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lourenco.html

05 dezembro 2010
O Labirinto da Saudade - Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço com José Saramago

“Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para
tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

Terminei há poucos dias a re-leitura de uma obra imprescindível na compreensão do


que nós somos e do que não somos. Em bom rigor, O Labirinto da Saudade é percebido
como um discurso identitário. Na verdade, em todos os nove textos ensaísticos se
vislumbra esse contexto de problematização das questões da identidade. O primeiro dos
ensaios, e diga-se que um dos mais interessantes, entitula-se "Psicanálise Mítica do
Destino Português", tendo sido dado à estampa na Revista Raiz & Utopia, no mesmo
ano de publicação da obra, em 1978. Foi, de resto, o título desse ensaio pensado pelo
autor para a obra, todavia Eduardo Lourenço, à semelhança do mexicano Octávio Paz -
autor de O Labirinto da Solidão -, decidiu-se por O Labirinto da Saudade, um labirinto,
portanto, mais português, por assim dizer: a saudade. Tema que, no entanto, não é
tratado na obra como, por exemplo, o é em A Arte de Ser Português, de Teixeira de
Pascoaes.
Surge a obra em 1978, quatro anos depois da queda do Império, assim como do Estado
Novo; momento adequado para a publicar, segundo Lourenço, e com a intenção de:

- apelar à presença portuguesa na própria realidade, como nos diz o autor em “Repensar
Portugal”;

- “repensar (…) a totalidade da (…) aventura histórica [portuguesa], não apenas em


função das imagens e contra-imagens mais actuantes da (…) herança cultural
[portuguesa] (…) sobretudo de origem estético-literária”;
- questionar “as várias versões dos discursos sobre Portugal”, entre as quais a, na altura
ainda recente, “descolonização exemplar”, ou a produzida pelo salazarismo, “uma
ideologia em torno da portugalidade e da expansão ultramarina, da família e da religião
católica”.

Diz Eduardo Lourenço numa entrevista: “É de crer que por deficiente tradução dos
meus pontos de vista, O Labirinto da Saudade se transformou num texto-boomerang
como algumas das reacções à obra, na altura em que saiu, o mostraram. O
questionamento da identidade portuguesa não fazia parte do meu propósito”. Portanto
um certo modelo de tensão essencial entre a visão consciente entre a raiz dos traços da
portugalidade e a sua assunção de messiânico destino ou de hiperidentidade. “Quando
muito, as versões dos vários discursos sobre Portugal que tinham, em comum, não só
serem de carácter ontológico como transcendente ou, pelo menos, destinado a reforçar
uma leitura transcendente do destino português”, conclui.
A leitura, portanto, de O Labirinto da Saudade como um discurso identitário é então
vista pelo autor como contrária à sua intenção, que era, quer na ordem hermenêutica,
quer na ordem ideológica e política, a de problematizar e, se possível, substituir os mais
conhecidos discursos identitários que têm Portugal como objecto, por um outro que os
explicasse sem ter a pretensão, por sua vez, de ser ‘a verdade’ sobre o que nós somos ou
não somos. Sobre o porquê da leitura da obra como discurso identitário não nos cabe
discutir aqui.
Cumpre apenas dizer que O Labirinto da Saudade é daquelas obras de leitura
impreterível para qualquer português. Alexandre Herculano e Almeida Garrett,
escritores representativos do Romantismo em Portugal; Eça de Queirós, Antero de
Quental, Teófilo Braga e Oliveira Martins, todos eles setentistas e assinantes do
programa das conferências democráticas do Casino; Fernando Pessoa e a moderna
geração de Orpheu, “os novos” que desejaram “ser não apenas invenção e recriação de
uma nova sensibilidade e visão da realidade (…),mas igualmente uma metamorfose
total da imagem, ser e destino de Portugal” : todos estes escritores, nomes sonantes do
panorama literário e cultural em Portugal, são referência em O Labirinto da Saudade,
por pretenderem, em certa medida e no contexto da época, transformar e lutar contra
imagens (reais) de um país (sonhado), uns desejando recriá-lo à imagem de nações
europeias fortes, outros anunciando o renascimento do Império com a vinda de um
Desejado. Os discursos identitários por eles criados constituem o nosso património
cultural, formaram aquilo que chamamos o Ser Português.
Terminamos, reiterando o apelo à leitura desta obra,deste retrato, enfim deste “discurso
crítico sobre as imagens que de nós mesmos temos [tínhamos] forjado” como disse o
autor. Um livro de emergência, mas de uma emergência intemporal.

Nota: Sobre o autor recomendamos a leitura da sua biografia,no primeiro link abaixo, e
do que sobre ele diz José Saramago, no segundo link:

http://www.wook.pt/authors/detail/id/13931

http://caderno.josesaramago.org/2008/10/13/eduardo-lourenco/
Publicada por A. M. Feijó à(s) 17:09
Etiquetas: Anthero de Quental, Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade

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