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2.4.5.

2 – Tratamento Numéricos dos Erros

Algarismos Significativos

Na seção anterior tratamos de erros e valores certos em uma análise. Por conta dos erros
aleatórios vimos que sempre existe erro associado a toda medida. O conceito de algarismo
significativo está diretamente ligado a isto. Algarismo significativos são, por definição, todos os
dígitos certos, aqueles sobre os quais se tem confiança, mais o primeiro dígito incerto. Por
exemplo, nas primeira proveta mostrada na Figura 1 sabemos que o valor está entre 3 e 4 mL, mas
o próximo dígito é incerto. Então a medida terá 2 algarismos significativos: 3,4 mL – onde o
primeiro dígito é certo e o segundo é incerto. A segunda proveta tem maior precisão e podemos
ver que o volume se encontra entre 3,3 e 3,4. Portanto aqui temos 3 algarismos significativos: 3,35
– onde os dois primeiros dígitos são certos e o 3 terceiro é incerto.

Figura 1 – Algarismos significativos em proveta

O zero pode ou não ser significativo. Um zero cercado de outros números é sempre
significativo. Assim, em 30,2 mL, o zero é significativo. Mas zeros que apenas estão localizando a
casa decimal não são significativos. Portanto, escrever como 0,0302 L a medida anterior não
aumenta número de algarismos significativos. Os zeros acrescentados a esquerda não são
significativos, neste caso. Zeros a direita podem ou não ser significativos. Em 2,0 L o zero está
indicando que há certeza quanto ao primeiro dígito e incerteza quanto ao segundo. Já se
escrevermos esta mesma medida como 2000 mL os dois zeros a direita não são significativos. A
3
forma correta de escrever em mL, para manter os algarismos significativos é 2,0x10 mL.
A manipulação de algarismos significativos deve ser feita com cuidado. Para saber o
número de algarismos significativos, uma regra prática é desconsiderar os zeros a esquerda e os
zeros a direita, a não ser quando eles estejam seguidos pela vírgula, e considerar todos os demais
números como significativos.
Existem algumas regras a serem seguidas nos cálculos envolvendo números com
diferentes quantidades de algarismos significativos. Nas adições e subtrações a regra prática é
manter no resultado o mesmo número de casas decimais do número com menor número de casas
decimais. Já para a multiplicação e divisão a regra prática é arredondar o resultado para conter o
mesmo número de algarismos significativos do número com menor número de algarismos
significativos. Esta regra, porém, deve ser usada com precaução. Já para logaritmos deve-se
manter tantos dígitos nas casas decimais quanto existiam no número original e para antilogaritmos
deve-se manter tantos dígitos quanto existiam nas casas decimais do número original. Nos
arredondamentos para o caso de números abaixo de 5 simplesmente se corta o número e para os
acima de 5 corta-se e acrescenta 1 ao número seguinte. No caso do 5, uma boa regra é
arredondar sempre para o número par mais próximo. Assim, 0,935 é arredondado para 0,94 e
0,925 para 0,92. Deve-se postergar o arredondamento até o resultado final dos cálculos.
Tratamento Estatístico dos Erros Aleatórios
Para o tratamento dos erros aleatórios, discutidos na seção anterior, podemos usar um
tratamento estatístico. Os erros aleatórios seguem, freqüentemente, uma distribuição normal ou
gaussiana (embora possam seguir outras distribuições, como a binomial ou a de Poisson). A
distribuição normal segue a fórmula:

onde  é a média da população e  é o desvio da população.


2 2 1/2
Y = exp (-(x-) /2 )/(2) ,

A distribuição normal, que é uma função densidade de probabilidade, tem a forma dada
pela Figura 2.

Figura 2 – Distribuição Normal

 e são parâmetros, pois se referem a população. Geralmente não temos informação


sobre a população, porém, e usamos dados de amostras para determinar os parâmetros. Assim, x m
e s são deduzidos da amostra para representar os parâmetros. Dados como estes são chamados
de estatísticas.
O desvio-padrão da população, , é dado por:

 = raiz ((xi – ) /N),
2

onde  é a média da população e N é o número de elementos na população.

Os valores da distribuição normal estão tabelados para uma curva padrão, que tem média
0 e desvio-padrão 1. Todas distribuições normais podem ser reduzidas a esta distribuição através
do uso da variável z:

Z = (x – )/

Uma propriedade importante da distribuição normal é que 68,3% dos valores estão
contidos entre ± 1. Da mesma forma, 95,4% dos dados estão entre ± 2 e 99,7% dos dados estão
entre ± 3. Veja a figura 3.
Figura 3 – Propriedade da distribuição normal
O desvio-padrão da população, , como já dissemos, é estimado pelo desvio-padrão da
amostra, s, que tem uma fórmula diferente:

s = raiz ((xi – ) /(n-1)),


2

onde n é o número de elementos na amostra e n-1 é chamado de graus de liberdade e deve ser
usado para não gerar resultados incorretos.

Freqüentemente é mais fácil o cálculo do desvio-padrão com uma fórmula alternativa:


2 2
s = raiz [(xi – (xi) )/n)/(n-1)]

Um ponto importante é a confiabilidade de s como estatística de . Conforme n aumenta


mais confiável é o valor de s. O valor de s é usado em testes estatísticos que serão descritos
adiante.
2
Além do desvio-padrão, outras medidas de precisão são usadas. A variância, s , é o
quadrado do desvio-padrão. A vantagem de utilizar a variância está na possibilidade de se somar
variâncias de diferentes resultados. O desvio padrão relativo é usado para comparar desvios em
magnitudes diferentes, e é dado por DPR = sr = s / xm, e pode ser dado em porcentagem, ppm, etc.
Quando dado em porcentagem o desvio relativo é chamado coeficiente de variação: CV =
s/xm.100%. A amplitude ou intervalo de faixa é outra medida utilizada as vezes e é a diferença
entre o menor e o maior valor da amostra ou população.
Algumas vezes é necessário estimar o desvio-padrão para um resultado calculado a partir
de outros resultados. Os cálculos para estes casos são dados na Tabela 1.

Tabela 1 – Propagação de Erros em Cálculos Numéricos

Cálculo Exemplo Desvio-padrão


2 2 2
Adição/Subtração y=a+b–c sy = raiz(sa +sb +sc )
2 2 2
Multiplicação/Divisão y=axb/c sy/y= raiz((sa/a) +(sb/b) +(sc/c) )
x
Exponenciação y=a sy/y= x(sa/a)
Logaritmo y=log10a sy = 0,434 sa/a
Antilogaritmo y=antilog10a sy/y= 2,303 sa

Onde a, b e c são variáveis experimentais e sa,sb,sc são os desvios-padrões.


2.4.5.2 – Exercícios Resolvidos

Exercícios de Provas da PF
Prova Perito Área 6 – 1997
Prova Perito Área 6 – 2004 - Regional
Exercícios de Outros Concursos

CESGRANRIO – BR – Vendas em Química


CESGRANRIO – Petrobras – Químico de Petróleo
CESPE – INPI – Químico

Outros exercícios
1 – Após algumas análises um PCF teve de realizar alguns cálculos, conforme mostrado a seguir:

I – 3,4 + 0,020 + 7,31 = 10,7


-5
II – log 4,000x10 = -4,3979
6 4 5 6
III – 2,432x10 + 6,512x10 – 1,227x10 = 2,374x10
12
IV – antilog 12,5 = 3x10
V – 3 + 5,00005 = 8

Nesta situação todos os cálculos realizados pelo PCF estão corretos.

Correto
Todas as regras foram seguidas corretamente. Nos itens I e V foi usada a regra de manter o menor
número de casas decimais nas adições. No item III, trata-se de adição com números na notação
científica. Neste caso deve-se colocar todos os números na mesma potência de 10 e proceder a
adição/subtração:
6 6
2,432x10 = 2,432 x10
4 6
+6,512x10 = 0,06512 x10
5 6
-1,227x10 = 0,1227 x10
_______________________
6 6
2,37442x10 Arredondar para 2,374x10

Já no logaritmo foram mantidos os 4 algarismos após a vírgula e no antilogaritmo foi mantido o


único algarismo nas casas decimais no resultado.
2 – Em um certo procedimento, um analista precisava multiplicar a medida de um lado, de 24m
pela medida de um comprimento desconhecido que foi medido em uma primeira ocasião como
sendo 4,52 m e numa segunda ocasião como sendo 4,02m. Após tudo isto era necessário dividir
por um volume dado por 100,0 L. O resultado, levando em conta os algarismos significativos, foi de
1,1 unidades correspondentes para o primeiro caso e de 0,96 para o segundo caso.

Errado
As contas em ambos casos são: 24x4,52/100,0 = 1,08 e 24x4,02/100,0 = 0,965
Pela regra prática, o número 24 tem 2 algarismo significativos e devíamos manter portanto dois
algarismo no resultado: 1,1 e 0,96. Porém, se observarmos, veremos que a incerteza maior é da
ordem de 1/24 = 0,045 ou aproximadamente 0,04. Então o mais correto no primeiro caso é se
expressar o resultado como 1,08 e o segundo como 0,96.

3 – A análise de amostras de água de tratamento de uma fábrica mostrou ter concentração de


Ferro seguindo uma normal com média 100 ppm e desvio-padrão 10 ppm. Neste caso, a
probabilidade de um analista retirar uma amostra e encontrar uma concentração entre 110 e 120
ppm é de 13,5%.

Correto
Pelas propriedades da normal, a probabilidade de a amostra estar entre 90 e 110, ou seja ±1 é de
68,3%. Já a probabilidade de estar entre 70 e 120, ou seja ±2, é de 95,4%. Como a distribuição é
simétrica, a probabilidade deseja é igual a (95,4 – 68,3)/2 = 13,55 = 13,5%.

4 – O resultado de uma análise de um material radioativo na amostra de cabelo de um suspeito


resultou nos valores (em ppm): 3,5; 3,1; 3,1; 3,3 e 2,5. Nestas condições o valor da média é de 3,1;
a mediana é 3,1; a dispersão dos resultados é de 1,0; o desvio padrão é de 0,4 e o coeficiente de
variação é de 12%.

Correto
A média é dada por (2,5+2x3,1+3,3+3,5)/5 = 3,1. A mediana é o terceiro valor em ordem crescente,
ou seja, 3,1. A dispersão é a diferença entre o menor valor, 2,5, e o maior, 3,5, que é de 1,0. O
desvio padrão é dado por:
2 2 2 2 2 2 2
s = raiz [(xi – (xi) )/n)/(n-1)] = raiz [((2,5 +2x3,1 +3,3 +3,5 ) – ((2,5+2x3,1+3,3+3,5) )/5)/4] =
raiz[(48,61 – 240,25/5)/4] = raiz (0,56/4) = 0,3741 = 0,4.
Por fim, o coeficiente de variação é : CV = s/xm .100% = 0,37/3,1 x 100% = 11,9 = 12%.

5 – Os seguintes dados foram obtidos para uma análise de chumbo em amostras de sangue:
0,752; 0,756;0,752;0,751;0,760 ppm de Pb
Nesta situação o resultado a ser apresentado para esta análise é de 0,753±0,003 ppm.

Errado
Para resolver montamos a Tabela a seguir:
2
Amostra xi xi
1 0,752 0,565504
2 0,756 0,571536
3 0,752 0,565504
4 0,751 0,564001
5 0,760 0,577600
_____ ________
3,771 2,844145
A média é xi/n = 3,771/5 = 0,7542 = 0,754
Portanto xi = 3,771 e xi = 2,844145, logo s = raiz [(xi – (xi) )/n)/(n-1)] =
2 2 2
2
raiz [(2,844145 – 3,771 /5)/4] = raiz (2,844145 – 2,8440882)/4) = 0,004
Assim, o resultado é 7,542±0,004 ppm. O cálculo deste exercício ilustra como não se deve
arredondar os cálculos antes do resultado final. Além disso, no caso de números com muitos
algarismos deve-se usar a fórmula s = raiz ((xi – ) /(n-1)) para o cálculo do desvio.
2
6 – A equação para o cálculo do desvio padrão combinado de vários conjuntos de dados é:
2 2 2 2
scomb = raiz{ [(xi – xm1) +(xj – xm2) +(xk – xm3) +...+(xn – xmn) ]/[n1 + n2 + n3 + nn)]

Correto
Esta fórmula de cálculo está correta. Procede-se a soma dos desvios de cada conjunto e se divide
pelo número total de elementos em todos conjuntos em questão.

7 – O diâmetro interno de um tanque na forma de cilindro foi medido e se obteve os resultados


5,4;5,2;5,5 e 5,2 m. A altura também foi medida e se obteve 9,8;9,9 e 9,6 m. O volume do tanque é
5
de 1,6(±0,1)x10 L.

Correto
Com os dados obtemos um diâmetro de 5,3±0,1 m e uma altura de 9,7±0,1 m. O volume é dado
por V = dh = x5,3x9,7 = 163,4 m = 1,634x10 cm = 1,634x10 L. Já o desvio padrão é calculado
3 5 3 5
2 2 2 2
para o produto: sv/v= raiz((sd/d) +(sh/h) ) = raiz ((0,1/5,3) +(0,1/9,7) ) = 0,032. Portanto: sV/v = 0,02
5
e sV = 163,4x0,032 = 5,27. Logo, V = 1,6(±0,1)x10 L.
+
8 – Um pH foi medido como sendo 5,21±0,03. A concentração de H na solução analisada é de
-5
6,17(±0,04)x10 .

Errado
+ + -pH -5,21 -6
Temos que pH = -log[H ] => H = 10 = 10 = 6,17x10 . Já o erro é dado por 2,303 sa/a=
-6 -7
2,303x0,03 = 0,069 => sa = 0,069x6,17x10 = 4,26x10 . Portanto a concentração é de
-6 -6
6,17(±0,426)x10 = 6,2(±0,4)x10 .