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Eli Bartra

Universidad Autónoma Metropolitana – Ciudad de México

John Mraz
Universidad Autónoma de Puebla – Ciudad de México

As duas FFridas:
ridas: história e
identidades transculturais
R esumo
esumo: Neste artigo, é feita uma análise do filme Frida (2003) dirigido por Julie Taymor e
protagonizado por Salma Hayek e que tem como tema a relação amorosa entre o muralista
Diego Rivera e a pintora Frida Kahlo. Não se trata absolutamente de uma biografia fílmica;
enfoca apenas uma etapa da vida da pintora. De um lado, são feitas algumas comparações
com o filme mexicano sobre a pintora, Frida, naturaleza viva (1983), de Paul Leduc, para contrastar
as diferentes visões dos acontecimentos de uma mesma vida, por exemplo, com relação à
política sexual. Por outro lado, explora-se até que ponto o polêmico filme de Taymor/Hayek é
histórico, baseado na realidade, ou uma história contada pela imagem e pelo som a partir de
uma biografia escrita.
Palavras-chave
alavras-chave: Frida Kahlo, política sexual, transculturalidade, filmes biográficos, identidade.

Copyright  2005 by Revista Um dos quadros mais famosos de Frida Kahlo, Las
Estudos Feministas dos Fridas, de 1939, oferece um ponto de partida para se
questionar o filme Frida, de 2002, dirigido por Julie Taymor
e produzido graças aos esforços da atriz Salma Hayek. O
quadro revela os auto-retratos que constituem o centro da
obra da pintora e discute, acima de tudo, a questão da
identidade. Nele, as duas Fridas se encontram sentadas
de mãos dadas; uma delas veste uma indumentária
tipicamente mexicana, a outra usa um vestido branco, de
estilo vitoriano. As suas mãos se tocam, mas a verdadeira
conexão entre ambas é a artéria que as une, saindo de
um coração exposto, mas inteiro, da Frida mexicana e
correndo em direção ao coração partido da européia.
Uma artéria desce do coração da Frida vestida de branco
e seu sangue goteja na roupa. O conjunto mostra
claramente as duas sociedades distintas; no entanto esse
conjunto não é realmente transcultural se por isso se

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entende a energia produzida pela interpenetração


simbiótica. É necessário levar em conta que o México
‘autêntico’ está representado como a fonte da vida,
1
GALEANO, 1971. enquanto que ao seu lado, em oposição, encontra-se uma
2
Quem conheça a obra de Kahlo Europa puritana que se esvai em sangue. O quadro
vai se dar conta imediatamente representa uma metáfora das entrelaçadas histórias de Frida
de que Hayek no papel de Frida
Kahlo, do México e do mundo desenvolvido, uma
se utiliza dos quadros Las dos
Fridas e Cortándome el pelo con interpretação visual daquilo que Eduardo Galeano
unas tijeritas, um auto-retrato em chamaria, muitos anos depois, de Las venas abiertas de
que ela aparece em trajes América Latina.1 A sexualidade da Frida mexicana se
masculinos e de cabelos curtos, encontra bem enfatizada pelas suas pernas posicionadas
de 1940. [As notas que aqui estão
incluídas foram traduzidas do mais abertas, uma pose que Selma Hayek retoma na
original em inglês por seus dois imagem que reproduz de Las dos Fridas e que aparece no
autores.] convite à estréia do filme na Cidade do México em 2003.2

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AS DUAS FRIDAS: HISTÓRIA E IDENTIDADES TRANSCULTURAIS

Se dispusermos frente a frente as diferentes “duas


Fridas” com as quais contamos, talvez nos sirvam para
aprofundar a análise do filme Frida, do mesmo modo que
a visão de ambos os olhos juntos nos proporciona uma
informação diferente daquela oferecida pela visão de cada
3
Ver Gregory BATESON, 1979. um dos olhos separados.3 A primeira comparação que
podemos fazer é entre os filmes de Taymor-Hayek e de Paul
Leduc (Frida, naturaleza viva, de 1983). Neste último, o seu
diretor levou a cabo um experimento radical, por intermédio
tanto da fragmentação temporal como da quase ausência
4
Em seu primeiro filme – Reed: de diálogo.4 Por isso, ele recebeu o prêmio Gran Coral de
México insurgente, de 1972 –, melhor filme no Festival do Novo Cine Latino-Americano, e
Leduc demonstrou um grande Ofélia Medina, no papel de Frida, recebeu o prêmio Coral
interesse em questões trans-
culturais, ao centrar-se nas de melhor atriz.5
atividades de John Reed durante As atrizes desses filmes – as outras duas Fridas – estão
a Revolução Mexicana. O ato de entre as melhores do México. Ofélia Medina poderia ser
fixar a sua atenção em um gringo considerada uma verdadeira Jane Fonda mexicana, já que
é uma decisão curiosa para um
se posicionou sistematicamente a serviço das causas
filme realizado em plena
efervescência do novo cinema progressistas, tais como a luta neo-zapatista em Chiapas.
latino-americano que se dedicou Na medida em que Selma Hayek passou a exercer o
a buscar, com tenacidade, as controle de sua carreira no cinema, tem manifestado o
próprias vozes da região. desejo de colocar as mulheres rebeldes no centro da ação
5
O roteiro foi publicado em Paul
LEDUC e José Joaquín BLANCO, na grande tela. Depois de aparecer em umas quantas
1992. insípidas fitas hollywoodianas, Hayek produziu e estrelou En
el tiempo de las mariposas (Mariano Barroso, 2001), uma
forte denúncia do assassinato das irmãs Mirabal em 1960,
pela sua oposição à ditadura de Rafael Trujillo, da República
Dominicana.
A política sexual nas películas de Leduc-Medina e
de Taymor-Hayek difere de forma significativa. Na de Leduc,
Frida Kahlo é mostrada sempre como uma inválida, sentada
em uma cadeira de rodas ou deitada na cama. Inclusive
quando aparece de pé, a cadeira de rodas está por detrás
como uma lembrança da sua condição.

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A sua sexualidade se evidencia, principalmente,


através de expressões de ciúmes e de raiva diante da
infidelidade de Diego Rivera. Ao contrário, a Frida de Taymor
e Hayek parece empoderar-se através de sua energia
sexual; além disso, a personagem quase não manca, algo
que foi criticado no México como mais um de seus erros
históricos. De fato, mostrar um defeito físico na tela corre o
risco de sobredeterminar simbolicamente um personagem;
mancar na vida real não tem a mesma conotação que
6
É preciso assinalar que Frida, de fazê-lo na tela.6
fato, manca depois do acidente Ainda que pareça que o filme de Taymor-Hayek
de trânsito, mas, na medida em
que o filme de Taymor-Hayek se esteja baseado na biografia de Hayden Herrera, ele na
desenrola, ela deixa de fazê-lo. verdade transcende o livro, na medida em que, diferente
José Rabasa assinalou em uma deste, não cai no chavão do sofrimento e da dor tanto
conversa que o fato de não física quanto emocional de Frida Kahlo.7 Nos meios de
mancar pode dever-se também
comunicação de massa dos Estados Unidos as lágrimas
ao afã de per feição de
Hollywood. correm facilmente; a Frida de Taymor-Hayek é mais
7
HERRERA, 2003. mexicana ao mostrar que a vida é um processo de
encontrar formas de viver dentro das possibilidades dadas,
ao invés de lamentar suas carências.
A Frida que os dois construíram é tão sexual como a
mexicana de Las dos Fridas. O filme abre com uma cena
de algo que ocorreu no final de sua vida, mas em seguida
aparece uma Frida adolescente, levando um grupo de
amigos para ver Diego Rivera pintando uma modelo
desnuda. Essa seqüência tem uma forte carga erótica e
desemboca imediatamente em uma cena de amor entre
Frida e seu noivo Alejandro Gómez Arias. Apesar do terrível
acidente (magistralmente narrado em uma seqüência
movimentada), Frida não fica prostrada na invalidez sexual.
Quando Alejandro vai visitá-la, tenta seduzi-lo, mas é
rechaçada. Contudo, o seu acidente não é mostrado como
um castigo pelo seu erotismo, uma estratégia,
desafortunadamente, demasiado familiar no mundo
cinematográfico norte-americano. O reconhecimento da
sexualidade feminina em Frida contrasta fortemente com
aquilo que normalmente se oferece em Hollywood, inclusive
em duas boas películas recentes, tais como The Life of David
Gale (Alan Parker, 2002) e The Unsaid (Tom McLoughlin,
2001), que continuam representando o desejo das mulheres
como a fonte das piores tragédias que, quase
indefectivelmente, levam a um final desastroso.
Ainda que Frida seja uma história de amor sobre a
apaixonada relação entre dois artistas célebres, a saga
romântica é impulsionada por forças materiais. Frida é a
filha de um artesão, talvez artista, Guillermo Kahlo, um
fotógrafo que tem de lutar para conseguir dinheiro para
manter a sua família e pagar os custosos tratamentos da
sua filha. Desse modo, ela sabe que eventualmente terá

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de ganhar a vida. A relação com Diego começa


precisamente quando ela lhe pergunta se a sua pintura é
boa o suficiente para que dela possa viver. A necessidade
– ou o desejo – de Diego de conseguir dinheiro é o que o
levou a aceitar o encargo de pintar o mural do Rockefeller
Center, o qual logo foi destruído. O argumento do magnata
gringo soava implacável: o mural podia ser talvez de Rivera,
mas a parede era sua.
Quase todo o cinema que se realiza hoje em dia
nos Estados Unidos mostra casas de sonhos, interiores
fabulosos, carros de luxo, viagens de primeira classe e roupa
8
Torna-se difícil não ver o cinema finíssima de última moda. 8 E mais, essas imagens do
contemporâneo de Hollywood consumismo estão divorciadas do trabalho que custaria
como um arremedo das películas
de ‘telefones brancos’ da Itália obter semelhantes bens: a prosperidade, tal qual um maná,
fascista. cai dos céus. Ao contrário, Frida é mais realista e insiste em
que inclusive artistas famosas/os têm de trabalhar para viver,
assim como pagar um preço por se vender aos melhores
compradores.
O fato de que Frida seja um filme sobre pessoas que
realmente existiram impele a compará-lo com aquilo que
se passou na ‘realidade’; resulta inevitável que a Frida de
Taymor e Hayek seja confrontada à Frida ‘real’, tal como
ocorre com a criação de Leduc e Medina. Ao evitar uma
declaração explícita de sua veracidade, Frida difere da
maioria dos filmes biográficos, um gênero sobre o qual
George F. Custen opina: “Quase todas as películas
biográficas apresentam em princípio, em forma oral ou
escrita, declarações que afirmam a realidade de sua
9
CUSTEN, 1992, p. 8 . Nessa obra, narrativa”. 9 Talvez a história de Frida Kahlo seja tão
Custen analisa os anos 1927– conhecida que resulte desnecessário fazer uma afirmação
1960, período no qual se dá o
como esta, mas o fato de Taymor fazer constar nos créditos
auge dos filmes biográficos.
iniciais que o filme “se baseia no livro de Hayden Herrera”
introduz uma certa subjetividade que resulta diferente da
credibilidade com que se engalana uma obra que se afirma
“baseada numa história real”.
De qualquer forma, ao se comparar uma
representação cinematográfica com a ‘realidade’ – isto é,
construída a partir de histórias escritas e memórias pessoais,
por exemplo – não é possível afirmar, simplesmente, que
“não ocorreu assim...”. Pelo contrário, as contradições entre
o que conhecemos como ‘realidade’ e o que vemos na
tela deveriam ser questionadas: quais são os erros e as
omissões? Além disso, e o que é mais importante: o que
significam?
Enquanto a equipe de Taymor e Hayek se manifesta
claramente em concordância com a política sexual da
Frida ‘real’, parece menos atenta à sua política em geral.
Certamente trata-se de um enorme avanço o fato de se
mostrar um membro do Partido Comunista como um ser

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humano; Reds (Warren Beatty, 1981) talvez seja a única


película de Hollywood, desde o princípio da guerra fria, a
eleger um comunista como ‘um sujeito aceitável’ para
10
Custen assinala que somente protagonizar um filme biográfico.10
certas “vidas são sujeitos Sem dúvida, a verdadeira militância da artista no
aceitáveis” (CUSTEN, 1992, p. 12).
Partido Comunista Mexicano (PCM) está velada em Frida.
Numa ou noutra ocasião o compromisso político de Diego
é acentuado, enquanto o de Frida é minimizado e
considerado secundário; ela não é representada como o
indivíduo autônomo e motivado politicamente que parece
ter sido na realidade. Frida primeiro ingressou na Juventude
do Partido Comunista Mexicano e, não se sabe
precisamente quando, chegou ao PCM, tendo
permanecido nele toda a sua vida. Sua devoção à causa
é evidente em vários quadros, inclusive naquele derradeiro,
que acabou incompleto: o retrato de Stalin. Esse quadro
aparece no filme de Leduc, mas está ausente no de Taymor,
como também não aparece a bandeira comunista que
encobriu o seu féretro no Palácio de Belas Artes, cena com
a qual começa a obra de Leduc.
Talvez as restrições políticas do filme de Taymor e
Hayek se tornem mais evidentes na cena que elegeram
como a última aparição pública de Frida. A película se
inicia (como no livro de Herrera) com um flashforward que
mais adiante será também a sua cena final: Frida, deitada
em sua cama, é levada de sua casa até a abertura de sua
única exposição, na Cidade do México. O sofrimento que
passou nessa ocasião é mostrado de forma patente. Mas,
na realidade, a última aparição pública de Frida ocorreu
um ano depois e só onze dias antes de sua morte, quando
as suas dores devem ter sido ainda muito piores. Foi quando
saiu em cadeira de rodas pelas ruas da cidade para
protestar contra a derrubada, por parte dos Estados Unidos,
do governo democraticamente eleito na Guatemala de
Jacobo Arbenz. Taymor e Hayek decidiram dar ênfase à
satisfação pessoal, convertendo Kahlo no protótipo do/a
artista burguês/a, em vez de mostrar a coragem e o
compromisso evidente de uma esquerdista que agonizava.
Mesmo sendo compreensível que essa representação não
teria sido apreciada pelo público do ‘bom vizinho’ da
América Latina, o fato de que Leduc mostre esse episódio
indica quão diferentes são as limitações políticas que
imperam dentro e fora dos Estados Unidos.
Ainda que a personagem de Frida pareça
ultrapassar as fronteiras culturais, apresenta também o risco
de converter-se facilmente em um padrão conhecido.
Portanto, embora o pai alemão e a mãe oaxaquenha
estejam presentes, a artista é vista, sobretudo, como se fora
um produto de sua própria invenção, em lugar de uma

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síntese das culturas alemã e mexicana. Essa é uma idéia


muito ‘americana’, forjada por uma sociedade na qual as
pessoas se inventam e reinventam a si mesmas
constantemente; é possível que isso também tenha algo a
ver com a popularidade que a figura de Frida Kahlo adquiriu
nos Estados Unidos. Essa tendência à autoconstrução é
típica dos filmes biográficos desse país, como assinala
Custen: “no lugar da família como modelo de causalidade,
Hollywood insere a auto-invenção, a forma americana mais
11
CUSTEN, 1992, p. 149. característica para a construção da personalidade”.11
A formação de uma identidade nos Estados Unidos
se encontra completamente vinculada à hegemonia da
ideologia capitalista: se se trata de um país que aceita os
imigrantes de muitas e diversas culturas e religiões, todos
devem ajoelhar-se, sem dúvida, perante o altar do todo-
poderoso Mammon. Para alguém com um sólido
compromisso social, como o de Kahlo, um país como os
Estados Unidos deve ter parecido algo asfixiantemente
materialista. Em Frida, Kahlo rechaça esse materialismo,
porque a ambição é a única coisa que interessa às pessoas;
esse assunto aparece na relação com Rivera, quando ela
insiste que regressem ao México: “Não somos daqui. Estou
cansada dos gringos e estou cansada de quem és quando
estás com eles”. Diego, o imigrante mexicano que
reconhece os benefícios econômicos dos Estados Unidos,
preferiria ficar, mas Frida encontra ali um país frio, e os tons
azuis com que o país está representado no filme transmitem
essa impressão (assim como a abundância de cenas de
interiores, que produzem a claustrofobia).
O México, pelo contrário, aparece sempre cheio de
um colorido vivo, e de deliciosos tons alaranjados: o
artesanato e a arte popular mexicana aparecem
constantemente, assim como as panelas de barro e os
12
Os judas são bonecos feitos de judas, 12 as trajineras 13 adornadas com flores, que se
pano que são queimados deslocam lentamente pelos canais do Xochimilco, o dia
durante a Semana Santa numa
alusão a Judas Iscariotes, o de finados, que é mostrado de forma pitoresca, e as cenas
apóstolo que, segundo as de exteriores tomadas nas pirâmides, ao se incorporam
Escrituras, traiu Jesus. aos majestosos magueyes.14 O México também aparece
13
Pequenas barcas de fundo como uma cultura musical, e uma cantora em especial,
chato.
14 Lila Dawns (filha de um gringo com uma oaxaquenha),
Planta amarilídea.
proporciona outro elemento de transculturação, mostrando
uma outra “Frida”, em potencial, devido, sobretudo, à sua
semelhança física com a pintora.
Mesmo sendo possível que o filme flerte com o
exotismo inato do México, Frida se torna um antídoto
saudável diante da maneira como o cinema norte-
americano normalmente retrata o seu vizinho do sul. Em
filmes clássicos como Touch of Evil (Orson Welles, 1958),
por exemplo, representa-se um México escuro, perigoso e

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caótico, e em Hud (Martin Ritt, 1963) esse país torna-se a


fonte do mal, o lugar de onde provém a temida febre aftosa,
que ameaça o rancho da família. Antes de Frida, o cinema
norte-americano negava aos mexicanos o poder de tomar
decisões autônomas e independentes. Em Juarez (William
Dieterle, 1939), o retrato de Abraham Lincoln é
falaciosamente representado como protagonista e
interlocutor; Benito Juárez, o grande herói nacional, é
reduzido a carregar esse retrato ao fugir do exército francês
invasor, para que mais tarde seja consultado sobre a
15
Ver Paul VANDERWOOD, 1992, execução do derrotado imperador Maximiliano.15 Quando
p. 291-244. Ver também os Elia Kazan planejava filmar Viva Zapata! (1952) para a
fotogramas de Benito Juárez (Paul Twentieth-Century Fox, Darryl F. Zanuck (vice-presidente,
Muni) e do retrato de Lincoln nas
páginas 43, 46 e 48 encarregado de sua produção) instruiu os seus roteiristas
(respectivamente) de para que criassem uma fábula a respeito da influência dos
VANDERWOOD, 1983. Estados Unidos sobre Emiliano Zapata: “Pablo [um
personagem de ficção] deve ter falado a Zapata de um
pequeno país conhecido como Estados Unidos da
América... Me parece que Zapata deve ter ouvido falar de
eleições livres e governos do povo para o povo... Estou
seguro que Zapata deve ter feito a pergunta muitas vezes:
16
VANDERWOOD, 1992, p. 234. ‘Como é que fazem nos Estados Unidos?’”.16 Ao introduzir
uma mestiça comunista – que bebe muito, consome drogas
e tem relações lésbicas – no centro da História, Frida foi de
encontro à corrente no que se refere às biografias filmadas,
porque “Clio, a deusa da História, no cinema é masculina,
17
CUSTEN, 1992, p. 109. branca e americana.”17
É possível que a maior conquista que Frida tenha
obtido seja precisamente sua transculturalidade, a qual
viola as normas da cinematografia norte-americana e da
mexicana e abre portas que muitos espectadores nem
imaginavam que estivessem fechadas. O filme não foi bem
recebido pela crítica do México e a imprensa tratou mal,
tanto a Taymor quanto a Hayek. Um reconhecido crítico de
cinema afirmou, sintetizando a questão, que o relato se
18
Leonardo GARCÍA TSAO, 2002. encontrava “afetado por inexatidões históricas”.18 Entre os
erros mencionados por Raquel Tibol, importante crítica de
arte de esquerda, amiga de Rivera e de Kahlo, se encontra
o fato de representarem Frida bebendo tequila: “Frida não
empinava as garrafas de tequila porque quando se
embebedava sempre o fazia com conhaque; não gostava
19
Angel VARGAS, 2003, p. 2A. de tequila”.19 Ainda que pareça um exemplo trivial, essa
afirmação possui uma certa complexidade. Com certeza
Frida tomava aquilo que houvesse, mas, devido às suas
insistentes demonstrações de mexicanidade, podemos
imaginar que talvez preferisse que a representassem
bebendo tequila.
O problema verdadeiro no que tange à recepção
que Frida teve no México é que há nesse país um grande

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ressentimento quanto às pessoas que são consideradas


vendidas, enfim, aos que triunfam nos Estados Unidos. Com
certeza o filme incita ao repúdio que existe no México pelos
20
Expressão utilizada para pochos,20 e em diversas circunstâncias se podia escutar
caracterizar os “mexicanos norte- comentários: “Não vou vê-la [a fita] porque está em inglês”
americanizados”.
21
Expressão que se refere às
ou mesmo “Guácatelas, 21 é com Selma Hayek”. 22 No
coisas asquerosas, repugnantes. entanto, a maioria das pessoas a quem temos perguntado
22
O artigo sobre Frida em Proceso como lhes pareceu o filme responde que gostaram. Parece
se chamou, ironicamente, “Frida interessante assinalar também que uma película sobre uma
regresa a Bellas Artes hablando
mestiça tenha sido realizada por uma gringa e não por
en Inglés” (Proceso, n. 1358, p. 54,
10 de novembro de 2002). uma mexicana.
Em certo sentido podemos afirmar que a Frida de
Taymor-Hayek, embora nos pareça mexicana, é ao mesmo
tempo muito norte-americana, pois a narrativa clássica
linear e fechada do filme fomenta a identificação com as
celebridades da tela, em lugar de buscar novas formas de
fazer um cinema histórico. Em uma excelente resenha, Seth
Fein argumenta que o distanciamento inerente da fita de
Leduc era a estratégia mais adequada porque lembrava
ao público que se tratava de uma película histórica e não
a história mesma: “A película de Leduc é uma história melhor
do que a de Taymor não porque seja mais exata quanto
aos acontecimentos e nem essencialmente mais mexicana,
23
FEIN, 2003, p. 1262. mas porque é metodologicamente mais sólida”.23
No entanto, ainda que o distanciamento de Leduc
possa parecer apenas uma estratégia adequada aos
nossos olhos pós-modernos, a sua busca de inovação
artística, com relação ao filme histórico, foi mais que um
experimento. Porém, as suas boas intenções ficam
sepultadas debaixo do peso dos legendários protagonistas,
cuja representação simplesmente muda alimenta e reforça
os estereótipos que tão bem conhecemos. Assim, Juan José
Gurrola, no papel de Diego, não passa de uma caricatura
de um sapo, gordo e aborrecido. Ao contrário, Alfredo
Molina, no papel de Rivera, transmite a sensibilidade que
aquele mulherengo seguramente expressava diante do
sexo oposto de modo a ter tanto êxito em suas conquistas;
sua ex-esposa Lupe Marín diz a Frida que ele acha todas
as mulheres ‘perfeitas’ e, quando Diego descobre a cicatriz
que Frida tanto temia que visse, ele lhe diz que é “formosa”.
Frida leva a uma identificação com os famosos
artistas, em parte pela iluminação maravilhosa, a bela
fotografia e a excelente direção dos atores. Sem dúvida, a
película também está salpicada de rupturas brechtianas,
muito mais sutis e desfrutáveis do que as estratégias de
distanciamento e de fragmentação temporal encontradas
em Leduc. Uma seqüência de animação recria o acidente,
uma inventiva foto-montagem introduz a sua viajem aos
Estados Unidos, os quadros têm vida e os atores saem deles.

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AS DUAS FRIDAS: HISTÓRIA E IDENTIDADES TRANSCULTURAIS

E mais do que isso, apesar das limitações impostas


pela forma holywoodiana de Frida, trata-se de um filme
profundamente mexicano em muitos sentidos: a violência
é manipulada com um certo gosto, sem catchup, e os
efeitos especiais se tornam evidentes e não se encontram
escondidos atrás de um aparente realismo. Contrariamente
à formula dos filmes norte-americanos em que “todos os
males têm cura”, Frida insiste em que a vida deva ser bem
24
Custen afirma: “Esta idéia – de vivida mesmo que não seja longa.24 Dado o teor reacionário
que todos os males têm cura – é e avaro de nossos tempos, dá alívio ver um filme que resgata
precisamente a mensagem das a criatividade de uma mulher que viveu com paixão e
películas biográficas” (CUSTEN,
1992, p. 169). consciência social.

Referências bibliográficas
BATESON, Gregory. “The Case of Binocular Vision.” In: ______. Mind and Nature, a Necessary
Unity. New York: E. P. Dutton, 1979. p. 69-70.
CUSTEN, George F. Bio/Pics: How Hollywood Constructed Public History. New Brunswick:
Rutgers University Press, 1992.
FEIN, Seth. “Review of Frida”. American Historical Review, v. 108, n. 4, Oct. 2003. p. 1262.
GARCÍA TSAO, Leonardo. “No tan sufrida”. La Jornada, México, 29 nov. 2002.
GALEANO, Eduardo. Las venas abiertas de América Latina. México: Siglo XXI, 1971.
HERRERA, Hayden. Frida: una biografia de Frida Kahlo. México: Diana, 2003.
LEDUC, Paul; BLANCO, José Joaquín. Frida, naturaleza viva. Puebla: Universidad Autónoma
de Puebla, 1992. Guión cinematográfico.
VANDERWOOD, Paul (ed.). Juárez. Madison: University of Wisconsin Press, 1983.
______. “The Image of Mexican Heroes in American Films.” FilmHistoria, Barcelona, v. II, n.
3, 1992. p. 291-244.
VARGAS, Angel. “Degrada Frida a los personages representados em la cinta: Tibol”. La
Jornada, 9 marzo 2003, p. 2A.

[Recebido em novembro de 2004


e aceito para publicação em marçoo de 2005]

The TTwo
wo FFridas:
ridas: Histor
History y and TTranscultural
ranscultural Identities
Abstract
Abstract: This article analyzes the film Frida (2003), directed by Julie Taymor and starred by
Salma Hayek, which features the love relationship between the mural artist Diego Rivera and the
painter Frida Khalo. It is not a filmic biography, but focuses on a period of the painter’s life. On the
one hand, it presents some comparison with the Mexican movie about the painter, Frida, naturaleza
viva (1983), by Paul Leduc, to contrast different views on the events of a life, as to, for example,
what concerns sexual politics. On the other hand, the paper explores to what extent the polemical
film by Taymor/Hayek is historical, based on reality, or whether it is a sight-and-sound fictional
version of a written biography.
Key words
words: Frida Kahlo, sexual politics, transculturalism, biographical movies, identity.

Tradução: Geraldo A. Lobato Franco


Revisão: Luzinete Simões Minella e Simone Pereira Schmidt

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