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Dados I n t e r n a c i o n a i s de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara B r a s i l e i r a do L i v r o , SP, B r a s i l )

S c h u l t z , Duane P.
História da p s i c o l o g i a moderna / Duane P. S c h u l t z ,
Sydney E i l e n S c h u l t z ; [ tradução Suely Sonoe M u r a i
Cuccio] . — São Paulo : P i o n e i r a
Thomson L e a r n i n g , 2005.

Título o r i g i n a l : A h i s t o r y o f modern psychology.


Bibliografia.
ISBN 85-221-0425-5

1. P s i c o l o g i a - História I . Schultz,- Sydney E i l e n .


II. Título.

CDD-150.19

índices p a r a catálogo sistemático:

1. P s i c o l o g i a moderna : História 150.19


ULO QUATRO

A Nova
Psicologia

0 Pai da Psicologia Moderna O Pai da Psicologia Moderna


Wilhelm Wundt (1832-1920)
A Biografia de Wundt
Wilhelm Wundt foi o fundador da psicologia como disci- Os Anos em Leipzig
plina académica formal. Instalou o primeiro laboratório, A Psicologia Cultural
O Estudo da Experiência
lançou a primeira revista especializada e deu início à psi- Consciente
cologia experimental como ciência. Os temas de suas pes- O Método de Introspecção
quisas, como sensação e percepção, atenção, sentimento, Elementos da Experiência
Consciente
reação e associação, tornaram-se capítulos básicos de A Organização dos Elementos
livros didáticos e são até hoje fontes inesgotáveis de estu- da Experiência
do. Tanto que a maior parte da história da psicologia pós- Consciente
Texto Original: Trecho sobre
wundtiana é caracterizada pela contestação ao seu ponto a Lei das Resultantes
de vista da psicologia, fato que não desvaloriza sua i m - Psíquicas e o Princípio
portância nem seus feitos como seu fundador. da Síntese Criativa,
Extraído de Outiine of
Por que foi Wundt e não Fechner a receber os méri- Psychology (1896), de
tos pela fundação da nova psicologia? A obra Elements of Wilhelm Wundt
O Destino da Psicologia de
Psychophysics, de Fechner, foi publicada em 1860, cerca
Wundt na Alemanha
de 15 anos antes de Wundt iniciar os estudos de psicolo- As Críticas à Psicologia de
gia. O próprio Wundt declarou que o trabalho de Fechner Wundt
A Herança de Wundt
representava a "primeira conquista" da psicologia experi-
mental (Wundt, 1888, p. 471). Quando Fechner faleceu, Outras Tendências da
Psicologia Alemã
seus papéis foram doados a Wundt, que proferiu palavras
Hermann Ebbinghaus
honrosas em sua memória durante o funeral. Além disso,
(1850-1909)
E. B. Titchener, discípulo de Wundt, referia-se a Fechner A Biografia de Ebbinghaus
como pai da psicologia experimental (Benjamin, Bryant, Pesquisa sobre Aprendizagem
Campbell, Luttrell e Holtz, 1997). Os historiadores são Pesquisa c o m Sílabas sem
Sentido
unânimes em relação à importância de Fechner e alguns Outras Contribuições d l
Ebbinghaus à VÍ:ZZ'.ZZ:Z
Franz Brentano (1838-191"
O Estudo dos '•• *
Carl Stumpt (1848-1936) até questionam se a psicologia teria começado naquele
A Fenomenologia momento sem a sua contribuição. Então, por que eles
Oswald Kúlpe (1862-1915) não creditam a Fechner os méritos pela fundação da psi-
Divergências entre Kiilpe e
cologia?
Wundt
A Introspecção Experimental A resposta encontra-se na natureza do processo de
Sistemática fundação de uma escola de pensamento. A fundação con-
Pensamentos sem Imagens
siste em um ato deliberado e intencional que envolve
Tópicos de Pesquisa do
Laboratório de Wiirzburg
características e habilidades pessoais diferentes das exigi-
Comentários das na produção de contribuições científicas extraordiná-
rias. Um historiador da psicologia disse:

Quando as ideias básicas estão todas elaboradas, algum


p r o m o t o r t o m a essas ideias e as organiza, adicionando
informações que pareçam ser (...) essenciais, publica-
as, divulga-as e as p r o m o v e e, e m resumo, " f u n d a "
u m a escola. (Boring, 1950, p. 194.)

A contribuição de Wundt para a fundação da psico-


logia moderna é devida não tanto a uma única descoberta
científica quanto à promoção vigorosa da experimentação
sistemática realizada por ele. Portanto, fundação não é
sinónimo de criação, embora essa distinção não tenha
intenção de ser depreciativa. Tanto os fundadores como
os criadores são essenciais para a formação de uma ciên-
cia, assim como os arquitetos e os construtores são indis-
pensáveis na construção de um edifício.
Com essa distinção em mente é possível compreen-
der por que Fechner não foi identificado como o funda-
dor da psicologia. Na verdade, ele simplesmente não
estava tentando fundar uma nova ciência. Seu objetivo
era compreender a relação entre os universos mental e
material. Ele buscava descrever com base científica u m
conceito unificado de mente e corpo.
Wundt, no entanto, estava determinado a fundar
uma nova ciência. No prefácio da primeira edição da sua
obra Principies of Physiological Psychology (Princípios da
psicologia fisiológica) (1873-1874), ele escreveu: "O tra-
balho que ora apresento ao público consiste em uma ten-
tativa de demarcar um novo domínio da ciência". Seu
objetivo era promover a psicologia como uma ciência
independente. Todavia é preciso reafirmar que, embora
Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele
não foi o seu criador. A psicologia é o resultado de uma
longa sequência de esforços criativos.
Na segunda metade do século XIX, o Zeitgeist estava
propício para a aplicação da metodologia experimental
aos problemas da mente. Wundt foi u m agente poderoso
do que já estava em andamento, u m promotor talentoso
do inevitável.
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOGIA 79

Wilhelm Wundt (1832-1920)


-. seguir, apresentamos a vida de Wilhelm Wundt, bem como a sua definição de psico-
logia e a sua influência na evolução subsequente do campo.

A Biografia de Wundt
".Vilhelm Wundt passou os anos iniciais de sua vida nas pequenas vilas das proximida-
des de Mannheim, na Alemanha. Teve uma infância solitária (seu irmão mais velho fica-
va em u m internato) e a sua única diversão era ficar sonhando em u m dia se tornar u m
escritor famoso. Seu rendimento escolar foi baixo nos anos iniciais. Seu pai era pastor,
mas Wundt não tinha boas recordações dele, embora tanto o pai como a mãe fossem des-
critos como pessoas sociáveis. Lembrava-se de um dia em que o pai fora visitar a escola
e dera-lhe uma bofetada no rosto por não prestar atenção ao professor. No início do
segundo ano, a responsabilidade pela sua educação ficou a cargo de u m assistente do pai,
um jovem vigário por quem o garoto acabou criando uma forte afeição. Quando o páro-
co foi transferido para uma cidade vizinha, Wundt ficou tão aborrecido que foi autoriza-
do a viver com ele até os 13 anos.
A família Wundt era dotada de forte tradição académica, com ancestrais intelectuais
renomados em praticamente todas as áreas. Entretanto parecia que essa extensa linhagem
seria interrompida com o jovem Wundt. Ele passava a maior parte do tempo sonhando
em vez de estudar, e fora reprovado no primeiro ano do Gymnasium. Sua relação com os
:olegas de classe não era muito amistosa e ele era ridicularizado pelos professores. Aos
poucos, no entanto, aprendeu a controlar seus devaneios, tornando-se relativamente
oopular. Embora nunca houvesse apreciado a escola, esforçou-se para desenvolver seus
interesses e sua capacidade intelectual. Quando se formou, com 19 anos, estava prepara-
do para prosseguir os estudos universitários.
Decidiu tornar-se médico por duas razões: desejava trabalhar com a ciência e ganhar
a vida. Frequentou a escola de medicina das universidades de Túbingen e de Heidelberg,
nesta tendo cursado anatomia, fisiologia, física, medicina e química. No decorrer do
curso, percebeu não ter tanta inclinação para a medicina e decidiu especializar-se em
fisiologia.
Depois de estudar u m semestre na University of Berlin com o importante fisiologis-
ta Johannes Muller, retornou à Universtiy of Heidelberg e completou o doutorado em
1855. Lecionou fisiologia em Heidelberg, de 1857 a 1864, e foi indicado para ser assis-
tente de laboratório de Helmholtz. Wundt detestou a tarefa de dar orientações básicas
aos estudantes no laboratório e deixou a função. Em 1864, foi promovido a professor
adjunto e permaneceu em Heidelberg por mais dez anos.
Estando envolvido na pesquisa em fisiologia, Wundt começou a conceber o estudo
da psicologia como uma disciplina científica experimental independente. Primei-
ramente, sintetizou as ideias no livro intitulado Contributions to the theory ofsensory per-
ception, publicado em partes, entre 1858 e 1862. Descreveu suas experiências originais,
realizadas em um laboratório improvisado em sua casa, e os métodos que considerava
adequados para a nova psicologia, usando pela primeira vez o termo "psicologia experi-
mental". Esse livro, juntamente com o Elements of Psychophysics (1860), de Fechner, é
considerado marco literário do surgimento da nova ciência.
uu msiuKiA DA PSICOLOGIA MODERNA

No ano seguinte, Wundt publicou Lectnres on lhe minds ofmen and animais (1863).
Sua revisão cerca de 30 anos mais tarde, a tradução para o inglês e as seguidas reimpres-
sões da obra após a morte de Wundt são indicadores da importância do livro, no qual
Wundt abordou vários temas, como o tempo de reação e a psicofísica, que ocupariam a
atenção dos psicólogos experimentais durante vários anos.
Em 1867, Wundt começou a ministrar u m curso de psicologia fisiológica na
Heidelberg, o primeiro curso formal dessa área no mundo. Suas aulas também produzi-
ram material para outro importante livro, Principies of physiological psychology
(Princípios da psicologia fisiológica), publicado em duas partes, em 1873 e 1874. Em 37
anos, Wundt revisou o livro em seis edições, sendo a última publicada em 1911.
Principies é, indubitavelmente, sua obra-prima, na qual Wundt estabeleceu a psicologia
como uma ciência laboratorial independente, com problemas e métodos de experimen-
tação próprios.
Por vários anos, as sucessivas edições de Principies of physiological psychology serviram
como base de informações para os psicólogos experimentais e de registro do progresso
da psicologia. O termo "psicologia fisiológica" pode dar margem a interpretações equi-
vocadas, já que naquela época o vocábulo "fisiológica" era sinónimo da palavra alemã
que queria dizer "experimental". Na realidade, Wundt estava lecionando e escrevendo a
respeito de psicologia experimental e não sobre a psicologia fisiológica no sentido atual
da palavra (Blumenthal, 1998).

Os Anos em Leipzig
Wundt começou a mais longa e importante fase da sua carreira em 1875, ao tornar-se
professor de filosofia da Universtiy of Leipzig, onde trabalhou durante incríveis 45 anos.
Logo depois de chegar a Leipzig, instalou um laboratório e, em 1881, lançou a revista
Philosophical Shidies, publicação oficial do novo laboratório e da. nova ciência. Havia pen-
sado em chamar a revista de Psychological Shidies (Estudos Psicológicos), mas mudou de
ideia aparentemente porque já existia outra com o mesmo nome (embora abordasse
temas relacionados com ocultismo e espiritismo). Em 1906, renomeou a revista de
Psychological Shidies. Agora tendo nas mãos u m manual, um laboratório e uma revista
académica especializada, a psicologia estava em bom caminho.
O laboratório de Wundt e também a sua crescente fama atraíram a Leipzig muitos
estudantes que desejavam trabalhar com ele, dos quais vários se tornaram pioneiros,
difundindo versões próprias de psicologia para novas gerações de alunos. Entre eles
estavam diversos americanos que retornaram aos Estados Unidos para implementar
laboratórios próprios. Assim, o laboratório de Leipzig exerceu enorme influência no
desenvolvimento da psicologia moderna, servindo como modelo para novos laborató-
rios e constantes pesquisas.
Além dos laboratórios instalados nos Estados Unidos, outros foram implementados
por alunos de Wundt na Itália, na Rússia e no Japão. Nenhum outro idioma teve mais
livros traduzidos de Wundt do que o russo e a admiração por ele chegou ao ponto de os
psicólogos de Moscou construírem uma réplica do seu laboratório. Outra réplica foi
construída por estudantes japoneses na Tokyo University, em 1920, ano da morte de
Wundt, mas foi destruída durante u m conflito estudantil nos anos 1960.
Wundt foi u m professor bastante popular e, em um dos cursos por ele ministrado
em Leipzig, o número de estudantes matriculados ultrapassou a 600. Sua maneira de
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOGIA 81

lecionar foi descrita da seguinte forma pelo estudante E. B. Titchener, em uma carta que
escreveu em 1890, depois de assistir pela primeira vez a uma aula de Wundt:

O [funcionário] abriu a porta e W u n d t e n t r o u , t o d o vestido de preto, é claro, dos sapa-


tos à gravata: u m a figura magra, de Ombros estreitos, c o m a coluna u m pouco curvada a
partir da cintura, dava a impressão de ser alto, n o entanto, d u v i d o que tivesse efetiva-
m e n t e mais de 1,75 m de altura.
Ele caminhava ruidosamente — não há outra palavra para a q u i l o —, subindo pelo
corredor lateral os degraus da plataforma; batia c o m os pés e fazia b a r u l h o , c o m o se as
solas dos sapatos fossem de madeira. Realmente f i q u e i c o m má impressão daquele m o d o
ruidoso de caminhar, todavia parece que n i n g u é m se deu conta.
Alcançou a plataforma e pude ter u m a boa visão da figura. Cabelos grisalhos, e m
quantida de razoável, exceto n o t o p o da cabeça, cuidadosamente coberto por alguns fios
longos puxados da lateral...
W u n d t , p u d e perceber, n ã o c o n s u l t o u qualquer t i p o de anotação para dar a aula
n e m o l h o u e m a l g u m m o m e n t o para o suporte de livros, embora tivesse alguns papéis
misturados entre os cotovelos...
W u n d t não deixava os braços sobre o descanso: m a n t i n h a os cotovelos fixos, mas
m o v i a constantemente os braços e as mãos, a p o n t a n d o e acenando... os m o v i m e n t o s
eram controlados e pareciam, de alguma f o r m a , misteriosamente ilustrativos...
Ele parou p o n t u a l m e n t e ao soar do relógio e saiu pisando e fazendo b a r u l h o , u m
pouco curvado, assim c o m o havia entrado. Se não fosse pelo ruído absurdo do seu cami-
nhar, não teria o u t r o s e n t i m e n t o a expressar senão o de admiração pelo seu p r o c e d i m e n -
t o . ( B a l d w i n , 1980, p . 2 8 7 - 2 8 9 . ) 1

Sua vida pessoal foi tranquila e modesta e seus dias eram cuidadosamente planeja-
dos. Pela manhãs trabalhava em um livro ou algum artigo, lia os trabalhos dos alunos e
editava a revista. Às tardes realizava exames ou encaminhava-se para o laboratório, cuja
visita, conforme lembrou u m estudante americano, não durava mais de cinco ou dez
minutos. Aparentemente, apesar de acreditar na pesquisa de laboratório, "o próprio
Wundt não era u m pesquisador de laboratório" (Cattell, 1928, p. 545).
Mais ao final do dia, Wundt fazia uma caminhada e mentalmente preparava a aula
da tarde que ministrava habitualmente às quatro horas. À noite dedicava-se à música, à
política e, quando mais jovem, às atividades relacionadas com os direitos do trabalhador
e do estudante. Levava uma vida confortável e a família dispunha de empregados domés-
ticos e usufruía de lazer.

A Psicologia Cultural
Com a implementação do laboratório e a criação da revista especializada, além da gran-
de quantidade de pesquisas em andamento, Wundt voltou a atenção para a filosofia. De
1880 a 1891, escreveu a respeito da ética, da lógica e da filosofia sistemática. Publicou a
segunda edição de Principies of physiological psychology em 1880 e a terceira em 1887;
ainda contribuía com artigos para a revista.
Outra área em que Wundt concentrou seu grande talento fora esquematizada em seu
primeiro livro: a criação da psicologia social. Ao retomar esse projeto, Wundt produziu

Reimpresso mediante a autorização da APA (Associação Psicológica Americana).


82 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA

u m trabalho em 10 volumes, intitulado Cultural psychology (Psicologia cultural), que


publicou entre 1900 e 1920. (Muitas vezes, o título é traduzido equivocadamente como
Folk psychology — Psicologia do povo.)
A psicologia cultural tratou de várias etapas do desenvolvimento mental humano
manifestado pela linguagem, nas artes, nos mitos, nos costumes sociais, na lei e na
moral. O impacto dessa publicação na psicologia foi mais significativo do que o conteú-
do em si, já que serviu para dividir a nova ciência em duas partes principais: a experi-
mental e a social.
Wundt acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percep-
ção, deviam ser estudadas por meio de métodos de laboratório. Todavia os processos
mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados
. pela experimentação científica, por serem condicionados pela língua e por outros aspec-
tos culturais. Wundt somente acreditava no estudo dos processos de pensamento supe-
riores com o emprego de meios não-experimentais como os usados na sociologia, na
antropologia e na psicologia social. A noção do significativo papel das forças sociais no
desenvolvimento dos processos cognitivos ainda é considerada importante; no entanto,
a conclusão de Wundt de que tais processos não são passíveis de estudo por meio de
experimentos foi logo contestada e invalidada.
Wundt dedicou 10 anos ao desenvolvimento da psicologia cultural; entretanto o
campo, na forma como havia previsto, exerceu pouco impacto sobre a psicologia ameri-
cana. Uma pesquisa abrangendo os artigos publicados em 90 anos na American Journal of
Psychology mostrou que, de todas as citações referentes às publicações de Wundt, menos
de 4% estavam relacionadas com a obra Cultural psychology. Por outro lado, Principies of
physiological psychology era responsável por 6 1 % das referências aos seus trabalhos
(Brozek, 1980).
Uma razão provável para a falta de interesse dos psicólogos americanos na psicologia
cultural de Wundt seria a época da publicação: entre 1900 e 1920. Nesse período uma
nova psicologia estava surgindo nos Estados Unidos, com uma abordagem u m pouco dis-
tinta da de Wundt. Os psicólogos americanos passaram a confiar nas próprias ideias e nas
instituições educacionais e não sentiam mais tanta necessidade de voltar a atenção para
os acontecimentos da Europa. U m destacado pesquisador observou que a psicologia cul-
tural não atraía tanto interesse porque ela "surgiu em u m estágio de maturidade da psi-
cologia americana em que os pesquisadores americanos estavam bem menos suscetíveis
às impressões estrangeiras do que" nas décadas de 1880 e 1890 (Judd, 1961, p. 219).
Wundt prosseguiu na pesquisa sistemática e no trabalho teórico até a morte, em
1920. Graças ao seu estilo de vida organizado, conseguiu completar as memórias dos seus
registros psicológicos pouco antes de morrer. Análises acerca da sua produção constata-
ram que ele escreveu 54.000 páginas entre 1853 e 1920, em uma média de 2,2 páginas
por dia (Boring, 1950; Bringmann e Balk, 1992). Havia concretizado o sonho da infân-
cia de tornar-se u m escritor famoso.

0 Estudo da Experiência Consciente


A psicologia de Wundt utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, princi-
palmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Wundt adaptou esses métodos cien-
tíficos de investigação para a nova psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo
modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área.
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOGIA 83

Dessa forma, o Zeitgeist na fisiologia e na filosofia contribuiu para moldar tanto os méto-
dos de investigação como o objeto de estudo.
O objeto de estudo de Wundt consistia, para definir em uma única palavra, na
consciência. No sentido mais amplo, o impacto do empirismo e do associacionismo do
século XIX refletia-se, ao menos parcialmente, no sistema de Wundt. Na sua perspecti-
va, a consciência incluía várias partes diferentes e podia ser estudada pelo método da
análise ou da redução. Ele declarou: "A primeira etapa da investigação de u m fato deve
ser uma descrição dos elementos individuais (...) dos quais consiste" (apuá Diamond,
1980, p. 85).
Todavia a semelhança entre a abordagem de Wundt e a da maioria dos empiristas
e dos associacionistas concentrava-se apenas nesse ponto de vista. Wundt não aceitava
a ideia de os elementos da consciência serem estáticos (assim denominados átomos da
mente) e se conectarem de forma passiva mediante algum processo mecânico de asso-
ciação. Ao contrário, ele acreditava no papel atiyo da consciência em organizar o próprio
conteúdo. Portanto o estudo separado dos elementos, do conteúdo ou da estrutura da
consciência proporcionaria apenas o ponto inicial para a compreensão dos processos
psicológicos.

Voluntarismo. Wundt concentrou-se no estudo da capacidade própria de organiza-


ção da mente, dando o nome de voluntarismo ao seu sistema, em referência à palavra
volição, que significa o ato ou a força de vontade. O voluntarismo refere-se à força de von-
tade própria de organizar o conteúdo da mente em processos de pensamento superiores.
Wundt enfatizava não os elementos em si, como os empiristas e associacionistas britâni-
cos (assim como Titchener mais tarde enfatizara como aluno de Wundt), mas o processo
ativo de organização e síntese desses elementos. No entanto é importante lembrar que
Wundt, embora alegasse que a mente consciente era dotada do poder de sintetizar os ele-
mentos em processos cognitivos de nível superior, nunca deixou de reconhecer serem
básicos os elementos da consciência. Na ausência desses elementos, não havia nada a ser
organizado na mente.

Experiência mediata e imediata. Na opinião de Wundt, os psicólogos deveriam


dedicar-se ao estudo da experiência imediata e não da experiência mediata. A experiên-
cia mediata proporciona ao indivíduo as informações ou o conhecimento relacionado
com algo além dos elementos de uma experiência. É a forma usual de empregar a expe-
riência para adquirir o conhecimento do nosso mundo. Por exemplo: quando olhamos
uma rosa e dizemos "A rosa é vermelha", subentende-se que nosso interesse principal
concentra-se na flor e não no fato de percebermos algo denominado de "[cor] vermelha".
Todavia a experiência imediata de visualizar a flor não está no objeto propriamen-
te dito, e sim na experiência de perceber que alguma coisa é vermelha. Para Wundt, a
experiência imediata não sofre nenhum tipo de influência de interpretações pessoais,
como a descrição da experiência de visualizar, a cor vermelha da rosa em termos do obje-
to, ou seja, da flor em si.

Voluntarismo: a ideia de que a mente é capaz de organizar o conteúdo mental em processos de


pensamento de nível mais elevado.
Experiência mediata e imediata: a experiência mediata oferece qualquer informação, exceto
sobre os seus elementos, e a experiência imediata é equilibrada por interpretação.
84 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA

Do mesmo modo, ao descrevermos a sensação de desconforto provocada por uma


dor de dente, relatamos a nossa experiência imediata. No entanto, se apenas dissermos:
"Estou com dor de dente", referimo-nos somente à experiência mediata.
Na perspectiva de Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor
vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da cons-
ciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. A proposta de
Wundt consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes compo-
nentes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para
dividir o seu objeto de estudo, ou seja, o universo físico. A ideia da tabela periódica
desenvolvida pelo químico russo Dimitri Mendeleev serviu de apoio para o objetivo de
Wundt. Os- historiadores sugeriram que talvez Wundt estivesse tentando desenvolver
uma espécie de "tabela periódica" da mente (Marx e Cronan-Hillix, 1987).

0 Método de Introspecção
Wundt descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. Sendo assim,
o método da psicologia científica deve abranger as observações da experiência conscien-
te. No entanto somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la.
Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da
introspecção, ou seja, do auto-exame do estado mental. Ele se referia a esse método
como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já
existia no tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do
controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção.

Introspecção: a auto-análise da mente para se inspecionar e relatar os pensamentos ou sentimen-


tos pessoais.

Na física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na fisiologia, foi
aplicada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo: para obter informações sobre
os sentidos, o pesquisador aplicava u m estímulo e pedia ao indivíduo para descrever a
sensação produzida. Esse procedimento é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísi-
cos empregados por Fechner. Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam
se algum era mais pesado, mais leve ou se ambos possuíam o mesmo peso, estavam pas-
sando pela experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiên-
cias conscientes.
A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt na
University of Leipzig, obedecia a regras e condições estabelecidas por ele:

• Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será intro-


duzido.
• Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta.
• Devem haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação.
• Devem haver condições adequadas para se variar as situações experimentais em
termos de manipulação controlada do estímulo.

A última condição remete à essência do método experimental: a variação das condi-


ções das situações de estímulo e a observação das mudanças resultantes nas experiências
descritas pelos indivíduos.
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOGIA 85

Wundt acreditava que sua forma de introspecção — a percepção interna •— permitia


fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas de interesse da
psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os dados para as ciências
como a astronomia e a química. Na percepção externa, o foco de observação encontra-
se fora do observador — por exemplo: uma estrela ou a reação da mistura química no
tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco encontra-se dentro do observador •— na sua
experiência consciente.
O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições experimentais con-
siste em produzir observações precisas passíveis de repetição, da mesma forma que a per-
cepção externa produz para as ciências naturais observações que podem ser repetidas
separadamente por outros pesquisadores. A f i m de atingir essa meta, Wundt insistia em
treinar cuidadosa e rigorosamente os seus observadores para realizar corretamente as per-
cepções internas. Exigia que eles completassem até 10.000 observações introspectivas
individuais antes de considerá-los preparados para proporcionarem dados significativos
para o seu laboratório de pesquisa. Submetidos a esse treinamento repetitivo e persisten-
te, os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se tornariam
rápidos e alertas em relação à experiência consciente sendo observada. Na teoria, os
observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para pensar ou refletir sobre
o processo (e possivelmente introduzir alguma interpretação pessoal) e seriam capazes de
descrever a experiência consciente quase imediata e automaticamente. Assim, o interva-
lo entre os atos de observar e de relatar a experiência imediata seria mínimo.
Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa em que as pes-
soas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva que
buscava estava relacionada principalmente com os julgamentos conscientes sobre o
tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise
quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram
relatos de natureza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por
um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria
das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por equipa-
mentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registra-
dos quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos suficientes, Wundt
2

extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos de experiência consciente.

Elementos da Experiência Consciente


Definidos o objeto de estudo e a metodologia para a nova ciência da psicologia, Wundt
traçou suas metas:

• analisar os processos conscientes, utilizando-se dos seus elementos básicos;


• descobrir como esses elementos eram sintetizados e organizados;
• determinar as leis da conexão que regiam a organização dos elementos.

2 Um historiador realizou uma pesquisa a respeito do uso de dados qualitativos e quantitativos feito por Wundt e cons-
tatou que "em cerca de 180 estudos experimentais publicados entre 1883 e 1903 nos 20 volumes de Philosophische
Studien [a primeira publicação especializada de Wundt, Philosophical Studies] apenas quatro empregavam dados
introspectivos qualitativos" (Danziger, 198D, p. 248).
86 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA

Sensações. Wundt alegava ser a sensação uma das duas formas básicas de experiên-
cia. A sensação surge sempre que u m órgão do sentido é estimulado e os impulsos resul-
tantes atingem o cérebro. Pode ser classificada pela intensidade, duração e modalidade
do sentido. Wundt não reconhecia nenhuma diferença fundamental entre a sensação e
a imagem porque esta também está associada com a estimulação do córtex cerebral.

Sentimentos. O sentimento é a outra forma elementar da experiência. A sensação e


o sentimento são aspectos simultâneos da experiência imediata. O sentimento é o com-
plemento subjetivo da sensação, embora não se origine diretamente de órgão do sentido.
Sensações são acompanhadas de certas qualidades de sentimento; quando se combinam
para formar u m estado mais complexo, resultam na qualidade de sentimento.
Wundt propôs a teoria tridimensional do sentimento com base nas próprias obser-
vações introspectivas. Munido de u m metrônomo (aparelho que pode ser programado
para produzir cliques audíveis em intervalos regulares), notou que, após ouvir uma série
de cliques, alguns padrões ríhrúcos eram mais prazerosos ou agradáveis do que outros.
Concluiu que parte da experiência de qualquer padrão sonoro requer o sentimento sub-
jetivo do prazer ou desprazer. (Observe que o sentimento subjetivo ocorria ao mesmo
tempo que as sensações físicas associadas com os cliques.) Wundt sugeriu assim que esse
estado de sentimento poderia ser alocado em uma variação contínua desde o extrema-
mente agradável até o extremamente desagradável.

Teoria tridimensional do sentimento: a explicação de Wundt para os estados do sentimento


baseada em três dimensões: prazer/desprazer, tensão/relaxamento e excitação/depressão.

Dando continuidade aos experimentos, Wundt observou u m segundo tipo de sen-


timento, ouvindo os cliques do metrônomo: uma leve tensão ao antecipar cada som
sucessivo, seguida do alívio após o elique. Concluiu assim que, além do contínuo pra-
zer/desprazer, o sentimento possuía uma dimensão de tensão/relaxamento. Posterior-
mente, ao aumentar o intervalo dos cliques, sentiu-se suavemente excitado, e ao
reduzi-lo, sentiu-se calmo e até u m pouco deprimido.
Dessa forma, variando o intervalo do metrônomo e praticando a introspecção, des-
crevendo as suas experiências conscientes imediatas (as próprias sensações e os próprios
sentimentos), Wundt definiu as três dimensões independentes do sentimento: pra-
zer/desprazer, tensão/relaxamento e excitação/depressão. Cada sentimento básico era
efetivamente descrito de acordo com a sua localização dentro do espaço tridimensional,
ou seja, a sua posição em cada uma das dimensões.
Wundt considerava as emoções u m composto complexo de sentimentos elementa-
res e, se fosse possível destacá-los na grade tridimensional, as emoções poderiam ser
reduzidas a esses elementos mentais. Embora a teoria tridimensional do sentimento hou-
vesse despertado o interesse para várias pesquisas em Leipzig e em outros laboratórios
europeus da época, não resistiu ao teste do tempo.

A Organização dos Elementos da Experiência Consciente


Apesar da sua ênfase nos elementos da experiência consciente, Wundt reconheceu que,
ao olharmos para os objetos do mundo real, nossa percepção é dotada de unidade ou de
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOGIA 87

totalidade. Por exemplo: ao olharmos por uma janela, vemos uma árvore e não sensa-
ções individuais ou experiências conscientes de brilho, cor ou formato que os observa-
dores treinados do laboratório descrevem como resultado de suas introspecções. Nossa
experiência visual do mundo real abrange a árvore inteira e não como sensações e sen-
timentos básicos constituintes da árvore.
Como as partes elementares compõem essa experiência consciente unificada?
Wundt explicou o fenómeno por meio da sua doutrina da apercepção. O processo de
organização dos elementos mentais formando uma unidade é uma síntese criativa (tam-
bém conhecida como a lei das resultantes psíquicas) que cria novas propriedades
mediante a mistura ou a combinação dos elementos. Wundt declarou: "Todo composto
psíquico é dotado de características que de modo algum consistem na mera soma das
características dos elementos" (Wundt, 1896, p. 375). Todos já ouvimos esta afirmação:
a totalidade não é igual à soma das partes. Essa noção é disseminada pelos psicólogos da
Gestalt (veja no Capítulo 12). A noção da síntese criativa possui a correspondente na quí-
mica. A combinação dos elementos químicos produz compostos ou resultantes com pro-
priedades não encontradas nos elementos originais.

Apercepção: processo de organização dos elementos mentais.

Para Wundt, a apercepção consiste em u m processo ativo. Nossa consciência não


atua apenas sobre sensações e sentimentos básicos que experimentamos. Ao contrário, a
mente atua nesses elementos de forma criativa para compor a unidade. Desse modo,
Wundt não acreditava no processo da associação mecânica e passiva defendido pela
maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.

Texto Original
Trecho sobre a Lei das Resultantes Psíquicas e o Princípio da Síntese
Criativa, Extraído de Outline of Psychology (1896), de Wilhelm Wundt

A lei das resultantes psíquicas encontra sua expressão no fato de todo componente psíqui-
co exibir atributos que são conhecidos, na verdade, por meio dos próprios atributos dos ele-
mentos que o compõem após serem identificados; entretanto esses elementos não podem
de maneira alguma ser considerados mera soma dos atributos. Na melodia composta encon-
tram-se mais atributos afetivos e ideacionais do que na mera soma dos tons. A organização
temporal e espacial das ideias temporais e espaciais é certamente condicionada de forma
perfeitamente regular por meio da cooperação dos elementos componentes da ideia, no
entanto, ainda assim, o arranjo em si não pode de forma alguma ser considerado proprie-
dade pertencente aos próprios elementos da sensação. As teorias nativistas afirmam ser essa
noção contraditória e insolúvel; e, além disso, na hipótese de admitirem a ocorrência de
mudanças subsequentes nas percepções espaciais e temporais originais, estão definitiva-
mente partindo para a aceitação do surgimento, pelo menos parcial, de novos atributos.
Por fim, essa lei encontra a expressão de forma evidentemente reconhecível nas fun-
ções aperceptivas e nas atividades da imaginação e da compreensão. Os elementos unidos
88 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA

pela síntese aperceptiva não só ganham, na ideia agregada result.ante das suas combina-
ções, um novo significado antes inexistente no seu estado isolado, como também — e.o
que é mais importante •— a própria ideia agregada consiste em novo conteúdo psíquico
derivado certamente desses elementos e que de modo algum encontrava-se neles contido.
Essa característica apresenta-se de forma mais evidente nas produções com maior comple-
xidade da síntese aperceptiva, por exemplo, em uma produção artística ou em um exercí-
cio de lógica.
A lei das resultantes psíquicas expressa, assim, um princípio que podemos designar, em
vista dos resultados, como princípio da síntese criativa. Esse princípio, há muito reconhecido
nos casos de criações mentais superiores, em geral não é aplicado a outros processos psíqui-
cos. Na verdade, devido a uma confusão injustificável com as leis da causalidade psíquica, ele
tem sido interpretado até erroneamente.
Equívoco semelhante é responsável pela ideia de contradição existente entre o princípio
da síntese criativa no universo mental e as leis gerais do mundo natural, especialmente em
relação à conservação da energia. Essa contradição é injustificada porque as perspectivas
para o julgamento e, consequentemente, para todas as mensurações nos dois casos são
diferentes e devem sê-lo, já que a ciência natural e a psicologia não lidam com os conteú-
dos distintos da experiência, mas com um único e mesmo conteúdo observado de ângulos
diferentes...
As mensurações físicas referem-se a massas, forças e energias objetivas, conceitos adi-
cionais obrigatórios no julgamento da experiência objetiva; e, como as suas leis gerais são
derivadas da experiência, não devem ser contraditas por nenhum único caso de experiência.
As mensurações físicas, que se referem à comparação dos componentes físicos e de suas
resultantes, estão relacionadas com valores e resultados subjetivos. O valor subjetivo de uma
unidade pode aumentar em comparação com seus componentes; o propósito da unidade
pode ser diferente e superior ao dos seus componentes sem qualquer alteração nas massas,
forças e energias envolvidas. Os movimentos musculares de um ato de vontade externa, os
processos físicos que acompanham a sensação-percepção, associação e apercepção obede-
cem invariavelmente ao princípio da conservação da energia. Todavia os valores e as finali-
zações que essas energias representam podem ser muito diferentes em quantidade, até
mesmo quando a quantidade dessas energias permanece a mesma.

0 Destino da Psicologia de Wundt na Alemanha


Embora a psicologia wundtiana tenha se espalhado rapidamente, não transformou de
imediato nem completamente a natureza da psicologia académica na Alemanha. No
período de Wundt — na realidade, já em 1941, duas décadas após a sua morte — a psi-
cologia nas universidades alemãs ainda consistia em uma área de especialização da filo-
sofia. Esse fato, em parte, era devido à resistência de alguns psicólogos e filósofos em
separar a psicologia da filosofia e também a u m fator contextual importante: os órgãos
governamentais responsáveis pela criação das universidades não enxergavam nenhum
valor prático na psicologia para garantir a alocação de recursos para o estabelecimento
de departamentos académicos e laboratórios independentes.
Em 1912, quando a Sociedade de Psicologia Experimental realizou u m encontro
em Berlim, os psicólogos pressionaram formalmente o governo para obter mais verba.
CAPÍTULO 4 A NOVA PSICOLOCIA 89

Em resposta, o prefeito de Berlim declarou que, primeiro, precisava ver os resultados


práticos das pesquisas psicológicas. A mensagem foi clara: "Se a psicologia deseja obter
mais verba, seus representantes devem provar a sua aplicabilidade para a sociedade"
(Ash, 1995, p. 45).
A dificuldade estava no fato de a psicologia de Wundt concentrar-se na descrição
e na organização dos elementos da consciência, não sendo, assim, apropriada para a
solução dos problemas do mundo real. Talvez seja essa uma das razões de ela não ter
criado raízes na atmosfera pragmática dos Estados Unidos. Wundt considerava a psi-
cologia uma ciência puramente académica e não se interessava em aplicá-la às ques-
tões práticas.
Desse modo, apesar da sua aceitação nas universidades de vários países, a evolução da
psicologia wundtiana como ciência distinta foi relativamente lenta na própria Alemanha.
Por volta de 1910, 10 anos antes da morte de Wundt, existiam três publicações especiali-
zadas em psicologia na Alemanha, além de diversos livros e laboratórios de pesquisa. No
entanto apenas quatro estudiosos constavam nas listasVoficiais como psicólogos e não
como filósofos. Por volta de 1925, apenas 25 pessoas na Alemanha intitulavam-se psicó-
logos e somente em 14 das 23 universidades havia departamentos de psicologia indepen-
dentes (Turner, 1982).
— Nesse mesmo período nos Estados Unidos, havia muito mais psicólogos e departa-
mentos de psicologia. O conhecimento e as técnicas de psicologia estavam sendo apli-
cados aos problemas práticos na economia e na educação. Ainda assim, deveríamos
reconhecer que a origem para pensar o campo da psicologia nos Estados Unidos era
derivada do pensamento de Wundt.

As Críticas à Psicologia de Wundt


A posição de Wundt, assim como a de qualquer outro inovador, estava sujeita a críticas.
Especialmente vulnerável era o método da percepção interna ou da introspecção. Os crí-
ticos questionavam: quando a introspecção realizada por diferentes observadores produz
resultados distintos, como saber qual é o resultado correto? As experiências realizadas
com o uso da técnica de introspecção nem sempre produzem o mesmo resultado, já que
se trata de uma auto-observação — é definitivamente uma experiência particular. Assim
sendo, as divergências não podem ser dirimidas mediante a repetição das observações.
Wundt reconhecia essa falha mas acreditava na possibilidade de aprimorar o método,
submetendo os observadores a mais treinamento e experiência.
As opiniões políticas de Wundt também eram alvo de críticas e podem ser a explica-
ção para a afirmação de u m historiador ao descrever "o declínio precipitado da psicologia
wundtiana entre as duas grandes guerras [1918-1939]. (...) A maior parte do conteúdo das
pesquisas e dos trabalhos de Wundt simplesmente desapareceu nos ambientes de língua
inglesa" (Blumenthal, 1985, p. 44). Os estudiosos creditavam o seu declínio às declarações
francas de Wundt a respeito da Primeira Guerra Mundial. Ele considerava a Inglaterra cul-
pada por iniciar a guerra e defendia a invasão da Bélgica pela Alemanha como um ato de
autodefesa. Essas declarações eram tendenciosas e equivocadas e fizeram com que muitos
psicólogos • americanos se voltassem contra Wundt e a sua psicologia (in Benjamin,
Durkin, Link, Vestal, Acord, 1992; Sanua, 1993).
O sistema de Wundt também enfrentou a concorrência crescente nos países de lín-
gua alemã após a Primeira Guerra Mundial. Nos anos finais da sua vida, duas outras escc-
90 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA

las de pensamento surgiram na Europa, obscurecendo a sua visão: a psicologia da


Gestalt, na Alemanha, e a psicanálise, na Áustria. Nos Estados Unidos, o funcionalismo
e o behaviorismo encobriram a abordagem wundtiana.
Além disso, as forças contextuais económicas e políticas vigentes contribuíram para
o desaparecimento do sistema wundtiano na Alemanha. Com o colapso económico após
a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, as universidades ficaram falidas. A
University of Leipzig não possuía verbas nem para a aquisição dos livros mais recentes
de Wundt para a biblioteca. O laboratório de Wundt, onde ele orientou a primeira gera-
ção de psicólogos, foi destruído durante u m bombardeio de americanos e ingleses em 4
de dezembro de 1943. Assim, a natureza, o conteúdo, a forma e até mesmo o lar da psi-
cologia wundtiana se perderam.

A Herança de Wundt
O ato de instalação do primeiro laboratório de psicologia exigia uma pessoa com vasto
conhecimento da fisiologia e da filosofia contemporâneas e com capacidade para sinte-
tizar efetivamente as ideias e os métodos dessas disdplinas. Para Wundt cumprir a meta
~~ de fundar uma nova ciência, teve de rejeitar o pensamento não-científico do passado e
f eliminar as relações intelectuais entre a nova psicologia científica e a antiga filosofia
mental. Ao restringir o objeto de estudo da psicologia â experiência consciente e definir
a disciplina como uma ciência baseada na experiência, Wundt conseguiu evitar discus-
sões sobre a imortalidade da alma e as suas relações com a mortalidade do corpo. Ele
apenas alegava enfaticamente que a psicologia não lidava com essas questões e essa afir-
mação foi u m grande passo adiante.
Wundt, conforme anunciou que o faria, deu início a u m novo domínio da ciência
e conduziu pesquisas no laboratório que instalara exclusivamente para esse f i m .
Publicou os resultados na sua própria revista e tentou desenvolver uma teoria sistemá-
tica da natureza da mente humana. Alguns de seus alunos deram continuidade ao tra-
balho, criando laboratórios para prosseguir com as experiências relacionadas com as
questões estabelecidas por ele e empregando as suas técnicas. Desse modo, Wundt pro-
porcionou à psicologia todos os acessórios de uma ciência moderna.
Notadamente, a época estava preparada para o movimento wundtiano em conse-
quência do amadurecimento natural do desenvolvimento das ciências psicológicas,
especialmente nas universidades alemãs. Todavia o fato de o trabalho de Wundt não se
consistir na origem desse movimento, e sim no seu ponto culminante, não reduz a sua
importância. A fundação da psicologia exigiu extrema dedicação e coragem para a con-
cretização do movimento. Os resultados de seus esforços representam uma conquista tão
extraordinária que Wundt merece ocupar uma posição exclusiva de destaque entre os
psicólogos do período moderno. Uma pesquisa conduzida por 49 historiadores america-
nos de psicologia 70 anos após a sua morte relevou que ele ainda era considerado o psi-
cólogo mais importante de todos os tempos, uma constatação honrosa para u m estudioso
cujo sistema já havia sido esquecido há muito tempo (Korn, Davis, e Davis, 1991).
O fato de a maior parte da história da psicologia pós-Wundt consistir de posições
contrárias às limitações por ele impostas para a área não desvaloriza as suas brilhantes
contribuições. Ao contrário, enaltece ainda mais a sua grandeza. As contestações devem
ter algum alvo, algo a ser rebatido, e o trabalho de Wundt, sendo esse alvo, proporcio-
nou u m início magnífico e convincente para a moderna psicologia experimental.