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AULA 5 – LÍNGUA PORTUGUESA

REALISMO
O realismo abandona o mundo idealizado do Romantismo para chocar as pessoas com
o mundo real. No Brasil, houve uma separação entre o maior autor do realismo e o realismo
francês.
Não podemos afirmar que Machado de Assis seja claramente realista, pois sua principal
obra, Memórias Póstumas, apresenta um narrador (que é o personagem principal) morto que
fala – o que não retrata a realidade propriamente dita.
Antes dividiam a obra de Machado em uma fase romântica e outra realista, mas o que
se percebe é que ele nunca foi romântico. Machado começou a publicar ainda novo, embebido
pelos romances românticos; mas desde o primeiro escrito dele percebemos que a mulher não é
submissa ao marido, ela é mais esperta, não tem a personalidade das heroínas românticas.
Em A Mão e a Luva, uma menina que foi criada por uma baronesa tem muitos
pretendentes: o primeiro é um sonhador, foi rejeitado; o segundo era o sobrinho da baronesa,
mas gastava muito dinheiro – também foi dispensado; o terceiro era um vizinho ambicioso que
queria crescer na vida e dava-lhe segurança – ele foi escolhido. Não há amor, ela escolhe aquele
que a levará mais longe.
Machado conduz as pessoas do romance romântico para o romance machadiano que é
um romance de reflexão. Ele tem alguns traços do realismo, mas não está preso a época.
Uma das características do realismo e do naturalismo (esse último é uma versão mais
“caricatural”) era o objetivo de falar sobre a realidade e de usar explicações científicas. O
determinismo é uma das teorias que foi mais utilizada para explicar o comportamento humano
– o homem é fruto do meio, da raça e do seu tempo.
O romance machadiano é um romance com características muito próprias. O ser
humano é sempre o mesmo independente do lugar. Isso afronta o princípio do realismo que
pregava que o homem era fruto do meio.
Em Memorias Póstumas, há um capítulo chamado Delírios. Brás Cubas estava quase
morrendo e imaginou-se montando em um hipopótamo (que a ciência dizia ser o animal mais
burro) e voltando para a criação da Terra; lá ele não encontra Deus, encontra a natureza, uma
mulher que diz que é a mãe e a inimiga dele. Ao mesmo tempo que ela quer que ele morra, ela
quer que ele viva e viver é sofrer. A conversa que ele tem com a mãe natureza é extremamente
dura e isso reflete a visão que Machado tem sobre o mundo.
Em Brás Cubas, Machado coloca muito da filosofia na qual ele acredita e muitos
capítulos servem simplesmente para falar sobre a estética que será utilizada. O capítulo Delírios
não é útil para narrativa, mas é um dos mais importantes de sua obra pois ali residem as bases
de seu pensamento (cético) – o mundo é esse e não mudará. Toda vez que Brás Cubas tinha uma
expectativa sobre a vida, tudo acabava: Virgília engravidou e perdeu o filho, ele ia ser ministro
e não foi. O último capítulo chama-se Das Negativas, ele diz que teve vários nãos na vida sendo
que alguns foram positivos: ele não teve doença que consumisse seu corpo, não trabalhou, não
enlouqueceu, não teve filhos - “não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
Machado além de mulato, era gago, epilético e pobre; para ser aceito naquela sociedade
de brancos ricos, ele tinha que ser muito calado, ele era muito contido. E em seus textos, ele
transborda isso: sempre se coloca como observador.
Machado foi ficando pessimista no final de sua vida. Ele rompeu com a verossimilhança.
Falava com o leitor para fazê-lo refletir – as vezes, chegava a brigar com o leitor.
Machado sempre teve a preocupação de inserir a literatura brasileira no cenário
mundial, por isso ele fala do ser humano e não do brasileiro - ele faz uma literatura universal.

“Sua obra é variada e tem a característica das produções eminentes: satisfaz tanto aos
requintados quanto aos simples. Ela tem, sobretudo, a possibilidade de ser
reinterpretada à medida que o tempo passa, porque, tendo uma dimensão profunda de
universalidade, funciona como se se dirigisse a cada época que surge. Ele foi excelente
jornalista, razoável poeta e comediógrafo de certo interesse. Mas foi sobretudo
ficcionista, autor de nove romances e mais de uma centena de contos, quase sempre de
alta qualidade. A melhor fase de sua produção começou na idade madura, quando
atingiu os quarenta anos, mas desde o começo já eram pessoais o seu estilo e visão do
mundo. (...) Portanto, há nele um elemento fugidio, que provoca perplexidade, e é uma
das suas forças. Ele parece, por exemplo, contemplar com ceticismo a vida do seu
tempo, e de fato assim é. No entanto, nos refolhos da frase, no subentendido das cenas,
no esforço aparentemente casual da descrição, está escondido o interesse lúcido pela
realidade social e o sentimento das suas contradições. Do mesmo modo, consegue
despistar o leitor por meio de uma frieza irônica que pode significar desapreço pelo
homem, mas pode ser também um método de afastamento, recobrindo a compreensão
piedosa. Por causa dessa capacidade de fundir frieza e paixão, serenidade e revolta,
elegância e violência, a sua escrita é um prodígio de elaboração, que, tendo-se
despojado dos acessórios, é sempre moderna, apesar de raros traços de preciosismo.
Graças à riqueza do seu texto, Machado de Assis é o primeiro narrador brasileiro que
suporta uma leitura filosófica. Além disso, seus temas foram incrivelmente precursores,
obrigando a crítica atual, para explicá-lo, a evocar autores que vieram depois, como
Pirandello, Proust, Kafka, sem falar de seu contemporâneo Dostoievski. Note-se que
talvez ele seja o primeiro escritor que teve noção exata do processo literário brasileiro,
em alguns artigos de rara inteligência crítica. O ensaio “Instinto de Nacionalidade”
(1873) faz um balanço das tendências nacionalistas, sobretudo o indianismo, mostrando
que a absorção nos temas locais foi um momento a ser superado, e que a verdadeira
literatura depende, não do registro de aspectos exteriores e modismos sociais, mas da
formação de um “sentimento íntimo” que, embora fazendo do escritor um homem “do
seu tempo e do seu país”, assegure a sua universalidade. ”
(CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira.)

Machado produziu muitos contos que também tinham caráter reflexivo. Silvio Romero
critica os romances machadianos e dizia que os capítulos eram curtos devido à capacidade
diminuída de Machado. O Aires, é um personagem de Esaú e Jacó que tinha horror a discussão.
Machado ao mesmo tempo que parece frio e pessimista, distancia-se como observador e parece
olhar a humanidade com piedade. Machado sempre se projeta nos personagens.

“O que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a


despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica. Num
momento em que Flaubert sistematizara a teoria do "romance que narra a si próprio",
apagando o narrador atrás da objetividade da narrativa; num momento em que Zola
preconizava o inventário maciço da realidade, observada nos menores detalhes, ele
cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa com
bisbilhotice saborosa, lembrando ao leitor que atrás dela estava a sua voz convencional.
Era uma forma de manter, na segunda metade do século XIX, o tom caprichoso de
Sterne, que ele prezava; de efetuar os seus saltos temporais e brincar com o leitor. ”
(CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. São Paulo: Duas
Cidades, 2004.)

Machado dá pouca visibilidade ao pobre porque o público que ele quer alcançar para
modificar é a camada alta, e essas pessoas não se projetariam nos trabalhadores. Mas em
momentos certeiros, ele cita a classe mais baixa, geralmente ex-escravos. No capítulo Vergallho,
Brás Cubas estava voltando da Gamboa quando viu alguém chicoteando um escravo, isso não
chamou a atenção dele, mas ao ouvir a voz da pessoa, ele voltou e percebeu que o homem que
chicoteava o escravo era Prudêncio. Prudêncio foi escravo de Brás Cubas na infância. No capítulo
seguinte, Um grão de sandice, ele explica que conheceu um rapaz louco chamado Romualdo
que era o rei dos tártaros (após tomar tanto tártaro para se curar de uma doença, ele virou o rei
dos tártaros). O escravo recebeu (tomou) violência desde o começo de sua vida, o que ele faria
pois senão dar mais violência (ser o rei da violência)?
Uma crítica feita a Machado é que ele era um autor negro que não escrevia sobre a
abolição. Ele posicionou-se, mas não por meio do embate. Escreveu em sua coluna Bons dias na
Gazeta de Notícias usando a primeira pessoa (porque assim ele trabalhava com a ideia de que
estava mostrando um único ponto de vista). Na crônica, o narrador constrói todo um
simbolismo: como Cristo libertou os homens, ele estava libertando os escravos. Pancrácio era o
nome do escravo (pan = tudo e cracio = poder) e pancrácio significa tolo, ou seja, pancrácio tinha
o poder e era tolo. Esse conto foi publicado uma semana depois da abolição.

Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto,
ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que
toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-
feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de
seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil,
perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor,
reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo),
no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu
com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo,
há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a
nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente,
que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me
os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e
pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar,
brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e
entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de
admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que
estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens
mais um ordenado, um ordenado que...
— Oh! meu senhô! fico.
— ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu
cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás
mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha
enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito.
Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não
escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo
um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei.
Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns
pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho
do diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até
alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus
eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da
família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia;
que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então
professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e
verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a
ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre
retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do
céu.
Boas noites.
(In: Obra completa. v. III, Rio de Janeiro: Aguilar, 1973.)

Em outra crônica, ele fala sobre a pena de morte.

Crônica de 27 de dezembro de 1888 (Bons dias!)


Creiam que é por medo dele, que não escrevo aqui duas linhas em defesa de um defunto
dos últimos dias, o carrasco de Minas Gerais, pobre-diabo, que ninguém defendeu, e
que uma carta de Ouro Preto disse haver exercido o seu desprezível ofício desde 1835
até 1858.
Fiquei embatucado com o desprezível ofício do homem. Por que carga d’água há de ser
desprezível um ofício criado por lei? Foi a lei que decretou a pena de morte; e, desde
Caim até hoje, para matar alguém é preciso alguém que mate. A bela sociedade
estabeleceu a pena de morte para o assassino, em vez de uma razoável compensação
pecuniária aos parentes do morto, como queria Maomé. Para executar a pena não se há
de ir buscar o escrivão, cujos dedos só se devem tingir no sangue do tinteiro. Usamos
empregar outro criminoso.
Disse então a bela sociedade ao carrasco de Minas, com aquela bonomia, que só
possuem os entes coletivos: — “Você fez já um bom ensaio matando sua mulher; agora
assente a mão em outras execuções e acabará fazendo obra perfeita. Não se importe
com mesa e cama; dou-lhe tudo isso, e roupa lavada: é um funcionário do Estado”.
Deus meu, não digo que o ofício seja dos mais honrosos; é muito inferior ao do meu
engraxador de botas, que por nenhum caso chega a matar as próprias pulgas; mas se o
carrasco sai a matar um homem, é porque o mandam. Se a comparação se não prestasse
a interpretações sublimes, que estão longe da minha alma, eu diria que ele (carrasco) é
a última palavra do código. Não neguem isto, ao menos, ao patife Januário, — ou
Fortunato, como outros dizem.
(In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar,1987. Vol.3)

Em Teoria do Medalhão, o pai após a festa de 22 anos do filho o ensina a como ter
prestigio na sociedade. O pai diz que como o filho é dotado de inépcia mental, a melhor profissão
seria ser um medalhão.

Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um


pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que
deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens
naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas
modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no
regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: "a gravidade é um mistério do
corpo", definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela
outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa
é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à
idade de quarenta e cinco anos...
(...)
Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir
para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que
entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço.
Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era
muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência,
abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão
constante esforço conviria ao exercício da vida.
(...)
Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de
mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido
a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça,
a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se
mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e
arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
- Meia-noite.
- Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente
maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as
proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.

Leituras:
1. Contos de Papéis avulsos (“Teoria do medalhão” e “O espelho”) e crônicas selecionadas.

Teoria do Medalhão. Disponível em


<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000232.pdf>

Leituras para a Aula 6:


1. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
2. Esaú e Jacó, de Machado de Assis.