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Capítulo VI.

Como Gargântua nasceu dum jeito muito estranho

Enquanto eles agradavelmente debatiam sobre beber, Gargamele começou a se sentir mal
das partes baixas; então Grangousier se levantou da grama e a reconfortou honestamente,
pensando que era o bebê a lhe fazer mal, e lhe disse que seria melhor que ela
descansasse sob o salgueiro, pois em breve ela estaria bem e era conveniente ter nova
coragem para a chegada iminente do pimpolho, e que apesar de a dor poder ser severa,
ela logo acabaria, e que a alegria que se sucederia amenizaria toda a dor, de modo que
nem memória dela restaria.

— Coragem de ovelha! — ele disse — Dê a luz a este menino, e logo faremos outro.
— Há! — ela disse — com que facilidade vocês homens falam! Bem, por Deus, vou me
esforçar, porque você me pede. Mas suplico a Deus que lhe seja cortado!
— O quê? — disse Grandgousier.
— Há, ela disse, você é um bom homem! Você entendeu bem.
— Meu membro? — ele disse — Pelo sangue das cabras! Se bem lhe apetece, faça com
que tragam uma faca.
— Há — ela disse — Deus me livre! Que Deus me perdoe! Não disse isto com
sinceridade, e não faça nada do que digo. Mas eu terei trabalho o bastante por hoje, se
Deus não me ajudar, por causa de seu membro e para agradá-lo.
— Coragem, coragem! — ele disse — não se preocupe e deixe que quatro bois façam o
trabalho. Vou tomar mais uma bebida. Se lhe recair algum mal, você me terá por perto: dê
um assovio que estarei com você.

Pouco tempo depois, ela começou a suspirar, a se lamentar e a chorar. Subitamente, de


todos os cantos vieram as parteiras e, apalpando por debaixo, encontraram algumas
saliências nojentas, e pensaram que era o bebê. Mas era o fiofó dela que havia lhe
escapado, por causa do amolecimento do intestino — chamado de entranhas — porque
havia comido muitas tripas, como havíamos declarado anteriormente.

Então, uma velha feia da companhia, que tinha a reputação de ser uma grande médica,
vinda de Brisepaille, perto de Saint Genou, sessenta anos atrás, fez-lhe um constipante
tão horrível que suas pregas se obstruíram e se fecharam tanto, que, até com os dentes,
seria difícil abri-las, o que é algo horrível de se pensar: mesmo imitando o diabo, que na
missa de Saint Martin, transcreveu o bate-papo de duas galesas, esticando o pergaminho
com os dentes.

Por este inconveniente, soltaram-se os cotilédones de seu útero, através do qual a criança
saltou pra cima e entrou na veia cava. Então, escalando o diafragma até os ombros (onde
a veia se divide em duas), ela tomou o caminho da esquerda e saiu pela orelha esquerda.

Assim que nasceu, não chorou como as outras crianças: “Miez, miez", mas gritou em voz
alta, "beber! beber! beber!", como se convidasse todo o mundo a beber. E o barulho era
tão alto que podia ser ouvido ao mesmo tempo nos países de Beausse e Bibaroys.

Questiono-me se você não acredita totalmente neste estranho nascimento. Se não


acredita, não me importo; mas um homem de bem, um homem de bom senso, acredita em
tudo que lhe contam e em tudo que lhe chega por escrito. Isto é contra nossa lei, nossa fé,
nossa razão, contra as Santas Escrituras? De minha parte, não encontro nada na Bíblia
Sagrada que seja contra isto. Mas, se esta foi a vontade de Deus, você diria que ele não o
fez? Ah, misericórdia, não emburreça jamais seu espírito com estes vãos pensamentos,
pois eu lhe digo que nada é impossível para Deus e, se ele quisesse, todas as mulheres
dariam à luz, doravante, pela orelha.

Não foi Baco engendrado desde a perna de Júpiter?


Não nasceu Roquetaillade do calcanhar de sua mãe?
Crocmoush da pantufa de sua babá?
Não nasceu Minerva do cérebro, através da orelha de Júpiter?
Adônis da casca de uma árvore de mirra?
Castor e Pólux duma casca de ovo que havia sido posto e chocado por Leda?

Mas você se espantaria e estupefaria mais se eu lhe expusesse aquele capítulo de Plínio,
aquele no qual ele fala de nascimentos estranhos e contrários à natureza; ainda que eu
não seja tão mentiroso quanto ele foi. Leia o sétimo livro de sua História Natural, cap. III, e
não me perturbe mais a cabeça.

Capítulo VII. Como Gargântua recebeu seu nome e como ele bebia vinho

O bom homem Grangousier bebia e se regalava com os outros, escutou o horrível grito
que seu filho deu ao entrar na luz do mundo, exigindo: “Beber! Beber! Beber!” Então disse:
“Que garganta!” Ao ouvirem isto, os assistentes disseram que a criança deveria se chamar
Gargântua, porque esta havia sido a primeira palavra dita pelo pai após o nascimento, em
imitação ao exemplo dos antigos hebreus, com o qual ele concordou, e agradou bastante
também à mãe. E, para acalmar a criança, eles lhe deram de beber em abundância, e a
carregaram até à fonte e a batizaram, como é o costume dos bons cristãos.

E ordenaram que trouxessem dezessete mil, novecentas e treze vacas de Pautille e


Brehemond para amamentá-la ordinariamente, porque era impossível encontrar amas
suficientes no país, considerando a grande quantidade de leite necessária para alimentá-
la; apesar de alguns médicos escotistas terem afirmado que sua mãe a amamentaria e
que ela poderia tirar de suas mamas mil, quatrocentos e dois barris e nove canecas de
leite por vez; o que não é provável, e esta proposição foi considerada mamariamente
escandalosa e ofensiva a ouvidos pios, e com um toque de heresia.

Nestas circunstâncias, ele foi cuidado até um ano e dez meses; depois deste tempo, pelo
conselho dos médicos, começaram a carregá-lo, e foi feita uma bela charrete de bois,
inventada por Jean Denyau. Nela, levaram-no para passear e ele se alegrava muito; e o
exibiam, pois ele tinha uma bela face e dezoito queixos. Quase nunca chorava, mas
cagava a toda hora. Pois ele era incrivelmente fleumático de bunda, tanto por causa de
sua compleição natural quanto pela disposição acidental que lhe adveio por tomar os
vinhos setembrinos. Mas ele não bebia sem motivo; se acontecesse de ele estar amuado,
nervoso, chateado, ou feliz, se ele tripudiasse, se reclamasse, se chorasse, traziam-lhe a
bebida para restaurar-lhe o ânimo, e imediatamente ele se acalmava e se alegrava.

Uma de suas governantas me disse, jurando pela figa, que ele se acostumou tanto a isto,
que o mero som de canecas e jarros faziam-no entrar em transe, como se desfrutasse das
alegrias do paraíso. De modo que, considerando sua compleição divina, para alegrá-lo, de
manhã, faziam ressoar copos com uma faca, ou garrafões com suas rolhas, ou as canecas
com suas tampas, e aqueles sons o deixavam feliz, saltitante, e ele se debatia no berço,
balançando a cabeça, monocordiando os dedos e baritonando com o cu.
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