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Onde está o Gato de Schrödinger?

por Osvaldo Pessoa Jr.


Uma das imagens mais populares, relacionadas à física quântica, é a do “gato de
Schrödinger”. O físico austríaco Erwin Schrödinger foi um dos pioneiros da física
quântica, e em 1935, no exílio em Oxford, escreveu um artigo a respeito de um famoso
argumento de Einstein, Podolsky & Rosen, que futuramente descreveremos.

Neste artigo, Schrödinger examinou alguns problemas conceituais da física quântica, e


um deles era a respeito das “superposições quânticas”. Segundo algumas
interpretações da teoria quântica (como a realista ondulatória), um átomo pode estar
localizado em dois lugares diferentes ao mesmo tempo. É como se ele estivesse dividido
simetricamente em dois (antes da observação), apesar de sempre ser observado como
um só. Exploramos esta questão no texto sobre “O Problema da Medição” - clique aqui
e leia.

“Ora” – raciocinou Schrödinger –, “talvez possamos considerar que um átomo é uma


entidade borrada [blurred], que se localiza em dois lugares ao mesmo tempo” (essas não
são as palavras exatas que ele usou). “Porém, essa imagem não pode ser estendida para
objetos muito maiores do que átomos. Pois se tentarmos colocar um gato em uma
superposição, fracassaremos, pois um gato está sempre em um estado macroscópico
bem definido.”

Schrödinger descreveu como se poderia tentar colocar um gato em uma superposição


de dois estados diferentes. Em primeiro lugar, todo o equipamento, incluindo o gato, é
colocado em um recipiente completamente isolado do ambiente. Na prática isso é
impossível – o que de certa forma invalida o experimento –, mas vamos supor que os
efeitos do ambiente sejam desprezíveis.

O físico austríaco imaginou um dispositivo quântico em que um átomo estivesse em


uma superposição (por exemplo, em dois lugares diferentes, A e B), e daí esta
superposição seria amplificada. Já vimos um processo semelhante na 2ª figura do texto
“O Problema da Medição”. Se o átomo estivesse em A, a amplificação levaria um martelo
a quebrar um vidro contendo cianureto, e o gato morreria (ver figura abaixo, à direita). Se
o átomo estivesse em B, a amplificação não afetaria o martelo, e o gato viveria (figura, à
esquerda).

Mas o átomo está numa superposição de A e B; assim, o gato deveria ser levado para
uma superposição de estados, estando ao mesmo tempo vivo e morto (ver figura
abaixo)! Schrödinger considerou que isso seria um absurdo, concluindo assim que não
se pode estender a noção de entidades borradas para corpos macroscópicos. Implícito
nisso estava a mesma conclusão obtida por Einstein, Podolsky & Rosen: a física
quântica seria “incompleta”, ou seja, há algo faltando na teoria quântica.
Outros autores pegaram este exemplo e começaram a tirar conclusões diferentes, e foi
assim que o gato ganhou sua fama.

A primeira questão central é se é possível, pelo menos em princípio, criar uma


superposição de um objeto macroscópico. Esta é uma questão bastante atual, e os
físicos já conseguiram criar superposições envolvendo mil partículas (numa molécula de
fullereno) separadas por uma distância de 0,1 micra (um mícron é um milionésimo de
metro). Superposições bem maiores, envolvendo um bilhão de elétrons, foram obtidas
não com separação espacial, mas com o sentido de propagação de uma corrente
elétrica. Isso tudo parece indicar que certas superposições macroscópicas podem ser
obtidas em situações de grande isolamento.

Supondo que fosse possível colocar um gato em uma superposição, o que aconteceria
se alguém olhasse para ele? Certamente observaríamos ele ou vivo, ou morto, mas
nunca numa superposição. Isso porque, segundo a física quântica, toda medição (ou
observação) leva a um “colapso” do estado. No momento em que o gato fosse iluminado
pela luz de uma lanterna, para que pudéssemos vê-lo, ele colapsaria para o estado vivo
ou para o estado morto.

Mas será que é possível colocar um gato em uma superposição macroscópica?


Provavelmente não, pois ele é um sistema quente, cheio de flutuações que acabariam
impedindo a realização da superposição. Se tal experimento fosse possível, seria
provavelmente necessário resfriar o gato para uma temperatura próxima do zero
absoluto, o que certamente o mataria.

(As figuras foram retiradas de um artigo de B. DeWitt, “Quantum Mechanics and Reality”,
Physics Today 23, setembro 1970, pp. 30-35.)