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História da Cultura e das Artes I

Profª Marta Esteves

MONODIA PROFANA
 A história faz parecer que a música, durante alguns séculos, permaneceu propriedade exclusiva
da igreja.
 Com toda a certeza, música e dança faziam parte das festas profanas em todas as classes sociais,
embora a informação que nos chega acerca destas diversões seja rara antes do ano 1000. O que
quer que tenha havido antes disso perdeu-se nos tempos sem deixar rasto.
 Só a partir do séc.XI houve condições favoráveis para o desenvolvimento e preservação das
canções profanas devido a um renascimento da civilização europeia.
 Um espírito tendencialmente cada vez mais profano surge nesta altura e vai estimular a criação
da poesia e da canção, contribuindo assim para o desenvolvimento da música monódica profana.
 Os escribas passam a ter mais atividade em relação à cópia de documentos literários e musicais
mas, no caso das canções, tinham o hábito de copiar a poesia sem a música.

 Surgem então os temas dominantes na poesia lírica da Idade Média:


o O sofrimento
o Os prazeres da vida
o Os vícios

 Este movimento literário e musical profano, terá como


base uma ideologia que dominará a Idade Média e que
vai ter como manifestações o Ideal de Cavalaria e a noção
do Amor Cortês.
 Esta ideologia vai enaltecer o amor e dar à guerra um
sentido de elevação moral, aos quais serão associados
códigos de comportamento.
 Daqui resultará todo um movimento cultural, onde irão
proliferar os Romances de Cavalaria e a expansão de uma
arte musical unida à poesia – a Arte Trovadoresca.

Origem do Movimento Trovadoresco

 O movimento trovadoresco foi o primeiro movimento a usar as línguas vernáculas (dialetos


próprios da região) num estilo literário e foi também o primeiro movimento cultural profano a
distanciar-se da Igreja, que nesta altura dominava todo o Ocidente.
 Mesmo assim, a linha separadora entre a lírica sagrada e a lírica profana é difícil de determinar
pois os aspetos da vida religiosa e da vida profana estavam fortemente ligados. As canções mais
antigas que se conhecem são em latim e podemos encontrar a origem desta poesia lírica nos
Hinos da igreja.
 Estes limites entre o sagrado e o profano podem ser encontrados nas canções em latim de
Venantius Fortunatus – considerado o mais antigo poeta medieval de França embora numa
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época ainda distante do seu desenvolvimento. Nasceu em Itália em 530 e foi para França. Passou
alguns anos em cortes francesas, antes de se fixar em Poitiers, onde se tornou padre e depois
Bispo. Morreu em 609.
 Será coincidência ou não, que após alguns séculos, exactamente nesse local (sul da França) se
tenha começado a produzir lírica sagrada como arte profana.
 Por estas razões, Fortunatos foi considerado o 1º trovador do mundo ocidental, embora fora da
época do trovadorismo pois a sua poesia trata de situações ocasionais, acontecimentos, relações
pessoais, poemas de engrandecimento a reis e rainhas, canções de celebração de coroações e
casamentos e também muitos “planctus” – espécie de lamento ou choro ou canção fúnebre
dedicada a monarcas ou a grandes figuras.

 É no séc.XI que se inicia o grande desenvolvimento da poesia latina profana para cantar. O
espírito profano começa a crescer nas escolas dos mosteiros e das catedrais devido ao estudo
dos poetas pagãos, como Virgílio, Horácio, etc., com o propósito de se aprender a escrever
dentro dos cânones clássicos.
 Mas o conteúdo da poesia dos poetas pagãos começa a influenciar o pensamento e levam os
homens da igreja a misturar o sagrado e o profano, criando uma poesia transversal a todas as
classes sociais.
 Uma das mais antigas colecções de canções em Latim foi encontrada num manuscrito do séc.XI,
que se encontra na Universidade de Cambridge e que se compõe de cerca de 40 poemas e
apenas 2 melodias (as restantes perderam-se). Os temas vão desde poemas religiosos a canções
de louvor a reis e bispos, contos cómicos populares e poemas eróticos.

 Quando as classes sociais mais altas começam a fazer a canção profana, as formas musicais
tornaram-se mais variadas e complexas.
 Não sabemos exatamente quem terá composto a lírica latina até finais da Idade Média, pois a
maioria dos poemas são anónimos. Quando aparecem assinados, usam termos vagos, como
“sábio vadio” ou “goliardo”.

 Aparecem então alguns grupos que se dedicam à escrita e à música, mas que não são aceites
socialmente por se terem excluído da sua classe. São eles:

 Sábios Vadios – clérigos que abandonavam a vida religiosa por terem falhado na procura
de uma posição na Igreja e que optavam por uma vida independente e
vagabunda. Eram escritores autónomos.

 Goliardos – monges rebeldes que se


revoltavam contra a vida religiosa e
que viviam pedindo guarida de
mosteiro em mosteiro. O nome que
lhes era atribuído refletia a sua
reputação pois vem de Gula ou
Golias por serem grandes e gordos.
Eram autores de muitas canções
cujos temas celebravam os prazeres
da vida e da taberna – comer, beber,
jogar e aventuras amorosas.

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Até ao séc.XIII o termo foi usado com sentido de censura e desprezo, mas não
era aplicado aos grandes poetas do séc.XII.

 Jograis – surgiram no séc.X e tinham um estatuto


social abaixo dos goliardos. Eram homens e
também mulheres, que entretinham com
espetáculos de rua e faziam de tudo –
cantavam, dançavam, faziam malabarismos,
tinham animais amestrados e tocavam
instrumentos. Os seus espectáculos eram
recebidos com entusiasmo nas cortes e nos
mercados e feiras.
Os jograis não tinham proteção legal e
eram-lhes recusados os sacramentos da
igreja. Eram considerados como não tendo
posição social e por isso eram
marginalizados. Só no séc.XI e XII passaram
a ter maior aceitação social, sendo mais bem vistos, chegando mesmo a
organizarem-se em confrarias, que mais tarde darão origem às corporações de
músicos, semelhantes a conservatórios.
O papel dos jograis foi muito importante pois mesmo não tendo educação escolar,
cantavam as canções de outros que, através da sua vida nómada, disseminavam até
locais longínquos. Nesse sentido, contribuíram em muito para a expansão da lírica
profana.

 Menestréis – homens que andavam de terra em terra e que cantavam, tocavam e


dançavam canções compostas por outros. Não eram poetas nem compositores mas
muitas vezes alteravam ou criavam outras versões da mesma canção.

Documentos da época

 O maior e mais notável manuscrito é o Carmina Burana (séc.XIII) de um mosteiro beneditino do


sul de Munique, na Alemanha. Conserva canções profanas em latim e contém 200 poemas. As
canções falam de temas de jogo, bebida, sátiras à Igreja e à nobreza, orgias, tarot, obscenidades,
etc.

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 Cerca de 55 são de sátira, 35 canções de vagabundo, 131 canções de amor e 6 peças religiosas,
entre outras. Destas, 48 são em alemão em dialeto bavariano. Existem também cópias de
algumas canções em inglês e francês.
 As poesias das canções estão bem definidas mas sabe-se pouco das melodias pois algumas estão
notadas com neumas indecifráveis. Felizmente, um bom número de poemas tem notação clara.