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AUTISMO:

DIAGNOSTICO PRECOCE E OS DESAFIOS ENFRENTADOS PELA


FAMILIA

2017

Jessika da Silva Miranda Braga

Psicóloga graduada pela Faculdade Integrada de Ensino Superior de Colinas

FIESC/ UNIESP

Jessika.bragapsi@gmail.com

RESUMO

O tema Autismo é um tema que vem sendo discutido com maior frequência e
que atualmente, devido à demanda de alunos com autismo que são inseridos
em ambiente escolar regular, muito vem se especulando sobre sem que haja
um foco que defina o que realmente é o autismo e como se deve realizar a
educação deste aluno. Os Transtornos Globais do Desenvolvimento, dos quais
o autismo faz parte, caracterizam-se pelo comprometimento severo em três
áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca,
habilidades de comunicação e presença de comportamentos, interesses e
atividades estereotipadas (DSM-IV-TR, 2002). As características próprias do
comportamento, somadas à severidade do transtorno podem constituir
estressores em potencial para familiares e/ou cuidadores. O presente estudo
tem como objetivo revisar as pesquisas sobre o impacto dos Transtornos
Globais do Desenvolvimento, em especial do autismo, na família.

Paravras-chave: autismo, família,


INTRODUÇÃO

De acordo com Cunha (2010) em 1991, Bleuler passou a fazer


pesquisas a fim de investigar os sintomas que alguns esquizofrênicos
apresentavam, pois esses pacientes comportavam-se de maneira estranha
como se quisessem fugir da realidade e viver em seu próprio mundo interior. O
termo autismo surgiu nessa mesma época, a palavra autismo é derivada da
palavra grega autós, cujo significado é “de si mesmo”.
O Autismo Infantil (AI) é um distúrbio do desenvolvimento com bases
neurobiológicas, que afetam cerca de 4 a 10 em cada 10.000
indivíduos, e cuja incidência é maior em indivíduos do sexo
masculino, na proporção de quatro indivíduos do sexo masculino para
cada um do sexo feminino (SCHWARTZMAN, 2003,pág. 03).

O Ministério da Saúde (2013) conceituou o Autismo Infantil (AI),


modificando assim a sua descrição inicial, passando a ser agrupado em um
contínuo de condições nas quais guardam várias similaridades, que passaram
a ser denominadas de Transtornos Globais (ou Invasivos) do Desenvolvimento
(TGD) que mais recentemente, denominaram-se de Transtornos do Espectro
do Autismo (TEA) para se referir a uma parte dos TGD, no caso o Autismo, a
Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento sem Outra
Especificação (TGD-SOE), não incluindo a Síndrome de Rett e nem o
Transtorno Desintegrativo da Infância.
De acordo com Klin:

Os mais conhecidos dos TEA são o Autismo e a Síndrome de


Asperger, e atualmente se sabe que são condições muito próximas
nas perspectivas comportamentais, neurobiológicas e genéticas
apontando para um vasto grupo heterogêneo de condições, com os
indivíduos afetados variando quanto à inteligência, pois alguns
indivíduos têm comprometimento profundo ou intelecto superior ao
normal, alguns não falam, ao passo que outros são loquazes,
assoberbando os demais com monólogos intermináveis, outros têm
suas vidas dominadas por maneirismos e rituais motores imutáveis,
ao passo que outros dedicam toda sua energia intelectual à busca
exclusiva de fatos e de informações sobre tópicos incomuns e
altamente circunscritos (KLIN, 2006, p. 5-11).

O transtorno do espectro autista (TEA) é atualmente encarado de


forma muito assustadora e muitas vezes ignorado pelos pais ou familiares uma
vez que os mesmo idealizam uma criança dita ‘normal’, deixando de perceber
sinais que apontam fatores de risco, impedindo assim um diagnóstico precoce.
Todavia compreende-se que essa falta de diagnostico ou diagnostico tardio
traz cada vez mais sofrimentos futuros para essa criança e para a própria
família.
Segundo Muratori o autismo é um transtorno do desenvolvimento
cerebral que se expressa através de uma anomalia do comportamento social.
Por se tratar de um distúrbio neurobiológico, seguramente de natureza
genética, não existe, atualmente, nenhum marcador biológico capaz de indicar
precocemente a presença do autismo. Por isso o diagnostico se baseia ainda
na observação do comportamento da criança. Daí a necessidade dos pais
estarem atentos desde os primeiros anos de vida.
Mello (2007) ensina que o autismo é uma síndrome onde o indivíduo
portador apresenta alterações de comportamento muito precoces, pois são
demonstradas desde a fase pré-escolar, essas alterações apresentam
características como: problemas na comunicação, déficit no relacionamento
social e no uso da imaginação, o portador de autismo também apresenta um
atraso pleno do desenvolvimento, além de comportamentos e interesses
limitados e repetitivos.
Segundo Gauderer (1997, p. 3), os sintomas do autismo incluem:

Distúrbios no ritmo de aparecimentos de habilidades físicas, sociais e


linguísticas. 2- Reações anormais às sensações. As funções ou áreas
mais afetadas são: visão, audição, tato, dor, equilíbrio, olfato,
gustação e maneira de manter o corpo. 3- Fala e linguagem ausentes
ou atrasadas. Certas áreas específicas do pensar, presentes ou não.
Ritmo imaturo de fala, restrita compreensão de ideias. Uso de
palavras sem associação com o significado. 4- Relacionamento
anormal com os objetos, eventos e pessoas. Respostas não
apropriadas a adultos ou crianças. Objetos e brinquedos não usados
de maneira devida.

Para obtenção de um diagnostico precoce de autismo é fundamental


que se reconheça os sintomas apresentados pela criança.
Cardoso (2012) ensina que:
Comumente, as manifestações clínicas são identificadas por pais,
cuidadores e familiares que experienciam padrões de
comportamentos característicos do autismo, tendo em vista as
necessidades singulares dessas crianças.

No âmbito familiar é sempre difícil diagnosticar doenças crônicas,


principalmente em crianças, e esse diagnóstico quando confirmado trás sempre
uma situação desconfortável e de preocupação no seio familiar, forma uma
circunstância de impacto, podendo refletir na alteração do hábito diário. Deste
modo, compreende-se que a confirmação de diagnóstico de autismo torna-se
um momento complicado, delicado e desafiador para a família, do mesmo
modo é para os profissionais de saúde responsáveis por esse encargo.
Diante desse quadro, depois de diagnosticado o autismo, a família
passa a ter um papel fundamental do vida do portador de autismo, visto que a
família é considerada como sendo a primeira instituição onde a criança tem o
primeiro contato com o meio social, formando um importante ambiente de
socialização. De acordo com Cunha (2012) os membros da família exercem
grande influencia no desenvolvimento e formação da criança, e que estes são
também responsáveis pela promoção dos cuidados necessários a satisfazer as
necessidades básicas da criança.
Quando uma família se depara com uma situação em que um de
deus membros é portador de algum tipo de problema que afeta o seu
desenvolvimento e o seu convício social surge uma situação complicada de
não aceitação no início, ou quando há aceitação há um problema de não saber
como lidar com a situação, isso pode gerar, mesmo que de maneira
involuntária, atitudes impróprias que além de não contribuir para o
desenvolvimento da criança podem ainda agravar o problema.
No caso da criança com autismo, para a sua adaptação familiar é de
suma importância que a família se una à sua disfunção, Sprovieri e Assumpção
(2001, p. 231), descrevem que “o autismo leva o contexto familiar a interromper
suas atividades sociais normais, transformando o clima emocional no qual
vive”.
A família do autista possui tarefa muito importante para o seu
desenvolvimento, pois é justamente no núcleo da família que o autista tem seu
primeiro contato social, e onde ele vai aprender a desenvolver o afeto. O
trabalho da família deve seguir junto com o trabalho de especialista e de
educadores para se obtenha um resultado satisfatório em seu
desenvolvimento.
Na visão de Cunha (2012):

Ensinar para a inclusão social, utilizando os instrumentos


pedagógicos da escola e inserindo também a família, é fortalecê-la
como núcleo básico das ações inclusivas e de cidadania. Para a
escola realizar uma educação adequada, deverá, ao incluir o
educando no meio escolar, incluir também a sua família nos espaços
de atenção e atuação psicopedagógica. (p. 90)

O presente trabalho refere-se a uma pesquisa bibliográfica que


aborda o Autismo e os desafios enfrentados pela família, o autismo como
distúrbio precoce e os sinais de possíveis fatores de risco.

HISTÓRICO DO AUTISMO

A palavra autismo tem origem do grego "syndromé", cujo significado


é "reunião”, sendo um termo bastante utilizado para caracterizar o conjunto de
sinais e sintomas que definem uma determinada patologia ou condição
(SURÓS, 2009).
Do ponto de vista etiológico é também uma palavra origem grega,
advindo do termo “autos” que significa “Eu próprio”, designação que tem
acepção direta com uma perturbação global do desenvolvimento humano, onde
o indivíduo se centra em si mesmo e se isola do “mundo exterior”. Quando
acrescido do sufixo “ismo” dá ideia de orientação ou estado (OLIVEIRA;
ARAGÃO, 2011).
A história do autismo tem início em 1943 com o psiquiatra Leo
Kanner que desenvolveu uma teoria sobre a síndrome por observar
clinicamente 11 crianças. Em 1911, o pesquisador Bleuler definiu o autismo
como um dos sintomas de esquizofrenia adulta (SANTOS; SANTOS, 2012).
É com base nessa perspectiva sobre o transtorno autista como
esquizofrenia, Bleuler que determinou alguns "sintomas fundamentais", tais
como: perda associativa, ou seja, o autista não consegue fazer associação e
distúrbios afetivos (VENANCIO, 2010).
Segundo Souza (2011), Bleuler relata a síndrome dissociativa na
psicose adulta, particularmente na esquizofrenia. Neste estudo, o autor faz uso
do termo de esquizofrenia ao invés de demência que era utilizado pelo autor
Kraeplin em 1896, considerando ao mesmo tempo o autismo como uma perda
de contato da realidade em clientes que sofrem de esquizofrenia.
Kanner reformulou o termo como distúrbio autístico da convivência
afetiva relatando a síndrome com o mesmo sinal clínico de isolamento. E
assim, analisou um grupo de crianças com idades entre 2 anos e 4 meses a 11
anos. Tendo como resultados: 1) ausência de linguagem ou incapacidade no
uso significativo da linguagem; 2) ecolalia; 3) extrema dificuldade para
estabelecer vínculos com pessoas ou situações; 4) recusa de comida; 5)
repetição de atitudes; 6) boa memória mecânica; 7) manipulação de objetos; 8)
físico normal; 9) reação de horror a ruídos fortes e movimentos bruscos
(BRASIL, 2013).
O austríaco, Hans Asperger (1906-1980), passou a usar a palavra
autismo para um "espectro de distúrbios", o qual também estaria dentro do
distúrbio de Asperger. Ele estava convicto de que o autismo era resultado de
uma relação entre os fatores genéticos, biológicos e fatores ambientais
(FLEISCHER; GRINKER, 2010).
Segundo a Associação Amigos do Autista (AMA, 2012), em 1944,
Hans Asperger pesquisou e classificou a Síndrome de Asperger, um dos
espectros mais conhecidos do Autismo. Reconheceu que embora os sintomas
e problemas mudem com o tempo, o problema em geral raramente acaba. O
mesmo escreveu que “no curso do desenvolvimento, certas características
predominam ou recuam, de modo que os problemas apresentados mudam
consideravelmente”.
Segundo Vila et al (2009), a Síndrome de Asperger é uma
perturbação pouco comum, sendo muito tarde o diagnóstico devido à falta de
capacidade em conhecer os sinais e sintomas por parte dos profissionais,
professores e educadores.
Asperger aplicou descrições de alguns casos clínicos,
caracterizando aspectos físicos e comportamentais, desempenho nos testes da
inteligência, além de enfatizar a preocupação com a abordagem educacional
desses indivíduos e a história familiar. Diante dessa perspectiva histórica,
evidencia-se que no princípio os estudos do autismo estão intimamente ligados
com as características psiquiátricas da esquizofrenia, em razão da coincidência
de traços de isolamento social. E atualmente desprende-se da ideia de psicose
para transtorno de desenvolvimento. (TAMANAHA et al, 2009).
A Síndrome de Asperger (SA) é muitas vezes difícil de dissociar do
autismo e ainda apresentam dúvidas questionáveis ligadas à decisão de
causas, não tendo sido confirmado claramente fatores que poderiam responder
pelo aparecimento de uma ou de outra. As duas patologias têm seus principais
sintomas relacionados a complicações nas áreas de interação social, da
linguagem e do repertório comportamental, principalmente das habilidades
sociais. A principal modificação, indicado entre ambas as patologias, refere-se
ao fato de a SA não incluir desenvolvimento cognitivo e deficiência de
linguagem.

O Transtorno do Espectro Autista teve sua descoberta há pouco


tempo na história das psicopatologias do desenvolvimento. Inicialmente foi
considerado pelo psicanalista Bruno Bettelheim, como uma doença relacional,
com o foco do problema na relação diática, mãe bebê, originando a expressão
“mãe geladeira”, e sua causa associada a fatores ambientais. Porém, na
atualidade, considera-se o autismo como de ordem multifatorial, com etiologias
variadas e de origem neurológica (MOREIRA, 2005).
Orrú (2012) apresenta o estudo do psiquiatra austríaco, Leo Kanner,
residente nos Estados Unidos, médico do departamento de psiquiatria infantil
do Hospital Johns Hopkins, que publicou, por volta de 1943, o artigo intitulado:
Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo. Neste artigo, descreve o caso de onze
crianças com quadro de autismo severo, marcado por características de
obsessividade, estereotipias e ecolalia bem acentuados. Outro traço importante
percebido por Kanner em seu estudo foi que o distúrbio afeta a interação da
criança com seu ambiente, e pessoas desde o início de sua vida.
Os traços apresentados pelo grupo de crianças observado por
Kanner eram, de acordo com Orrú:
Incapacidade para estabelecer relações com as pessoas, um vasto
conjunto de atrasos e alterações na aquisição e no uso da linguagem
e uma obsessão em manter o ambiente intacto, acompanhada da
tendência a repetir uma sequência limitada de atividades ritualizadas.
(2012, p. 19)

Seu estudo apontou para uma sintomatologia, que acompanha a


criança desde o nascimento: não ter ou manter contato com o ambiente, não
apresentar mudanças na expressão facial diante de estímulos advindos do
ambiente, não manter contato visual, problemas na aquisição da fala,
dificuldade de generalizar conceitos, de usar o pronome eu, o uso da prosódia,
tendência a ignorar o que lhe é perguntado, recusa determinados alimentos,
apresenta pica, palavra dada ao ato de ingerir objetos não comestíveis, como,
giz e sabonete, por exemplo, comportamento repetitivo, criação e manutenção
de rotinas, sensibilidade aguçada, para mais ou para menos, dos sentidos, ser
suscetível a crises ansiosas diante de mudanças ou alterações bruscas dos
ritos.
Cunha (2012), comenta que Kanner apropria-se do termo autismo
pelo psiquiatra suíço Bleuler, empregado pela primeira vez em 1911, cuja
finalidade era descrever a fuga da realidade e o retraimento interior dos
pacientes acometidos de esquizofrenia.
Segundo Cunha (2012, p. 20), “o termo ‘autismo’ deriva do grego
‘autos’, que significa ‘por si mesmo’ e, ‘ismo’, condição, tendência”. As crianças
observadas pelo psiquiatra austríaco apresentavam as características de
isolamento, igualmente demonstrada pelos esquizofrênicos, dando a impressão
de que eles estavam presos em si mesmos. Porém, o diferencial era que no
autismo esta condição já estava presente desde tenra idade.
A princípio, notou-se que o autismo tinha maior incidência em lares
considerados com problemas afetivos e, que por isso, durante longo tempo,
pensou-se que a causa do transtorno estivesse relacionada a problemas
psicodinâmicos, uma vez que não era possível encontrar fatores biológicos,
que incidissem em testes médicos existentes na época.
Embora, Kanner, em seus artigos, não afirmasse a posição
psicodinâmica como sendo a origem do autismo, levantou esta possibilidade,
pois, as crianças observadas não possuíam a capacidade inata para
estabelecer contato afetivo e biologicamente previsto no desenvolvimento, sem
estimulação, devido a esta condição, ressaltou a possibilidade delas não serem
receptivas às personalidades dos pais, gerando a hipótese da etiologia deste
transtorno ser de natureza psicodinâmica (BRASIL, 2013).
A partir dos estudos de Kanner surgiram outros pesquisadores que
tentaram encontrar a etiologia desta síndrome, passando a registrar suas ideias
sobre a origem do Autismo e formando seus conceitos a partir de suas
experiências no cuidado dessas pessoas. Autores, estes, abordados a seguir.
O médico vienense, Hans Asperger, apenas um ano após a publicação do
trabalho de Kanner, divulga seu artigo em 1944, intitulado “Psicopatologia
autística na infância”. Ao contrário de Kanner, ele não especula a atribuição da
causa do autismo como de ordem psicodinâmica, ele atribui a causa do
autismo a uma deficiência biológica, especialmente genética (BRASIL, 2013, p.
25).
Porém, o trabalho de Hans Asperger permaneceu desconhecido até
meados de 1980, quando Lorna Wing, desterra os artigos de Asperger, e passa
a estabelecer semelhanças entre os dados obtidos pelo grupo de crianças
estudadas por ele, e os estudos que estavam sendo produzidos nos Estados
Unidos e Inglaterra. Ela reconhece que ambos os estudos apresentavam
pontos em comuns basicamente a mesma tríade sintomática.
De acordo com Brasil (2013), Lorna, em um de seus artigos
descreve o conceito de espectro autista, que será adotado para se referir a
sintomatologia presente no transtorno, e seu trabalho contribuiu para incorporar
a Síndrome de Asperger ao Transtorno Global de Desenvolvimento (TGD), que
passou a constar na classificação psiquiátrica. De acordo com Orrú (2012) o
autismo atualmente é considerado como:
Uma síndrome comportamental com etiologias múltiplas e curso de
um distúrbio de desenvolvimento [...], é uma disfunção orgânica e não
um problema dos pais [...] e é de origem biológica. (p. 21)

Silva (2012), salienta esta nova perspectiva sobre o autismo como


sendo de fatores originadores e de desenvolvimento, respaldados nas
neurociências, cujo estudo tem demonstrado:
Que indivíduos com autismo aparentam ter dificuldades na área
cognitiva de funções executivas. Essas funções são um conjunto de
processos neurológicos que permitem que a pessoa planeje coisas,
inicie uma tarefa, controle-se para continuar na tarefa, tenha atenção
e, finalmente, resolva o problema. (p. 41)

A evolução classificatória das causas do autismo permitiu que novas


possibilidades fossem analisadas, entre elas, as funções executivas, que são
responsáveis pela interação do indivíduo com o ambiente, incluindo pessoas e
objetos, e determinam sua ação. O âmbito relacional dos indivíduos passou a
ser explicado pela Teoria da Mente, proposta inicialmente pelos primatologistas
Premack e Wooddruff, em 1978, para estudar os estados mentais de
chimpanzés. Essa hipótese, de acordo com Moreira (2005), passou a designar
a capacidade de atribuir a si próprio ou a outrem, pensamentos e sentimentos,
para explicar comportamentos. A ausência desta capacidade foi prontamente
relacionada aos sintomas presentes no autismo.
Se o indivíduo desenvolve a Teoria da Mente, essa capacidade
permite compreender o faz de conta nos outros, o estado mental das outras
pessoas, como seus desejos, crenças e intenções. No autismo esta
capacidade está comprometida e precisa ser estimulada para ser desenvolvida,
ou emulada. Para cumprir com esse intuito, muitos programas interventivos, de
cunho cognitivista, passaram a explorar a possibilidade de estimular a
aquisição desta competência, desde a década de 1970, onde diversas
universidades americanas desenvolveram abordagens para educar autistas.
Apesar do avanço sobre o tema, a etiologia do autismo ainda é fruto
de discussões cientificas. Entretanto, não exclui o diagnóstico neurobiológico,
como descreve Rotta (2007):
Uma pessoa com comportamentos que preencham requisitos para o
diagnóstico de autismo pode ter um exame cromossômico que dê o
diagnóstico de X frágil. Neste caso, os sintomas comportamentais
seriam consistentes com um diagnóstico de autismo com todas as
implicações que isso possa ter em termos de manejo e prognóstico, e
a causa biológica para essa síndrome comportamental seria a
síndrome do X frágil, com as devidas consequências em termos
genéticos e de prognóstico (p.427).

O mesmo autor discorre que as “várias patologias associadas com o


TEA suportam a hipótese de que as manifestações comportamentais no
autismo podem ser secundárias a uma grande variedade de insultos ao
cérebro” (ROTTA, 2007, p. 427).
O mesmo autor ressalta que:
Hoje, sabe-se que o autismo não é uma doença única, mas sim um
distúrbio de desenvolvimento complexo, que é definido de um ponto
de vista comportamental, que apresenta etiologias múltiplas e que se
caracteriza por graus variados de gravidade (ROTTA, 2007, p. 423).

Configura, desta forma, a característica multifatorial do autismo, que


pode se manifestar de diferentes formas e intensidades, tendo a tríade autística
como ponto comum. O diagnóstico pode demonstrar que o indivíduo encontra-
se na ponta do espectro e que por isso apresenta características leves da
patologia e, ou, estar no outro extremo do espectro e possuir características
severas do transtorno.