reino dos céus e seus anjos. No entanto,


principalmente no NT, eles são mostra-



dos como um exército derrotado e em



fuga. Satanás caiu como um relâmpago


e o reino está próximo! É preciso viver a



seriedade e a alegria dessa confissão triun-



fante que nasce da obediência. Por não


ser obediente a essa visão, durante sécu-



los o cristianismo tem errado.


Os demônios,

Quanto ao problema da origem do

o mal e o pecado ○

○ mal, Barth diz que para ele não temos
resposta. O que temos, e isso nos parece
Quanto aos demônios como adversá-

suficiente, é a possibilidade da conquis-


rios de Deus, é preciso vê-los apenas “de ta do mal com o triunfo da graça na cria-

relance”, diz Barth. Demorar-se nisso é ção, por intermédio de Jesus Cristo.

o que os próprios demônios desejam.



páginas 16 a 27

Nesse contexto, Barth ainda trata do


Eles querem ser importantes no estudo pecado. A base de sua existência é o não

da teologia, mas para eles devemos olhar querer de Deus. A verdadeira obra de

com rapidez, sem nos deter. Nada de se


Deus é a criação, a eleição, a sua graça.


querer construir uma demonologia. Mas


Embora não se queira negar a sua reali-


também não precisamos ficar negando a dade ou seu caráter horrível, o pecado é

sua existência, como fez o Iluminismo.


a obra da negação divina. Sem a Palavra


A Bíblia trata deles, mas faz isso princi-


de Deus, o homem está desesperada-


palmente rejeitando-os ou falando da luta mente sujeito à tragédia da existência hu-



contra eles. Para nós, o importante é sa- mana. O pecado é a realidade impossí-

ber que o mal é “essencialmente o caos”.


vel e intolerável. É o fator anormal que


É o elemento de contradição que conti- se esforça por barrar o caminho de aces-



nua a existir ao lado de Deus. so do homem à graça. Para entender o


Os demônios existem como o caos


quanto ele é sério, devemos olhar para a


em sua manifestação dinâmica. Existem


cruz de Cristo. Mas, ao mesmo tempo,


pelo fato de que Deus, ao dizer Sim a si temos de enxergá-lo à luz da derrota que

mesmo e às suas criaturas, necessaria-


lhe é impingida pela graça triunfante.


mente diz Não a eles. Mesmo assim, con-



tinua Barth, o caos e os demônios se apre-



sentam como algo que deve ser levado a








26






REVISTA






TEOLOGIA E SOCIEDADE










As coisas velhas se tor de Jesus Cristo podemos ver a base e



o começo de tudo, bem como o destino


passaram

original do homem para a salvação como


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Entender o pecado não é se deixar o sentido e a base da vontade do cria-



dominar pelo pessimismo, mas dor” (Berkouwer, p. 73). Este é o triun-


fo que Deus opera sobre o caos. Em Cris-


compreendê-lo à luz do amor de Deus


em Jesus Cristo, na criação da luz e na to, Deus tomou a contradição e ameaça



rejeição das trevas e na obra da reconcili- sobre seus ombros e as derrotou com o

seu Não triunfante. Esta é a fidelidade


ação. O ato da reconciliação se consuma


no triunfo da graça (separação entre tre- de Deus para com a sua criatura. O sen-

vas e luz). Na verdade, o pecado só pode tido dessa vitória está no Haja Luz! Essa

é a transformação que dá vida ao mun-


ser conhecido à luz da reconciliação e do


do. As coisas velhas se passaram, é o


pacto graça que se encontram na base


mais profunda da criação. Também a cântico que encontramos na teologia de


Barth!

doutrina do pecado só pode ser compre-



endida se estiver precedida da doutrina


de Cristo. A graça é maior que o pecado.



Nem o aumento da transgressão e a re-



beldia anulam a relação graciosa de Deus



com os seres humanos. Onde abundou


o pecado superabundou a graça. Este é o



milagre do Deus que é “por nós”. O tri-


BERKOUWER, G.,C. The Triumph of Grace in the


unfo da reconciliação em Cristo é o tri- Theology of Karl Barth. London, Paternoster Press,

1956.HAUGHT, J.F. Deus após Darwin. Uma


unfo da criação.

Teologia Evolucionista. Rio, José Olympio, 2002.


Em Cristo, temos “Deus conosco”, o


MOLTMANN, Jurgen . Doutrina Ecológica da Criação


milagre da história. “No evento reden- – Deus na Criação, Petrópolis, Vozes, 1993.






27


Notas sobre a espiritualidade
em Calvino

M
uitas previsões fo-
ram feitas no sen- Áureo R
tido de que a religião
Rodrigues

tenderia a desaparecer na medida que


odrigues de Oliveira

o ser humano fosse instruído e edu-


cado, não mais necessitando assim das
suas explicações para ordenamento
do mundo ou para a construção de
uma sociedade mais justa. Profecias
como estas foram abundantes desde
meados do Séc.XIX entre círculos
iluministas, marxistas, positivistas e bito reformado, em meio a essas
até existencialistas. Todavia, contra- pressões, há um empenho no senti-
riando todos estes prognósticos, a re- do de definir o que é essencialmen-
ligião tem ressurgido de uma manei- te reformado, bem como perceber
ra extraordinária e intensa no nosso suas implicações. Não se pode fazer
tempo, de tal modo que a questão isso sem recorrer à história, sem es-
da espiritualidade se coloca não ape- quecer também que a espirituali-
nas como tema teológico mas como dade calvinista não pode ser enten-
um fenômeno mais amplo e compor- dida à parte seu tempo.
tando várias análises. Há uma Pouca atenção tem sido dada ao
efervescência de espiritualidades, tema da espiritualidade estritamen-
que força necessariamente o cristia- te falando uma vez que o protes-
nismo e, por extensão, o segmento tantismo histórico não considerou
protestante em suas múltiplas ex- relevante o assunto, focalizando sua
pressões a se perguntarem em que atenção nas questões teológico-
consiste a sua espiritualidade. No âm- dogmáticas. O receio de incorrer em





uma proposta neoplatônica talvez tenha casos, ocorreu efeito inverso quando a




contribuído. Isto se refletiu na tendên- teologia, suas formulações e a atividade



cia em analisar Calvino tão somente como investigativa passaram a ser vistas com

NOT
PÁGINAS 28 A 45
REVIST
REVISTA
NOTAS

reformador e um cerebral teólogo siste- desconfiança.


AS SOBRE A ESPIRITU
mático. Digna de nota, porém, é a ênfa- O resgate, portanto, da maneira como

A TEOL

se de Calvino sobre a vida cristã e a ora- Calvino constrói sua teologia é oportuno

TEOLOGIA

ção, inclusive dedicando mais espaço nas no sentido de não vê-lo apenas interes-



Institutas a este assunto do que ao tema sado em discutir questões abstratas,

OGIA E SOCIEDADE


da predestinação. Há, de modo eviden- dogmáticas, mas também preocupado


te, uma separação entre doutrina e ex- com a piedade que a vida cristã requer.

ESPIRITUALIDADE

periência. Todavia, isto não ocorreu so- ○

Em segundo lugar, o reexame das moti-
mente no âmbito do protestantismo. José vações e fundamentos de Calvino são

Comblin, teólogo e biblista católico, ao oportunos também diante de tantas ou-



analisar as causas do fenômeno do esque- tras propostas e modelos disponíveis.

ALIDADE EM CAL

cimento do Espírito Santo na teologia, Este artigo, portanto, propõe-se a deli-


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


encontra exatamente ao Séc XVI uma near algumas características da


das razões desse esquecimento. A teolo- espiritualidade do Séc XVI em confron-



gia jesuítica que surge ali, e foi referen- to com a proposta que emerge de Calvino

dada pelo Concílio de Trento, acentuou para posteriormente estabelecer alguns


CALVINO
a separação entre graça e experiência paralelos e desafios de nossa época.

(1987: p.33). Esta teologia separou es-


VINO

sas duas realidades e lançou desconfian-


ça sobre as experiências de vida cristã va-



lorizando apenas as definições



dogmáticas.

No âmbito do protestantismo, isto se


Áureo R

Paulo
aulo
aulo,, SP
torna evidente a partir do chamado

escolasticismo protestante que primava


Rodrigues

odrigues de Oliveira

pela conceituação precisa da doutrina em


detrimento da experiência. As confissões



seriam, em parte, expressões dessa ên-



fase na definição e conceituação teológi-



ca. O Pietismo surge exatamente como


movimento de oposição ao escolas-



ticismo protestante, priorizando a expe-



riência individual como critério de au-


tenticidade da vida cristã. Em muitos







29







I
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



I – MODELOS DE ESPIRITU
MODELOS ALIDADE
ESPIRITUALIDADE



NO SÉCULO DE CAL
SÉCULO VINO
CALVINO





O movimento monástico e místico - A vida monástica desde


seus primórdios no século III sempre representou um modelo a



ser buscado por aqueles cristãos que ansiavam por uma



espiritualidade mais intensa. Antão, Pacônio e Antônio têm sido


apontados como os precursores deste movimento que não é exclu-



sivamente cristão. Curiosamente, tanto o monasticismo pagão como



o judaico e o cristão tiveram origens no deserto egípcio. À medida


que cessavam as perseguições, e o martírio deixava de representar

o grande ideal de vida cristã, o ascetismo passa a assumir este papel



expresso principalmente através do monasticismo. O ascetismo é


uma das características constantes do monasticismo, embora ten-



dências ascéticas já pudessem ser encontradas na igreja primitiva.



O ascetismo passou a ser visto como um treinamento rigoroso que



páginas 28 a 45

habilitava para competir e vencer a luta contra o diabo, o mundo e



a carne. Com o processo de constantinização, a partir do século IV,



a igreja assume contornos e atitudes que a distanciam dos princípi-


os do Evangelho.

O monasticismo representava um protesto e, ao mesmo tem-



po, uma alternativa a esse processo de institucionalização da igreja



e cooptação pelo estado. Adolf von Harnack resumiu essa situação


nestes termos: “Esses atletas monásticos não estavam apenas fu-



gindo do mundo; eles estavam fugindo de uma igreja mundana...”



(Apud Pelikan: p.114). O ascetismo era uma metodologia ou es-


tratégia para se atingir o alvo de todo monge que era a perfeição.



Antônio, um dos precursores do monasticismo, teria optado pela



vida ascética diante das palavras de Jesus ao moço rico: “Se queres

ser perfeito, vai vende tudo quanto tens...” A perfeição se torna,



portanto, o alvo monástico e acaba criando dois padrões de



discipulado tomando o ensino de Jesus: os mandamentos que eram



extensivos a todos e os conselhos de perfeição que eram para os


que desejassem tomá-los seriamente. Vida monástica com os con-











30







seqüentes votos de castidade, pobreza e temporâneo de Calvino desde os tem-

REVISTA


obediência foram considerados não ape- pos de universidade, juntamente com



nas como um chamado à perfeição, mas Teresa de Ávila e S.João da Cruz são per-


um estado de perfeição. Os votos foram sonagens destes acontecimentos. Embora



ainda considerados um segundo batismo o movimento jesuíta tenha adquirido

TEOLOGIA E SOCIEDADE


na medida que o primeiro significava a outras configurações bem distintas dos


morte para o pecado e estes a morte para místicos, porém, em determinados pon-



o mundo (Steinmetz 1995: p.189-192). tos, ele foi profundamente influenciado



Todavia, ao longo da história, o movimen- por esta busca da perfeição, procurando


to monástico, que tinha sido apontado combinar tanto ação como contempla-


como protesto à secularização e ○

ção. Parte desse processo foi o que se
paganização da igreja, acabou por assu- convencionou chamar de movimento de

mir rumos totalmente distintos da sua interiorização que incluía a oração men-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


origem, principalmente na Idade Média. tal (técnica de meditação), reflexão2 e

Por ocasião da Reforma, tanto Lutero iluminação.


como Calvino, sem deixar de reconhe- Inácio de Loyola praticava essa téc-

cer o papel do monasticismo na vida da nica de imaginação contemplativa na qual



igreja, nem por isso deixaram de apon- procurava visualizar as cenas da vida, pai-

tar as mazelas e incongruências desse xão e morte de Jesus. A reflexão consis-



movimento.1 tia de três partes: auto-conhecimento,



O final do século XV e início do XVI imitação de Cristo e união com Deus.


é repleto de acontecimentos que vão Esta união não se dava através do inte-

marcar a civilização ocidental. Grande lecto, mas do amor, implicando em uma



parte desses acontecimentos teve origem transformação da alma em Deus, o equi-



religiosa ou implicações religiosas. A Re- valente a tornar-se um espírito com ele,


nascença, as grandes descobertas, a cir- assim como duas chamas se tornam uma

cunavegação, a invenção da imprensa, o ou como as gotas d´água que caem no



esgotamento do modelo feudal e o oceano e se fundem com ele (Kavanaugh


surgimento de um novo modelo econô-



mico e social e conseqüentemente a Re-



forma Protestante constituem-se nessa



categoria de acontecimentos que marca- 1


Calvino assim escreveu: “Não há classe de homens

ram profundamente a civilização ociden- mais corrompida com toda sorte de vícios. Em

nenhuma parte predominam tantas facções, ódios,


tal. Na esfera católica, tanto a Contra- parcialidades e ambições. Em poucos monastérios


se vive honestamente... De cada dez monastérios


Reforma como o surgimento de um novo


encontrareis um que não seja um bordel ao invés de


modelo de espiritualidade ilustram es-

um tabernáculo de castidade...” (1960: Livro


IV.13,15).
sas transformações principalmente no

2
Esta palavra tem o sentido mais amplo como um

âmbito espanhol. Inácio de Loyola, con- momento de retiro específico para meditar e refletir




31







1989: p.71). Este encontro com Deus memorável estudo sobre a
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



toma lugar no mais profundo interior da espiritualidade espanhola que marcou a



alma. Em outras instâncias do movimen- colonização e a alma latino-americana,


to místico esta ascese era apresentada na nos fala do Cristo guerreiro3 bem como



seguinte ordem: purificação, iluminação do Cristo sofredor, o qual foi retratado



e união com Cristo, aqui visto como o principalmente por Velásquez. “As ima-


noivo da alma. A alma deveria ser gens e pinturas apresentavam este Cris-



purificada dos seus pecados para atingir to dilacerado, exangue, moribundo ou



a união, união esta inspirada principal- morto. Ele é a própria ‘encarnação da


mente pela linguagem de Cantares, que morte’, o ‘Cristo cadáver’ sempre na



facilmente assumiu um tom não apenas cruz.” (Mackay, op., cit. p. 116-17). Este



sentimental, mas também erótico. tipo de cristologia ou espiritualidade teve
Jaroslav Pelikan acrescenta que “a linha ○

○ impacto profundo na América Latina na
entre a emoção e sentimentalismo facil- análise de Saul Trinidad, produzindo pa-

mente se cruzou assim como a linha en- drões de subjugação, resignação e


tre ‘agape’ e ‘eros” (Op. cit., p.131). A marginalização (Trinidad, Saul, 1984,

liberdade consistia na sujeição da razão à p.55).4




páginas 28 a 45

lei de Deus e a conseqüente indepen- Paralelamente floresceu ainda no sé-


dência tanto das pressões exteriores culo XVI, entre os que se convencionou

mundanas como dos apetites pelo poder, chamar de os “iluminados”, a tendência



prazeres ou dinheiro. Este modelo de à desvalorização das orações verbalizadas,



espiritualidade produziu abundante lite- jejuns, penitências, ritos e cerimônias. O


ratura e iconografia tematizando a pai- importante era experimentar o amor de



xão e morte de Cristo (Kavanaugh, op. Deus como alvo da perfeição e não raras

cit., p.71-72). vezes enveredando para experiências


John Mackay (1988), no seu extáticas, arrebatamentos e profecias.








3
A concepção do Cristo guerreiro teria sido forjada batalha e que, durante a sua convalescença,

no processo das longas lutas pela libertação da consagra sua vida à Virgem e em especial ao serviço

península ibérica ocupada durante séculos pelos do papa. Eduardo Hoornaert (1974) tem um

árabes. As cruzadas bem como o passado de lutas interessante estudo sobre o catolicismo brasileiro

contra os árabes criaram entre os ibéricos um onde descreve o “catolicismo guerreiro” que neste

espírito de guerra. Todavia, este espírito se revelou período se direciona contra os infiéis protestantes

com mais ferocidade entre os espanhóis. John franceses na Baía de Guanabara e os holandeses no

Mackay (1988) descreve a alma espanhola como Nordeste. Antonio G. Mendonça (1984) ainda nos

apaixonada e tendo como supremo ideal de vida ser lembra que o espírito guerreiro não foi exclusividade

um soldado. Até os sacerdotes, frades e freiras do catolicismo ibérico. Entre os protestantes esse

tinham um espírito militar. fenômeno também se manifestou conforme ele


A Contra-Reforma teve na península ibérica o seu constata na análise da hinologia protestante do


apoio mais decidido através da Sociedade de Jesus século XIX.


fundada por Loyola, um ex-soldado que ferido em






32







Tais práticas foram vistas ou identificadas essas interpretações do movimento mo-

REVISTA


como protestantes em determinados mo- nástico e místico. Bernardo de Clairvaux,



mentos e lugares, principalmente na pe- o grande nome do misticismo medieval,


nínsula ibérica onde a Inquisição esteve escrevera um dos maiores comentários



sempre mais visível. A repressão e des- sobre Cantares (Séc. XII) que se tem

TEOLOGIA E SOCIEDADE


confiança, todavia, não impediram que notícia, o qual consistia de oitenta e seis


surgisse uma das maiores expressões da sermões apenas nos dois primeiros capí-



espiritualidade mística do século XVI: tulos (Pelikan, op.cit., p. 126).



Teresa de Ávila (1515-1582). Teresa teve São João da Cruz, contemporâneo de


várias experiências místicas. Em uma de- Teresa de Ávila, em parte obscurecido


las teria contemplado o rosto de Cristo a ○

inicialmente por ela, todavia, teve mais
caminho da cruz. Seu modelo de oração tarde reconhecida a sua influência como

era a chamada “oração passiva místico que usa a poesia como instru-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


contemplativa” que mais tarde assumiu mento. O uso da linguagem simbólica

duas formas: a “silenciosa” e “união”. No sempre foi uma alternativa aos místicos

seu mais elevado grau de experiências para expressar experiências que não po-

místicas ela referia a uma perfeita união diam ser definidas ou aceitas racional-

“casamento espiritual” entre a alma e mente. Um dos seus conceitos predile-


Cristo (Kavanaugh, Op.cit., p.75-79). A tos era “a noite escura” para se referir

temática da união ou casamento místico aos percalços na trajetória da alma em



com Cristo não era novidade dentro do sua busca da união com Deus, união esta

movimento místico como nos referimos de amor na qual a alma se tornava seme-

acima. O livro de Cantares, lido alegori- lhante ou igual a Deus (Kavanaugh, op.cit.,

camente em alguns círculos judaicos, p.80-83).



adquire uma importância fundamental A espiritualidade medieval popular


como leitura predileta e, conseqüente- – Uma das expressões da espiritualidade



mente, como fonte de inspiração para popular no século XVI era o dissemina-






4
Uma das evidências mais nítidas dessa cristologia/ encontro dessas cristologias com a cultura afro-

espiritualidade pode ser vista nas celebrações da ameríndia produziu diferentes reações e resultados.

semana santa onde o ponto alto é a sexta-feira da Os derrotados indígenas e os escravos subjugados

paixão. O domingo da ressurreição é obscurecido e em nome de Cristo identificam-se com o Cristo


perde importância religiosa para a sexta-feira. Nela sofredor e agonizante da cruz que expressa as

condições na qual eles estavam vivendo. Os


milhares comparecem às missas, observam jejuns,


marginalizados de hoje também experimentam um

praticam penitências e realizam a procissão do


sentimento generalizado de impotência e resignação

Senhor morto. Na zona rural uma atmosfera de


das forças e condições que os massacram. Pobreza,

tristeza e luto envolvem as pequenas comunidades.


Nenhum comércio aberto, nem passeios, música ou riqueza, sofrimento são desígnios de Deus e não

danças. Nos grandes centros essa é uma prática em resultados de situações históricas. Logo, não podem

vias de desaparecimento. É preciso observar que o ser mudados.






33







do culto das relíquias. Calvino, de modo que reivindicavam possuir os legítimos
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



mais específico, tratou dessa situação em espinhos da coroa de Cristo (Idem,



duas obras: “Tratado das Relíquias” e “In- p.304). Porém a relação continua e en-


ventário das Relíquias” (1543). Em vereda para objetos e situações bizarras:



ambas expõe a forma supersticiosa e o prepúcio de Cristo preservado desde a



mágica que assumiu a espiritualidade sua circuncisão, a manjedoura, a primei-


popular, preconizando a necessidade de ras fraldas de Cristo, vasilhas utilizadas



volta à Palavra de Deus. Todas as situa- para a transformação da água em vinho,



ções que envolviam o culto às relíquias remanescentes do vinho de Caná que to-


são descritas por Calvino com uma iro- dos anos era oferecido em pequenas do-



nia que ora resvala para o humorístico ses aos peregrinos mediante, é claro, uma



ora para o satírico. Geralmente seus tex- oferta e que milagrosamente também
tos se nos apresentam sisudos e densos. ○

○ nunca se acabava; sapatos de Jesus, mi-
Todavia, estes fogem à regra. Alguns au- galhas do pão da última ceia, a faca utili-

tores chegaram a ver neles a influência zada para cortar o cordeiro pascal, pra-

do estilo de Erasmo em sua crítica à reli- tos, a toalha com que Jesus lavou os pés

gião estabelecida de seu tempo (Eire, dos discípulos, migalhas remanescentes




páginas 28 a 45

1990, p.268). Ao listar numerosos itens, da multiplicação dos pães, ramos usados

ele ressalta o absurdo e a falsidade de quando Jesus entrou em Jerusalém, o



cada um aos olhos da razão evidencian- manto que cobriu Jesus perante Pilatos,

do seu caráter propositalmente fraudu- dentes de Jesus, leite da virgem Maria...



lento. Se alguém não for convencido teo- Calvino não resiste e de modo mordaz

logicamente, ao menos fique evidente comenta: “Se os seios da virgem Maria



quão afrontoso é ao bom senso e à razão tivessem produzido tão abundantemen-



esse culto. Ele faz um inventário dessas te mais que uma vaca ou tivesse ela ain-

relíquias e inicia mencionando aquelas da produzido leite a vida inteira, dificil-



relativas a Cristo como a lança do solda- mente ela teria fornecido a quantidade

do que o feriu: “Esta deveria ser uma, exibida [...] teria ela dado aos magos ou

porém talvez por obra de um alquimista pastores que visitaram o menino leite

ela tem aumentado e multiplicado. Exis- como lembrança da visita?” (Ibidem,



tem quatro além daquelas que existem p.317). A bizarra lista segue adiante: o

em diferentes lugares os quais eu não rabo do jumento que carregou Jesus,


tenho o nome...” (Calvin, 1983, p.304). pedaços do peixe assado que Jesus co-

Da mesma maneira, os espinhos da co- meu com os discípulos, lágrimas de Je-



roa eram tantos que provavelmente eles sus quando lavava os pés dos discípulos,

tinham sido plantados e multiplicados. pregos e pedaços da cruz de Cristo. Ao



Calvino lista pelo menos vinte um locais que mais uma vez ironicamente acres-






34







centa que, se todas as lascas da cruz de “Comediantes e atores teriam rido

REVISTA


Cristo fossem amontoadas, dariam uma disto, mas monges e sacerdotes im-


postores não têm deixado de enga-


carga de navio, embora os evangelhos re-
nar as pessoas de boa fé. [...] Com


gistrem que uma pessoa sozinha a carre-


certeza não existe homem ou mu-


gou.

TEOLOGIA E SOCIEDADE
lher idosa tão estúpidos que não



Calvino tem conhecimento do epi- vejam quão ridículas são estas coi-


sódio histórico no qual Helena, mãe de sas, mas porque as mentiras são co-



Constantino, teria feito várias gestões bertas com o véu da religião, a ini-


qüidade de assim ridicularizar a


para se conseguir a cruz bem como os
Deus e anjos não são assim perce-


pregos. Supostamente ela teria encontra-

bidas”. (Ibidem, p.320-321)

do a cruz e três pregos, dos quais teria ○

A questão fundamental para Calvino


mandado colocar um no capacete de é esta: os evangelhos nada dizem e não

Constantino e outro dois nos freios do


há registro na história da igreja. O silên-


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


seu cavalo. De lá para cá, esses pregos e cio dos antigos escritos é por demais elo-

lascas da cruz se multiplicaram e Calvino qüente, segundo Calvino (Ibidem,


listava pelo menos quatorze igrejas ou


p.320-321). Finalmente, ele sugere que


localidades que reivindicavam possuir os os expositores de tais relíquias deviam



legítimos pregos (Ibidem, p.303). Ao que pelo menos entrar em acordo para não

ele aduz:

exporem objetos em duplicata, zomban-


do da inteligência dos fiéis.





































35







II
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO


II – A PROPOSTA DE CAL
PROPOSTA VINO
CALVINO




Richard Gamble (1998, p.33), um “scholar” calvinista, nos apre-



senta um conceito espiritualidade que brota em Calvino e que está



alicerçado na maneira como ele estrutura as Institutas: o conheci-


mento de Deus e do ser humano; a necessidade de honrar a Deus



através da fé, obediência e serviço; a total dependência de Cristo, o



Verbo Encarnado, e a resposta humana em piedade e adoração. Es-


tritamente falando, a espiritualidade seria, portanto, a resposta hu-



mana àquilo que Deus tem feito. Calvino, no entanto, usa o termo



piedade para descrever esta resposta. Esta piedade/espiritualidade é


a resposta através da imitação amorosa de Cristo ao preço que ele

pagou pelo nosso pecado. Esta imitação encontra na lei de Deus o



referencial que impedia os excessos e distorções no catolicismo ro-


mano.5 A vida cristã tem um duplo objetivo: Deus ordena aos cris-

tãos uma vida de santidade e ele mesmo proporciona a redenção



para aquela santidade através de Cristo. A obra de Cristo não se



páginas 28 a 45

esgota, portanto, no pagamento dos nossos pecados, mas também



como modelo de obediência e santidade a ser seguido, acrescenta



Gamble (Op. cit., p.34). A espiritualidade é, portanto, entendida


como a resposta humana ao conhecimento Deus e sua ação em favor



do eleito, tendo Cristo como modelo. Seguir a Cristo implica em



aceitar os sofrimentos de Cristo que se manifestam também em



nossa vida, pois ali aprendemos paciência e a obediência.


Há um paralelo entre os sofrimentos terrenos de Cristo e os do



cristão. Se Cristo como nosso cabeça aprendeu a obediência através



dos sofrimentos (Hb 5.8) por que deveríamos considerarmo-nos


isentos dessas experiências, uma vez que se submeteu a isso por



nossa causa e exemplo de paciência, pergunta Calvino, pois Deus








5
O papel da lei na vida cristã dividiu luteranos e calvinistas, principalmente

no chamado terceiro uso da lei. Ambos os grupos concordavam com os dois


primeiros usos da lei: a lei na sua função civil restringindo e coibindo o


pecado e a lei na sua função pedagógica levando o pecador a Cristo. O


terceiro uso da lei, para Calvino, consistia na adoção da lei como guia para o

cristão na sua obediência a Deus. Luteranos rejeitavam veementemente essa


alternativa e não raras vezes Calvino foi acusado de legalista, ao que



reformados respondia acusando Lutero de antinomista.






36







tem destinado todos seus filhos a que lo que é adverso ao Espírito de Deus: a

REVISTA


sejam conformes à imagem de Cristo corrupção da nossa natureza, concupis-



(Calvin, 1960, III, 8.1). Sem dúvida ne- cência e artimanhas que o Diabo usa para


nhuma, sua trajetória de vida foi marcada nos afastar de Deus. No mundo estão os



por intensos e agudos sofrimentos des- prazeres e todas as atrações que cativam

TEOLOGIA E SOCIEDADE


de a oposição que enfrentou nos primei- o ser humano afastando-o de Deus


ros anos em Genebra, que culminaram (Calvin, 1998b). 6



com sua expulsão juntamente com Farel Calvino (1960, III, 6-10) ainda trata



(1538), até as dores pela perda da espo- extensivamente da vida cristã que tem


sa querida após nove anos de casamen- nas Escrituras a base para produzir o amor


to, dos filhos que também morreram pre- ○

pela justiça em nossos corações e pro-
maturamente, bem como das enfermi- porcionar uma regra para justiça. A per-

dades que o atormentaram. Segundo um feição é o nosso objetivo, porém imper-



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


relato contido em uma das suas cartas ao feição é a nossa porção terrena. A sínte-

seu médico em Montpellier, ele padecia se da vida cristã consiste na negação de


de várias enfermidades como pedra nos nós mesmos, porque não pertencemos a

rins, gota, constipação intestinal, nós mesmos, mas a Deus e assim deve-

hemorróidas, dores nas juntas, problemas mos viver e morrer para Ele (Idem, 7.1).

respiratórios e uma prosaica colônia de Seguir a Cristo, segundo Calvino, signi-



vermes (Cooke, 1990, 59-60). Os sofri- fica renunciar cada dia a nós mesmos e

mentos procedem da mão de Deus, de tomar a cruz. Somente assim podemos


acordo com seu propósito, pois devido à experimentar verdadeira devoção a



nossa natureza humana corrupta neces- Deus, pois a renúncia nos liberta de de-

sitamos desse tipo de corretivo. As afli- sejos egoístas, aspirações de poder, luta

ções cobrem-nos como uma sombra de por posses e glória, etc. O mundo de ví-

morte, assim a vida terrena é como uma cios que habita a alma humana somente

morte contínua (Calvin, 1998a). As afli- poderá ser vencido pela renúncia, a qual

ções ou as poucas coisas boas que des- nos possibilita não apenas o correto rela-

frutamos têm o objetivo de não distrair cionamento com Deus, mas também

a atenção do cristão daquilo que Deus com nosso próximo e além disso pode-

tem preparado na vida futura. Simplici- mos suportar mais facilmente as adver-

dade e frugalidade devem ser marcas sidades da vida humana (Ibidem, 4-10).

permanentes da vida cristã. A disciplina Ao se referir à cruz como chamado, ele



da vida cristã exercida pela igreja deve acrescenta que não há verdadeiro segui-

ajudar o cristão a viver de modo separa- mento de Cristo sem nos identificarmos

do de toda sorte de impurezas, manten-



do-se afastado da corrupção do mundo.


6
Calvin. Commentary on Catholic Epistles. Ages

Mundo para Calvino significa tudo aqui- software. Albany, USA, 1998.




37







Tradicionalmente a oração nem sempre
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



foi considerada um assunto que pudesse



ser inserido em obra teológica ao lado dos


temas clássicos. Ela sempre foi vista



como exercício da piedade pessoal, por-



tanto um assunto de caráter prático.


Nesse particular Calvino inova ao intro-



duzir o tema da oração, situando-a exa-



tamente no capítulo que antecede a dou-


trina da eleição e, contrariando uma vi-



são simplista que reduz a teologia


com ele, logo, a cruz é um caminho ine-


calvinista à predestinação, nas Institutas,

vitável.
○ ele escreve mais sobre oração do que so-
O que Calvino considera ser a cruz?

bre a predestinação (Ibidem, III, 20). A


Seguir a Cristo é identificar-se com ele


principal obra do Espírito Santo é a fé e


partilhando dos seus sofrimentos. Tomar


esta se expressa de modo mais efetivo

a cruz ou aceitar essa identificação com


quando oramos. O ponto de partida de


Cristo é necessário para nos ensinar pa-



páginas 28 a 45

Calvino reside no fato de que o ser hu-


ciência e obediência, remédio divino con-


mano encontra-se desprovido de qual-

tra nossa auto-indulgência, paternal cor-


quer bem e que a oração é o único meio


reção através das aflições e dos sofrimen-


para ter acesso a esses bens que Deus


tos decorrentes das perseguições. Porém,


dispõe somente em Cristo. A oração é


o cristão nunca é abandonado porque

como “escavação dos tesouros que se


desfruta do consolo divino; segundo, a


descobrem em nossa fé pelo Evangelho”


atitude do cristão diante do sofrimento


(Ibidem, III, 20.2). A fé nos leva a reco-


não se equipara à “apatheia” estóica que

nhecer que o que necessitamos encon-


buscava um controle pleno (autarquia)


tramos em Cristo. O mesmo evangelho


sobre a dor, sofrimento, etc. pela nega-


que ao ser pregado produz a fé nos ins-


ção (Ibidem, III, 8.2-10). A proposta


trui a invocar a Deus. A fé é produzida

estóica tornava a vida apática, cinzenta,


pela Palavra e Espírito e estes nos levam


indiferente à dor e alegria. A fé cristã,


a orar. Assim a fé nos inspira a orar e esta


segundo Calvino, admite o conflito e as


por sua vez é fortalecida pela oração. A


crises, porém não se deixa dominar por

oração é uma comunhão dos seres hu-


elas e permanece na firme convicção que


manos com Deus, na qual buscam o que


o plano de Deus para nós é que enfren-


Ele já tem prometido em sua palavra para


temos as adversidades com gratidão e


assim nos livramos do ceticismo ou qual-

louvor.

quer tentação de colocar como ilusão


O lugar da oração na vida cristã.


aquilo que Deus tem nos prometido em






38







sua Palavra. em normas rígidas porque oramos a um

REVISTA


Calvino alinha seis razões fundamen- Pai indulgente que aceita nossas orações,



tais pelas quais devemos orar: 1) embo- embora imperfeitas. A primeira regra diz


ra Deus saiba o que necessitamos, a ora- respeito ao controle dos nossos pensa-



ção foi instituída por nossa causa, é um mentos. A oração deve ser feita com en-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


instrumento para que nossos corações tendimento e coração, nada pedindo


possam ser incendiados com zelo e ar- exceto o que está em conformidade à



dente desejo de amá-lo e servi-lo bus- vontade de Deus. Em segundo lugar, a



cando refúgio nele em tempos de neces- oração deve expressar um sentimento


sidade; 2) que nenhum desejo ou vonta- intenso da nossa necessidade, como men-


de do qual venhamos a nos envergonhar ○

digos que suplicam, ou seja, não há lugar
possam adentrar às nossas mentes ao para orações superficiais; em terceiro

mesmo tempo em que aprendemos a lugar, as orações devem brotar de cora-



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


derramar perante ele todo nosso coração; ções humildes e despojados de qualquer

3) para que estejamos preparados para arrogância ou pretensão, pois o funda-


receber seus benefícios com gratidão de mento da oração está na misericórdia de



coração; 4) para que tendo recebido o Deus. Ela não é uma obra meritória em

que pedíamos, compreendamos e medi- si. Finalmente, a quarta regra é a certeza


temos fervorosamente em sua liberali- e convicção da fidelidade de Deus em



dade; 5) para que aprendamos a acolher suas promessas (Ibidem, III, 20.4-16).

com grande alegria aquilo que obtivemos Calvino ainda toca em outras ques-

mediante oração; 6) para confirmar a re- tões fundamentais: a oração do Pai Nos-

alidade da providência em nossas men- so como modelo para nossas orações, a



tes (Ibidem, III, 20.2). A seguir, Calvino mediação de Cristo e a intercessão dos

propõe quatro regras básicas da oração santos. Com relação ao Pai Nosso, ele

sem, contudo, pretender transformá-las alerta para o risco de transformá-la em



uma fórmula rígida e mecânica. Há ou-



tros exemplos de oração nas Escrituras e


nós devemos orar no espírito do Pai Nos-



so. No seu comentário destacamos duas



petições: “venha o teu reino” e “dá-nos



o pão de cada dia”. Ao orarmos “venha o


teu reino”, entre outras coisas significa



para Calvino a súplica diária para que



“Deus reúna as igrejas para si de todas as


partes da terra, que ele expanda e as au-



mente em número, que ele as adorne



com dons” (Ibidem, III, 20.43.2). Ao ex-






39







planar a súplica pelo pão diário, Calvino de Calvino está em seu ataque à idola-
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



acrescenta que esta petição é o antídoto tria. Conhecimento de Deus e culto são



contra anseios e cobiça por bens materi- inseparáveis. Ninguém pode conhecer a


ais. Tendo a porção diária e confiantes Deus sem experimentar anseio ou dese-



no cuidado divino, podemos viver em jo ardente em cultuá-lo. Em Calvino, dois



simplicidade (Ibidem,III, 20.44). Por princípios fundamentais subjazem na sua


outro lado, a doutrina da intercessão dos concepção de culto: “soli Deo Gloria”;



santos coloca Deus em segundo plano. “finitum non est capax infiniti”. Ou seja,



Aqui Calvino foi mais contundente que o objetivo central da vida humana é a gló-


os demais reformadores que não deram ria de Deus e, em segundo lugar, Deus é



a este assunto maior importância, segun- o totalmente outro, a realidade transcen-



do Henri Strohl (1963). dente que não pode ser reduzido, con-
Calvino argumenta a partir do ele- ○

○ fundido ou aprisionado em uma dimen-
mentar: não há nenhuma base são material. Segundo Calvino, o catoli-

escriturística para este tipo de prática. cismo romano se equivocava exatamen-


Todas as vezes que abandonamos o ensi- te por confundir ou não discernir essa

no das Escrituras adentramos terreno realidade, domesticando Deus e privan-




páginas 28 a 45

escorregadio. Elas nos ensinam que so- do-o da sua glória. Por essa razão, Calvino,

mente Cristo é nosso mediador eficaz. ao enumerar os males que afligiam a igre-

A singularidade da sua pessoa e obra nos ja e acentuavam a necessidade de refor-



permite crer na eficácia da sua interces- ma, começa exatamente com o culto. Ele

são, além do que buscar ou esperar a in- diz:


tercessão dos santos seria desconfiar de “Se nós perguntarmos, então, por

Deus em suas promessas, bem como rou- quais coisas principalmente a reli-

gião cristã tem permanecido entre


bar a Cristo e esvaziar a cruz. Finalizan-


nós e mantém sua verdade, encon-


do seu argumento, Calvino insiste ainda

traremos nestas duas coisas seguin-


no papel das Escrituras como referencial tes as quais não somente ocupam

para nossas orações. A fé está alicerçada lugar primordial, mas dão sentido

na Palavra que é a “mãe da correta ora- às demais partes e conseqüente-



ção”. Fora da Palavra, ela se corrompe. A mente à totalidade da fé cristã, ou


seja, o conhecimento do modo


oração é a expressão da fé e a fé tem sua


como Deus é devidamente cultuado


origem no ouvir a Palavra (Op. cit., 1960, e em segundo lugar a fonte da nos-

III, 20.21).

sa salvação.”(1983, p.126).

Polêmica contra idolatria e concei-



to de culto. De acordo com Calvino, o


propósito da vida humana é conhecer



Deus e glorificá-lo através do culto e



obediência. O fundamento da teologia






40







Calvino assim afirma que não se pode ou “semen religionis”, o qual está pre-

REVISTA


ser cristão sem o conhecimento do que sente mesmo nos ímpios e perversos.



seja o culto devido a Deus. Culto corre- Como evidência disso, ele lembra o fato


to ou adequado precede o conhecimen- de não haver nação que não tenha algu-



to da salvação. O culto tem como princi- ma expressão religiosa. A idolatria e su-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


pal propósito o reconhecimento do que perstição seriam ainda evidências desse


Deus é como única fonte de justiça, san- velho anseio humano que se manifesta



tidade, sabedoria, verdade, poder, bon- de maneira equivocada em relação a



dade, misericórdia, vida e salvação. Por- Deus. Esta semente religiosa, ironica-


tanto, o culto é a oportunidade de ren- mente, não aproxima o ser humano de


der-lhe a glória devida bem como buscar ○

Deus, pelo contrário, o aliena e o distan-
nele todo bem ou recurso de que neces- cia mais ainda.7 Devido à sua condição

sitamos. Esta é a genuína santificação do pecaminosa, o ser humano responde a



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


seu nome que lhe devemos. Na reverên- este anseio negativa e pervertidamente

cia devida à sua grandeza e excelência, (Idem, I, 3.1; 4.1). Comentando o Sal-

as cerimônias, os instrumentos, são au- mo 97, ele acrescenta que somente o ver-

xílios que devem envolver tanto o corpo dadeiro conhecimento de Deus dissipa

quanto a alma (Idem, p.127). a idolatria como o sol dissipa as trevas.


Calvino identifica as origens da ido- Todos trazemos naturalmente algo de



latria na queda, a qual afetou profunda- religião conosco, mas devido à cegueira

mente o ser humano. Este já não mais e fraqueza das nossas mentes ela está

pode conhecer a Deus. Seus dons natu- depravada. Assim esta semente de reli-

rais (razão, vontade, etc.) se corrompe- gião ou senso de divindade se torna de



ram e seus dons espirituais (fé, amor a fato a fonte de toda superstição e idola-

Deus e ao próximo, desejo de santidade tria (Calvin, 1998c). 8


e justiça, etc.) foram removidos (Calvin,



1960, II, 2.12). As conseqüências foram



maiores na dimensão espiritual. Todavia,


persiste no ser humano um anseio pela



verdade o qual não pode ser realizado. A



mente humana foi embrutecida e ape-



nas tateia em busca da verdade. Assim,


7
Esta afirmação de Calvino e que Barth assumiu
acaba por inevitavelmente encaminhar-

plenamente sustentando a exclusividade da


revelação de Deus em Cristo e conseqüentemente a


se rumo à ignorância, destruição e mor-

negação de qualquer elemento revelatório em


te. Este anseio pela verdade nada mais é qualquer outra religião ainda se constitui em

considerável embaraço aos que propugnam pelo


que um resquício da sua condição de cri-

macro-ecumenismo.

atura segundo a imagem e semelhança. 8


Calvin. Commentary on Psalms. Ages Software.

Albany, USA, l998


Calvino chamou-o de “sensus divinitatis”






41


III





III - DESAFIOS DO NOSSO PRESENTE
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO




A título de conclusão, vamos alinhar alguns tópicos tentando estabe-



lecer um diálogo entre o pensamento de Calvino em resposta a determi-



nadas situações do seu tempo e ao mesmo tempo tentar algumas cone-


xões. É evidente que Calvino viveu e enfrentou um contexto totalmente



distinto do nosso. Todavia, alguns princípios e valores podem e devem ser



retomados. Um dos primeiros aspectos a ser novamente observado é a



ênfase em todos assuntos que Calvino dá sobre a importância da funda-


mentação nas Escrituras na discussão de todos os temas. É corrente afir-



mar que as Escrituras se revestem de caráter normativo para a vida cristã



e que a Reforma deu ênfase ao “sola Scriptura” como princípio distintivo.

Todavia, não basta proclamar a supremacia da Escritura em termos de fé e

doutrina, é preciso interpretá-la adequadamente dialogando com tradi-



ção e a realidade. Nesse particular, Calvino, dispondo dos recursos que


lhe estavam acessíveis, foi exegeta e intérprete primoroso quando não



apenas alinha textos bíblicos aleatoriamente para comprovar suas assertivas,



mas interpreta com perspicácia dando consistência bíblica, teológica e


páginas 28 a 45

histórica às suas afirmações. Receios equivocados de uma identificação



com um biblicismo raso ou fundamentalista têm marginalizado a Palavra



em muitos círculos reformados. Este é um desafio que necessita ser en-


frentado sem receios.



A temática da oração é tratada como assunto teológico relevante, não



apenas um tema prático, reservado para piedade pessoal e privada. Ao


estabelecer princípios para sua prática tanto privada como pública, Calvino

nos mostra que a oração precisa ser encarada não apenas como assunto da

esfera individual, mas é um assunto teológico que deve ocupar e permear



a reflexão teológica bem como a própria vida da igreja. Comumente os


rótulos de pietista ou piegas assustam, marginalizando a oração não ape-



nas como tema teológico, mas também da própria prática cristã. A oração

ficou assim restrita aos livros devocionais e aqui entendidos como obras

sem densidade.

Para Calvino, a vida cristã consistia em renúncia e em tomar a cruz.



Para o nosso tempo que enfatiza a teologia da prosperidade, o sucesso



material como indicativo da bênção divina, o conforto e bem estar como











42







alvos da vida ao alcance de uma fé que cessidade humana de um suporte concre-

REVISTA


“decreta e ordena” a Deus que conceda to para fé, o uso do “tocar” chega às raias



esses bens aos “filhos do Rei”, a compre- da manipulação, à semelhança do culto


ensão reformada da vida cristã soa estra- medieval das relíquias. É preciso dizer que



nha, distante ou superada. A busca de as formas sutis e refinadas de idolatria que

TEOLOGIA E SOCIEDADE


um cristianismo sem cruz, sem renúncia afloram com justificativas religiosas não


e sem despojamento são velhas tentações podem ser ignoradas. Portanto, não é de



que emergem com diferentes roupagens se estranhar que o mercado – entidade



e justificativas teológicas. Falar em cruz poderosa e invisível – é obedecido e


e renúncia em uma sociedade hedonista cultuado religiosamente, bem como o


e que vê no consumo e posse o caminho ○

mercado de bens religiosos está em plena
para realização humana é, sem dúvida, expansão.

uma tarefa no mínimo ingrata e que não Uma das características mais proemi-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


funciona como estratégia para o aumen- nentes da teologia reformada é a distin-

to do número de membros das igrejas. ção entre Criador e criatura. A ênfase


Não é de se estranhar a tentativa de fa- calvinista de que o finito não pode con-

zer do evangelho um bem de consumo ter o infinito perpassa sua teologia e en-

adequado às “exigências do mercado”. A contra na teologia de Karl Barth especial


compreensão calvinista a respeito de ressonância, principalmente na sua luta



Deus é que, em sua soberania, ele graci- contra as reivindicações da teologia libe-

osamente nos permite acesso pela ora- ral do século XIX, quando o transcen-

ção, porém, a finalidade primeira é que dente foi domesticado e reduzido à ra-

o nosso coração seja tomado por um zelo zão, experiência ou sentimento. O mis-

e desejo ardente de amá-lo e servi-lo. A ticismo tinha pretensões idênticas. De



oração não se esgota em pedir o que ne- acordo com Pelikan, “facilmente se cru-

cessitamos, mas em produzir em nós uma zou a linha entre Cristo-misticismo e



compreensão mais profunda e intensa da panteísmo. O anseio pela união com o



graça de Deus. Além disso, Deus não está Cristo, em muitas circunstâncias,

à mercê dos caprichos e desejos huma- obliterava a distinção entre Criador e



nos. De outra sorte, não seria Deus. Criatura”(Op. cit., p.131). Outros mís-

Resguardadas as devidas proporções ticos, no anseio de descrever esta união,



presenciamos uma espiritualidade extre- chegavam a falar que tudo vindo de Deus

mamente supersticiosa. Se a religião não seria reabsorvido em Deus. A perspecti-



foi banida pela tecnologia, ciência ou sis- va calvinista da oração procura não so-

temas políticos, ela aflorou e se constata mente preservar nitidamente a distinção


uma espiritualidade mística com forte Criador-criatura, mas a oração em si já



apelo ao mágico. Objetos e rituais mági- representava a própria debilidade e ne-



cos estão na ordem do dia. Apesar da ne- cessidade humana, o que excluía de prin-




43







cípio qualquer pretensão de união mís- Esse modelo de espiritualidade, na
NOTAS SOBRE A ESPIRITUALIDADE EM CALVINO



tica. maioria das vezes, se torna separatista ou



A contemplação mística ou o isola- excludente. Na prática repete-se o equí-


mento monástico tinham como pressu- voco cometido pelo movimento monás-



posto uma concepção de mundo e ne- tico contemporâneo a Calvino. No an-



cessidade de fugir a esta realidade. Em- seio de escapar de um mundo e igreja


bora não pudesse ser enquadrado neces- corrompidos e em busca do que se en-



sariamente como uma piedade munda- tendia ser perfeição, o movimento mo-



na, Calvino não deixa de ver o mundo nástico, segundo Calvino, enveredava para


como teatro da glória de Deus e a partir uma atitude separatista rompendo com a



da sua concepção de vocação desenvolve igreja ao adotar um ministério peculiar e



e lança as bases de uma ética do traba- administração privada dos sacramentos,
lho, relações econômicas e sociais que ○

○ bem como, deixando de participar das
vão influenciar a Europa e a civilização reuniões com o povo de Deus. Em assim

ocidental profundamente. Pode-se atri- procedendo, estava quebrando o vínculo


buir a Calvino uma espiritualidade mun- da unidade da igreja (Calvin, 1960, IV,

dana no melhor sentido da palavra, pois 13,14). Algumas manifestações da




páginas 28 a 45

a sua maneira de conceber a relação com espiritualidade protestante têm exata-


Deus e o mundo como lugar onde glori- mente enveredado por esse rumo. O

ficamos ao Criador pelo nosso engenho fracionamento de muitas igrejas aponta,



e trabalho teve e tem profundas impli- entre outras causas, para esse tipo de

cações no ambiente. espiritualidade personalista.


Em alguns círculos pietistas, a ênfase Uma espiritualidade sadia brota de



na experiência e subjetividade que tanta uma relação com Deus mediada pela

influência teve no protestantismo levou Palavra, enraizada na comunidade e com-


a uma perda da visão histórica e da pró- prometida com a realidade. À parte da



pria ação de Deus dentro da história. Palavra, adentramos um terreno escor-



Deus ficou encapsulado na subjetivida- regadio das subjetividades, revelações


de, reduzido ao indivíduo e com graves particulares, etc. Sem o enraizamento



conseqüências também para a compre- comunitário, perdemos a rica noção da



ensão da igreja como comunidade. A fal- igreja mãe e escola, a qual aprendemos

ta de articulação entre fé e história/soci- com Calvino e, sem compromisso com a


edade ilustra isso. Muitas divisões têm realidade, repetimos o equívoco do



origem nessa falta de percepção da igre- monasticismo místico interessado ape-



ja como comunidade. Tem se desenvol- nas nas experiências pessoais, alienado


vido um tipo de espiritualidade indivi- de um mundo que anela por propostas



dualista e verticalizada que oblitera o mais consistentes.



envolvimento com a comunidade.






44







Bibliografia GAMBLE, Richard. Calvin and Sixteenth-

REVISTA

Century Spirituality: Comparison with the


CALVIN, J. “An Inventory of Relics”, In:
Anabaptists in Calvin Studies Society Papers,


BEVERIDGE, H. & BONET, J. (editors).
1995, 1997. G.Rapids: CRC, 1998.


Selected Works of John Calvin, vol. 1. G.Rapids:


Baker 1983. HOONAERT, Eduardo. A Formação do


_________. Commentary on Colossians, Catolicismo Brasileiro 1550 - 1800. Petrópolis:

TEOLOGIA E SOCIEDADE
Philipians and Tessalonians. Albany, USA: Ages Vozes, 1974.



software, 1998a. KAVANAUGH, K. “Spanish Sixteenth Century:


_________. Commentary on Catholic Epistles. Carmel and Surrounding Movements”, In


Albany, USA: Ages software, 1998b. DUPRÉ, L. & SALIERS, D. (editors). Christian


Spirituality. New York: Crossroad, 1989.


_________. Commentary on Psalms. Albany,


USA: Ages software, l998c. MACKAY, John. El Otro Cristo Espanol. Mexico:


Casa Unida de Publicaciones, 1988.


_________. Institutes of the Christian Religion.

Philadelphia: Westminster, 1960. MENDONÇA, A. G. O Celeste Porvir. São Paulo:

Paulinas, 1984.

COMBLIM, J. O Espírito Santo e a Libertação.


PELIKAN, Jaroslav. Jesus through the centuries

Petrópolis: Vozes, 1987.


– His place in the history of culture. New

COOKE, Charles. “Calvin´s Illnesses and their Haven: Yale Press, 1985.

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


relation to Christian vocation”. In GEORGE, T. ed.

STEINMETZ, David. Calvin in context. New


John Calvin and the Church – A prism of Reform.


York: Oxford Press, 1995.

Louisville: John Knox/Westmister Press; 1990.


EIRE, Carlos. Calvin attack on idolatry. In STROHL, H. O Pensamento da Reforma.


George, T. ed. John Calvin and the Church – A S.Paulo: Aste, 1963.

prism of Reform. Louisville: John Knox/


TRINIDAD, Saul. “Christology, Conquista,


Westmister Press; 1990.

Colonization In: MIGUEZ-BONINO, Jose, (ed.).


Faces of Jesus: Latin American Christologies,,


Mariknoll: Orbis, 1984.





































45


“Se Roma perecer, o que se há de salvar?”
Santo Agostinho e a
queda de R oma
Roma

N
a vida de Santo Agos-
tinho (354-430), o ano Gerson Correia de Lacerda
de 410 teve tremenda
importância. Em 410, Roma foi
saqueada pelos godos. Agostinho não
vivia em Roma. Era bispo de Hipona,
no norte da África. Contudo, ele foi
profundamente afetado pelo acon-
tecimento. Roma não chegou ao fim
de sua história com aquele saque. A
cidade sobreviveu ao ataque dos Apesar disso, o saque de Roma
godos e a parte ocidental do Impé- pelos godos teve um grande impac-
rio Romano durou mais algumas dé- to. Naquela época, o Império Ro-
cadas. Os godos não pretendiam des- mano era oficialmente cristão. Em
truir o Império Romano, mas parti- conseqüência disso, a fé cristã teve
cipar nos benefícios de suas rique- de responder às acusações e às dú-
zas. Brown afirma que: vidas levantadas pelo saque. Os pa-
Alarico viveu a maior parte de gãos acusaram a religião cristã de ser
sua vida dentro das fronteiras a responsável pela queda da cidade.
do Império Romano...Ele usou
Os cristãos ficaram com incertezas
a força destruidora de sua tri-
bo para barganhar vantagens e a respeito da validade de sua fé.
conquistar um posto no alto Pretendemos examinar aqui a
comando do estado romano; resposta providenciada por Santo
ele e seus sucessores dependi- Agostinho tanto às acusações quan-
am dessa posição para terem to às dúvidas em sua obra A Cida-
abertura para negociações com
de de Deus. Nosso objetivo é estu-
o governo romano.(1969, p.
288) dar o que Santo Agostinho afirmou





sobre a queda de Roma em 410 e avaliar reira. Ao contrário, foi “uma cuidadosa e




a importância de suas colocações para a premeditada publicação de um homem



nossa realidade. Seguiremos os seguin- já idoso, com uma grande

PÁGINAS 46 A 59
REVIST
“SE ROMA PERECER
REVISTA

tes passos: obsessão”(Brown, 1969, p. 312). Em



1) Análise da relação entre a queda outras palavras, é um livro que pertence

A TEOL

de Roma e A Cidade de Deus; “aos anos mais produtivos e repletos de

TEOLOGIA
PERECER,, O QUE SE HÁ DE SAL

2) Exame da resposta de Santo ocupação de Agostinho”(Loetscher,



Agostinho aos pagãos e aos cris- 1935, p. 17).

OGIA E SOCIEDADE


tãos; De fato, a expressão acima é profun-


3) Estudo da relevância dessa respos- damente verdadeira para descrever a si-


ta para a nossa realidade. ○

tuação de Agostinho no período em que
escreveu A Cidade de Deus. Por um

A Queda de lado, ele estava realmente muito ocupa-



do. “Ao escrevê-la, ele está em luta con-


Roma e

tra Pelágio e os pelagianos, responde

SALVVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


longamente a questões de exegese e de
A Cidade

teologia, prega sem cessar e coloca o pon-


de Deus

to final em De Trinitate” (Rondet e ou-


tros, 1953, p. 139). Por outro lado, Agos-


A Cidade de Deus foi uma obra que


tinho vivia seus anos mais fecundos. Se-


consumiu vários anos para ser escrita.


gundo Chadwick, ele não era mais o jo-


TeSelle (1970, p.269) sugere as seguin-

vem Agostinho que, às vezes, acreditava


tes datas para sua composição: em 412,


no estabelecimento da justiça “por um


Agostinho planejou redigir o texto; em


imperador que conhecesse a verdadeira


415, terminou os dez primeiros livros;


adoração ao único Deus revelado em


entre 415 e 418, ele escreveu mais qua-

Cristo” (Chadwick, 1980, p. 99). Ao


tro livros; entre 419 e 421, acrescentou Paulo


aulo
aulo,, SP
contrário, ele era o maduro Agostinho

quatro outros livros; e, de 421 a 426, ele


que “não mais usava tais expressões oti-


concluiu o seu projeto com mais quatro

mistas a respeito das estruturas políti-


livros.

cas. A conversão de Constantino fora


Se levarmos em consideração que


bem-vinda, mas não trouxera o


Agostinho nascera em 354, concluiremos


milênio”(Idem, p.100).
que ele era um homem maduro quando
Gerson Correia de Lacerda

A Cidade de Deus está dividida em


concebeu este texto. Na verdade, Agos-


22 livros, tendo o seguinte plano, segun-


tinho terminou esta obra no final de sua


do apresentação de Marrou:
vida, visto que morreu em 430. Portan-

Primeira parte (de caráter polêmi-


to, A Cidade de Deus não foi um livro


co, negativo) – refutação ao paga-


escrito por alguém no começo de sua car- nismo contemporâneo (livros I-X):





47







a) os deuses pagãos não tiveram safiadora em Cartago. Nesse senti-
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA



nenhuma influência sobre o desen- do, o saque de Roma assegurou que


volvimento da história, especial- uma obra de pura exegese para pou-


mente na história do povo romano cos eruditos cristãos...se transfor-



(livros I-V); b) os deuses não asse- masse num deliberado confronto


guram a seus fiéis a vida eterna (li- com o paganismo” (Op. Cit., p.312)



vros VI-X).


Segunda parte (de caráter De acordo com esse ponto de vista,


Agostinho utilizou a queda de Roma


dogmático, positivo) – a visão cris-


tã da história: a) fundamento teo- como uma oportunidade para expor seu


lógico da Cidade de Deus, da cria-


pensamento. Em outras palavras, a que-


ção à queda (livros XI-XIV; b) his-


da de Roma não é importante para a com-
tória da Cidade de Deus inserida na


preensão da obra. A queda de Roma for-

cidade terrestre, de Caim ao tem-

po presentes (livros XV-XVIII); c) ○

neceu somente um contexto ou pretex-
história futura: os últimos tempos to para um livro que poderia ter sido es-

(livros XIX-XXII).(1938, p.65,66) crito mesmo sem a queda de Roma.



Thomas Merton concorda com tal inter-


Portanto, A Cidade de Deus é uma


pretação. Para ele, A Cidade de Deus é


grande obra, com um esquema comple- uma “monumental teologia da história”.



xo, redigida por um atarefado bispo, na A discussão a respeito da queda de Roma


fase final de sua vida. Por que Agostinho


em termos de oposição entre cristianis-


escreveu essa obra imensa? Essa pergun- mo e paganismo “não nos empolga hoje

ta é muito importante. Ela pode ser for- como questão atual. Além disso, tam-

mulada de outra maneira: Qual o papel


bém não era uma questão digna do gê-


que a queda de Roma desempenhou na nio de Agostinho...Ele não começou a tra-



origem desse texto? tar do tema real de sua obra senão de-

Existem diferentes respostas para


pois de ter chegado ao livro onze”


esta questão. A primeira delas pode ser


(Rondet e outros, 1953, pp. 141, 142).


vista no texto de Peter Brown. Ele afir- O mesmo posicionamento é manti-



mou: do por A. Lauras e H. Rondet. Eles afir-


“A Cidade de Deus não pode ser


mam que o propósito de Agostinho era


explicada em termos de sua origem


páginas 46 a 59

o de escrever um livro a respeito da ori-


imediata. É especialmente superfi-


gem, desenvolvimento e julgamento fi-


cial considerá-la como um livro a


respeito do saque de Roma. Agosti- nal das duas cidades. Este era um assun-

nho poderia perfeitamente ter es- to que ele tinha esboçado em 405, no

crito um livro sobre a Cidade de seu texto De Catechizandis Rudibus e


Deus sem aquele evento. O que o


em muitos sermões. Contudo, quando


saque fez foi providenciar a Agosti-


nho uma audiência específica e de-


Agostinho começou a escrever “foi ne-

cessário acrescentar alguns capítulos con-







48







tra aqueles que acusavam a religião cris- saque de Roma e, especialmente, as

REVISTA


tã de ter provocado desgraças a Roma ao perguntas ansiosas ou escarne-


cedoras por ele provocadas...Se não


interditar os sacrifícios...Felizmente para
houvesse o surgimento de tais ques-


nós, o grande bispo não esqueceu seu de-


tões, Agostinho nunca teria escrito


sejo primitivo...” ( Idem, 1953,

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A Cidade de Deus. (Op. Cit.,



p.141,142) p.268)


Portanto, existe uma corrente de in-



terpretação que afirma que A Cidade Concordamos com esse tipo de in-



de Deus é uma obra de teologia da his- terpretação. Pensamos até que a discus-


tória incidentalmente relacionada com a são sobre a possibilidade de Agostinho


queda de Roma. Essa corrente de inter- ○

escrever A Cidade de Deus sem a que-
pretação atribui valor maior à segunda da de Roma não tem o menor fundamen-

parte da obra, ao mesmo tempo em que to. O fato histórico irrefutável é que ele

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


reduz a importância da primeira parte. escreveu essa obra no contexto desse im-

Contra tal forma de interpretação, portante evento. O fato literário é que


existe uma segunda resposta à questão Agostinho redigiu quase metade desse

sobre as relações entre a queda de Roma livro para apresentar uma resposta tanto

e a origem do livro. Descobrimos tal res- às acusações como às dúvidas provocadas


posta nas palavras de Hans Von pela queda de Roma.



Campenhausen: É claro que Agostinho não começou



Em dois aspectos, o livro no qual a refletir a respeito das “duas cidades”


Agostinho trabalhou, com interva- depois do saque de Roma pelo godos.



los, durante metade de sua vida,


Como bem afirmou TeSelle, A Cidade

permanece sempre relacionado às


de Deus “representa não uma nova li-


circunstâncias específicas de sua


origem, como resposta ao nha de pensamento, mas a continuação


questionamento levantado pela de antigas reflexões” (Idem, p.268).



queda de Roma, o que se tornou Por outro lado, também é claro que

imperativo. Seu objetivo era o de


o saque de Roma pelos godos não foi o


defender a fé cristã em Deus preci-


primeiro sinal de decadência do impé-

samente no ponto em que sua va-


rio. Na verdade, os sinais dessa decadên-


cuidade estava sendo aparentemen-


te desmascarada pelas catástrofes cia já estavam sendo visíveis há muito


tempo. Courcelle, por exemplo, afirma


que tinham ocorrido... (1968,


p.204) que a diferença entre o segundo e o ter-



ceiro século na história do Império Ro-


O mesmo tipo de posicionamento é


mano era a seguinte:


sustentado por TeSelle: O segundo século foi o da Paz Ro-



A ocasião imediata para a redação mana... Os romanos possuíam, me-


do livro A Cidade de Deus foi o lhor que ninguém, a ciência do go-







49







verno e garantiam a liberdade de subgerente de Deus, não havia uma
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA



todos. Em decorrência disso, cada linha definida de separação entre a


um dos povos do império era ane- igreja e o estado. O império era ou


xado e considerava Roma como sua estava se tornando a seus olhos o



pátria...Pouco a pouco, as incursões reino divino na terra, e ele tinha a


bárbaras se multiplicaram no Reno divina missão de apoiar, e até mes-



e no Danúbio, cada vez mais auda- mo dirigir, este curso de aconteci-


ciosas. No terceiro século, sob os mentos. (1967, p.13)



imperadores Valeriano e Galiano,


bandos de francos ultrapassaram as A relação entre o cristianismo e o


defesas da fronteira, atravessaram


Império Romano era demasiadamente


a Gália, a Espanha, e tomaram os


navios que lhes permitiram desem- forte para ser negligenciada durante a de-


cadência do Império. Jerônimo expres-

barcar na Mauritânia; ao mesmo

tempo, os alamanos penetraram no ○

sou bem a perplexidade de toda uma
vale do Reno. (1964, p.18-19) geração diante dessa situação, quando

disse a respeito do saque de Roma pelos



É claro que é impossível compreen- godos: “O mundo todo pereceu em uma


der o pensamento de qualquer pessoa à


só cidade” (apud Battenhouse, 1955, p.


parte de seu tempo ou de sua situação 259). “Se Roma perecer, o que se há de

histórica. Tem razão Salustiano Álvares salvar?” (apud Brown, 1969, p. 289).

(1986, p.55) quando afirma que preci- No sentido mais estreito, A Cidade

samos conhecer a época bem como a


de Deus é uma resposta dada por Agos-


cultura do tempo de Agostinho para en- tinho às dúvidas dos cristãos e às acusa-

tender suas idéias. Se o saque de Roma ções contra eles provocadas pelo saque

pelos godos era um fato insignificante, a


da cidade de Roma.

decadência do Império Romano era ple- No sentido mais amplo, A Cidade



na de significado. E A Cidade de Deus, de Deus representa uma profunda re-


inegavelmente, é a reflexão de um pen-


flexão provocada pelo fim de uma “ci-


sador e pastor cristão a respeito de uma dade terrena” com a qual a “cidade

“cidade” com a qual o cristianismo esta- celestial” parecia ter vinculado o seu des-

va vinculado. Desde Constantino, o cris- tino.



páginas 46 a 59

tianismo estava ligado ao Império Roma-



no. As palavras de Armstrong servem



para descrever bem essa situação:


...para Constantino, o bem-estar do



império dependia da igreja, especi-


almente da unidade da igreja, o que



ele demonstrou em muitos aspec-


tos de seu programa de construções.



Para Constantino, na condição de






50







A resposta sas normas são nefastas para a con-

REVISTA


dução do estado... Se grandes des-


de Agostinho graças alcançaram o estado, isso


ocorreu por culpa dos imperadores


aos pagãos e


cristãos que seguem o melhor que

TEOLOGIA E SOCIEDADE
podem a religião cristã. Isso tudo é


aos cristãos


muito claro! (Courcelle, 1964, p.


68.)


Em agosto de 410, Alarico coman-



dou os godos no ataque a Roma. “De re-
Em tais palavras podemos perceber


pente, as sombras do grande declínio e

que as idéias de Volusiano tinham forte

queda desceram, mesmo sobre a segura

○ poder de atração. Elas forneciam uma
África” (Meer, 1961, p. 157). Os refu-
explicação, simples e compreensível,

giados foram os responsáveis pela ampli-


para a queda de Roma. A mensagem de


ação do alcance de tais sombras. Eles fu-


Volusiano parecia ter sentido. Roma ti-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


giram de Roma e chegaram a Cartago,


nha construído um vasto império que ti-

onde divulgaram os horrores cometidos


nha sobrevivido com o paganismo; por


pelos bárbaros no ataque à cidade. Como


outro lado, Roma perecia com o cristia-


representante do grupo que propalou as


nismo. Portanto, o cristianismo era res-

más notícias, havia um jovem chamado


ponsável pela queda de Roma.


Volusiano. Ele era um dos membros da


Com a finalidade de apresentar uma


antiga aristocracia romana. Volusiano era


resposta a semelhante acusação, Agosti-

seguidor da religião pagã de seus ances-


nho estudou a história e a religião da


trais. Naquela época, o paganismo per-


Roma antiga. Segundo Marrou


tencia ao passado. É claro que Volusiano


Ele escreveu a parte apologética (1.


não teve contato com o paganismo nos I-X), onde abundam as lembranças

templos existentes em Roma. Ele des- da história romana (sobretudo nos



cobriu a antiga religião nos livros. E, em livros I-V), tendo sob seus olhos os

textos de Tito Lívio, de Florus e de


Cartago, ele divulgou suas idéias de que


Eutropus, e , no que concerne às ins-


a cidade de Roma tinha caído porque os

tituições, as “Antiquidades” de seu


ensinamentos cristãos eram inadequados


grande informante, o velho Varron.


à vida política. ( Op. cit., p.418)


A pregação e a doutrina cristãs não



são, de forma alguma, convenien- Utilizando-se de tais fontes, Agosti-


tes à condução dos negócios do es-


nho defendeu a fé cristã contra as acusa-


tado, pois seus preceitos são os se-


guintes: não retribuir ao outro o mal ções pagãs com os seguintes argumen-

tos:

com o mal (Rm 12.17); se alguma


pessoa nos ferir uma face, devemos a) Demonstrando que a violência era

apresentar-lhe a outra... Todas es- um costume da guerra e que, mesmo







51







durante o saque de Roma, a fé cristã ofe- ses (Ibidem, p. 45,46,53) e mesmo os
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA



receu uma contribuição positiva. Foi gra- romanos antigos



ças à fé cristã que os godos chegaram a não recebiam nem podiam esperar


manifestar clemência. Na verdade, os receber leis para regulamentar sua


conduta e a de seus deuses, visto que


godos respeitaram os santuários por oca-


as leis que eles próprios elaboraram


sião do saque: eram superiores e faziam com que


Assim escaparam multidões, que,


a moralidade dos deuses ficasse en-


agora, reprovam a religião cristã e vergonhada. Os deuses exigiam en-


imputam a Cristo os males que caí-


cenações em sua própria honra; os


ram sobre a cidade; mas a preserva- romanos excluíram os encenadores


ção de sua própria vida – um benefí- de todas as honras cívicas: os pri-


cio que eles tinham recebido por


meiros ordenaram que eles deveri-


causa do respeito revelado pelos bár- am ser celebrados pela representa-

baros a Cristo – eles atribuíam não ○

ção cênica de suas próprias desgra-
ao nosso Cristo, mas à sua própria ças; os últimos determinaram que

boa sorte. (Agostinho, 1950, p. 23)


nenhum poeta deveria denegrir a


reputação de qualquer cidadão.


b) Ele analisou a história da religião (Ibidem, 53)



pagã e demonstrou que seus deuses não



protegeram seus fiéis, que foram con- d) Ele analisou a história de Roma e

quistados pelos romanos. Portanto, os


provou que não havia sido somente uma


deuses pagãos não poderiam ter salvo história de vitórias e de glórias. Roma

Roma dos godos. Na verdade, nem mes- sofreu fracassos contra inimigos exter-

mo o poder do Império Romano era uma


nos, quando ainda não era cristã. Roma


dádiva dos deuses: também passou por desastres internos,



Conclui-se que tais deuses...nunca por causa de seus problemas sociais. Não

poderiam, de forma alguma, ter sido


obstante, mesmo com tais reveses, era


capazes de desenvolver ou preser-


var o Império Romano. Se eles ti- inegável que a Roma pagã construíra um

grande império. Agostinho, entretanto,


vessem poder para tanto, certamen-


te teriam concedido esta grande afirmou que, sob a soberana providência


bênção aos gregos, os quais, no que


de Deus, “em primeiro lugar, por amor à


diz respeito ao relacionamento com


páginas 46 a 59

liberdade e, em segundo lugar, também


os deuses,... haviam adorado a eles


por ânsia de domínio, louvor e glória, os


com mais honra e de forma mais


digna... (Idem, p. 135) romanos concretizaram grandes feitos”



c) Agostinho analisou os (Ibidem, 159,160).


ensinamentos do paganismo e provou É importante acrescentar que, segun-



que eles não elevaram a moral dos roma- do Agostinho, a edificação de um gran-

nos. Ao contrário, os filósofos gregos ti- de império por intermédio de guerras não

devia ser colocada entre as boas coisas


nham melhores ensinos do que seus deu-






52







realizadas pelos romanos: (Ibidem, p. 21). E acrescentou as seguin-

REVISTA


Será que alguém iria replicar con- tes palavras, ao recapitular o conteúdo


tra a afirmação de que o Império


do primeiro livro:


Romano nunca poderia ter sido tão ...Eu consumi considerável espaço,


amplamente estendido nem ter sido


especialmente para que pudesse ali-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

tão glorioso, a não ser por meio de viar as ansiedades que perturbam a


constantes e intermináveis guerras?


muitos, quando eles observam que
Na verdade, este é um argumento


as bênção de Deus e os desastres


correto! Por que um reino deve ser comuns e diários caem sobre a sor-


perturbado com a finalidade de se


te dos maus e dos bons, sem distin-


engrandecer? No pequeno mundo ção; mas, principalmente, para que

do corpo humano, não é melhor ter


eu pudesse ministrar alguma con-
uma estatura moderada, com saú- solação àquelas santas e castas mu-

de, do que alcançar as enormes di-


lheres que foram ultrajadas pelo


mensões de um gigante por meio de

inimigo, de uma maneira que cho-


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


tormentos não naturais e, ao che- cou sua modéstia, embora não te-

gar a tal tamanho, não ter um mo-


nha manchado sua pureza, e para


mento de descanso, mas sofrer de que eu pudesse preservá-las de se-


acordo com o tamanho de seus


rem envergonhadas, embora não


membros? (Ibidem, p. 268) tenham culpa para serem envergo-



nhadas. (Ibidem, p. 41)


Agostinho deu uma resposta comple-


ta às acusações pagãs. Por um lado, ele


Com a finalidade de ajudar os cris-


demonstrou os defeitos e limitações do tãos, Agostinho apresentou os seguintes



paganismo. Ao mesmo tempo, apresen- argumentos:



tou os defeitos do Império Romano. a) Existe um propósito divino no so-


Dessa maneira, ele arrasou a crença na frimento. As experiências de sofrimen-



superioridade do paganismo em provi- to não são sinais da ausência de Deus nem



denciar felicidade neste mundo. Além de fraqueza divina. Ao contrário, os so-


disso, aniquilou a crença da superiorida-


frimentos representam o julgamento de


de do Império Romano na promoção do Deus. No seu julgamento, Deus não



bem-estar dos povos. separa os bons dos maus:


Contudo, existia também a necessi-


Eles são punidos juntos, não por


dade de providenciar uma resposta às causa de terem tido uma idêntica



dúvidas dos próprios cristãos. Ao tratar vida corrupta, mas porque os bons

e os maus, embora não de igual


das violações cometidas contra virgens


maneira, amam esta vida presente;

consagradas e contra outros cristãos,


...há uma outra razão pela qual os


Agostinho afirmou: “Ao abordar tais bons são afligidos pelas calamidades

questões, precisamos ser mais cuidado- temporais – a razão exemplificada


sos em confortar nossos irmãos do que por Jó: para que o espírito humano

em responder aos nossos acusadores” possa ser provado... (Ibidem, p. 13)






53







qual lugar a morte irá conduzi-los.
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA


b) Em tal situação, os cristãos não


E, visto que os cristãos estão bem


sofrem dano com os sofrimentos, mas cientes que a morte dos piedosos


pobres, cujas feridas são lambidas


são aperfeiçoados por eles:


Todos os membros da família de pelos cães, é bem melhor do que a


dos ímpios ricos que se vestem com


Deus...têm portanto sua própria


consolação – uma consolação que tecidos de púrpura e linho fino, que


prejuízo poderiam trazer as mortes


não falha e que traz uma esperança


segura que as coisas deste mundo, terríveis para aqueles que viveram


que vacilam e caem, não podem bem? (Ibidem, p. 16)



perturbar. Eles não recusam a dis-


ciplina desta vida temporal, pela Além disso, o cativeiro num país es-



qual são preparados para a vida eter- trangeiro não altera em nada a condição


na; eles não lamentam sua experi-

dos cristãos:

ência, pois as boas coisas da terra
Mas como a nossa preocupação ago-

eles usam como peregrinos que não


ra é com aqueles cristãos que foram


são detidos por elas, ao passo que


tomados como prisioneiros, que eles

suas coisas ruins servem para prová- aproveitem a oportunidade desta


los ou aperfeiçoá-los. (Ibidem, p. 34)


calamidade para revelar a superio-


ridade de nossa religião... eles sa-



c) Os sofrimentos podem provar ou bem, em confiante expectativa do


aperfeiçoar os cristãos porque eles não país celestial, que são peregrinos

são cidadãos deste mundo. Se fossem mesmo em seus próprios países.


(Ibidem, p. 21)

cidadãos deste mundo, os sofrimentos


não poderiam ser utilizados por Deus


Com tal argumentação, Agostinho pro-


para prová-los ou aperfeiçoá-los. Ao con-


videnciou conforto aos cristãos e afirmou:


trário, Deus teria de proteger os cristãos


...pois os membros da família do


dos sofrimentos e de garantir-lhes felici-

Cristão possuem esta resposta: o


dade neste mundo. Porém, segundo


nosso Deus está presente em todos


Agostinho, os cristãos são, de fato, um os lugares, de maneira plena, não


povo em peregrinação. Sua cidade não sendo confinado a um só lugar. Ele



está neste mundo. Em tal situação, nem pode estar presente, sem ser per-

cebido, e pode estar ausente, sem


mesmo a morte é um mal para eles:


páginas 46 a 59

de mover. Quando Ele nos expõe


...a morte não pode ser considera-


às adversidades, ou é para provar

da um mal que acaba com uma boa


nossas perfeições ou corrigir nossas


vida; pois a morte torna-se um mal

imperfeições; e, em retribuição à

somente pela retribuição que vem


nossa paciência em suportar os so-


depois dela. Aqueles, então, que

frimentos deste mundo, Ele nos re-


estão destinados à morte não pre-


serva uma recompensa eterna.


cisam ter o cuidado de inquirir de

(Ibidem, p. 34,35)

que morte eles vão morrer, mas para







54







A relevância perada fuga do mundo real e de suas

REVISTA


questões políticas, que leva ao esta-


da resposta belecimento de uma atitude de vida


ascética e individualista, que, ante-


de Agostinho


cipando-se a toda preocupação com

TEOLOGIA E SOCIEDADE
o processo histórico de nosso mun-


para a nossa


do, abandonado-o sem qualquer re-


sistência às forças terrenas e às for-


época


ças malignas. (Op. cit., p. 208)



Depois de haver respondido às acu-


sações dos pagãos e às dúvidas dos cris- Contudo, o que queremos afirmar é

tãos, Agostinho passou a tratar do ○

que a obra de Agostinho possui um gran-
de valor para a nossa época e para o nos-

“surgimento, desenvolvimento e fim das


duas cidades” (Ibidem, p. 38). so mundo. Em primeiro lugar, é muito


importante reconhecer que Agostinho


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Todavia, esse assunto não faz parte

desnudou a própria essência do paganis-


do interesse deste trabalho. Pretendemos


dirigir nossa atenção para outra direção. mo. Ele demonstrou que o paganismo

Na primeira parte, tentamos provar que consiste numa religião puramente mer-

cantil, sem qualquer senso ético. No pa-


existe uma estreita conexão entre o li-


vro de Agostinho A Cidade de Deus e a ganismo, os seres humanos cultuam os



queda de Roma. Na segunda parte, pro- deuses para obtenção de bênçãos. Eles

pagam com culto para terem paz, poder,


curamos resumir a interpretação cristã


de Agostinho a respeito da queda de saúde e riqueza:



...Esta é a característica da cidade


Roma, a partir dos cinco primeiro livros de

terrena: ela presta culto a Deus ou


sua obra. Temos agora, diante de nós, um aos deuses que possam ajudá-la a

último problema, a saber: qual a importân- reinar vitoriosa e pacificamente so-


cia de tudo isso para a nossa realidade? bre a terra, não por causa do amor

Agostinho providenciou uma boa aná- pela prática do bem, mas por causa

da paixão pelo poder. Os bons usam


lise do paganismo, mas o paganismo por


o mundo para poderem usufruir de


ele examinado pertence ao passado da

Deus; os maus, ao contrário, para


história da religião, sem, aparentemen-


poderem usufruir do mundo tentam


te, nenhuma relevância para a nossa si- usar Deus. (Agostinho, 1950, p. 485)

tuação. Agostinho também providenciou Esta idéia estava presente na base da


uma boa consolação aos cristãos, dizen- acusação pagã contra o cristianismo por

do que eles eram cidadãos de uma cida- causa da queda de Roma. O cristianismo

de celestial. Mas, como afirmou era condenado porque Deus não havia

Campenhausen, protegido a cidade de Roma. E o paga-



A resposta de Agostinho poderia ser nismo tinha se infiltrado, de maneira su-


vista como uma completa e deses-







55







til, no cristianismo. Na verdade, se os se em sua própria força, representa-
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA



cristãos estavam cheios de dúvidas por da na pessoa de seus governantes; a


outra diz ao seu Deus: “Eu te amo, ó


causa da queda de Roma, o motivo de
Senhor, porque tu és a minha for-


suas dúvidas era a concepção religiosa


ça”. (Ibidem, p. 477)


mercantil que os estava dominando. Eles



estavam prestando culto a Deus com a Outro ponto importante para nós no


finalidade de obterem aquilo que dese- pensamento da Agostinho é que ele nos



javam. E esse tipo de atitude representa ensina a desconfiar que os impérios,



a essência do paganismo. Nesse sentido, mesmo os assim chamados impérios cris-


o paganismo não é alguma coisa que per-


tãos, possam trazer o Reino de Deus.


tence ao passado da religião. O paganis- Peter Brown escreveu que Agostinho



mo está presente em todos os tempos, “considerava os antigos romanos com a
inclusive em nosso próprio tempo. ○


mesma intensa ambivalência que nós
Contra tal concepção religiosa, Agos- consideramos nossos eminentes

tinho apresentou o cristianismo que vitorianos” (Op. cit., p. 308). De fato,


cultua a Deus por amor a Deus. Por isso,


por um lado, parece que Agostinho ad-


existe uma enorme distância entre o pa- mirava algumas das virtudes dos funda-

ganismo e o cristianismo. É a distância dores do império romano. Contudo, por


que separa as duas cidades que estão


outro lado, ele criticou a “luxúria da do-


“emaranhadas conjuntamente neste minação”, que os levou a montarem um



mundo”(Ibidem, p.38): império.42


...as duas cidades foram formadas a



partir de dois amores: a cidade


terrena, pelo amor egocêntrico, com



desprezo a Deus; a cidade celestial,


pelo amor a Deus, com desprezo ao



egocentrismo. A primeira, numa pa-


lavra, glorifica-se em si mesma; a



última, no Senhor. Uma busca a gló-


ria para os seres humanos; mas a



maior glória da outra é Deus...Uma


exalta a cabeça em sua própria gló-


páginas 46 a 59

ria; a outra diz ao seu Deus: “Tu és a



minha glória e aquele que exalta a


minha cabeça”. Numa, o príncipe e



as nações que ele domina são gover-


nados pelo amor ao poder; na outra,



o príncipe e os súditos servem uns


aos outros em amor, os últimos obe-



decendo, ao passo que o primeiro


se preocupa com todos. Uma delicia- 42


cf. Agostinho, p. 158, 163.




56







A mesma espécie de ambivalência é mo tem sido associado à civilização oci-

REVISTA


revelada quando Agostinho fala a respei- dental, que chega a ser chamada de “civi-



to do império cristão de Constantino e lização cristã”. A experiência histórica de


de Teodósio. Por um lado, ele reconhe- Agostinho deve nos levar a evitar qualquer



ceu a prosperidade de Constantino como tipo de confusão entre esta civilização, ou

TEOLOGIA E SOCIEDADE


uma dádiva terrena dada por Deus e exal- qualquer outra, com a Cidade de Deus.


tou a fé e piedade de Teodósio. Entre- A civilização ocidental não é o Reino de



tanto, ele também afirmou: Deus. Mesmo vivendo na civilização oci-



Mas, a fim de que nenhum impera- dental, os cristãos precisam reconhecer


dor se tornasse cristão só para ter a que, nela, eles não estão em seu próprio

mesma felicidade que Constantino, ○

lar. Eles são sempre peregrinos e estran-
porque cada um deveria ser cristão

por amor à vida eterna, Deus lan- geiros, mesmo nessa civilização.

Finalmente, é importante acrescen-


çou fora Joviano muito mais rapi-


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


damente do que Juliano e permitiu tar que as idéias de Agostinho sobre a

que Graciano fosse batido pela es- Cidade de Deus não querem dizer fuga

pada de um tirano. (Ibidem, p. 170) do mundo da realidade. A afirmação de



que os cristãos são peregrinos neste mun-


Fica muito claro que Agostinho, com


do não levou Agostinho a esquecer que


tal ambivalência, revelou aquilo que eles estão neste mundo. Em outras pala-

TeSelle chama de “realismo político” vras, segundo Agostinho, os cristãos têm


(Op. cit., p. 2). Foi esse realismo políti-


um papel a desempenhar na sociedade.


co que lhe permitiu ver as qualidades dos Peter Brown afirma:



antigos romanos, sem, ao mesmo tem- De fato, Agostinho chegou a espe-


po, esquecer seus defeitos. Foi esse rea-


rar que os cristãos tivessem consci-


lismo político que o capacitou a elogiar ência da tenacidade dos laços que

Constantino e Teodósio, sem, ao mesmo sempre os atam a este mundo. O


pensamento que sustentou quando


tempo, acreditar que seu governo era o

estava na maturidade era marcado


cumprimento do milênio. O fundamen-


por uma crescente apreciação da


to do realismo político de Agostinho era importância de tais laços. Dessa



a idéia de que os cidadãos da Cidade de maneira, A Cidade de Deus, longe


Deus eram peregrinos e estrangeiros na de ser um livro sobre a fuga e o aban-



terra. Seu reino não é deste mundo. Con- dono do mundo, era uma obra sobre

“nosso envolvimento com esta vida


seqüentemente, o fim do Império Ro-


mortal comum” (Op. cit., p. 324)


mano não era motivo para desespero. Os

impérios sempre chegam a um fim. Eles


De fato, quando escreveu A Cidade


não são a Cidade de Deus.


de Deus, Agostinho indicou alguns avan-

Esta concepção de Agostinho é muito


ços que a fé cristã trouxe a este mundo.


importante para todos nós. O cristianis-


Por exemplo, ele comparou o ataque dos






57







gregos à cidade de Tróia com o ataque respeito de Deus, dizendo que Deus está
“SE ROMA PERECER, O QUE SE HÁ DE SALVAR?” SANTO AGOSTINHO E A QUEDA DE ROMA



dos godos a Roma e concluiu: ocupado com as coisas humanas. “Os



...os amáveis gregos se apropriaram reinos deste mundo são dados por Ele


do templo de Juno para concreti- tanto aos bons como aos maus”. (Ibidem,


zar os propósitos de sua avareza e


p.140)


orgulho, ao passo que as igrejas de


...todas as outras bênçãos e privilé-
Cristo foram escolhidas mesmo pe-


gios desta vida, bem como o pró-


los selvagens bárbaros para cenas
prio mundo, a luz, o ar, a terra, a


adequadas de humildade e de mi-


água, os frutos e até mesmo a alma


sericórdia. (Agostinho, Op. cit.,
humana, seu corpo, sentidos, men-


p.8)


te, vida, Ele concede generosamen-


te tanto aos bons como aos maus.


Além disso, Agostinho sustentou a

E, entre essas bênçãos, também

idéia de que é bom ter cristãos como ○
deve ser contada o domínio de um
império, cuja extensão Ele determi-

governantes para o progresso do mundo:


Portanto, se o verdadeiro Deus é na segundo as exigências de sua pro-


vidência em todos os tempos.


adorado e se Ele é servido com ri-


tos genuínos e virtude verdadeira, (Ibidem, p. 181)


é vantajoso que homens bons rei-



nem por muito tempo e em toda Portanto, se o próprio Deus trabalha


parte. Não é tão vantajoso para eles


na cidade terrena, a atuação neste mun-


mesmos quanto para aqueles sobre


do deve ser entendida como um dever

os quais reinam, visto que, no que


para os cristãos. Quando os cristãos agem


diz respeito a eles mesmos, sua pie-


dade e probidade, que são grandes na história, eles não estão abandonando

dádivas de Deus, são suficientes a Deus. Ao contrário, estão sendo com-



para lhes dar a verdadeira felicida- panheiros de Deus.


de, capacitando-os a viver bem a



vida atual e, depois, a receberem


Conclusão

aquela que é eterna. Portanto, nes-



te mundo, o domínio dos homens


Edward Hardy afirma que, em A

bons é vantajoso, não tanto para eles


Cidade de Deus, Agostinho


mesmos como para os interesses


humanos.(Idem, p. 112) ...está descrevendo um conflito hu-


mano muito mais do que propondo


páginas 46 a 59

um programa político. Ele vê a hu-


Por que Agostinho admitiu a possi-


manidade ocupando um campo de


bilidade de governantes cristãos? Será batalha entre duas lealdades, a



que as responsabilidades com a Cidade celestial e a terreal, a do amor a


de Deus não impedem o envolvimento Deus que nega o amor a si mesmo e



com a cidade humana? Agostinho acre- a do amor a si mesmo que nega o


amor a Deus. Todas as áreas da vida


ditava na providência divina que se ma-


humana são o campo espiritual des-


nifesta na história humana. Ele falou a ta batalha.(1955, p.257-258)






58







Concordamos com Hardy. Além dis- papel da fé cristã neste mundo, o qual

REVISTA


so, é preciso acrescentar que Agostinho muitas vezes tem sido negligenciado em



escreveu sobre este conflito humano nome da cidade celestial.


porque viveu numa época de decadên- Jerônimo perguntou: “Se Roma pe-



cia de uma civilização com a qual o cris- recer, o que se há de salvar?” Santo Agos-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


tianismo tinha se vinculado profunda- tinho respondeu: “...os reinos humanos


mente. A Cidade de Deus não é um li- são estabelecidos pela providência



vro da época de Constantino, quando divina...Nunca se deve imaginar que



muitos chegaram à conclusão de que o Deus tenha deixado os reinos humanos,


Reino de Deus havia chegado. A Cida- suas dominações e servidões, fora das leis


de de Deus é um livro a respeito do pe- ○

de sua providência”. (Agostinho, Op. cit.,
ríodo em que o Império Romano mar- p.142,143, 158)

chava para o seu final. Contudo, isso não



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


significa que a obra seja irrelevante. Ao

contrário, exatamente porque ser um li-


Bibliografia
vro profundamente ligado à sua época é

ARMSTRONG, G.T.. “Imperial Church and Church-


que é uma obra para todos os tempos. Stare Relations, A.D. 313-363”. Church History

36 (1967), 3-17.

Agostinho desnudou a essência do


AGOSTINHO. The City of God. New York: The


paganismo do seu tempo que está pre-

Modern Library, 1950.


sente também nas manifestações religi- BATTENFOUSE (ed.), R. W. A Companion to the


Study of Saint Augustine. New York: Oxford


osas de nosso tempo. Na época de Agos- University Press, 1955.


tinho e na nossa, Deus está sendo


BROWN, Peter. Augustine of Hippo. Berkeley and


Los Angeles. University of California Press, 1969.


cultuado pelo amor às vantagens e bene-

CAMPENHAUSEN, Hans Von. Tradition and Life in


fícios mundanos. A mensagem de Agos- the Church – Essays and Lectures in Church

History.. Philadelphia: Fortress Press, 1968.


tinho para o seu tempo e para o nosso


CHADWICK, H. Augustine. Oxford and New York,


tempo é a de que devemos cultuar a

Oxford University Press, 1986.


Deus por amor a Deus. COURCELLE, P. Histoire Littéraire des Grandes


iques. Paris: Études


Invasions Germaniques.

Agostinho também nos ensina a des- Augustiennes, 1964.


confiar da afirmação de que impérios


LOETSCHER, F. W. “St Augustine’s Concepction of


the State.” Church History 4 (1935), 16-42


humanos possam trazer o Reino de Deus.

MARROU, Henri-Irénée. Saint Augustin et la Fin


E este era um erro do seu tempo e do de la Culture Antique.. Paris: E. De Boccard,


éditeur, 1938.

nosso tempo. No tempo de Agostinho,


MEER, F. Van der. Augustine the Bishop – The Life


o cristianismo tinha sido vinculado ao

and Work of a Father of the Church. London ad


Império Romano. No nosso tempo, o New York, Sheed and Ward, 1961.

Organizatión de Agustinos de Latino América. San


cristianismo tem sido associado com a Agustin y la Liberación. Lima, Ceta y Cep, 1986.

civilização ocidental e com alguns de seus


RONDET, H., Landais, M., Lauras, A., Couturier,


C. Études Augustiniennes.. Paris: Aubier, 1953.


impérios.

TESELLE, Eugene. Augustine the Theologian..


Agostinho, finalmente, enfatizou o New York: Herder and Herder, 1970.






59


A Bíblia no Aconselhamento
Pastoral

A
s pessoas que trabalham
na área de Teologia Prá- Shirley Maria dos Santos P
tica, especificamente no
Aconselhamento Pastoral, encon-
tram poucos recursos teóricos, ela-
borados a partir da realidade latino
americana, que forneçam reflexão
sistematizada a respeito da prática
do aconselhamento. Dentre as pou-
cas publicações sobre o assunto, al-
gumas fornecem embasamento bí-
Proença
roença

blico-teológico, informações psico-


pedagógicas e orientações metodo-
lógicas com o objetivo de capacitar pressupostos teóricos de outras ci-
os aconselhadores e as aconselhado- ências e as que usam o método
ras que desejam participar do pro- participativo, em que o aconselha-
cesso de aconselhamento. do constrói o caminho para a solu-
Para iniciar a reflexão sobre o ção do seu problema. E, por fim,
assunto proposto, serão abordadas, abordar-se-á o uso da Bíblia como
em primeiro lugar, algumas um recurso relevante para o proces-
conceituações sobre aconselha- so de aconselhamento; para tanto, é
mento e suas implicações para a re- preciso conhecer o modo pelo qual
alização do mesmo. Em seguida, se- os textos bíblicos são utilizados pe-
rão discutidas metodologias aplica- los modelos aqui mencionados e
das no processo de aconselhamento, descobrir pistas para sua
dentre elas, as que priorizam o mé- aplicabilidade no processo libertador
todo diretivo, as que recorrem aos do aconselhamento.





I


I - CONCEITOS A RESPEITO DO



ACONSELHAMENTO P ASTORAL
PASTORAL

A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO P
PÁGINAS 60 A 73
REVIST
REVISTA


A sistematização da prática do aconselhamento pastoral, realizada


A TEOL
por pastoralistas e pesquisadores da área de Teologia Prática, tem com

TEOLOGIA

objetivo oferecer subsídios teóricos para a reflexão a respeito desta ati-


vidade desenvolvida nas Igrejas.

OGIA E SOCIEDADE

São freqüentes por parte dos estudiosos e das pessoas que se utili-



zam desta forma especifica de procedimento perguntas como: O que é

Aconselhamento Pastoral? Para que serve? Qual a melhor metodologia

para aplicá-lo? Quais os recursos disponíveis? Estes questionamentos



demonstram a preocupação constante quanto à eficácia do


aconselhamento, o qual ocorre numa relação complexa, explicitada em



diversas elaborações teóricas, conceituais e metodológicas. Há de se



considerar a dificuldade para a sistematização da prática do

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


aconselhamento pastoral, tendo em vista a própria terminologia, que


PASTORAL

traduz, em primeira instância, o seu caráter restritivo.

ASTORAL

O termo “aconselhamento pastoral” é traduzido do inglês pastoral


counseling. Numa compreensão literal, “aconselhamento” é entendido



como o ato de dar conselhos, de direcionar a uma resposta; por sua vez,

o termo “pastoral” é entendido como as atribuições de quem exerce o


pastorado.

Recentemente, a partir da década de 1990, a reflexão a respeito do


Shirley Maria dos Santos P


Aconselhamento Pastoral despertou o interesse de pesquisadores para



a publicação de estudos sobre o tema, numa perspectiva brasileira, o


que contribuiu para re-elaborações no campo prático.


Paulo

aulo
aulo,, SP

Esses avanços, contudo, não mudaram a compreensão a respeito do



agente do aconselhamento. Algumas igrejas têm se empenhado na


capacitação de pessoas da comunidade para desempenharem o papel



de aconselhadoras; no entanto, a figura representada por quem exerce


Proença

roença

o ministério pastoral continua tendo a primazia. Pastores e pastoras re-


presentam importante papel institucional, legitimado comunitariamente,



para realizarem a mediação nas relações interpessoais no aconselhamento.



A tarefa de conceituar “aconselhamento pastoral” é realizada por



pastoralistas e pesquisadores que articulam teoricamente a experiência


e fornecem pressupostos fundamentais para a construção dialética en-









61







A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL



















tre o saber prático e o saber teórico. Al- so no qual as pessoas se encontram


para repartir lutas e esperanças.

guns conceitos a respeito do processo de

(1996, p.66,67)
aconselhamento têm desafiado a prática

do mesmo. Segundo Ronaldo Sather O autor, antes de conceituar



Rosa, “aconselhamento pastoral”, desconstrói


Aconselhamento pastoral não é dar


imagens aceitas pelo senso comum e as


conselhos, no sentido usual do ter-


reconstrói como uma nova possibilidade

páginas 60 a 73

mo, que denota a idéia de “aconse-


de cuidado para com os aflitos e


lhar” as pessoas a fazerem isto ou


aquilo, ou a não tomarem uma ou desesperançados.


outra decisão... Outros autores, como Christoph



Não é resolver “problema dos ou- Schneider-Harpprecht, entendem o


tros”. As diversas situações-proble-


aconselhamento como “a prática


mas das pessoas são oportunidades


metodologicamente refletida e organiza-

de avanços em termos de capacida-


da de ajuda a pessoas com problemas de


de para enfrentar e superar condi-


ções adversas... saúde, problemas psíquicos, sociais ou



Não se trata... de minimizar os dra- religiosos através do relacionamento de


mas humanos. As inquietações, an- curto ou médio prazo com uma pessoa

gústias e tristezas humanas não são


ou um grupo qualificados” (1998a,


desconsideradas, ainda que possam


parecer superficiais para o olhar de p.79). A identificação da problemática


que envolve o aconselhado permite


outrem...

Não deve haver espaço para julga- orientá-lo para um tratamento específi-

mento moral a respeito de atitudes co, porém integrado.


ou comportamentos das pessoas. Para James Reaves Farris, “o



Aconselhamento Pastoral não é


aconselhamento pastoral é o processo

“exortação”, “pregação” ou censura...


Não é substituto ou concorrente de pelo qual um pastor, ou outro represen-



psicoterapia... tante da igreja, trabalha com indivíduos,


Aconselhamento pastoral é proces- grupos ou famílias, num contexto relati-







62







vamente estruturado, com um programa tamento”(Idem, p.25).

REVISTA


de conhecimento emocional, psicológi- Dos conceitos a respeito do



co e espiritual, tentando curar suas feri- aconselhamento pastoral pode-se obser-


das” (1996, p.19). Esta conceituação de- var a preocupação em ter a pessoa do



monstra o diálogo entre a Psicologia e a aconselhado como central no processo.

TEOLOGIA E SOCIEDADE


Teologia. A interdisciplinaridade tem O aconselhador torna-se um facilitador


como objeto a integralidade humana, ins- para que a pessoa que o procura encon-



taurando um processo para sarar as feri- tre as respostas ou pelo menos novas al-



das; “a cura é uma atividade que abrange ternativas para resolver sua situação de


desde tratamentos hospitalares, sessões crise.


de aconselhamento, formas de reconci- ○

Tão importante quanto acolher o
liação humana e de perdão até os minis- aconselhado é o aconselhador não per-

térios de reconciliação, de renovação e mitir que se estabeleça uma relação de



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


de educação na igreja” (Idem, p.21). poder opressor que julga, que direciona

Howard J. Clinebell propõe um mo- ou que seja hierárquica.


delo de aconselhamento pastoral Ao ser instaurado o processo de



centrado em libertação e crescimento e aconselhamento, as pessoas envolvidas



conceitua o processo como “uma função tornam-se cooperadoras, ao tecerem fios


reparadora, necessária quando o cresci- diferentes na construção de novos rumos



mento das pessoas é seriamente compro- para as histórias de vida.



metido ou bloqueado por crises”(1987, Conceituar “aconselhamento pasto-


p.25). Para ele, o “aconselhamento pas- ral” não é dado suficiente para uma prá-

toral é a utilização de uma variedade de tica efetiva; faz-se necessário conhecer



métodos de cura (terapêuticos) para aju- os vários métodos aplicados, a fim de se



dar as pessoas a lidar com seus proble- reformular o que for necessário e esta-

mas e crises de uma forma mais belecer novos parâmetros para o desen-

conducente ao crescimento e, assim, a volvimento deste processo de cuidado



experimentar a cura de seu quebran- para com as pessoas em situação de crise.























63







II
I I – VÁRIOS MÉTODOS NO PROCESSO DO
A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL



ACONSELHAMENTO P ASTORAL
PASTORAL





Não há dúvida que ao se iniciar o processo de aconselhamento estabe-



lece-se uma relação de poder entre os envolvidos. Por esta razão, torna-se


imprescindível ao aconselhador e aconselhado reconhecer que a





assistência pastoral, fundamentada no poder igualador da aceitação e


ação libertadora de Deus, procura desmascarar esquemas destrutivos


de poder e mudar a dinâmica do poder de tal maneira que os/as parti-



cipantes da assistência tornem-se agentes e receptores de justiça


relacional... O termo “justiça relacional” significa “as condições pelas



quais todas as pessoas possam estar em termos mutuamente benéficos

umas com as outras e com a ordem natural. (Graham, 1998, p.9)




Que tipo de relação se estabelece entre quem aconselha e quem é



aconselhado? Quais os recursos teóricos de que o aconselhador dispõe?



Quais os materiais de apoio que são acessíveis ao aconselhador a fim de



páginas 60 a 73

desenvolver o processo instaurado? Como fazer a leitura do problema ex-



posto pela pessoa que busca o aconselhamento? Quais as necessidades



verbalizadas e as ocultas pelo aconselhado? Qual o contexto social a que o


aconselhado pertence? E como a sua história de vida foi tecida até o mo-

mento inicial do processo? Estas e outras perguntas devem ser inseridas no



processo de aconselhamento, para que não se torne, por um lado, um aten-


dimento descomprometido ou mero cumprimento de exigências



institucionais e, por outro lado, uma sessão de psicoterapia realizada por



pessoas desprovidas do instrumental teórico adequado, o que pode causar



sérios danos à saúde emocional daqueles que estão em sofrimento.


Aconselhamento pastoral (aqui entendido como cuidado) tem sua



especificidade e seus limites demarcados pela necessidade do reencontro



do aconselhado com Deus, consigo mesmo e com o próximo. A relação


com o sagrado e as experiências de fé diferenciam este procedimento das



práticas psicoterapêuticas e estabelece a tênue linha entre o que compete



ao aconselhador e o tipo de atendimento de que o aconselhado necessita.


O processo de aconselhamento será construído a partir do tipo de rela-



ção que se estabelece entre a pessoa que aconselha e a que é aconselhada.



Quando o aconselhador é procurado para mostrar a solução de determina-









64







do problema e assume este papel nado contexto social. Algumas aborda-

REVISTA


diretivo, o aconselhado torna-se coadju- gens se ocupam do indivíduo; outras, do



vante e receptor-objeto no processo. indivíduo em suas relações sociais num


Neste caso, o aconselhamento se reves- determinado contexto histórico.



te de juízo de valor e de visão unilateral No modelo do ponto de vista

TEOLOGIA E SOCIEDADE


da realidade. O aconselhado aprenderá a fundamentalista, o aconselhamento é


sublimar suas inquietações e frustrações um instrumento para induzir o aconse-



e se sentirá satisfeito com uma solução lhado a tomar uma decisão radical ao



momentânea para os seus problemas. Por enfrentar determinado problema. “Seu


outro lado, se a relação estabelecida for método é a conversação que confronta a


conduzida pelo aconselhado, toda e qual- ○

pessoa com o mal que ela faz (alcoolis-
quer palavra do aconselhador será ape- mo, medo, falta de fé etc), a responsabi-

nas um reforço para decisões já refleti- liza pelos seus atos e busca uma nova ori-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


das, que serão aceitas ou descartadas con- entação” (Schneider-Harpprecht,

forme a necessidade de reafirmação de 1998b, p.303) com o objetivo de mos-


pontos de vista prévios. Tanto no primei- trar o caminho que o aconselhado deve

ro caso quanto no segundo o processo trilhar para se aproximar de Cristo. A



de aconselhamento será desarticulado pessoa que busca aconselhamento, nes-


em função da relação de dominação im- te modelo, recebe do aconselhador as



plantada entre os envolvidos. diretrizes para a solução de seus proble-



Por se tratar de um processo, se faz mas individuais. Não há preocupação


necessário identificar com clareza a rela- com os contextos social e histórico em



ção de aconselhamento, a fim de dimi- que ela vive. Diversos manuais seguem

nuir a possibilidade de desvirtuamento esta linha de aconselhamento; neles são



da meta proposta. A perda do objetivo apresentadas as diretrizes para que o


pode ocasionar o envolvimento emocio- aconselhado consiga resolver seus proble-



nal entre a pessoa que aconselha e a que mas à luz dos ensinamentos bíblicos. Um

é aconselhada, originando situações cons- texto conhecido e usado para


trangedoras e destrutivas para ambas. aconselhamento diretivo é o de Jay E.



Para a realização do aconselhamento Adams, Conselheiro Capaz, no qual são



pastoral diversas metodologias são apli- oferecidas respostas para se enfrentar os



cadas. Todas elas levam em consideração momentos de crise.


a pessoa que se encontra em crise e bus- Howard J. Clinebell apresenta outro



ca ajuda. O que diferencia os vários mé- modelo de aconselhamento no qual se



todos são os procedimentos, a amplitu- enfatiza a libertação e o crescimento do


de da compreensão a respeito do outro e aconselhado. O aconselhamento é usa-



a inserção do aconselhado num determi- do para “salvar as áreas de nossa vida que






65







A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL

















naufragam nas tempestades do nosso dia- lado, deixa fora a parte da crítica


psicológica da religião, leva a uma


a-dia, que se despedaçaram nos arreci-


psicologização da fé e a uma
fes ocultos de ansiedade, culpa e falta


teologização da psicologia, que não
de integridade” (Op. cit., p.14). Assim ○

deixa de ser problemática.


sendo, o resgate da integralidade do acon- (Harpprecht, 1998b, p.305)

selhado se inicia quando o aconselhador



é procurado e se estabelece um vínculo O modelo contextual tem como re-



de cuidado entre as pessoas envolvidas. ferência o sofrimento em que as pessoas



páginas 60 a 73

“O aconselhador orientado para o cres-


se encontram e propõe a capacitação das


cimento visa a ajudar as pessoas a fazer mesmas para enfrentarem a opressão



mais do que simplesmente sobreviver e como fruto de estruturas injustas. Ainda


recuperar seu nível anterior de ajusta-


é um modelo em busca de construção


mento. A meta é capacitar a pessoa a teórica. Tem feito uso de referenciais da



aprender e, assim, a crescer em decor- Psicologia, da Antropologia e da Sociolo-


rência do enfrentamento do problema.”


gia para compreender melhor o ser hu-


(Idem, p.87) mano e estabelecer modelos para o



A abordagem feita pela Psicologia aconselhamento pastoral que cooperem



Pastoral tem como um dos seus repre- para o crescimento individual e comuni-

sentantes Jorge A Léon, para quem o tário na perspectiva da fé cristã.



aconselhamento tem como meta o apren- A identificação de modelos demons-



dizado e a mudança de comportamento. tra a complexidade da ação do


Neste método procura-se realizar a


aconselhamento. As pessoas que buscam


integração entre os aconselhadores podem sofrer proble-



máticas semelhantes; no entanto, as si-


...psicologia moderna e cristianismo


tuações sociais e históricas são diferen-


bíblico numa visão psicoteológica do

ciadas; os valores morais e éticos são di-


ser humano que leva, por um lado,


a uma prática psicologicamente versificados e as expressões da



bem refletida, porém, por outro espiritualidade são plurais. Não há uma





66







cartilha diretiva que encerre as etapas dos problemas geradores da crise. E, por

REVISTA


aplicáveis para que se atinja o objetivo fim, aconselhador e aconselhado realizam



de tal prática. Por se tratar de um pro- uma desconstrução e construção conjun-


cesso, os modelos se entrecruzam e es- ta. Uma pessoa procura a outra e ambas


TEOLOGIA E SOCIEDADE
tabelecem novos padrões que estão su- precisam se respeitar em suas posturas



jeitos a novas interpretações. Por isso, ideológicas, éticas e percepções do mun-


aconselhamento é um desafio único para do para que haja comunicação efetiva e



as pessoas envolvidas; ainda que se con- o processo seja salutar, principalmente



te com pistas orientadoras, elas não se para o aconselhado.


tornam regras definitivas a conduzir o Os princípios acima enumerados pro-

processo. ○

põem uma reflexão quanto ao exercício


Ainda que não haja modelo único de do aconselhamento pastoral, à busca de

aconselhamento, torna-se fundamental novos paradigmas e ao envolvimento co-



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


observar alguns princípios norteadores operativo da comunidade.

para a realização do mesmo. Em primei- Para se entender as novas propostas


ro lugar, compreender o significado do a respeito do aconselhamento cristão, se



processo de aconselhamento para evitar faz necessário identificá-lo como um pro-



equívocos relacionais entre os envolvidos. cesso relacional que tem por objetivo

Em segundo, reconhecer que há diferen- criar oportunidades para a descoberta de


tes pontos de vista sobre o mesmo pro- si, do outro e de Deus, tendo como refe-

blema. Em terceiro lugar, descobrir os rência situações específicas de vida e de



possíveis caminhos que levam à solução crises geradoras de sofrimento.

































67







III
A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL



III - A BÍBLIA NO PROCESSO DE



ACONSELHAMENTO P ASTORAL.
PASTORAL.




Ao ser instaurado o processo de aconselhamento numa situação de



crise1, um dos questionamentos mais freqüentes diz respeito à



metodologia adequada a ser utilizada.


Como foi lembrado anteriormente, não existe um manual pronto



a ser seguido. Existem pistas para que o processo de aconselhamento



flua e se transforme em instrumento libertador para a vida das pessoas


que dele necessitam. Alguns cuidados devem ser considerados para



que o aconselhador seja um facilitador no processo de aconselhamento.


Em primeiro lugar, mapear a situação que levou o aconselhado a

procurar ajuda e conhecer, ainda que minimamente, as circunstâncias



que impulsionaram o aconselhado a compartilhar a sua situação an-



gustiante. Geralmente, a pessoa que necessita do aconselhamento en-


contra-se confusa, se sente culpada, e se reconhece incapaz de resol-




páginas 60 a 73

ver determinado problema.



Após um breve mapeamento do contexto, segue-se o diálogo para


identificar o que se espera no decorrer do processo. O aconselhador



precisa ser acolhedor, solidário para com a pessoa aflita; respeitá-la na



revelação dos fatos e na eventual omissão de pormenores. O aconse-


lhador, para que o aconselhado se sinta seguro, necessita demonstrar



predisposição para caminhar lado a lado, sem prévio julgamento e cons-



ciente da sua responsabilidade no processo de descoberta do aconse-



lhado. A realização de perguntas abertas pode ajudar a colher as infor-


mações necessárias para conhecer o estado emocional em que se en-



contra o aconselhado que, ao expor seus dramas se coloca diante de



um espelho e vê a si mesmo, ou a imagem que faz de si. Ao revelar


seus medos, dúvidas e desencantos, o aconselhado cria com o aconse-



lhador vínculos recíprocos de cuidado e de serviço.



Os recursos mais usados no aconselhamento pastoral são a oração


e a leitura da Bíblia, os quais contribuem para que este procedimento







1
Para compreensão a respeito da crise ver artigo FARRIS, James Reaves, “Intervenção na

crise: perspectivas teológicas e implicações práticas”. In: Teologia Pastoral


Pastoral
astoral, Ano XI, no.

12, p. 101-118, dez. 1996.







68







não se transforme em uma conversa des- Neste caso, a Bíblia é utilizada como

REVISTA


provida de significado e de objetivo, ou um manual que contém as obrigações



em uma sessão de psicoterapia conduzida que o aconselhado deve cumprir para


por profissional não qualificado. resolver seus problemas. Tendo em vista



Os textos bíblicos, no aconselha- que a causa dos males encontra-se na si-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


mento pastoral, em algumas diretrizes tuação de pecado, todo sofrimento será


metodológicas, legitimam posturas mo- curado, pois os ensinamentos bíblicos



ralistas, discriminatórias e hierárquicas; mostram que, diante do arrependimen-



em outras, defendem os ensinamentos to, o pecado é perdoado; portanto, a cau-


encontrados na Bíblia como necessários sa do sofrimento está resolvida.


para o processo de restauração da vida ○

Há outros aconselhadores que utili-
do aconselhado. Reafirma-se, neste caso, zam a Bíblia como um talismã. Ela é

o caráter libertador, conciliador e reno- transformada num fetiche e dela se es-



Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


vador das orientações bíblicas. peram as soluções mágicas para os infor-

A leitura das histórias bíblicas traz à túnios. Aos textos bíblicos são atribuí-

memória das pessoas em situação de cri- dos poderes que advêm do sobrenatu-

se o ato gracioso de Deus manifesto em ral; portanto, o que na Bíblia se encontra



amor, compaixão e misericórdia. A graça escrito nada mais é do que o parecer de


divina é revelada a todas as pessoas, prin- Deus em relação aos atos humanos, prin-

cipalmente às necessitadas, às aflitas, às cipalmente aqueles que foram realizados



desamparadas que lhes oferece a possi- em desobediência aos preceitos divinos,


bilidade de rompimento com as estru- o que ocasiona as crises existenciais, fa-



turas que oprimem e destroem os indi- miliares, etc...Ao ser usada como um

víduos e as relações interpessoais. talismã, encerra em si mesma o objetivo



Para os aconselhadores que utilizam do aconselhamento; torna-se o centro de


o modelo fundamentalista, tal prática, pois ela traz as respostas para



todo e qualquer problema. Para



... a Bíblia, que é verbalmente ins- exemplificar: quando uma pessoa pro-

pirada, revela em todas as suas par- cura quem aconselha e conta seu pro-

tes a verdade de Deus e oferece ao


blema, o aconselhador abre a Bíblia e lê

ser humano pecador regras para


conduzir a vida. Ela lhe mostra textos que lembram o pecado causador

como a desobediência em relação a do conflito. A solução oferecida, quan-


Deus cria todo o sofrimento e a do- do se usa a Bíblia neste sentido, é ler tex-

ença nos seres humanos...Deus cha- tos que demonstram a devassidão huma-

ma as pessoas para o arrependimen-


na e a necessidade do retorno a Deus.


to por causa do pecado e para uma


Deus é perdoador, mas também é juiz e,

mudança radical de comportamen-


ao perdoar a pessoa arrependida, ele a


to. (Harpprecht, 1998b, p. 303)







69







livra do conflito e, conseqüentemente, 4. Ajudar a curar patologia espiritu-
A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL



da crise. al e a mudar crenças patogênicas...



Outros aconselhadores têm como 5. Conscientizar as pessoas a respei-


referências as promessas bíblicas, que to da vida cristã. (Id., p.119-122)



servem para consolar e confortar o cora-



ção aflito com ênfase na misericórdia di- Há, ainda, aconselhadores que usam


vina. Neste caso as causas dos conflitos as histórias dos personagens bíblicos, e



que geram a crise devem ser esquecidas, as identificam com as histórias de vida



pois Jesus Cristo já as esqueceu. Sob esta dos aconselhados. Propõe-se uma


perspectiva; ele restaura toda e qualquer interação entre as histórias bíblicas e a



situação que pode ser fruto de ação de- história pessoal, por meio da análise das



moníaca na vida da pessoa. diversas fases da crise e as possíveis so-
Ao se usar a Bíblia no aconselhamento ○

○ luções encontradas pelos personagens
pastoral se faz necessário atentar para o bíblicos. Ao aproximar estas histórias

aspecto reducionista e fragmentado, que como um recurso metodológico para a


muitas vezes seduz o aconselhador, e per- prática do aconselhamento, o aconselha-



ceber se este recurso não está sendo para dor pode se tornar o condutor do pro-


páginas 60 a 73

manipular o aconselhado. cesso, colocando-se como agente diante


Para outro modelo usado no do receptor que necessita de direção.



aconselhamento, que tem por palavras Este método leva em consideração que

chave “libertação” e “crescimento”, “o as histórias conhecidas e narradas no tex-



testemunho bíblico enfatiza reitera- to bíblico demonstram a fragilidade hu-


damente as notáveis potencialidades dos mana. Assim como, no contexto bíblico,



seres humanos” (Clinebell, Op. cit., p. homens e mulheres cometeram erros, se



48). Com o objetivo de se atingir um angustiaram, sentiram-se aflitos, tiveram


crescimento integral, em que se reflita a medo etc e buscaram respostas que lhes

vida abundante, o uso da Bíblia consiste restaurassem a vida, também, no presen-



em: te, os dramas humanos podem ser solu-


1. Permitir que a sabedoria bíblica cionados e as crises superadas, dando



informe o processo, o espírito e lugar a uma vida mais plena, mas não isen-

os objetivos de relações de ta de novas crises. Esta metodologia pode



aconselhamento... ajudar o aconselhado a encontrar respos-


2 . Consolar e fortalecer pessoas em tas para sua situação de crise; no entan-



crises. to, é preciso ter cautela e sabedoria para



3. Realizar um diagnóstico de ques- usar histórias outras, pois, ainda que se-

tões de crescimento de ordem psi- melhantes, guardam especificidades que



cológica, interpessoal e espiritual... são fundamentais para a solução das








70







questões que afligem e causam pertur- ainda que descritas em histórias particu-

REVISTA


bação pessoal e relacional. larizadas, refletem o aspecto relacional



A Bíblia, para o cristianismo, é fonte com o semelhante e com o sagrado.


de inspiração para o desenvolvimento da O aconselhado procura o aconselha-



fé, é norteadora para o culto e para a éti- dor com uma história, que está interliga-

TEOLOGIA E SOCIEDADE


ca. A fé, que provém da relação com o da a outras, formando o contexto em que


sagrado, encontra sustentação nos ele vive. Ao se fazer uso de histórias de-



ensinamentos bíblicos e, por esta razão, terminadas precisa-se reconhecer suas



a Bíblia torna-se importante instrumen- particularidades a fim de não transformá-


to no processo de aconselhamento. las em modelo acabado. A semelhança


Quando os textos bíblicos são estu- ○

com determinada história bíblica pode
dados com seriedade, não se tornam pre- ajudar a identificar os aspectos da situa-

texto para julgamento e punição do acon- ção de crise com que se pretende traba-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


selhado; tampouco, se transformam em lhar; mas o processo de aconselhamento

exigências ideológicas e religiosas, mas é totalmente outro, tendo em vista que


atuam como aliado do processo de liber- as pessoas não são as mesmas e nem as

tação e amadurecimento do aconselhado. circunstâncias se repetem.



Tendo em vista a importância da Bí- O uso das histórias bíblicas reafirma


blia no processo de aconselhamento pas- a fé no Deus que age no meio do povo



toral, quais as pistas para que a leitura da que enfrenta crises de toda espécie e que,

mesma não se torne pregação e direcione mesmo nos caminhos de degradação, de


o aconselhado a tomar decisões? miséria, de deserto e solidão, Deus está



Em primeiro lugar, identificar os dra- presente. A humilhação da deportação



mas em que estiveram envolvidos os per- do povo judeu não foi suficiente para ele

sonagens bíblicos (ciúme entre irmãos; abandonar a sua crença. A dispersão e


abuso de poder; esquemas para benefi- morte dos cristãos não conseguiram apa-

ciar alguns em detrimento de outros; gar a fé em um projeto salvífico de Deus.



desejo de possuir objetos ou pessoas; cri- A libertação como chave para o


ses familiares; violência sexual etc) nos aconselhamento é sustentada pela men-

fornece elementos para compreender a sagem central da Bíblia. Libertar-se dos



complexidade das relações humanas; a temores, enfrentar os medos, opor-se às



partir disso pode se reconhecer nas es- opressões e lutar contra a discriminação

truturas sociais e religiosas as articulações social, étnica, de gênero, de geração são



de poder e refletir a respeito do proces- pressupostos para possíveis soluções dos



so de aconselhamento como processo dramas humanos.


restaurador de vidas. As várias crises Nesta perspectiva libertadora, a Bí-



enfrentadas pelos personagens bíblicos, blia traz relatos que nos chamam a aten-






71







ção para o que se pretende no rio são componentes fundamentais para
A BÍBLIA NO ACONSELHAMENTO PASTORAL



aconselhamento. Se buscarmos uma pa- que vidas sejam restauradas e consigam



lavra de exortação, de consolação, de in- viver em harmonia pessoal e relacional,


centivo, certamente a encontraremos. ainda que novas crises surjam.



Mas é impossível se construir novas re- No aconselhamento pastoral, a Bíblia



lações se não forem reconhecidas as qua- não se esgota numa caixinha de promes-


lidades e os defeitos, os horizontes e as sas, não se limita às advertências e não se



limitações de cada pessoa envolvida no esgota em interpretações exclusivistas.



aconselhamento. Ela é recurso fundamental para se com-


A leitura da Bíblia no aconselhamento preender a diversidade de problemas, as



é fonte de inspiração para repensarmos possíveis soluções e principalmente o ho-



nossa condição de vida no momento es- rizonte de inegável esperança.
pecífico. Não é um receituário paliativo ○

○ As ciências humanas oferecem ins-
para encobrir a necessidade de transfor- trumental para o aconselhamento pasto-

mação cotidiana, e fornecer receituário ral; seus modelos e metodologias tentam


espiritual. Trata-se de uma proposta de oferecer condições para esta prática es-

vida, e de aquisição de valores que nos sencial na vida das igrejas; mas a Teologia


páginas 60 a 73

tornam mais humanos. ainda não tem aprofundado os aportes


A leitura fragmentada nos leva a in- teóricos para a reflexão sobre o processo

terpretações fragmentadas e transferem de aconselhamento, o que reforça o ca-



para o sobrenatural o que precisamos ráter empírico de tal procedimento.



enfrentar e resolver para que sejamos


saudáveis na nossa integralidade.



Em segundo lugar, a Bíblia é fonte CONCLUSÃO


CONCLUSÃO

sabedoria para o aconselhador que, como


facilitador do processo de A partir desta reflexão, concluímos



aconselhamento, organiza-o com que o Aconselhamento Pastoral é impor-



discernimento e prudência. Nela se tante instrumento para o amadurecimen-


aprende a lidar com a transitoriedade da


to pessoal e comunitário, se aplicado de


vida, com a construção contínua de no- forma planejada, com critérios definidos

vas perspectivas e relacionamentos, com e preparo dos aconselhadores. Este pro-



a re-visitação aos dogmas e preceitos, cesso, uma vez instaurado, conta com o

com a valorização dos outros, com as importante recurso dos ensinamentos



certezas e incertezas religiosas e com os bíblicos para que o aconselhado construa



mistérios da fé. sua história de vida e aprenda a lidar com


A Bíblia ensina ao aconselhador e ao as crises que, porventura, surgirem.



aconselhado que racionalidade e misté- O uso da Bíblia como recurso para o








72







BIBLIOGRAFIA

REVISTA
aconselhamento precisa ser amplamen-



te discutido para que os textos bíblicos


CLINEBELL, Howard J., Aconselhamento Pastoral:


não sejam usados como cartilhas diretivas modelo centrado em libertação e crescimento. São


Paulo: Paulinas; São Leopoldo: Sinodal, 1987.
e possam trazer libertação para as pesso-



FARRIS, Reaves James, “Teologia prática, cuidado e

TEOLOGIA E SOCIEDADE
as envolvidas no processo de


aconselhamento pastoral: um resumo da história


aconselhamento. A mensagem bíblica recente e suas conseqüências atuais”. In: Teologia


Pastoral, São Bernardo do Campo, ano XI, no. 12,
pode ser renovadora num momento de


p. 11-30, dez/1996.


crise, de angústia, de sofrimento em que


___________________, “Intervenção na crise:


as pessoas estão imersas. perspectivas teológicas e implicações práticas”. In:


Teologia Pastoral, São Bernardo do Campo, ano XI,
Se partirmos do pressuposto que o

no. 12, p. 101-118, dez/1996.

aconselhamento é uma desconstrução e ○


GRAHAM, Larry Kent, “A dinâmica do poder na


assistência pastoral”. In: SCHNEIDER-
construção conjunta em que o aconse-

HARPPRECHT, Christoph (org). Fundamentos


lhado encontra seu próprio caminho, o

Teológicos do aconselhamento pastoral. São


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Leopoldo: Sinodal, 1998.
uso da Bíblia trará o aporte necessário

HOCH, Lothar, NOÉ, Sidnei Vilmar, (org),


para reflexão sobre a situação de crise,

Comunidade Terapêutica: cuidado do ser através de


os danos ocasionados e as novas perspec- relações de ajuda. São Leopoldo: Escola Superior de

Teologia/Sinodal, 2003.
tivas. O aconselhador, como facilitador

ROSA, Ronaldo Sathler, “Aconselhamento pastoral e


do processo, torna-se acolhedor, solidá- educação”. In: Teologia Pastoral, São Bernardo do

Campo, ano XI, no. 12, p. 61-68, dez. 1996.


rio, encorajador, e procura ouvir o tem-


po todo, falar de vez em quando, e nun- SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph,


“Aconselhamento pastoral e diversidade cultural”. In:


ca direcionar o aconselhado. Facilitar o Estudos Teológicos, Escola Superior de Teologia;


IECLB, no.1, ano 37, São Leopoldo, p. 73-91,


processo não significa não saber a dire- 1997.


ção, os atalhos, as pausas para se chegar


______________________, Fundamentos Teológicos


ao objetivo, mas, isto sim, estar prepara- do aconselhamento pastoral. São Leopoldo: Sinodal,

1998.

do para chorar com os que choram e so-


______________________, “Aconselhamento
frer com os que sofrem. Viver os

Pastoral”. In: Teologia Prática no Contexto da


ensinamentos bíblicos de cuidado, paci- América Latina. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo,

ASTE, 1998b, p. 291-319.


ência e amor é o melhor uso da Bíblia na



desafiadora tarefa do aconselhamento.





















73


Desencantamento do
Mundo

O
presente trabalho, em
primeiro lugar, pro- Valdinei Aparecido F
põe-se a rastrear o con-
ceito de desencantamento do mun-
do ( Entzauberung der Welt) nos tra-
balhos sociologia da religião elabora-
dos por Max Weber. Trata-se de um
exercício de compreensão de um as-
Ferreira
erreira

pecto específico da obra de Max de sociologia da religião elaborados


Weber. Embora o objetivo se apre- por Weber fornecem, tomando-se
sente como modesto, na verdade, por base a relação entre racionaliza-
pela aproximação que o tema do ção e desencantamento, o fio con-
desencantamento tem com os temas dutor para a compreensão da uni-
da perda de sentido, da dominação dade de sua obra. Os textos que
e do racionalismo, torna-se bastante serão examinados são os seguintes:
amplo e de difícil sistematização. A Ética Protestante e o Espírito do
Pretendemos, em segundo lugar, si- Capitalismo, elaborado entre 1904-
tuar a importância da discussão do 1906; “Rejeições Religiosas do
tema desencantamento do mundo Mundo e suas Direções” – cuja pri-
para a análise do campo religioso na meira versão foi feita em 1915 e a
atualidade, buscando compreender 3 ª versão, que é a última, em
principalmente os rumos que o 1920;”A Ética Econômica das Reli-
racionalismo tomou na religiosidade giões Mundiais”, escrito em 1913
brasileira e latino-americana. e publicado em 1915. Vale ressal-
Jürgen Habermas (1987), se- tar que estes textos foram publica-
guindo a interpretação de F. dos num só volume em 1920 sob o
Tenbruck, considera que os ensaios título de Ensaios de Sociologia da





Religião. Na medida em que for neces- ticos Weber viria a chamar de esferas de




sário abordaremos outros textos de vida. Lutero, segundo Weber, produziu



Weber, especialmente A Ciência como uma desvalorização da vida monacal e por

DESENCANT
PÁGINAS 74 A 85
REVIST
REVISTA
DESENCANTAMENTO

Vocação, uma conferência proferida em conseqüência um aumento no valor mo-



1918 e publicada em 1919, que trata da ral do trabalho secular e profissional. A

A TEOL

relação entre ciência e desencantamento. vida monacal foi vista por Lutero como

TEOLOGIA

A construção da idéia de desencan- produto de uma egoística falta de cari-



tamento do mundo aparece pela primei- nho que afasta o homem de suas respon-

OGIA E SOCIEDADE
AMENTO DO MUNDO


ra vez na Ética Protestante. Weber está sabilidades neste mundo (Ibidem, p.54).


interessado em encontrar a origem da Todavia, devido à compreensão que


atitude moderna de racionalização. Con- ○

Lutero tem da doutrina da Providência
sidera infrutífera qualquer tentativa de – segundo a qual o lugar de cada indiví-

traçar o desenvolvimento do racionalismo duo na sociedade seria determinado por



num esquema de etapas, das quais o Deus e a melhor forma de agradar a Deus

protestantismo seria apenas mais uma. é permanecer na vocação para a qual se


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São P


Isto porque a história do racionalismo foi chamado – o conceito de vocação

“não segue linhas paralelas nos vários se- permaneceu em sua forma tradicional.

tores da vida” (Weber, 1987, p.51). Faltava ao conceito de vocação de Lutero


Weber criticou o uso genérico do con- a valorização da mobilidade social.



Valdinei Aparecido F
ceito de racionalismo, pois é preciso con- O calvinismo fornecerá o elemento

siderar que se pode “racionalizar a vida de mobilidade social ausente no concei-


de pontos de vista básicos, fundamen- to de vocação do luteranismo. Para o



talmente diferentes e em direções muito puritano “não é trabalho em si, mas um



diferentes” (Idem, p.51). Isto conduz trabalho racional, uma vocação, que é

Weber para a investigação daquele que pedida por Deus” ( Ibidem, p.115). Mas

Ferreira
erreira

seria, segundo suas palavras, “o dogma porque se pede um trabalho racional, de-

Paulo

aulo
aulo,, SP
central de todos os ramos do protestan- vemos nos perguntar: o que operou essa

tismo” - o conceito de vocação. Escolhe, mudança? A resposta para essa questão


portanto, examinar uma forma concreta encontra-se no capítulo em que Weber



e particular de pensamento racional. Ao trata dos fundamentos religiosos do



abordar o conceito de vocação no pro- ascetismo laico. Neste capítulo, Weber



testantismo Weber estará demonstran- concentra-se na compreensão dos seguin-


do como ocorre, num determinado se- tes movimentos religiosos: calvinismo,



tor da vida, no caso a religião, o processo pietismo, metodismo e as seitas batistas.



de racionalização e qual a sua direção. Valendo-se do método de construção de


Podemos perceber na expressão “seto- tipos ideais, Weber busca compreender



res da vida” o que nos trabalhos sistemá- a “influência daquelas sanções psicológi-






75







cas que, originadas da crença religiosa e Esta tensão insuportável para os fiéis
DESENCANTAMENTO DO MUNDO



da prática da vida religiosa, orientavam encaminhou como solução a doutrina da



a conduta e a ela prendiam o indivíduo” prova. Os eleitos para a salvação podem


(Ibidem, p.67). A crença religiosa que ser conhecidos por um tipo de conduta



exerceu maior influência sobre a condu- cristã que glorifica a Deus. Weber apon-



ta dos homens daquele tempo foi a dou- ta dois tipos de recomendações que eram


trina calvinista da predestinação. Segun- feitas aos fiéis: a) combater as dúvidas



do esta doutrina, Deus previamente, sem com o reforço da autoconfiança ; b) en-



qualquer previsão de fé ou de obras, tregar-se a uma intensa atividade profis-


predestinou alguns homens para a salva- sional. Deveria ser privilegiado, na me-



ção e outros para a perdição eterna. Tra- dida do possível, um trabalho sistemáti-



ta-se de um pensamento de grande con- co e racional, segundo as recomendações
sistência lógica, pois segue rigorosamen- ○

○ de Richard Baxter. A mudança de pro-
páginas 74 a 85

te o pressuposto de que “Deus não exis- fissão já não era mais condenada, mas

te para os homens, mas estes por causa deveria ser o resultado de uma escolha

de Deus”. Desta forma, Deus é glorifi- racional. A caridade cristã, expressa por

cado tanto na perdição quanto na salva- meio de boas obras, deveria também ser

ção dos homens. A questão que passaria coordenada num sistema racional. A dou-

a angustiar os homens é a seguinte: trina da prova e a racionalização da con-



“como sei que sou um dos eleitos para a duta devem ser compreendidas como

salvação?” Segundo Weber, essa questão “meios técnicos, não de compra da sal-

deve ter empurrado para segundo plano vação, mas de libertação do medo da con-

todos outros interesses (Ibidem, p.76). denação” (Ibidem, p.80). Weber finaliza

O homem não podia mais contar com a a análise do conceito de vocação afirman-

mediação da Igreja, do sacerdote ou dos do:


sacramentos para a sua salvação. Estava ...Mas, apenas pela prova de um



absolutamente sozinho diante da ques- tipo específico de conduta, inequi-


vocamente diferente do modo de


tão mais importante para sua vida – sua


vida do homem “natural”. Disto de-


salvação eterna. Nem sequer restou es-

rivou-se um incentivo para que o in-


paço para a emoção religiosa, uma vez


divíduo metodicamente supervisi-


que “Calvino encarava com desconfian- onasse seu próprio estado de graça,

em sua própria conduta, e assim in-


ça todos os sentimentos e emoções puras,


não importando quão exaltados pudes- troduzisse nela o ascetismo. Mas,


como vimos, esta conduta ascética


sem parecer ser, a fé tinha de ser prova-


significou um planejamento racio-


da por seus resultados objetivos, a fim nal de toda vida do indivíduo, de


de proporcionar uma base segura para a


acordo com a vontade de Deus. E


certitudo salutis”(Ibidem, p.79). este ascetismo não era mais uma








76







opus superrogationes, mas algo que Aquele grande progresso histórico-

REVISTA


podia ser requerido de todo aquele religioso da eliminação da magia do


que estivesse certo da salvação. A mundo, que começara com os ve-


vida religiosa dos santos, desligan- lhos profetas hebreus e conjunta-



do-se da vida “natural”, não era mente com o pensamento científi-

TEOLOGIA E SOCIEDADE
muito vivida – este é o ponto mais co helenístico, repudiou todos os



importante – fora do mundo, em meios mágicos de salvação como su-


comunidades monásticas, mas den- perstição e pecado, chega aqui à sua



tro do mundo e de suas instituições. conclusão lógica. (Ibidem, 72).


Esta racionalização da conduta den-


tro deste mundo, mas para o bem


Sobre este processo de desencanta-

do mundo do além, foi a conse-

mento do mundo, Weber remete-nos,
qüência do conceito de vocação do ○

numa nota, para o texto da “Ética Eco-


protestantismo ascético. (Idem,


p.109) nômica das Religiões” (1982a). Porém,


antes de abordarmos o que encontramos


Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


Duas razões, de ordem interna ao neste texto sobre o referido processo de



pensamento religioso, foram fundamen- desencantamento do mundo, devemos



tais para converter o calvinismo numa ressaltar que Weber, ainda na Ética Pro-

religião ética e, por conseqüência, numa testante, faz mais algumas importantes

religião portadora das sementes do de- observações sobre o assunto. Um pouco



sencantamento do mundo. Weber apon- mais adiante afirma que “os católicos não

ta, simultaneamente, o afastamento da levaram tão longe quanto os puritanos



magia e a crença em um Deus transcen- (e antes deles os judeus) a racionaliza-



dente.1 Isto está presente no conhecido ção do mundo, a eliminação da mágica


como meio de salvação” (1987, p.81).


trecho da Ética Protestante, no qual


Weber afirma: Por conseqüência, os católicos continua-















1
Weber, como é próprio de seu método, faz uma

ressalva: “Embora importante, a concepção de um


Deus supramundano, apesar de sua afinidade com a


profecia emissária e o ascetismo ativo,


evidentemente não agia sozinha, mas sempre em



conjunto com outras circunstâncias. A natureza das


promessas religiosas e os caminhos da salvação que


determinaram destacam-se entre essas


circunstâncias.” (1982b, 373)






77







ram presos ao que Weber chama de um importante assinalar a relação que esta-
DESENCANTAMENTO DO MUNDO



ciclo essencialmente humano de: peca- belece entre a conduta ascética, exigida



do, arrependimento, reparação, relaxa- pela profecia emissária, e a


mento, seguidos de novo pecado ( transcendência de Deus, diz ele: “Essa



Ibidem, p.82). Diferentemente, por profecia emissária teve uma profunda



exemplo, o metodismo buscará a perfei- afinidade eletiva com um conceito especi-


ção, ou seja, uma vida sem pecado. O al de Deus: o conceito de um Senhor da



ideal de vida cristã que domina o purita- Criação supramundano, pessoal, irado,



nismo não é cíclico, mas linear. O alvo misericordioso, amante, exigente, puni-


do puritano é “progredir” na graça de tivo” (Ibidem, p.329). Trata-se do Deus



Deus. Disto decorre o hábito de contro- do calvinismo. Os seres humanos encon-



lar em um diário os progressos obtidos na tram-se separados de Deus por um “gol-
vida espiritual. Weber, ainda na Ética Pro- ○

○ fo intransponível” ( Weber, 1987, p.71).
páginas 74 a 85

testante, conclui que “a eliminação da Nenhum tipo de ritual pode modificar



magia do mundo não permitiu nenhum os desígnios de Deus. Resta ao fiel ape-

outro curso psicológico, que não a prática nas viver a ética dos eleitos, que nada

do ascetismo laico” (Ibidem, p.106). mais é que uma técnica para produzir alí-

Na “Ética Econômica das Religiões vio do medo da condenação. Desta for-


Mundiais”, Weber continua refletindo ma, conclui Weber:



sobre a relação entre a crença em um Quando os virtuosos religiosos com-



Deus transcendente e o desenvolvimen- binaram-se numa seita ascética ati-


va, dois objetivos foram totalmen-


to de uma religião ética. Isto é feito por


te alcançados: o desencantamento

meio do contraste entre a profecia emis-


do mundo e o bloqueio do caminho


sária e a profecia exemplar. Profecia da salvação através da fuga do mun-



emissária e profecia exemplar são dois do. O caminho da salvação é des-


pólos de uma religião de negação do viado da “fuga contemplativa do



mundo. Na profecia emissária, os fiéis mundo”, dirigindo-se ao invés disso


para um “trabalho neste mundo”, ati-


consideram-se como instrumentos de


vo e ascético. (Weber, 1982a, p.334)


um deus e, na profecia exemplar, consi-

deram-se como vasos do divino. A pri- Weber, porém, antes desta afirmação

meira enfatiza a ação e a segunda, a con- assinalou que duas coisas foram neces-

templação. Weber aponta que a atitude sárias para que isso pudesse acontecer

típica da profecia emissária dominou as numa determinada religião. Primeiro, o



religiões iraniana e do oriente e as religi- valor supremo e sagrado não devia ser de

ões ocidentais derivadas delas. (Weber, natureza contemplativa. Segundo, essa


1982a, p.329) Para a compreensão que religião deve ter desistido, na medida do

buscamos do processo de desencanta- possível, do caráter mágico (Ibidem,



mento do mundo na obra de Weber é p.334). Até aqui procuramos demons-






78







trar como o protestantismo, principal- (Op. cit., p.299), vale também para a re-

REVISTA


mente na versão calvinista, preencheu lação com a esfera intelectual. O



adequadamente essas condições para que ascetismo gera uma religião racionaliza-


o desencantamento do mundo ocorres- da, mas que sempre pedirá o sacrifício



se internamente. do intelecto – credo non quod, sed quia

TEOLOGIA E SOCIEDADE


Vimos até aqui que Weber estabele- absurdum. O ascetismo protestante vi-


ce uma relação muito forte entre verá sempre o seguinte dilema: para não



ascetismo e desencantamento do mun- ceder ao misticismo, deve incentivar a



do. A religião a partir da qual o desen- apologética racional, mas ao incentivá-la


cantamento do mundo ocorre é sempre pode gerar “inimigos da fé” dentro dos


uma religião ascética. Isto fica claro no ○

próprios muros. Temos aqui, embora não
exame do conceito de vocação apresen- seja este o objetivo de nosso trabalho,

tado na Ética Protestante e também nas uma importante referência para compre-

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


formulações teóricas dos textos posteri- ender as duas grandes causas de cismas

ores. O ascetismo gera uma religião com nas Igrejas Protestantes: as reações

pouco misticismo e muita “doutrina”, o pentecostais (místicas) e as reações do



que torna fundamental a apologética ra- liberalismo teológico (intelectuais). As-



cional. Weber apresenta-nos da seguinte sim, o desencantamento do mundo ge-


forma a tensão entre a religião racionali- rado no seio de uma religião ascética

zada e a esfera intelectual: quase que inviabiliza a sua existência



Quanto mais a religião se tornou como religião. Não foi por acaso que a

livresca e doutrinária, tanto mais li- crítica bíblica e a teologia da morte de



terária tornou-se e mais eficiente foi


Deus foram produzidas em círculos pro-

no estímulo ao pensamento leigo ra-


testantes.

cional, livre do controle sacerdotal.


Dos pensadores leigos, porém, saí- Weber mostrou-se interessado em


ram os profetas, que eram hostis aos elucidar a origem do moderno



sacerdotes; bem como os místicos, racionalismo, o que foi feito através do


que buscavam a salvação indepen-


exame do ascetismo intramundano pre-


dentemente deles e dos sectários;


sente na ética calvinista, porém, procu-

e, finalmente, os céticos e filósofos,


rou destacar também os elementos irra-


que eram hostis à fé (1982b, p.402)


cionais presentes na conduta racional fo-



Evidentemente esta é uma conse- mentada pelo ascetismo. Desta forma


qüência não desejada. A observação fei- chegamos ao tema da perda de sentido,



ta por J. Habermas - de que a ética pro- presente na obra weberiana. Na Ética



testante põe em marcha o capitalismo, Protestante, Weber afirma, logo após fa-

zer a advertência que a vida pode ser ra-


porém, sem poder garantir as condições


de sua própria estabilidade como ética cionalizada de pontos de vista diferentes








79







e em direções muito diferentes, estar busca pelo significado do mundo: “a
DESENCANTAMENTO DO MUNDO



“particularmente interessado no elemento crença na predestinação realiza essa re-



irracional que precisamente se ausenta núncia, de fato e com plena coerência. A


nesta, como em toda concepção de “vo- reconhecida incapacidade do homem em



cação” (1987, p.51). O paradoxo desta- escrutinizar os caminhos de Deus signi-



cado por Weber reside no fato de que, fica que ele renuncia numa clareza sem


embora a religião busque atribuir um sen- amor à acessibilidade do homem a qual-



tido para o mundo, seu ponto de partida quer significado do mundo” (1982b:



é essencialmente irracional e seu ponto p.409-10). Ao desvendar a origem o


de chegada pode ser também irracional. racionalismo moderno Weber encontrou



J. Habermas observa que Weber com- também a origem do irracionalismo mo-



preendeu a conduta ascética derno.
intramundana, como um comportamen- ○

○ Weber, no último capítulo da “Ética
páginas 74 a 85

to orientado pela ação racional visando Protestante”, afirmou: “o puritano que-



fins, mas sustendado pela ação com rela- ria tornar-se um profissional

ção a valores (Op. cit., p.263). Dito de (berufsmench) e todos tiveram que se-

outra forma: o puritano adota uma con- gui-lo”(Op.cit., p.130). Nesta etapa a

duta metódica porque acredita ser esta ação racional com relação a fins despren-

a vontade de Deus para sua vida. Portan- de-se de seu fundamento racional com

to, o seu ponto de partida é por excelên- relação a valores e passa a seguir uma ló-

cia irracional, aliás como Weber afirma gica própria (Op. cit., p.305). Weber

claramente: “As várias grandes formas descreve esse processo da seguinte for-

de levar uma vida racional e metódica ma:



foram caracterizadas pelas pressuposi- Desde que o ascetismo começou a


remodelar o mundo e a nele se de-


ções irracionais, simplesmente aceitas


senvolver, os bens materiais foram


como ‘dadas’, e que foram incorporadas

assumindo uma crescente, e, final-


a esses modos de vida” (1982a: p.325).


mente, uma inexorável força sobre


Weber, na “Ética Protestante”, assinala- os homens, como nunca antes na


ra, de passagem, que o calvinista subme-


História. Hoje em dia – ou definiti-


tia-se a um destino cujo sentido lhe es- vamente, quem sabe – seu espírito

religioso safou-se da prisão. O capi-


capava, uma vez que os desígnios de


talismo vencedor, apoiado numa


Deus são compreendidos, por suas cria-


base mecânica, não carece mais de

turas, sempre de forma fragmentada.


seu abrigo. Também o róseo caráter


Porém, em seu último texto, “Rejeições de sua risonha sucessora: a



Religiosas do Mundo e suas Direções”, Auflärung parece estar desvanecen-


Weber afirma claramente que a teodicéia do irremediavelmente, enquanto a



calvinista desemboca numa renúncia da crença religiosa no “dever


vocacional”, como um fantasma,







80







ronda em torno de nossas vidas. mo weberiano. (1997, p.25)

REVISTA


Onde a “plenitude vocacional” não O conceito de separação entre as


pode ser relacionada diretamente diferentes esferas e seu permanente es-


aos mais elevados valores culturais


tado de tensão só foi desenvolvido ple-


– ou onde, ao contrário, ela também


namente nas “Rejeições Religiosas do

TEOLOGIA E SOCIEDADE
deve ser sentida como uma pressão


Mundo e suas Direções” (1982b).


econômica - o indivíduo renuncia a


toda tentativa de justificá-la. No Catherine Colliot-Thelene observa que



setor de seu mais alto desenvolvi- Weber utilizará o termo desencantamen-


mento, nos Estados Unidos, a pro- to do mundo, nos textos de 1913 a 1919,


cura da riqueza, despida de sua rou-


com um sentido mais amplo do que ti-

pagem ético religiosa, tende cada
○ vera na Ética Protestante. Segundo
vez mais a associar-se com paixões ○

Catherine Colliot-Thelene, o termo de-


puramente mundanas, que


freqüentemente lhe dão o caráter sencantamento do mundo designa, nos



de esporte. (1987, p.131)

Vol. 1 nº 1, abril de 2004, São Paulo, SP


últimos textos de Weber, “a deprecia-

ção do religioso sobre as representações



Desta forma o desencantamento do gerais que os homens fazem do mundo


mundo produz a separação entre as di-


de sua existência” (1985, p.90). O de-


ferentes esferas da vida. A esfera econô-


sencantamento do mundo, na obra de


mica ganha uma legalidade própria que Weber, desemboca no antagonismo ab-

não mais depende da legitimação religi- soluto entre as diferentes esferas, isto é,

osa. O mesmo processo ocorre com as


no politeísmo de valores:

demais esferas: arte, ciência, política, Vista dessa forma, a ‘cultura’ surge

erótica, estética e intelectual. Cada es- como a emancipação do homem em


fera ganha a sua legalidade própria, pas- relação ao ciclo da vida natural, or-

sando a orientar-se por princípios que são ganicamente prescrito. Por essa ra-

zão mesma, cada passo à frente da


auto-referenciados. Gabriel Cohn afirma


cultura parece condenado a levar a

que a separação entre as esferas desem-


um absurdo ainda mais devastador.


penha um papel de extrema importân- O progresso dos valores culturais,



cia no esquema analítico de Weber, como porém, parece tornar-se uma agita-

ção insensata a serviço de finalida-


se pode ver:

...no processo que percorrem, as des indignas e, ainda mais,


autocontraditórias e mutuamente

diversas esferas da existência – a


econômica, a religiosa, a jurídica, a antagônicas. O progresso dos valo-


res culturais parece ainda mais in-


artística e assim por diante – são au-


tônomas entre si, no sentido de que sensato quanto mais ele é tomado

se articulam em cada momento e como uma tarefa sagrada, uma ‘vo-


cação’.[...] A toda construção da na-


ao longo do tempo conforme à sua


lógica interna específica, à sua “le- tureza específica de cada esfera es-

pecial existente no mundo, esse


galidade própria”, para usar o ter-







81







conflito parece destacar-se cada vez estabelecidas sobre a interpretação do
DESENCANTAMENTO DO MUNDO



mais e de forma mais insolúvel.[...] fenômeno religioso. O que causa perple-


E não só o pensamento teórico, de-


xidade não é a sobrevivência das religi-
sencantando o mundo, levava a essa


ões, mas o seu intenso processo de ex-


situação, mas também a própria


tentativa da ética religiosa de raci- pansão, especialmente das religiões com



onalizar prática e eticamente o um forte apelo mágico. Diante deste


mundo. (1982b: p.407-08) fato, o conceito weberiano de desencan-



tamento do mundo tem sido revisitado


A perda de liberdade, refletida pela


por diferentes autores.


dominação, é o outro aspecto negativo A idéia popularizada na modernidade



que acompanha o processo de desencan- segundo a qual as religiões iriam decli-


tamento do mundo. Weber nos diz que

nando, chegando até mesmo ao desapa-

o ascetismo, desde os primórdios de seu ○
○ recimento histórico, não encontra nenhu-
páginas 74 a 85

aparecimento, já revelara as suas faces de ma base de defesa no trabalho de Weber,


Jano, a saber, de um lado a renúncia ao


muito menos no conceito em questão.


mundo, e, do outro, o domínio do mun- Os principais propagadores desse senso



do (1982b, p.375). Trata-se da combi- comum foram os próprios teólogos cris-


nação puritana entre restrição ao consu-


tãos. Estes, aliás, sempre exageram, tan-


mo e a liberação para o acúmulo racional to a força de sua religião, quanto a sua



da riqueza. Esta nova atitude contribuiu fraqueza. Duas obras teológicas foram

para a formação da moderna ordem eco- fundamentais para a popularização da


nômica a qual, segundo Weber, “atual-


idéia que o cristianismo estava irremedi-


mente determina de maneira violenta o avelmente destinado ao desencantamen-



estilo de vida de todo o indivíduo nasci- to - Honest to God de John Robinson


do sob esse sistema” e, ao que parece,