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AULA 3 – LÍNGUA PORTUGUESA

ARCADISMO (CONTINUAÇÃO)
Assim como Gregório de Matos escreveu textos que não seguiam a estética barroca,
durante o período arcade algumas obras que não seguiram o estilo. Houve escritos irônicos que
fugiam da temática do campo tranquilo e da natureza.
O Arcadismo foi o movimento que possibilitou um disfarce para os inconfidentes.
As Cartas Chilenas foram escritas por Tomás Antônio Gonzaga. A primeira carta que
chegou foi a que explica o que aconteceria. É a história de um homem que vai do Chile a Espanha
e conta os horrores que viu lá (no Chile). Os fatos contados são parecidos com os
acontecimentos de Vila Rica, mas ninguém sabia quem era o autor das Cartas na época. Ao total
eram 13 cartas, rimadas e trabalhadas esteticamente; todavia, elas não falavam sobre o
bucolismo, o campo e o bom selvagem. A ironia e a crítica social presente nas Cartas aproximam-
nas das obras do Boca do Inferno.
As Cartas Chilenas são situadas no arcadismo por conta do autor, mas não apresentam
o estilo arcade.

Carta 1
155 – Até parece bem, naquele mesmo
A quem a profissão lhe não exige
Que viva recatado, como vivem
As moças, que inda querem ser donzelas.
Agora, Doroteu, julgar já podes

160 – Que saem de palácio muito cedo.


Assim é, Doroteu; as donzelinhas,
Pela porta travessa, vão saindo,
Mal tocam as garridas à primeira.
Mas a bela Rosinha fica e dorme,

Carta 4
135 – Fazem os seus deveres os afetos
Do nosso grão tenente: amor e ódio.
Aquele que, risonho, lhe trabalha
Nas suas próprias obras, é mandado
Curar-se à Santa Casa, como pobre.

140 – Os outros são tratados como servos,


Que fogem ao trabalho dos senhores,
Para as correntes vão, arrancam pedra
E, quando algum fraqueia, o mau soldado
Dá-lhe um berro que atroa, a mão levanta

145 – E, nas costas, o relho descarrega.


Ah! tu, piedade santa, agora, agora,
Os teus ouvidos tapa e fecha os olhos?
Ou foge desta terra, aonde um Nero,
Aonde os seus sequazes, cada dia

ROMANTISMO
As primeiras manifestacoes literarias descreveram um país-paraíso. No Barroco, havia o
movimento da Contrarreforma e a Igreja queria reconquistar as pessoas. O Arcadismo foi
associado ao momento do Iluminismo.
Com a chegada da Família Real, o Brasil tornou-se metrópole. Foram criadas a Biblioteca
Nacional e a imprensa. Isso possibilitou uma divulgação maior da literatura brasiliera.
O Romantismo foi usado como uma estrategia para a difusão de ideais no pós-
independência.
Era um movimento para se pensar as raízes, para voltar-se para si mesmo. Esse
mecanismo de volta ao passado, no Brasil foi adaptado uma vez que a formação do país era
muito recente.
O Romantismo começou de fato depois da independência. O herói não podia ser o
português nem o negro, que era escravo; então, o índio foi alçado a herói.
O índio dos autores românticos é um índio alto, forte, com porte atlético. Ele tinha
características europeias. Era vassalo, leal, dedicava todo seu amor a uma senhora.
O indianismo aconteceu na poesia e na prosa em momentos diferentes. Os romances
indianistas começaram a ser produzidas nas decadas de 1860 e 1870 – foram os últimos. Na
poesia, o indianismo aconteceu logo no princípio.
Só houve gerações na poesia.
• 1º Geração: Indianista
• 2º Geração: Mal do Século
• 3º Geração: Condoreira

1º Geração: Nacionalista ou Indianista


• Características: exaltação da natureza, nacionalismo ufanista, instituição do índio como
herói nacional;
• Autores: Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães.

O primeiro livro foi Suspiros Poéticos de Gonçalves de Magalhães. Ele foi o primeiro
autor a publicar um livro sobre o Brasil com um tom nacionalista.
Gonçalves Dias teve uma produção maior e é considerado o autor mais importante
dessa geração. Ele era filho de um negro e de uma índia, e era neto de português. Ele dizia que
carregava no sangue o que era ser brasileiro. Ao longo da vida, ele sofreu muito preconceito.
Se no Arcadismo a mulher fazia parte do cenário, no Romantismo (primeira e segunda
geração somente) a mulher era idealizada.

Prólogo
Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora público, porque espero que não
serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera
convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me
pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.

Nos poemas do Romantismo, não há a necessidade de metrificação ou rimas. Há uma


liberdade de formas que rompeu com o Arcadismo e foi retomada pelo Modernismo. A
linguagem usada era simples.

Canção do Exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,


Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,


Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,


Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

É importante pensar o Romantismo vinculado a independência do Brasil, porque tanto


a prosa quanto a poesia serviram como difusores do novo poder.
A poesia era uma linguagem diferenciada enquanto a prosa era considerada como algo
do dia-a-dia – não-literário. A prosa começou a ser utilizada após a Revolução Francesa para
difundir ideais.
Os primeiros romances eram muito incipientes, pois tratava-se de um estilo novo.
Coube ao romance a divulgação dos comportamentos, por isso eles eram descritivos
ensinando como se vestir, como se portar. Os romances tinham como objetivo formar uma
sociedade europeizada. A poesia divulgava o amor à pátria, às leis. O Romantismo no mundo
inteiro foi voltado ao nacionalismo.

Como eu te amo (fragmento)


Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,


Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua,

Como se ama das aves o gemido,


Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,


A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,


A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem


Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,

Por quanto já sofri, por quanto ainda


Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

Juca Pirama significa ‘aquele que vai morrer’. A ideia é de ser uma narrativa oral sobre
um guerreiro que foi preso após o massacre de toda sua tribo. Antes do ritual de antropofagia,
ele teve de contar seus feitos gloriosos. Quando ele disse que era o último guerreiro da tribo,
ele chorou. Os índios soltaram-no, pois não poderiam comer um covarde. Ele voltou para sua
tribo e encontrou seu pai velho que se envergonhou e levou Juca de volta a tribo para que ele
fosse morto. Então, Juca desafiou toda a tribo e começou a lutar. O texto termina sem sabermos
o desfecho.

Juco Pirama (trecho)


No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudes, severos, sedentos de glória,


Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

Canção do Tamoio (Natalícia)


Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte,
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,

Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

E pois que és meu filho,


Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

Teu grito de guerra


Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

E a mão nessas tabas,


Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranquilo nos gestos,
Impávido, audaz.
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

2ºGeração: Ultrarromântica, Byroniana ou Mal do Século


• Características: negativismo, egocentrismo, desejo de morte, alienação social, negação
da ideia de pátria;
• Autores: Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu.

A fuga proposta pelos autores é a morte.

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve


A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas
Passam tantas visões sobre meu peito!
Palor de febre meu semblante cobre,
Bate meu coração com tanto fogo!
Um doce nome os lábios meus suspiram,
Um nome de mulher... e vejo lânguida
No véu suave de amorosas sombras
Seminua, abatida, a mão no seio,
Perfumada visão romper a nuvem,
Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras
O alento fresco e leve como a vida
Passar delicioso... Que delírios!
Acordo palpitante... inda a procuro:
Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas
Banham meus olhos, e suspiro e gemo...
Imploro uma ilusão... tudo é silêncio!
Só o leito deserto, a sala muda!
Amorosa visão, mulher dos sonhos,
Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!
Nunca virás iluminar meu peito
Com um raio de luz desses teus olhos?

Se eu morresse amanhã (Álvares de Azevedo)


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!


Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva


Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora


A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Canção do exílio (Casimiro de Abreu)


Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro


Respirando este ar;
Faz que eu viva,
Senhor! dá-me de novo

Os gozos do meu lar!


O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava


Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos


Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Na próxima aula, vamos falar sobre Castro Alves que trará o sensualismo e o
nacionalismo crítico para o Romantismo.
Obs.: Ler o romance Cinco Minutos para a aula 4.