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O feminismo e suas ondas

Magda Guadalupe dos Santos

5 de setembro de 2017

Por que se fala em ondas dos feminismos? Se estes não se referem apenas a direitos iguais
para mulheres e homens, qual seria o seu alcance? Sobre o que versa o seu conceito como
um movimento plural e não unitário? Segundo Sally Scholz no livro Feminism: A
beginner’s guide, de 2010, “feminismo é um projeto crítico” que se volta para aspectos que
parecem opressivos às mulheres, oferecendo sugestões alternativas em termos de análises,
práticas e discursos.

A preferência atual pelo uso do termo no plural tem em vista a desconstrução dos papéis
sociais e binários entre sexos e gêneros que alimentam o patriarcado. Nesse sentido, ao se
tentar entender as bases sobre as quais se assentam os feminismos, deve-se levar em
consideração a vida das mulheres como ponto de partida para teorias e práticas, ressaltando
os caminhos dos quais as mulheres foram excluídas e problematizando as supostas
características que reproduzem o sentido de serem mulheres.

Todas essas questões nos remetem claramente às chamadas ondas feministas, ou seja, as
gerações dos projetos feministas, muitas vezes controversas em nível teórico e prático. O
termo ondas (the waves terminology) é elucidativo enquanto um projeto que ainda não se
completou, em dois sentidos.

O primeiro corresponde a um parâmetro cronológico ou de gerações. O segundo liga-se às


sucessivas construções teórico-temáticas. Ambas as interpretações pressupõem que, tal
como ondas no oceano, com marés (ebbs) e fluxos (flows), com marés altas e baixas, o
reconhecimento das ondas pretende mapear a “intensidade variável da atividade feminista
em diferentes períodos de tempo”, acrescenta Scholz.

Na esfera da filosofia política, o termo ondas (kymata) é usado por Platão, em A República,
para nomear as dificuldades a serem enfrentadas para se constituir uma cidade justa. Pode-
se dizer que, com todas as diferenças entre o que projeta o filósofo e os feminismos, nos
dois casos o que se põe em relevo são as enormes dificuldades que devem ser vencidas para
a efetivação de um projeto, dificuldades que não se apresentam como simples, mas como
necessárias à consecução da finalidade maior: a construção de uma sociedade justa.

A cada onda dos feminismos, assim como a cada onda da kallípolis (da bela e boa cidade de
Platão), um a um os obstáculos se apresentam, são reconhecidos e vivenciados, seja em
moldes dialéticos, seja enquanto controvérsias, e uma nova etapa, uma nova onda se
apresenta como algo necessário de ser reconhecido e apreendido.

Se, para Platão, as três ondas se referem à educação paritária entre mulheres e homens na
classe dos guardiões, à comunidade de mulheres e filhos em uma nova ordem sexual e
política, e à prevalência do rei filósofo – o qual não poderia ser uma mulher –, para os
feminismos as ondas não visam conduzir a um “rei filósofo”, mas apontam os equívocos da
sociedade falogocêntrica e patriarcal.

Primeira onda
Conforme Chiara Severgnini no jornal La Stampa, em 2016, cada onda (ogni ondata) traz
consigo novas prioridades, novos métodos e novas protagonistas. Explicitam-se, assim,
na primeira onda feminista, as pretensões pontuais do século 18, chegando até o início das
reivindicações das sufragistas, no século 20.

Nesta primeira onda, cujos movimentos já se revelavam mesmo antes da era iluminista,
como na literatura e poesia de mulheres renascentistas, alguns nomes se destacam. Olympe
de Gouges redige, em 1791, a conhecida Declaração dos direitos da mulher e da cidadã,
escrevendo no preâmbulo que “a mulher” tanto é “o sexo superior em beleza quanto em
coragem, nos sofrimentos da maternidade”, além do que, nos dezessete artigos do
documento, inscreve os princípios que deveriam reger em direitos e obrigações a vida da
“mulher” e do “homem”, correlacionando liberdade, justiça e resistência à opressão.

De modo semelhante, Mary Wollstonecraft, em Vindication of rights of woman, de 1792,


entendia que o simples ato de “nascer mulher” já comporta em si inferioridade, opressão e
desvantagem. Todavia, o cenário revolucionário se apresenta e isto ocorre justamente
porque as mulheres “reformam a si mesmas no propósito de reformar o mundo”.

Para De Gouges e Wollstonecraft, era necessário que, ao lado do homem, a mulher pudesse
ser uma individualidade autônoma, reconhecida em sua dimensão racional e moral. Apesar
do viés ontológico e iluminista, já nessa primeira onda se manifesta uma crítica a certa
neutralidade universal, modelada a partir do masculino, com discursos regulados pela lógica
do mesmo e do próprio.

A segunda onda feminista insere-se no cenário dos anos 1960, com impacto nas duas
décadas seguintes. Criado por Carol Hanisch em 1969, o lema “o pessoal é político” propõe
que as mulheres se “livrem da própria culpa” e tentem enfrentar as situações da vida por
meio de uma “terapia política” que possibilite a todas pensarem por si mesmas.

Destaca-se aqui uma fase em que problemas culturais e políticos se mesclam, devendo as
mulheres encorajarem-se para combater as estruturas sexistas do poder. Mas já em
1949, Simone de Beauvoir publica, na França, O segundo sexo, elaborando uma teoria
crítico-filosófica da relação entre o paradigma masculino, indicado como o mesmo, e o
desvio feminino, assumido como o outro.

Segunda onda

Suas teorias podem ser tomadas como passagens da primeira para a segunda onda, ao
assumir a categoria existencial da diferença, indicando, seja “a mulher”, sejam “as
mulheres”, como constringidas ao protótipo da alteridade, enquanto o outro do homem, e,
pois, da cultura.

Para recuperar a sua diferença, como uma alteridade autônoma, “a mulher” ou as


“mulheres” (termo usado ora no singular, ora no plural em O segundo sexo e outros
escritos) devem recorrer aos desejos, tomando a si mesmas como referência, reativando
seus projetos existenciais por meio da narrativa, reescrevendo sua história de uma
perspectiva individual e comum, tal como ela faz em suas obras de memória, como La force
de l’âge, de 1960 e Tout compte fait, de 1972.

A prática de contar histórias – na forma da escrita autobiográfica – é um tema constitutivo


dos feminismos. No ato da escritura, cada mulher-escritora se descobre em suas
características e também como outro de si, por meio de um processo de autoeducação.
O segundo sexo teve um forte impacto no sentido de perturbar a ordem dos sexos
estabelecida com base em uma diferença desvelada e contestada ao longo dos anos 1970 e
1980. Como interlocutoras de Beauvoir, feministas norte-americanas como Betty Friedan,
Kate Millet e a australiana Germaine Greer, entre outras, lançam-se a movimentos pela
emancipação das mulheres, provocando novas iniciativas práticas e teóricas para que a
violência sobre os corpos femininos pudesse ser freada.

Para Friedan (1963), as mulheres deveriam reivindicar o poder, destituírem-se da “mística


feminina”, abrindo novos espaços para o questionamento do eixo central da sexualidade
fundado no patriarcado. Segundo Ute Gerhard (1993), trata-se então de pensar as mulheres
não só como submissas, oprimidas, mas de reconhecer e reconsiderar orientações e “valores
femininos”.

Surge certa ambivalência na avaliação do que é o feminino na cultura. Teóricas como Luce
Irigaray, na França, e as italianas do grupo Diotima, como Carla Lonzi e Adriana Cavarero,
postulam a política de uma diferença originária anterior à história, na inegável realidade de
que existem dois sexos, já que o “indivíduo é dois”, criticando o tradicional léxico político,
no qual o conceito universal de indivíduo apenas convalida um discurso masculino que se
emprega como absoluto e visa representar todo o gênero humano.

Essas interpretações abrem-se às leituras e vivências pós-modernas, próprias da denominada


terceira onda feminista. Apoiando-se na revisão filosófica dos conceitos de identidade
e diferença, novas fronteiras são cruzadas na afirmação da diversidade das mulheres.
Desconstroem-se os discursos neutros e assexuados, envoltos nos paradigmas
falogocêntricos, desdobrando-se novos espaços relacionais.

O que se torna evidente é a rejeição de grandes teorias, das categorias e conceitos abstratos
da racionalidade usados até então. Visa-se superar o discurso racional e propor algo novo,
opositivo, espontâneo, particular e válido para contextos e horizontes específicos, como nas
teorias de Teresa di Lauretis e Dona Haraway, entre várias outras. Recusam-se as
generalizações em torno de uma moral universal.

De outra perspectiva, põe-se também em questão se, na multiplicidade das diferenças, a


particularidade contrastiva entre os sexos não perde significado e, portanto, o sujeito
político-jurídico “a mulher” não mais se configura como suporte e estímulo da luta por
direitos e reconhecimento. As controvérsias se voltam ainda contra o modelo pós-moderno
e se questiona a validade da renúncia à autodeterminação das mulheres, no momento em
que elas se descobrem a si mesmas como pertencentes a um sexo e não apenas como
pessoas isoladas, conforme problematizam Linda Nicholson e Nacy Fraser (1992).

Terceira onda

A terceira onda é constituída, de fato, por uma multiplicidade de feminismos que não visam
à hegemonia de uma tese sobre a outra. Nesse complexo processo teórico, a figura de
destaque é Judith Butler, especialmente por seus interesses políticos, que dialogam de forma
específica com as questões de gênero e de sexualidade e podem ser compreendidos de
certas perspectivas teóricas.

A primeira é a revisão da linguagem performativa, a partir do que se questionam os efeitos


da linguagem em relação às exigências de reconhecimento e legitimação social e política,
indicando como jogos linguísticos de autonomeação enfrentam certa instabilidade anti-
identitária.
A segunda, correspondente a sua produção dos anos 1990, responde à violência de certas
políticas norte-americanas e propõe uma prática de resistência ao neoconservadorismo e ao
neoliberalismo, visando a uma proposta não violenta de democracia radical, que escaparia
de um projeto identitário e nacionalista, com a defesa da liberdade e dos direitos civis, numa
espécie de revisão das políticas feministas dos anos 1970.

Em terceiro lugar, destacam-se suas teorias de antinaturalização da crítica às presumidas


inscrições genéticas no destino de cada indivíduo e de seus desejos e volições, justificadas
em supostos fundamentos éticos. Sua proposta consiste numa revisão de níveis de
inteligibilidade e de legitimação de ligações “não naturais”, sempre em debate com os
feminismos radicais, como se apreende em Gender trouble, de 1990, e em Bodies that
matter, de 1993, e em Frames of war: When is life grievable?, de 2009.

Enfim, não se pode desconsiderar os feminismos descoloniais e a possibilidade de uma


quarta onda, destinada a rever pressupostos de um pós-feminismo, assim como as leituras
sul-americanas dos feminismos, especialmente a da argentina María Luisa Femenías em sua
luta contínua contra a violência e em prol da democratização das Américas. Também no
Brasil a produção textual e as marchas feministas se destacam ao longo de nossa própria
história.

Voltando ao sentido das ondas, tanto nos feminismos quanto em Platão, as dificuldades
podem ser lidas como a inserção de realidade numa cidade/sociedade ideal. Monique Canto
(1994) entende tal inserção em A República como um ponto de lucidez. Se a sociedade
política é o espaço no qual circulam mulheres e homens, em suas funções, elas podem ser
tomadas como corpos políticos que tornam possível a vida política, e a procriação se
apresenta como o primeiro ato político por excelência. Platão estaria escolhendo as
mulheres como referencial de diferença e, segundo sua diferença e alteridade, a cidade
lograria ver como bem “a gravidez, a parturição e a povoação”, sem recair na pleonexía, em
um desejo desenfreado ou excessivo.

É preciso que a experiência das mulheres invada as leis da cidade e as reelabore sob normas
próprias, sendo enquanto força de alteridade que as mulheres provocam “o riso, a crítica e a
refutação na Antiguidade grega”. Entretanto, essa é também a condição humana plena de
desejos, de medo, de temporalidade e da procura do outro.

As mulheres representam, assim, a necessidade de contínuas mudanças que toda sociedade


deve encontrar, apesar do riso e dos riscos envolvidos. As ondas da cidade platônica
redefinem o lugar também das mulheres, pois é pela alteridade que se constituirá o sentido
profundo e possível da política que se quer justa, mesmo que na pluralidade de vozes para
além das simetrias utópicas.

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