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OS DEUSES E OS MONSTROS

Euclides Guimarães
João Carlos Lino Gomes
Léa Souki
Lídia Avelar Estanislau
Lucília de Almeida Neves
Tomás de Aquino Silveira
Yonne de Souza Grossi

OS DEUSES E OS MONSTROS

Belo Horizonte
2001
Copyright © 2001 by Os autores

Coordenação da Coleção
Haroldo Marques
e-mail: extcult@pucminas.br
Coordenação Editorial
Cláudia Teles
e-mail: teles@pucminas.br
Capa
Jairo Alvarenga Fonseca
Editoração eletrônica
Waldênia Alvarenga Santos Ataide
Revisão de textos
Simone de Almeida Gomes

D486 Os deuses e os monstros / Euclides Guimarães...[et al.]. –


Belo Horizonte: Autêntica : PUC Minas, 2001.
128p. (Coleção Convite ao pensar, 2)

ISBN 85-86583-91-X

1. Mito. 2. Deuses. 3. Mitologia – Aspectos morais e


éticos. I. Estanislau, Lídia Avelar. II. Pontifícia Universi-
dade Católica de Minas Gerais. III. Título. IV. Série.

CDU 165.612

2001
Direitos adquiridos para a língua portuguesa pela PUC Minas

PUC Minas
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
Haroldo Marques 7

DÍVIDA DE GRATIDÃO: PODER E IMAGINÁRIO


Lucília de Almeida Neves 11

HOBBES: ÉTICA E POLÍTICA


NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
João Carlos Lino Gomes 25

DRÁCULA, DE BRAM STOKER


Lídia Avelar Estanislau 47

SUBMISSÃO E REVOLTA EM
MÁRIO E O MÁGICO, DE THOMAS MANN
Léa Souki 71

SOBRE O FILME METRÓPOLIS


Euclides Guimarães 85

MODERNIDADE: HISTÓRIA E MEMÓRIA


Yonne de Souza Grossi 95

FRANKENSTEIN, DE MARY SHELLEY


Tomás de Aquino Silveira 103

SOBRE OS AUTORES 125


Coleção Convite ao pensar

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APRESENTAÇÃO
Haroldo Marques

Os mitos modernos se confundem com a his-


tória dos homens, refletindo o que somos, nossos
medos, nossas aspirações mais ocultas. Estudar os
mitos é penetrar no que há de mais autêntico, mais
revelador na vida dos homens. Imagens surgidas
de nosso interior estão na literatura, no cinema, no
teatro ou nas lendas populares. Explodem em nos-
sa consciência e moldam nosso modo de pensar.
Os mitos, estas narrativas geniais, fazem parte de
nosso dia-a-dia, são como o ar que respiramos.
Selecionamos os mitos que, nascidos na moder-
nidade, permanecem como referência: na ciência,
Frankenstein; na economia, Drácula; na política,
Leviathan; na sociedade, o grande líder, mágico,
ilusionista e sedutor.
Thomas Hobbes, já no século XVII, inspirado
nos relatos bíblicos, desenha o surgimento do Es-
tado moderno, com as cores do monstro Leviathan.
Aquele monstro que surgia das águas, misto de
baleia e dragão, ser amedrontador que castigava
os rebeldes habitantes das margens – os homens
em luta. Se o medo caracterizava a natureza dos
indivíduos, agora o medo serve para colocá-los
lado a lado na vida em comum. O monstro se ali-
menta, para a segurança de todos e de cada um,

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Coleção Convite ao pensar

com a perda da liberdade, valor incompatível com


a sobrevivência e a vida política. Monstro que se
apresenta como deus salvador, necessário protetor.
Drácula, outro monstro emblemático, nascido
na Transilvânia (atual Romênia), é sinônimo do
sangue roubado dos que se esforçam na produção
de bens e perdem o bem mais precioso – o sangue
da própria vida. Aqui, o sangue não é só metáfora
mas regra traçada pela civilização moderna.
Frankenstein não é o monstro, mas o cientista
Victor que alimenta sonho recorrente em todos os
pesquisadores: criar a vida em laboratório ou, pelo
menos, criar um homem feito de partes de cadáve-
res. O poder de criar surge como sonho e heresia
suprema, pois faz Victor querer se igualar a Deus.
A criatura produzida pela ciência traz em si a pu-
nição por tamanha ousadia – ele foge ao controle
do seu amo e senhor.
Metrópolis, o filme de Fritz Lang, mostra ima-
gens pioneiras da cidade moderna, misto de feli-
cidade e progresso, que guarda em suas entranhas
as sementes da revolta. A arte antecipa a desola-
ção, as massas, a grandiosidade e a ira de seus
habitantes.
Nesta terra devastada, descrita pelos poetas e
músicos, a memória – marca de identidade huma-
na – tem seus elementos corroídos pelo avanço da
insensatez e da barbárie. A história dos homens se
faz sem que eles atentem para o passado. Perdida
a memória (bem destituído de valor nas atuais cir-
cunstâncias), o desastre parece iminente.
Mário e o Mágico, pequeno relato de Thomas
Mann no início do século, coloca o indivíduo per-
turbado entre as ilusões que não foram perdidas e
as formas de controle cada vez mais totalizantes.

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Apresentação

Temos, bem próxima a nós, a figura do governante


que encarna as forças irracionais, adoçadas pela
sedução das palavras e pelas imagens que apelam
aos sentimentos mais primários.
Francisco Goya já lembrava, em seus Caprichos,
que “el sueño de la razón produce monstruos”. Os
mitos do progresso sem-fim, da felicidade ao al-
cance das mãos, do fim da história estão sempre
gerando deuses. Deuses que se metamorfoseiam
em seus opostos – os monstros produzidos pelos
ardis da razão.

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Coleção Convite ao pensar

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DÍVIDA DE GRATIDÃO:
PODER E IMAGINÁRIO
Lucília de Almeida Neves

À Maria Helena Capelato

A História realiza-se em uma dinâmica tem-


poral, tecida por múltiplos fios que compõem
uma tapeçaria complexa e heterogênea em seus
elementos constitutivos. Na trama da História,
dentre diferentes realidades e fatores, estão pre-
sentes temporalidades várias, relações espaciais,
relações socioculturais, condições econômicas,
valores, representações, urdiduras do poder e
substratos da memória.
Otávio Ianni afirma que
a memória é o segredo da história... Ela envolve a
lembrança e o esquecimento, a obsessão e a amné-
sia, o sofrimento e o deslumbramento. [...] Sim, a
memória é o segredo da História, o modo pelo qual
se articulam o presente e o passado, o indivíduo e a
coletividade.1

Analisar a história a partir de sua interação


com os tempos da memória é uma tarefa comple-
xa, pois, à memória integram-se lembrança e es-
quecimento, fragmentação e totalidade. À História,
que é um procedimento intelectual de construção
do saber, cabe captar, nas diferentes fontes da me-
mória, elementos e informações que possam subsi-
diar a reconstrução do passado com criatividade e
rigor. Dessa forma, o conhecimento histórico estará

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Coleção Convite ao pensar

cumprindo tripla função: realimentar e recriar a


memória social; narrar o acontecido e, finalmente,
produzir interpretações consistentes sobre o que,
sendo passado, é também presente, pois as marcas
essenciais dos processos ficam registradas como
tatuagens na vida das comunidades através dos
tempos que se sucedem.
A memória social brasileira tem contribuído
para demonstrar que a História do Brasil tem, nas
relações políticas e sociais assimétricas, uma de
suas principais características. Ao longo dos cinco
séculos de sua trajetória foi sendo urdida e solidi-
ficada uma cultura de dominação, pela qual, de
forma geral, os interesses privados foram se apro-
priando da máquina pública, imiscuindo-se nos
negócios de Estado e fazendo da administração que
deveria ser voltada ao interesse coletivo, instru-
mento de gerenciamento de interesses particula-
res. Nessa dinâmica de apropriação das instituições
nucleares de poder, as elites políticas e econômi-
cas da nação desenvolveram práticas de estabele-
cimento de vínculos pessoais com os setores
populares da população. Tais práticas constituíram
uma forma de cultura política através da qual a
obrigação dos governantes de implementação de
políticas públicas, voltadas ao atendimento das
necessidades da população, passou a ser comu-
mente identificada como favor, como dádiva.
Da dádiva brotou a dívida. Dívida de gratidão que
tende a enredar os “beneficiários” do favorecimento
governamental a uma dinâmica de dominação e sub-
missão que, como num prisma multifacetado, apre-
senta heterogêneas formas de expressão e de
efetivação.
Dessa forma, as relações de poder no Brasil e,
de forma geral, na maioria dos países latino-

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Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

americanos, todos profundamente influenciados


pela tradição autoritária da cultura ibérica, são, de
forma indelével, caracterizadas por forte verticali-
zação do poder, pela ausência de uma efetiva e am-
pla competição política e por processos recorrentes
de exclusão política – estruturalmente vinculados à
exclusão social. Tal afirmação pode, à primeira vis-
ta, parecer muito ampla e pouco esclarecedora das
especificidades históricas de cada formação social,
de cada país latino-americano. Mesmo porque já se
encontra bastante consolidado o pressuposto de que
análises generalizadoras não constituem a melhor
e mais adequada forma de abordagem dos movi-
mentos da história, uma vez que cada formação so-
cial expressa uma experiência própria, peculiar.
Mas, não deixa de ser também verdadeira a
existência de traços comuns (religiosos, culturais,
políticos, geo-históricos...) à trajetória e à estru-
tura de diferentes países. Captar as diferenças e
as similitudes de realidades históricas peculiares
pode constituir-se em um desafio potencializador
de análises e interpretações inovadoras. Quando
se trata, em especial, de interpretar as diversas
formas de autoritarismo que têm grassado na
América Ibérica, buscando entender a construção
da lógica da dominação nos diferentes países que
a integram, a análise histórica comparativa ad-
quire um valor primordial.
No presente trabalho, estaremos buscando com-
preender como se criou e se reproduziu aquilo que
se tornaria uma verdadeira categoria inerente à efe-
tivação do processo de dominação na América Lati-
na, que é a chamada dívida de gratidão.
Para tanto, recorreremos a uma autora em es-
pecial: a historiadora Maria Helena Capelato. Em
seu livro Multidões em cena: propaganda política no

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Coleção Convite ao pensar

varguismo e no peronismo (1998), deixou-se seduzir


pelo desafio da análise comparativa e produziu ins-
tigante interpretação sobre as relações de poder e
dominação, nas experiências do getulismo no Brasil
e do peronismo na Argentina. Elegendo como eixos
centrais de sua reflexão os temas do poder e do ima-
ginário, produziu texto histórico de qualidade ím-
par, sustentado em interpretação original e bem
estruturada, que analisa dois processos interligados:
construção, através da propaganda, da idéia de con-
cessão de benefícios à população pelos detentores
do poder e constituição de um imaginário social de
esperança, através do qual os beneficiários da “con-
cessão” desenvolvem, em relação aos governantes,
laços de gratidão e dependência.

A ênfase de nossa abordagem, todavia, se di-


ferenciará parcialmente da de Capelato. Enquanto
a autora centrou seus esforços, como já referido,
na análise comparativa entre Brasil e Argentina,
buscaremos orientar nossos argumentos, principal-
mente, no que concerne à realidade brasileira. Para
tanto, além de nossa interpretação pessoal, recor-
reremos, de forma complementar, a dois outros
autores: Jorge Ferreira, que apresenta uma tese re-
visionista dos temas da manipulação e gratidão em
seu livro Trabalhadores do Brasil: o imaginário popu-
lar (1997) e Alcir Lenharo, que acrescentou belíssi-
ma contribuição aos estudos históricos sobre
política e cultura nos anos trinta, com seu livro
Sacralização da política(1986).

IMAGENS E SÍMBOLOS: O PO
MAGENS VO E O PODER
POV

A nova geração de historiadores políticos bem


sabe que, na rede temporal da história, os mitos
fundadores são tão importantes quanto os mitos
mantenedores. Dessa forma, datas são eleitas para

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Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

simbolizarem o início “de um novo tempo” ou


mesmo o seu final. A definição da cronologia his-
tórica, portanto, não é aleatória. Relaciona-se à
construção e reprodução de mitos, símbolos, ima-
gens. Tal fato tem um significado tão profundo que
Eduardo Lourenço diz que “a hora de nascimento
de um povo – que pode ser ou não da sua cultura –
não se compara a nenhuma outra” e ainda que “a
sacralização das origens faz parte da história dos
povos como mitologia”.2
No âmbito da história política incluem-se tam-
bém as práticas de construção de representações e o
exercício direto do poder. A compreensão do signi-
ficado dos símbolos e das imagens no cotidiano das
relações sociais e políticas é fundamental à compre-
ensão do complexo processo de constituição de iden-
tidade de uma nação, que inclui construção de mitos,
elaboração/solidificação da memória coletiva , além
da percepção imagética que o povo tem de si mes-
mo e de seus governantes.
Para Capelato, a propaganda política voltada
à construção de relações de identidades múltiplas
(interpessoais, comunitárias, nacionais), ao tempo
de Vargas e Perón, não se furtou à utilização de
diferentes recursos, especialmente o do uso de
imagens religiosas como as do cooperativismo, da
suprema valoração do trabalho e da hierarquiza-
ção social e política. Também Lenharo desenvolve
rica argumentação em torno da idéia de que, no
Brasil de Getúlio Vargas, a nação era apresentada
e reverenciada como totalidade mística. A todos era
destinada uma função específica e honrada na or-
dem social. Todos eram chamados a colaborar, a
cooperar. Todos eram responsáveis pela criação/
construção da nacionalidade. Todos, governantes e
governados, através de uma relação hierarquizada
mas respeitosa e harmônica, deveriam se integrar

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Coleção Convite ao pensar

ao processo maior e supremo de consolidação da


nação. Uma nação unida na alta dimensão de supe-
ração de seus atrasos estruturais; uma nação forte e
livre de disparidades e de conflitos esterilizadores.
O mito mantenedor realizaria, assim, sua potencia-
lidade e destino. Um povo em movimento, uma
nação em construção, uma realidade mítica em pro-
cesso vigoroso de elaboração.
Na verdade, o Brasil da segunda metade dos
anos 30 e da primeira dos anos 40 passou por um
tempo marcado por uma prática política autoritá-
ria que utilizava dois recursos para sua efetivação.
O primeiro, voltado para a construção da legitimi-
dade do regime, priorizava a cooptação e a adesão
do povo aos projetos governamentais. O segundo,
em caso de dissidência, resistência e oposição ao
programa governamental, utilizava mecanismos
coercitivos de diferentes espécies. Ou seja, quan-
do o processo de legitimação sofria alguma obje-
ção ou revés, em decorrência de manifestações de
contraposição ao governo, recorria-se à censura, às
prisões etc.
Como o assunto central deste texto refere-se à
construção da legitimidade, traduzida por nós
como dívida de gratidão, deixaremos de lado o foco
da coerção e centraremos nossas reflexões em tor-
no dos seguintes assuntos-chave, relativos à mo-
bilização social e à construção de estratégias para
enredamento do povo ao governo e vice-versa:
propaganda e imaginário, construção da idéia na-
ção e novo modelo de cidadania.

PROPAGAND
ROPA A
GANDA POLÍTICA:
HARMONIA E PARTICIP
ARTICIPAÇÃO
TICIPAÇÃO

Ferreira busca em Giznburg o conceito de cir-


cularidade cultural e o aplica, de forma sensível,

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Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

aos anos 30 no Brasil. Demonstra, em seu traba-


lho, que as idéias produzidas pelas classes domi-
nantes e pelas elites governamentais não foram
simplesmente impostas e assimiladas acriticamen-
te pelos “de baixo”. Na verdade, para o autor, os
projetos governamentais não foram impostos, nem
mesmo se implementaram através de uma via de
mão única. De fato, segundo sua interpretação,
existiu um processo de circulação de idéias entre
governo e população.
Entende também que proposições de governan-
tes precisam, para sua implementação, da adesão,
ou mesmo de resposta da sociedade civil. Somente
assim poderão ultrapassar o terreno da elaboração
teórica para se constituírem em práticas políticas e
sociais concretas. Em outras palavras: idéias e pro-
postas, mesmo quando predominam práticas gover-
namentais autoritárias, não são impostas, circulam.
Portanto, para o autor, entender a propaganda
política do Estado Novo implica em analisar os
objetivos do remetente (governo) e a forma de in-
ternalização e apropriação da mensagem pelo des-
tinatário (população).
É inegável que Getúlio Vargas representou uma
corrente política que elaborou e implementou um
projeto para o Brasil. Um projeto autoritário, esta-
tista e desenvolvimentista, fortemente inspirado
no positivismo e no corporativismo, mas sobretu-
do um projeto nacionalista, que apostava tudo na
unidade nacional e na superação de dissensos so-
ciais e políticos. Cabia ao governo conquistar a
adesão dos diferentes segmentos da sociedade bra-
sileira para seus objetivos. Nesse largo espectro
social de construção da unidade e solidariedade
nacional, cabiam empresários, oligarquias rurais,
intelectualidade urbana, profissionais liberais,
educadores e, principalmente, trabalhadores – a

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Coleção Convite ao pensar

classe operária – a quem Lenharo identifica como


“menina dos olhos do presidente”.
Buscando atingir esses segmentos sociais e tam-
bém crianças, jovens e mulheres, foi articulado um
amplo sistema de propaganda – um sistema sofisti-
cado, com mensagens específicas para cada um dos
destinatários. Todavia, a maior gama de mensagens
era destinada aos jovens e aos trabalhadores. Aos
trabalhadores, por serem considerados responsáveis
diretos pela construção do presente da nação, e aos
jovens, por estarem se preparando, no presente, para
assumir, no futuro, a direção do país.
Era preciso tecer uma rede de lealdade. Em
algumas ocasiões, o governo, em função da respos-
ta da população, via-se compelido a realizar con-
cessões e reformular mensagens. Mas, o que na
verdade importava, era a criação de laços mútuos:
dádiva/dívida/dádiva. Só assim o projeto de cons-
trução de uma nacionalidade sólida poderia fruti-
ficar e alcançar durabilidade.
Para Capelato, os objetivos da propaganda
política estadonovista e peronista eram basicamen-
te os seguintes:
! criação de vínculos sólidos entre a popula-
ção e o governante, através da “mobilização
social das massas”;
! divulgação de imagens relativas à distribuição,
pelo governo, de bens e benefícios à popula-
ção (distributivismo social), visando reforçar
vínculos de gratidão e dependência da popu-
lação para com o líder governamental;
! apaziguamento social, através da divulgação
de uma concepção de unidade nacional, em tor-
no de um projeto desenvolvimentista, ancora-
do em forte distributivismo social, processo
esse dirigido e implementado pelo Estado.

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Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

Os mecanismos de propaganda de massa es-


truturavam-se em torno de peças e ações extrema-
mente criativas. Tanto Capelato quanto Lenharo
destacaram que a circulação de imagens e idéias
políticas, destinadas a reforçar as estruturas afetivas
e de dependência dos governados para com o líder
(governante), se processou através de diferentes re-
cursos. Era comum organizarem-se festas cívicas,
momentos de audiência governamental (públicos ou
privados), comemorações de todo tipo – dia da co-
lheita, dia da raça, culto à bandeira nacional.
Além disso, procurou-se difundir uma idéia
denominada por Lenharo de “pátria em movimen-
to”, idéia essa muito bem traduzida pelos seguin-
tes versos de Villa-Lobos:
Na grandeza infinita
é feliz quem vive
nesta terra santa
que não elege raça
nem prefere crença.
Oh! Minha gente! Minha terra!
Meu país! Minha pátria!
Prá frente! A subir! A sambar!3

Era preciso construir um sentimento de parti-


cipação e mobilização permanente em torno da
construção da nação. Para tanto, eram organiza-
das paradas cívicas e marchas da juventude. To-
das precedidas, na sua “linha de frente”, por amplo
cartaz no qual a figura do líder ganhava destaque
especial através de gigantescas fotografias. No Bra-
sil, chegou-se a organizar um movimento de maior
vigor e dimensão: “A Marcha para Oeste”, cujo ob-
jetivo prioritário era o do povoamento do interior,
mas cujo caráter simbólico era o de afirmação da
brasilidade (étnica, cultural, econômica, territorial,
política e social).

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Coleção Convite ao pensar

Festas cívicas, dia da raça, construção de mo-


numentos – ao índio, ao trabalhador, ao soldado.
Tudo isso se inseria em um processo mais amplo,
de uso e abuso de imagens e recursos de toda or-
dem, direcionados à criação de um processo políti-
co e social, marcado pelo selo da unidade e da
harmonia. Não faltaram cartilhas (na Argentina al-
fabetizava-se a partir do nome de Eva), cartazes de
propaganda, fixação da figura do líder e da bandei-
ra nacional em réguas, capas de cadernos e de gibis.
Mas, o melhor e mais eficaz meio de comunica-
ção e propaganda utilizado no período varguista e
também peronista foi o rádio. No dia-a-dia a pre-
sença do rádio foi marcante na vida dos brasileiros.
Getúlio Vargas dirigia-se à população de forma di-
reta, como faz um pai a um filho. Um paternalismo
afetuoso e autoritário, que afagava, concedia e co-
brava lealdade. O rádio criava uma sensação de
participação e diálogo, que foi muito bem explora-
da na construção da categoria dívida de gratidão.
Todavia, como afirma Ferreira, o processo de
construção de símbolos jamais chegou a ser linear.
E a dívida de gratidão, mesmo tendo se tornado uma
realidade inexorável, não chegou a ocultar, ou
mesmo a apagar, a identidade e também as rei-
vindicações dos trabalhadores brasileiros. Em ou-
tras palavras, como sujeitos históricos, os próprios
trabalhadores apropriaram-se das mensagens pro-
pagandísticas a eles destinadas, transformando um
processo que poderia ter sido somente dirigido de
cima para baixo em um processo compartilhado
(inclusive na criação dos próprios laços de dívida
e lealdade). Não fosse dessa forma, o mito, a figu-
ra legendária de Vargas, não teria sobrevivido ao
tempo e perdurado como referência especial na
vida política brasileira.

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Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

NAÇÃO E CIDAD
CIDADANIA
ADANIA

Para Capelato um dos objetivos primordiais


do modo getuliano de fazer política era a criação
da harmonia social, através da extinção de confli-
tos de qualquer natureza: políticos, sociais e eco-
nômicos. Tratava-se de substituir uma concepção
de cidadania individual, competitiva, própria ao
liberalismo da República Velha, por uma nova con-
cepção de cidadania: solidária, cooperativista, vin-
culada de forma estreita à nação e desvinculada
dos valores competitivos do mercado.
Para tanto, recorreu-se, em larga escala, à pro-
paganda. O cidadão trabalhador ganhou relevân-
cia, importância, nas mensagens que divulgavam
o projeto de construção de uma nação soberana e
desenvolvida. Ser cidadão era ser trabalhador. O
melhor e maior símbolo de cidadania do período
era a carteira de trabalho. O trabalho era identifi-
cado como forma ideal de emancipação do homem
e de valorização da pátria.
Na verdade, na década de 30 e, em especial, no
período estadonovista, ocorreu uma priorização dos
direitos sociais e coletivos da cidadania em relação
aos direitos civis e políticos, que foram relegados a
um segundo plano. Tal orientação era coerente à
perspectiva organicista e corporativista, hegemôni-
ca àquela época. Tratava-se de subdimensionar va-
lores individuais que sedimentavam uma concepção
liberal de governo e de superdimensionar valores
cooperativistas, que afirmavam uma concepção
positivista e organicista de sociedade civil em par-
ticular, e de nação no seu conjunto.4
O verdadeiro cidadão caracterizar-se-ia por ser
alguém útil à comunidade nacional. Um sujeito
histórico que deveria:

21
Coleção Convite ao pensar

! deixar-se contagiar pelo otimismo;


! considerar o dever cívico do trabalho como
um prazer;
! entender que sua contribuição era vital ao
pleno desenvolvimento de todas as potencia-
lidades do corpo da nação.
Aliás, Lenharo trabalhou com especial maes-
tria a metáfora e alegoria da nação como corpo:
corpo uno, saudável, indivisível, harmonioso.
Os conceitos de cidadania e de nação, no de-
correr da década de 30, amalgamaram-se. Consti-
tuíram-se como elementos de um mesmo processo
histórico através do qual o homem cidadão passou
a ser identificado como construtor da nação, e a na-
ção passou a ser identificada como totalidade orgâ-
nica que acolhe e protege os seus cidadãos.
A nação, identificada como corpo, seria forma-
da por partes (cidadãos – sociedade e governo –
cabeça) com funções específicas, complementares
e não-conflitivas. Ao líder caberia a direção do pro-
cesso, a preservação da unidade corporal pelo uso
adequado e firme da autoridade política. Tratava-
se, na verdade, de um governo centralizador e in-
tervencionista, que conduzia um projeto nacional
cujos principais pressupostos eram:
! sobrevalorização da autoridade governamen-

tal executiva;
! desenvolvimentismo econômico;
! distributivismo social;
! nacionalismo;
! cooperativismo;
! valorização de uma concepção de democra-
cia baseada na justiça social, e não na liber-
dade política;

22
Dívida de gratidão: poder e imaginário – Lucília de Almeida Neves

! valorização dos direitos coletivos da cidada-


nia, em relação aos direitos individuais.
Na verdade, tratava-se de um projeto articula-
do e implementado por um governo de base autori-
tária, que não considerava a liberdade individual
como um valor prioritário e que, em contrapartida,
considerava supremo o valor coletivo da nação.
Ao líder da nação (governante) caberia agir
como árbitro para evitar conflitos. Caberia também
promover o bem comum através de concessões e
doações aos cidadãos. Trata-se do que Capellatto
define como ideologia da outorga, claramente ex-
plicitada em discursos oficiais repletos de palavras
que enfatizavam/demonstravam uma relação de
doação do governo para com a sociedade civil.
Uma relação que implicava em receber e, em con-
trapartida, em agradecer.
Estavam, assim, criados dois pressupostos cla-
ramente integrados um ao outro: “dívida de grati-
dão” e “concepção de governante como mito
protetor e como pai provedor”, um líder que sabia
antecipar-se às demandas e desejos de seus gover-
nados, buscando simultâneamente satisfazê-los e
neutralizar suas pressões.
Na verdade, como afirma Jorge Ferreira, a re-
lação de identidade dos cidadãos trabalhadores
com Vargas não foi construída no vazio, ou somente
se baseou em conquistas abstratas, divulgadas pela
propaganda oficial. O projeto varguista, com todo
o autoritarismo que o caracterizou, traduziu-se
para os trabalhadores em ganhos materiais e sim-
bólicos efetivos. Não fosse tal fato, a dívida de gra-
tidão, que à primeira vista parece ser um mecanismo
exclusivo de submissão, não teria, paradoxalmen-
te, se constituído como uma relação recíproca de
cumplicidade e lealdade, que supunha serem,

23
Coleção Convite ao pensar

tanto o governante como a sociedade civil, em es-


pecial os trabalhadores, sujeitos históricos dotados
de capacidade de pressão e negociação. Trata-se de
uma concretização histórica do conceito de circu-
laridade social. Conceito este que não desconhece
as experiências autoritárias, mas que considera a
mediação e a negociação, em quaisquer circuns-
tâncias, como elementos inerentes à dinâmica da
própria História da humanidade.

NOTAS
1
IANNI. “A Ditadura Militar no Cárcere”, p.10
2
LOURENÇO. Mitologia da Saudade, p.91.
3
Citado por LENHARO. Sacralização da política, p.53
4
Sobre o assunto vide: NEVES. “Cidadania: dilemas e perspecti-
vas na república brasileira”, p.200-225.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAPELATO, Maria Helena. Multidões em cena - propaganda
política no varguismo e no peronismo. Campinas: Papirus, 1998.
FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil - o imaginário popular.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 1997.
IANNI, Octávio. “A ditadura militar no cárcere”. Caros Ami-
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24
HOBBES: ÉTICA E POLÍTICA
NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
João Carlos Lino Gomes

Nosso objetivo, neste texto, é apontar para a


possibilidade de uma discussão sobre a teoria po-
lítica e a ética hobbesianas no que se refere às rela-
ções internacionais. O caráter ensaístico do nosso
texto está fundado no fato de que este tema é ape-
nas levantado por Hobbes, sem um maior apro-
fundamento. Para chegarmos a este problema em
Hobbes, mostraremos como sua teoria política é
devedora de todo um movimento cultural que se
convencionou chamar de modernidade.
Em nossa hipótese de trabalho, partiremos da
idéia de que é impossível, no interior da obra de
Hobbes, a extinção do medo da morte violenta do
ponto de vista das relações entre países, já que o
filósofo não consegue pensar um Estado acima dos
Estados particulares que venha a coibir os confli-
tos que possam surgir entre estes. Acreditamos que
o século XX – apesar de todas as conquistas no cam-
po da diplomacia a que inegavelmente assistimos,
e levando em consideração a globalização da eco-
nomia, que tem unido mercados e colocado em
questão a própria idéia de soberania (tão cara a
Hobbes) – ainda não conseguiu dar conta desta des-
confiança mútua que marca a relação entre os Esta-
dos. Não nos parece difícil perceber a dificuldade
com que a ONU tem arbitrado os vários conflitos

25
Coleção Convite ao pensar

que têm explodido no mundo nos últimos anos. É


necessário frisar, também, que as forças de paz da
ONU somente logram desempenhar sua missão
porque são forças armadas. A intervenção armada
levada a efeito por países como os Estados Unidos
ou por alianças como a OTAN, sem a autorização
do conselho de segurança da ONU, é outro indica-
dor do desgaste sofrido por esse organismo nos
últimos anos. Tudo isso nos mostra que, em certo
sentido, nas relações entre os países, o que ainda
está em jogo é a lei do mais forte. Se o Estado é, em
Hobbes, a instância que funda a moralidade, e se
não temos nesse pensador uma teoria sobre a pos-
sibilidade de um Estado dos Estados, as relações
internacionais serão sempre movidas por uma éti-
ca relativista comandada, em última instância, por
aqueles países que podem acenar para os outros
com a possibilidade da morte violenta. Isso não
significa que a humanidade enfrentará necessaria-
mente, no futuro, guerras de grande porte (até por-
que elas são caras demais), mas, que a possibilidade
do confronto e a fragilidade das diplomacias con-
tinuam sendo desafios com os quais os seres hu-
manos têm que lidar.

I
Thomas Hobbes é um filósofo do século XVII e,
portanto, viveu em um momento em que a nossa
modernidade tentava construir seu ethos, seu modo
de ser. Nesse momento, ela tentava dar a razão de si
mesma não só a partir de mudanças históricas con-
cretas mas, principalmente, criando representações
que conseguissem estabelecer um fundamento
ideológico que justificasse esse novo momento da
história. Mas, quando falamos sobre a modernidade,
o que está efetivamente em questão? Essa pergunta

26
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

se coloca na medida em que levamos em considera-


ção as análises de Alexandre Koyré, quando esse
filósofo escreve que várias épocas na história do
ocidente se consideraram modernas com relação à
época imediatamente anterior.1 Isso caracteriza uma
necessidade de momentos históricos específicos se
autolegitimarem, face àquele que pretendem negar.
Dessa forma, justifica-se nossa pergunta: qual
é a modernidade que se coloca como pano de fun-
do da obra de Hobbes? Bem, Hobbes é um filósofo
político. Um dos primeiros, aliás, que aposta na
possibilidade de se levar para a reflexão política o
modelo de racionalidade que nasceu com o adven-
to do saber científico moderno. Sendo essa, cremos,
uma das chaves importantes para compreender-
mos esse pensador, temos que compreender como
se constituiu essa ciência.
A ciência moderna nasce efetivamente com
Galileu, no século XVII. Numa caracterização su-
cinta, ela se diferencia do saber que se elaborou na
Idade Média em função da sua libertação com a
relação ao mundo da experiência. A experiência
que passa a contar para o cientista moderno é aque-
la construída a partir da elaboração de hipóteses
que devem ser verificadas através de experimen-
tos. Como queria o próprio Galileu, o cientista
moderno não se submete mais à natureza, mas,
pelo contrário, ele a submete. Para tanto, a mate-
mática (geometria) torna-se um poderoso instru-
mento para a operacionalização da realidade, na
medida em que permite a efetivação de cálculos
cada vez mais exatos e a tradução da complexa re-
alidade do mundo físico, num conjunto de leis e
fórmulas que simplificam o acesso do homem a
essa realidade e lhe garantem a apreensão de sua
estrutura. Dessa forma, a natureza deixa de ser um

27
Coleção Convite ao pensar

organismo possuidor de uma alma e passa a ser


entendida como uma máquina, passível de ser ex-
plicada a partir de hipóteses corretas e de um uso
adequado do método científico.
É esse método, segundo Norberto Bobbio, que
Thomas Hobbes, conhecedor dos debates acerca da
ciência do seu tempo, irá tentar transpor para a sua
filosofia política.2 Assim, tal como o cientista mo-
derno, Hobbes não está interessado em encontrar
essências na realidade política e moral do homem
mas, sim, em compreender as estruturas do agir
humano e as leis de constituição da realidade polí-
tica. O homem, para o filósofo, apesar de se apre-
sentar como um ser dominado por paixões, possui
certas estruturas em seu comportamento que dão a
este um certo grau de previsibilidade. Com essa
perspectiva, Hobbes abandona o ponto de vista gre-
co-medieval de uma razão que busca o sumo bem,
e torna-se um dos primeiros pensadores a aplicar o
modelo técnico-científico de razão à política. Se em
Hobbes a ética está submetida à política – já que,
como veremos, só se pode falar de valores morais
depois do advento do estado de sociedade – não é
possível se pensar, nesse autor, uma ética fundada
em valores absolutos e transcendentes.
Se no plano das relações pessoais ainda pode-
mos pensar alternativas para essa perspectiva éti-
ca, no que concerne às relações internacionais, onde
com certeza a guerra aberta não é considerada um
bom recurso, um certo estado de tensão latente
parece marcar as relações entre os países. Essa ten-
são, longe de inviabilizar as relações entre os go-
vernos, exige um constante repensar das estratégias
diplomáticas e dos pactos estabelecidos.
Mas, o momento histórico de Hobbes também
é importante para compreendermos esse pensador

28
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

e o próprio universo cultural que viu nascer a ciên-


cia moderna. Sem dúvida, para levarmos a efeito
esta compreensão, temos um elemento histórico
importante: a ascensão da burguesia que, sem con-
dicionar mecanicamente o desenvolvimento da
ciência moderna, produziu mudanças tanto no ní-
vel da história efetiva quanto no do imaginário que
criaram, uma nova ordem de demandas por parte
do homem e novas formas deste se relacionar com
a natureza e com seu próprio semelhante.
Sabemos que a burguesia é uma classe social
que nasceu no seio da Idade Média. No período
medieval, acreditava-se que o mundo tinha uma
ordem preestabelecida por Deus, e o homem, den-
tre as criaturas, ocupava um lugar privilegiado,
pois tinha sido feito à imagem e semelhança do
criador. A qualidade fundamental desse homem era
a razão, a chamada luz natural, que guiada pela fé
auxiliaria o ser humano a seguir os caminhos dita-
dos pela verdade revelada, aquela verdade que
depois de atingida pareceria tão evidente que não
demandaria uma demonstração.
Ora, essa visão metafísico-religiosa medieval
encontra seu correlato no plano da organização so-
cial característica da Idade Média. Para os medie-
vais, a sociedade era constituída basicamente de três
ordens: o clero, a nobreza e os servos de terra (a gran-
de maioria). Quem não se encaixava em nenhuma
dessas três categorias era visto como alguém que
não tinha um lugar no mundo e, dependendo do
ponto de vista de quem fazia essa leitura, merecia a
piedade cristã ou as penas da lei. Como os burgue-
ses se situavam nesse modelo de cultura? Simples-
mente eles não se situavam. A burguesia faz, a partir
da revolução comercial do século XIII, o comércio
se tornar o eixo da sua experiência. Desvinculando

29
Coleção Convite ao pensar

a atividade comercial da luta pela subsistência, os


burgueses incrementam o empréstimo a juros, tor-
nam o trabalho uma atividade importante para a
própria constituição do homem, fazendo da ativi-
dade comercial (ao longo de vários séculos e com
muitas idas e vindas) não somente um meio mas
um fim fundamental da experiência humana.3 A
burguesia começa a criar, a partir de sua ascensão,
não só um novo molde para o mundo, mas tam-
bém, um novo ethos, um modo de ser que fundará
uma outra forma de civilização.
Mas, nesse processo, os burgueses tornam-se
pessoas que não irão se encaixar nem no clero, nem
na nobreza e, muito menos, no grupo dos servos
de terra. Ao mesmo tempo, eles não são simples
mendigos ou marginais merecedores de punição.
É um grupo que começa a aumentar o seu patri-
mônio e adquirir uma mobilidade própria do co-
mércio. A igreja católica passa a condená-los
particularmente no que diz respeito ao emprésti-
mo a juros – usura – que é levado a efeito por eles;
os senhores feudais ou os proíbem de passar por
suas terras ou o permitem em troca de onerosos
impostos. Perguntas assolam o imaginário medie-
val constituído: quem são estes que parecem não
dever obediência a ninguém, que se movem com
extrema rapidez e fazem dinheiro constantemen-
te, muitas vezes, como no caso dos juros, sem a
produção ou a venda de uma mercadoria efetiva?
Na impossibilidade de uma resposta satisfatória,
as perseguições ao projeto burguês continuavam e
a burguesia tinha que fazer algo – e o fez.
Como sabemos, uma das características do feu-
dalismo era a descentralização do poder político,
ou seja, o poder era exercido efetivamente pelos
senhores feudais, e aos reis cabia apenas um po-
der simbólico. Estes últimos percebem o poder

30
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

econômico da burguesia e esta percebe a impor-


tância da idéia de unidade política que, embora na
prática não existisse, se encarnava simbolicamen-
te na figura do rei. Assim, o cenário está pronto
para os tempos modernos. Os burgueses e os reis
se unem e começam a enfraquecer o poder dos se-
nhores feudais. A unificação do poder político e a
ascensão do comércio (economia) ao primeiro pla-
no na vida da sociedade constituem as bases fun-
damentais da modernidade no ocidente.4
Mas, como os elementos subversivos presen-
tes na ascensão da atividade comercial ajudaram a
implodir o ideário da Idade Média? Ora, o comér-
cio exige trabalho e este, que era visto ou como
indigno ou como mero instrumento para as clas-
ses privilegiadas, tanto na Grécia antiga quanto na
Idade Média, torna-se a forma fundamental atra-
vés da qual o homem vai colocar a sua marca no
mundo, fazendo com que este seja moldado à sua
imagem e semelhança. O trabalho ajuda a criar, no
homem, o sentimento de que ele não está situado
necessariamente e de uma vez por todas em um
lugar específico dentro de determinada ordem. Ele,
o homem, começa a se perceber como um ser que
pode constituir o seu lugar a partir de sua ação, de
suas capacidades. Isso significa que o homem é li-
vre mesmo antes de se ligar a algum grupo especí-
fico, pois sua liberdade é, antes de tudo, liberdade
individual. Outros elementos foram importantes
para a constituição desse sentimento no homem
ocidental (e falaremos ainda de alguns deles) mas,
sem as mudanças históricas operadas pela ascen-
são do comércio, parece-nos difícil compreender
as raízes da nossa modernidade. Entretanto, como
herança desse valor dado à liberdade individual, ao
indivíduo que a sustenta e ao trabalho que a consti-
tui, ficará para os modernos a dramática pergunta:

31
Coleção Convite ao pensar

como defender o primado do indivíduo sobre a


sociedade e, ao mesmo tempo, garantir que esse
primado volte-se em beneficio do todo? Em outras
palavras: como impedir que os homens, voltados
para os seus interesses privados, não venham a di-
luir a própria idéia de uma vida humana associa-
da? Acreditamos que Thomas Hobbbes tentou, de
forma sistemática, dar conta dessas questões.
Nossas preocupações com o texto hobbesiano
já se insinuavam quando nos defrontamos com a
obra de Maquiavel. Na leitura do texto maquiave-
liano tivemos a preocupação de compreender as
inquietações do pensador florentino com a proble-
mática que iria marcar a modernidade política do
ocidente, qual seja: na inexistência de uma funda-
mentação transcendente para o poder político, tal
como acreditava a tradição greco-medieval, cum-
pria aos modernos buscar as novas bases para essa
fundamentação pois, sem elas, o poder se tornaria
injustificável. É necessário que os modernos expli-
quem porque se justifica que uma certa maioria
deva se submeter ao domínio de um grupo ou, até
mesmo, de uma só pessoa.5
Mas, onde estaria o problema, afinal? Recapi-
tulemos: desde que os filósofos se ocupam da re-
flexão política, o fato de que uns mandam e outros
obedecem tem sido objeto de discussão, quando
se tenta justificar esse fato através de uma série de
argumentos racionais. Aristóteles, por exemplo,
acreditava que a própria natureza (physis) estabe-
lecia o lugar no qual cada homem nascia, e lutar
contra essa determinação seria voltar-se contra a
natureza, contra a ordem que sustentava o mun-
do.6 Assim, para o estagirita, tanto a vida dos ho-
mens em geral quanto a dos cidadãos tinham um
fundamento absoluto que estava para além delas

32
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

(é claro que não podemos esquecer que Aristóte-


les não estabelece uma relação mecânica entre a
natureza e o homem, pois ele acredita que, do ponto
de vista da ética, a physis nos coloca naturalmente
dispostos para o bem, mas somente através de bons
hábitos é que nos tornamos efetivamente bons); e
o filósofo privilegia em sua obra política a vida do
cidadão que ele julga ser a mais feliz no mundo
dos mortais. Vida mais feliz mas também um meio-
termo entre a vida dos gozos e prazeres, típica dos
que se deixam dominar pela parte apetitiva da nos-
sa alma, e a contemplativa, própria dos deuses ou
daqueles que mais se aproximam deles em função
de seu apego à parte divina da alma, os filósofos.
Já que, entre dois extremos de vida, Aristóte-
les se preocupa com a vida política, o pensador se
vê obrigado a justificar sua preocupação e o faz a
partir do estabelecimento de dois princípios: 1) O
homem é um animal político; 2) A cidade existe
por natureza. Entendamos estas duas posições: a
primeira nos mostra que o homem tem uma ten-
dência natural para a vida política. Isto quer dizer
que, apesar do fato de que nem todos os homens
serão cidadãos da pólis, esta é uma potencialidade
que ajuda a definir o homem como humano. A se-
gunda posição, que está interligada com a primei-
ra, nos mostra que a construção política por
excelência, ou seja, aquela na qual o homem pode-
rá atualizar o seu ser político, é a pólis, a cidade tal
como a Grécia conheceu no século V aC. Isso sig-
nifica que Aristóteles, apesar de nos mostrar no li-
vro A política que a associação dos homens se dá –
num primeiro momento – pela urgência de suprir
suas necessidades imediatas, não justifica o existir
político a partir destas mas, sim, por um telos, a
vida humana associada, que está para além dos
nossos apetites individuais.7

33
Coleção Convite ao pensar

Ora, essa convicção grega se perdeu com o ad-


vento da nossa modernidade. Não trataremos aqui
das discussões medievais sobre os fundamentos do
poder político porque elas fogem dos nossos obje-
tivos neste texto – estamos, aqui, tentando traçar
somente um paralelo entre o início da tradição do
pensamento político ocidental e a Idade Moderna
como o momento da constituição de uma outra
forma de se experimentar e, particularmente, no
que nos diz respeito como filósofos, pensar a polí-
tica –, e também porque, em grande medida, a idéia
de um fundamento transcendente do poder conti-
nuou fazendo fortuna na Idade Média.

II
Neste momento do nosso texto, nossa atenção
deve se voltar para uma época específica, a Renas-
cença, e, nesta época, para um pensador: Maquia-
vel. Um dos problemas centrais do pensamento
maquiaveliano diz respeito à fundação do poder
político. A Renascença foi um período em que o
ocidente experimentou uma profunda ruptura no
quadro dos seus valores tradicionais (o quadro dos
referenciais greco-medievais) e também a dificul-
dade de se estabelecer um novo horizonte axioló-
gico que iria orientar as ações do homem no
mundo. Sem entrar na discussão sobre se a Renas-
cença seria melhor definida como o fim da Idade
Média ou a porta de entrada da modernidade, o
certo é que no Renascimento (e aqui, em função de
estarmos discutindo Maquiavel, temos em vista o
Renascimento italiano) aconteceram fatos impor-
tantes, tais como: o deslocamento da terra da sua
posição de centro do universo, operado por Co-
pérnico – que teve como impacto antropológico a
perda sofrida pelo homem de um centro no uni-
verso (o homem passa, então, a ter de construir um

34
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

centro que ele descobre estar em si mesmo, como um


ser de ação e liberdade); a invenção da imprensa, que
permitiu uma maior agilidade na propagação de no-
vas idéias; as grandes navegações, que ampliaram o
mundo conhecido; a reforma, que operou uma cisão
na cristandade ocidental com o advento de uma nova
religião cristã, o protestantismo, mais próxima das
mudanças simbólicas que ocorriam do que a igreja
católica naquele momento; e o surgimento dos Es-
tados Nacionais, caracterizados pela centralização
do poder nas mãos dos reis (cuja aliança com a bur-
guesia ascendente já demonstramos), pelo estabe-
lecimento dos exércitos nacionais profissionais e
pelo esforço dos Estados no sentido de demarcar/
delimitar seus territórios (algo extremamente com-
plexo no sistema de feudos da Idade Média).
Maquiavel (nascido na cidade italiana de Flo-
rença) vive, nesse período, em uma Itália não uni-
ficada (dividida em várias cidades-estado) e com
profundos conflitos internos e externos, problemas
de definição territorial e exércitos não raro forma-
dos por mercenários, sem nenhum compromisso
moral com aqueles que os contratavam. Ao mes-
mo tempo, o florentino se encontra em um país que
está no centro das crises européias, das querelas
entre o papado e os reis, do financiamento das gran-
des navegações e do florescimento do que hoje
chamamos de capitalismo financeiro (os banquei-
ros italianos foram fundamentais para o amadure-
cimento do sistema capitalista europeu).
Desejando que seu país se tornasse forte e co-
mandado por um poder central que impedisse o seu
esfacelamento, o pensador construiu suas reflexões
a partir desta pergunta subjacente em suas princi-
pais obras: qual é o fundamento do poder político?
Ou seja: por que é necessária a constituição de uma
instância que esteja acima dos interesses pessoais

35
Coleção Convite ao pensar

dos homens e venha a coagi-los a viver associada-


mente? Em Maquiavel a resposta é clara: os ho-
mens são naturalmente maus e, como são regidos
por paixões, somente um poder que possa se so-
brepor a eles pode mantê-los juntos e respeitando
as leis. Sendo assim, não é prudente, da parte de
quem encarna o poder político, acreditar que a
política é necessariamente da ordem da razão, pois
ela não é. A política não é ciência, ela é técnica e
jogo. Dessa forma, o campo político se afigura para
os homens como um espaço onde a imprevisibili-
dade das ações humanas deve ser considerada, e
nem a razão prática de Aristóteles, que, ao contrá-
rio da razão teórica, trabalha a partir da lógica do
provável, pode nos auxiliar, pois o mundo da polí-
tica – em Maquiavel – não encontra o seu funda-
mento na moral.
É claro, podemos pensar, que um jogo pressu-
põe regras, uma lógica cuja observação faz diferen-
ça entre o bom e o mau jogador. Mas, se a observação
é correta, ela não serve como um argumento con-
trário à nossa idéia de que Maquiavel não vê uma
racionalidade imanente à política. Isto porque os
jogos possuem regras justamente para verificar a
criatividade dos jogadores, precisamente para me-
dir a capacidade dos jogadores de instaurar o dife-
rente (um certo estilo de jogar, uma jogada diferente,
um blefe). Dessa forma, quem está no poder tem de
saber agir de acordo com as circunstâncias, e nunca
deverá acreditar na existência de padrões de com-
portamento que lhes possam dar a chave do emba-
te político. Se a esfera da política é racionalizável,
ela não é em si mesma racional. Isso significa que,
se podemos compreender pela razão a ação dos
homens ou até mesmo, em algumas situações, an-
tecipar-lhe a efetivação, é também possível ao go-
vernante ser um bom observador das ações

36
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

humanas e um hábil aplicador da sua faculdade de


compreendê-las. Se existem ações racionais ou mes-
mo se elas ocupam um lugar maior ou menor na
vida das pessoas, este, a nosso ver, não é o proble-
ma de Maquiavel.
A questão que nos parece clara é que, para o
florentino, não há uma associação imediata entre
razão e ação. Sendo assim, a capacidade de admi-
nistrar as paixões humanas é uma das qualidades
fundamentais de quem governa (os economistas,
face à instabilidade de sistemas econômicos que
flutuam em função dos sentimentos das pessoas,
tiveram que aprender duramente essa lição, na se-
gunda metade do século XX).
Pois bem, em nossa investigação sobre o texto
maquiaveliano algo ficou claro para nós: Maquia-
vel com certeza não se orienta mais dentro dos limi-
tes da razão grega, pois não associa a razão com o
bem e nem acredita que as ações políticas sejam em
si mesmas racionais (seja num modelo mais estrito
de racionalidade, como a platônica, seja num mo-
delo mais flexível como o aristotélico, que admite
que a ética e a política, diferentemente da física e da
metafísica, só podem ser pensadas sob o prisma da
razão prática que, como vimos, se aplica sobre racio-
cínios prováveis e nunca sobre os exatos).
Entretanto, ao mesmo tempo, não nos parece
claro o modelo de racionalidade ao qual o florenti-
no se remete quando tenta pensar o mundo da
política. Mas, com certeza há algum modelo pois,
como já afirmamos, se o pensador não toma a polí-
tica como racional em si, é certo que ele não lhe
nega a possibilidade de ser apreendida pela razão.
Se assim não fosse, não se justificaria em Maquia-
vel a reflexão sobre a possibilidade da fundação
de um Estado que estabelecesse uma ordem nas
paixões dos homens.

37
Coleção Convite ao pensar

Esta responsabilidade de pensar a razão mo-


derna conjugada com a política recaiu sobre o filó-
sofo Thomas Hobbes (1588-1679). Nosso interesse
na obra de Hobbes, é caracterizar o conceito de
razão subjacente às reflexões desse filósofo (uma
razão que é puro cálculo), e mostrar que essa ra-
zão funda uma ética que, se pode ser administra-
da no plano das relações interpessoais no seio de
um certo Estado (uma ética que em linhas gerais
se constituiria a partir do medo que estaria subja-
cente às relações humanas), no nível das relações
internacionais ainda seria um problema com o qual
os homens têm que lidar. Isso nos ocorre apesar de
reconhecermos, como já foi frisado anteriormente,
os avanços que a diplomacia tem feito no ocidente
e a nova configuração que a política internacional
tem adotado diante do fenômeno da globalização.
Nosso interesse por esse tema se aguçou par-
ticularmente quando percebemos que Hobbes não
aprofunda a discussão sobre as relações entre os
Estados que viveriam, para ele, numa constante
tensão face à possibilidade de um efetivo conflito.
Nosso problema deve ser assim apresentado: em
Hobbes, não tem sentido falar de uma moralidade
anteriormente ao advento do Estado, pois somen-
te este pode definir, dentro de um certo universo,
o que é justo e o que é injusto, o que é certo e o que
é errado. Na definição desses conceitos, o Estado
não parte de princípios estabelecidos a priori e vá-
lidos universalmente (à maneira do imperativo ca-
tegórico de Kant). O moralmente correto e o seu
oposto só se definem dessa forma a partir do arbí-
trio do Estado. A moral, então, se funda em impe-
rativos hipotéticos em que a avaliação de uma dada
ação só será possível se se levar em conta as condi-
ções subjacentes à efetivação desta. Cabe ao poder
político, por exemplo, definir em que situação a

38
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

morte de um homem será definida como crime ou


legítima defesa. Ora, para que esta moral fundada
em imperativos hipotéticos possa funcionar, Hobbes
não pode confiar na boa consciência dos homens
(na qual, aliás, ele não acredita). É necessária a ins-
tauração das leis civis para que a moralidade venha
efetivamente se estabelecer. Sendo assim, a esfera
do Direito é um elemento fundamental na teoria
política hobbesiana, e nós a definimos aqui, tal como
Hans Kelsen, como aquele ordenamento social que
cria expectativas de conduta nos homens, a partir
do estabelecimento de regras e das corresponden-
tes sanções para o caso do seu descumprimento.8
Do Estado mais democrático ao mais autoritá-
rio esta idéia básica tem de ser seguida. Vale lem-
brar que uma das lutas mais árduas do nosso século,
a luta pelos direitos humanos, pode ser definida,
em última instância, como o esforço para fazer pre-
sente nos códigos legais de todo mundo dispositi-
vos que reprimam a tortura, a prisão ilegal etc. Pois
bem, se o Direito garante a moral, no plano interno
aos Estados teríamos como pensar hobbesianamente
o estabelecimento da paz interna. Mas, e no plano
internacional, como garantir uma regulação moral
nas relações entre os Estados, fundada num Direito
efetivamente internacional? Hobbes não enfrenta o
problema e acreditamos que isso se dá em função
do seu apego à idéia de soberania. Como se sabe,
segundo essa idéia, o poder soberano é irrevogável,
absoluto e indivisível. Pensar uma instância que es-
tivesse acima dos Estados (uma espécie de Estado
dos Estados) e que, dessa forma, fundasse a legali-
dade e conseqüentemente a moralidade, seria con-
traditório. Isso porque esse Estado dos Estados
passaria a ser o soberano por excelência, e diluiria o
poder soberano dos outros países.

39
Coleção Convite ao pensar

No próprio momento histórico em que Hobbes


vive, a preocupação dos países é justamente a sua
autoconstituição e não o reconhecimento dos ou-
tros. Assim, resta a cada país conviver com o medo
de ser anulado pelo outro. O estado de natureza
suplantado pelo estado de sociedade seria uma rea-
lidade possível somente no plano de uma política
interna. A nossa hipótese é a de que esse é o proble-
ma com o qual teremos efetivamente que lidar no
próximo século. Questões ligadas à representativi-
dade ou não da ONU, e sobre a possibilidade de
um eficaz controle jurídico da Internet, recolocam
com muita força a discussão sobre a possibilidade
de um Direito, tal como o definimos, que não possa
ser desrespeitado por países que tenham maior po-
derio militar e econômico; e um passo nesse senti-
do pode ser percebido: a idéia de soberania é uma
das que têm sido questionadas face aos novos ven-
tos que varrem a política internacional.
Agora, se é a idéia de um estado de natureza
internacional – que poderá nunca ser diluído – que
nos preocupa, cabe refletirmos um pouco sobre esse
conceito tal como ele aparece em Hobbes pois,
como se sabe, esse é um dos pontos centrais do
seu pensamento. Sem entrar nas discussões que
cercam o conceito, podemos defini-lo como aque-
le estado em que todos os homens tinham direito
a tudo (pois não havia leis para regular o meu e o
teu) e tentavam, sem nenhum respaldo legal, ga-
rantir a própria vida e os meios para mantê-la. Esse
conceito é utilizado por Hobbes para mostrar como
os homens tiveram necessidade de criar o estado
de sociedade e as leis civis. Em nenhum momento
Hobbes toma o estado de natureza como histori-
camente existente, pois ele se constitui apenas
como uma hipótese. Nesse hipotético estado, os
homens viveriam na mais completa liberdade mas,

40
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

como para Hobbes o homem não é um animal es-


sencialmente político, e o egoísmo é a base da sua
natureza, essa liberdade acabaria por ser implodi-
da, pois cada homem, na ausência de uma autori-
dade superior a ele que pudesse ser reguladora dos
conflitos existentes, tentaria defender ferozmente
o seu direito contra os outros e, com isto, a própria
vida humana se tornaria inviável.9 É claro que, para
Hobbes, no estado de natureza já existiam as leis
naturais mas, contrariamente a outros pensadores,
ele não as vê propriamente como leis e, sim, como
preceitos que mais sugerem formas de conduta do
que prescrevem comportamentos. Sendo assim,
para o pensador inglês, as leis de natureza estabe-
lecem princípios que deverão ser tornados obriga-
ções a partir da constituição das leis civis que só
serão possíveis a partir da instauração do estado
de sociedade.10
As duas primeiras leis são claras para Hobbes,
quais sejam: 1) a busca da paz como garantia da
vida; 2) a aceitação por parte de todos de abrir mão
do direito a todas as coisas. As outras leis elenca-
das pelo filósofo ligam-se, de uma maneira ou de
outra, a essas duas. Ora, a busca da paz e a aceita-
ção da perda do direito a todas as coisas seriam
inviáveis, na perspectiva hobbesiana, num estado
onde todos fossem livres para fazer o que bem en-
tendessem. Para resolver essa questão, Hobbes ela-
borou um modelo teórico em que os homens, por
medo da morte violenta em função do egoísmo que
é característico de suas vidas, aceitariam abrir mão
dos seus direitos em nome de um soberano (que
poderia ser um homem ou uma assembléia), e este
é quem definiria os direitos e deveres que deveriam
ser estabelecidos para o grupo. Veríamos, assim, o
nascimento do estado de sociedade a partir de um
pacto que os homens fariam entre si, pois eles iriam

41
Coleção Convite ao pensar

preferir perder a liberdade desde que conseguissem


manter a própria vida. Esse pacto, é necessário fri-
sar, só se constituiria entre os súditos e não entre
estes e o soberano. Isso porque, se o soberano esti-
vesse submetido a um pacto, o seu poder não seria
total (estaria limitado), e teríamos a perda do prin-
cípio de soberania que estabelece que não pode ha-
ver no Estado nenhum poder acima do poder
soberano. É em função disso que Hobbes vai deno-
minar o Estado que se instaura a partir do surgi-
mento da sociedade de Leviatã, monstro bíblico que
no livro de Jó indica o infinito poder de Deus.
Pois bem, instituído o soberano, instituído es-
tará o Estado. Os homens agora poderiam viver
em paz, pois, os preceitos estabelecidos pelas leis
naturais iriam encontrar sua correta expressão e a
exigência do seu cumprimento nas leis civis. Mas
aqui temos o início do nosso problema. Cada súdi-
to de um Estado é um sistema diante das partes e
órgãos que constituem seu corpo, mas é um ele-
mento diante do Estado. Muitos dos problemas
humanos estariam resolvidos se essa equação pa-
rasse nesse ponto. Entretanto, a questão é que não
existe apenas um Estado, eles são vários. Hobbes,
como outros pensadores do seu tempo, tem cons-
ciência das conquistas levadas a efeito pelos Esta-
dos Nacionais no processo de formação destes.
Algumas dessas conquistas já foram elencadas em
nosso texto tais como: a delimitação territorial, a
centralização do poder político e a formação de
exércitos nacionais profissionais. Sendo assim, es-
sas mudanças nos mostram que os Estados no sé-
culo XVII, além de buscarem sua aceitação por
parte dos súditos, tinham de lutar também pelo
reconhecimento de suas fronteiras e de sua auto-
nomia política face a outros Estados (daí a impor-
tância do conceito de soberania).

42
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

Dessa forma, se os indivíduos são particulares


diante do universal que é o Estado, este, por sua
vez, torna-se indivíduo diante de uma comunida-
de internacional que estava se formando e iria se
sustentar a duras penas, tendo provavelmente as
suas mais severas provações nas duas guerras
mundiais que macularam o nosso século.
Hobbes percebe a dificuldade para a manuten-
ção da paz entre os Estados e isto está ligado, de
certa forma, à sua visão do homem.11 Assim, os Es-
tados são constituídos por homens e estes, para o
filósofo, são egoístas por natureza. Nada impede
que esse egoísmo humano se transfira para os Es-
tados quando estes se colocam uns diante dos ou-
tros. O medo recíproco, a falta de confiança com
relação às intenções do outro, a necessidade de
obter as maiores vantagens, podem acabar por se
intrometer nas relações desses sujeitos jurídicos que
são os Estados. Nossa conclusão é clara: se o esta-
do de natureza deve ser substituído pelo de socie-
dade no seio de uma dada comunidade histórica,
para Hobbes, no plano das relações internacionais,
ele permanecerá sempre.
Não há no pensador uma instância transnacio-
nal que possa fazer o papel de um Estado dos Es-
tados, obrigando ao cumprimento dos pactos e
punindo os infratores (que se recorde o conceito
de Direito já situado por nós). Isso não significa
que os Estados viverão sempre em guerra mas, sim,
que o medo do não cumprimento dos acordos e a
possibilidade de que isto venha a ocorrer serão,
do ponto de vista hobbesiano, sempre o ponto cha-
ve das relações internacionais.
O pensador Karl Deutsch, ao discutir sobre os
dilemas do Direito internacional em nosso século,
escreve:

43
Coleção Convite ao pensar

Em geral, porém, o caráter auto-aplicável do Direi-


to internacional, requer ou uma igualdade aproxima-
da das posições de poder das partes envolvidas
(permitindo o uso das táticas do tipo “olho por olho”
entre elas), ou, ainda, uma expectativa de futura re-
versão de papéis entre elas (permitindo o uso de táti-
cas do tipo “olho por olho” num futuro previsível).
Se os dois lados, em uma causa internacional, se
mostram igualmente fortes, cada um deles pode re-
vidar eficazmente ao que o outro eventualmente
possa fazer.12

Se a inexistência de um Estado dos Estados ti-


vesse como pano de fundo a certeza de uma natu-
reza humana voltada para o bem, o receio de Hobbes
não se justificaria. Mas, sua concepção de política,
de ética e de razão rompem com a tradição do pen-
samento político antigo, onde se acreditava que a
busca de uma vida humana associada fazia parte
da natureza humana, a cidade era a reprodução da
ordem do cosmos e a razão se identificava com o que
haveria de divino no homem. Na teoria hobbesiana,
a racionalidade calculadora (instrumental) constitui
uma ética fundada em imperativos hipotéticos, e esta
tem um cunho efetivamente relativista. Sendo assim,
poderíamos duvidar da possibilidade de se fundar
as relações internacionais em parâmetros que venham
a permitir uma melhor convivência humana? Acre-
ditamos que não. Isso se conseguirmos criar um com-
promisso entre os países que constituem a chamada
comunidade internacional, de forma que fechem
moral e legalmente com alguns princípios mante-
nedores da paz e da justiça, e sejam criados meca-
nismos cada vez mais eficazes para que os países que
venham a trair esses princípios sejam responsabili-
zados efetivamente. A questão que fica em aberto é
se teremos um dia uma comunidade internacional
total. Seja como for, a não ser que inventemos um

44
Hobbes: ética e política nas relações internacionais – João Carlos Lino Gomes

novo modelo de razão, esta possível comunidade


certamente não será composta de seres naturalmente
voltados para o bem; além disso, cumpre estabele-
cer regras para o seu funcionamento. Se o modelo
de Estado de Hobbes foi superado pelo Estado de
Direito e suas conquistas, o desafio de construir uma
sociedade humana que consiga viver unida e em
paz numa cultura que dissociou a ética da política –
enfrentado pelo nosso autor – continua como uma
tarefa para nós.

NOTAS
1
Ver KOYRÉ, Estudos de história do pensamento científico.
2
Ver BOBBIO, BOVERO. Sociedade e Estado na filosofia política mo-
derna, p.13-26.
3
Sobre as dificuldades da burguesia diante da autoridade da Igreja
e do imaginário cristão, ver LE GOFF. A bolsa e a vida – a usura
na Idade Média.
4
Sobre a decadência da economia feudal e a ascensão do capita-
lismo, ver CONTE. Da crise do feudalismo ao nascimento do capita-
lismo.
5
Sobre a questão do poder em Maquiavel, ver LINO GOMES, J.C.
Ética, política e poder em Maquiavel, Síntese 60, (1993): 79-91.
6
Ver ARISTÓTELES. La Política. Livro I, cap. 1, 1252a; 1252b.
7
ARISTÓTELES. op. cit., Livro I, cap. 1,1253a.
8
Sobre esta concepção de Direito, ver KELSEN. Derecho y paz en
las relaciones internacionales, p.25-48.
9
Ver HOBBES. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesi-
ástico e civil, p.74-77.
10
HOBBES. op. cit., p.78-85.
11
Sobre as situações em que Hobbes concebe a existência do esta-
do de natureza, ver BOBBIO. Thomas Hobbes.
12
DEUTSCH. Análise das relações internacionais, p.228-229.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDERSON, Perry. Linhagens do estado absolutista. Porto:


Afrontamento, 1984.
ARISTÓTELES. La Política. Bogotá: Instituto Caro y Cuervo, 1989.

45
Coleção Convite ao pensar

BOBBIO, Norberto, BOVERO, Michelangelo. Sociedade e esta-


do na filosofia política moderna. São Paulo: Editora Brasilien-
se, 1986.
BOBBIO, Norberto. Thomas Hobbes. Rio de Janeiro: Campus,
1991.
CONTE, Giuliano. Da crise do feudalismo ao nascimento do capi-
talismo. Lisboa: Editorial Presença, [s.d.].
DEUTSCH, Karl Wolfang. Análise das relações internacionais.
Brasília: Editora da UNB, 1982.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um esta-
do eclesiástico e civil. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
KELSEN, Hans. Derecho y paz em las relaciones internacionales.
México: Fondo de Cultura Económica, 1986.
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico.
Rio de Janeiro: Forense Universitária; Brasília: Editora da
UNB, 1982.
LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida – a usura na Idade Média.
São Paulo: Brasiliense, 1989.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Abril Cultural,
1979.
SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moder-
no. São Paulo: Companhia das letras, 1996.

46
DRÁCULA, DE BRAM STOKER
Lídia Avelar Estanislau

Para Renato e Mauro. Também para


a professora Maria Nazareth Soares
Fonseca, que me ensina a ousadia da
Literatura. Afinal, como propõe Michel
Maffesoli, “é hora de reconhecer que a
sociologia pode ser audaciosa”.

O vampiro1
Tu que, como uma punhalada
Em meu coração penetraste,
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,
De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
– Infame à qual estou atado
Como galé ao seu grilhão,
Como ao baralho o jogador,
Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor
– Maldita sejas tu, maldita!
Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao veneno, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.
Ai de mim! com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
“Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque à escravidão,
Imbecil! – se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

Não poderia ser outra a epígrafe para o tema


que me foi proposto pelo programa “Convite ao

47
Coleção Convite ao pensar

pensar”, do Departamento de Filosofia e Teologia


da PUC Minas, convite que não nos deixa alterna-
tiva, já que nenhum de nós, professores e alunos,
podemos nos recusar a pensar. Ao aceitar o desa-
fio deste convite irrecusável, ponderei que vampi-
ros jamais fizeram parte do meu interesse, embora,
ao longo da minha vida como socióloga, tenha me
deparado com muita gente que vive do sangue
alheio, pois o vampirismo pode ser pensado como
uma das metáforas do capitalismo: um modo de
produção que, como demonstrou Marx, apropria-
se da força de trabalho sugando a energia dos tra-
balhadores através de uma exploração legal, porém
perversa. Confesso, entretanto, que este trabalho
seria impossível sem a colaboração de minha fi-
lha, a quem agradeço publicamente, pois não só
me apresentou uma relação de títulos da literatura
e do cinema, como debateu comigo sobre o vam-
pirismo e seu fascínio. Devo acrescentar, ainda, que
esta leitura do Drácula, de Bram Stoker, talvez seja
um pouco decepcionante, especialmente para os
entendidos, caracterizando-se como um modesto
ensaio, no sentido corriqueiro do termo.

MASCULINO E FEMININO
O substantivo masculino “vampiro”, ensina-
nos Mestre Aurélio, vem do húngaro vampir, atra-
vés do alemão Vampir e do francês vampire e
remete-nos a uma entidade lendária que, de acor-
do com a superstição popular, sai das sepulturas,
à noite, para sugar o sangue dos vivos. Seu sinôni-
mo é o substantivo feminino estrige, palavra lati-
na (strige) que também significa coruja e feiticeira.
Em sentido figurado, vampiro é aquele que enri-
quece à custa alheia e/ou por meios ilícitos, assim
como aquele que explora os pobres em benefício
próprio. De vampiro deriva vampe, do inglês vamp,

48
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

substantivo feminino que designa a atriz que faz


papel de mulher fatal – por extensão, toda mulher
fatal é uma vampe. No Brasil, o morcego hemató-
fago, portador de duplos incisivos superiores que
o diferenciam dos demais morcegos, é também
chamado de vampiro.
Alimentar-se de sangue humano é uma mons-
truosidade e o que define um monstro é sua oposi-
ção à humanidade. “Não há monstro entre iguais”,
escreve o crítico de cinema Luiz Nazário, acrescen-
tando que “o monstro é definido a partir de uma
comunidade de não-monstros”. Os atributos da
condição humana, portanto, são antinômicos aos
atributos do monstro e, por esta razão, este deve
ser exterminado. Na dramaturgia do horror, onde
o vampiro é personagem de destaque, estão pre-
sentes algumas características do monstro, como a
longevidade e a conseqüente decrepitude.
A decrepitude permanece importante atributo de
múmias e vampiros, que sempre vêem sua falsa
juventude desmascarada: ninguém mais decrépi-
to que o morto-vivo encarnado por Gary Oldman
em Bram Stoker’s Dracula, com enorme cabeleira
branca trançada e uma adormecida sensualidade
excitando-se, depois de séculos, ao sorver a gota
de sangue fresco escorrida da lâmina de barbear
do jovem hóspede incauto.2

Acrescentem-se alguns atributos clássicos do


monstro como a ubiqüidade, a invisibilidade, a
incredibilidade, a materialidade, a reprodutibilida-
de, a indestrutibilidade, a voracidade, a ferocida-
de, o mascaramento, o descontrole, o relativismo,
o agarramento, a contaminação, a mutabilidade, o
gigantismo, o nanismo, a unicidade, a reversão, a
hereditariedade, a despersonalização, a imortalida-
de e a progressividade, pois “toda história de terror
com suspense evolui num crescendo, multiplicando

49
Coleção Convite ao pensar

as forças do Mal e reduzindo as chances do Bem,


para que o confronto derradeiro represente uma
redenção”.3 A monstruosidade começa a impor-se
a partir dos olhos, da boca e das mãos.
As mãos em arco e os olhos dilatados são apêndices
do desejo monstruoso de agarrar e devorar. Esse é
possibilitado pelas mandíbulas, que não cabem den-
tro das bocas, que saem delas em pontas afiadas, cres-
cendo, para se fincarem no pescoço da vítima, seja
no beijo perverso de Drácula ou na laceração do lobi-
somem, deixando marcas na pele ou arrancando-lhe
pedaços.[...] A representação imaginária da monstruo-
sidade concentra-se, pois, no complexo olhos-boca-
mãos, numa máscara que revela a intencionalidade
maligna inscrita no corpo corrompido.4

Em sua teoria da monstruosidade, Luiz Nazá-


rio assegura que “todo monstro é, materialmente,
uma máscara: seu horror é externo, sua represen-
tação dá-se por intermédio da fantasia”. Do mons-
tro não se pode esperar reciprocidade, pois ele é,
”por definição, um ser que não ama, ou que ama
mas não sabe amar, incapaz de relacionar-se, tro-
car afetos, construir a mediação entre os desejos e
sua realização na sociedade”. Entretanto, a mons-
truosidade é ao mesmo tempo horrível e maravi-
lhosa, o que explica porque “o monstro arrepia,
seduz, fascina, paralisa ou hipnotiza suas vítimas”,
antes de atacá-las.
Dotando a diversão de um caráter perverso, o mons-
tro é socializador: é superego, repressão, complexo
de culpa, princípio de realidade, com sinal negati-
vo.[...] Mas, se o monstro acusa, não se deixa acu-
sar; se é socializador, ele mesmo não está socializado:
é id, liberdade, ausência de culpa, princípio de pra-
zer, com um sinal negativo.[...] O monstro não é, de
fato, uma criatura biológica, mas basicamente uma
força, um símbolo.[...] Perseguindo machos e fêmeas
com o mesmo apetite, não são indivíduos que o
monstro deseja [...]. O sexo de seu parceiro-vítima é

50
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

indiferente a Drácula;[...] ele se sacia com o sangue


humano, comum a homens e mulheres. [...] O Mons-
tro e o Vampiro são anti-humanos na afirmação ob-
jetiva de um desejo simbólico. Nisto assemelham-se,
respectivamente, ao Totalitário e ao Capitalista, que
afirmam serem o poder e o lucro desejos humanos
naturais: o Monstro devassa, o Vampiro acumula.5

A economia do terror organiza-se segundo o


princípio do vazio – “o vampiro é como um tanque
que precisa ser eternamente preenchido de sangue”
– e o princípio do pleno. Nos filmes, Drácula perde
a palidez e ganha peso após atacar suas vítimas e
assim, pode-se dizer que todo monstro é um vazio
que tende ao pleno e um pleno que tende ao vazio,
pois seu destino é ser perseguido, capturado e des-
truído pelos humanos, depois de persegui-los, cap-
turá-los e destruí-los. Drácula, como qualquer outro
monstro, encarna, ao mesmo tempo, o princípio da
realidade e o princípio do prazer, ambos enquanto
máscaras, “já que a ordem monstruosa é a metafóri-
ca representação de uma ordem humana proibida e
a simbólica justificação da ordem humana estabele-
cida”, explica Luiz Nazário, em sua análise da na-
tureza dos monstros. A classificação do vampiro é
complexa, pois se enquadra na categoria dos mons-
tros antropomorfos, mas pela metamorfose pode
tornar-se um cão, um lobo, um morcego, classifi-
cando-se, então, como um monstro zoomorfo. Al-
gumas vezes, entretanto, apresenta-se sem forma
definida, enquadrando-se também na categoria dos
monstros polimorfos. Por sua habilidade em pe-
netrar nos ambientes através de mínimas frestas
adquire uma característica dos monstros microscó-
picos, espalhando seu poder de extermínio em en-
demias, epidemias e pandemias, como “o vírus da
AIDS, que já matou mais de 5 milhões de pessoas e
contaminou 25 milhões”.6

51
Coleção Convite ao pensar

HISTÓRIA E FICÇÃO7
A leitura das quatrocentas e cinqüenta e oito
páginas do romance foi penosa e não me fascinou
a saga dos Dráculas, “cuja folha de serviços jamais
será igualada pela dos Habsburgos ou dos Roma-
noffs”8 – casas reais que, como outras tantas, mar-
caram de sangue a história universal, sobretudo
pela instituição da escravatura e da tortura. A nar-
rativa de Bram Stoker mescla literatura e história,
registrando um processo de desumanização que
vem desde o século XV, com o príncipe Vlad II –
Dracul, pai de Vlad Tepes, o Empalador, assim cha-
mado pelo uso de sua tortura favorita. Conta-se (e
consta) que nas cruzadas contra os turcos, após
uma batalha realizada em 1471, Drácula mandou
empalar pelo umbigo 2.300 prisioneiros.
Em setembro de 1445, o príncipe Vlad Dracul (Vlad,
o Diabo) capturou na Bulgária cerca de 112 mil pes-
soas “que pareciam egípcias” [de pele escura] e le-
vou-as para a sua Valáquia natal, “sem bagagem,
nem animais”, tornando-se assim o primeiro impor-
tador por atacado de escravos ciganos.[...] A época
de Drácula (1431-1476) precedeu a escravidão ge-
neralizada nos principados romenos. Decerto havia
modelos reais para as legiões de escravos ciganos
que aparecem no Drácula, de Bram Stoker (cavando
e empacotando a terra da Transilvânia que manti-
nha “vivo” o conde em suas viagens). Além disso, o
Drácula histórico, Vlad Tepes, parece ter acreditado
que os ciganos constituíam uma classe de guerrei-
ros particularmente destemida (ou temerária). No
poema épico Tiganíada, de Ion Budai-Deleanu (1760-
1820), está dito que Drácula liderava um exército
de ciganos. [...] Aí, o Empalador não é o arquivilão
do folclore [sic] germânico e eslavo (e quase univer-
sal), e sim um herói nacional, descrito na linguagem
dos camponeses romenos, que tinham dele essa
imagem, e servindo à causa de um estado romeno
independente.(Tiganíada é considerado o primeiro
poema escrito em romeno).9

52
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

Registros históricos evidenciam que até 1856,


por mais de quatrocentos anos, os ciganos foram
escravizados na Valáquia, na Moldávia e na Tran-
silvânia, principados feudais que constituem a
Romênia moderna. O processo de miscigenação
explica porque os romenos, em geral, têm a pele
mais escura do que seus vizinhos eslavos. No Bra-
sil, até 1888, africanos foram escravizados e tam-
bém aqui a miscigenação explica o povo brasileiro,
“mestiço na carne e no espírito”, nos termos de
Darcy Ribeiro.10 Ser cigano na Europa Oriental é
como ser negro no Ocidente, e o acesso à etno-his-
tória, lá como aqui, é dificultado pela queima, in-
voluntária ou intencional – como fez Rui Barbosa
– de importantes documentos.11 Ciganos e negros
compartilham da maldição bíblica de um dos fi-
lhos de Noé, Cam – camita designa os povos do
norte da África – versão mítica da origem do cati-
veiro relatada no Livro do Gênesis.
O fato é que se consumou em plena cultura moder-
na a explicação do escravismo como resultado de uma
culpa exemplarmente punida pelo patriarca salvo
do dilúvio, para perpetuar a espécie humana. A re-
ferência à sina de Cam circulou reiteradamente nos
séculos XVI, XVII e XVIII, quando a teologia católi-
ca ou protestante se viu confrontada com a genera-
lização do trabalho forçado nas economias coloniais.
O velho mito serviu então ao novo pensamento
mercantil, que o alegava para justificar o tráfico ne-
greiro, e ao discurso salvacionista, que via na escra-
vidão um meio de catequizar populações antes
entregues ao fetichismo ou ao domínio do Islão.
Mercadores e ideólogos religiosos do sistema con-
ceberam o pecado de Cam e sua punição como o
evento fundador de uma situação imutável.12

Se na Romênia os termos cigano e escravo são


intercambiáveis e descrevem uma casta social par-
ticular, o mesmo ocorreu no Brasil no que se refere
ao negro. Lá como aqui, o ódio e a violência contra

53
Coleção Convite ao pensar

ciganos e negros e a sua transformação em “proble-


ma social” – com todas as conotações de criminali-
dade – trazem, ainda hoje, a marca da escravidão
refletida na dificuldade dos povos outrora escravi-
zados de superar a sua própria falta de expectati-
vas. No que se refere às mulheres, mesmo não sendo
consideradas propriamente humanas, as ciganas e
as negras davam boas concubinas e mais de cem
anos depois, na Romênia como no Brasil, ciganos e
negros padecem de invisibilidade histórica. Invi-
sibilidade que atinge também os povos indígenas,
cuja luta de resistência encontra sua mais perfeita
tradução na expressão outros quinhentos... Nessa
perspectiva, vampiros foram todos aqueles senho-
res proprietários de escravos, inclusive os bandei-
rantes, e, segundo a crença – particularmente
difundida na Europa Central e Oriental – aqueles
que foram vítimas de vampiros também se trans-
formam em vampiros: são esvaziados de seu san-
gue e, ao mesmo tempo, contaminados. Após o
beijo/mordida, mutações incontroláveis ocorrem –
como na virulência da AIDS – nos corpos tocados
pelo vampiro, que multiplica sua espécie através da
contaminação do sangue. O universo ideológico do
contágio é o totalitarismo, que nivela todas as dife-
renças sob o signo da morte. Esta leitura encontra
eco na simbologia do vampiro:
O fantasma atormenta os vivos pelo medo, o vam-
piro os mata tirando sua substância: só consegue
sobreviver graças à sua vítima. A interpretação, aqui,
basear-se-á na dialética do perseguidor-perseguido,
do devorador-devorado. O vampiro representa o
apetite de viver, que renasce tão logo é saciado e
que se esgota em se satisfazer em vão, enquanto não
for dominado. Na realidade, transferimos essa fome
devoradora ao outro, quando tal não passa de um fe-
nômeno de autodestruição. O ser se atormenta e se
devora a si mesmo; enquanto não se vir responsável

54
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

por seus próprios fracassos, responsabiliza e acusa


o outro. Quando, ao contrário, o homem [sic] está
plenamente assumido, quando exerce plenamente
sua responsabilidade, quando aceita a sua sorte de
mortal, o vampiro desaparece. Ele só existirá en-
quanto um problema de adaptação consigo mesmo
ou com o meio social, não é resolvido. Nesse caso
somos psicologicamente corroídos...devorados, e nos
tornamos um tormento para nós mesmos e para os
outros. O vampiro simboliza uma inversão das for-
ças psíquicas contra nós mesmos.13

A simbologia do sangue, por sua vez, é univer-


salmente associada à vida: bebida da imortalidade,
veículo da se(x)sensualidade e da alma humanas,
fonte da vitalidade. A comunhão pelo sangue ma-
nifesta-se nos ritos religiosos católicos, mas também
em rituais de “civilizações extra-européias” – para
lembrar, mais uma vez Darcy Ribeiro –, nos sacrifí-
cios e nos pactos de fraternidade. Em muitas cultu-
ras & civilizações o sangue é a origem de todos os
seres-minerais, vegetais, animais. No candomblé,
por exemplo, religião de matriz africana com forte
presença em todo o Brasil, os elementos portado-
res do axé agrupam-se em três categorias: sangue
vermelho, compreendendo o sangue humano ou ani-
mal, o azeite e o mel (sangue de frutas e flores), o
cobre, o bronze; sangue branco, compreendendo a
água, o sêmen, a saliva, as secreções, o plasma, a
seiva, o sal, o giz, a prata, o chumbo; e o sangue pre-
to, compreendendo as cinzas, o sumo escuro das
plantas, o carvão, o ferro. Dessa simbologia do san-
gue vermelho, branco e preto (o amarelo é conside-
rado uma nuança do vermelho, assim como o azul
e o verde são nuanças do preto) é que se constitui o
aiyé e o òrun, o mundo e o além.14 Nas referências
culturais africanas, assim como nas culturas tradi-
cionais, não há separação entre este e o outro mun-
do, ou dito de outra forma, não há oposição entre o

55
Coleção Convite ao pensar

sagrado e o profano, assim como não há distinção


entre natureza e cultura, como explica o professor
Muniz Sodré:
A “natureza” só existe para o “civilizado”. Para as
culturas tradicionais, não existe o “natural”, tudo é
ritualisticamente simbólico, tudo se submete às obri-
gações da regra. Ser enfeitiçado, seduzido ou encan-
tado é ser vertiginosa e ritualísticamente absorvido
por um Destino; é deixar de ser sujeito de uma cons-
ciência, de uma razão, de uma verdade fadada à
transparência.15

No Brasil, os povos indígenas – zeladores de


tradições que mudam a todo instante, e mudam
sempre para permanecerem verdadeiras – ainda
que expropriados na dimensão material de suas
culturas, transfiguram-se, transmudam-se, lançan-
do mão de sofisticados modos de negociação, com
outros grupos étnicos daqui e d’acolá, resistindo
ora em bloco, ora em diáspora, nestes cinco sécu-
los de contato.16 É interessante ressaltar que Frei
Vicente do Salvador, nosso primeiro historiador,
segundo Laura de Mello e Souza, considerou como
trabalho do diabo o esquecimento do nome dado
por Pedro Álvares Cabral à terra – Santa/Vera Cruz
– substituído pelo de Brasil. E, para explicar tal
designação decorrente da exploração do vermelho
pau-brasil, seu texto remete ao combate entre o céu
e o inferno, entre a luz e a treva, determinando o
permitido e o proibido.
Na primeira leitura cinematográfica do romance de
Stoker, no Nosferatu realizado em 1922 por Friedrich
Murnau, a fragilidade de Max Schreck, no papel do
Conde Orlock, serve ao propósito do cineasta de
projetar a própria homossexualidade na imagem do
vampiro. Tal como o morto-vivo, condenado a vi-
ver na sombra, o homossexual não pode [sic] mos-
trar seu desejo à luz do dia, privado da felicidade
cotidiana, exclusiva dos casais heterossexuais. Tanto

56
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

o vampiro quanto o homossexual representam uma


ameaça fatal às instituições fundamentais da civili-
zação: daí sua vinculação com a morte. Werner Her-
zog manteve o caráter homossexual ou bissexual do
vampiro em Nosferatu, encarnado por Klaus Kinski.17

Na dialética do bem e do mal, este costuma


ser visto como hereditário. O vampiro, como ou-
tras criaturas do mal, ainda que escolha suas víti-
mas, parceiros ou sucessores, sofre “de um mal
hereditário, que se transmite justamente pela mordi-
da que inocula o sangue saudável com uma doença
infecto-contagiosa”.18

NEM BEM NEM MAL


A narrativa de Bram Stoker opõe deus(es) e
diabo(s) – ou dito de outro modo, polariza o mun-
do anglo-saxão e o mundo eslavo – e assim regis-
tra o estranhamento do encontro entre diferentes,
tal como também se deu durante a colonização, sem
sombra de dúvida um processo vampiresco.
Os habitantes das terras longínquas que os europeus
acreditavam serem fantásticas constituíram uma
outra humanidade, fantástica também, e monstruo-
sa. Conforme ocorreram as grandes descobertas,
foram elas migrando da Índia à Etiópia, à Escandi-
návia, e finalmente à América. No mundo precário
do homem medieval, surgia a necessidade de no-
mear e encarnar o desconhecido a fim de manter o
medo nos limites do suportável: monstros descritos
pela religião (Satã), monstros descritos pelo bestiá-
rio (unicórnio, dragão, formiga-leão, sereias etc.),
monstros humanos individuais (aleijados, tarados)
e monstros que habitavam os confins da Terra, pa-
recendo-se com homens normais (ou seja, europeus
do oeste) mas trazendo traços monstruosos hereditá-
rios.[...]. Apesar de disseminado no cotidiano, o mons-
tro tenderia, a partir do século XV, a se demonizar,
instalado-se de um só lado do mundo, pactuando
com o diabo, desarmonizando-se.19

57
Coleção Convite ao pensar

O escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912) –


reverte o processo colocando o monstro no centro
da Europa, e esse guardião do tesouro da imortali-
dade encontra, segundo Luiz Nazário, outros refe-
renciais históricos na aristocracia decadente: Gilles
de Rais, que violou e torturou cerca de 300 crian-
ças; a condessa Elizabeth Bathory, que matou 650
virgens para banhar-se em seu sangue e o Marquês
de Sade, que se envolveu com torturas e assassi-
natos. Bárbara Belford, que escreveu uma biogra-
fia de Bram Stoker, sugere que o grande ator do
Lyceum Theatre de Londres, Henry Irving – “que
arrebatou e absorveu” Stoker – foi o verdadeiro
modelo para o Drácula.
Os vampiros da literatura e do cinema são quase
sempre aristocratas, nobres, condes, condessas, mar-
quesas, personagens principescas. Eternizando-se
através do sangue alheio, sobrevivendo em função
de outras vidas, o vampiro é um parasita que encar-
na, no imaginário burguês, a classe decadente dos
nobres.[...] Os nobres são “mortos-vivos” que so-
brevivem à custa do sangue alheio. Nessa projeção,
o burguês preserva sua boa consciência: suga o san-
gue dos trabalhadores, mas é o nobre quem se en-
contra pintado de vampiro, porque nada produz.20

As personagens principais são inglesas, mas há


um americano do Texas, um médico holandês e o es-
tranho Conde. A condição de estrangeiro de Drácula
é explícita, mas em Londres ele pretende manter seu
status através da compra de várias propriedades: “Já
fui patrão por tanto tempo que prefiro continuar sen-
do patrão...ou ao menos que ninguém se arvore com
poderes de patrão sobre o que eu sou”; e comple-
menta, numa postura etnocêntrica, muito próxima à
dos britânicos: “Nós, os nobres transilvânicos, não
gostamos de que as nossas carcaças sejam sepulta-
das na vala comum, entre os demais mortais”, ou
ainda, “o que valem os peões sem o seu rei?” Bram

58
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

Stoker nos apresenta as personagens através dos di-


ários e cartas por elas escritas ou gravadas, e no seu
texto O Conde – “que nem dormia, nem estava mor-
to“ – vai se construindo e se desconstruindo aos olhos
do leitor: de “Rei-Vampiro ao primitivo pó”, de po-
deroso sedutor a “delinqüente qualificado como cri-
minoso típico”, pela análise racista de Nordau e Lombroso.
Mais sofisticada é a visão do vampirismo como
metáfora do totalitarismo: de fato, o vampiro trans-
forma a natureza humana e funda uma nova comu-
nidade, num tribalismo perverso onde todos são
iguais entre si pela dependência do sangue.[...] De
qualquer ponto de vista, o vampirismo é a sublima-
ção fantástica da sede de poder, expressa na imorta-
lidade da condição de morto-vivo.21

A ambigüidade da personagem principal do


romance – ao mesmo tempo morto e imortal – torna
o vampiro eterno e atual. Numa leitura psicológica
do mito, o vampirismo associa-se ao homoerotis-
mo. Muitos leitores, entretanto, “atribuem ao vam-
piro um caráter lúbrico e enérgico, fazendo dele um
Dom Juan insaciável (a dentada no pescoço e a suc-
ção da jugular sendo sua forma de coito e orgasmo)”.
Mas, para o cantor e compositor Jorge Mautner, “o
vampiro é o pilar freudiano da bissexualidade”.22 É
o próprio compositor quem afirma:
Os vampiros são às vezes bons, e às vezes maus. E
às vezes bons e maus! Os vampiros segundo alguns
são seres extraterrestres que viajam em discos voa-
dores invisíveis. Segundo outros, os vampiros são
antigos seres humanos sábios, espécie de manda-
rins-gurus que obtiveram grandes e eficazes resul-
tados quanto à longevidade, atingindo assim a vida
eterna, velha meta dos taoístas e de vários outros
magos tanto do Oriente quanto do Ocidente.23

Já Nelson Liano Jr., que dividiu com o bruxo


mediático Paulo Coelho a primeira versão, publicada
em 1986, do Manual Prático do Vampirismo, afirma:

59
Coleção Convite ao pensar

A razão filosófica greco-romana impulsionou o de-


senvolvimento tecno-social do ocidente sempre
com base numa crença oficial capaz de determi-
nar o bem e o mal. Por isso, aquilo que transcen-
de a racionalidade, se torna um atraente caminho
em busca do incansável, capaz de libertar o espí-
rito do peso dos dogmas preestabelecidos. As pes-
soas precisam criar mitos, sejam eles ficcionais ou
reais, para se refletirem dentro de sua própria so-
lidão, e às vezes acabam criando monstros para
ocuparem os espaços vazios da imaginação. E o
vampiro é essa fera que habita os corações daque-
les que preferem uma solução narcísica de exis-
tência.[...] O escritor Bram Stoker, criador de
Drácula, certamente era um grande admirador de
Nietzche, pois a sua personagem possui todas as
características do super-homem niilista.24

Aqui, o mito de Drácula parece aproximar-se


do herói épico dos camponeses romenos. (Ou se-
ria privilegiar o mito do Oriente um dia perdido?
De novo, outra canção de Gilberto Gil “2001: se
oriente rapaz, pela constelação do Cruzeiro do
Sul”). O mito explica, então, a punição de ter trans-
gredido a morte, que será negada tanto no mito da
reencarnação, como no mito da ressurreição. Para
os entendidos, o tema do vampiro é “cult” sobre-
tudo pelo que chamei de se(x)sensualidade.
O medo está associado diretamente ao erótico. Um
condenado à morte, no momento de ser executado
tem ereção capaz de levá-lo ao orgasmo. Por todas
essas associações, os filmes de vampiro se tornaram
cult-movies em todas as grandes cidades do mundo.
São momentos de suspense, terror, pânico, humor e
sobretudo de sensualidade que vão se sucedendo
na tela, tirando o fôlego do espectador.[...] Essa cons-
tante possibilidade de transgressão torna o vampi-
ro atraente. [...] O vampiro beija a vítima somente
depois de seduzi-la, seja homem ou mulher.25

E se “o vampiro pode satisfazer-se tanto em


homens como em mulheres, numa luxúria que

60
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

contamina as vítimas, sua verdadeira natureza é bis-


sexual”:
A conexão entre a sucção do sangue e o ato sexual é
estabelecida claramente na passagem do Drácula de
Stoker em que Lucy, vampirizada, perde seu cará-
ter virginal, aparecendo aos heróis obscena e repug-
nante.[...] Durante o ato da penetração da estaca, a
noiva vampirizada assume uma máscara de lascí-
via obscena – que caracterizará todas as vamps –
confirmando a pecha maldita que a tradição religio-
sa atribui à sexualidade feminina.26

Para os leigos o vampiro não beija: agarra e mor-


de! “O medo que sentimos diante do estranho”, se-
gundo Luiz Nazário, “tem sua origem no medo de
ser agarrado [...] pois o agarramento – das brincadei-
ras de pega-pega aos estupros – contém uma enor-
me carga de perversidade”. O vampiro é opaco e não
se refrata, não se deixa refletir no espelho, mas co-
nhece o seu poder: “as moças que vocês amam já são
minhas. E, através delas, também vocês virão a ser
meus...”, ameaça a personagem do romance.
O Drácula descrito por Bram Stoker, peludo e de
lábios muito vermelhos, exala um cheiro horrível;
deixa as pessoas abobalhadas; rouba a beleza e a
força alheias; cresce e encolhe; dorme de dia e acor-
da à noite, quando se ergue excitado e rijo do ataú-
de, subindo pelas paredes. Como o membro viril está
preso ao testículo, o vampiro está ao caixão, que tem
de carregar por toda parte: a terra natal onde repousa
é sua potência sexual, e a capa preta que adotou no
cinema remete ao prepúcio. Esse falo que o vampi-
ro representa é essencialmente mau, perverso, vio-
lentador, viciando os que o experimentam: Drácula
não penetra senão convidado mas, depois que pe-
netra, não precisa mais de convite. O fato do espe-
lho não refletir sua imagem liga-se à idéia de que o
falo é a parte secreta do homem, que não se exibe
publicamente. E as receitas para liquidar o vampiro
reafirmam o simbolismo: o sol, a água corrente, o
alho e as coisas sagradas o amolecem, mas ele só

61
Coleção Convite ao pensar

desaparece mediante um ritual simbólico de castra-


ção – fulminado a bala benta, com uma estaca cra-
vada no coração ou tendo a cabeça cortada.27

No imaginário do século XIX, o vampiro repre-


senta a “promiscuidade e a coleta contra os valores
da família e do trabalho” e, portanto, deve ser des-
truído pela religião, através da cruz e água benta;
pela ciência, com o emprego do sol, da água corren-
te e do alho, mas sua destruição depende, também,
do emprego da força, através da bala de prata, da
estaca cravada no coração e do corte da cabeça.
No século XX a se(x)sensualidade explícita do
Drácula de Bram Stoker foi disfarçada pelo mora-
lismo da adaptação teatral, realizada por Hamil-
ton Deane, com grande sucesso na Inglaterra, em
1926. Na Broadway, adaptada por John Baldeston,
em 1927, o sucesso foi ainda maior com o ator hún-
garo Bela Lugosi personificando Drácula. Nos anos
30, a peça foi readaptada para o cinema e o vampi-
ro recebeu o “look” de galã de Hollywood: a capa
preta, o gel nos cabelos, o comportamento hete-
rossexual. No final dos anos 50, o ator Christopher
Lee consagrou-se no papel de Drácula, numa série
de filmes que comprovam o fascínio exercido pelo
mito do vilão que se tornou herói, no universo em
expansão da contracultura.28
Suas ligações com a morte foram esquecidas e seu
erotismo perverso difundiu-se na realidade. Ao fa-
miliarizar-se com o público, ao transformar-se em
“tipo”, o vampiro tornou-se o queridinho das mu-
lheres.[...] A relação de sedução exercida por Mickey
Rourke sobre Kim Basinger, em 9 ½ Weeks, de Adrian
Lyne, conserva fortes traços de vampirismo incor-
porado à vida afetiva dos casais modernos.[...] Para
os produtores desses filmes, Drácula é “o último
herói romântico”. Sintomático que Édipo reivindi-
que, na crise mundial da representação, um símbo-
lo da bissexualidade para revalidar o romantismo

62
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

maquiavélico que, por um lado, exalta a mulher, tra-


ta-a como uma dama e, por outro, dita-lhe ordens e
chupa-lhe o sangue.[...] Nas novelas de Anne Rice,
vampiros concedem entrevistas, vão a concertos de
rock, andam de moto com walkman nos ouvidos,
montam peças de teatro sobre vampiros.29

No cinema, cada vez mais, percebe-se a alian-


ça entre perversão e consumismo, mesmo nas be-
las e premiadas imagens do “Drácula de Bram
Stoker”, dirigido por Francis Ford Coppola, com
figurinos e maquilagem inspirados em Ernest
Klint. Em “Entrevista com o Vampiro” – grande
sucesso de bilheteria em todo o mundo – apesar
da perspectiva original, pois o diretor apresenta o
mundo na ótica dos vampiros, permanecem a per-
versão e a maldade. A leitura de Roman Polanski –
“perdoe-me, mas seus dentes estão em meu pes-
coço” – e também a de Mel Brooks na linha da co-
média, ou a de John Kandis, criando uma “vampira
politicamente correta, que só se alimenta do san-
gue de criminosos”, assim como inúmeros outros
filmes que atraem multidões, indicam que o vam-
pirismo não mais se limita às páginas impressas
dos livros ou às imagens das telas de cinema. Em
Nova York, no Queens, funciona o Centro de Pes-
quisas sobre Vampiros, assim como na Transilvâ-
nia, em 1995, os adeptos do vampirismo realizaram
o I Congresso Mundial sobre Drácula, com apoio
da Sociedade Transilvana de Drácula.30 No site so-
bre Drácula na Internet lê-se que o vampiro é in-
destrutível, e que sempre ressuscita.

METAMORFOSES DO VAMPIRO
ETAMORFOSES

A monstruosidade e o terrorismo fazem parte


da História materializando-se nas guerras, nos re-
gimes políticos totalitários, no racismo, no sexismo
e, sobretudo, no xenofobismo. Nas ciências, nas

63
Coleção Convite ao pensar

artes, na própria filosofia, a intolerância, mesmo que


disfarçada com elegância, manifesta-se no cotidia-
no, banalizando a vida. A cultura contemporânea
adota um esquema fractal, segundo Jean Baudri-
llard, no qual “o bem já não é perpendicular ao mal,
nada mais se coloca em abcissas e ordenadas”.31
Já não há modo fatal de desaparecimento, mas sim
um modo fractal de dispersão. Nada mais se reflete
de fato, nem em espelho, nem em abismo (que nada
mais é que o desdobramento infinito da consciência).
A lógica da dispersão viral das redes já não é a do
valor nem a da equivalência.[...] Depois do estádio
natural, do estádio mercantil, do estádio estrutural,
eis que chega o estádio fractal do valor.[...] Já não há
nenhuma referência: o valor irradia em todas as dire-
ções, em todos os interstícios, sem referência ao que
quer que seja, por pura contiguidade.[...] Em rigor, já
não se deveria falar de valor, já que essa espécie de
multiplicação e de reação em cadeia torna impossí-
vel qualquer avaliação.32

A globalização, anulando espaços e tempos,


colocou no centro da cena a diferença, que a antro-
pologia contemporânea elegeu como um de seus
temas principais. Entretanto, apesar do conceito de
multiculturalismo apresentar uma mensagem de
tolerância, nas sociedades imperialistas permane-
ce, manifesto ou latente, o horror ao diferente, ao
estranho, ao estrangeiro, sob variadas formas de
discriminação. O cinema americano é pródigo em
exemplos onde as forças do mal são associadas aos
que vêm de um outro planeta, de um outro país,
de uma outra cultura, enfim, de um outro mundo.
A despeito dos avanços dos movimentos dos direitos
civis e da crescente presença de atores, diretores e
produtores negros no cinema americano, a aversão
ao Outro agora atinge o negro numa camada profun-
da da psique coletiva. Mesmo quando a mensagem
explícita é o anti-racismo, o negro é associado a uma
forma monstruosa de vida. [...] De fato, não só os

64
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

negros passaram a ser sistematicamente discrimina-


dos nos filmes de Hollywood, mas o estrangeiro em
geral, sobretudo o imigrante clandestino, chamado
de “Alien” pela polícia americana.[...] Os estrangei-
ros são agora equiparados a monstros.[...] Os maus
são pessoas de outras culturas, cujo extermínio é legi-
timado pelo fato de que entre os combatentes, encon-
tram-se elementos “bons” dessas culturas, reafirmando
a humanidade da sociedade multicultural, que só ani-
quila os inassimiláveis.33

Charles Baudelaire (1821-1867), a quem deve-


mos o conceito de modernidade, afirmou que “os
encantos do horror só inebriam os fortes”.34 Na lei-
tura do filósofo Walter Benjamin, “os poetas en-
contraram o lixo da sociedade nas ruas e no próprio
lixo o seu assunto heróico”. Em As flores do mal,
publicado com escândalo em 1857 e hoje conside-
rado uma obra-prima, Walter Benjamin percebeu
a noção mais livre e compreensiva que o poeta ti-
nha sobre os deserdados.
Há uma constelação especial de circunstâncias onde,
também no ser humano, se reúnem grandeza e in-
dolência. Ela governa a existência de Baudelaire. Ele
a decifrou, denominando-a “a modernidade”.[...]
Como não possuía nenhuma convicção, estava sem-
pre assumindo novos personagens. Flâneur, apache,
dândi e trapeiro, não passavam de papéis entre ou-
tros. Pois o herói moderno não é herói – apenas re-
presenta o papel de herói. A modernidade heróica
se revela como uma tragédia onde o papel do herói
não está disponível.35

Mas, segundo Walter Benjamin, o satanismo de


Baudelaire não deve ser tomado demasiadamente
a sério, pois o poeta descreve como, ao anoitecer
“demônios insepultos no ócio/acordam do estupor,
como homens de negócio”.36 A imagem baudelaire-
ana parece ter influenciado Tim Burton, diretor da
bem-sucedida série de filmes sobre Batman, que
declarou: “Gosto desta metáfora que vai do mundo

65
Coleção Convite ao pensar

dos negócios ao mundo dos vampiros.” Assim,


também o Drácula, de Bram Stoker não deve ser
levado ao pé da letra, sobretudo se considerarmos
que as imagens de monstros devoradores, em to-
das as civilizações, simbolizam a necessidade de
uma regeneração.
O que pretendi acentuar nesta leitura foi que
as antigas assim como as novas máscaras do vam-
piro e sua sede de sangue (um exagero metafórico
do desejo sexual) foram deslocadas. Já se edita
Drácula para crianças, como a série com vários tí-
tulos sobre “O pequeno vampiro”, da escritora ale-
mã Angela Sommer-Botenburg, traduzida em 19
línguas, inclusive para o português, pela editora
Martins Fontes, e exibida com sucesso pela televi-
são de vários países europeus. Quando a tortura e
a violência invadem os palcos e as telas, com apoio
da tecnologia dos efeitos visuais; quando huma-
nos e monstros se confundem, o Drácula, de Bram
Stoker, não passa de um programa infanto-juve-
nil, quando comparado ao vampirismo das atuais
condições da vida urbana globalizada, virtual, a
cada minuto mais impessoal e desumanizada.
Charles Baudelaire, considerado “o mais mis-
terioso de todos os poetas da literatura ocidental”,
cujo poema “O vampiro” foi prólogo desta leitura
de Drácula, parece-me bem mais sedutor e o reto-
mo, como epílogo, no poema:
As metamorfoses do vampiro37

E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,


Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
– “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meus seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.

66
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,


As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mimos anjos impotentes!”
Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão
Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.

NOTAS
1
BAUDELAIRE. As flores do mal.
2
NAZÁRIO. Da natureza dos monstros.
3
Idem.
4
Idem.
5
Idem.
6
Idem.
7
À historiadora Elizabeth Salgado de Souza agradeço o material
sobre os ciganos.
8
STOKER. Drácula. Todas as citações desta obra estão em itálico,
sem referência de páginas para estimular o suspense.
9
FONSECA. Enterrem-me em pé: a longa estrada dos ciganos. Gri-
fos da autora.
10
RIBEIRO. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil.
11
Em 14 de dezembro de 1890, Rui Barbosa instituiu comissão des-
tinada a arrecadar e queimar, tendo em vista sua destruição imedi-
ata, “todos os papéis, livros e documentos existentes nas repartições
do Ministério da Fazenda, relativos ao elemento servil, matrícula
de escravos, ingênuos, filhos livres de mulher escrava e libertos

67
Coleção Convite ao pensar

sexagenários”, considerando que tais documentos represen-


tavam “vestígios nos arquivos públicos da administração dessa
nódoa social”. Ver CAMPOLINA et al. Escravidão em Minas
Gerais.
12
BOSI. Dialética da colonização..
13
CHEVALIER et al. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes,
gestos, formas, figuras, cores, números.
14
Ver SANTOS. Os nagô e a morte: pàde, asèsè e o culto Égun na
Bahia. Quanto à simbologia das cores, remeto ao dicionário ci-
tado na nota anterior.
15
SODRÉ. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil.
As aspas são do autor, os grifos são meus.
16
KRENAK. Novas exigências globais e realidades indígenas re-
gionais.
17
NAZÁRIO. Da natureza dos monstros.
18
Idem.
19
SOUZA. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade
popular no Brasil colonial.
20
NAZÁRIO. Da natureza dos monstros.
21
Idem.
22
Jorge Mautner compôs e gravou a canção Vampiro, sucesso na
interpretação de Caetano Veloso, no disco Cinema Transcen-
dental, gravado em 1979.
23
MAUTNER. Vampiros.
24
LIANO JR. Manual prático do vampirismo.
25
Idem.
26
Idem.
27
Idem.
28
Idem.
29
Idem.
30
Idem.
31
BAUDRILLARD. A transparência do mal: ensaio sobre os fenôme-
nos extremos.
32
Idem.
33
NAZÁRIO Da natureza dos monstros.
34
BAUDELAIRE. A modernidade de Baudelaire.
35
BENJAMIN. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo.
36
Idem.
37
BAUDELAIRE. As flores do mal.

68
Drácula , de Bram Stoker– Lídia Avelar Estanislau

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Fronteira, 1985.
BAUDELAIRE, Charles. A modernidade de Baudelaire. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal: ensaio sobre os
fenômenos extremos. São Paulo: Papirus, 1990.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capi-
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BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia
das Letras, 1992.
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CHEVALIER, Jean et al. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos,
costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janei-
ro: José Olympio, 1991.
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LIANO JR., Nelson. Manual prático do vampirismo. Rio de Ja-
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SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida: por um conceito de cultura
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çaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Com-
panhia das Letras, 1986.
STOKER, Bram. Drácula. Porto Alegre: L&PM, 1996.

69
Coleção Convite ao pensar

70
SUBMISSÃO E REVOLTA EM MÁRIO E O
MÁGICO, DE THOMAS MANN
Léa Souki

Por que, entre a vasta obra de Thomas Mann,


escolhi a novela Mário e o mágico como um “Convi-
te ao pensar”?
Creio que, nessa pequena novela, o autor trata
de uma noção importante e muito atual, qual seja, a
capacidade de certos indivíduos levarem multidões
à obediência, sem o uso da força física, mas pela per-
suasão. Como contraponto, Mann nos revela ainda
a possibilidade da revolta contra o tirano.
Antes, devo ressaltar que este texto não preten-
de ser uma análise literária da novela de Mann, mas
uma tentativa de motivar e instigar à reflexão atra-
vés de uma obra cujo tema trata da teoria política e
da ética. Para tanto, concentrei meu objetivo em três
focos. No primeiro, tecerei algumas considerações
sobre aspectos da novela no seu momento históri-
co; no segundo, fornecerei algumas sucintas infor-
mações biográficas sobre o autor, assim como de
circunstâncias históricas da Alemanha, no período
da ascensão do fascismo; a última parte será dedi-
cada à conceitualização da obediência, baseada na
crença em qualidades extracotidianas do líder.
Thomas Mann entende a composição artística
como uma colocação das coisas no lugar, ao mesmo
tempo que uma elucidação sobre acontecimentos

71
Coleção Convite ao pensar

vividos. Conforme diz o próprio autor em Esboço


de uma vida, ele não havia inventado nada dessa
história. Com exceção do final, tudo já lhe havia
acontecido um ano antes, em um balneário.1 Mui-
to atento ao que acontecia à sua volta, Mann tenta
mostrar, no cotidiano dos comportamentos indi-
viduais, a sinalização dos ingredientes de uma li-
derança autoritária.
Nesse balneário, havia um garçom, um mági-
co, e o hoteleiro, assim como em Morte em Veneza,
sua outra novela italiana, havia o “viajante no ce-
mitério de Munique”, o velho bonito, o gondolei-
ro suspeito, Tadzio e sua família, a cólera. Desse
modo, o artista põe as coisas no lugar e a composi-
ção serve como um instrumento de interpretação.
Nessa obra, Mann descreve experiências que
ele teve em comum com sua nação, transforman-
do-as em arte. O autor narra a história de um mal-
estar progressivo, inevitável, que se agrava até
tornar-se intolerável. Os acontecimentos vão em
um crescendo, percebem-se os sinais de uma ca-
tástrofe iminente e nada se pode fazer para impe-
di-la. O leitor sente alívio quando o tiro ecoa da
platéia e o pacato garçom salva-se da humilhação
e se investe de dignidade.
Assim começa a história:
Torre di Venere me deixou a lembrança de uma at-
mosfera desagradável. Havia no ar, desde o começo,
uma contrariedade, uma irritação, uma superexcita-
ção. E depois, para terminar, houve o choque com
este terrível Cipolla, em quem toda a malignidade
do ambiente parecia se encarnar e se concentrar pe-
rigosamente, figura nefasta e muito impressionante
para os olhos humanos. O final foi medonho (pare-
ceu-nos, depois de tudo, que ele já estava determina-
do de antemão pela natureza das coisas) e a infelicidade
quis ainda que as crianças assistissem a ele. Foi uma

72
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

triste situação, bastante chocante em si, que nasceu


de um mal-entendido causado pelas enganadoras
promessas desse curioso homem. Eles não compre-
enderam, graças a Deus, onde terminava o espetá-
culo e começava a catástrofe, e nós as deixamos na
doce ilusão de que tudo tinha sido teatro.2

A história de Mário e o mágico é uma reflexão


sobre a condição de liberdade relativa que a nós,
humanos, é concedida, e sobre certos perigos que
ameaçam nossas limitadas autonomias. Cipolla é
um hipnotizador que se passa por mágico, e que,
em suas sessões públicas, é capaz de levar um ho-
mem, rapidamente, a se comportar como um fanto-
che. Caberia aqui perguntar: a alusão seria a Hitler
ou a Mussolini? Nas palavras de Mann, Cipolla era
“o moderno domador de multidões”, “homem de
vontade e ação cuja astúcia e energia estavam intei-
ramente a serviço do mal”. Seu bigodinho lustrado
e sua capa evocavam uma certa teatralidade, ao
mesmo tempo rancorosa e sem humor.
Inicialmente, em 1932, Mann teria negado o con-
teúdo político dessa novela, preferindo colocá-la no
plano da ética. Mais tarde, porém, em 1948, no texto
intitulado Dezesseis anos, ele fala de “uma história com
fortes ramificações políticas, que se inclina em se-
gredo sobre a psicologia do fascismo e também so-
bre a da ‘liberdade’, com sua doutrina da boa
vontade, que a coloca num estado de inferioridade
diante do robusto querer do seu adversário”.3
Muito se tem especulado sobre o engajamento
político de Mann. Creio que o mais apropriado se-
ria considerá-lo como algo que se foi configuran-
do ao longo de sua vida, ao mesmo tempo em que
procurava preservar sua liberdade como intelec-
tual. Sabe-se da simpatia que Mann nutriu pelo
nacionalismo na mocidade. Aliás, o mesmo ocor-
reu com grande parte da intelectualidade alemã,

73
Coleção Convite ao pensar

mesmo porque, naquela época, o nacionalismo não


estava restrito aos pobres de espírito, uma vez que
ele não havia mostrado sua virulência. Contudo, a
partir da década de 20, Mann já se posicionava pu-
blicamente, não reconhecendo no nazismo as ca-
racterísticas do sentimento de ser alemão que ele
alimentava. Em janeiro de 1925, quando revia seu
discurso Goethe e Tolstoi, escreveu: “Não me pro-
ponho a tratar do fascismo alemão, nem das cir-
cunstâncias inteiramente compreensíveis que lhe
deram origem... É uma religião popular pagã, um
culto a Wotan: é para ser ofensivo – e pretendo ser
ofensivo – uma romântica barbárie”.4
Para melhor compreender essa dimensão de
sua vida e obra, é pertinente considerar alguns as-
pectos de sua biografia, bem como do momento
de ascensão do fascismo alemão.
Mann era filho de um próspero comerciante e
senador de Lubeck, cidade do norte da Alemanha,
e de uma brasileira, nascida Júlia da Silva Bruhns,
descendente de alemães e portugueses. Tanto ele
como o irmão, Heinrich, em tenra idade, submete-
ram-se à vontade do pai em torná-los comercian-
tes. Enquanto o pai vivia, os irmãos tiveram que
entrar como aprendizes em firmas comerciais,
embora a pressão para uma carreira de negócios
fosse muito maior sobre Heinrich do que sobre seu
irmão mais jovem. Contudo, foi Júlia Mann aque-
la que efetivamente iria marcar sua influência em
toda a família, com seu interesse pela arte e sua
preocupação em criar condições para que os filhos
seguissem uma carreira artística. Quando se enviu-
vou, ainda jovem, mudou-se para Munique e, aí,
montou um salão para saraus, onde recebia artistas
e escritores. A história dos dois irmãos e suas res-
pectivas obras são marcadas pela presença de Jú-
lia, uma mulher corajosa e determinada.

74
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

Em 1898, aos vinte e três anos, Mann publicou


seu primeiro livro de contos, O senhorzinho Friedeman.
Em 1901, lançaria o famoso romance Buddenbrook,
história de três gerações de uma família de Lubeck,
livro muito influenciado pela literatura francesa, es-
pecialmente pelo naturalismo de Zola. Mário e o má-
gico foi escrito em sua casa de praia no mar Báltico,
em 1929, e publicado em 1930. Deve-se observar que,
para alguns, o livro pareceu uma estranha e proféti-
ca história de feitiçaria. A novela nasceu em um dos
intervalos do primeiro volume de José, sua trilogia
bíblica sobre José do Egito, a qual ele só veio a termi-
nar nos anos 50, em seu exílio nos Estados Unidos,
do mesmo modo que Morte em Veneza foi criado en-
quanto Mann compunha A montanha mágica.
Eis o que disse o próprio autor sobre o seu
método de trabalho: “Habitualmente meus traba-
lhos narrativos acompanham-se de pequenos bro-
tos sob forma de ensaios. Freqüentemente a
incitação de escrevê-los pode vir de fora, mas no
fundo eles só têm a finalidade de fortificar-me no
meu propósito de narrador”.
Um outro dado que merece registro na biogra-
fia de Mann é que, pouco depois de ter começado
a escrever José, em 1926, ele receberia o Prêmio
Nobel, em 1929. A respeito do prêmio, Mann es-
creveu a André Gide:
O mais divertido de tudo é que o crítico e professor
de literatura Book, de Estocolmo, que costumeira-
mente tem uma influência decisiva na escolha do
ganhador do Prêmio Nobel, proclamou publicamen-
te a monstruosidade artística do livro e disse que eu
estava recebendo o prêmio exclusivamente, ou pelo
menos em grande parte, por causa do meu antigo
romance Os Buddenbrook.5

Já em Esboço de uma vida, Mann também fala


do “documento lindamente executado que o rei

75
Coleção Convite ao pensar

Gustavo me deu, de que eu devo o prêmio principal-


mente à estima que os povos nórdicos têm pelo meu
romance juvenil sobre a vida familiar em Lubeck”.6
Nessa época, diante das homenagens que re-
cebia, Mann tinha cada vez mais que lidar com o
crescimento do nacionalismo na Alemanha. O re-
sultado das eleições de 1930 e o engajamento de
intelectuais, artistas e filósofos na causa naciona-
lista chegavam ao seu círculo mais íntimo. Parecia
o sinal dos tempos. Seu compadre e confidente,
Ernest Bertam, professor em Colônia, se aproxima-
ra definitivamente do nacionalismo, e a ele se se-
guiram outros. Sobre esse período, bem como sobre
seus compromissos com a República de Weimar,
Mann escreveu, em Dezesseis anos:
Devemos pensar que, na época que comecei José,
as tensões políticas interiores do pós-guerra na Ale-
manha já haviam atingido seu apogeu, e nesses
anos de 1920, por causa de minhas obras políticas,
eu realizei minha obra artística sob a pressão, as
perturbações morais e o peso do ódio nacional. A
situação honrosa oficial que a República me reco-
nhecia não mudava nada, e me obrigava a todas as
espécies de discursos solenes. Os artigos, conferên-
cias, manifestações oficiais, adjurações políticas,
prosseguiam paralelamente.

Sua indignação e preocupação prosseguiam


em um crescendo de compromissos e declarações
públicas que, por fim, o indispuseram com os na-
zistas. As posições de Mann, na verdade, se torna-
ram bastante divulgadas. Os amigos e muitos
admiradores literários se inquietavam por suas de-
clarações políticas e viam nesse engajamento uma
investida na arena política, indigna de um escritor
de sua estatura. Por outro lado, deve-se lembrar
de que tal engajamento foi uma reação à sua im-
potência criativa anterior à guerra, uma reação que

76
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

provavelmente iria fortalecê-lo. Em síntese, o de-


sejo de “participar” foi um sinal de coragem que,
certamente, o ajudou a sobreviver à inveja, à pri-
vação e aos constrangimentos que enfrentaria até
a morte. Pode-se afirmar que nem Hitler nem o
macarthismo destruíram a resistência construtiva
do gênio que sobreviveu ao Estado terrorista ale-
mão e, posteriormente, à desilusão em seu exílio
nos Estados Unidos. Neste último caso, não se pode
esquecer do fato de que Mann sentira-se incomo-
dado com a superficialidade e a má recepção de
certos críticos norte-americanos em relação a José.
De volta ao contexto no qual foi escrito Mário e
o mágico, em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomea-
do chanceler da Alemanha por Hindemburg. Três
semanas depois, Heinrich e Thomas estavam no
exílio. Mas não foram as confissões públicas de
Mann e sua adesão aos social-democratas que lhe
valeram a expulsão da Alemanha e, sim, a confe-
rência por ele pronunciada em comemoração ao
cinqüentenário da morte de Richard Wagner. A
conferência provocou a indignação dos mais im-
portantes funcionários, professores e artistas de
Munique. Conforme declaração dos 45 signatários
do protesto, a cidade natal do compositor se in-
dignava por ele (Mann) ter “caluniado nosso gran-
de gênio musical”. Estando fora da Alemanha, pois
viajara para ler a conferência em Amsterdã, Bru-
xelas e Paris, Mann planejava seguir de férias para
a Suíça, junto com sua mulher, Katia. Foi aí que
recebeu a notícia do incêndio do Reichstag e da
vitória de Hitler, com 288 cadeiras, na eleição ge-
ral de 5 de março.
Os signatários do protesto, que esperavam seu
regresso para agir, provavelmente se frustraram
com a decisão de Mann de não voltar à Alemanha.

77
Coleção Convite ao pensar

Alguns dias antes, seu irmão, Heinrich, havia se


exilado em Paris. De Munique, seus filhos, Erika e
Klaus, aconselharam os pais a não voltarem. É que
a casa da família havia sido ocupada pelo coman-
dante da Casa Parda de Munique, o qual estava
interessado no automóvel do escritor. Erika, a fi-
lha mais velha, ainda conseguiu recuperar alguns
escritos do pai.
A vitória nazista nas eleições de 5 de março de
1933 selava o fim de Weimar. Contando com maio-
ria absoluta, Hitler pôde aprovar o seu “Ato de
Incumbência” no Reichstag, o que dava a seu ga-
binete o poder de legislar sem o referendo do par-
lamento. Dois meses depois, todos os outros
partidos políticos, inclusive os nacionalistas que o
apoiaram, foram fechados. Nos meses seguintes,
Mann adotou uma posição discreta em relação aos
acontecimentos e coube a Heinrich, em Paris, de-
fender a causa do antifacismo alemão. Nas ceri-
mônias de queima de livros montadas em todo o
Reich, em maio de 1933, Mann foi poupado, o mes-
mo não ocorrendo com Heinrich.
Retornemos agora ao tema de Mário e o mágico,
para, em seguida, tentarmos esclarecer certos as-
pectos da liderança carismática. Cippola, o mági-
co, é um domador de multidões, mas é também
uma “cebola”, formado de camadas superpostas,
sem nada diferente em seu interior. O mágico tem
uma capacidade teatral e persuasiva de gerar a
submissão. A platéia não se distancia, ao contrá-
rio, parece estar hipnotizada. Tanto que ocorre um
intervalo na apresentação do mágico e ninguém
se retira. O próprio autor não explica sua perma-
nência no local:
Antes de qualquer outra coisa, é preciso dizer que
neste momento houve um intervalo e o homem que

78
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

nos tinha sob seu domínio retirou-se. Confesso que


temi este ponto de minha história desde o momen-
to em que a comecei. Geralmente não é difícil ler o
pensamento das pessoas, e aqui foi muito fácil. É
claro que vocês irão me perguntar por que não fo-
mos embora finalmente. E sinto-me na obrigação de
ficar devendo uma resposta. Eu mesmo não com-
preendo e não saberia realmente me justificar.7

As crianças, por exemplo, insistem em perma-


necer ali, incapazes de distinguir o grotesco do trá-
gico. Há um clima premonitório e, ao mesmo
tempo em que se percebe a manipulação do mági-
co, não se pode dela escapar, não há como evitá-la.
O fim explosivo e catastrófico está no ar. Em resu-
mo, o autor chega a um balneário com a família e
vários acontecimentos incômodos sugerem que ele
desista e vá embora. Contudo, ele fica, a sensação
é desagradável, mas o prende.
Mann ficou satisfeito quando um crítico disse,
a respeito dessa novela, que ela não tinha nada
contra os italianos. Talvez ele tenha preferido ver
a fera através do espelho e assim preferiu falar dos
“meridionais”:
Ele soube se impor pela palavra. Entre os meridio-
nais, a linguagem é um ingrediente da alegria de
viver, e dão a ela um valor social muito mais impor-
tante do que o fazem no norte. Entre os povos do
sul, tem-se em grande honra esse elo nacional, que
é a língua materna.8

Cippola soube se fazer cativar a ponto de ge-


rar obediência e, junto, a perda da dignidade. A
obediência que ele gera é “voluntária”, na medi-
da em que a força física não é usada, não obstante
a persuasão tenha ultrapassado os limites da dig-
nidade. Sobre isto, é esclarecedor o que o autor
fala a respeito da confusão de emoções contida
no espetáculo:

79
Coleção Convite ao pensar

Curioso e cativante, inquietante e doloroso, e também


humilhante. Talvez mais ainda. Essa sala constituía o
ponto de condensação de toda a curiosa singularida-
de, de toda a insegurança, de toda a tensão de que a
atmosfera de nossa estada em Torre estava carregada.
Esse homem cujo retorno esperávamos parecia encar-
nar tudo isso. E como não havíamos feito uma “gran-
de” partida, seria ilógico fazer uma “pequena” partida.
Aceitem ou recusem essa explicação. Em todo caso,
não tenho uma melhor.9

Cippola não age sozinho. Mário, o garçom, é


humilhado, revelando sua própria intimidade ao
público, público que, seduzido por Cippola, tor-
na-se seu aliado. Os que percebem a trama não
conseguem sair ou tomar qualquer iniciativa. Não
há ninguém na platéia capaz de escapar à experiên-
cia totalitária. Os poucos inquietos ali presentes são
incapazes de tomar qualquer decisão.
Tomemos agora de empréstimo alguns recur-
sos da teoria política. Uma importante reflexão
sobre a obediência remonta a Ettiene La Boettie
(1500), em seu conhecido Discurso da servidão vo-
luntária. Dito de maneira bastante simplificada,
segundo ele as pessoas obedecem por hábito, por-
que não sabem que podem deixar de fazê-lo; por
sedução, porque os governantes as encantam; e
para amealhar bens, isto é, por interesse. Quatro
séculos mais tarde, Max Weber reelaborou essas três
condições da obediência, baseando-se na constru-
ção dos três tipos puros de dominação legítima: tra-
dição, carisma e racionalidade. Essa abordagem é
uma construção teórica, apresentada através do re-
curso da comparação, e conceituada através de ti-
pos ideais, aqueles que não se encontram em estado
puro na realidade.
Em que medida o esquema teórico dos três ti-
pos de dominação legítima, construído por Weber,
pode ser útil para a compreensão da obediência

80
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

da maneira como a estamos tratando aqui, obe-


diência e perda da dignidade? Como já foi sugeri-
do anteriormente, Mário e o mágico é um libelo
contra o fascismo e, especificamente, contra aque-
le líder carismático que doma e amordaça multi-
dões. No caso de Hitler, não podemos nos esquecer
do caráter legal de sua ascensão – ele chegou ao
poder através de eleições. A coerção estava, natu-
ralmente, embutida. Em sua ascensão prevaleceram
os ingredientes de sedução. O calor do encantamen-
to que ele gerou, politicamente, foi um aval para
sacrifícios futuros. Portanto, não estava escrito na
testa do sedutor de multidões que, por trás do con-
sentimento, viria a coerção, e que, detrás dos inte-
resses coletivos, estavam os interesses particulares,
daí sua força de transformação.
Para compreender melhor esse tipo de relação,
pode nos ser útil a distinção entre consentimento in-
formado e consentimento manipulado. De uma ma-
neira bastante sucinta, considera-se o consentimento
manipulado aquele que ocorre quando as metas, não
sendo coletivas, se apresentam como tal. Portanto,
quem tem controle e influência sobre os outros se
apresenta como portador das metas coletivas do gru-
po. A manipulação ocorre na medida em que o con-
trolador deverá obscurecer o caráter privado de seus
objetivos, os quais não poderão ser compreendidos.
Assim, o controle e a influência sobre a ação dos ou-
tros são exercidos contra a vontade deles ou sem o
seu entendimento. O consentimento informado, ao
contrário, ocorre na situação em que existem metas
coletivas e o consentimento sobre a ação dos outros
se dá através de uma avaliação que pode ser racional
e constatável. Ou seja, pode-se conhecer as razões do
consentimento, portanto, não é necessário haver obs-
curecimento da consciência ou do que estamos en-
tendendo aqui como manipulação.

81
Coleção Convite ao pensar

De outra parte, vamos tentar entender o caris-


ma, lembrando que o conceito é comparativo, isto
é, comprende-se melhor esse tipo de dominação
comparando-o com os tipos tradicional e racional-
legal. Na tradição, obedece-se à pessoa em virtude
do hábito; no carisma, obedece-se à pessoa do líder
em virtude do afeto capaz de gerar a crença em suas
qualidades extracotidianas; na dominação racional-
legal, obedece-se não à pessoa, mas ao cargo que
ela ocupa em virtude da disciplina de serviço e ba-
seando-se no critério da competência específica.
Aqui são necessários alguns esclarecimentos.
O senso comum hoje utiliza o termo carisma como
atributo de uma pessoa ou também como puro
charlatanismo. Na teoria de Weber, só é considera-
da carismática a liderança que faz seguidores. O
charme pessoal, o encanto de um ator, atriz ou apre-
sentador de programa de televisão costumam ser
chamados incorretamente de carisma, pelo menos
do ponto de vista técnico. Outro engano comum
no uso do termo é confundi-lo com demagogia, ou
com o charlatanismo, simplesmente.
De acordo com Weber, o líder carismático pode
ser o grande demagogo, o herói guerreiro e o pro-
feta. No conjunto do seu esquema teórico, o caris-
ma como o “sempre novo” é visto como o tipo de
liderança mais autoritária, mas também a que tem
o maior poder de transformação. Sendo assim, en-
tende-se a razão que levou Weber, ao final da vida,
preocupado com a “jaula de ferro” da racionalida-
de instrumental, a pensar no surgimento de um
novo profeta como solução para a humanidade.
Com isto, quero dizer que utilizar o conceito
de carisma não seria de todo correto para o caso de
Mário e o mágico, mas também não seria de todo in-
correto. A relação desigual, que é capaz de encantar
e gerar formas de obediência as mais devastadoras,

82
Submissão e revolta em Mário e o mágico, de Thomas Mann – Léa Souki

é descrita por Mann tanto no seu aspecto de trans-


formação como de destino inevitável. Além disso, é
magistral a maneira como Mann revela a violência
embutida na sedução do mágico. Cippola é capaz
de fazer um púbico inteiro (quase toda a pequena
cidade estava presente à sessão) crer em suas quali-
dades extracotidianas e, por isso, gerar um fascínio
que leva à obediência. Obediência que foge aos li-
mites da dignidade. Alguém se humilha sem ser
coagido fisicamente e a submissão é tamanha que
alguns agradecem a oportunidade de vivenciá-la.
Até que um garçom busca recuperar sua dignida-
de. Mann fala-nos, assim, da capacidade de revolta
contra o tirano:
“Mário volta-se bruscamente, ergue rapida-
mente o braço, e dois tiros ecoam, entre os aplau-
sos e risos”.

NOTAS
1
Na realidade, foi Erika, filha mais velha do escritor, quem lhe
sugeriu o final explosivo, o que adicionou à novela muito do
seu caráter inquietante.
2
MANN. Mário e o mágico, p.17
3
MANN. Mário e o mágico, p.179.
4
HAMILTON. Os irmãos Mann, p.354.
5
Carta de 20/01/30 - Apud HAMILTON. Os irmãos Mann, p.344.
6
Apud HAMILTON. Os irmãos Mann, p.344.
7
MANN. Mário e o mágico, p.47.
8
MANN. Mário e o mágico, p.35.
9
MANN. Mário e o mágico, p.48.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HAMILTON, N. Os irmãos Mann. São Paulo: Paz e Terra, 1985.


MANN, T. Mário e o mágico. São Paulo: Círculo do Livro, 1973.
WEBER, M. “Los tres tipos puros de dominácion legítima”. Eco-
nomia y Sociedad. México: Fondo de Cultura Eonómica, 1973.

83
Coleção Convite ao pensar

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SOBRE O FILME METRÓPOLIS
Euclides Guimarães

O texto que se segue resulta da transcrição fei-


ta sobre a gravação da pequena participação que
tive no programa cultural “Convite ao pensar”,
quando fui convidado para falar sobre o filme Me-
trópolis, de Fritz Lang. Sobre a transcrição foi feita
uma revisão com vistas a adaptar a fala ao texto,
mas procurei preservar as características da orali-
dade que, acredito, proporcionam mais fidelidade
à natureza do texto.
Metrópolis é um clássico do cinema alemão dos
anos 20, filme que representa de forma exemplar
um dos momentos mais brilhantes da história da
arte, período do auge do expressionismo. Para faci-
litar o entendimento do que vou comentar aqui,
devo dizer que minha formação não é de filósofo,
nem de artista ou crítico de cinema, e sim, de soció-
logo, de forma que minha análise se volta mais para
o contexto. Digamos que nós, sociólogos, somos um
pouco mais preocupados com fatos, de sorte que
permeio minha participação pela focalização do
momento histórico e teórico em que o filme Metró-
polis é realizado. Em outras palavras, interessa-me
mais o contexto que o texto (no caso, o filme).
Organizo minha participação da seguinte for-
ma: numa primeira parte, olho para um momento

85
Coleção Convite ao pensar

da história da cultura e analiso essa matéria de uma


forma mais ligada ao espírito da época. Numa se-
gunda parte, falo sobre Fritz Lang, o autor do filme
Metrópolis, que teve uma vida muito emblemática,
muito representativa do que foi esse período, uma
vida coincidente com as vidas de tantos outros in-
telectuais que viveram esse conturbado momento,
a primeira metade do século XX. Mais no fim, pre-
tendo fazer alguns comentários sobre o filme, resu-
midamente, apenas para dar algumas indicações de
como vocês podem olhar para essa obra, que é bri-
lhante, uma obra muito interessante, mas ao mes-
mo tempo um pouco distante do modo de olhar do
espectador contemporâneo.
Na verdade, trata-se de um filme lançado em
1926, ainda no tempo do cinema mudo, feito com
os recursos do cinema da época, o que nos obriga a
maleabilizar o olhar para poder entender essa obra,
de forma que se possa assistir ao filme um pouco
com os olhos daquele período.
Eu diria que duas décadas foram especialmen-
te importantes para a história da cultura no século
XX, a década de 20 e a década de 60, e que ambas
estão intimamente interligadas. As vanguardas dos
anos 60, em regra, estavam muito inspiradas nas
obras dos anos 20. Normalmente se encontram cla-
ras alusões a artistas ou a obras dos anos 20 nas
obras dos anos sessenta. Por exemplo, na Tropicá-
lia, Gilberto Gil e Torquato Neto lançam uma mú-
sica chamada “Geléia geral”, cuja letra encontra-se
repleta de versos do “Manifesto antropofágico”, de
Oswald de Andrade. Nessa mesma década, nasce
um grupo de Rock chamado “The doors”, cujo pró-
prio nome é tirado de um livro de Aldous Huxley
intitulado “The doors of perception”. Uma banda
chamada Black Sabbath inventa um movimento

86
Sobre o filme Metrópolis – Euclides Guimarães

chamado Heavy Metal, e o principal homenageado


é um bruxo do início do século chamado Alister
Krauley. Um outro grupo nos EUA, auto-intitulado
“Os Beatneeks”, aparece nesse cenário chamando
como precursores poetas da virada do século como
Whitman e Thoureau, mas principalmente um es-
critor dos anos 20, de grande envergadura, talvez o
maior da época, John Fante. Estou dando esses
exemplos apenas para ilustrar o fato de que é in-
contestável a influência das vanguardas dos anos
20 sobre as dos anos 60. E, de fato, o clima inte-
lectual dos anos 20, momento em que o filme Me-
trópolis é realizado, caracteriza-se como um dos mais
ousados da história, pois se nos anos 60 havia essa
referência aos anos 20, nesses, o que estava aconte-
cendo era uma coisa muito inovadora. É claro que
essa inovação não foi toda situada nos anos 20, mas,
nas primeiras décadas do século, como acontece com
o “expressionismo”. Sendo, entre as vanguardas
daquela época, o movimento que angariou mais no-
mes e também o mais abrangente, o expressionis-
mo nasce na virada do século, mas vai ter o seu
momento máximo nos anos 20. Só então o movi-
mento passa a abranger outros campos além da li-
teratura e das artes plásticas, notadamente o
cinema. A maior parte dessas vanguardas nasceu
antes dos anos 20, mas é nessa década que elas en-
contram seu apogeu.
O expressionismo é muitas vezes identificado
como a arte da guerra, por ter tematizado prefe-
rencialmente as agruras da Primeira Guerra Mun-
dial, mas sua maior produtividade ocorre nos anos
seguintes. Também o surrealismo, tido como a mais
radical das vanguardas modernas e, como tal, sin-
tetizadora do espírito da arte do início do século, é
próprio dos anos 20.

87
Coleção Convite ao pensar

Outro dado importante sobre os anos 20 é que


se trata da década que presencia o advento do que
hoje denominamos “meios de comunicação de mas-
sas”. Surge a indústria fonográfica, a radiodifusão,
o best seller. Podemos dizer que, se no início da dé-
cada cada localidade do planeta vive encerrada em
sua cultura, no final já existe uma padronização, já
existem tendências culturais generalizadas, que pra-
ticamente englobam todo o Ocidente.
Muito bem, foi também sob a influência desse
contexto que o cinema deixou de ser uma engenhosi-
dade ótico-cinética, para reivindicar a condição de
um revolucionário suporte para a arte. Entre os pri-
meiros cineastas imbuídos dessa idéia encontramos
esse nome, esse austríaco que nasceu no final do
século XIX e que já em 1906, com não mais que 18
anos de idade, estava se mudando para Berlim para
tentar a vida como roteirista de cinema. Esse é o Fritz
Lang. Nesse sentido, a vida de Lang corresponde
perfeitamente aos acontecimentos intelectuais de
seu tempo. Berlim se tornou, especialmente no iní-
cio do século XX, uma cidade muito importante.
Logo depois da Primeira Grande Guerra emerge na
história da Alemanha um período que ficou conhe-
cido como “República de Weimar”, período crucial,
até pelas grandes contradições que carregou. Se, do
ponto de vista socioeconômico, foi um desastre, a
ponto de dar margem ao surgimento do nazismo,
do ponto de vista cultural, foi um grande momento
da história. Uma época de grande profusão e ex-
perimentação artística, de efervescência cultural,
de grandes debates. Um movimento chamado “A
ponte” inaugurou em Berlim outro dos grandes
marcos das vanguardas modernas, o Dadaísmo.
Toda a cultura germânica fervilhava por essa épo-
ca; em Weimar nasce a “Escola Bauhaus” de arqui-
tetura, em Frankfurt, a Teoria Crítica, uma das mais

88
Sobre o filme Metrópolis – Euclides Guimarães

expressivas forças da filosofia e da sociologia con-


temporâneas. Também a fenomenologia de Husserl
e Heidegger, a lógica de Frege e Wittgenstein com-
pletavam o quadro de um dos maiores momentos
da história do pensamento ocidental. No campo das
ciências e tecnologias circulam homens da enver-
gadura de um Einstein ou um Von Brown, na psica-
nálise Freud, na literatura Hesse, Thomas Mann,
Gertrude Stein. É importante, para que situemos o
clima e o debate cultural da época, perceber quanto
os cenários se definiam em torno de certos centros
urbanos, certas instituições como as universidades
ou mesmo de logradouros das cidades, pontos de
encontro que emanavam influências em caráter
quase instantâneo, onde se reuniam cabeças pen-
santes de vários países, formações e idéias, todos
unidos pelo cosmopolitismo, o futurismo cheio de
ideais, o desejo do novo, o experimentalismo e o
astral vanguardista.
É justamente nesse cenário que o cinema apare-
ce como uma grande alternativa para a linguagem
artística, preenchendo melhor que qualquer outro
conjunto de recursos expressivos a grande norma de
conduta das vanguardas: “É preciso ser absolutamen-
te moderno.” Com tais palavras, ainda no final do
séc. XIX, Rimbauld resumiu e antecipou a grande
vocação dos tempos modernos, quando então se
delineava a busca incansável pela criatividade, pela
originalidade, pelo novo. Por trás dessas palavras
estava embutida a necessidade da ruptura, isto é,
romper com tudo que existiu antes, começar de novo
a história da civilização, porque a história que nos
foi dada até agora é sobretudo frustrada.
Esse processo de começar de novo é bastante
complicado, tanto que acabou por atropelar as pró-
prias vanguardas e transformar o modernismo em
algo, por assim dizer, mais light, a partir dos anos

89
Coleção Convite ao pensar

30. Mas, nos anos 20, esse clima está no auge; en-
tão, o cinema aparece como o suporte preferencial,
onde os artistas de vanguarda podem testar, de
uma forma completamente inédita, sua criativida-
de, seu experimentalismo. Fritz Lang circula antes
de 1906 nesse cenário, tentando a sorte como ro-
teirista, mas era também um bom desenhista; nes-
te caso, é muito influenciado tanto pela literatura
policial – que a essa altura já se encontra mercado-
logicamente estabelecida, isto é, já tem seu públi-
co fiel – como também pela nascente ficção
científica. Esta vinha se tornando uma espécie de
“menina dos olhos” dos jovens artistas daquele
momento. Tendo, como o gênero policial, suas ori-
gens no século XIX, a ficção científica estava em
franco crescimento, justamente em função do es-
panto que as descobertas e as máquinas estavam
causando, para não falar da própria força da ciên-
cia como conhecimento capaz de coordenar o ca-
minho de um novo mundo.
Extremamente significativo nesse sentido é o
trabalho de H. G. Wells intitulado A ilha do Dr. Mo-
reau, em que se discute até onde qualquer atitude
pode ser validada em nome da ciência. Até que pon-
to empecilhos éticos podem ser colocados para o
desenvolvimento da ciência? A questão permanece
tão atual quanto naquele tempo, como podem con-
firmar os debates que hoje são travados em torno
da engenharia genética, da clonagem e dos transgê-
nicos. H. G. Wells era uma espécie de ídolo para
jovens como Lang, de sorte que sua obra influen-
ciou diretamente o que mais tarde apareceria no ci-
nema desse autor, especialmente em Metrópolis.
O jovem Lang havia saído de Viena, carregan-
do consigo todas essas influências modernas, mui-
to a contragosto da família, o que também não é de

90
Sobre o filme Metrópolis – Euclides Guimarães

se estranhar, já que o pai era um eminente arquiteto,


e o filho já havia iniciado seus estudos em arquitetu-
ra, demonstrando grande talento para o desenho.
Além disso, Viena significava estabilidade e sucesso,
enquanto Berlim era incerta. Pesam ainda sobre isso
os aspectos quase sempre muito insalubres relacio-
nados à vida de um intelectual europeu no início do
século. A cena cultural, freqüentemente denomina-
da “boêmia”, envolvia virar madrugadas, consumir
álcool e drogas, se expor a epidemias fulminantes
como a sífilis e a tuberculose, e viver nas fronteiras
da imoralidade. Mas, naquela época, a inquietude
facilmente contagiava os jovens intelectuais que,
em busca de uma modernidade a se conquistar, lan-
çavam-se de corpo e alma nas aventureiras cenas das
grandes cidades. Lang certamente foi um desses jo-
vens, um tipo realmente emblemático do momento
histórico em que viveu.
Em 1910, o nome de Fritz Lang encontra seu
primeiro momento de sucesso. Ele passa a ficar
conhecido por sua participação como roteirista no
filme “O gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Weil,
filme tão ou mais importante que Metrópolis. Pou-
co depois, casa-se com uma mulher também mui-
to importante, Thea Von Habour. Trata-se de uma
escritora que é autora, entre outras obras, do ro-
mance intitulado Metrópolis, do qual Lang extrai a
história do filme.
No final da década de 20, vem o período de
emergência das ditaduras que vão transformar ra-
dicalmente o cenário da Europa para a década se-
guinte. Então, aparece Stalin na URSS, e, na
Alemanha, começa o clima que vai desembocar no
nazismo. Fritz Lang desde o início se coloca contra
o nazismo, mas fortes argumentos sustentam tal
ideologia, de sorte que muitos de seus amigos ade-
rem e trabalham para o movimento. Uma dessas

91
Coleção Convite ao pensar

pessoas foi surpreendentemente Thea Von Habour,


mulher de Fritz Lang. Isto resultou portanto na se-
paração e no exílio de Lang.
O exílio dos intelectuais que estavam fugindo
do nazismo era algo mais ou menos fixo também.
Eles iam para Genebra ou Zurich, devido à famosa
neutralidade suiça, alguns iam para Paris, mas o
certo é que toda a Europa passou a ser insegura, na
medida em que, além da ameaça constante da ex-
pansão do nazismo, havia o perigo renitente da ação
terrorista do serviço secreto de Hitler, a Gestapo. En-
quanto isso, aparecia o convite de um novo mundo
que, naquele momento, esticava tapete vermelho
para qualquer renomado intelectual europeu que
nele quisesse se asilar: a América. Incontáveis ju-
deus, alemães, italianos e europeus de um modo
geral encontraram nos EUA um novo lar, incentiva-
dos por propostas irrecusáveis das universidades,
empresas, institutos de pesquisa, editoras, produ-
toras cinematográficas etc. Nos EUA dos anos 30
configurou-se uma nova fase na história da cultura
ocidental, a era da comunicação de massas: nasce o
best seller, o star system, a parada de sucessos e a mais
sintomática das indústrias culturais, o supercinema
de Hollywood. O exílio para os EUA foi também a
opção de Lang.
O novo capítulo na história da cultura foi tam-
bém um novo capítulo na história de Lang. Nos
EUA, provavelmente, a opção de Lang teria sido
continuar sua carreira, mas se existe algo que não
combina com o espírito norte-americano é o expres-
sionismo. De fato, os americanos sempre foram
muito mais ligados a uma espécie de “realismo high
tech”, que ao expressionismo. O tipo de cinema que
Lang fazia teria soado hermético e enfadonho para
as propostas da cultura americana, de forma que
sua carreira sofreu uma incrível guinada. Talvez seu

92
Sobre o filme Metrópolis – Euclides Guimarães

entendimento do novo contexto em que se inseria


o tenha levado a uma outra postura profissional:
Lang se torna empresário. Continua no cinema,
dada sua longa experiência na área, mas agora
como empresário. Dessa forma encerra-se uma car-
reira artística que passaria para a história como
uma das mais arrojadas manifestações do expres-
sionismo alemão. Cabe agora apontar algumas das
características marcantes do movimento expressio-
nista, as quais se mostram, por assim dizer, abun-
dantes no filme Metrópolis.
Primeiramente, é importante destacar a denún-
cia da reificação do homem. O operário robotizado,
oprimido pela máquina enquanto transformado em
parte dela é, seguramente, um dos temas prediletos
de todo o modernismo da época. O cinema se põe a
serviço de alegorizar esse processo, o qual se mos-
tra, como nunca, ameaçador. Ao mesmo tempo, pen-
sar o futuro significava também pensar uma estética
para o futuro. Inspirada nesse mesmo processo de
industrialização intensa, aparece essa visão do ho-
mem do futuro, vestido com trajes metálicos, pratea-
dos, brilhantes. Metrópolis inaugura essa perspectiva
estética para a visualização do homem do futuro,
que depois será propalada por tantas outras obras
de ficção científica, não só no cinema, mas especial-
mente nos quadrinhos e na televisão.
Outra coisa muito própria do expressionismo
alemão é essa questão do artificialismo, uma espé-
cie de alegoria cenográfica. Cada personagem re-
presenta não apenas uma vida, mas um papel social
que está sendo marcante na situação histórica que
a obra retrata. Em praticamente todo o cinema ex-
pressionista é assim: você tem um personagem vi-
vendo uma situação pessoal, mas na verdade não
se trata de uma situação pessoal. Esse personagem
representa uma classe social, ou uma categoria

93
Coleção Convite ao pensar

profissional, ou uma categoria intelectual; se ele é


um artista, ele não é “um” artista, ele é “o” artista
daquele momento; se ele é um operário, ele não é
um operário, ele é a engrenagem industrial daquele
momento. Trata-se desse processo alegórico, arti-
ficial mas, fundamentalmente, simbólico – e lem-
bremos que o simbolismo ainda é muito forte entre
as vanguardas modernas do início do século.
Toda essa alegoria talvez seja a mais importan-
te marca do filme Metrópolis, a presença constante
da máquina, o homem como parte da máquina, os
braços que trabalham como ponteiros de um reló-
gio. Não apenas os expressionistas, mas outros gran-
des artistas e outros movimentos também se
colocarão a serviço dessa denúncia: Chaplin, Gris,
Lèger, Ensor, Huxley, Orwel são alguns exemplos,
entre muitos.
Por essas poucas indicações creio que abro cer-
tos caminhos para que se veja esse filme com ou-
tros olhos. As tantas décadas de evolução na
linguagem e na tecnologia que nos separam do
tempo em que foi rodado esse filme exigem que se
maleabilize o olhar, pois, de outro modo, incorre-
ríamos no erro de julgamentos pobres e no perigo
de se perder o indiscutível teor artístico da obra.

94
MODERNIDADE: HISTÓRIA E MEMÓRIA
Yonne de Souza Grossi

Somos memória.
Jorge Luis Borges

Há coisas que estão presas na memória do tem-


po, como um momento, uma lembrança, uma ex-
periência. Através delas se pode desfiar a teia do
acontecimento instituinte, urdir a trama das rela-
ções indeterminadas, descobrir lacunas que cobrem
processos. Natalie Zemon indicaria o caminho da
“atenta escuta às vozes do passado”.1 Dirá Euzens-
berger: “Se mil olhos viram Durruti, é justo que mil
bocas contem o que viram.”2 Paul Ricoeur oferece o
“exercício da suspeita” e a “vontade de escutar”,
como ingredientes do processo da interpretação;
Alfredo Bosi lembra que interpretar significa uma
escolha, entre as múltiplas possibilidades eleitas,
capaz de abrir a questão problematizada.3 O pro-
blema da significação coloca-se para a história, as-
cendendo a posições diferenciadas quanto à maneira
de se lidar com a realidade; ou seja, com o espectro
de singularidades que o existente registra, com os
limites expostos pelas rupturas, com os intervalos
possibilitados pelas permanências.4 Essa busca de
interpretação, para se conseguir significar, é uma das
linhas de força do conhecimento.
No tema proposto, o campo territorializado
ultrapassará o perfil de um personagem. Perscru-
tará um contexto mais amplo, sem o qual os prota-
gonistas seriam inexeqüíveis. Apagados, deixariam

95
Coleção Convite ao pensar

sombras tênues sem configurações capazes de se


efetivar com nitidez. Atravessam as três últimas
décadas do século XX, acolhendo seus desafios e
dilemas. Como interpretar a tessitura desse proces-
so? Como perceber as passagens, caso tenham sido
construídas? De que temporalidade falamos quan-
do se pensa na relação das memórias com o passa-
do? Nós somos as histórias que contamos, mas, sem
a memória, como a experiência irá aflorar? Como
fazer se as temporalidades estão fragmentadas? Se
o vivido não deixa nem herdeiros nem obras? Como
dar o testemunho de uma época? Como evitar a
perda de momentos significantes? Jornadas tam-
bém são habitações que recebem e acolhem mar-
cas, construindo espaços de memória.
A memória, na Grécia antiga, era precondição
do pensamento. Deusa da memória, Mnemosine era
também considerada deusa da sabedoria. Assim, a
ciência da recordação era base do processo de apren-
dizagem. Aristóteles deu-lhe lugar de honra entre
as disciplinas do pensamento. Para Cícero, a me-
mória regia todas as pedagogias e era origem e fon-
te do pensamento. Santo Agostinho, em passagem
das Confissões, a compara a um palácio onde “se
encontra todo o tesouro de nossa percepção e ex-
periência”. Os escolásticos medievais reviveram a
arte da memória, segundo Tomás de Aquino. Seu
grande florescimento na Renascença tornou-a ma-
triz tanto para a arte como para a ciência.5 Hoje, a
experiência da lembrança, segundo frankfurtianos,
torna possível armar cenários de subversão do nor-
matizado e do instituído. Inclusive, assistimos a um
desejo imenso de memória em nossa época.
Pierre Nora alicia situações estruturais que
poderiam explicar esse desejo de memória.6 Hou-
ve um movimento de alteração do tempo. A histó-
ria se faz com rapidez, o fato se torna notícia, o

96
Modernidade: história e memória – Yonne de Souza Grossi

novo, a ânsia pelo novo direciona as vidas, sendo o


efêmero uma sensação constante. O passado cede
lugar ao eterno presente, ameaçando, por vezes, a
perda da identidade. Face o contemporâneo rápido
de cunho desintegrador, tentamos segurar vestígios
e sinais. O termo aceleração da história foi criado por
Nora para clarificar esse fenômeno inusitado. Eis
porque desejamos renovar algumas lembranças.
Penetrar em alguns reinos territorializados: ora
malditos, ora ameaçadores. Estariam situados no
campo de hybris, a desmedida? Sua qualificação
seria capaz de despertar sujeitos de reflexão?
Tocaremos três reinos que recortam uma visi-
ta a lugares antigos, habitados pela razão e pela
paixão. Outros se definem como princípio de rea-
lidade. Seu campo, dissemos, circunscreve as três
últimas décadas deste século. Seu poder prepon-
dera territórios de rupturas e de permanências, li-
mites que, não raro, expõem fraturas. Intervalos
que alicerçam possibilidades. Seu itinerário des-
cobre terras que dão a impressão de nivelamento e
de profundidade. Há uma presença de história.
“Somos, ainda hoje, uns desterrados em nossa
terra.” Esta frase luminosa, que abre o clássico Raízes
do Brasil, do professor Sérgio Buarque de Holanda,
condensa a substância de sua geração. Simboliza o
marco da consciência intelectual brasileira, repre-
senta uma figura histórica, quase mítica: a intelli-
gentsia nacional. De origem russa, no seu sentido
original, a palavra intelligentsia definia “um grupo
de pessoas de cultura unidas por idéias críticas ao
sistema, opostas à especialização acadêmica, e
marcadas por uma forte conotação ética”.7 Esses
seriam intelectuais ligados à cultura pública: es-
critores de fronteira, ensaístas talentosos, críticos,
polemistas. Não se submetem à universidade e sim
à esfera pública. Sua autonomia livra-os de uma

97
Coleção Convite ao pensar

submissão a disciplinas especializadas. Entre outros,


temos Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holan-
da, Josué de Castro, Caio Prado Júnior, Celso Furta-
do. O peso do academicismo só se fará sentir na
geração nascida após a Segunda Guerra. É que “a
sociedade dos cafés propiciou o aforismo e o en-
saio; o campus da escola superior produziu a mono-
grafia e a conferência – e a aplicação de subvenção”.
Também, os intelectuais mais jovens não necessi-
tam ou desejam um público amplo; eles são exclu-
sivamente professores: os campi são seus lares, os
colegas, sua audiência; as monografias e os jornais
especializados, seu meio de comunicação. O que
representa, para Emir Sader, “um extremado capi-
talismo acadêmico”. Os trabalhos acadêmicos repre-
sentam situações vivenciadas nas universidades e
não atendem a necessidades públicas e sim a exi-
gências institucionais. Diagramas, tabelas, registros
computadorizados transformam a sociedade em um
canteiro de obras. A hiperespecialização deixa de
lado questões essenciais. Termos como justiça, di-
reito, sociedade, nação, tirania, são substituídos por
jogo, atitude, comportamento, subjetividade. Assim,
“a derrota dos anos sessenta só foi completa quan-
do se consolidou no campo das idéias e da teoria”.
Dessa forma, as escolhas políticas radicais, ain-
da que configurem um campo eletivo dos intelec-
tuais, acadêmicos, deixam claro que sua produção
científica não só é inacessível extramuros, como não
tocam em temas de interesse da esfera pública. Os
anos de regime político-militar contribuíram, não
raro, para que intelectuais escondessem e se enco-
lhessem nas universidades. Mas, não se pode atri-
buir a perda da intelligentsia brasileira apenas aos
ditames do autoritarismo, com sua mecânica re-
pressiva e de censura. O crescimento das cidades,

98
Modernidade: história e memória – Yonne de Souza Grossi

a expansão da universidade e conseqüente especia-


lização são outros momentos do processo. Entre-
tanto, os anos de tirania contribuíram para urdir e
tramar esse reino de enclausuramento da intelli-
gentsia brasileira. O que fazer?
Como pensar, hoje, o itinerário de uma geração
que se aparta de suas sucessoras? Parte daquela
geração dos anos sessenta abriga um projeto revo-
lucionário, cujo desprendimento e disponibilidade
alicerçavam jovens em ideais humanistas. A des-
crença no capitalismo como capaz de resolver pro-
blemas tecidos pela desigualdade social e injustiças
induzia à luta. Também, a cena política abria espa-
ço para um novo personagem: os trabalhadores do
campo. Em 1962, a cidade de Belo Horizonte foi
palco de realização do primeiro congresso de fave-
lados, para se discutir a questão da propriedade
urbana; congresso este partilhado com os trabalha-
dores rurais, cuja bandeira ecoava dizeres emble-
máticos: reforma agrária, na lei ou na marra.8
A ausência de um imaginário político que acio-
nasse o vetor de opções, impulsionava a reinven-
ção de caminhos utópicos: a certeza de que os anos
sessenta aconteceram para tudo mudar. Edgar Mo-
rin foi testemunha do maio de 1968 francês; no Bra-
sil, assistindo às nossas passeatas, declarou ser um
“êxtase da história”. Raymond Aron admitiu que a
França mudara, mas se pasmou com a “demência
coletiva”. Na Alemanha, Jurgens Habermas consi-
derou os rebeldes em 1968 uns “fascistas de esquer-
da”. Hoje, reconhece que mudanças culturais, da
ecologia ao individualismo, têm uma das matrizes
naquele ano.9 O mundo parecia ter girado a mítica
roda da fortuna. Um apelo anunciava que a inser-
ção naquele tempo histórico era quase inevitável. A
hora era de escolha, não de contingência.

99
Coleção Convite ao pensar

As gerações que vieram depois habitaram um


reino que se foi estreitando: sem liames com o pas-
sado, as energias utópicas se perdendo. Reino mal-
dito que hospeda muros caídos, regimes em ruínas.
Pode-se constatar que nem mesmo os movimen-
tos sociais são tocados pela paixão libertária, for-
çando passagens perigosas, explorando terras
desconhecidas. Como marco simbólico, o ano de
1989, com a queda do muro de Berlim – o fim e o
início de uma era. Mais uma vez, utopia e política
agenciam o drama da aventura humana.
Segundo Abensour, hoje trabalhamos a histó-
ria sem descortino do futuro. Sem criar cenários de
emancipação humana. Todavia, a utopia – enquan-
to o não-lugar, algo além de nós – pode caminhar
junto ao político, espaço livre da palavra e da ação.
Quem sabe, seria possível pensar a transformação
histórica, que prescinde de uma visão social de con-
junto?10 Como fazer?
Outra dimensão a se considerar expressa-se
como um reino que, de certa forma, devasta idéias
libertárias: o individualismo exacerbado. Há uma
hiperprivatização do sujeito. Este se apresenta au-
tônomo, racional em suas escolhas, mas apático em
relação a questões de interesse público. Em con-
trapartida, as contradições de uma sociedade que
se tornou complexa o coloca em confronto com o
nivelamento das massas. Tal dilema o transforma
num ser cindido, vazio, indiferente, às vezes.11 No
entanto, para Gilles Lipovetsky, o individualismo
deita suas raízes nos séculos XVII e XVIII. Segue a
esteira de Tocqueville que o estuda na América do
Norte, e o seu alastrar-se pela Europa. O debate
político o coloca como um dos momentos consti-
tuintes da democracia. Toda a lógica da vida eco-
nômica, política, moral etc. baseia-se no indivíduo.

100
Modernidade: história e memória – Yonne de Souza Grossi

Entretanto, as manifestações do individualismo


atual desprendem-se de suas fontes primeiras, or-
denadoras e disciplinares de comportamentos; ago-
ra se tornou permissível, agenciando desejos sem
o constrangimento das escolhas. Palavras como
austeridade, coletividade, costumes são substituí-
das por liberdade, subjetividade, realização pes-
soal e profissional.
O indivíduo torna-se um objeto apropriado
pelo desejo. Indivíduo narcísico. Seu interesse é
pelo agora. As utopias que ordenavam as ações
políticas, dando sentido à vida, perdem sua razão.
A natureza e o grau de importância das opções são
revertidos. A identidade não se configura no cole-
tivo das grandes associações. Buscam-se pequenas
organizações de interesses especializados: de al-
coólicos, de divorciados, consumidores de deter-
minados produtos e de determinados jogos etc.
Como inferiu Tocqueville, no século XIX, os
laços de solidariedade tendem ao enfraquecimen-
to. A flexibilidade dá a tônica, no dizer de Lipo-
vetsky, o que, no limite, poderá criar o vazio. Para
Tocqueville o resultado seria a apatia e a atomiza-
ção do social. Lembro Saramago em seu In Nomine
Dei: “Entre o homem, com a sua razão, e os ani-
mais com o seu instinto, quem, afinal, estará mais
bem dotado para o governo da vida?”

NOTAS
1
DAVIS, Natalie Zemon. O retorno de Martin Guerre. Rio de Janei-
ro: Paz e Terra, 1987. p.21.
2
Hans Magnus Euzensberger em entrevista à Folha de S. Paulo
quando do lançamento de seu livro O curto verão da anarquia –
Buenaventura Durruti e a guerra civil espanhola. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.
3
RICOEUR, Paul. Da interpretação. Ensaio sobre Freud. São Pau-
lo: Imago, 1977. C.1 e 2. BOSI, Alfredo. Céu, inferno. São Paulo:
Ática, 1988. p.274-287.

101
Coleção Convite ao pensar

4
PAIVA, Clotilde A., ARNAUT, Luiz D. H. “Fontes para o estudo
de Minas oitocentista: listas nominativas”. Anais/V Seminário
sobre a Economia Mineira. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR,
1990. p.85-106. (Ver, sobretudo, a 1a parte).
5
Raphael Samuel. “Teatros de Memória”. Projeto História. São Pau-
lo, (14), fev. 1997, pp. 41-42.
6
Márcia Mansor D’Aléssio. “Memória: leituras de M. Halbwachs
e P. Nora”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 13, no 25/
26, set. 92/ago. 93, pp. 97-98.
7
A discussão que se segue encontra-se no artigo de Emir Sader.
“Nós que amávamos tanto O capital”. Praga. São Paulo: Boi-
tempo Editorial, n.1, set./dez. de 1996, p. 62-64.
8
REFORMA Agrária, na Lei ou na Marra. Estado de Minas. Belo
Horizonte, 1962. (Mimeogr.)
9
VENTURA, Zuenir. 1968. O ano que não terminou. 17.ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p.13.
10
ABENSOUR, Miguel. O novo espírito utópico. Campinas: Papi-
rus, 1990.
11
Nesta discussão, muito nos estimulou a exemplar dissertação
de mestrado de Silvana Seabra de Oliveira, Para uma releitura
dos anos 70: a cultura individualista. Belo Horizonte: Departamento
de Sociologia, UFMG, 1994. p.26 e seguintes.

102
FRANKENSTEIN, DE MARY SHELLEY
Tomás de Aquino Silveira

Há alguns meses, a professora Sílvia Contaldo


de Lara telefonou-me solicitando a mim, um profes-
sor de Física, que falasse sobre Frankenstein, o livro
de Mary Shelley, e suas implicações para a ciência, a
filosofia, e a sociedade. Achei uma curiosa coincidên-
cia, pois conheci esse livro há mais de vinte anos, e
sempre nutri por ele uma genuína admiração, fatos
esses que jamais mencionei para a professora Sílvia,
ou para qualquer outro colega da PUC-Minas. De
fato, conheci o livro por meio de uma edição da Ediou-
ro,1 que era o décimo volume de uma coleção cha-
mada “Angústia”, que iniciava exatamente com o
Drácula, de Bram Stoker. Desde então, a história este-
ve presente em mim, e o mínimo que se pode dizer é
que ela é extremamente perturbadora, e penso que
vocês concordarão comigo, à medida que eu apre-
sentar o romance e o que penso dele.
É interessante anotar que, para preparar este
texto, retomei o velho volume que pertence a meu
irmão, mas logo depois descobri que a Folha de S.
Paulo tinha recentemente reeditado o livro, em con-
junto com a Ediouro2. Após adquirir o livro, qual
não foi minha surpresa ao perceber que a velha
edição era incompleta, havendo omissão do cor-
respondente a dez páginas da edição mais recente.
Além do mais, esta é uma edição mais bem cuida-

103
Coleção Convite ao pensar

da, com comentários e uma biografia da autora.


Então, com a oportunidade deste trabalho, redes-
cobri a obra e, pela primeira vez, pude conhecê-la
por inteiro!
O tema “Frankenstein” surgiu no romance aci-
ma referido, muito mencionado, mas pouco lido, da
escritora Mary Shelley, e acabou seguindo seus pró-
prios caminhos. Hoje ele tem, sem sombra de dúvi-
da, uma maciça presença entre nós. Por ocasião do
centenário do cinema, a Folha de S. Paulo publicou
uma pesquisa3 onde se listavam as personagens
mais filmadas pelo cinema, em número de filmes,
excluídas as personagens religiosas e os políticos
contemporâneos. Frankenstein alcançou o segun-
do lugar, com 160 filmes, só perdendo para Sherlock
Holmes, com 197 filmes. Em terceiro lugar vinha
Drácula, com 109 filmes, seguido de Tarzan (94 fil-
mes), Cinderela (69 filmes), e outros. Recentemente
o Discovery Channel apresentou um documentário
em que ele comparava Frankenstein ao progresso
científico da humanidade. Na enciclopédia virtual
Cinemania 99, aparece o registro de nada menos que
3l filmes com seus títulos contendo o nome
“Frankenstein”. Já em 1910 Thomas Edison produ-
ziu o primeiro deles. O mais célebre é, no nosso en-
tendimento, Frankenstein, de 1931, dirigido por
James Whale, em que despontou para a fama o ator
Boris Karloff, intérprete da criatura monstruosa pro-
duzida pelo cientista Frankenstein, com uma ma-
quiagem fantástica, e que gravou em nossas mentes
a primeira (e mais marcante) imagem concreta da
criatura, com remendos e parafusos.4 Esse filme ba-
seou-se em uma versão resumida do romance ori-
ginal feita para o teatro, e distanciou-se muito da
forma inicial. E foi ele um marco na carreira do di-
retor, que revisitou a personagem monstruosa em
“A noiva de Frankenstein” (1935), e em “O filho de

104
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

Frankenstein” (1939), este já sem Boris Karloff. Como


curiosidade, lembramos que James Whale é ele
mesmo personagem de um notável filme recente-
mente exibido em Belo Horizonte, Gods and mons-
ters, que trata de seus últimos anos de vida.
Uma versão mais fiel (mas não totalmente) ao
romance foi a experiência de Kenneth Branagh com
Mary Shelley’s Frankenstein (1994), filme que aca-
bou merecendo muitas críticas pelo fracasso em
transmitir a poesia que emana da obra original,
dela guardando apenas o caráter de história de
horror. Nele, a criatura monstruosa é encarnada por
Robert de Niro, e o papel do jovem cientista é feito
pelo próprio Kenneth Branagh. A televisão ameri-
cana exibiu no início da década de setenta uma
versão ainda mais fiel, e muito elogiada, com qua-
tro horas de duração: Frankenstein: the true story.
Por outro lado, a expressão “frankenstein” é fre-
qüentemente empregada como sinônimo de: mons-
truosidade; entidade formada de partes que não
combinam; criatura que se volta contra seu criador.
Diante desses breves exemplos, perguntamo-
nos: como esse tema adentrou a sociedade? Como
tudo começou? Para isso, necessitamos conhecer,
ainda que brevemente, a obra original.

MARY SHELLEY E
ARY SEU “FRANKENSTEIN”
Mary Shelley
Mary Woolstonecraft Shelley (1797-1851), in-
glesa, nascida Mary Woolstonecraft Godwin, era
filha de William Godwin e de Mary Woolstonecraft.
O pai, além de poeta, foi filósofo influente em seu
tempo, destacando-se como teórico do anarquismo.
A mãe é considerada por muitos como a primeira
feminista, tendo falecido poucos dias após o nasci-
mento de Mary. Esta teve uma vida movimentada,

105
Coleção Convite ao pensar

tendo crescido em um ambiente de intelectuais,


especialmente aqueles ligados ao Romantismo.
Para se ter uma idéia, ela uniu-se ao poeta Percy
Bysshe Shelley em 1814, quando este era casado, e
em 1816 casou-se com ele – daí seu sobrenome –
três semanas após o suicídio de sua esposa. Uma
irmã de Mary suicida-se mais ou menos na mesma
época, sendo comum explicar-se este fato por es-
tar tal irmã apaixonada pelo poeta, mas ter sido
por ele preterida em favor da irmã mais nova. Mary
teve quatro filhos com Shelley, dos quais só um,
Percy Florence, sobreviveu à infância. O casamen-
to durou seis anos, pois em 1822 o poeta morreu
no naufrágio de seu barco, provocado ou por uma
tempestade, ou por um ataque de piratas (não se
sabe bem o que realmente ocorreu). Mary escre-
veu outros livros, como o romance de época Val-
perga (1823), The last man (1826), e outros; mas o
que lhe garantiu a celebridade foi aquele cujo tema
trataremos a seguir.

A obra: Frankenstein
or the modern prometheus
O romance começou a aparecer no verão de
1816, na Suíça, conforme relato da própria autora
numa edição que se fez do romance, em 1831. O
casal, na ocasião, era vizinho do poeta Lord Byron
(1788-1824). Por se tratar de um verão bastante
chuvoso, habitualmente reuniam-se no chalé dos
Shelley quatro pessoas: o casal, Lord Byron, e o
amigo Polidori. Por sinal, tais reuniões são, elas
mesmas, tema de um filme (The haunted summer),
que até onde sei não foi exibido em nosso país.
Como passatempo, Byron propõe que cada um do
grupo escreva uma história fantasmagórica. Numa
noite insone, Mary tem a visão da cena central da

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Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

história: um jovem cientista apavorado diante da


criatura grotesca a que acaba de dar vida. A partir
disso ela escreve um conto de poucas páginas. Mas
Shelley fica impressionado com a história, e incen-
tiva Mary a criar um romance a partir do conto pri-
mordial, e o resultado é a publicação da primeira
edição da obra em 1818, com uma trama complexa
e repleta de lances dramáticos. Em pouco tempo o
livro se transforma em um sucesso. Em 1831 ela
publica uma nova edição, com algumas alterações
e um prefácio com o relato acima referido.
Por se tratar de um livro muito mencionado
mas pouco lido, penso que vale a pena fazer uma
sinopse da história. O livro gira em torno de Victor
Frankenstein, jovem suíço inicialmente interessa-
do no trabalho de Paracelso, depois estudioso dos
fenômenos da eletricidade e do galvanismo, e que
se torna estudante de filosofia natural (o que cor-
responderia às ciências físicas hoje) em Ingolstadt,
cidade alemã da Baviera, que fica entre Munique
e Nuremberg. Influenciado por um professor de
Química, Monsieur Waldman, ele acaba desenvol-
vendo o sonho de criar um ser ideal, dando vida
à matéria morta, e constrói um ser gigantesco, se-
gundo ele, para facilitar o trabalho com os órgãos,
fazendo-os em escala mais ampla. E acaba por lhe
instilar vida, numa passagem que merece ser re-
produzida:
À luz bruxuleante da vela, quase extinta, vi abri-
rem-se os olhos amarelos e baços da criatura. Respi-
rou. Sim, respirou com esforço, e um movimento
convulso agitou-lhe os ombros.
Quem poderia descrever o quadro de minhas emo-
ções diante de tal catástrofe? [...] Mais mutáveis que
os acidentes da vida são os da própria natureza hu-
mana. Eu trabalhara duramente durante dois anos
para infundir vida a um corpo inanimado. Para tanto
sacrificara o repouso e expusera a saúde. Eis que,

107
Coleção Convite ao pensar

terminada minha escultura viva, esvaía-se a beleza


que eu sonhara, e eu tinha diante dos olhos um ser
que me enchia de terror e repulsa.5

Horrorizado com sua obra, abandona-a. E aí


vai um pouco de interpretação: aquele que até en-
tão estava imbuído do ímpeto e da natureza de cria-
dor, descobre-se mera criatura e fica aterrorizado
com o que fizera. E entra em violenta crise depres-
siva. Notemos que, na citação feita, há uma descri-
ção do estado interno do cientista. De fato, uma
grande parte do romance consiste em descrições
de estados interiores, ora do criador, ora da criatu-
ra. E são descrições fortes e tocantes, o que mais
uma vez nos impressiona, tendo em vista a juven-
tude da autora.
Tempos depois, William, o irmão mais novo de
Victor, morre, e a suspeita recai sobre uma irmã “de
criação”, Justine. Ao voltar para sua terra para ver
os familiares, Victor passa pelo local do crime, e vê
nas proximidades a criatura, que foge. (Note-se que
o ser não tem nome, sendo sempre referido como
“a criatura”, ou “o monstro”). Victor passa a ter cer-
teza que a criatura é o criminoso. Mas silencia, e
Justine, que fora encontrada com o medalhão da mãe
(que estava com o menino) é executada.
O jovem cientista passa por nova crise. Um dia
vai a Chamonix, buscando repouso, e lá é aborda-
do pela criatura, que consegue, após grandes es-
forços, fazer com que Victor ouça sua história. E aí
passamos por quatro ou cinco capítulos do livro
em que assistimos a uma descrição sofrida e an-
gustiada de abandono, miséria, escárnio e repulsa
do gênero humano para com a criatura, devido ao
seu tamanho e sua aparência monstruosa. A certa
altura, o ser descobre um refúgio contíguo a uma
casa campestre de pessoas pobres. Como pode ver

108
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

e ouvir parte do que se passa na casa, ingressa num


lento aprendizado da fala, enquanto faz o papel
de “anjo da guarda” (ignorado) da família que ali
habita: um velho e um casal de filhos. Várias cir-
cunstâncias favoráveis fazem com que seu apren-
dizado secreto inclua a leitura. Em suas andanças
pelos bosques, o ser encontra exemplares de O pa-
raíso perdido, do poeta inglês John Milton (gigan-
tesco poema em que se descreve essencialmente a
queda de Satã e o confronto de Adão com seu Cria-
dor, e onde Adão é tratado como um ser de grande
nobreza, e sob certos aspectos até superior ao Cria-
dor), Vidas paralelas, de Plutarco, e Os sofrimentos
do jovem Werther, de Goethe. Assim passa a conhe-
cer um pouco do gênero humano. Ele descobre nas
suas roupas o diário de Victor, e de sua leitura per-
cebe sua origem. Tenta aproximar-se da família,
iniciando um diálogo com o ancião, que é cego,
mas o filho o expulsa. Até então, a criatura se diz
sempre tomada de bons sentimentos, desejando
com intensidade e ardor apenas o convívio e o afe-
to do gênero humano. Chegando ao fim o ilusório
idílio em que vivera em seu refúgio, ela é tomada
por revolta, e decide vingar-se de seu criador. Con-
fessa ser o matador de William, e o causador da
condenação de Justine. Em mais uma passagem
tocante, ele ataca Frankenstein por fazer dele um
ser sem direito ao mais mínimo afeto, e pede ao
seu criador que lhe faça uma companheira, para
que ele viva em isolamento com ela, nos confins
do Ártico. Após muita resistência, Victor aceita. Ele
viaja com seu amigo Clerval, e começa sua obra
numa das ilhas Orkneys, no Mar do Norte. Um dia,
vê a criatura espiando-o pela janela. Diante dos
olhos horrorizados da criatura, Victor destrói o que
seria sua companheira. Em áspero diálogo, o ser
promete estar presente à noite de núpcias de Victor.

109
Coleção Convite ao pensar

A seguir, Clerval aparece morto, e Victor fica preso


como suspeito, mas é libertado, passando a prepa-
rar seu casamento com Elizabeth, uma companhei-
ra de infância. E ela é morta na noite de núpcias
pela criatura. Desesperado, e percebendo que não
há como desligar-se de sua criatura, Victor Frankens-
tein persegue o monstro até o Ártico, quando é en-
contrado pelo capitão Walton, que tenta fazer uma
travessia inédita dos mares do Pólo. A ele Victor
narra sua história, e é por ele que tomamos conhe-
cimento do que o romance conta. Exausto, depois
do seu relato Victor Frankenstein morre. E a cria-
tura aparece para chorar sua morte. Interpelado
pelo capitão Walton, dá-se entre os dois um diálo-
go de grande força dramática, pelo qual fica claro
que, o que a criatura mais desejava era ser acolhi-
do pelo seu criador, e que não havia qualquer pra-
zer na morte dele. Ao final, o monstro abandona
o navio em um barco improvisado num bloco de
gelo, e promete lançar fogo sobre si, pondo um
fim a uma existência que fora marcada pela dor e
pelo abandono. Assim termina o romance: mor-
tos, criador e criatura.

Possíveis fontes de inspiração


Têm sido pesquisadas possíveis fontes para
Mary Shelley escrever sua história de horror.
Conta-se que ela teria visitado uma cidade ale-
mã, Gersheim, ao norte de um castelo que fora dos
Frankensteins (família que realmente existiu), e lá
ouviu a história de Conrad Dipple, que violava tú-
mulos em busca do segredo da vida eterna.
A história da criatura também nos traz à memó-
ria a lenda judaica do Golem. Este ser teria sido a
criação de um sábio rabino de Praga, que o moldara
a partir do barro, e que lhe dava vida introduzindo

110
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

em sua boca um papel com palavras mágicas, o Shem.


Este ser tornava-se um serviçal exemplar, que traba-
lhava sem nada exigir em troca, nem mesmo alimen-
to. Há versões que dizem que ele inclusive defendia
os judeus que eram vítimas de perseguições. Mas seu
criador incorre em uma falha: esquece de tirar o Shem
de sua boca num sábado, como habitualmente fazia,
ocasião em que ele ficava sem vida. O esquecimento
faz com que o Golem inicie uma destruição treslou-
cada de tudo o que se encontre a seu alcance, paran-
do apenas quando o rabino, alertado quando iniciava
suas orações na sinagoga, consegue retirar o tal pa-
pel e deixa-o novamente sem vida. Diz-se que ele
jamais o reviveu, e que seu corpo estaria enterrado
sob a sinagoga de Praga.
Se não são fontes, estas histórias são pelo me-
nos precursoras da idéia de Mary Shelley, que sou-
be tratá-la se não com maestria, certamente com
grande vitalidade e força dramática.

Prometeu
A menção a Prometeu no título do romance faz
com que nos voltemos para esse mito para enten-
der sua ligação com ele. O que se segue neste tópi-
co está baseado especialmente nos trabalhos de
Junito Brandão6 e Raymond Trousson.7
Prometeu, na mitologia grega, é um dos filhos
de Jápeto (um dos Titãs) e Clímene (filha de Ocea-
no), sendo ainda irmão de Epimeteu, Atlas e Me-
nécio. Prometeu foi aliado de Zeus na guerra em
que este derrota os Titãs e se torna o Senhor dos
Deuses. Algumas versões da lenda dizem que Pro-
meteu teria feito os homens a partir do limo da ter-
ra, embora isso não seja confirmado na Teogonia de
Hesíodo. O que é sempre afirmado é que Prometeu

111
Coleção Convite ao pensar

era um benfeitor da espécie humana. E Zeus es-


tendeu aos homens a desconfiança que nutria por
ele, por ser ele filho de um dos Titãs, apesar de ter
lutado contra eles e ao lado de Zeus. Foi combina-
do um encontro dos deuses com os homens para
resolver essa querela e dessa ocasião Prometeu se
aproveitou para induzir Zeus a um engano. Pro-
põe a separação de um boi em duas partes, e orde-
na aos preparadores do sacrifício que cubram os
ossos do boi com sua banha, e as carnes com seu
couro. Zeus escolhe a primeira parte, e ao se des-
cobrir enganado, priva o homem do fogo, ou sim-
bolicamente, da inteligência. Inconformado,
Prometeu rouba uma centelha do fogo celeste, pri-
vilégio de Zeus, e a traz à Terra, “reanimando” os
homens. Nas palavras de Hesíodo, ele “restitui aos
homens a esperança cega”, dando a entender, em
nossa interpretação, que com a mente os homens
passam a ter a capacidade de visualização e de
imaginação. Isso leva Zeus a impor uma dupla
punição. Aos homens, envia Pandora, portadora
de uma caixa que, quando aberta, deixa escapar
todas as desgraças e calamidades, somente fican-
do ali presa a esperança. E Prometeu é acorrenta-
do a uma coluna, ou a um monte, aonde todos os
dias uma águia vem lhe devorar o fígado, que é
regenerado à noite apenas para servir novamente
de repasto à águia na jornada seguinte.
O mito de Prometeu encerra, entre outros sig-
nificados, a tendência à revolta e a utilização do
intelecto com fins de satisfação pessoal. Bachelard
enxerga nele a representação da vontade humana
de intelectualidade, de saber tanto ou mais que
nossos pais, de ultrapassar, de ir além, de fazer o
que ainda não foi feito. Mas há no mito uma ambi-
güidade: favorecendo os homens, ao mesmo tempo

112
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

ele estabelece uma desconfiança, um distanciamento


entre eles e os céus (os deuses); concede aos homens
um dom, mas nesse mesmo movimento retira deles
a amizade com o plano divino. Há nele um misto
de benevolência e de negatividade: é um ser em que
estão concentradas as capacidades de criação e des-
truição, o que por sinal faz dele uma figura bem
adaptada aos poetas românticos, contemporâneos,
e vários deles amigos de Mary Shelley, inclusive o
seu marido. Esta interpretação do mito de Prome-
teu, embora uma entre muitas, parece-me particu-
larmente cativante, e é bastante adequada para se
compreender o jovem Victor Frankenstein como o
Prometeu moderno: ele queria ir muito além da
condição humana de mera criatura, sendo, até cer-
to ponto, bem sucedido. Mas o destruidor também
habitava nele.

ALGUMAS EXPLORAÇÕES
EXPLORAÇÕES
Explorações periféricas
Assim denominei algumas interpretações cu-
riosas da obra de Mary Shelley, e especialmente
do criador e da criatura que polarizam o romance.
Não penso que elas atinjam a essência da obra, mas
valem uma referência.
A Folha de S. Paulo de 20 de janeiro de l995 men-
ciona que, para o psicólogo polonês Kazimerz Po-
piszyul, a criatura da obra de Mary Shelley seria o
precursor do adolescente rebelde. Segundo ele,
a tensão entre o monstro e seu criador é exemplo
perfeito dos conflitos na relação familiar que desen-
volvem e intensificam as piores características dos
filhos: a crueldade, a insensibilidade e o descontro-
le de emoções. Nela aparece somente um dos pais,
o criador do monstro, situação comum nas famílias
modernas, com pais separados, amor insuficiente e

113
Coleção Convite ao pensar

complexo de rejeição. Razão pela qual os filhos se


transformam em Frankensteins, o monstro que con-
dena o seu criador. 8

Note-se aqui a confusão que norteará a difu-


são do mito Frankenstein: a do criador com a cria-
tura, dando a ela o nome dele, que ele próprio lhe
negara. De qualquer forma, veremos mais à frente
que há alguma sabedoria nesta confusão. Anote-
se ainda que, conforme me lembrou o prof. Lev
Vertchenko, a própria Mary Shelley foi criada ape-
nas pelo pai, já que sua mãe falecera pouco após o
parto; assim, a existência da criatura tem um pou-
co da marca da própria vida da autora.
Aparece ainda no romance, de forma bastante
clara, a idéia romântica, já encontrada em Rousseau,
do Homem natural, ou Homem bom, corrompido
pela sociedade que o cerca. Eu particularmente vejo
ali também a criatura como símbolo dos excluídos,
um mártir da intolerância e do preconceito, em ra-
zão da rejeição ao diferente e ao anômalo. É difícil
não ligá-lo aos nossos menores de rua, sempre a nos
causar repulsa, e que não são mais do que o fruto de
uma sociedade ensandecida e imprevidente.
É muito freqüente ainda considerar a obra de
Victor Frankenstein como símbolo dos descami-
nhos da ciência, e ele próprio como o protótipo do
cientista irresponsável, que não prevê as conseqüên-
cias do que faz. E há quem compare a criatura a
um Adão sem Eva, com uma carência afetiva im-
possível de ser saciada sem a repetição da mons-
truosidade que o gerou.
Como se vê, são numerosas as interpretações
que o romance de Mary Shelley sugere, fato que,
por si só, prova que não se trata de uma obra me-
nor. Mas, gostaria de aprofundar outra interpreta-
ção, em parte sugerida por Harold Bloom,9 e em
parte fruto de reflexões pessoais.

114
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

A criatura como o
duplo de Victor Frankenstein
Mary Shelley estava mergulhada no ambiente
do Romantismo, e por isso dele deve-se falar um
pouco. Todos aprendemos na escola que o movi-
mento romântico é marcado pelo individualismo,
entendido como a busca de uma verdade relativa,
que é a verdade do eu em oposição à verdade da
sociedade. A filosofia do Romantismo dirige-se para
o individualismo e para o culto da autoconsciência,
daí se entendendo a inspiração encontrada pelos
românticos em Prometeu (símbolo da rebeldia, e
doador da consciência). O herói romântico é aquele
que se sente único e superior pela sua excepcionali-
dade (veja-se, por exemplo, o desejo de glória de
Frankenstein). Essa autoconsciência resvala para um
excesso de consciência, que faz com que o eu não
seja capaz de sustentar a si mesmo. Daí a hipersen-
sibilidade e as tendências patológicas, comuns nos
heróis românticos (e em Victor Frankenstein).
Sendo uma reação ao Classicismo, o Roman-
tismo é irracionalista, sendo portanto marcado por
contradições, sendo um exemplo delas a que se
verifica entre o culto da glória pessoal e o culto da
apatia. Vários estudos mostram que no plano da
individualidade, no plano da subjetividade, essa
contradição ou dissociação é marcada pelo tema
do duplo, ou seja, da divisão do eu, freqüentemente
em partes que se opõem, tema muito comum no
Romantismo. Na visão da psicologia junguiana, o
duplo seria “como uma parte não apreendida pela
imagem de si que tem o eu, ou por ela excluída:
daí seu caráter de proximidade e de antagonismo.
Trata-se das duas faces complementares do mes-
mo ser”.10 Um exemplo, dentre muitos, é o do ro-
mance Opiniões do gato Murr, de Hoffmann, (Kater

115
Coleção Convite ao pensar

Murr, no original, de 1819), onde à genialidade des-


vairada do músico Kreisler contrapõe-se o bom sen-
so crítico de seu gato. Daí, chegamos a uma chave, a
meu ver bastante adequada, sugerida por Harold
Bloom, para ir mais a fundo no significado da obra
de Shelley: a criatura é o duplo de Frankenstein, a
metade antagônica, “um simulacro de si mesmo”
(conforme uma sugestão da profª. Marie-Anne Kre-
mer), o outro eu, ou quem sabe, a “sombra”, no
contexto da psicologia analítica. É até sintomático
que, popularmente, tenha havido a confusão do
nome do criador com o da criatura. Vox populi, vox
dei. Lembremos que a “sombra” contém os aspec-
tos ocultos, reprimidos e desfavoráveis da perso-
nalidade, mas possui também os instintos normais
e os impulsos criadores.
Nessa interpretação, Frankenstein tentou trans-
cender-se naquela criatura, criando algo melhor, e
que fosse o seu reflexo. Mas, encararmos o nosso
próprio reflexo é algo difícil e perigoso, embora
mais cedo ou mais tarde necessário. O jovem Vic-
tor não conseguiu ver a si mesmo refletido nos
“olhos baços e amarelados” do monstro. Para re-
forçar esta idéia, notemos que há um vínculo in-
dissolúvel entre os dois: durante a maior parte do
romance a criatura tenta se aproximar do criador,
e mais tarde, após a morte da noiva de Frankens-
tein, é o criador que passa a perseguir a criatura.
Numa reflexão nossa, procurando nos colocar
no ponto de vista da criatura, vemos que ele, como
ser humano – se for legítimo usarmos para ele essa
expressão – é feito para o encontro. Para o homem,
o corpo é o limite (no sentido positivo) através do
qual, ou pelo qual, o sujeito encontra o outro, dia-
loga, busca, sente o outro. Para o monstro, o corpo
é o próprio obstáculo, é a barreira (limite no senti-
do negativo) que o impede de encontrar o outro.

116
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

Aprofundando a idéia do monstro como con-


cretização da “sombra” do criador, notamos que
ele – e este é, talvez, o aspecto mais perturbador
do romance – tem mais dignidade e grandeza que
seu criador (aliás, como o Adão de O paraíso perdi-
do). Ele é dotado de uma vontade intrépida, inaba-
lável, primeiramente dirigida para a busca de afeto,
de convívio; quando esta se afigura acima de suas
possibilidades, sua vontade se dirige a uma vin-
gança implacável contra seu criador; e finalmente,
ela aponta para a autodestruição, mais uma vez
sem conhecer fraqueza. É como um impulso da
natureza, irresistível, inevitável, impossível de ig-
norar; é, sem dúvida, a energia da “sombra”, que
pode conter aspectos negativos, mas é onde reside
a nossa criatividade.
Como Frankenstein não consegue integrar sua
“sombra”, torna-se um homem fraco, indeciso,
sujeito a freqüentes crises de depressão, e imerso
em irritantes exortações de autopiedade. O mons-
tro na verdade busca a integração com o criador.
Impedido, não consegue dele se desvincular. Ten-
ta, com o pedido da criação da fêmea. Mas não há
remédio. No dizer de Bloom, ele mesmo já é uma
emanação, um duplo de seu criador, que o renega.
Há uma quebra do ciclo, a fragmentação, a incom-
pletude. Na linguagem da psicologia analítica, o
processo de individuação de Victor Frankenstein
é estancado. O homem está incompleto. Daí se se-
gue o inevitável: a autodestruição – os dois mor-
rem infelizes, desamparados, condenados.
O impulso prometéico (produzir a obra que nos
transporte para além do que somos) é extremamen-
te positivo. É nele que encontramos a raiz das ma-
ravilhas da sociedade ocidental. Mas não se pode
depositar apenas nele a realização do ser humano.

117
Coleção Convite ao pensar

Não é na obra que você se realiza. Antes de se rea-


lizar na obra, o homem se realiza nessa viagem
interior, que Carlos Drummond chamava de “Via-
gem de Si a Si-Mesmo”, a mais perigosa, a mais
árdua, a mais longa, a mais difícil, mas a mais ne-
cessária. Frankenstein colocou na sua obra a sua
redenção, e esqueceu-se de, antes, redimir-se a si
mesmo. Como nos assevera Harold Bloom, inca-
paz de amar, ele condenou a sua obra e a si mes-
mo. Tentou romper a barreira que separava o
humano do divino, mas acabou criando uma mor-
te em vida. Não conseguiu realizar o mergulho no
autoconhecimento, encarar os olhos do Monstro
Interior, e recuperar dali a mais profunda (e com-
pleta) humanidade.
Esta é a impressão que Mary Shelley, aos vinte
e um anos de idade, nos transmitiu, com invulgar
sabedoria: nós temos Prometeu dentro de nós, essa
pulsão de buscar a glória pessoal. Mas se isso não
for acompanhado de uma vida interior, de um re-
torno a si mesmo, de um autoconhecimento, de um
contato com sua “sombra”, e de uma integração
consciente e construtiva desses elementos da nos-
sa personalidade, tal glória pessoal acaba resultan-
do em algo vazio, que muitas vezes nos leva a
descaminhos, e até a uma autodestruição.

118
Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

N. E.:
Optou-se por manter aqui as perguntas e respostas
do debate ocorrido após a exposição do autor, por jul-
gá-las enriquecedoras ao texto.

P: Por que Frankenstein não conta para ninguém


tudo o que está acontecendo com ele, exceto para o capi-
tão do navio, no final da história, quando ele está mor-
rendo? Por que ele carrega essa luta solitária?
R: Ele diz, ao longo do livro, que não revela o
que aconteceu por medo de ser tomado como lou-
co. Quando Justine está para ser condenada à mor-
te pelo assassinato do irmão mais novo de Victor,
ele por várias vezes sente o impulso de revelar tudo,
mas não o faz por essa razão e por temer ser obrigado
a revelar o segredo de sua obra, o que abriria possi-
bilidade de que outras pessoas repetissem o feito e
criassem monstruosidades ainda mais aterrorizan-
tes do que a que ele engendrara. Isso é o que está
manifesto na obra. Mas penso que há algo subja-
cente aí. Quando ele cria esse ser, ele faz, como dis-
semos, uma dissociação de si mesmo, e aquele ser
passa a encarnar o que, na psicologia analítica, nós
chamamos de “sombra”. E embora ela tenha aspec-
tos negativos, é nela que também reside a energia
da criação, e os impulsos instintivos. Assim, os as-
pectos de impulso e de energia do jovem cientista
ficam como que concentrados naquela criatura, e
Victor torna-se um ser indeciso, claudicante. Lem-
bro-me, por exemplo, do romance A estranha histó-
ria de Peter Schlemihl (1814), de Chamisso, no qual o
personagem central vende sua sombra para o de-
mônio em troca de riqueza e consideração, e a partir
daí deixa de ser reconhecido pelas pessoas; ele não
consegue tomar decisões, não consegue ter uma ati-
tude definida. Analogamente, Victor Frankenstein

119
Coleção Convite ao pensar

fica incompleto ao falhar na integração dessa parte


de sua personalidade.

P: Prometeu passa por um grande sofrimento. Não


haveria uma ligação desse sofrimento de Prometeu com
o sofrimento de Frankenstein?
R: Certamente, mas há uma diferença impor-
tante. No mito, Prometeu acaba sendo libertado.
Zeus permite isso não tanto por compaixão, mas
para que haja a glorificação de Héracles, seu filho,
que é incumbido dessa tarefa, rompendo as corren-
tes de Prometeu e matando a águia. No caso do ro-
mance, Frankenstein é submetido a um sofrimento,
mas ele não consegue a liberação. Vou lembrar aqui
uma passagem do romance. Ele está contando sua
história para Walton, o capitão de um navio que
estava tentando uma passagem inédita pelas águas
(ou gelos) do Ártico, e que fracassa, após seus co-
mandados se amotinarem por temor de perecimen-
to de todos. Então Walton era outro Prometeu, e
um Prometeu fracassado. Pouco antes de morrer,
Victor se dirige a ele e diz o seguinte:
Adeus,Walton! Busque a felicidade num viver tran-
qüilo e evite ser dominado pela ambição, mesmo
que seja essa, aparentemente, construtiva, de dis-
tinguir-se no campo da ciência e dos descobrimen-
tos. Mas por que falo isto? Na verdade, se eu me
arruinei nessas esperanças, pode ser que outro seja
bem-sucedido.11

Ele está quase entendendo que a obra não é o


fundamental. Mas a última frase mostra que a ilu-
são continua. Ele morre ainda acreditando que a
glorificação humana está na obra, na realização.
Então não há salvação. Qual seria a redenção de
Frankenstein? Seria aceitar o outro que, ao fim e
ao cabo, era parte de si mesmo. Seria fazer a tran-
sição de aceitar a diferença que era ele mesmo, e

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Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

também entender a alteridade dessa criatura, en-


tender o ponto de vista dela. Se ele conseguisse
fazer isso ele seria redimido, e redimiria a criatura,
o monstro inominado.

P: Pode haver uma leitura mítica com relação à


questão de ultrapassar os limites. O capitão Walton tem
uma ambição muito grande, tentando um empreendimen-
to que ninguém tinha feito. E Frankenstein conta sua
história advertindo-o do perigo que é o homem ultrapas-
sar seus limites. Há essa questão em relação ao poder di-
vino. Quando ele constrói essa criatura, ele está desafiando
Deus, como Prometeu desafiou Zeus. Walton desafia a
Natureza; Frankenstein desafia Deus, e por isso ele cai
em total desgraça. E o monstro, também, em certas pas-
sagens, sente-se como Prometeu. Há várias referências a
correntes. Há várias referências ao mito da queda, da
Bíblia. A primeira transgressão teria sido a de Adão e
Eva. E aí é posta a questão da ciência: até onde a ciência
poderia ir? Penso no caso, por exemplo, da clonagem.
R: Sim, não há dúvida de que essa leitura é
valiosa. Mas eu gostaria de esclarecer bem a idéia
que quero transmitir. Quando digo que o impulso
prometéico foi, de certa forma, a perdição de
Frankenstein, isto não significa que se devam es-
tabelecer barreiras muito restritivas ao desenvol-
vimento da ciência, que é uma manifestação desse
impulso prometéico. O que aqui se sustenta é que
o cientista – afinal, o romance fala de um jovem
cientista – muitas vezes se julga como um deus em
virtude da grandeza de sua obra. Mas esse criador,
esse cientista, no mais das vezes é uma pessoa com
as mesmas fraquezas do comum dos homens. O
que é necessário, é que antes, ou simultaneamente
ao seu trabalho, o criador não se esqueça de pensar
como ser humano, de pensar o ser humano, de pen-
sar as conseqüências do que faz, de fazer discussões

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Coleção Convite ao pensar

éticas. A ciência que não se pensa acaba sendo pro-


blemática, e não é raro que dela advenham des-
graças e perdição ao invés de progresso.

P: Esse mergulho no eu não é um beco sem saída?


Frankenstein morre no final junto com seu monstro. E ele
não consegue revelar isso para ninguém. Ele parece preso.
R: O mergulho em si mesmo a que me refiro não
é um ensimesmamento. O que ocorre com Frankens-
tein é que ele fica numa introjeção da qual ele não
sai. O que estou defendendo é a necessidade do au-
toconhecimento, da exploração psicológica do ser
humano. Não se trata de uma introjeção doentia.

P: Mas quanto mais eu fico em mim mesmo, mais


distante fico do outro. Não é assim?
R: Eu não penso assim. Conhecer o eu é aproxi-
mar-se do outro. Qual é o ser humano mais próximo
de você? É você mesmo! A compreensão do outro
somente vem para aquele que realmente mergu-
lhou nas suas profundezas e encarou seus demô-
nios. Somente assim a pessoa será capaz de
compreender as limitações do outro, de tolerar as
diferenças. Aliás, este é o lema de Sócrates: “Co-
nhece-te a ti mesmo.”

P: Sim, é o lema de Sócrates. Mas como fazer isso


sem negar o outro, sem cair em si mesmo?
R: Essa experiência de voltar-se para si mes-
mo não é egocentrismo; não é o caso da pessoa que
só vê a si mesma. A pessoa que se percebe, que
consegue identificar seus demônios interiores, que
consegue lutar com eles e trazê-los à luz, obtém
acesso a energias interiores que antes não eram
percebidas, e isso a torna uma pessoa transparente
e disponível para o encontro com o outro. O en-
contro com o outro é sempre superficial se não parte

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Frankenstein, de Mary Shelley – Tomás de Aquino Silveira

de uma interiorização. Eu insisto nesse ponto, tan-


to em relação ao livro como em relação à socieda-
de, porque nós somos extremamente voltados para
o externo. Nós somos realizadores; somos “Prome-
teus” em busca de realizações, e só avaliamos as
pessoas pelo que elas fazem, e não pelo que elas
são. E isso ocorre exatamente pela pouca conside-
ração que temos pelos aspectos internos do ho-
mem, pelo Ser.

NOTAS
1
SHELLEY, Mary. Frankenstein. Trad. de Éverton Ralph. Rio de
Janeiro: Ediouro, [s.d.].
2
SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o moderno Prometeu. Trad. de
Éverton Ralph. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha,
1998. (Biblioteca Folha. Clássicos da Literatura Universal; 3).
3
FOLHA DE S. PAULO, 30 nov. 1995. Caderno Especial, p.5.
4
Aliás, é o rosto do monstro encarnado por Boris Karloff que
aparece na capa daquela edição por meio da qual tomei contato
pela primeira vez com a obra de Mary Shelley.
5
SHELLEY. Frankenstein, p.52-53.
6
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, v. I. 12ª ed. Petró-
polis: Vozes, 1998, p. 166-167.
7
TROUSSON, Raymond. “Prometeu”. In: BRUNEL, Pierre (Org.).
Dicionário de mitos literários. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1998, p. 784-793.
8
AUGUSTO, Sérgio. “Frankenstein é adolescente rebelde”. Folha
de S. Paulo, São Paulo, 20 jan. 1995. Caderno 5, p.6.
9
BLOOM, Harold. “Frankenstein, o idiota da moral”. Folha de S.
Paulo, São Paulo, 29 jan. 1995. Caderno 6, p.11. (Tradução de
Arthur Nestrovski).
10
BRAVO, Nicole Fernandez. “Duplo”. In: BRUNEL, Pierre (Org.).
Dicionário de mitos literários. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1998. p.263.
11
SHELLEY. Frankenstein, p.211.

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Coleção Convite ao pensar

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SOBRE OS AUTORES

Euclides Guimarães
Professor do Departamento de Sociologia da PUC
Minas.
e-mail: euclides@pucminas.br
João Carlos Lino Gomes
Professor de Filosofia do Departamento de Filoso-
fia da PUC Minas.
e-mail: lino@uai.com.br
Léa Souki
Professora Titular do Departamento de Sociologia
da PUC Minas.
e-mail: lea@planetarium.com.br
Lídia Avelar Estanislau
Professora do Departamento de Sociologia da PUC
Minas.
Lucília de Almeida Neves
Professora Titular do Departamento de História e
do Mestrado em Ciências Sociais da PUC Minas.
e-mail: msociais@pucminas.br
Tomás de Aquino Silveira
Professor do Departamento de Física e Química da
PUC Minas.
e-mail: aqsilveira@ig.com.br
Yonne de Souza Grossi
Professora de Sociologia da PUC Minas.
e-mail: reinter@pucminas.br

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Este livro foi composto em tipologia
Palatino11/14 e impresso
em papel pólen soft 80g.
na FUMARC