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Prefácio de Jurandir Freire Costa para o livro Tornar-se Negro, de Neusa Souza Santos

Da cor ao corpo: a violência do racismo

O Ideal de Ego
A violência do racismo é estrutural. Isto quer dizer: não se trata, na perspectiva psicanalítica do
autor, de uma violência explícita e circunstancial na qual fosse negado um direito ao negro. Um
racista manifesta pontualmente sua violência. É estrutural, tanto psiquicamente quanto
culturalmente. E essas duas perspectivas são correlatas, como em Fanon.
Diz Freire Costa:

“Ser negro é ser violentado de forma constante, contínua e


cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injunção: a de
encarnar o corpo e os ideais de Ego do sujeito branco e a
de recusar, negar e anular a presença do corpo negro.” p.2.

Trata-se da condição do corpo negro em face dos ideias da Brancura (ou branquitude, como será
visto nos próximos seminários): do (a)ssujeitamento ao ideal cultural branco ou, no limite, da
exclusão da “norma psico-sócio-somática”. Trata-se, portanto, de “destruir a identidade do
sujeito negro”. Ou sendo preciso, a de impedir a formação identitária1 do sujeito negro, a partir
do reconhecimento (prazeroso2) de si, no conflito dialogal (simbólico) com o branco.
Dois termos, nesta citação, devem ser compreendidos, ainda que de forma sucinta: Ego e Ideal
do Ego. O Ego é uma instância psíquica que se manifesta em nossa vida para garantir um
equilíbrio “de realidade” em relação a duas outras instâncias psíquicas, quais sejam a do prazer
“transgressivo” e das “punições” de si.
Por outro lado, o Ideal do Ego pode ser traduzido simplificadamente como modelos culturais e,
como todo modelo, apresenta-se como um horizonte que, neste caso, constitui-se por regras e
normas estruturantes que permitem que se realize o processo de desenvolvimento da identidade
psíquica, isto é, processo do ultrapassamento da relação criança-mãe e de constituição de uma
imagem corporal. Assim, o Ideal de Ego é um horizonte para o qual tenderíamos ao assumirmos os valores

1 A identidade comporta todos os elementos significativos que estruturam o corpo/psiquismo do sujeito


de modo a produzir o reconhecimento de si, tanto quanto as possibilidades de ser diferença, isto é, diferir
e, assim, criar cultura.
2 O autor afirma que a relação prazer-desprazer como elementos dinâmicos e criativos constitutivos do

funcionamento mental, diferem da dor, que abala o aspecto dinâmico do psiquismo. Na dor, este se reduz a
“acionar defesas cujo único objetivo é controlar, dominar, fazer desaparecer a excitação dolorosa”.(p. 9)
culturais estruturantes de nosso psiquismo. Ou seja, assumiríamos a ordem da cultura pela qual seríamos
favorecidos em nossa identidade de sujeitos. O Ideal do Ego pressupõe, portanto, tanto a
linguagem como os afetos, os elemento fundadores desse processo, quando ao fim, a identidade
seria favorecida positivamente com a convergência harmoniosa entre o investimento erótico de
seu corpo (“saúde psíquica”) e de seu pensamento, “via indispensável a sua relação harmoniosa
com os outros e com o mundo”. (p.4). O que comumente chamaríamos de “amor próprio”.
Afirma Santos Souza:

“O Ideal do Ego é do domínio do simbólico. Simbólico


que dizer articulação e vínculo. Simbólico é o registro ao
qual pertencem a Ordem simbólica e a Lei que fundamenta
esta Ordem O Ideal de Ego é, portanto, a instância que
estrutura o sujeito psíquico, vinculando-o à Lei e à
Ordem.” (p.33)

O modelo de Ideal de Ego produzido para o ser negro, sua identificação estruturante é o da
Cultura branca, na figura do ideal de Brancura. Nisto consiste a violência, modelo de psiquismo
cujo horizonte é o do corpo no qual estruturação psíquica é a da branquitude.

O psiquismo “embranquecido” em um corpo negro. Se a “identidade do sujeito depende, em


grande medida, da relação que ele cria com o corpo” (p. 6) e, para que essa relação defina uma
estrutura psíquica harmoniosa, esse corpo precisa ser pensado como “fonte de vida e prazer”.
Inicialmente, para o autor, se o corpo sofre, precisa superar o sofrimento para continuar a “amar
e cuidar daquilo que é condição de sua sobrevida” (p.6). Ele conclui:
“Um corpo que não consegue ser absolvido do sofrimento
que infringe ao sujeito torna-se um corpo perseguidor,
odiado, visto como foco permanente de ameaça de morte e
dor”. (p.6).

(p.43)

Prazer-desprazer/ Dor
Se, tal como afirma o autor, o crescimento e desenvolvimento psicológico são condicionados pela
experiência de satisfação, a dinâmica psíquica ocorrerá em função da perspectiva de retomada da
satisfação, é o que ele chama de o desejo, “impulso em direção ao objeto e à situação do
prazer”(p.8). Neste percurso do desejo, de alguma forma, pode ocorrer a frustração, o desprazer.
O que não impede a dinâmica da busca prazer-desprazer ter uma permanente continuidade.
Da dor ao pensamento doloroso

A ferida do corpo transforma-se em ferida do pensamento: segundo o autor é


doloroso (e não desprazeroso) o pensamento absorvido pela dedicação intensiva à
regeneração da imagem do corpo desfigurado pela violência racista. “Um
pensamento forçado a não poder representar a identidade real do sujeito é um
pensamento mutilado em sua essência.” (p.10, grifos meus). Isto é, um pensamento
que tenta a todo custo negar que a dor do racismo resulta em uma condição
existencial insustentável e que necessitaria do sujeito a busca de outra identidade que
não a do Ideal de Ego branco.

Aqui, seria imprescindível explicitar o que fica “no ar” nestas afirmações. O que,
embora tocado em outras partes do texto, nos leva a crer agora em uma
constituição puramente reativa do pensamento no negro. O negar a si mesmo
como ser negro é o intuito político inconsciente da branquitude destinado ao
negro, posto que é o que resulta do Ideal de Ego da branquitude. Foi erigido um
ideal cultural à força da manutenção da realidade tal qual desejada pelo mundo
branco. O ideal político da branquitude é violento estruturalmente: não permite
normas-regras estruturantes para o Ideal de Ego do ser negro. Em outras palavras,
não haveria um “sujeito negro delegando ao branco o direito de definir sua
identidade” (p.13, grifo) e que, portanto, renunciaria ao “diálogo que mantém viva a
dinâmica do pensamento”. E Freire Costa continua: “Um pensamento privado do
confronto com outro pensamento perde-se num solipsismo, cujas consequências
são autolegitimação absoluta da ‘verdade’ pensada...”. (p.13). Ora, não é o negro
que “delega”; ao contrário, ele é submetido a esta condição de silencio, de
solipsismo, não há diálogo porque não pode haver/não se quer que haja.
Freire finaliza: