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AULA 2 – LÍNGUA PORTUGUESA

BARROCO
Na primeira aula falamos sobre as primeiras manifestações literárias no Brasil; elas
tinham um objetivo muito mais político do que literário. Chegando no século XVII, encontramos
um estilo que não é brasileiro, é sobretudo espanhol.
O Barroco está associado ao período da Contrarreforma. É uma estética, uma maneira
de pensar o mundo através de um homem dividido, um homem que acabou de sair do
Renascimento e deparou-se com uma Igreja que o alerta sobre o inferno. É um homem cheio de
dúvidas, culpa e medo. O homem barroco está dividido entre céu e inferno, entre o
antropocentrismo e o teocentrismo.
No Brasil, o Barroco não se deu da mesma forma que na Europa. Os principais autores
são Gregório de Matos (o Boca do Inferno) e Antônio Vieira.
Gregório de Matos viveu em Portugal e depois de certa idade veio trabalhar como
tesoureiro da Sé no Brasil. Ele produziu inúmeros textos; esses foram todos colocados em um
baú após sua morte e só foram encontrados no século XIX.
A temática barroca gira em torno, sobretudo, do medo da morte, da efemeridade da
vida, da vida dedicada a Deus. Gregório versava sobre esses temas e também fazia críticas sobre
o cotidiano e sobre a sociedade sem regras.
As críticas diretas explicitas em suas poesias, renderam ao poeta o apelido de Boca do
Inferno.
Algumas características são:
• forma renascentista em poemas – soneto (2 quartetos e 2 tercetos);
• inversão;
• uso da antítese (oposição) e do paradoxo (contradição);
• textos reflexivos;
• jogos de contrastes;
• subjetividade.

Exemplos de poemas de Gregório de Matos:

A Jesus Cristo Nosso Senhor


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,


A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada,


Glória tal e prazer tão repentino
A vós deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;


Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

A Cristo S. N. Crucificado estando o poeta na última hora de sua vida


Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,


Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,


Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,


Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

A Maria das Póvoas


Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia


O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,


Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade


Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Queixa-se o poeta de que o mundo vai errado, e querendo emendá-lo o tem por
empresa dificultosa
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo


Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,


Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,


Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.
À cidade da Bahia (Exemplo de Gregório como Boca do Inferno)
A cada canto um grande Conselheiro,
que nos quer governar cabana, e vinha:
não sabem governar sua cozinha,
e querem governar o Mundo inteiro!

Em cada porta um frequentado Olheiro,


que a vida do Vizinho, e da Vizinha,
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,


trazendo pelos pés os Homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados:


todos, os que não furtam, muito pobres:
eis aqui a cidade da Bahia.

Gregório estava sozinho, ele não criou uma tradição, mas sua obra é importante
especialmente porque retrata o dia-a-dia da Colônia em sua época. Ele escrevia sonetos sobre
temas do cotidiano, por exemplo: “Ao vigario da villa de S. Francisco por huma pendencia, que
teve com hum ourives a respeyto de huma mulata, que se dizia correr por sua conta” e “A certo
frade na villa de Sam Francisco, a quem hua moça fingindose agradecida à seus repetidos
galanteyos, lhe mandou em simulações de doce huma panella de merda.”

Antônio Vieira foi extremamente importante para a literatura de língua portuguesa. A


partir de Camões tivemos a sistematização do português que passou a ser o modelo de escrita.
A produção de Vieira veio na sequência e é considerada um exemplo de ‘bom português’.
Ele próprio organizou seus sermões. Em seus textos encontramos antíteses, mas elas
não são dúvidas do autor, mas sim reflexões.
O tempo é um tema muito usado no Barroco. Para Gregório de Matos, tudo era efêmero,
acabava. Antônio Vieira dizia que o tempo acaba com tudo e questionava se seria válido colocar
em risco a vida eterna por prazeres que durariam pouco.

O primeiro remédio é o Tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo
digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações
de cera! São as afeições como as vidas que não há mais certo sinal de haverem de durar
pouco, que terem durado muito.
“São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que quanto mais
continuadas, tanto menos unidas. Por isso, os antigos sabiamente pintaram o amor
menino. Porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os
instrumentos, com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com
que já não atira; embota-lhe as setas com que já não fere; abre-lhe os olhos com que vê
o que não via; e faz lhe crescer as asas com que voa e foge. A razão natural de toda esta
diferença é porque o tempo tira as novidades às coisas, descobre-lhe os defeitos,
enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas.
Gasta-se o ferro com uso, quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e
o ter amado muito, de amar menos.” (Sermão do Mandato, 1643.)

“Que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno, que qualquer
destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem
recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar
doce inferno. E verdadeiramente quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas
tremendas perpetuamente ardentes: as labaredas que estão saindo a borbotões de cada
uma pelas duas bocas ou ventas, por onde respiram o incêndio; os etíopes, ou ciclopes,
banhados em suor, tão negros como robustos, que subministram a grossa e dura
matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos
ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, exalando
nuvens de vapores, mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez
os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite,
trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas,
nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso daquela Babilônia,
não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do
inferno. Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário,
orando e meditando os mistérios Dolorosos, todo esse inferno se converterá em Paraíso;
o ruído em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em Anjos.” (Sermão de
Nossa Senhora do Rosário, 1633.)
(Pe. Antônio Vieira. Apud Gomes, E. Trechos escolhidos. Rio de Janeiro, Agir, 1971.)

ARCADISMO
O arcadismo está associado ao iluminismo, à ideia de que deveríamos repensar a cidade
(já que a sociedade que corrompe o homem).
As arcádias eram centros onde as pessoas iam para trocar poemas, informações. A ideia
era voltar ao estilo clássico. No Brasil, havia duas arcádias: uma em Minas e outra em Recife.
A partir do arcadismo começou a se configurar um sistema literário porque os textos
passaram a circular, havia poucos autores, um público restrito, mas ainda não havia uma
tradição.
A ideia do arcadismo era ser uma contraposição ao barroco. Se o barroco é dionisíaco,
o arcadismo é apolíneo e retoma a racionalidade. A mulher no barroco desviava o homem do
bom caminho. No arcadismo, a mulher era uma boa companhia.
O bucolismo propôs o retorno ao campo (fugere urbem). A questão da eminência da
morte continua; no entanto, o poeta arcade não se importa com o que aconteceria depois dela.
A figura do ‘bom selvagem’ apareceu no arcadismo e gerou uma tradição para o
romantismo. Caramuru e o Uraguai são duas epopeias que exibem esse personagem.
Em Caramuru, Santa Rita Durão mostrou a criação da cidade de Salvador e uma
miscigenação que deu certo.
Em o Uraguai, Basílio da Gama faz um relato antijesuítico falando sobre os Sete Povos
das Missões e mostrando uma miscigenação que não deu certo. Os índios são heróis em ambas
as obras. Além do índio como herói, a projeção da natureza também será retomada pelo
romantismo.
Características:
• bucolismo (fugere urbem);
• desprezo pelo exagero e pelo rebuscamento barroco (inutilia truncat);
• valorização do momento presente (carpe diem);
• busca da espontaneidade e da simplicidade (nativismo: descrição da natureza);
• pseudônimos pastoris;
• incorporação do indígena (Ideal do “bom selvagem”, de Rousseau): Caramuru e
O Uraguai;
• mulher como parte do cenário – pastoras, musas dos poetas.

Exemplos:
Lira VIII
Marília, de que te queixas?
De que te roubou Dirceu
O sincero coração?
Não te deu também o seu?
E tu, Marília, primeiro
Não lhe lançaste o grilhão?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

Em torno das castas pombas,


Não rulam ternos pombinhos?
E rulam, Marília, em vão?
Não se afagam c’os biquinhos?
E a prova de mais ternura
Não os arrasta a paixão?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

Já viste, minha Marília,


Avezinhas, que não façam
Os seus ninhos no verão?
Aquelas, com que se enlaçam,
Não vão cantar-lhes defronte
Do mole pouso, em que estão?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

Se os peixes, Marília, geram


Nos bravos mares, e rios,
Tudo efeitos de Amor são.
Amam os brutos ímpios,
A serpente venenosa,
A onça, o tigre, o leão.
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

As grandes Deusas do Céu


Sentem a seta tirana
Da amorosa inclinação.
Diana, com ser Diana,
Não se abrasa, não suspira
Pelo amor de Endimião?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção?

Desiste, Marília bela,


De uma queixa sustentada
Só na altiva opinião.
Esta chama é inspirada
Pelo Céu; pois nela assenta
A nossa conservação.
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Não deve ter isenção.
Vale lembrar que muitos poetas arcades ficaram conhecidos como ‘poetas
inconfidentes’, por usarem as arcádias como um disfarce para a conjuração.

LXXII
Já rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura
Sufocando do Sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.

Que alegre, que suave, que sonora,


Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora!

Só minha alma em fatal melancolia,


Por te não poder ver, Nise adorada,
Não sabe inda, que coisa é alegria;

E a suavidade do prazer trocada,


Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite lhe agrada.

Semana que vem falaremos sobre as Cartas Chilenas e iniciaremos romantismo.

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