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CONTAÇÃO DE HISTORIAS: UM RECURSO PEDAGÓGICO NO DESENVOLVIMENTO DA


LINGUAGEM

Aline Macedo de Souza, Odair Benedito Francisco

Universidade do Oeste Paulista - UNOESTE, Presidente Prudente, SP. E_mail: alitchetis@hotmail.com,


odair272@yahoo.com.br.

RESUMO
Esta pesquisa discutirá sobre a importância do ato de contar histórias no espaço da educação infantil,
realizando uma reflexão sobre possíveis estratégias que auxiliam na prática da contação de histórias.
Como objetivos destacamos: levantar informações sobre como surgiu a contação de histórias, dissertar
sobre a importância da literatura na Educação Infantil e descrever estratégias para o trabalho com a
contação de histórias. A metodologia usada foi levantamento de dados encontrados na literatura já
existente, por meio de pesquisas bibliográficas. Concluímos que a literatura juntamente com a prática da
contação de histórias, representa várias possibilidades, desenvolvendo não somente a linguagem, como
também auxiliando na elaboração e produção de bons textos, criando possibilidades pedagógicas
diversificadas, criativas e estimulantes para desenvolver a atenção e a concentração dos alunos.
Palavras-chave: Contação de histórias, Estratégias, Linguagem.

STORYTELLING: AN EDUCATIONAL RESOURCE IN LANGUAGE DEVELOPMENT

ABSTRACT
This research has the purpose of discuss the importance of the act of storytelling on children`s
educational environment, conducting a reflection on possible strategies that assist in the practice of
storytelling. Objectives include as follow: raising information on how the storytelling was created, the
lecture of the importance of literature in early Childhood Education as also describe some strategies for
working with the storytelling. The methodology used was based on data collection found in existing
literature through bibliographics researches. In conclusion, we understand that the literature in
connection with the practice of storytelling provides several possibilities such as developing not only the
language but also assisting in the elaboration and production of well developed texts, creating
pedagogical diversity possibilities, in a creative and stimulating way in order to develop the student`s
attention and concentration.
Keywords: Storytelling, Strategies, Language.

INTRODUÇÃO meio escolar, a fim de potencializar a


O presente trabalho discute a linguagem e diferentes outras habilidades,
importância do ato de contar histórias no favorecendo também o processo de ensino e
espaço da educação infantil, realizando uma aprendizagem e socialização da criança.
reflexão sobre possíveis estratégias que Este artigo aborda como o ato de contar
auxiliem nesta prática em sala de aula. histórias na educação infantil favorece a
Segundo Busatto (2003), a contação de aprendizagem, tendo a intenção de analisar
histórias é uma atividade necessária e como o professor pode inseri-lo nas suas
imprescindível no processo de propostas e planos de aula com a intenção de
desenvolvimento da criança, pois ela ajuda na despertar o interesse dos seus alunos para este
formação da personalidade humana e, por tipo e atividade.
isso, deve ser desenvolvida e valorizada no

Colloquium Humanarum, Presidente Prudente, v. 14, n. 1, p.40-51 jan/mar 2017. DOI: 10.5747/ch.2017.v14.n1.h292
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A escolha dessa temática justifica-se por teses. Pode ser realizada


se tratar de um assunto que sempre se faz independentemente ou
presente nas práticas da educação infantil, como parte da pesquisa
sendo um elemento facilitador para abordar descritiva ou
experimental. Em ambos
diferentes temas nessa etapa de escolarização.
os casos, busca-se
Coelho (1984) disserta que: conhecer e analisar as
[...] a história é importante contribuições culturais
alimento da imaginação. ou científicas do passado
Permite a o uso da sobre determinado
linguagem, favorecendo a assunto, tema ou
aceitação de situações problema (CERVO;
desagradáveis, ajuda a
BERVIAN; SILVA, 2007, p.
resolver conflitos. Agrada
60).
a todos, de modo geral,
sem distinção de idade, de
classe social, de Desse modo, o artigo está dividido em
circunstância de vida. três capítulos, sendo que no primeiro
Descobrir isso e praticá-lo apresentamos o levantamento de informações
é uma forma de incorporar sobre como surgiu a contação de histórias no
praticidade à vida, [...] âmbito da educação infantil. O segundo capítulo
(COELHO, 1984, p. 12). traz a importância da contação de histórias na
educação, mais especificamente na Educação
Como objetivos do presente trabalho Infantil, com crianças de 02 e 03 anos. Já no
destacamos: levantar informações sobre o terceiro capítulo apresentamos as estratégias
surgimento da contação de histórias, descrever para as salas de aula que auxiliam na contação
estratégias para o trabalho com elas e dissertar de histórias. Portanto, descrevemos algumas
sobre a importância da literatura na Educação atividades que possam contribuir tanto para as
Infantil. professoras da sala comum, ou seja, aquelas
Para tanto, parte-se da hipótese de que sem formação específica em literatura, quanto
será possível um trabalho significativo, para os professores que são habilitados e
utilizando-se da contação de histórias com as especialistas em contação de histórias.
crianças da educação infantil desde que seja Nesse sentido, por ser uma pesquisa
adotada uma concepção pedagógica que as qualitativa, Cruz (2011) destaca que este tipo de
considere como autônomas, criativas e pesquisa:
construtoras de conhecimento. é basicamente aquela que
busca entender um
METODOLOGIA fenômeno específico em
O levantamento de informações para profundidade. Ao invés de
a elaboração deste trabalho, baseou-se em um estatísticas, regras e
arcabouço teórico referente ao estudo da outras generalizações, ela
trabalha com descrições,
contação de histórias a partir da análise de
comparações,
material bibliográfico impresso e digital da interpretações e
biblioteca virtual Scielo que dispõe de atribuição de significados
pesquisas científicas na área do conhecimento possibilitando investigar
específica, além dos documentos publicados valores, crenças, hábitos,
pelo portal do Ministério da Educação (MEC). atitudes e opiniões de
Esta pesquisa bibliográfica indivíduos ou grupos
qualitativa, de caráter investigativo, culmina (CRUZ, 2011, p. 21).
com as ideias de Cervo, Bervian e Silva (2007),
em que A partir disso, a pesquisa adquire um
a pesquisa bibliográfica efeito significativo, por tratar do tema central
procura explicar um no âmago da sociedade e de seus indivíduos,
problema a partir de buscando relações entre teoria e prática para
referências teóricas que seja possível uma ressignificação possível
publicadas em artigos, de contextos escolares no que se refere às
livros dissertações e

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atividades de contação de histórias na Assim, Coelho (1984, p. 31) afirma que “estudar
Educação Infantil. a história é ainda escolher a melhor forma ou o
recurso mais adequado de apresentá-la”.
1 O Surgimento da Contação de Histórias Desde a pré-história até os dias de hoje,
O ato de contar e recontar histórias são há a necessidade de descobrir o sentido da vida,
uma ação que ocupa a mente humana há buscando interpretações para as inquietações,
muitos e muitos anos. Pessoas de vários transmitindo conhecimento dos antepassados
lugares do mundo contam histórias para se para as novas gerações, o que impulsiona a
descontraírem, passarem conhecimento, ou necessidade de ouvir, contar e recontar
para simplesmente não sentirem o tempo histórias.
passar. Até mesmo antes da invenção da De Acordo com Coelho (1984), o ato de
escrita pela humanidade, já se contavam contar histórias, muito antes da invenção da
histórias. As histórias foram passadas de escrita, era o jeito mais importante de passar
geração em geração e hoje são relembradas uma informação adiante. Tudo que uma
em livros, filmes na televisão e até mesmo nos cultura precisava preservar, suas crenças, sua
jogos. Mesmo com toda a tecnologia, a história e suas tradições tinha que ser contado
tradição do conto oral ainda se mantém. oralmente, ato este conhecido como tradição
Definindo “contação de histórias”, oral. Em algumas culturas apenas os
Torres e Tettamanzy (2008) afirmam que: contadores podiam usar essa metodologia de
[...] o termo 'Contação de contar e passar tradições e crenças oralmente.
histórias' não existe Os bons contadores precisavam ter boa
gramaticalmente. O memória e utilizavam-se de estratégias
termo é uma expressão interessantes para contar suas histórias, assim
relativamente recente,
as pessoas nunca esqueciam-nas. Muitas
livremente traduzida e
adaptada de países de
vezes, essas histórias eram contadas de forma
língua castelhana ritmada, assim tornavam-se mais fáceis de
"cuentacuentos", que serem lembradas.
pode significar tanto o Pontes (2010) comenta que a
ato de se contar literatura de cordel se desenvolveu no
histórias, quanto o nordeste do Brasil, estando presente até hoje.
próprio contador.” na Segundo o autor, as histórias têm sempre seu
língua inglesa, temos o início nos poemas cantados. O cordelista vai
termo "Storytelling” que improvisando seus versos e de forma rimada,
é o ato, ou capacidade de
constrói-se as histórias, e somente depois
se narrar um fato, ou
história, de improviso, ou
viram livros impressos para serem colocados à
planejadamente, usando venda em um cordão, o que define a literatura
diversos tipos de de cordel. Para que os livros sejam vendidos, o
recursos, ou um apenas. vendedor precisa ir cantando as histórias,
Os termos que se acompanhado de um instrumento musical,
encontram fora do uso geralmente uma viola.
oficinal da língua, mesmo As histórias narradas por uma
que nela não encontrem determinada população vão ganhando novas
referência nos versões com o tempo. Um bom contador de
dicionários e acordos
histórias pode modificar uma história com o
ortográficos, sim, fazem
parte da nossa língua,
intuito de aprimorá-la ou pelo fato de ter
desde que não seja um esquecido uma parte dela, acaba inventando
erro ortográfico, ou de algumas partes, fazendo uma nova versão.
construção verbal A tradição oral é diferente da escrita e
(TORRES; TETTAMANZY, não é criada por somente uma pessoa. Ela
2008, p. 5). necessita de toda uma cultura para remodelar
uma história, que vai se reformulando a cada
As primeiras produções infantis foram geração. Na maioria das vezes, as histórias só
realizadas pelos profissionais da educação no passam a ser escritas muito depois que foram
fim do século XVII e durante todo o século XVIII. criadas e transmitidas oralmente.

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Segundo Scholes e Kellogg (1977), chamadas de mitos, e que estes dizem como um
Enquanto um homem tem povo acredita ou acreditou um dia, podendo
a capacidade de criar uma explicar a origem do mundo ou como as pessoas
nova habilidade, outro a surgiram, como nasce o arco-íris, o sol, o mar,
tem para julgar se ela será etc. Na tradição esotérica asiática acredita-se
bênção ou maldição para
que as histórias guardam muita sabedoria. Por
seus usuários. Você não
inventou um
esse motivo, toda vez que acreditavam que uma
medicamento para pessoa poderia estar “louca”, chamavam um
fortalecer a memória, mas contador de histórias para acalmá-la.
um substituto inferior para Os contos folclóricos também surgem
ela. Você está em diversas culturas, podendo ser muito
proporcionando aos seus parecidos com os mitos. Eles podem causar
alunos uma maneira de medo, contar uma aventura, serem engraçados,
parecem sábios sem etc. Alguns contos narram histórias sobre heróis
verdadeira sabedoria poderosos ou sobre trapaceiros espertos que
(SCHOLES; KELLOGG, 1977,
enganam outros personagens, ou ainda contos
p. 12).
que falam sobre caipiras, ladrões, fantasmas,
bruxas, animais que falam. As histórias que
Pode-se dizer que não existe uma
sempre apresentam elementos como paixão,
sociedade que não apresente a necessidade de
mistério e aventura estão presentes na
fabular, de inventar-se ou de construir seus
coletânea das “Mil e Uma Noites”, na qual a
mitos e seu imaginário. Toda civilização que
personagem Sherazade “curou” o coração do
existiu contou. A nossa sociedade é
sultão” (SCHOLES; KELLOGG,1977).
mecanicalizada, e a contação de histórias nos
As cantigas infantis, parlendas,
faz refletir sobre qualidades e morais já não
quadrinhas, contos de fadas, fábulas e algumas
muito presentes no cotidiano. Porém, até hoje
brincadeiras com as palavras fazem parte dos
são valorizados os conhecimentos transmitidos
contos folclóricos. A fábula ensina uma lição
pela oralidade em que se redescobre o
sobre o comportamento adequado das pessoas
significado das experiências coletivas. Nesse
com a utilização de personagens animais que
sentido, Meireles (1979) destaca que:
O ofício de contar
falam e que apresentam comportamentos
histórias é remoto [...] e parecidos como de uma pessoa. “Os contos de
por ele se perpetua a fadas falam sobre seres mágicos como fadas,
literatura oral, bruxas, dragões e duendes, entre outras
comunicando de criaturas fantásticas” (BETTELHEIM, 2002, p.
indivíduo a indivíduo e de 152).
povo a povo o que os Um jeito de entreter as crianças com
homens, através das versos curtos são parlendas ou os trava-línguas
idades, têm selecionado que as pessoas vêm usando há séculos,
da sua experiência como
proporcionando momentos prazerosos e lúdicos
mais indispensável à vida
(MEIRELES, 1979, p. 41).
para uma aprendizagem significativa.
Os acalantos e os chamados brincos
O costume de ser ouvinte de histórias são as brincadeiras musicais que fazem parte
desde muito pequeno auxilia na formação da do começo da vida de qualquer criança. Os
identidade, pois, no momento da contação, adultos usam-nos para adormecer bebês e
estabelece-se uma relação de troca entre tranquilizar crianças pequenas; para entretê-
contador e ouvintes, o que faz com que toda las e animá-las. Entre os brincos, os adultos
história cultural e afetiva destes volte à tona, usam “Serra, serra, serrador, serra o papo do
levando-os a ser quem são. “Contar histórias é vovô”, dentre outras variações possíveis de
uma arte porque traz significações ao propor serem encontradas em toda parte do país. Este
um diálogo entre as diferentes dimensões do brinco é cantado enquanto se imita o
ser” (BUSATTO, 2003, p. 10). movimento do serrador. “Palminhas de guiné,
Coelho (1984) afirma que as crenças pra quando papai vier...”, “Dedo mindinho, seu
sobre deuses relacionadas à religião são vizinho, maior de todos...”, “Upa, upa,
cavalinho...” (domínio popular) são exemplos

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de brincos que, espontaneamente, os adultos ampliação e variação do vocabulário, conjunto


realizam junto aos bebês e crianças (BRASIL, de elementos que auxiliará no
1998). desenvolvimento do das estruturas referentes
O Referencial Nacional para a ao consciente e subconsciente infantil, a
Educação Infantil (RCNEI) ainda ressalta que as diferença que ele fara entre o espaço íntimo
parlendas propriamente ditas e as do indivíduo, com o mundo social, resultando
mnemônicas são rimas sem música. Usam-se na formação de valores, personalidade e
as parlendas como os seguintes exemplos: crenças.
“Rei, capitão, soldado, ladrão, moço bonito do Para Meireles (1979),
meu coração...”; “Lá em cima do piano tem um [...] é a Literatura
copo de veneno, quem bebeu morreu, o azar Tradicional a primeira a
foi seu...”. Os trava-línguas são parlendas instalar-se na memória da
caracterizadas por sua pronunciação difícil: criança. Ela representa o
seu primeiro livro, antes
“Num ninho de mafagafos/ Seis mafagafinhos
mesmo da alfabetização, e
há/ Quem os desmafagafizar/ Bom o único, nos grupos sociais
desmafagafizador será...”, ou “Nem a aranha carecidos de letras. Por
arranha o jarro, nem o jarro arranha a esse caminho, recebe a
aranha...” (BRASIL, 1998). infância a visão do mundo
As mnemônicas (conjunto de técnicas sentido, antes de
utilizadas para auxiliar o processo de explicado; do mundo
memorização) referem-se a conteúdos ainda em estado mágico
específicos, destinados a fixar ou ensinar algo (MEIRELES, 1979, p. 66).
como número ou nomes. Um exemplo seria:
“Um, dois, feijão com arroz/ Três, quatro, feijão Durante a contação de histórias
no prato/ Cinco, seis, feijão inglês/ Sete, oito, transmitem-se conhecimentos, sendo que seu
comer biscoito/ Nove, dez, comer pastéis”, planejamento contribui para a formação e no
esboços ou improvisações, ou também na forma desenvolvimento do processo ensino e
de jogos lúdicos ou brincadeiras (BRASIL, 1998). aprendizagem. As histórias são uma maneira
De acordo com Rodrigues (2005), mais significativa que a humanidade encontrou
A contação de histórias é para relatar as experiências, uma vez que nas
própria de incentivo para narrativas realistas, isso não acontece. A
imaginação e o entrelace contação de histórias pertence à área das
entre o real e o fictício. Ao ciências humanas e também ao campo da
pensar em uma história educação, sendo uma atividade de
para ser contada, faz-se comunicação (BRASIL, 1998, p.15).
necessário a tomada de Por meio dela, os
experiência do narrador e homens repassam
de cada personagem como costumes, tradições e
nossa e ampliamos nossa valores capazes de
experiência vivencial por estimular a formação do
meio da narrativa do cidadão. Por isso, contar
autor. Os fatos, as cenas e histórias é saber criar um
os contextos são do plano ambiente de
do imaginário, mas os encantamento, suspense,
sentimentos e as emoções surpresa e emoção, no
transcendem a ficção e se qual o enredo e os
materializam na vida real. personagens ganham
(RODRIGUES, 2005, p. 4). vida, transformando
tanto o narrador como o
A contação de histórias está ligada ouvinte. O ato de contar
diretamente ao imaginário infantil. O uso dessa histórias deve impregnar
ferramenta incentiva não somente a todos os sentidos,
imaginação, mas também o gosto e o hábito da tocando o coração e
leitura; muitas coisas acontecem ao usar a enriquecendo a leitura
contação de histórias como, por exemplo, a de mundo na trajetória

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de cada um (BUSATTO, porque continham esse


2003, p. 87). elemento que a
fascinava, despertava o
O Referencial Curricular Nacional da seu interesse e
Educação infantil relata que a atividade de curiosidade, isto é, o
imaginar possibilita que o ser humano seja encantamento, o
fantástico, o
capaz de criar uma habilidade de entendimento
maravilhoso, o faz de
e compreensão de histórias ficcionais, pois conta (ABRAMOVICH,
nossa vida apenas é entendida dentro de 1997, p. 37).
narrativas. As diferentes histórias transmitem
muitas informações que chegam a abranger Durante as contações de histórias
nossas emoções. As histórias têm um papel acontecem momentos mágicos que mobilizam a
significativo, pois contribuem para o todos que fazem parte dessa atividade. Nas
desenvolvimento do senso de justiça social e narrações, os professores estabelecem com os
também de tolerância, proporcionando-nos educandos um clima de envolvimento que os
criar novos rumos à imaginação, podendo ser fazem lembrar da época dos primeiros
eles bons ou ruins. Foi necessário fazer uma contadores que se reuniam em volta do fogo e
reformulação na literatura infantil para que a contavam para pessoas atentas às diversas
sua função social pudesse estar dentro dos histórias, sobre os costumes e valores daquele
critérios, respeitando as especificidades e povo. Os espectadores não ficam mais em torno
necessidades da intencionalidade que a história da fogueira, e nas escolas, são os professores os
tem e se transmite para uma criança (BRASIL, contadores de história, sendo o elo entre o
1998). aluno e o livro.
Em relação a isto, Pennac (1993, p. 124)
2 A Importância da Contação de Histórias na discorre afirmando que “O ato de contar
Educação Infantil histórias é próprio do ser humano, e o professor
A educação infantil apresenta uma pode apropriar-se dessa característica e
rotina em que geralmente a contação de transformar a contação em um importantíssimo
histórias está presente, uma vez que este tema recurso de formação do leitor”.
está proposto no Referencial Curricular Podemos citar um grande número de
Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), possibilidades que a contação de histórias
elaborado em 199, pelo Ministério da propicia em sala de aula. Servindo para divertir,
Educação e Cultura (MEC). educar, instruir, socializar, desenvolver a
Muitos professores não fazem ainda uso inteligência e a sensibilidade. A literatura não
da contação de histórias, desconhecendo o está recebendo um estímulo adequado.
quanto ela pode contribuir para a formação do Sekeff (2007) comenta que a contação
aluno. Quando a usam, apenas o fazem para de histórias possibilita aos educandos uma
tranquilizar as crianças, não vendo as muitas experiência positiva com o universo da leitura,
possibilidades de uma história boa. O principal não podendo ser uma tarefa rotineira que
objetivo em contar uma história é divertir e transforma a leitura em um instrumento de
estimular a imaginação, mas pode atingir avaliação, fazendo com que os alunos se
outros objetivos, tais como: educar, instruir, afastem do prazer de ler. Essa prática é
conhecer melhor os interesses pessoais, necessária para formar grandes leitores
desenvolver o raciocínio, podendo ser o ponto críticos, não bastando somente ensinar a ler,
inicial para desenvolver algum conteúdo do mas também ensinar a gostar de ler, a ler com
currículo, aumentando o interesse pela aula ou prazer.
permitindo a auto-identificação, auxiliando na Segundo Ruan Hubert,
compreensão de situações adversas e no primeiro ano de vida
resolvendo conflitos (VILLARDI, 2005). os interesses da criança
Chegaram ao seu coração são especificamente
e à sua mente, na orgânico-afetivos; entre
medida exata do seu um e três anos esses
entendimento, de sua interesses são
capacidade emocional, governados pelo

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movimento, percepção e impossível pensar nessa modalidade da


linguagem; dos três aos educação básica sem a utilização desta prática.
sete anos, lidera o É notório que a contação de histórias é
movimento lúdico, o jogo uma atividade praticada cada vez mais na
em geral, imagens,
escola, desenvolvida a partir do planejamento
ficções e mitos (SEKEFF,
2007, p. 121).
do professor, da visita planejada de um
contador pela instituição escolar ou pela
Ao utilizar as diferentes narrações em elaboração de espaços culturais, como feira do
aula, todos saem ganhando, tanto o aluno, que livro, bibliotecas, cantinhos de leitura, etc. O
terá a possibilidade de imaginar e criar, quanto professor, por meio de sua formação, tem
o educador, que fará de suas aulas mais contato com diversas possibilidades de
produtivas num ambiente mais agradável, integração da literatura em sua rotina.
alcançando os objetivos pretendidos. Uma vez Segundo Abramovich (1997), ao
usando essa estratégia, os alunos ampliarão o considerar a contação de histórias como
contato com os diferentes materiais impressos, portadora de significados para a prática
expandindo-se o universo cultural e pedagógica, não se restringe o seu papel
imaginário. somente ao entendimento da linguagem, pois
Com as diferentes estratégias, a preserva-se seu caráter literário, sua função de
contação de histórias pode trazer descobertas, despertar a imaginação e sentimentos, assim
intrigar, provocar o riso, fazer pensar, ficar como suas possibilidades de transcender a
perplexo, encantado, etc. Para se contar uma palavra.
história, é necessário percorrer um caminho A ação de contar histórias deve ser
infinito de descobertas e compreensão sobre o utilizada dentro do ambiente educacional, não
mundo. As narrativas despertam em quem somente pelo lado lúdico, muitas vezes
ouve a emoção, imaginação e o gosto pela exercitado em momentos estanques da
escrita e pela leitura, uma vez que contar prática, como a hora da história, mas incluí-la
histórias é trazer à tona segredos, envolver o na sala de aula como metodologia que
ouvinte e convidá-lo a se apaixonar pela favorece a prática docente, promovendo
leitura. aprendizagens múltiplas de diversos
Para Abramovich (1997, p. 35) “A conhecimentos.
Na maioria dos casos, a
contação de história é fonte inesgotável de
Escola acaba sendo a
prazer, conhecimento e emoção, em que o única fonte de contato
lúdico e o prazer são eixos condutores no da criança com o livro e,
estímulo à leitura e à formação de alunos sendo assim, é
leitores”. necessário estabelecer-
Nesse sentido, Miguez (2000) discursa se um compromisso
destacando que: maior com a qualidade e
A alegria proporcionada o aproveitamento da
pelas histórias deveriam leitura como fonte de
ser a principal dimensão prazer. (MIGUEZ, 2000,
da pedagogia, visto que os p. 28).
alunos necessitam de
estímulos e motivações Nesse sentido, evidenciamos que a
para que possam se contação de histórias deve ser usada como
interessar pelos mecanismo e metodologia para o
conteúdos, sendo assim as desenvolvimento dos alunos e de sua
aprendizagens ficariam
personalidade, melhorando de maneira
mais significativas
(MIGUEZ, 2000, p.125).
significativa o desempenho escolar.
Muitos teóricos como Busatto (2003),
Sabe-se que no cotidiano da Educação Miguez (2000), Bettelheim 2002) falam sobre a
Infantil as contações de histórias vêm questão da relevância dos textos literários no
atendendo a diversos propósitos, sendo período de escolarização.
“É importante e complicado a tarefa de
criação das crianças, a qual consiste em ajudá-

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las a encontrar significado na vida” é de contar histórias, além de abrir caminho


(BETTELHEIM 2002, p. 11). Em primeiro lugar, o para a sua criatividade. Sempre será possível
autor coloca o impacto dos pais nessa tarefa; e, fazer uma adaptação ao realizar uma releitura
em segundo lugar, cita a herança cultural do texto, de acordo com as circunstâncias da
transmitida de maneira correta, dizendo que comunicação oral.
“Quando as crianças são novas, é a literatura Torres e Tettamanzy (2008) comentam
que canaliza melhor este tipo de informação”. que o modo como as pessoas, principalmente os
Em relação à leitura em si, ele acrescenta que “A pais e professores apresentam as histórias,
aquisição de habilidades, inclusive a de ler, fica desperta ou inibe a curiosidade, o interesse e o
destituída de valor quando o que se aprendeu a prazer em ouvi-las, tornando sempre um desafio
ler não acrescenta nada de importante à nossa para quem vai contá-las, pois é preciso investir
vida (BETTELHEIM, 2002, p. 12). não apenas no preparo, mas em todos os
Bettelheim (2002) acredita que é detalhes que podem ser agregados durante o
estimulando os educandos a criar, imaginar, percurso desse trabalho.
envolver-se, que se dá um grande passo para o Segundo Otte e Kovàcs (2003), os
enriquecimento e desenvolvimento da incentivos e estímulos para que se possa contar
personalidade, por isso é de suma importância uma narrativa são variados, mas para funcionar
a utilização do conto. Acredita-se, também, irão depender de como o contador direcionará
que a contação de histórias pode interferir todas as informações. Não existe nenhuma
positivamente para a aprendizagem estratégia milagrosa que substitua o
significativa, pois o fantasiar e o imaginar comprometimento do contador. Quem tiver a
antecedem a leitura. Utiliza-se da leitura, por pretensão em ser um contador de histórias
meio da contação de histórias, como melhor, deve elaborar algumas estratégias
instrumento metodológico para favorecer importantes em sua preparação.
desenvolvimento dos alunos e melhoria de seu Nesse sentido, o contador deve
desempenho escolar, respondendo a memorizar a história a ser contada e
necessidades afetivas e intelectuais pelo apresentada, familiarizando-se com cada
contato com o conteúdo simbólico das leituras parágrafo do livro para não perder “o fio da
trabalhadas. meada”; destacar e sublinhar os tópicos mais
importantes, interessantes e significativos com
3 Estratégias e estruturas para contação de gestos e variações de voz de acordo com cada
histórias personagem; vivenciar a vivenciar a história e
O que é imprescindível a uma sessão envolver-se com ela; atrair os ouvintes para a
de contação de histórias, mesmo que o magia da história; oferecer espaço aos
ambiente seja simples, é a presença de ouvintes que querem interferir na história e
elementos que façam dele um lugar participar dela; respeitar as pausas, perguntas
diferenciado para essa atividade. Uma e comentários naturais que a história possa
organização adequada para envolver as despertar, tanto em quem lê quanto em quem
crianças nesse tipo de atividade depende do ouve; deixar a alegria e o prazer provocados
local e dos materiais que devem estar de pelas histórias transparecerem para atingir os
acordo com o texto e também a preparação de ouvintes (OTTE; KOVÀCS, 2003).
quem irá contá-la. Portanto, a decisão sobre Segundo Abramovich (1997, p. 125), “o
como escolher e preparar esse lugar, ouvir histórias pode estimular o desenhar, o
certamente, levará em conta vários detalhes. musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o
Sisto (2009) diz que algumas vezes as imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o
histórias são lidas diretamente do livro, mas querer ouvir de novo. Afinal, tudo pode nascer
que quando se decide não utilizar esse recurso dum texto!”. A criança, ao ouvir histórias, vive
incorpora-se o espírito de contador de histórias todas essas emoções. Afinal, escutar histórias é
em sua plenitude. É necessário deixar claro que o início, para tornar-se um leitor, um inventor,
o livro estará e deverá sempre estar presente. um criador.
A diferença é que, ao reduzir ou deixar de Já em relação ao local e o espaço físico
consultá-lo com muita frequência ao longo das para a contação de história, Vieira (2013) diz
histórias, o contador abre espaço para a que é muito importante, pois interfere não
utilização de técnicas próprias do mistério que apenas na desenvoltura do contador de

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histórias, mas também em como os ouvintes confecção de elementos ou personagens da


receberão o conteúdo. Alguns dos aspectos que história que ouviram; materiais colhidos na
devem ser considerados dizem respeito à natureza pelas crianças, valorizando assim a
acomodação da plateia e quais características sua participação; narrar histórias em museus,
ambientais colaboram para a encenação e o cemitérios com antigas sepulturas ou
conforto de todos. “Se o lugar é ao ar livre, simplesmente convidar uma pessoa mais idosa
deverá se procurar uma árvore ou pedra que para narrar sua história falando do passado.
sirva de fundo. Em espaços fechados, Existem infinitas possibilidades que
preferivelmente, as crianças devem ser podem ser exploradas. Nesse momento
posicionadas em semicírculo” (VIEIRA, 2013, p. histórico que vivemos, o educador precisa
59). transformar sua sala em um local prazeroso e
Minami (2012) afirma que a contação de estimulante, fazendo uso das diferentes
histórias deve ser realizada próxima às crianças. situações para que o aluno e ouvinte possam
Além disso, é preciso protegê-las de fatores que desenvolver livremente a compreensão e fazer
prejudicam a comunicação, como janelas e questionamentos a partir da leitura de uma
espelhos atrás do contador de histórias ou vasta literatura. Também é motivo de orgulho
ambiente afetado pela presença de ruídos para o professor confirmar e poder sentir que
indesejáveis, onde a acústica será um dos os alunos foram motivados pelos livros e que
elementos que não pode ser esquecido. Uma com seu trabalho formou leitores críticos e
das formas mais indicada para dispor os criativos, sendo capazes de ler e reler,
ouvintes é em semicírculo. Mesmo assim é contando e recontando, analisando e
necessário que se confirme todos os elementos interpretando qualquer tipo de texto, podendo
citados anteriormente, inclusive prever os ser ele pedagógico, formativo ou simplesmente
imprevistos. pelo prazer com o auxílio de alguns objetos do
Villardi (2005) disserta sobre a cotidiano, como faca, garfo, copo, como
importância dos recursos materiais utilizados passava a um tempo atrás na TV Cultura.
para a contação de histórias, destacando que: A cada história narrada para uma
[...] a leitura é o meio mais criança produz-se emoções e provoca-se
importante para se chegar reações. Por isso, segundo Arruda (2011), para a
ao conhecimento. Não criança de 8 a 10 anos de idade, os mundos da
importa a quantidade que fantasia e realidade se confundem por se
lemos o que importa é
fundirem. Os sentimentos e também os
com que profundidade
chega-se a esse
pensamentos das crianças estão em
entendimento. É permanente transformação e ebulição. Isso
recomendável ser acontece inconscientemente e acabam
bastante criativo no uso procurando respostas para certos anseios e
de recursos materiais medos (SISTO, 2005).
(VILLARDI, 2005, p.59) Corroborando a ideia deste autor,
Pennac (1993) destaca que:
Não se pode ficar somente preso a Qualquer história pode
certos padrões, mas sempre é necessário atingir uma criança
variar de acordo com o público e com o profundamente e fazer
assunto da história a ser contada, modificando com que ela peça a
os materiais utilizados que, segundo Otte e repetição dessa história
durante dias e mesmo
Kovàcs (2003), podem ser o flanelógrafo para
semanas, porque algo na
ilustrar uma narrativa com diversos assuntos essência de seu
ou simbolismos; as transparências desenvolvimento e
confeccionadas pelas crianças para despertar o amadurecimento foi
interesse e auxiliar na memorização da atingido (PENNAC, 1993,
história; os slides com figuras da história p.86).
despertam as fantasias para prender a atenção
e concentração das crianças; os bichos de Quadros e Rosa (2009) fez uma pré-
pelúcia e os fantoches para pequenas seleção de temas que podemos contar de
encenações; a massinha de modelar para a acordo com a idade e série que a criança está

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sendo mais atrativos para as crianças de até expressões próprias da


três anos os temas: Histórias de bichos e linguagem oral no
Contos rítmicos que sejam leves, lúdicos, bem- decorrer do processo. Isso
humorados e curtos. Já para a fase pré-mágica não é melhor nem pior do
que ler história: cada ação
(crianças de 3 a 5 anos), os olhares já se voltam
tem sua contribuição a
para histórias que tenham bichos ou contos de dar. O importante é que
fadas pequenos com poucas personagens e sejam desenvolvidas em
enredo mais simples, pequenos poemas, sala de aula com as
parlendas e trava-línguas. crianças (AMARAL;
No ensino fundamental, a partir dos MILLER, 2008, p. 159).
seis anos as crianças já buscam histórias de
crianças, animais e encantamentos, contos de Busatto (2003) destaca que repetir a
fadas mais elaborados, aventuras no ambiente história faz bem para as crianças principalmente
próximo: família e comunidade. Aos oito e para as menores, entre um e seis anos, que
nove anos já estão em sua grande maioria muitas vezes solicitam o reconto da mesma
alfabetizadas, compreendendo mais o várias vezes. E quando isso acontece,
universo, buscando histórias humorísticas, reforçamos as imagens e mensagens da história,
contos de fadas mais elaborados, lendas criando uma segurança linguística. Além disso,
folclóricas, mitos e histórias verídicas contribui para a construção do vocabulário
(QUADROS; ROSA, 2009). infantil que sempre está aumentando. Toda vez
Ao entrarem em uma fase que se que recontamos a mesma história, ela será
aproxima da adolescência, a partir dos dez compreendida e vivenciada de uma forma
anos, os assuntos que mais os interessam são totalmente diferente a cada nova apreciação.
narrativas de viagens, mitos (persas, hindus, A duração pertinente de cada história
árabes e egípcios), histórias verídicas, irá depender do número de ouvintes, da idade
romances e biografias (QUADROS; ROSA, e da técnica a ser escolhida para essa
2011). contação. Provavelmente as crianças manterão
Arruda (2011) sugere algumas técnicas o mesmo tempo de atenção e concentração
para contar e encantar. Destaca-se o olhar nos que ficam para outras atividades similares, tais
olhos dos ouvintes, como se estivesse como: brincar com objetos; folhear revistas em
contando somente para ele. Não se deve quadrinhos; brincar de pega-pega, etc
flutuar o olhar sobre os ouvintes, o olhar do (BUSATTO, 2003).
contador deve estar atento aos olhos das Nessa ótica, Rodrigues (2005) reforça
pessoas, fazendo com que eles se sintam que podemos remodelar as histórias,
atraídos pela historia. adaptando-as à faixa etária, pois algumas delas
A voz é o elemento principal da não são adequadas, podendo até mesmo
narração oral, merecendo uma atenção à traumatizar as crianças que nesta idade fazem
parte. É importante observar a dicção que deve muito silogismo à vida real. Já as crianças
ser impecável, pronunciando-se todas as letras maiores conseguem lidar melhor com as
de cada palavra. É necessário evitar uma diferentes situações, não se traumatizam com
pronúncia muito devagar, as pausas são os fatos, que muitas vezes são iguais, ou até
necessárias, mas cuidando sempre para que mesmo mais suaves do que já vivenciaram com
não sejam prolongadas (ARRUDA, 2011). sua família.
Começar com um pequeno diálogo Rodrigues (2005) comenta que mostrar
antes das histórias, explicando o porquê da ou não mostrar as ilustrações de um livro
escolha do tema, quem escreveu a narrativa e dependerá da proposta e dos objetivos do
se o tema gerador está presente em algum professor. Na grande maioria das vezes é
acontecimento importante (ARRUDA, 2011). quase impossível não mostrar. Se a história
Como explica Amaral e Miller (2008): utiliza o livro como apoio, o professor deve
[...] O contador tem o aval estabelecer regras antes do início da leitura,
de para contar a história a podendo mostrar antes, durante ou ao término
seu modo, com da contação.
formulações próprias, Quadros e Rosa (2009) e Sisto (2005)
muitas vezes introduzindo
dizem que histórias de medo contadas antes

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do processo de dormir podem atrapalhar o materiais, ou seja, a nossa prática como um


sono. Um exemplo são os adultos e todo.
adolescentes que, quando assistem a filmes ou Ser contador e ouvinte de histórias
algumas cenas mais fortes no fim da noite, remete a essa maravilhosa e prazerosa prática
acabam tendo pesadelos ou isso acaba da oralidade, proporcionando a quem ouve
ocasionando dificuldade para pegar no sono. uma oportunidade envolvente para
Por esse motivo, as histórias para dormir desenvolver e enriquecer a imaginação, o
precisam ser mais tranquilas e de preferência vocabulário e vivenciar experiências. Na
extensas para estimular o processo do sono. formação de uma criança, ouvir histórias é o
No entanto é muito saudável contar essas primeiro passo da aprendizagem para se tornar
histórias no começo da noite, quando ainda vai um leitor, e sendo leitor irá ter um caminho
demorar para dormir, para sobrar tempo para infinito de descobertas e compreensão do
outras brincadeiras e assim dominar ou distrair mundo. O orador irá trabalhar a linguagem
os possíveis medos e receios que a ela possa oral, possibilitando caminhos para que
ter estimulado. aprendamos a falar, ler e escrever e também a
Para Scholes e Kellogg (1977), as pensar melhor.
histórias ajudam no comportamento das Sempre se faz necessário aprendermos
crianças, por isso quanto mais novas, menos novas técnicas ou simplesmente olhar os nossos
experiências afetivas, sociais e conhecimentos alunos sabendo que eles são capazes em suas
elas possuirão. As histórias ajudam nas singularidades de aprender a seu próprio modo
descobertas de ações e atitudes, dando e tempo, rever nossas expectativas de
exemplos bons e ruins de possíveis professores, nossa forma de avaliar,
consequências sobre os atos que os melhorando a relação entre professor/aluno.
personagens podem fazer. Mesmo sem Cabe a nós, professores, o compromisso
explicações, as crianças percebem as escolhas de garantir uma educação de qualidade, pois
de cada personagem e, por isso, distinguem o somos responsáveis pelo bom desempenho de
certo e o errado ou fortalecem atributos todos os alunos que atendemos diariamente em
positivos como: determinação, compaixão, força nossas salas de aula.
de vontade e outros sentimentos. Foi possível concluir que a literatura
juntamente com a prática da contação de
CONSIDERAÇÕES FINAIS história representa um vasto “leque” de
A escola é um ambiente de construção possibilidades dentro das salas de aula,
e reconstrução de conhecimentos e, como tal, desenvolvendo não somente a linguagem, como
deve dar especial atenção à contação de também auxiliando na elaboração e produção
histórias, pois ela contribui na aprendizagem de bons textos, criando possibilidades
escolar em todos os aspectos: cognitivo, físico, pedagógicas diversificadas, criativas e
psicológico, moral ou social, proporcionando estimulantes para desenvolver a atenção e a
um maior desenvolvimento perceptivo no concentração dos alunos. Toda literatura bem
aluno. Sobre suas vantagens, foram destacadas contada, por mais simples ou curta que possa
a aprendizagem de conteúdos, a socialização, a parecer, contribui para algo a mais no repertório
comunicação, a criatividade e a disciplina, da criança, auxiliando o desenvolvimento de
aprender de forma lúdica e prazerosa. uma forma criativa, diferente e reflexiva,
Tomamos conhecimento do desafio proporcionado pela oralidade uma riqueza
que é proposto ao contar histórias, mas extraordinária que irá permitir organizar todas
também que é possível desenvolver um as outras habilidades.
trabalho com uma diversidade incrível de
propostas na área da linguagem. REFERÊNCIAS
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que atenda a todos, quanto à disponibilidade AMARAL, S. M.; MILLER, S. Desenvolvimento
de repensarmos nosso trabalho nessa da linguagem oral e escrita. Curitiba: PRO-
modalidade de ensino, num processo de INFANTI, 2008.
reflexão sobre os nossos objetivos, os recursos

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