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ANA PAULA DE SANT’ANA

O punk e os labirintos do corpo

Universidade Federal de Mato Grosso


Instituto de Linguagens/IL
Cuiabá – MT
Abril/2009
ANA PAULA DE SANT’ANA

O punk e os labirintos do corpo

Dissertação a ser apresentada no programa de Mestrado em Estudos de


Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso como requisito para a
obtenção do título de Mestre em Estudos Culturais.

Área de Concentração: Cultura, Comportamento e Política.


Orientador: Juan Felipe Mederos.

Universidade Federal de Mato Grosso


Instituto de Linguagens - IL
Cuiabá – MT
Abril/2009
UFMT – UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

ATA DE DEFESA

NOME: ANA PAULA DE SANT’ANA


TÍTULO: O PUNK E OS LABIRINTOS DO CORPO
CURSO: ESTUDOS LITERÁRIOS E CULTURAIS

COMISSÃO RESULTADO ASSINATURA

Prof.º Dr. Juan Felipe Sanchéz Mederos ________ ________________


ORIENTADOR

Prof.º Dr.º Lucio José de Sá Leitão Agra __________ ______________


PUC

Prof.ª Dr.ª Ludmila Lima Brandão ________ ________________


UFMT

Cuiabá, abril de 2009


À Miguel Bezerra, meu amor eterno,

Que tem a força do vento.


RESUMO

O punk se veste com jacos, cobre seu corpo com rebites, copia o uso de coturnos dos
policiais. A alma é anarquista, o zine é o meio de comunicação e a música é a arma. A adequação à
sociedade não é uma disputa pelo poder, mas uma negação de pertencimento e uma ausência de desejo
em ser legitimado por ela. A impressão da realidade é externada de forma explosiva na arte e no
comportamento. Esta pesquisa perambula a alma e o corpo do grupo punk, seu discurso e o alcance que
toma em sua manifestação na sociedade: a imagem que busca passar na nova economia e como se
constrói uma imagem fixa da identidade, enquanto o punk é volúvel e fluídico, passando pela ótica da
sociedade de controle que se debate com a inevitável força das subjetividades não adequadas a
biopolitica, essa tensão que procura engendrar uma formatação de comportamento. Como o punk se
reformula no cotidiano não permitindo a morte do movimento nesse domínio sobre a vida. Como
funciona esse grupo em sua subjetividade em meio à multidão, um agenciamento de confronto que se
torna pura tensão no jogo de sua assimilação pelo poder e resistência do grupo?

Palavras-chave: Tribo urbana – Punk – Comportamento.


ABSTRACT

The punk dresses with jacos, covers his body with rivets, the use of copies of buskin police. The soul is
anarchist, the zine is the means of communication and the music is the weapon. The adaptation to society
is not a dispute for power, but a negation of belonging and a lack of desire to be legitimized by it. The
impression of external reality is so explosive in art and in behavior. This research wander the soul and the
body of the punk group, and his reach that takes in its manifestation in society: the image search that go in
the new economy and how to build a still image of the identity, while the punk is versatile and fluidic,
moving the optical society of control that is facing the inevitable force of subjectivities not appropriate to
biopolitics, that generate a voltage that demand formatting behavior. As the punk is in the daily re not
allowing the death of the movement in this area of life. How does this group in their subjectivity amidst
the crowd, an agency of confrontation becomes pure tension in the game of their assimilation by the
power and strength of the group?

Key words: urban tribe, Punk, Behavior.


Agradecimentos

Família, meu primeiro vínculo com a Terra: minha mãe Teresinha com quem aprendi a ser antes de tudo
forte, por ela sempre ter o poder de se mostrar assim. Foi ela quem me ensinou que “atrás de morro tem
morro”, sei que não estou só. Meus filhos Anaís e Vitor, por me fazerem sorrir e de possibilitarem em
mim a percepção da qualidade de transmutar quando sou uma e posso me tornar outra. À Célia, pelo
carinho que sempre me cuidou e Consuelo pelo seu entendimento livre de explicações.

Ao Diego iluminado pelos anjos que fez um foco de luz e me encaminhou o mestrado como meta
desejante, me lançou esse novo vôo.

Juan, meu bem meu mal, meu anjo negro e belo, orientador no espaço desconhecido e completo de regras,
permitindo sobrepor-me a elas para alcançar o pleno bater de asas singular, apenas meu.

À Ludmila eu agradeço por estar presente nesta minha escritura, como conselheira e como membro da
banca de análise, colocando o seu ponto de vista único, intenso e elegante em meus devaneios.

Meu primeiro amigo punk Corvo que se tornou necessário nessa pesquisa e em minha vida. Carol Punk,
amiga forte, sincera e confidente. Fernanda, que se não fosse minha irmã eu a escolheria. Caio, que se não
fosse meu irmão seria um caminho em minha vida, me regendo sempre a contradição. Aos punks
Rodolfo, Rino, Aranha, Rodivaldo, Cláudio Dias, Daniel Cabelo, Shebba, Edzar, Fabião, por me
pertencerem em suas vidas e por pertencerem a minha. Luiz, o único a quem poderia confidenciar todas
as linhas escritas, todas as minhas palavras escolhidas uma a uma e acima de tudo, todos os meus
segredos que se escondem nessas escolhas, obrigada pela revisão: só você poderia ter se aventurado nesta
floresta. Ariel simplesmente por ser quem é.

Aos punks que não entrevistei mas me deram o prazer da convivência: Batman e Julio Diniz.

E as bandas que me alimentaram em minha reclusão: Restos de Nada, Lixomania, Blokeio Mental, DZK,
Inocentes, Sex Pistols, Ratos de Porão, Ramones, Mercenárias, Cure, Smiths e Exploited.
SUMÁRIO

Resumo iv
Abstract v

Apresentação 01
Metodologia 02
Introdução 04

Capítulo I. O PUNK – CORPO E ALMA 06

1.1. Identidade e subjetividade 10


1.2. A filosofia punk e o mundo real 12
1.3. O jovem interminável 15
1.3.1. Movimento Juvenil? 20
1.4. Marginalidade 21
1.5. Corpo presente 25

Capítulo II. ARTE E COMPORTAMENTO DOS PUNKS NA CIDADE 31

2.1. As armadilhas 35
2.2. As fugas 37
2.3. As ruas e a política: novas formas de organização 39
2.4. Punk é comportamento 41
2.5. Os jornais e as imagens 43
2.6. O sentimento de comunidade perdida 47

Capítulo III. CAOS E CORAÇÃO 52

3.1. Esferas e representações 71


3.2. Pontas do quadrado 74

Capítulo IV. PUNK: LINGUAGEM 76

4.1. Da pele das letras 78


4.2. Ovelhas negras do Brasil 84
4.3. Zines cuiabanos 85
4.4. Ser punk 88
4.5. Punk e um processo contínuo 90
4.6. Desconstrução: a linguagem punk 91
4.7. O corpo e o pogo, a música é o punk rock 92

CONCLUSÕES FINAIS 97
BIBLIOGRAFIA 100
.

Quando você me conhecer


Eu me desconhecerei
1

APRESENTAÇÃO

Os punks nascem para o mundo sob o signo da rebeldia, da contestação. Década de 60: no
mundo o movimento hippie, o LSD e outras drogas antecedem o cenário punk. Tributário da
conjuntura histórica que o precedeu – do pós 2ª Guerra Mundial à derrocada do Welfare State
(Estado do bem-estar social) – e que fermentou o existencialismo de Sartre, Simone de Beauvoir e
Camus, os Beatniks, os Beatles, Andy Warhol, mentor da pop art e da banda Velvet Underground, o
rock proto-punk, agressivo e irreverente, de Detroit Rock City - o punk explode enquanto fenômeno
cultural – musical, visual e comportamentalmente. As bandas Sex Pistols e The Clash são seus
ícones mais representativos.

No Brasil, a Tropicália, o Cinema Novo. A ditadura militar. Surgem os primeiros punks em


São Paulo. Tinham entre 15 e 18 anos e eram insatisfeitos com tudo. Do It Yourself. O movimento
alimenta a ânsia de jovens moradores da periferia de São Paulo. Na chegada a Brasília, mobiliza os
filhos da classe média, que então se intitulam anarquistas, efeito colateral de uma ressaca do poder.

Assustadoramente irreverentes, ainda hoje, nem poderia ser para menos: são filhos da
desordem. Cusparadas, vômitos, objetos atirados nos palcos.

Na música, ele explode os acordes lisérgicos do rock progressivo, complexo, que ganha
espaço na mídia e nos palcos de todo o mundo. As grandes bandas povoam os jornais como rock
stars. Chega o punk rock com três acordes revitalizando a cena underground: simples, dizem
alguns, qualquer menino podia ter sua banda.

É um desafio confrontar esse punk movido pela contestação de 30 anos atrás com o punk de
hoje, assimilado pela mídia, estudado e copiado pela moda; sua forte pegada, que antes
acompanhava o grito de contestação na música, hoje, no mercado fonográfico, sustenta as baladas
sentimentaloides de bandas juvenis com aspirações comerciais.

Pode ser gueto em seu próprio espaço, e até violento, autodestruindo para se reconstruir.
2

Como antever os caminhos da destruição se a humanidade caminha para um precipício


comum que, por não ser contida, irá apresentar-lhe o caos e impor mudanças? Surge o simulacro e a
sensação de paz e segurança na era do simulacro. Mentes submersas na retidão dos sentimentos.
Porém, como tudo que se interioriza até criar ruínas explode em guerras, guerras não explícitas,
guerras pela fé, pelo espaço, pelo poder, por status, pela imposição de uma ordem em espaços de
lazer, de rotina, do conhecimento.

Quando o punk surge no mundo, o inimigo era conhecido. Hoje ainda atacam o poder e o
“Sistema”. Mas esse poder se torna conceito quase abstrato na democracia. Para que serve o punk
na configuração de mundo atual?

Qual o sentido de o punk ser designado como movimento juvenil? A ênfase está no
comportamento e no pensamento que o punk exterioriza ao mundo. Mas a percepção do punk se dá
no comportamental, nas atitudes que ele consegue imprimir na sociedade. Como funcionam seus
conceitos de liberdade, não-conformismo e ação direta na contemporaneidade?

Esses são os prelúdios da discussão nesta dissertação, que pretende pesquisar o agir social na
cidade de Cuiabá e a modificação cultural percorridos pelo imaginário social por meio do encontro
da cidade, da memória e do corpo, narradas a partir dos punks que a percorreram e ainda a
percorrem.

Metodologia

A pesquisa foi realizada na cidade de Cuiabá (MT) em relação ao espaço, porém o punk
interage e se torna mutante graças e um dos motivos é contato que estabelece. Uso a qualificação de
punk que não se delimita ao território e tenho a pesquisa assentada em três elementos vitais:
pesquisa de campo com entrevistas qualitativas com punks de diferentes gerações; bibliografia dos
autores contemporâneos que mais a fundo refletiram sobre essas movimentações urbanas; minha
análise empírica e teórica tecendo-se às narrativas.

Afirmo que escrevo de maneira pessoal, utilizando a metodologia aplicada por Suely Rolnik,
para quem o ato de escrever:
3

“É na maioria das vezes conduzido e exigido pelas marcas: dá para dizer que são as marcas que escrevem.
Aliás, só sai um texto com algum interesse quando é assim. Daí que escrever traz notícias das marcas e tem o
poder de ampliar minha escuta a suas reverberações: é como um escafandro que possibilita mergulhar no
estranhamento com mais coragem e rigor” (Rolnik, 1993, p. 5).

Por isso, permito-me, em vez de ser mera porta-voz de meu objeto de pesquisa, ofertar-lhe
meu olhar em consonância com o que Deleuze descreve como sendo o papel do intelectual: como
multiplicidade, isto é, incorporando no próprio olhar olhares outros que podem nos moldar ou nos
causar sensações emotivas, mas que podemos também rejeitar. Porque a pesquisa tem, em certo
sentido, o mesmo efeito de se deixar levar pela correnteza - com a imersão vem a descoberta, os
sentimentos, a paixão. São seres humanos entrelaçando-se, esculpindo o tempo pela escrita de sua
memória - e assim minha própria vida, desembocando em águas que eu não navegaria sem esse
encontro, sem esse mergulho.

A bibliografia é a caixa de ferramentas, segundo Deleuze, para uma análise das marcas que
nos caracterizam, únicas, sobrepostas, enviesadas. A bibliografia é a bússola que nos impede de nos
perdermos nesse mar sem fim que é o social.

São três gerações diferentes, a saber: década de 80, período inicial – surgimento do punk em
Cuiabá; década de 90 – o surgimento dos anarcopunks e das bandas politizadas, a discussão sobre o
preconceito sexual; e atualmente – a presente situação do movimento punk em Cuiabá.

As temáticas orientam a escrita, sempre baseadas no pensamento - que chamo de alma do


punk -, sua ação e a conseqüência na cidade, os espaços sociais preenchidos por eles, que remetem à
análise comportamental como estrutura modificante de valores sociais em comparação com uma
valorização política, incluindo em todo esse contexto a arte dos punks e a sua simbologia.

Como conclusão, a proposta é designar o punk na contemporaneidade enquanto movimento


transgressor e passível de coexistir na pós-modernidade.
4

Introdução

Estudo comportamental sob a ótica dos estudos culturais contemporâneos, abordando o


imaginário, o comportamento e a filosofia punk na cidade de Cuiabá, da década de 80 à atualidade.

Com ligação estreita entre a bibliografia e as entrevistas, a narrativa se dá pela experiência de


um movimento que atinge seu auge e encontra-se em estado de passagem e revalidação. Havia
alguns punks e bandas punks, no início desta pesquisa, que mantinham encontros constantes,
costumeiramente em alguns bares. Passados três meses do início desta pesquisa, aconteceram em
Cuiabá eventos importantes referentes ao universo punk: mesa redonda sob minha coordenação no
Festival de Cinema e Vídeo da cidade, com a presença de Ariel Uliana - vocalista de uma das
primeiras bandas punks do Brasil, “Restos de Nada” 1. No debate sobre Contemporaneidade,
Movimentos Sociais, Tribos Urbanas e a Poética das Ruas, participaram duas professoras da
Universidade Federal de Mato Grosso2. Durante o levantamento de dados, surge a oportunidade de
participar e vivenciar os shows das bandas Cólera e Inocentes, também lendárias no punk brasileiro.

O movimento punk nas metrópoles brasileiras é atuante, entre outros movimentos sociais,
sendo perceptíveis no espaço da cidade seus signos, seus locais de encontro, sua linguagem e sua
arte. Em Cuiabá, tento traçar um paralelo entre as manifestações, as características gráficas e
visuais (específicas e gerais) não tão expressivas atualmente, quando comparadas com o movimento
punk em atividade em outras metrópoles. Essa pesquisa prioriza o momento atual por que passa
esse movimento social, e deixa simultâneo a ação e o comportamento do punk de Cuiabá, suas
particularidades herdadas da cidade e da cultura.

O comportamento punk de contestação e resistência é o que define seu âmago; a partir desse
núcleo, articula-se com temas maiores como a liberdade e as igualdades introduzidas na grande
caixa que é o tempo: a contemporaneidade e seus tentáculos no poder, na família, no social, na
escolha do belo.

1
Restos de Nada é de São Paulo.
2
Professoras Maurília Valderez, de filosofia e Marília Beatriz, de arte.
5

Muitos dos jovens envolvidos no surgimento desse movimento, atualmente, acompanham o


ideal punk interiorizando-o em seu dia-a-dia. Por isso, estudo a possibilidade de retirá-lo do âmbito
relacionado à faixa etária, colocando-o no âmbito da ação e de seu conjunto de pensamentos ideais.
É São Paulo a primeira cidade brasileira que recebe o punk. Na Vila Carolina e em outros bairros da
periferia paulistana, o punk explode, primeiro, ligado ao interesse pela música e pela necessidade de
conseguir um espaço para ouvi-la. Rapidamente acontece o interesse por aprender a tocar, e as
festas eram o local de encontro para escutar os discos comprados, muitas vezes, com quase todo o
salário daqueles que trabalhavam. O interesse para assistir às bandas que iniciaram o punk rock
brasileiro aumenta: Restos de Nada, AI-5, Condutores de Cadáver e Cólera. Apesar de ser um
movimento artístico e estético, sua expressão vinculada aos desejos (no sentido deleuziano) o faz
visceral. Como, socialmente, não havia espaço para aquela juventude, ela responde com
agressividade às limitações impostas pelo moralismo, pela desigualdade social e pelo autoritarismo.
Ariel, das bandas Restos de Nada e Invasores de Cérebros, afirma que “quanto mais eles
endureciam em sua empreitada em nos reprimir, mais criávamos mecanismos de defesa contra a
mesmice e a caretice da sociedade da época”. Desejos inconscientes?

Em Cuiabá foram realizadas algumas pesquisas sobre juventude, anarquismo e rock nas
décadas de 80 e 90; sobre o movimento punk, porém, não houve nenhuma pesquisa formalizada. O
que existe são acervos pessoais contendo muito material punk, como zines, fotos, vídeos em VHS,
folders, panfletos de festas e músicas. Esse material me possibilitou conhecer, principalmente, a
linguagem e os ícones utilizados pelos punks. A música foi meu primeiro contato com a arte punk, e
a maioria dos punks com os quais conversei tem afinidade explícita com a musicalidade e com o
circuito de bandas de punk rock. Digo isso para assinalar que meu relato é sobre o movimento
musical, estético e artístico do punk, e essa posição artística reflete a posição política e de
comportamento seriamente colocada por eles.
6

CAPÍTULO I – O PUNK – CORPO E ALMA

Quero escrever o borrão vermelho de sangue


com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

Quero escrever o borrão vermelho de sangue – Clarice Lispector.

O que diferencia as pessoas? Na sociedade, é preciso revolver as camadas dos espaços e suas
cores. Pesquisar o vendaval de quereres, nas bruscas modificações dos pensamentos que são
corporizados, concretizando-se na cultura, na cidade, na memória que se volatiza feito brasa quando
revolvida, espalhando-se nos ambientes temporários que modificam a história. Dessa história, a
vida é reinventada com toda a sua verdade: o olhar dos que contam que se confunde com o olhar do
olhado e de quem olha há o eterno retorno da elaboração da vida, uma leve brisa com cheiros
distintos e amplos.

Entranhando-se em dado instante, ímpar, retirando e absorvendo a essência, esticando-se e se


retraindo, alargando-se e exteriorizando na pele o gosto da alma. Despertado na alma, alcança o
corpo e a cidade pulsante com tal veemência que se torna organismo único. E volta a ser expulso
novamente por aqueles seres que o criaram. Desregradamente. Sem morais. Não há lei para os
vivos.

Isso é o que une os homens.


7

Como diz Rodolfo Scheffler3:

Deus não acredita em ateus! Todo apoio às questões indígenas, à preservação das culturas e povos indígenas,
seus direitos, suas terras, até a ampliação de áreas indígenas, desde que estes continuem preservando e utilizando
os recursos naturais tão sabiamente como sempre fizeram. Tudo que fazemos é para o próximo, o sistema
encravou na sua cabeça o egoísmo, o individualismo, é preciso agir coletivamente preservando a individualidade.
Pois o coletivo é feito de indivíduos, ou seja, não pensar egoisticamente, pensar coletivamente. Isto serve tanto
para uma banda de rock ou para uma comunidade urbana – squatter e ocupação, ou para uma comunidade rural.

É uma tentativa de não apenas se opor aos moldes de uma produção do sistema capitalista, mas
sim de reorganizar, a partir de seus próprios parâmetros, as subjetividades, elaborando um processo
de semiotização que seja coerente com seus aspectos valorativos. Quando Rodolfo fala em coletivo,
em comunidade em oposição ao individualismo, ele está pensando em implantar, dentro desse
mesmo sistema, um outro sistema, mesmo sob a vigilância do controle social, atribuindo alcance
político à dimensão da subjetividade; afinal, ela propõe interrogações sobre a vida social
empreendida, causando brechas no espaço da subjetividade dominante, pois “o movimento é sempre
contra-corrente, contra-sentido, contra-cultura, contra-natureza”, como diz Suely Rolnik na
apresentação do livro Revolução Molecular de Guattari (1981, p. 10).

Quando surge essa subjetivação contrária à dominante, pode acontecer um dos dois movimentos:
um deles seria a atitude reconhecedora, que a considera legítima e necessária, permitindo seu
crescimento e difusão; o outro modo seria a atitude normalizadora, que quer cooptar essa força, isto
é, ignorá-la, encarando-a como uma crise apenas, portanto passageira, ou quer recuperá-la e integrá-
la ao sistema.

A cooptação transforma a singularidade em estereótipo, ou rótulo, como classifica Fernanda4:


Porque quando a palavra punk aparece, ou quando a figura de um punk aparece, tem uma série de
comportamentos, de formas de ser no mundo, que é pré-determinado, que as pessoas esperam dessas pessoas que
se dizem punks, e não quero que as pessoas pensem que eu sou assim, exatamente assim... Porque eu teria que
dizer várias coisas: eu sou psicóloga, punk... É mais fácil dizer assim: eu escuto rock pra caralho, eu gosto de
ouvir barulho, já fiz barulho com uma banda, era massa, eu gosto de ouvir história de vampiro, adoro jogar
futebol, eu falo palavrão, quando tem show eu adoro bater cabeça e pogar no meio da galera, fumo maconha pra
caralho, eu andava de skate... Eu lembro da fase mais junkie, e junkie eu assumo... Fernanda era junkie?
Fernanda era junkie, muito junkie, parei com as drogas, mas continuo junkie. Eu estava na fase mais junkie de
todas, eu fazia trabalho voluntário no Parque Geórgia, a única coisa que dava motivo de levantar, de ir pra
faculdade, de fazer as coisas, de ficar viva, era a criançada lá do Parque Geórgia. Aí a Vivi nasceu e deu um gás,

33
Rodolfo Scheffler é punk de Curitiba, já morou em Cuiabá, inclusive se fixando em Chapada dos Guimarães com intenção de construir
uma comunidade punk. Trabalha nas duas cidades com publicidade, fazendo cenários e personagens para propagandas com massa de
modelagem.

4
Fernanda Nice é psicóloga, tem 25 anos, é cuiabana e freqüenta o meio underground desde adolescente.
8

assim... Então... Agora eu consigo trabalhar no social e ganhar dinheiro, isso é bom demais, pra caralho, sonho
da minha vida, estudei psicologia pra isso.

A capacidade de se reorganizar ante a força exercida pela subjetivação dominante é a


possibilidade de ler sua própria situação e articular um universo de criação e autonomia de leitura.
Por isso, acredito que o punk é uma filosofia. Ele insere em seu agenciamento paradigmas de leitura
inerentes à sua subjetividade. O que existe é uma orquestração de percepção que permite aos punks
entender e vivenciar os acontecimentos com uma lógica muito própria e ainda propor ações aos
indivíduos que fazem parte do grupo, para que se conserve a autonomia e outra força subjetiva se
expanda, independente da operante.

Essa subjetividade nasce como foco, destaca-se sempre em um ou outro - “a ovelha negra já
nasce negra” 5 - até atingir o agenciamento por contágio, tornando-se máquina de guerra. São como
a peste. É como vírus que se espalha pelo ar. A imagem da maçã podre no cesto transmitindo
doenças às outras. No caso dos punks, seu território de luta é a cidade, como lembra Corvo a
respeito de um invadido, um prédio público que, após a chegada dos punks e anarquistas, se torna
sede de discussão e debate:

Após invadir o prédio, começamos a limpeza local e, como era bastante espaçoso, além de porão e sótão, o
mesmo tinha grandes cômodos onde eram realizadas reuniões, onde debatíamos as ações a serem promovidas
pelo coletivo. Além de punks, também tinha no grupo alguns headbangers6 e muitos anarquistas provenientes do
MAU (Movimento Anarquista Universitário). O squatter tinha como objetivo servir de alojamento para aqueles
que estivessem sem lugar para ficar, uma espécie de albergue, e também como um ponto de encontro, para
debates, planejamentos, e também um centro cultural, onde eram feitas exposições de zines, confecções de faixas
e cartazes de passeatas e manifestações organizadas pelo grupo! Ali também rolava idéia sobre como seriam
desenvolvidos os zines, tanto do M.A.U, como dos punks7

Esse vírus é espalhado no ar da cidade: o contato com os grupos é extenso. A contestação dos
punks se apresenta em toda a sua estética, seja nas vestimentas, seja na música. E mesmo a sua
filosofia pode ser percebida com alguma desconfiança. São apresentados pela mídia de forma
negativa, o que resulta na imposição de uma imagem também negativa, o que, muitas vezes,

5
Frase de Rodolfo Scheffler.
6
Headbangers são fãs do estilo de música metal.
7
Retirado da entrevista com Corvo. Ele é um dos primeiros punks de Cuiabá, iniciou o movimento na década de 80. Um dos mais atentos à
construção dessa pesquisa, da mesma maneira que sempre acompanhou o processo da formação do movimento nas décadas seguintes ao seu
início. Possui amplo conteúdo informativo sobre o punk, como jornais, revistas e livros, som punk em cds e armazenados no computador.
Corvo sempre passou o som para aqueles que entravam no movimento. Trabalha com criação e manutenção de sites. Enquanto é comum
encontrar no bando punk aqueles que se tornam como filtros da entrada de novos punks, existem aqueles como Corvo, que gostam de escutar
som e apresentar som, e debater sobre política, comportamento, ética, ação.
9

termina por vincular comportamentos violentos em absorções que mitificam o grupo, como é
possível verificar no argumento retirado do Jornal de Debates, site de discussão na internet:

Creio que nomes como punks, skinheads, neonazistas, PCC, Comando Vermelho e mais uma centena de
nomes, nada tem a ver, apenas são rótulos que pessoas do mal arrumam para justificar suas insatisfações, suas
distâncias com uma sociedade de bem, são seres asquerosos, mal amados, na maioria das vezes impotentes com
tendências não aceitas por eles mesmos, ai procuram um rótulo e despejam suas iras contra a sociedade que os
sustenta, são pessoas que embora tenham família, são rejeitados por todos, ai juntam-se um bando de rejeitados e
providenciam o caos, para que possam se sentir bem acabam deixando os outros mal, ai atingem o êxtase,
aumentam a turma de pessoas tristes e deprimidas. Normalmente são jovens que tiveram uma infância infeliz e
só percebem o lado ruim da vida, precisam além de tratamento psiquiátrico, uma boa surra, tem que apanhar de
cinto na bunda, assim se sentirão moralmente amparados por um pai que nunca tiveram. Nem Freud nem Jung
previram esta aberração que aconteceria na sociedade organizada, são excremento. Vivem no submundo, na
escuridão, nos guetos, mesmo aqueles que são filhinhos de papai, nunca tiveram afeto, e vivem na lama moral,
não amam ninguém e são nojentos por opção8.

Por outro lado, nessa miríade criamos o território, que pretendemos fixo e seguro, onde acontece
um vendaval de outras criações sociais passíveis de serem resgatadas pela força da mídia, apesar de
sua resistência, e serem devolvidas à sociedade devidamente adequadas às forças do mercado da
música, da moda. Esterilizando a violência da criação, intuito que é vagarosamente impresso como
se a sociedade pudesse ser impressa em homens-chip.

É ele, o homem, quaisquer deles, que se encontra ao sabor das oscilações da contemporaneidade.
Pode estar apaixonadamente ali, mas pode estar inserido no grande espetáculo do sistema invisível
com suas maquinações mágicas que o ligam a uma rede de finas teias de valores e morais. Essa
introdução ao espetáculo é autônoma, não vem de um poder vertical e é, sim, incorporada no modo,
na subjetividade.

Entre os punks há indivíduos que não se reconhecem enquanto tais, uma vez que não se afirmam
militantes. Notável esse paradoxo, pois entre os que não se intitulam punks há comportamentos
notavelmente punks, que ultrapassam as fronteiras do óbvio, despertando a pergunta: em um
universo de possibilidades de ser, como determinar e cristalizar uma personalidade?

O punk é música. O punk é arte. É estado de espírito, é fluídico. Pessoal e coletivo. Não há peças
que o terminem. Ora assimilado e cuspido fora. Porque o homem é assim. Expurgado em delírios
internos. A fúria de um homem é a fúria de todos os homens, alternando-se em motivações, em

8
Opinião retirada do site http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?cnt_id=15&art_id=11374
10

crenças, em revoltas, em fé, em apatias. Nulo e puro vigor, ele rege a regra das imprevisibilidades.
Cavaleiro solitário e líder guerreiro de um povo.

Segundo Pelbart, essas subjetividades são afloradas em uma suposta democracia, que as ativa
dentro dessa mesma corrente magnética em que os acontecimentos se dão de forma impensada e
abrupta. Esses choques são, ainda assim, amortizados em um esquema da permissão de que o outro
possa revelar o seu interior, desde que em espaço próprio para isso, como os guetos ou o
ajustamento a uma possibilidade de consumo. E a vida passa então a ser produto, com preço e
inovações que o mercado demanda.

1.1 Identidade e Subjetividade

Bauman chama a atenção para a nova configuração da identidade na contemporaneidade. Não se


pretende mais uma identidade de grupo, ela passa a ser da ordem do indivíduo, de sua
responsabilidade. A subjetividade é enquadrada: “um vínculo firme e irrevogável entre a ordem
social como projeto e a vida individual como projeto, sendo a última impensável sem a primeira”
(Bauman, 1998, p. 12). Acontece que o devir, a força pulsante e subjetiva que transforma, não se
deixa prender pelos esquemas das linhas duras, porque é da ordem do gerúndio ao permitir estar
sendo e fugir do estabelecido do que parece ou imagina ser. Ou as dobras do corpo, volátil se
transmutando pelo contato do corpo com a exterioridade.

Essa ligação entre o projeto coletivo e o projeto individual explica em parte o cenário da
sociedade contemporânea. Conceitua a massa como algo sem energia, que absorve o político e o
social, neutraliza-o ao funcionar como um imenso buraco negro que dissipa todas as suas
significações. Aos seus olhos, tudo se torna espetáculo: as guerras, a religião, as eleições, o futebol
e até as estatísticas que almejam interpretá-las.. Antes dessa exposição, porém, gostaria de colocar
em discussão alguns fatos ocorridos recentemente que retratam múltiplas questões para uma
explanação sobre os ideais do grupo punk e também exemplifica pontos de comum acordo entre
punks e de sua filosofia de vida.

Philip Zimbardo, psicólogo social, estuda comportamentos humanos ligados à violência e afirma
que ela é causada pelo tédio, pelo conformismo e o anonimato, e que esses sentimentos podem ser
despertados em ambiente propício. Em uma simulação na Universidade de Stanford, dividiu vinte e
11

três alunos em dois grupos, os prisioneiros e os guardas. Estes foram orientados para cuidar da
prisão e determinar os castigos necessários, excluindo castigos físicos, que, no entanto, não
tardaram a acontecer após a aplicação de castigos psicológicos. O experimento que deveria durar
duas semanas foi encerrado no quinto dia, chegando ao ponto de os guardas exigirem aos
prisioneiros que praticassem sodomia porque, segundo os próprios, estavam com tédio. Sobre a
permissão desse experimento se estender por esse período, mesmo frente aos maus tratos físicos e
morais que foram submetidos parte dos alunos, Zimbardo confessa que “... ficar de lado era
totalmente contrário à minha educação e minha natureza. Quando eu fiquei de lado, como um
cientista experimental que se recusava a interferir, eu fiquei, em certo sentido, tão sujeito ao poder
da situação quanto os prisioneiros e os guardas” (Dreifus, 2008).

O segundo caso que quero expor é sobre um senhor de 78 anos que decide morrer lentamente, de
inanição, pois, segundo ele, não teria coragem suficiente para praticar o suicídio. Com esse objetivo
se distancia de seu local de origem deslocando-se para uma cidade onde é pouco conhecido e aluga
uma quitinete. Quando percebe que a morte está chegando, se transporta para uma praça pública,
deita na grama aguardando o momento da morte, mas isso não acontece porque ele é interceptado
por uma ação judicial que o leva a um hospital público e é alimentado à força. Mesmo com sua
relutância e sob seus fracos sussurros chamando os enfermeiros de selvagens. No bolso, ele
carregava apenas um papel que o identificava como Solitário Anônimo, na tentativa de se ausentar
dos laços de piedade que, segundo ele, os homens guardam entre si, mas que são falsos laços, pois -
reafirma - os homens não se importam verdadeiramente com seu semelhante, mas apenas tentam
impor sua lei, seu valor e sua moral. Por isso, justamente, o pensamento de liberdade causa tanto
incômodo: porque a simples menção de querer morrer, quando se preestabelece culturalmente que a
morte não é uma escolha, legitima-se a violência como a que aconteceu: ser dopado, preso a uma
cama e alimentado à força.

Aceitar o que está socialmente instituído, cultura coletivista e conformidade são temas da
pesquisa de doutorado do psicólogo Fábio Iglesias na Universidade de Brasília. Em sua tese, ele
conclui que o comportamento individual é extremamente direcionado pelo comportamento coletivo.
Além de não expor seus pensamentos, muitas pessoas deixam de fazer algo porque a maioria faz ou
pensa de outra maneira.
12

Esses exemplos de comportamento permitem endossar a visão do social em Baudrillard, ao dizer


que “nós nos comportamos como massa, vivendo a maior parte do tempo num modo pânico ou
aleatório, aquém ou além do sentido” (Baudrillard, 2004, p. 16). Porém, mesmo essa falta de
sentido, esse ser o que se é em meio ao pragmatismo e ao utilitarismo, ferve lentamente a desordem,
o caldo da transformação. Princípios como esses os punks têm em sua ação, em seu visual, na
música, e levantam sua posição de resistência à padronização cultural. Prova de que não se pode
assegurar o comportamento humano, e o desejo força os territórios colocando à prova os modelos
culturais.

1.2 O Devir Punk e o Mundo Real

Como demonstrado na pesquisa de Fábio Iglesias, o conformismo é algo natural do ser humano,
apenas se modificando na intensidade com que é regulado pela cultura. Iglesias focaliza o
conformismo como uma característica predominante na sociedade contemporânea.

A agressividade também é intrínseca ao comportamento. Destoante, quebra valores. O sistema


rapidamente tenta enquadrar os punks no imaginário divulgando estereótipos. Dentro do
maquinário, a célula nevrálgica entre os intensos e delicados liames do social - como a gota de
chuva que tocando a água gera ondulações que se propagam - tenta interceptar o “corpo estranho”,
no sentido de se apoderar do que é (do) outro, em novos círculos.

Os meios de comunicação possuem um papel crucial no desenvolvimento desse imaginário, que


cria o simulacro graças à espetacularização da vida. Ou seja, ao mesmo tempo em que o social é
produzido pela mídia, é destruído continuamente, ao retirar algo do real e reinventá-lo como
supérfluo, oco.

Quando percebemos no discurso retirado do site Jornal de Debates, citado anteriormente9, a


incompreensão e a intolerância, vimos que essas são fruto de um contexto complexo que lança a
população em um estado de apatia, de falta de vigor, graças a uma cultura coletivista em oposição a
uma cultura que privilegie o ato e a ação individual. Isso se soma à ausência de valores em que a

9
A citação está na página VIII e IX.
13

sociedade vive, à incapacidade de se fazer representar na política, na validação de gêneros, no


espaço cívico e de lazer etc.

Os meios de comunicação passam a integrar os fatos, seja nos filmes, na imprensa ou na


televisão; a imagem do punk cristalizada como vilão: “o punk é o vândalo, o surfista é o retardado,
o metaleiro é bandido, ou seja, cada um tem sua classificação” como diz Carol Punk10. Ou como
produto da moda, ainda que eles relutem em relação ao consumo ou tenham uma maneira reflexiva
de percebê-lo. Rodolfo diz que se estamos dentro de um sistema e somos obrigados a conviver nele,
não precisamos, ainda assim, concordar com ele, e esse discordar se reflete na personalidade e na
ação de cada um. Já Carol, encara o consumismo de outra forma: “todos consomem, qual a
diferença? Vai no salão e faz chapinha... Põe piercing... Qual a diferença? Todos consomem! Todo
ser humano é igual, na sua essência todo ser humano é igual... Todos consomem. É uma vaidade da
mesma forma”. A diferença está na expectativa de que o ato de consumir traga um outro padrão de
beleza - a materialização do consumo baseia-se no aspecto contrário da estética capitalista: o belo se
torna uma afronta.

Mas o punk também se torna passível de ser consumido, principalmente a música amenizada e
a moda. O resultado disso é a conquista de um espaço fora dos guetos, o que gera também, por sua
vez, uma representação imposta e distorcida pelos meios de comunicação da imagem do punk,
gerando entre eles rejeição, como nos explica O’Hara:

As repetidas distorções da mídia, o exagero e os estereótipos ajudam a criar um tipo de “punk” que não
faz idéia dos conceitos, das filosofias sociais e políticas e da diversidade do movimento punk. Esse tipo de
“punk” irá se juntar ao movimento punk em número crescente. Na medida em que eles se juntam, a imagem da
mídia se torna literalmente verdadeira. As autoridades morais terão razão e as medidas apropriadas que a cultura
de controle da sociedade considera necessárias para lidar com o problema serão legitimadas. (O’Hara, 2005, p.
48).

Lâmina de dois gumes, a notícia escandaliza, amplia a superficialidade, mas causa a


identificação por aspectos que atraem todos os punks: primeiramente o punk rock. Dizem que o
punk é uma escola. E é porque a música é a primeira conquista do sentido em ser punk; e, depois,
para muitos, há uma essência que se pretende transmitir, ensinar, dirigir - ainda que não se aponte a
direção -, mesmo que se desconheçam ideologias restritivas nas diferentes manifestações que o
punk mostra socialmente. Sendo assim, questão de comportamento, conduta e apreciação instintiva.

10
Carol é punk que possui uma infinidade de materiais informativos guardados, como cartas, jornais, cd’s, zines. Tem posições firmes e nem
sempre de acordo com o grupo punk, por isso, não anda em bando.
14

Aranha11 fala sobre essa capacidade de absorção dos choques que o capitalismo possui. De
admitir a crise como algo passageiro e de introduzir essa crise nos meandros do sistema como uma
doença que tem cura: “o capitalismo se diz sem preconceito, te abraça e te acolhe, e te transforma
em um produto, e assim é o fim do punk: virar produto”. E termina bombardeando com a pergunta
que inverte o sentido do Do It Yourself adotado pelo punk, referindo-se ao ato de produzir seu
visual e sua arte em contraposição ao consumo: “Você já viu as lojas especializadas nesse
público?”. O espelho é o real. O simulacro do punk em uma auto-regulação do sistema.

Por isso, no punk é possível perceber dois caminhos: sua entrada na moda e na música
alternativa, para consumo de cults e afins; e a negação daqueles que vivem com intensidade a
filosofia e o comportamento punk.

Essa assimilação do punk aos iniciantes leva-o, e também sua atitude de contestação, para
outros caminhos, abrindo possibilidades de ampliação do campo propício ao contágio. Como
conseqüência, recebe aqueles que estão interessados no ideal punk de transformação social, de
libertação de desejos, de fuga da padronização imposta pelo sistema, ao mesmo tempo em que
recebe os interessados na idéia de que o punk é gratuita e essencialmente violento, ou seja, que
estão voltados a aspectos destrutivos e autodestrutivos, pensando encontrar no grupo a legitimidade
para exercer sua própria raiva.

Necessitam do abrigo do coletivo para exercer sua insatisfação e legitimar seu


comportamento. A agressividade de Corvo foi colocada assim:

Eu me correspondia com punks da Espanha, USA e Alemanha, além da Finlândia. Sem ao


menos falar inglês, por carta, e será que hoje eles não têm Google Tradutor e não podem fazer o
mesmo? Ou será que a vida deles anda melhor que a nossa nos anos 80, sem repressão policial, sem
fome, sem morte, sem injustiça, sem desemprego, será que a única revolta dessa molecada é com os
amores mal resolvidos ou com a falta de sexo? Porque falar pra garota liberar é porque não tem
argumento e tudo anda bem pra eles. Bolso cheio de grana e feliz da vida. Porque pra mim as coisas
não mudaram nada, continua difícil viver. E se hoje eu fosse um punk de frente de luta estaria
rasgando o verbo e protestando com certeza.

11
Aranha foi punk na década de 90. Era vocalista da banda Atrito, a representante musical mais forte do que é conhecido como som
anarcopunk. Atualmente afastado do Movimento.
15

Na democracia há uma aparência de aceitação de todas as pluralidades e incorpora os


deslocados, de preferência nos guetos e comunidades fechadas, é a fachada da democracia. O que
extrapola esses muros vem estéril da violência primeira, ainda que criem círculos infinitos de outras
procriações, como é o caso do punk, do gótico, do skinhead, do rap, tendo como contrapartida
igrejas evangélicas, noticiários sensacionalistas, fiscalizações eletrônicas

Os que não querem ser representados pelo Estado - como exemplo, como os loucos, os
drogados e os delinqüentes - não são compreendidos, pois se torna comum a idéia de
assistencialismo social como um direito do cidadão e como um serviço do governo.

Essa resistência dos deslocados da sociedade é que dá força ao social para se fortalecer. Mas a
tentativa do social é fazer com que todos os resíduos, os grupelhos, as minorias, sejam assimilados e
quantificados, revertendo sua energia. A própria sociedade, entretanto, se transforma em resto ao se
tornar gestora de resíduos.

É interessante perceber no discurso sobre os punks uma junção de todos os grupos que podem
ser considerados como um único grupo juvenil. Essa carga de violência assimilada à imagem dos
punks, dos skinheads, dos neonazistas, como se todos partissem de um mesmo princípio, que é o
uso irracional da violência, é uma maneira de enquadrá-los como delinqüentes.

1.3 O Jovem Interminável

André Varanag (1968, p.15-29) discute uma série de responsabilidades definidas aos jovens
nas sociedades tradicionais, como a criação de novos lares e perpetuação dos bons costumes.
Espera-se dos jovens também que estejam prontos para se constituir como força guerreira. Essa
força nada mais é que a manifestação de mudança dentro da sociedade. É interessante quando
contrapomos essas duas qualidades atribuídas aos jovens: eles devem elevar os costumes e tradições
às gerações seguintes e são força de guerra. Porém, a força da guerra é incontrolável, pois assim é a
energia da violência. Essa violência é temida porque corta, solta as amarras do seguro e do
prudente, característica encontrada na tradição. Dubiedade de poderes contrários que os jovens
devem ou deveriam aprender a dosar.
16

David Matza define a juventude como portadora de três processos, que ele nomeia como
“tradições ocultas da juventude” (1968, p. 81): a delinquência, o radicalismo e a boêmia. Numa
conjunção de fatores, como a vulnerabilidade, a idade desse jovem, juntamente com seu grau de
escolaridade e o modo de vida, é possível definir semelhanças e diferenças entre eles. Ele explica
que essas peculiaridades são mais comuns entre a juventude do que aos indivíduos em geral.

Mas o que define a juventude, a idade ou um conjunto de fatores independentes da idade?

O que nos importa aqui é o grau em que esses fatores são vistos como riscos à estabilidade
social e à ordem do sistema e como isso é ingerido nos meios de comunicação e no senso comum.

Qual é o efeito prático dessa rigidez na recepção do grupo punk?

De acordo com o artigo de Matza, o delinquente “não se indispõe abertamente contra as


disposições burguesas sobre a propriedade, embora as transgrida” (1968, p.88). Diante da visão de
Baudrillard, que considera o momento atual como o tempo do social morto, do fim das instituições,
das ideologias e da política, pode-se supor que a delinquência causa mais danos que os ideais dos
jovens radicais ou boêmios, pois os últimos são indiferentes à propriedade burguesa e desafiam,
sobretudo, a ética burguesa, se posicionam contra o capitalismo e suas articulações como a
economia e a política. Por isso, classificar o movimento punk como um movimento de juventude
parece colocá-lo num paralelo com a delinquência - nesse caso, se o jovem não aparenta seguir as
normas dos comportamentos sociais - é um pré-julgamento do poder sobre os grupos ditos juvenis.

Defendo ser reducionismo a adequação do movimento punk com o sentido estrito de pensá-lo
como um movimento juvenil. Primeiramente, pelo motivo assinalado, ou seja, cria-se a partir dessa
junção a idéia de uma inconstância, de uma revolta passageira e pueril. O movimento punk existe
com força em várias cidades do Brasil, principalmente metrópoles, sempre com muitas nuances. É
como negar o interstício geracional de mais de 30 anos, rotulando-o como uma coisa do passado.
Assimila-o como reviravoltas ou descontentamento temporário, incluindo o não-cumprimento da
legislação, sendo rotulados de delinqüentes, como preferem chamá-los as instituições secundadas
pelos meios de comunicação.

Esse delinqüente não quer reconstruir a sociedade e age como um terrorista social.
17

Guardadas as devidas proporções, esses punks que praticam atos violentos e acabam por
generalizar a imagem de todos os punks agem como terroristas da sociedade; porém apenas refletem
a falência da sociedade ideal.

Os grupelhos são a última forma de se verem representados aos olhos das massas. São partes
retiradas da massa querendo legitimidade e participação no sistema. Para os punks essa legitimação
não importa.

Nas entrevistas, percebemos uma recusa de Fernanda ao que lhe parece um rótulo: ser
chamada de punk. Ela também não usa “visual”. Por que haveria de ser chamada de punk? Entre a
essência de uma filosofia e o indivíduo, qual é a aliança silenciosa que os une?

Percebemos pelas falas alguns sentimentos comuns, como a tentativa de um pensar coletivo
articulado a uma preocupação com o coletivo. Mas, ao mesmo tempo, existem sentimentos
destrutivos e autodestrutivos. Há uma repulsão e uma contração contínuas. O individualismo se
chocando à vontade coletiva. O coletivo impedindo ou cerceando o desejo individual. Por isso, para
os próprios punks, o movimento é contraditório, como vê Aranha, que diz que seu combustível era
o ódio e a revolta, que lutava pela igualdade entre as pessoas, mas não se importava com os
sentimentos alheios, chegando a ter ódio de alguma delas, porque “o ódio é alimentado, tem que se
ter ódio de alguma coisa, pode ser do sistema, do presidente, ou de um chinelo havaiana” 12.

Craig O’Hara, um punk que escreveu sobre a filosofia do movimento, explica que o objetivo
dos punks13 era expressar sua fúria de uma maneira áspera e original. A coisa mais odiada no
mundo era alguém que fosse um conformista assumido.

Numa sociedade em que a opinião comum é tão manipulada, o pensamento e a reflexão


pessoal nem sempre são bem vistos. Parece haver um sentimento de insegurança e ameaça em
relação ao que a opinião divergente oferece. O grupo punk desafia por meio de sua arte – entendida
aqui sob o sentido amplo, exposto por Pavel Semenov e citado por Craig: para obter o
conhecimento, o homem observa e organiza o desconhecido de maneira sensata; ou então ele
reorganiza o meio conhecido, e essa maneira seria o encontro com a criação.

12
Aranha é punk da terceira fase do movimento em Cuiabá, foi vocalista da banda Atrito.
13
Se refere aos punks da banda Sex Pistols e seus fãs que gritavam: “não existe futuro”.
18

O punk tem essa semente: ele é senhor de si, o bando é uma escola. Sua construção ou
reconstrução, numa guerra de vontades e diferenças inerentes ao grupo, deriva em vontade de
abandono do que é conhecido como certo, das regras que antes eram seguidas sem questionamento.
O deboche em relação à cultura burguesa é geral, há uma negação de todos os valores. Mas existem
alguns que são inegavelmente inerentes ao punk, como a rebeldia. Aliada ao não-conformismo, um
comportamento que desafia a hierarquia e a autoridade.

Em comum, há esse desprezo pela cultura burguesa, só mascarada, às vezes, pelo ódio citado
por Aranha. Atacam esses valores da mesma maneira que os delinqüentes, porém, motivados pela
sensação da perda, da invasão. Quando se passa a adentrar o ideal punk, pode-se afirmar que existe
uma aproximação do punk com os radicais descritos por Matza, principalmente entre os
anarcopunks14.

Guattari, quando fala sobre o poder de decisão do indivíduo que age com desprezo pela sua
débil capacidade de reação contra o conjunto de valores burgueses absorvidos, coloca que o que de
mais revolucionário poderia haver seria a simples coordenação dos movimentos ou grupos que
agissem para o infinito, e não a reprodução ao infinito das velhas formas paradigmáticas.

O que é que muda se a questão da coordenação, ao invés de se colocar para o indivíduo, se coloca para
grupos de base, famílias artificiais, comunas?... O indivíduo tal como foi moldado pela máquina social
dominante é demasiado frágil, demasiado exposto às sugestões de toda espécie: droga, medo, família etc.
(Guatarri, 1981, pag 17).

Em uma discussão sobre a existência ou não de uma contracultura na pós-modernidade,


Canevacci afirma que sua experiência se findou junto com a vivência de uma cultura predominante.
Não há mais uma cultura, e sim muitas culturas, porque não há mais uma ideologia dominante, um
poder central que deva ser derrubado. Os conflitos são direcionados contra quem impossibilita,
momentaneamente ou não, um desejo. Por isso, o social não se afunila mais em classes contra o
Estado, em lutas de um povo contra uma cultura hegemônica, em questões revolucionárias com
ímpetos voltados a transformar a realidade social.

Nesse cenário surge o jovem interminável. Essa questão levada a fio destaca a presença de um
interesse em se agrupar os jovens e direcionar essa força, excluir suas possibilidades, e de
14
Punks que promovem a política anarquista.
19

reconhecê-la como uma crise social. O jovem interminável é um conceito criado por Canevacci
(2005, pag 20), em que a noção de juventude se expande para além do paradigma das faixas etárias.
Perguntei ao Ariel15, em um momento informal, se ele relacionava o movimento punk a um
movimento estritamente juvenil, e sua resposta primeira foi “sim”. Mas, na mesa redonda sob o
tema “Contemporaneidade, Movimentos Sociais e Tribos Urbanas”, realizada no Centro Cultural da
UFMT, ele argumentou que pensou sobre essa questão e chegou à conclusão de que não, porque
senão não haveria tantas pessoas militando, tocando em bandas, transmitindo a filosofia e a cultura
punk hoje. Foi justamente essa dúvida que tentei implantar por acreditar ser ela um dos cernes
centrais da discussão sobre o punk.

Voltando ao conceito de jovem interminável de Canevacci, para argumentar em favor dessa


colocação, ele diz que o conceito de jovem sob o paradigma da faixa etária é recente e responde a
termos sociológicos, especialmente enquanto categoria de consumo surgida na década de 1950, que
passa a adquirir música, filme, moda e novos valores, desvinculados dos de seus pais, e que
inclusive se formam também a partir de novos meios de entretenimento.

Ao dilatar a idade juvenil, o jovem se livra de uma percepção - na verdade, uma pré-
concepção - de si mesmo e do que é ser jovem. O abandono da faixa etária como representação de
um paradigma permite ao jovem a percepção de sua existência não-terminada, deixando essa
passagem em uma nebulosa, retirando a margem de delimitação, liberando os indivíduos da
obrigatoriedade de corresponder a determinadas expectativas:

Essa categoria16, que no passado definia uma geração em relação às outras, foi pré-aposentada. Ela
tentava homologar ritual ou estatisticamente aquele processo fluido da passagem da geração de
adolescente para adulto, de conferir uma identidade o mais possível reconhecível e compreensível (no
sentido literal de compreender como circunscrever, controlar) à troca de geração, de exercitar aquele
controle social sobre o ciclo da natureza ou, para dizê-lo melhor, sobre uma natureza reduzida a ciclo, a
eterno retorno: daqui é que surge aquela obsessão filosófica e demográfica do controle, aquela filosofia
demográfica que executa o ato de prender sobre e contra o novo que avança. (Canevacci, 2005, pag 29).

15
Ariel é integrante de uma das primeiras bandas punks do Brasil, a Restos de Nada, surgida em 1978. Ele esteve em Cuiabá para uma mesa
redonda que coordenei no Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, em maio de 2008, para a discussão do tema “Contemporaneidade,
movimentos sociais e tribos urbanas”, no Centro Cultural da UFMT. Em sua fala, iniciou respondendo a pergunta da professora Maurília
Valderez: “O que fazer para não nos tornarmos ratos?” Replicou: “O punk é o rato que aprendeu a morder!”. Segundo o mesmo, o punk é
aquele que quer destruir a sociedade, não tomar o poder. O punk é um espelho da sociedade que devolve tudo aquilo que foi imposto.
“Estamos em tempos de luta e o inimigo está em todo o lugar, diferente da ditadura, quando todos tinham um inimigo em comum”. O
movimento deve criar suas condições e não deve depender do governo. Auto-gestão é possível? Segundo Ariel, sim. Dá uma série de
exemplos, com destaque ao caso dos Zapatistas, indígenas mexicanos. Falando sobre o movimento punk paulista, Ariel menciona aquelas
colocações comuns de que o movimento foi apenas uma fase, e que após a fase era necessário voltar para a “vida real”. “Mas que vida real?
A vida mecânica, fútil, consumista? “Essa não me interessa...”. Finalizando sua fala e dando um norte aos punks cuiabanos, afirma que
devemos pensar, a exemplo dos zapatistas, “um mundo onde caibam todos os mundos”. “Os punks devem estar presentes nos movimentos
sociais! A luta não acabou” – talvez uma possível síntese de Ariel.
(retirado do site http://operacaocavalodetroia.blogspot.com/2008_05_01_archive.html
16
Categoria que Canevacci se refere aqui é a faixa etária.
20

1.3.1 Movimento juvenil?

Isso fortalece o movimento punk enquanto movimento que venho defendendo aqui. Não se
limitando à faixa etária, mas sim a uma identificação com a linguagem, com o ritmo do grupo –
mesmo não se prendendo a ele, mas sempre uma expressão do grupo e do próprio indivíduo quando
este pode exteriorizar toda a sua subjetividade, como explica Carol:

Os iguais se procuram. Acho que você procura estar dentro daquele grupo de pessoas que você se
identifica, que você aceita. Pô, vai eu chegar toda no salão, eu vou no salão fazer unha, aí eu vou de moicano, tá,
não dá nada... Mas vai de você, você sabe o que aquilo vai causar, o que aquela repressão de certa forma... Vai
de como você vai lidar. O punk tem isso muito do emocional, do psicológico, porque pra você assumir um visual
você tem que peitar, viu? Porque não é fácil, é o preconceito, a discriminação, as pessoas olhando torto, você ser
mal atendido, porque isso acontece sim... Então é assim, se eu quiser tirar o visual, eu tiro e não sou menos punk
por isso, então vai de tão cabeçudo você é pra saber lidar com essa sociedade, é uma adaptação porque você tem
que sobreviver, aí vou me adaptar... Tem que andar assim... Tá bom... Vai ter o show do Cólera? Demorou, vou
levantar o moicano... Não tem mais essa crise, sabe? O punk tá dentro de mim. O punk é uma pessoa comum,
como qualquer outra, que tem suas afinidades culturais, como a dentista que tem que andar de branco, ela tem os
costumes dela. O punk, sei lá... Se ele trabalha numa fábrica, se ele é advogado, tem um amigo meu que é
advogado e toca numa banda, e aí o que ele faz final de semana? Então isso é um pensamento bem terceiro
mundo, sabe? Você ficar naquela tem que ser assim, e não é assim, é individual, sabe?17

Mas o que se pode definir como movimento social na contemporaneidade? De acordo com
Melucci (2001), o movimento social contemporâneo se mostra como um ponto convergente de
cultura, afeto, identificação. Não há um fim, uma meta. Existe ligação, troca e conflito. O espaço
social é o campo de conflito mediado pela interferência do grupo dentro de um sistema maior. Entre
os punks não existe uma necessidade de inserção no sistema enquanto representatividade ou
legitimidade. Não é uma luta com a finalidade de receber benefícios governamentais ou de sentir-se
socialmente incluso.

O punk, na verdade, se insere na luta de outros grupos. Janice Caiafa18 expõe essa mesma
percepção:

Por que com os punks me ocorreu desde o início esse aspecto de seu “particularismo”: não estaria
respondendo a uma carência no sentido de que o governo não teria ainda achado uma solução para o menor ou o
desemprego, ou como se eles não tivessem engajado ainda num protesto social mais conseqüente. Quis vê-los
então como investindo seu desejo naquela tarefa, que se suscitava a si mesma enquanto experimentação social
(Caiafa, 1985, pg.54).

17
Carol é cuiabana, mas conheceu o punk no Rio de Janeiro. Já citada na página XVIII.
18
Sua tese de doutorado resultou no livro sobre o Movimento Punk.
21

Os punks se envolvem nas lutas de outros grupos não só porque não almejam ser
representados dentro desse sistema, mas porque preferem abolir a idéia de que esse sistema é o
ideal. O ideal seria uma inversão de valores e códigos: “os atores respondem a certas disfunções do
sistema social através da produção de certa representação coletiva na qual se reconhecem”
(Melucci, 2001, p. 46). Revisando a explicação de Melucci, que distingue movimentos sociais de
crise e de conflito, temos o movimento punk como um autêntico movimento de conflito. Uma vez
que não requer a “disponibilização dos recursos, mas manifesta sim uma oposição que diz respeito
ao controle e à destinação de recursos cruciais”, não se quer que eles sejam repartidos, mas o
sistema é que deve ser alterado.

Ao citar essa sistematização de uma visão política do punk, no entanto, quero reafirmar que o
grupo possui indivíduos que nem sempre compartilham a mesma visão ideológica. Como Fernanda
consegue ressaltar:

...um certo tipo de revolta, um descontentamento social, com a sociedade em si, com os valores da
sociedade, com o que é ensinado nas universidades, com a forma careta de ver o mundo, contra o conformismo
generalizado. Acho que é isso que unia e une as pessoas até hoje, E aí, é claro, vem visual, é o som, é o goró, a
maconha. Aí vem as drogas, as piras, sabe? O desejo adolescente de transformar o mundo todo de uma vez, acho
que rola isso também. Que o pessoal tinha, sempre tinha. A gente achava que podia mudar o mundo, e pode,
19
devagar e sempre .

Essa é uma sintonia no grupo. Se não um repúdio perante a realidade, uma vontade de
transformá-la a partir das verdades que foram construídas pela lei e pelo direito. Mas no bando não
há uma persistência de hierarquia ou de obediência. Se proclamando livre do poder patriarcal,
político, religioso, ele não pode reclamar proteção alguma.

1.4 Marginalidade

Trago à tona a questão da marginalidade dentro de uma concepção específica norteada por
conceitos tais como linha de fuga, zona autônoma temporária, desterritorialização e nomadismo, e
corpo sem órgãos.

O que podemos definir aqui como sendo marginalidade para o presente estudo? Qual é o
contraponto que define marginalidade e que nos interessa aqui? Ser marginal significa estar à
margem de quê? Veja o parecer de Hakim Bey com relação a esses questionamentos:

19
Fernanda já foi citada anteriormente como alguém que conhece o movimento underground desde sua adolescência.
22

Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade,
os desregrados e heróicos vagabundos vagarão com seus pensamentos selvagens e virgens – aqueles que não
podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões! (Hakim Bay, 2004, p. 84).

Temos aqui o princípio da definição de marginalidade que tomaremos: para além dos limites
dentro de qualquer sociedade, desregrado é aquele que conhece ou habita, ainda que
momentaneamente, o mergulho profundo nesse rio que, em sua superfície, cristaliza em suas águas
convenções do que é lícito ou aceitável e, por fim, normal, em uma dada sociedade. Deleuze nos diz
que as sociedades são formadas pelo emaranhado de linhas de atuação mais ou menos duras. Da
configuração de tais linhas resulta o estado de uma dada sociedade. Os sistemas de signos culturais,
econômicos, políticos e sociais são o resultado visível de tal emaranhado de linhas, fluxos e
intensidades. O marginal será a linha de fuga nesse emaranhado, a mais fluída e de menor dureza
em sua atuação mais móvel, que traça em seu agir caminhos mais desvinculados com a tradição,
com as formas mais monolíticas e cristalizadas que se encontram presentes na dinâmica social; o
caminhante que passeia em territórios outros, ainda não sobrecodificados, ainda não definidos,
territórios ainda sem predicados, e que “numa atitude xamanística realizada num ângulo impossível
em relação ao universo mapeado” (Bey, 2004, p. 16) pelas linhas duras, traça sua existência; a linha
de fuga foge da configuração significada e nomeada para vivenciar, por entre as brechas de um
território conhecido, outros caminhos de vida. Em outros termos “a marginalidade é o lugar onde se
podem ler os pontos de ruptura nas estruturas sociais e os esboços de problemática nova no campo
da economia desejante coletiva” (Guattari, 1981, p. 46).

O marginal é aquele que permanece à margem das significações dominantes, que acontece
quando existe o devir, que escapa à captura dos aparelhos de sobrecodificação; não é somente o
contraponto da normalidade e do sistema de códigos reinantes; não se trata de uma lógica binária
que continuaria atrelando o marginal nesse mesmo sistema, só que do lado inverso; o ato
xamanístico nega configurações reinantes menos do que se abre para uma infinita multiplicidade de
caminhos, caminhos esses que não poderiam ser revelados da dedução que tal contraposição opera;
se assim fosse, estaria o marginal ainda preso às mesmas teias de significados.

Não se trata, pois, de opor a marginalidade à normalidade, mas de entender ambas as linhas
dentro de um processo em que se constitui a dinâmica social; a linha de fuga que constitui a
marginalidade não se opõe à dita sociedade normal, mas antes, soma-se a ela, atuando como força
das coletividades humanas, a parte mais viva e móvel delas, segundo Guattari, “na sua tentativa de
23

encontrar respostas às mudanças nas estruturas sociais” (1981, p. 46). Trata-se de um alçar vôo para
além das referências de tais teias mapeadas rumo a um nada ainda não visualizado e vivenciado,
fertilizando desse modo vegetações novas na dinâmica do social. Pode-se dizer, ainda, que a
marginalidade, em sua escrita, percorre transversalmente as ordens, recompondo-as de maneira
criativa.

Assim, a marginalidade pode ser entendida também como ato de experimentação no


laboratório da vida social, manifestações que reinventam as modalidades e estruturas dessa mesma
vida social e das configurações subjetivas a elas atreladas, propulsoras das mutações sociais com os
coelhos que tira de sua cartola sem fundo; ou ainda, “potência do desejo contra a ordem do
discurso” ou “pulsações políticas do desejo” (Guattari, 1981, p. 23).

Antonin Artaud propõe o corpo como uma multidão excitada, uma espécie de “caixa de fundo
falso que nunca mais acaba de revelar o que tem dentro” (Quillici, 2004, p. 197), e eu comparo essa
idéia com a do corpo social, aproximando a marginalidade com esse ímpeto de revelação,
renovação, transbordamento constante. Se o corpo social é uma caixa de fundo falso, a imagem de
uma configuração estabilizada do mundo perde o sentido e os marginais são justamente os
desestabilizadores, carregando o devir em seus movimentos. Em outras palavras, os marginais são a
baba dos desejos que não cessam suas autorreproduções, fazendo paralelo com a economia
desejante de Guatarri.

Aqui se tem uma certa noção sobre o marginal e nos interessa agora investigar que relação tal
noção guarda com o movimento punk. Na minha apreciação, como resultado dos estudos
bibliográficos e das entrevistas que realizei, o movimento punk surge de uma insatisfação em
relação a um estado de coisas social, cultural, semiótico, estético, político, entre outros. Há uma
não-identificação com o conglomerado de signos reinantes no tocante às questões estéticas, morais,
políticas.

A marginalidade, penso, surge justamente dessa inadequação em relação a tais parâmetros e,


consequentemente, a um transbordar em outras terras, a desterritorialização, como já foi dito. A
negação de que o punk é porta-voz abre caminhos para a recriação semiótica e de entendimento e
vivência da realidade, traça e reinventa parâmetros para uma outra socialização, baseada em outros
modos individuais. A partir dessa inadequação com o território configurado, deram a si mesmos
24

uma organização não hierarquizada, na qual inexistem chefes ou líderes; ou uma centralidade que
emane diretrizes ao movimento, valorizando a idéia da autogestão e do respeito à diferença. A idéia
do “faça você mesmo”, da não-representatividade, tornou-se um lema entre os punks, e, a partir
dela, criaram redes alternativas de comunicação - os fanzines - desatreladas dos meios de
comunicação oficiais, criaram uma maneira própria de se vestir, de fazer arte, de se comportar e, em
resumo, de interpretar e dar um sentido à realidade e agir perante ela; foram engendrados em linhas
de fuga a um modo de vida dominante.

Tais linhas de fuga não se configuraram de modo absoluto e puro, mas sim no emaranhado
das outras linhas que inter-relacionam nas constantes gêneses de configurações; o que está em
questão aqui é a criação de “novas modalidades de organização da subjetividade coletiva” (Guattari,
1981, p. 47). Entendemos que na gênese do punk houve um movimento de ruptura no modo de
experimentar a vida, de alcançar uma outra subjetividade como em todo ato de gênese. Cada ato de
criação é um sair dos trilhos, e não seguir rumos previstos.

A idéia de corpo sem órgãos, desenvolvida por Antonin Artaud, confirma as proposições até
aqui colocadas. Quando o cito, e à sua metáfora do corpo como caixa sem fundo, onde novas
revelações não cessam, transplantando tal idéia para o corpo social, aponto já algum indício de que
a história do social não se vê desvinculada - antes se completam - das subjetividades que a
compõem. Logo, para que um grupo social como os punks se mantenha marginal, é necessário que,
intersubjetivamente, tal grupo mantenha-se em uma rota de constantes desterritorializações, em um
nomadismo perpétuo, em um entrelaçamento de vida e morte, em uma configuração do corpo e da
subjetividade em que reine a desconfiguração, o nascer e o morrer, o ritmo da instabilidade; é
necessário que se viva na rota das revelações que emanam de uma caixa sem fundo, chamada de
corpo.

Nesse ponto surge a questão: pode o punk e o marginal, em um sentido geral, deixar de ser
marginal? Sem dúvida a resposta é afirmativa, já que o marginal se faz do ato de permanecer
marginal; de não se deixar ser integrado e cooptado em sua nova função semântica predicativa, de
não se deixar ser configurado e mapeado.

A idéia da máquina de guerra nômade é crucial nessa questão como aquela que “conquista
sem ser notada e se move antes do mapa ser retirado” (Bey, 2002, p. 19); de movimento que não se
25

deixa ser capturado pelo aparelho de codificação e integração e que caminha sempre à margem, um
movimento genuinamente marginal. A máquina de guerra nômade, então, é aquela que desprende
esforços no sentido de não se permitir a cristalização das formas, dos signos, dos modos de viver.
Atuando sempre no sentido do desbravar, do recriar e do ressignificar; no sentido de fuga da
configuração anterior a que se inseria para gerar um ato que ainda não existia.

Ariel20 enfaticamente coloca: “o punk veio para quebrar regras”, e até o ponto em que essa
postura existir, a marginalidade será o não-lugar em que os punks existirão, na rota de suas linhas
de fuga. A partir do instante em que o punk se deixa ser significado e integrado à normalidade
social, pela via do mercado ou qualquer outro meio de cooptação e reterritorialização, vindo a ser
mapeado entre os territórios conhecidos, perde então seu caráter de marginal.

1.5 Corpo Presente

Habitantes da velocidade urbana, os punks produziram um corpo que imprime o mínimo de retardo
possível à agilidade dos movimentos. Assim como a roupa protege o corpo (e os pinos, os pregos e as correntes),
com o cabelo curtíssimo o inimigo não tem o que agarrar, é mais fácil desvencilhar-se dele. O punk está pronto a
escapar eficientemente e a atacar se for necessário. (Caiafa, 1985, p. 38).

O corpo do punk, conforme descrito por Caiafa, corresponde muito bem ao punk pronto para
a festa ou para a guerra. Dois momentos nada antagônicos. Tanto que o pogo 21 sintetiza bem essa
fúria: liberação de uma negatividade, na rapidez e agilidade dos corpos que vibram, ora se
espalhando como morcegos em bando, ora uma aparência de massa que se compacta e se torna uma.
O corpo é a sua arma.

O corpo é a sua festa. As pontas se afinam como estacas. Os coturnos ressignificados dos
policiais são colocados no âmbito urbano, deslocado da sua origem – a lei - para pertencer à tribo
dos punks, para percorrer os cimentos das ruas e para serem armas de defesa e ataque.

O visual do punk é o laço que o liga ao mundo. Uma ligação conflituosa, mas ardente. Não se
passa despercebido por um punk. Seu corpo é todo ácido. Todo pontiagudo. O belo está nas roupas

20
Vocalista da banda Restos de Nada e Invasores de Cérebros, de São Paulo.
21
A dança punk é intuitiva e forte. Ao som da música socos e chutes são conferidos na roda punk. Movimentos violentos, mas que se encaixam sem
rispidez na roda.
26

preparadas pelo próprio dono. Sair para o mundo é saber que a rua é guerra. É encarar o vento, o
sol, os olhares.

Ver que o outro sempre tem expectativas e seu comportamento é milimetricamente esperado,
analisado. Noite22 conta com olhar triste e indignado a primeira vez que seu visual originou um
comportamento preconceituoso. Ela estava dançando quando se desequilibrou e encostou sobre
outra garota. Esta lhe disse que ali não era lugar para confusões. O visual traz isso.

E o visual excede no corpo o inconformismo que o punk sente. A marginalidade é chamada,


desejada. Se for pra ser um espelho da sociedade, pois que reflita o lixo, os ratos, aquilo tudo de que
os olhos tentam desviar. Daí vem o sentimento de abandono que o punk deve sentir: exclusão de
uma sociedade da qual já não se espera mais nada. Uma contradição violenta é ter que participar de
certa forma no sistema em que é tão renegado.

“Todo indivíduo punk, principalmente no começo, quer se sentir um trapo humano e


marginalizado pela sociedade, é desculpa para beber, vomitar”, diz Rodolfo23 entre risos. O vômito,
expulsão do corpo, do organismo que devora o que lhe passam, todos os anseios, as frustrações, é
um ímpeto primeiro, se defende do contágio violentamente golfando nas calçadas, nos banheiros o
estranhamento perante as pestes. Assim, engole e vomita. Os rebites, o coturno, a roupa preta são
tomados da sociedade e devolvidos materializados no corpo. “Enfrentar esse cara aí, no mínimo,
fica com medo de pegar um tétano”, diz Aranha com uma seriedade quase engraçada.

A arte e a indumentária, a arte e o zine, a arte e o protesto musical são ritos, manifestações de
arte produzida para si, para o grupo.

A arte está ligada ao Do It Yourself, é o faça você mesmo... Isso é muito legal, aí você vê um jaco assim...
Ah, o jaco de fulano, é uma coisa única sua, ninguém vai ter o patch do The Clash ali, não vai ter outra igual, o
fanzine é a mesma coisa, você não vai numa gráfica imprimir, você faz, você pega as matérias, monta do jeito
que você quer, esse Do It Yourself que acho lindo, você criar o que é seu24.

São como máquinas de guerra, desalinhando os imaginários na cidade. As máquinas de guerra


se formam dentro de dada cultura, desativando invisivelmente os comportamentos pré-estabelecidos

22
Noite conheceu o movimento punk recentemente.
23
Rodolfo Scheffler, punk de Curitiba, que morou em Cuiabá, editando o zine “Ovelhas negras já nascem negras” em dois volumes na
cidade, o que deu ímpeto ao surgimento de outros zines locais. Zine é o veículo de comunicação originado entre os punks e produzido hoje
por outros grupos.
24
Citação de Carol Punk.
27

da tradição e dos bons costumes. O punk, máquina articulada nas ruas, questiona com o próprio
corpo. Corpo que o delimita e expande. Coração que agita o sangue vermelho intenso de “dentro
para dentro”, que quando não mais tem nada a perder, se permite estrondar, fazer do corpo o peito
pulsante, fazer da voz “grito áspero e agudo”25 nas músicas de Restos de Nada: “se eu não posso
viver, então vou me destruir”26.

Essa vontade de ficar nua dita de maneira tão rasgada, da maneira dos punks.

Alguns punks não usam o visual. Com o tempo muitos deixam para trás a armadura de guerra.
Munem-se, ainda assim, do gosto pelo som e sua postura em âmbitos sociais e privados sempre com
o olhar do punk.

O punk é ressonância de sua tribo. Ainda que disposto a caminhar sozinho, desarticulado do
grupo, os ideais punks ressurgem no comportamento. A audácia não se perde na coletividade do
punk. E o punk não é intimidado com sua posição solitária.

Acostumado à guerra até dentro de seu próprio bando, ele se torna potencialmente observador.
Como diz Deleuze:

Todo animal é antes um bando, uma matilha. Que ele tem seus modos de matilha, mais do que
características, mesmo que caiba fazer distinções no interior desses modos. É esse o ponto em que o homem tem
a ver com o animal. Não nos tornamos animais sem o fascínio da matilha, pela multiplicidade. Fascínio de fora?
Ou a multiplicidade que nos fascina já está em relação com uma multiplicidade que habita dentro de nós?
(Deleuze e Guatarri, 2002, p. 20).

O punk se forma por contágio, seus ideais não provém da aprendizagem na família. É
conhecimento de rua, de becos, de reuniões em praças, de reuniões em bares. Sozinho, o punk já é
uma matilha inteira. Seu contágio beira as noites de shows de bandas punks. Elas são o início de
tudo. A música e o visual. Depois vem a filosofia, a política, a identidade. Primeiro vem o alimento
para a fome da alma: Música.

Mas tudo está no punk que ainda está se descobrindo. Com novos olhos para o mundo, ele se
depara com a surpresa

25
Quero escrever o borrão vermelho de sangue, de Clarice Lispector, poesia que abre este capítulo.
26
Deixem-me viver, da banda Restos de Nada, de São Paulo.
28

Dias complexos
E noites escuras
Refletindo sobre a vida
Em bares e ruas
Assim vou caminhando
Enfiado em minha vida suburbana
Procurando algum refúgio
Então, não tenho nada a fazer
A não ser me perder
Na poluição das ruas
Nua e crua
Desta metrópole
Que em meio ao caos
Vai devorando vidas
E mentes27.

É uma epidemia. Nas palavras de Marcelo28, “toda vez que houver uns guris e uma guitarra na
garagem pode ressurgir o punk”, falando sobre o punk em Cuiabá. E no mundo.

A natureza agindo contra si mesma. Máquina de guerra que por vezes é apropriada pelo
estado, pelo sistema. Cooptando seu modo de vida. Restaurando sua violência limitando-a nas
novas bandas com letras de amor, o emocore, o punk de boutique.

Como diz Foulcault, nessa dança de guerra entre o corpo e o poder, este assimila as cargas da
sexualidade, dos fortes ímpetos do corpo, limitando o desejo, retirando o desejo do imaginário e
cerceando os muros que são os produtos originados para o público, as lojas especializadas da qual
fala Aranha.

Deleuze lembra que:


Os bandos são minados também por forças muito diferentes, que instauram neles centros inferiores de
tipo conjugal e familiar, ou de tipo estatal, e que os fazem passar a forma de sociabilidade totalmente diferente,
substituindo aspectos de matilha por sentimentos de família ou inteligibilidades de Estados (Deleuze, 1997, p.
28).

É o que acontece quando as tretas 29 se instalam no centro do bando.

As brigas deformam a elasticidade do pensamento. Márcia30 diz que busca sempre entender as
decepções que teve no meio punk, lembrando que os punks são indivíduos como quaisquer outros.
Carol conta notavelmente triste o fato dos punks nem sempre incorporarem a filosofia na alma.

27
Poesia chamada Refúgio, de Alexandra Baptista, que enviou para a revista de poesias Cadernos da Sarjeta, escritas por punks ou
simpatizantes.
28
Marcelo morou em Cuiabá, onde fez parte do Movimento. Hoje reside em Campo Grande e dá aulas de Literatura.
29
Na linguagem punk, são as brigas.
30
Márcia é vocalista da banda Luta Armada, de São Paulo.
29

Logo quando voltou a Cuiabá e começou a sair para as festas com shows punks, ela foi interceptada
por um deles:

O cara foi mandante ideológico, ele fez a cabeça de quem não me conhecia, fez a cabeça dos hippies da
praça, porque aqueles ali, meu, não tem nem vida, são pessoas mortas, não tem nada a perder, aí o cara chegou
dizendo que eu andava com careca, uma hippie negra bateu em mim, lógico, o cara divulgou que eu sou nazista e
quem vem pra bater em mim é uma negra, aí eu cheguei pra fazer o B.O. e a enfermeira disse ‘ai, meu deus, isso
já está chegando em Cuiabá?’31

Por causa de um suspensório, Carol foi vitima de violência do próprio grupo. São pequenas
diferenciações, caracterizações e especificidades o estopim dessas segregações.

As brigas ocorrem por causas diversas: entre os próprios punks, do mesmo ou de diferentes
grupos; nas metrópoles, entre punks e skinheads32; entre punks e hippies que não se entrosam, pois
o pensamento de “paz e amor” é repudiado pelos punks, que proclamam em resposta o ódio e
destruição, o caos a favor da mudança. O caos das ações agressivas e inconseqüentes é militância do
caos e da destruição das normas, do sistema, dos valores da burguesia.

Aranha, como é conhecido pelo público que freqüenta a noite em Cuiabá, foi punk no início
do ano 2000, quando havia uma segunda geração de punks na cidade. Quando lhe perguntei sobre o
movimento, ele rapidamente devolveu a seguinte pergunta: “Você quer saber do lado bom ou do
lado ruim?”.

Aranha tem dúvidas sobre a possibilidade de que a ideologia punk dê certo. “Pode dar certo
ou não, mas como dar certo se não existe confiança em ninguém, se um não confia no outro?” Para
ele, há um desencontro aparente entre atitude e pensamento.

Porque o punk é insólito. A alma e o corpo, que convergem juntos para a mesma verdade,
podem se voltar contra ela. Porque o punk também é incoerente. Sua incoerência vem das mesmas
instâncias de outros indivíduos. Os sentimentos podem se confundir.

“O que estamos acompanhando é uma inversão de valores, porque os envolvidos são todos de
classe média, mas sem noção de convivência, de família e de valores”, diz o superintendente da

31
Carol, punk já citada no início do capítulo.
32
Os skinheads, carecas são os neonazistas. Assim como os punks, se subdividem em vários grupos, sendo que são nacionalistas, mas alguns
são racistas, homofóbicos. Em Cuiabá nunca foi registrado a presença desse grupo. A não ser pelo incidente acontecido com Carol, que
felizmente não virou notícia deturpada nos meios de comunicação.
30

polícia (Paes) que apurou um caso de violência entre punks e skinheads em Curitiba.Ele classifica
os bons valores, ou seja, da família e da tradição provenientes da classe média, como perdidos. Os
jovens dessas classes, que deveriam considerar os bons costumes, estão cooptados para a
marginalidade, para o crime contra a família. Ele, como representante de um órgão de segurança, se
confronta diretamente com o pensamento, por exemplo, da Fernanda, que afirma:

Punk é... veio com a história do Faça Você Mesmo. Do que eu conheço, nunca estudei sobre o Movimento Punk,
com aquelas musicas toscas, aí veio o Sex Pistols, os Ramones e a galera começando o Faça Você Mesmo. Eu acho que
esse slogan tem muito a ver com aquele outro que está muito na moda agora, que eu boto muita fé: Agindo Localmente,
Pensando Globalmente. O punk é revolucionário nesse sentido, assim... O Faça Você Mesmo, você pode fazer, sabe?
Vai e faz, vai e vê aí no que que dá.
31

CAPÍTULO II – ARTE E COMPORTAMENTO DOS PUNKS NA CIDADE

Como a águia, que do ninho talhado no rochedo


Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,
- (P'ra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,
E o mar, - corcel que espuma ao látego do vento...)
Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,
Que aos raios do poente brilhante sol escorre!
Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,
E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...
Poema (fragmento) Boa Vista, de Castro Alves

A cidade dos anos 80 era cenário típico da calmaria que precede as ebulições culturais que
chegavam pelo Brasil, todas influenciadas pelo existencialismo, surrealismo, o movimento beatnik e
o movimento dos hippies. Com sol a pino na cabeça, surgiam lentamente no centro da cidade os
primeiros, vestidos de negro, alguns com altos moicanos na cabeça, trazendo a estranheza e a
irreverência para a cidade acostumada aos sons de voz e violão ou ao cantado regional puxado pelas
violas de cocho, porque eram “uma geração que, insatisfeita com tudo, acaba de invocar o espírito
de mudança” (Bivar, 2006, p. 47)

Via-se a potência daquele momento. Eram jovens que “se tornavam punks”, como diz Rino33.
Eram punks que iriam transformar a cidade. Cidade essa chamada Cuiabá, que sempre abrigou os
guerreiros do dia e da noite, os conquistadores vindos de outras terras, os solitários errantes por seus
becos e praças, hippies, headbangers, punks, noite estrelada da Rua Um do Bairro Boa Esperança.
Bar do Léo, Quase 84, Alternativo, eram os pontos de congregação após as reuniões que aconteciam
na Praça Vermelha34.

Em uma festa, em pleno ano de 2008, me deparo com algumas pessoas que eram considerados
o princípio do punk em Cuiabá. Logo quando comecei as entrevistas, disseram-me: você tem que
encontrar o Corvo e o Batman. Guardei os nomes pensando que seria difícil encontrar alguém com
tais apelidos. O encontro aconteceu antes de qualquer previsão, em uma festa indie, junção de
bandas de um circuito comercial-alternativo. Caminhava sozinha de um lado para o outro quando
um conhecido chamado Max, punk de Curitiba, disse: “Ei, que bóttons são esses que você usa?” Eu
respondi que eram de bandas punks de São Paulo, as mais antigas, da década de 80 - Cólera, Restos

33
Rino ainda mora em Cuiabá, mas deixou o movimento punk, apesar de afirmar que nunca se deixa de ser punk, este reside na alma. Escuta
o som punk até hoje, mas não se considera saudosista.
34
Praça Vermelha é a Praça Clóvis Cardoso, no centro da cidade, apelidada assim pelos punks por causa de seu piso vermelho.
32

de Nada e umas bandas pós-punks. Qual não foi minha surpresa quando ele disse que eu tinha que
conhecer Corvo e Batman, que assistindo a conversa estavam com olhos a me analisar. Sem me dar
conta, estava invocando o mesmo chamariz utilizado pelos punks em Cuiabá na década de 80: o
visual punk surgia exteriorizando o que sentiam por dentro: vontade de se agrupar, de reconhecer o
igual.

Era difícil levantar o cabelo. Colocar a jaqueta no calor. Mas dava uma satisfação você sair, encontrar os
amigos dava uma satisfação. E cada um queria estar mais raw35 que o outro. Então acho que, não só pra mim
como para todos, rolava um certo ar de vaidade. Um extra no visual. Sair nas ruas era como se imaginar em
Londres, algumas pessoas querendo pegar pra ver se era de verdade. E era melhor quando saíamos em grupo, aí
já era festa. Quando chegávamos na praça era como se uma nave de ET tivesse pousado. As pessoas olhando,
alguns perguntando se éramos daqui. Como fazíamos para o cabelo parar daquele jeito, ah, os cabelos chamavam
mais atenção, os descoloridos ou os pintados, os moicanos ou espetados. Saíamos em bando do GT e
encontrávamos com o pessoal do Araés36 para trocar zines, De lá saia alguma idéia pra onde ir, geralmente
alguma festa na universidade ou para algum agito da Secretaria de Cultura. 37

O movimento tomava forma se adaptando à localidade que o permeava. Enquanto em São


Paulo esse movimento de metrópole era expansivo na década de 80, por aqui ele ainda estava
nascendo. Mas nascia no centro do Brasil, em uma época em que o conceito de contracultura
parecia dissolvido diante das apatias da contemporaneidade. Parecia ser o último suspiro daquele
que preza o contrário. Inconstante na sua essência, recria-se extensivamente, sendo seu centro
mutável alterado por pulsões explosivas, desarticulado, mas rapidamente se processa o encontro,
ondas de pensamentos diferentes, que encaixam a desordem e a fuga em comum. É um caminho
novo.

Hoje o movimento parece acompanhar o rumo da fragilidade contemporânea, não contestando


algumas questões de sua essência: o impacto do punk é porque ele é um modo de vida. Paradoxal: o
sistema montado: governo, empresas, igreja, regem a lei da ordem e muitos punks que sobrevoavam
seu alvo agora são acusados, por muitos, de ter se assimilado a ele. Mas o âmbito do político está
fundamentado na cultura e no comportamento, idéia central que espero tratar.

“O fim do punk por aqui é quando acabam as reuniões para se deliberar contra o sistema”
decreta Rodivaldo38, falando do ano 1996. A ebulição do seu surgimento tem sabor de
contracultura, acompanhando curiosamente o seu fim. Segundo Canevacci, a contracultura, formada
em 1960, se dilui em 1990. Ela não se posicionou apenas contra o sistema, contra seus valores e sua
moral, contra seu cientificismo, contra seu intelectualismo resplandecente no poder da classe

35
Raw – visual mais pesado, cheio de rebites, jaqueta com patches, alfinetes nas pulseiras.
36
GT é Grande Terceiro, bairro de Cuiabá, assim como Araés.
37
Entrevista com Corvo.
38
Rodivaldo fez parte da banda Blokeio Mental, primeira banda punk de Cuiabá, nos seus últimos meses. Jornalista e envolvido com a
música underground, escreveu sua monografia sobre esse tema, utilizado aqui como bibliografia.
33

dominante, mas sugeriu o questionamento e propôs outras práticas para o cotidiano. O diferente
impostando sua voz, o sujeito de Stuart Hall definindo a história do mundo e não mais refém das
relações sociais, da exploração do trabalho, deglutido pela infraestrutura e pelo historicismo que o
pensava como possuidor de uma identidade fixa e impassível às experiências pessoais reprimidas
pelas relações disciplinares de poder: a escola, a igreja, a família, o direito. Na contemporaneidade,
encontra não mais o sujeito coletivo, mas o sujeito individualizado com seu corpo mantido sob
vigilância.

Bauman diz que a modernidade inaugura a civilização ao se contrapor aos instintos, impondo
sacrifícios como a renúncia à liberdade em troca de segurança, e que na pós-modernidade a
segurança roubou a vitalidade daquela que foi sua vítima. Assim percebemos uma sociedade
baseada em parcas condições de exercer todo o seu potencial, chocando-se principalmente com o
novo, com aquele que ousa em sua busca questionar o que já vem imposto.

Canevacci assinala:

Essas culturas juvenis são, pois, contra “a” cultura ao poder – aquela cultura burguesa, de classe, ou
dominante, herdeira do Iluminismo – que tende a virar ideologia: uma falsa consciência historicamente
necessária que busca afirmar sua parcialidade como se fosse universal. (Canevacci, 2005, p. 14).

Essa visão de mundo instituída pelo individuo universal passa a ser vista como uma forma de
excluir o diferente - ou seja, as subjetividades que não se encaixam em um padrão -, ao impor uma
normalidade. Essa força da contracultura ocorre perceptivelmente nas populações das cidades
metropolitanas, e quando chega a Cuiabá, é por meio indireto, primeiramente envolvida por longas
cartas trocadas entre punks cuiabanos com os punks das grandes cidades e pela troca de fanzines39,
fitas com músicas que eram rapidamente copiadas, bandas de todos os lugares que influenciariam o
som que seria criado, a estética das bandas e a “levada” musical, como explica Drailler, ativo
integrante do movimento metal em Cuiabá, mas que se diz pertencente ao movimento musical
underground em geral:

Os fanzines eram superimportantes. Pelos fanzines, mantínhamos contato com o Brasil inteiro, então a
gente sempre tava ligado no que acontecia com as bandas gringas e as bandas nacionais. Todo mundo tinha fitas,
e quando chegavam as fitas tinha fila de 20 neguinhos pra copiar. É onde começou a pirataria (risos)40

39
Fanzine ou zine é uma revista feita por fã; entre os punks é forma de trocar informações sobre bandas e sobre o anarquismo.
40
Drailler é músico, vive no meio underground. Foi da banda Zagaia.
34

Entre os aparatos de controle social tem-se também a tradição, bem fincada com raízes
secretas e subterrâneas, entremeada nos relacionamentos dos cidadãos, incorporando-se às visões de
mundo e caracterizando na linguagem e no campo artístico territórios sedimentados pelo apoio
governamental e por uma faixa da população que entrelaça a cultura e a religiosidade nas
apresentações do cururu e do siriri. Cuiabá é ameaçada, dominada e também alçada para novas
perspectivas de caminhos ao se abrir para o contato dos viajantes dessa década de 1980. É
recombinação de olhares que se cruzam. Cuiabanos antigos e jovens. Cuiabanos e não-cuiabanos.
“Aqui nos anos 80 os militares estavam jogando terra pro povo vir pra cá, então tava tudo
envolvido, né? Do sul, do norte. Isso aí foi fundamental. Já tinha aqui uma cultura musical. Ajuntou
com os aborígenes aqui e rolou isso aí”, relata Corvo41, buscando na própria memória as lembranças
das fitas que Serginho H42 havia trazido de sua cidade, enquanto Drailler complementa:

Hoje você já pode considerar todos cuiabanos porque graças a eles veio toda uma cultura de fora, porque
Cuiabá foi colonizada musicalmente (risos) como qualquer outra cidade. Cuiabá não existia, São Paulo também
não, São Paulo foi colonizada por italianos e babababa... E hoje em dia o principal pólo de cultura é São Paulo, e
por quê? Porque veio gente de fora, que se fixaram, trouxeram as suas culturas, o que curtia de som e assim
começaram a aplicar.

A territorialidade corre perigo, e com isso as fronteiras se diluem e o mundo se abre. Nas
minhas primeiras pesquisas no campo da pós-graduação, já visualizava essa relação e guardo como
exemplo o seminário para a disciplina Regionalização e Cultura, sob a orientação do professor
doutor Mário César Silva Leite, em que analiso que “toda a simbologia materializada ao longo da
cidade, em suas cores, tráfegos, retas e sinuosidades é uma criação do homem que a perambula, e
este, por sua vez, é construído também por ela e convidado a continuar o ciclo. São as relações
sociais que formam os signos que expressam as subjetividades da população” (Sant’Ana, 2007,
p.1).

Esse ambiente parece ter contribuído para um fervilhar de grupos de discussão, novos artistas
inspirados na arte contemporânea ou na contribuição do universo indígena apropriado a uma
releitura na poesia e na música, em uma ironia sutil aos ícones mato-grossenses, em uma busca de
espaços na cidade onde pudessem se expressar e discutir sua visão de mundo. Ao mesmo tempo em
que nada existia, abria-se um caminho para a imaginação de um ideal.

Essa “confusão” foi retratada pelo Diário de Cuiabá, ao publicar a matéria “Cuiabá: Cidade
em Permanente Estado de Calamidade”, em que se lê:

41
Importante integrante do punk de origem em Cuiabá.
42
Serginho H veio de Jundiaí - São Paulo e foi um dos primeiros a trazer e apresentar o som punk aos cuiabanos.
35

A miscelânea resultante desta total falta de controle administrativo gera uma verdadeira babilônia de sons
e gritos confusos. O interessante é que a Praça Alencastro é pródiga no fenômeno do autêntico socialismo, pois
ali se reúnem, diuturnamente, esparramando-se nos bancos principais, doutores, “doutores”, pistoleiros,
trambiqueiros, padres, corretores de imóveis ou simplesmente vagabundos. Uma sociedade que não consegue
controlar a si própria, por certo levará aos poucos o seu povo a tecer ninho de aranhas, onde a confusão da teia
cria a rede de labirintos. Se querem acabar com Cuiabá, que seja de forma mais sutil, não minando
descaradamente nossa dignidade e nossos hábitos. A cidade de há muito já perdeu sua própria identidade. Não
vão querer agora acabar com sua honra. (Melo, 1982, p. 12)

São os sujeitos anômalos perfurando no ar suas linhas de fuga. Ultrapassando as identidades


pré-estabelecidas no território que se pretende imperturbável. Os punks preparavam sua
desterritorialização ao permanecer nos espaços públicos fazendo reuniões que invocavam uma
maior abrangência na cidade. Deleuze (2008, p.18) diz que o devir se dá por contágio e não por
filiação. Deslocavam-se no espaço da cidade para propalar seus ideais, espalhar ao vento que corria
nas ruas centrais o contágio. Saiam dos bairros para invadir o centro. Em Cuiabá, definitivamente, o
movimento punk não pertencia ao gueto. Os primeiros não se intimidaram e montaram as primeiras
bandas, que originariam o movimento cultural da cidade quebrando a sua estabilidade.

2.1 As armadilhas

Mas até que ponto o que passa a existir não se torna fixo? Onde está o ponto que congela a
violência, transmutando-a a uma similitude com o normal e matando-a ao torná-la história? Essa
oscilação entre o tempo presente e passado, unindo as gerações, se veste das novas perspectivas na
contemporaneidade. Como se dá, então, o contágio nos novos punks, como se propaga o
movimento? E o que buscam nele, situados na contemporaneidade que é desnuda dos romantismos
e empolgações políticas? Como se defender das organizações e dos valores repetidos pelas gerações
é o cerne das respostas para o entendimento do que é o punk hoje. Porque os devires não pertencem
a essa categoria: ao ser domesticado e tornado amável e ameno, o punk perderia seu impulso
nebuloso e destruidor. Ao ter suas sombras iluminadas, é facilmente assimilado pela mídia e
absorvido apenas em sua superfície, abandonando as profundezas de seus ritos, dos seus códigos, de
sua postura em relação à sociedade. Esse impulso contraditório muitas vezes voltado contra si –
como máquina de guerra impávida - é umas das armas que carrega ou seria sua acessibilidade a
forma de melhor contestar a estrutura social?

Nesse primeiro momento, os punks eram máquinas de guerra que geravam na cidade de
Cuiabá um atordoamento e ao mesmo tempo uma invisibilidade de ação provocadora, pois mesmo
visíveis pela cidade à luz do dia, seus rumos futuros não eram previsíveis nem a eles mesmos.
36

É como a Zona Autônoma Temporária de Hakim Bey. Funciona como uma rebelião que não
se fixa, podendo dissolver-se para materializar-se em outro local, tática de dispersão contra as
forças do Estado: uma rebelião que não o ataca frontalmente.

Muniam-se de bandas com letras explosivas e seu ritmo célere unia-se aos preparativos de
uma invasão na cidade.

Barrados por injustiça, buscam saídas


Sem condições derramam sua lágrimas
No seu suor gasto e cansado
Voltando ao seu meio, angustiado
Sem poder sair do seu círculo
Batido e explorado por si mesmo.

Eu não queria estar aqui sonhando,


Imaginando o que seria de mim
Na hora certa você vai saber
Que merda de lugar eu escolhi pra viver!43

As bandas se multiplicam, e a ausência de locais para tocar é superada com várias casas que
se abrem ao rock. Em muitos desses locais ainda hoje se realizam eventos de rock. Logo os
encontros não acontecem apenas em reuniões ou shows, como os A Bosta ainda Fede ou A Morte
do Rock em Cuiabá, nomes sempre carregados de ironia, porque o punk é isso, sua arte é sua
contestação e sua arma. A manifestação artística é uma constante no meio punk, ainda que alguns
possam repeli-la. Ela está não apenas no visual que impõem às ruas; na música, que para ouvidos
pouco treinados é um martírio; ou em sua dança, o pogo, ondas rítmicas assemelhando-os a
morcegos em festa. Está também em todas as suas significações e em seus atos: seu corpo é arte que
se espalha pelas ruas.

O squatting, ato político de invadir prédios públicos ou particulares abandonados, foi uma das
manifestações realizadas em Cuiabá, e que abrigou a arte punk e/ou underground em geral. O squat
significou teto para aqueles que não possuíam moradia, mas funcionou também como ponto de
encontro para debates e planejamentos e centro cultural, onde eram expostos zines, e cartazes e
faixas eram confeccionados para anunciar passeatas e manifestações. O squat causava certa
comoção negativa, segundo Corvo:

Bom, para a cidade isso foi meio chocante. O squatter (sic) aconteceu no ano de 1991, e para Cuiabá isso
era um choque. Imagine um bando de garotos e garotas de visual se reunindo ali, em pleno centro da cidade. O
que imaginava a sociedade em geral era que nos reuníamos para usar droga, ou fazer orgias, mais em nem um

43
Dois fragmentos de letras das músicas Eu não Queria Estar Aqui e Angustiado, da banda Blokeio Mental” de 1997 e 1985,
respectivamente.
37

momento se viu isso no ambiente, porque nós punks sabíamos da responsabilidade que era estar ali fazendo uma
ocupação de um prédio de terceiros, e pleiteavámos ganhar o local, e transformar em centro cultural para
visitação pública.

2.2 As fugas

Os devires haviam se manifestado nesse grupo habitado por Rato, Corvo, Batman, Shebba,
Mamuth, Aranha, Soró44. Devires animais. Deleuze diz que, quando se dá o devir animal, não é uma
questão de escolha, mas de contágio. Porém, o contágio se dá em oscilações. Com as rupturas que
existiram entre as décadas subseqüentes - 1980, 90 e os anos 2000 - salvaguardou-se algo ainda de
contestador.

“Ódio e revolta”, “o punk rock”, “o anarquismo”45confirmam essas pulsações de expirações e


inspirações. O agenciamento, a ação coletiva, se desenvolve nesses batimentos extra-intra, ora
sendo determinado por sentimentos internos que se projetam nos corpos intencionalmente,
marcando-os como corpos carregados de símbolos. “O código que flutua através de meus reparos
torna-se corpo, modifica-me, ‘fluidifica-me’, porque a percepção visual é o corpo”, como esclarece
Canevacci (2005, p. 160). E esse engendramento coletivo mistura-se na liquidez da multidão sem
perder sua corporeidade, por ser uma experiência coletiva. “Usávamos o corpo como forma de
protesto”, como afirma Corvo sobre esse aspecto.

Naqueles anos, então, o movimento se esvaiu diversas vezes, mas essa retração nunca se
tornou uma nulidade, porque, como disse Aranha46 “sempre haverá um garoto ou uma garota”, mas
definiu duas características que são muito próximas de uma relação com a cidade: Essa existência
com esses declínios permitiu que o movimento renascesse diversas vezes, não se reconfigurando,
mas se formatando a partir do zero, porque, apesar de sempre haver algum punk por aqui, muitas
vezes esse é apenas um velho lobo solitário sem sua horda, ou então um jovem de 15 ou 16 anos
que, ao procurar respostas para suas mais ferozes dúvidas, encontra no punk uma alteridade não
encontrada nem na família, nem em qualquer outra instituição normativa.

A ruptura garante a vida e a morte desse movimento, sendo sua peste e sua cura. Foi sua cura
enquanto permitiu que o movimento existisse de maneira sempre autêntica, não sendo incorporado à
mídia ou à moda tão facilmente. Não se reterritorializando com facilidade.

44
Punks de Cuiabá.
45
Resposta de Aranha, Corvo e Rino, ao serem questionados sobre os motivos de terem se tornado punks.
46
Aranha foi punk quando tinha 15 anos e habitou um dos momentos de lacuna do movimento. Era o único a usar moicano e visual na cidade
e andava assim pelas ruas.
38

Mas foi também sua morte. Por falta de fôlego. O movimento que teve de nascer diversas
vezes, encontrou dificuldade de se reorganizar, trabalho lento e demorado ao ser muitas vezes
construído e destruído.

Em 2001, Aranha coloca outra intencionalidade no ato de compor seu visual. Empunhava-o
de duas formas diferentes: como “um cavaleiro se preparando para a batalha” ou como “um serial
killer pensando na próxima vítima”. E quando seria uma coisa ou outra? O cavaleiro era o punk que
só ganhava as ruas; e o louco, o feroz, quando se apresentava em shows, mostrando a violência
reservada para o momento da arte, do palco. Nesse início do ano 2000 não havia contato entre os
punks. E novamente a história se repete: um cara de São Paulo apresenta pra Aranha os sons punks.
Ele, que já tinha dentro de si “ódio e revolta”, só precisava saber para onde direcionar seu ódio,
como ele explica:

Eu já tinha o necessário, que era ódio e revolta. Eu só precisei identificar do que eu sentia tanta raiva e
encontrei outros punks, que falavam de anarquismo, falavam contra esse sistema opressor. Pronto. Comecei a
conhecer pessoas que tinham essa mesma finalidade, até chegar ao ponto de resolver atirar a torta47.

As tretas que causaram essas rupturas acompanharam a queda do punk no Brasil como um todo.
Quando algo parece surgir para desbancar certos conceitos e comportamentos arraigados, enraizados,
fatos acontecem também em movimento contrário, para ou desestabilizar o novo ou para tentar cooptá-
lo.

Num encontro com os punks Serginho H, Corvo, Batman e Shebba48, pergunto sobre os motivos
do movimento por vezes se estagnar até o desaparecimento. Entre risos confessam que um dos
49
motivos era que no “movimento não havia muitas mulheres” . Era comum, então, haver brigas por
elas. Havia as “brigas pelas mulheres”, alguns foram se casando e se adaptando à vida familiar.

Existiam as brigas entre grupos diferentes: entre headbangers e punks; entre punks e junkies50.

Não havia, como em São Paulo, uma interação do movimento punk com outros movimentos
sociais. O que acontecia era uma desordem na conduta do grupo, o que chamava atenção da polícia.
Mas isso é parte de um primeiro momento em que o comportamental suplantava o político, pois, aos

47
Entrevista com Aranha.
48
Shebba é um punk controvertido. Tem opiniões chocantes e quase sempre desperta riso ou espanto.
49
Isso foi dito em um momento informal, em mesa de barzinho, quando todos conversavam sobre o passado e riam.
50
Os punks acusavam de junkies o GTW, pois diziam que eles usavam drogas demais. O GTW era uma banda punk que introduziu outros
estilos na musicalidade punk, como o crossover – o vocal da música heavy metal.
39

poucos, o conceito do anarquismo foi formando o conteúdo das novas bandas, como Atrito. “Hardcore
não é sonoridade, e sim um veículo de protesto”, segundo as palavras de Hyngrid 51.

2.3 As ruas e a política: novas formas de organização

Novamente o conflito, a dubiedade da vida, forças antagônicas no mesmo campo, a batalha em


campo sinuoso delineando-se sob o clarão do dia e as estradas cobertas das luzes da noite. Centro, Boa
Esperança, que tem como coração pulsante a universidade. O cenário se desfaz para se refazer. O
movimento punk se mistura a outros coletivos.

O Coletivo Libertário e o MAU (Movimento Anarquista Universitário) eram duas frentes


organizadas do pensamento com preceitos anarquistas. Na opinião de Claudio Dias52, havia uma
“patrulha ideológica em cima do visual”.

Dois acontecimentos interessantes, distantes apenas no tempo: um deles em 1990, quando


algumas bandas foram chamadas para realizar um show em um evento de cururu e siriri –
manifestações da cultura tradicional mato-grossense - patrocinado pelo Estado e tudo o que ele
oficializa, interessado em manter abaixo dos olhos os punks e suas investidas; o outro, a tortada de
soja no governador Blairo Maggi, conhecido como o “rei da soja”, gerando indignação nos meios de
comunicação.

Com o movimento crescendo, as reuniões passam a ser feitas no RU53 e em outras praças, como
a Boa Morte, já com a participação do MAU, formado por Glauco, Solange Canova, Paulão, Erik e
Marlova54, o MUC55 e pelo Coletivo Libertário que tinha sede na Voluntários da Pátria56. Nessas
reuniões era decidido o calendário de atividades, como shows, passeatas, panfletagens e ações diretas.
Todas essas atividades eram definidas levando em conta datas do movimento nacional. Agitação
cultural com intensidade política.

Era uma transição entre manifestações que primavam pela provocação comportamental

51
Hyngrid, tocou na Atrito, banda que surge na última fase carregada de sentimento punk politizado, desestruturando preconceitos até da
galera punk da década de 80, que percebia o contágio da atitude dos integrantes da banda que provocaram, como não havia acontecido antes,
uma liberação de opções sexuais.
52
Claudio tocou na banda Joãozinho e Maria, e Rino também fez parte dessa banda. Diz que havia uma estética punk sem ser punk. Já havia
MTV nessa época. Havia também uma acusação de que eram posers.
53
RU é o restaurante universitário da UFMT.
54
Anarquistas. O Erik havia formado o grupo Geléia do Asfalto, que pixava frases de poetas e filósofos em locais estratégicos da cidade em
meados dos anos 90.
55
MUC ou Movimento Underground Cuiabano.
56
Apelidada por eles de “Voluntários sem pátria”.
40

caminhando para o político, que se formavam sigilosamente em grupos de debate. Se antes as lutas
urbanas aconteciam entre punks, capoeiristas e outras gangues de bairros periféricos, eventualmente
alguns policias, num segundo momento aparecem nessa margem cultural da cidade os diversos grupos
de discussão que agora se reuniam no campus da universidade.

A banda Joãozinho e Maria tinha visual punk e fazia som punk, mas não se consideravam punks.
Parece uma contradição, mas não é. O punk continuava a ser tão interiorizado que não havia
necessidade de se assumir enquanto tal. De qualquer maneira, o punk em Cuiabá sempre foi alvo de
olhares atentos. Se foi somente assimilado pelos meios de comunicação como “filhos do diabo”57, os
sinais da cruz já lhes eram feitos vinte anos antes.

Uma série de circunstâncias contribuiu para endossar essa sensação de medo, âmago de nossa
civilização. A dualidade é o ar que se respira entre o que sou, o eu mesmo, e o desconhecido, de rosto,
de família, de origem, de modos, de distância entre as gerações. Os meios de comunicação começam a
alardear o punk como perigoso. Ao ser lançado o “Cadeia Neles”, programa de cunho sensacionalista
sobre casos de violência, como assassinatos e roubos, foi veiculada uma matéria que classificava o
local

Portanto, o medo é o combustível daquele que tem o poder para repelir e, ainda mais, para
estabelecer a vigia silenciosa sobre o estranho e seu comportamento, que é tido como obscuro e
anormal.

Aumentam-se os encontros entre libertários e anarquistas, mas acontecem dois incidentes que
limitam o espaço do punk na cidade, agora com provas factuais. Em 1997, a banda Garotos Podres
toca no Buffet Itália58, em Cuiabá. Dois rapazes estão atirando em balões de divulgação com arma de
fogo. Um dos disparou alvejou um rapaz, que faleceu. Pouco tempo antes desse incidente, morre
Ceará, frequentador do circuito em que se reuniam os roqueiros, punks e metaleiros, no bar da sede do
Coletivo Libertário, com um tiro na cabeça. As pessoas debandam, tomadas por sentimentos de medo
e de confusão. Um cara conhecido por todos e uma treta que envolveria riscos para quem
permanecesse ali. Não eram bem vistos e logo a polícia estaria no local. Afirma Rodivaldo: “depois de
Garotos Podres houve uma fase de morte do rock em Cuiabá. A prefeitura não queria liberar espaço, o
governo não queria liberar espaço, a polícia ficava em cima. Por quê? Porque nem dois anos haviam
se passado e duas pessoas haviam morrido em shows, coisa rara de acontecer, fato isolado”, mas que

57
Essa frase foi dita por Corvo na década de 80 e por Cláudio Dias, numa reafimação de como os punks eram vistos pelos transeuntes na
cidade de Cuiabá.
58
Clube onde sempre aconteciam shows de rock.
41

trouxe instabilidade para os partícipes do movimento.

A estratégia seguinte é desaparecer novamente. Depois de uma fase de ostracismo, surge um


novo grupo de punks, os anarcopunks. Rodivaldo os descreve como radicais, na medida em que a
banda não tocava em qualquer lugar, apenas nos locais da cena underground, criticando até mesmo
alguns produtores e seus eventos:

A banda tem receio quanto ao tipo de organização. Não queremos apoio de políticos em nenhuma hipótese,
também por motivos comerciais e porque a banda não quer tocar na tal cena alternativa que tem a intenção de
ganhar dinheiro promovendo bandas com outro propósito.

Chegamos a um ponto em que a cena musical se amplia, inclusive com bandas concorrendo
para premiações nacionais, como os festivais da MTV, mas com propostas desarticuladas da vontade
das bandas punks ou de heavy metal, que já vinham trilhando um caminho. Surge nessa fase uma
preocupação com a conquista e a ampliação de um público consumidor, inclusive com a utilização da
internet como meio informativo, mas sem grande proveito para o cenário já existente por causa da
excessiva preocupação com o mercado. O resultado foi a desarticulação desse cenário.

2.4 Punk é comportamento

O punk é, para Antonio Bivar, como um dos manifestos futuristas de 1910: “Rebele-se contra a
tirania das palavras harmonia e bom gosto” (2006, p. 120). Sua influência na sociedade é na base do
cultural. Seu comportamento abrange outra concepção de vida.

Sua potência é essa. É na confluência de sentimentos e ações explosivas que nasce e permanece o
punk. É nessa constante inconstância que se situa a velocidade de suas ações.

A sensação de incompletude, longe de ser um sentimento negativo, gera expectativas que podem
levar à mudança. É combustível que extravasa em fatos isolados, na forma de explosões, mas que
demonstram um não aceitar dos códigos da normalidade. São experimentações nesse espaço urbano,
que é o meio onde tudo o que trava será forçado. Toda força em determinada direção será recebida
com a resistência ou com uma força contrária, muitas vezes desmedida e muitas vezes também mal
aplicada em sua vontade de ser um ataque. “Tensão é potência”, como me disse o entrevistado
Esqueleto, punk que morou em São Paulo e hoje reside em Cuiabá. Tais são essas diferenças que
predominam no cenário contemporâneo, fazendo com que essa mesma característica seja absorvida
pelo sistema, que a tudo engole, para depois regurgitar com a mansidão necessária para evitar o
42

desequilíbrio.

Abrem-se as portas para as gaiolas: grupo juvenil, movimento punk, tribo urbana. Codinomes
para as experiências nascentes, com suas subjetividades ardentes como as encontradas em outros
espaços, amplos como as ruas; ou codificados, como as mesmas ruas, mas com seus semáforos, suas
passagens de pedestres, seus sinais arquitetando o comum. A cidade invadida por símbolos, alguns
absorvidos, outros ininteligíveis, se apresenta aos olhos de seus viajantes anônimos, que sob seus
olhares a reformulam conforme sua própria subjetividade. Cuiabá é tanto mais única quanto assim se
pode ver, mas também é passagem do global. O que é o comum nesse âmbito da diluição das
fronteiras territoriais, tanto das cidades quanto do corpo que dela se ocupa. Ou, como pergunta
Pelbart: “num capitalismo conexionista, que funciona na base de projetos em rede, como se viabilizam
outras redes que não as comandadas pelo capital, redes autônomas, que eventualmente cruzam,
deslocam, infletem ou rivalizam com as redes dominantes?” (Pelbart, 2003, p. 21). Embalo-me nesse
questionamento cogitando: de que modo o punk em Cuiabá se faz em sua trajetória até a atualidade: se
mantém fiel em sua contestação social ou se vê expropriado - absorvido, tornado produto – deglutido?

Nos últimos anos, o punk parece frequentar os âmbitos públicos com maior constância, em
contraposição ao gueto anterior, como confirma Rato:

O pessoal está alargando, deixando aos poucos o pensamento de que ‘eu não vou estudar, não vou trabalhar’.
Muitos estão construindo família, tem filhos... Então estão procurando desenvolver algum trabalho, algum estudo,
pra poder estar sustentando a família... O movimento punk que antigamente só aparecia na mídia quebrando os
outros, quebrando polícia, né? Hoje não, com essa onda do pessoal estar no meio, as pessoas se aproximam mais do
movimento punk, as pessoas estão passando a conhecer. Mas a mídia está em cima do movimento punk, mas não
pra colocar o movimento punk como um movimento de mudança, de atuação. Ela está colocando o movimento
punk, tipo, banalizando o movimento punk pra que ele acabe, para que o movimento acabe. Tem guri montando
banda. O que a mídia quer. Que o movimento comece a se destruir por si próprio. Porque as pessoas vão desistir.
Porque eles sabem que o movimento punk é um movimento forte, de atuação, de impacto... Diferente dos outros
59
movimentos que ocorrem aqui no Brasil .

A discussão sobre a relação com a mídia - sobre a exposição ou não, nos meios de comunicação,
de seu modo de pensar, de se vestir, indicar o passo e seu caminho - se tornou mais freqüente a partir
da década de 1990, chegando ao início de 2000. O punk, como ser que age contra o sistema, foi
expropriado de sua singularidade e absorvido pela mídia e pela sociedade cuiabana? Entretanto, como
indica Rato, uma inclusão nos espaços sociais pode ser necessária. Mas se assim fosse, para quê e com
qual finalidade?

Na verdade, esse é o jogo dúbio imposto indiretamente pela lógica do capitalismo. Com a

59
Anarcopunk que reside em Cuiabá.
43

proposta de abraçar todas as diferenças - de classe social, étnicas, religiosas, de faixa etária etc. - acaba
por amaciá-las, ao desenraizá-las do contexto de origem, e esse é o sentido maior da expropriação. O
punk nasceu e foi criado na paisagem contemporânea das megalópoles, mas como pode ter alcançado
uma cidade no centro do país? Seria, como diz Corvo, uma negação da realidade percebida e que os
jovens não queriam porque, naquele momento de fim de ditadura militar, não conseguiam mascarar a
raiva que sentiam fazendo letras de amor? Mas, simultaneamente, como o punk pode ter força quando
em seu próprio funcionamento há conflitos? Conflitos internos como o que encontramos no
testemunho de Babu:60

Eu conheci o movimento punk em 89, tinha de nove pra dez anos, mas com o tempo a gente vai descobrindo
coisas que antes não entendia, tipo se eu e meus amigos somos punks e estamos lutando por igualdade e justiça e
todas essas merdas que acreditamos, por que só eu tenho que ir pro CPA, por que só eu não tenho dinheiro? Todos
são burgueses, todos os punks de Cuiabá dos anos 90 eram burgueses, então comecei a ver com outros olhos. Aí
parei com tudo isso, comecei a andar mais com meus semelhantes, a andar com a galera do CPA, e foi onde eu
conheci o rap e o graffiti. Mas sempre fui punk.

Não destoa do protesto de Babu a verificação de que no grupo punk em Cuiabá a sua assimilação
foi corporizada independentemente de vínculos sociais, de distanciamentos físicos entre os
componentes distribuídos em diferentes bairros da cidade, de qualificações de ordem econômica,
gerando, portanto, uma atribuição mais voltada às afinidades afetivas e subjetivas.

Os atributos específicos se fazem lentamente em função de uma ordem dos próprios punks, mas
são também alterados, em um circuito externo, a cidade, pelas suas veias comunicativas: a
comunicação que edifica a imagem gerada a partir deles e entre eles, quando dizemos que sua
autoimagem é cooptada pela mídia. Em Cuiabá, a imprensa escrita é a que mais discorre sobre os
punks e sobre o meio underground em geral. Partindo da monografia de Rodivaldo61, faço uma
pesquisa sobre o cenário contemporâneo em comparação à década de 1990.

2.5 Os jornais e as imagens

Inicio o paralelo entre as duas décadas com a análise da linguagem utilizada nos jornais Folha do
Estado, Diário de Cuiabá, pesquisados na monografia citada, excluindo, entretanto, os noticiários que
envolvam outros grupos que não os punks, como os headbangers62.

60
Babu é artista plástico, morou em Cuiabá na década de 90, indo mais tarde para o Acre e fazendo viagens para o Rio de Janeiro e Salvador,
para trabalhar com intervenção urbana.
61
Rodvaldo, um dos entrevistados desta pesquisa, é da banda Blokeio Mental.
62
Headbanguers são os metaleiros, que escutem o som metal ou heavy metal.
44

Em a Folha do Estado, a notícia intitulada Movimento anarquista inaugura QG em Cuiabá,


parece um contrassenso à comoção que a união de punks costuma causar, sobretudo em grandes
cidades em que confrontos entre as tribos são comuns. Um anúncio informativo desse tipo reflete algo
de aceitação: afinal um quartel-general vem sendo montado aos olhos de todos os leitores, dos
cidadãos em geral. A matéria tem a seguinte premissa: “uma turma com fome, sede e gana de
liberdade ampla, geral e irrestrita, está estruturando o movimento anarquista na cidade. O Coletivo
Cultural Libertário já diz bastante ao que veio pelo próprio nome”. Seguindo essa linha de raciocínio,
a jornalista expõe o que julga serem as características principais do fato. Uma delas é a junção de
punks, headbangers, blueseiros, e roqueiros em um mesmo espaço. A mesma propriedade de um
espaço que agrega diferentes grupos foi encontrada já nos idos do surgimento da movimentação
cultural alternativa na cidade, ou seja, permanece a fluidez dos grupos, mesmo quando esses
estabelecem a si próprios uma característica predominante, ainda que posteriormente possa ser
alterada.

A máxima “contestar o sistema de todas as formas, este é o propósito dos anarquistas”, contida
na matéria, demonstra a opinião equivocada da repórter à luz das palavras de Cláudio Dias, em
entrevista de julho de 2008, ao descrever os preparativos do Coletivo:

Começou a dar uma repercussão assim, porque todo mundo via as pixações, tinha bastante no centro, todo
sábado praticamente o pessoal saia pra pixar, e aí começou a se politizar mais, a gente começou a sentir necessidade
de ter um espaço mais formal. O Rodolfo organizou o fanzine do MUC63, que era o Cuiabá Underground, né? E aí
nesse processo de politização quem ficou mais foi a galera que tinha uma posição mais libertária, né? Mais
política... Alguns já atuavam no movimento estudantil, mas também atuavam no MUC, e tinha pessoas que atuavam
no movimento estudantil e não atuavam no MUC. E aí a gente falou: não, a gente podia juntar tudo, né? Uma
proposta um pouco mais aberta, além do underground... Uma proposta política, cultural, de contracultura, e de
cultura alternativa, e juntar essas pessoas dentro de um grupo... Mais aberto que o MUC, que o MUC sempre foi
muito estereotipado, que era coisa de metaleiro, então a gente teve necessidade de formar o Coletivo Libertário,
depois que a gente colocou Coletivo de Cultura Libertário. O Coletivo Libertário juntava mais gente... Porque ele
juntava os estudantes, e juntava o pessoal mais ligado à questão underground, que também às vezes era estudante...
Então isso foi em 94 quando a gente tinha uma experiência do movimento estudantil, tinha um grupo de movimento
estudantil grande, que tava se afinando com o pessoal anarquista, e já tinha umas pessoas que não estavam contentes
com a questão só do underground, tavam querendo partir pra uma outra discussão, e aí a gente tinha essa visão de
uma necessidade de juntar todo mundo... Independente ser metal, punk...

Nessa matéria retirada da Folha do Estado, é possível sentir o tom tendencioso com que é
tratada a movimentação. A frase dita por Jésus64 - “a gente não está louco, não tomo drogas e estou
trazendo minha namorada para o movimento” - chega a soar cômica, sobretudo quando se frisa que
“quem assume este estilo de vida não pode restringir sua opção apenas ao fim de semana. Para comer,
se informar e até namorar existe uma linha reta de raciocínio, que não pode dar em outro fim senão a

63
MUC – Movimento Undergroud de Cuiabá era o encontro de jovens para conversar e pixar muros, sua principal ação na cidade.
64
Jésus, punk e anarquista envolvido com o surgimento do Coletivo Cultural Libertário.
45

liberdade”. Incongruente é se pensar em liberdade agindo em uma linha reta. A linha reta de
comportamento conferida pela jornalista é a própria morte da energia molecular, é o molar surgindo
dentro desse outro processo.

Guattari conceitua as formações de desejo no campo social em pulsões incontidas do novo, que
são as linhas de fuga, ou ainda, âmbitos despossuídos de hierarquias, tradições, manipulações de
poder do capital, lacunas onde se formam os movimentos, denominadas de molecular, e a rigidez da
reterritorialização, a docilização dos desejos e da fúria desmedida, designada de molar.

No entanto, a despeito da diferença entre eles, são processos ininterruptos no social, ocasionando
o fluxo de desterritorialização e reterritorialização: de saída impassível aos velhos sentimentos
guardados na caixa metálica, como tesouro para a posteridade, para a rua, para o lugar onde não se
tem nome, nem posses a serem reverenciadas. Quando, no momento seguinte, voltam de alguma
maneira a se tornarem fixas, como num eterno movimento de voltar para casa. “O molecular pode
nascer no macro. O molar pode se instaurar no micro”. (Guattari, 1981, p. 150).

Portanto, quando Eduardo Ferreira65 afirma que nos anos 80 todos eles queriam mudar o mundo,
ainda que não soubessem a direção em que deveriam ir, está confirmando o que Cláudio disse sobre
uma conjuntura de dez anos depois: não se tinha muita idéia de onde se queria chegar. Porque assim
aconteceu o Movimento: deu-se o início, estruturou-se e morreu, para alguns anos depois repetir todo
o processo. Inclusive, o início e o fim, o começo e a quebra, é o que Guattari coloca como
imprescindível para que haja o processo de singularização. E é esse singular que é caçado pela
indústria dos desejos – produtores de modelos de vida, pois sem eles “funcionam mal ou nem
funcionam, se não há essa captura de mini processos de desejos, de liberdade de singularização”
(Guattari, 1981, p. 151).

Outro fato interessante é que muitos punks são jornalistas, designers de artes gráficas ou exercem
alguma atividade artística, seja como músicos, produtores. Mesmo o público punk está, em grande
parte, ligado a atividades profissionais voltadas à criação.

Há duas matérias escritas para exemplificar a mudança da linguagem e da maneira de se referir

65
Eduardo Ferreira é publicitário, poeta, videomaker, músico, integrou uma das primeiras bandas de rock de Cuiabá, o Caximir.
46

ao underground cuiabano. Uma delas é do próprio Rodivaldo, com sua habitual linguagem irônica,
fala sobre o aniversário de 18 anos do rock em Mato Grosso ao jornal Diário de Cuiabá. Ele escreve
em primeira pessoa e conta a sua experiência no meio underground destacando a identidade do grupo:

Detentores de atitude acima de tudo, foram “teimosos – esquisitos - solitários” que se revezavam nos shows
uns dos outros – como conviria, se a vida fosse um bom romance (e Cuiabá uma cidade desenvolvida culturalmente)
a todo outsider – por mais quase oito anos. Aqueles moleques tinham topete, garra, força de vontade desmedida e,
muito além (e para tornar tudo mais legal ainda), uma completa falta de noção sobre a que ponto aquilo poderia
chegar66 (Ribeiro, 2003, p.27).

A emancipação desprovida de um fim, de uma meta, de um porto seguro abre caminhos para
uma manifestação contagiosa, abrigando os losers, os desabrigados do sistema, que ainda ressoam
palavras de ordem como “morte ao sistema”, para através de elucidação às avessas triunfar o desejo
infinitamente desordenado, escapulindo às tentativas de se tornar clichê, de se tornar simulação de si
próprio.

O indeterminável que se formava na década de 80 e que finda próximo aos 90, reencarnando
novamente, e morrendo e nascendo, traz com sua morte e o recomeço não só a desestruturação do
próprio grupo, mas sim, e acima de tudo, a possibilidade de se retornar à infância e ao puro, ao
contemplativo e dificilmente adaptável à condição capitalista, que tem como métrica a expropriação
de aspectos subjetivos de indivíduos esparsos num espaço público para enquadrá-los no território
delimitado e reconhecível, aproximando seu ímpeto visceral em um núcleo econômico e biopolítico.

O conceito de biopolítico é retirado da concepção de Foucault, designando o poder sobre a vida,


sem esquecer que o lancinante da renovação permitida por essas mortes exercita o sentido novo dado
por outros autores, como Deleuze, para quem a vida não pode ser reduzida à virtualidade e à energia
não-orgânica e voltada aos princípios mercadológicos. A discussão é como resistir aos apelos do
capital no sentido de amaciá-lo e reincorporá-lo ao social? Pois existe um mercado vibrante e
esfomeado para consumi-lo, degluti-lo em poses bem tratadas de... Marginal!

Rodivaldo continua na matéria:

Tudo o que seria de se esperar de uma boa idéia passou a acontecer a partir daí: por uma ótima e feliz
contingência do destino, os losers foram ouvidos, e suas idéias (mas não sua atitude, como costuma acontecer com
quase tudo o que dá certo) têm, hoje, de tudo um pouco. A saber, valor de mercado, site, status reconhecido de
manifestação cultural e artística jovem (seja lá o que isso quer dizer), respeito da polícia (que parou de invadir

66
Retirado do Jornal Diário de Cuiabá de 15 de janeiro de 2003.
47

shows), suporte da mídia e - ironia das ironias - fãs, cachês, meninas. Que tudo isso tenha sido tornado real com as
devidas adaptações aos meandros do coronelismo, à politicagem, e ao “jeitinho”, prefiro nem lembrar, já que este é
um texto de parabéns de um bom amigo. Assim, esse tal de MT Rock pode mudar, não corresponder às expectativas
e até mesmo decepcionar. Mas sendo amigo e tendo crescido junto, só me resta fazer o que tento fazer com todos os
meus amigos: esquecer defeitos, superar as falhas, decepções e eventuais traições e desejar que ele cresça, faça 60
anos, envelheça. Mas não fique adulto e não morra nunca (Ribeiro, 2003, p. 27) 67.

O pedido generoso visível em sua matéria, que destoa da dos seus colegas jornalistas, é o
nômade de Bey, é a arma de guerra de Deleuze transposta em sua linha de fuga. Porque o punk, sendo
assimilado pela lógica de produção econômica, invoca a pergunta: o que é assimilável no punk? Sua
roupa que outrora, ou ainda hoje em Cuiabá, causa choque? Sua música? Mas é o punk mesmo que
está sendo engolido, ou apenas sua superfície?

A nossa primeira bateria compramos até do Blokeio Mental, a gente achou legal que foi uma transição, pegou
a bateria lá no Batman, de ônibus, até lá no centro, carregando uma bateria, bateria do Blokeio Mental, que era a
primeira banda punk daqui, tipo assim, Joãozinho e Maria com uma bateria que era da primeira banda punk, e na
época não tinha nenhuma banda punk...68

Será que quase 10 anos depois, quando os meninos da Joãozinho e Maria69 contam sobre esse
acontecimento, havia ali uma perda de sentido? O sentido estava ali ainda, modificado apenas.

2.6 O sentimento de comunidade perdida

Como afirma Pelbart, o sonho de uma comunidade não foi perdido, porque a comunidade “é o
que nos acontece” (2003, p.33). Esse sonho é apenas um fantasma, pois a comunidade está dentro da
sociedade, ela mora ali, instalada, desapropriada, abandonada, retomada, territorializada, expurgada do
controle, então o sonho se torna o quê? Por que alguns punks com mais de 30 anos estão envolvidos
seja com a música, seja com o ideal punk? Não é só juventude ensandecida por aventuras que encarna
na pele, no corpo pronto a enfrentar as feras do mundo e suas próprias angústias internas que habitam
o espaço punk, mas, como coloca Luiz diante de minha pergunta sobre como é se encontrar nesse
universo e como é lidar com ele, que confusão seria essa de tocar em uma banda punk sem ser um
punk:

67
Retirado do Jornal Diário de Cuiabá.
68
Entrevista com Cláudio Dias, um dos criadores do Coletivo Libertário da década de 90.
69
Joãzinho e Maria é banda surgida em 1995, depois de uma das ‘mortes’ do punk em Cuiabá. Formada por Cláudio Dias, Cláudio Camacho, Dito e
Toshiro, do Coletivo Libertário.
48

Revidando o seu disparo, digo que é minha paixão por tocar (numa banda) que me impulsiona e que me
mobiliza a cometer tal imprudência. Sinto uma energia adolescente irromper quando toco punk, seja em shows ou
ensaios. Sou um músico que tem o maior tesão pelo que faz, com quem faz e pelo repertório que executa, mas
minha paixão por tocar não abraça a ideologia punk. Ao contrário, passa longe do movimento e seus jargões. Entre
os punks, me sinto um completo forasteiro. O que vou dizer talvez te surpreenda, e até mesmo te choque: tocando
para os punks, não apenas me mantive um não-punk, como desenvolvi também alguns sentimentos anti-punks. Dá
pra acreditar? Bem, por sentimentos anti-punks entenda desde preconceitos a críticas fundamentadas. Mas não se
trata de uma má vontade indiscriminada contra os punks. Não faço tábula rasa do movimento. Sou severamente
crítico às atitudes extremas e gratuitamente (auto e hetero) destrutivas que venho percebendo e presenciando ao
70
longo de toda essa convivência .

Essa negação seca, objetiva e direta que Luiz exaspera, é o sentimento de quem se sente
aprisionado, sentido inato da sociedade, pois a comunidade, o ideal, parte do princípio da liberdade, de
um sentimento adverso e violento em relação à insistência de uma fusão. É a esfera do real e do
possível humano chocando-se violentamente com o imaterial. Sociedade queixosa de uma perda da
comunidade que avança ainda mais seu distanciamento em relação a ela, ao impor regras, ao se tornar
reflexo daquilo que contesta, do que odeia e se torna espelho, um vício, uma repetição. Só a morte
pode salvar algo assim tão velho e arcaico que se enterra em moldes de comportamento.

Entre o aspecto inicial despojado de metas, a não ser tomar cerveja e pixar muros, e a
formalização dos encontros, entre a proposta quase inocente de se “deliberar contra o sistema”71 e se
perder o aspecto nômade e selvagem, enrijecendo-se em estatutos, é que se mata e se enterra sua
virilidade juvenil. Cláudio Dias expõe o conflito entre a intuição e a razão:

Justamente acho que essa coisa de punk tradicional, de fechar em um rótulo, tinha muito essa discussão... Na
verdade... Ah... A gente não é tubaína pra ter rótulo, mesmo o anarquismo foi uma coisa que demorou pra se dizer
anarquista, né? Entender que o anarquismo não é se fechar em uma proposta. Se eu me fecho em uma coisa, em
determinado momento seria se fechar... Eu sempre gostei de música brasileira, eu não queria ser cobrado... Esse
sectarismo... De comportamento, de roupa, né? O visual a gente não usava e usava, em determinado momento não
usar visual passou a ser uma atitude mais punk que usar visual, eu me lembro que no próprio congresso punk tinha
um cara da banda da Bahia que é o Bosta Rala, o cara se vestiu todo de social e foi pra lá ter uma conversa e isso
gerou uma... Que é justamente essa proposta do visual, gerou uma agressão, mais que se ele tivesse aparecido com
um visual mais punk possível, o visual dele era mais punk do que quem estava de moicano, porque aquilo lá gerou
uma inquietação, isso é a adequação do movimento contracultural. A gente que estava lá, que ia discutir, que tinha
mais afinidade, os caras estavam lá de moletom, de camiseta de banda, normal assim... Porque a gente não estava
num lugar frio, a gente estava num lugar quente, né? Tinha gente que usava moicano, tinha gente que não usava e
isso não era o importante da questão... Se dizer punk em um determinado momento não era... Gerar o debate era
mais importante do que entregar logo o rótulo, né? Construir sua identidade, sua individualidade, mas se for pegar
na prática a cultura que a gente praticava era uma cultura punk... Essa atitude irônica era punk pra gente... E talvez
não fosse mesmo porque o punk tem uma proposta estética diferente, a gente tinha mais atitude punk. Quando a
coisa não é moda, você acaba assumindo mais isso, quando é muito absorvido você fica até em crise.

É um jogo. Articulado de todas as possibilidades, de todos os ângulos e contornos do social, da

70
Luiz é de São Paulo, toca na banda Restos de Nada e Invasores de Cérebros.
71
Citação já utilizada de Rodivaldo ao afirmar que o punk acaba quando acabam as reuniões para se deliberar contra o sistema.
49

multidão, do desejo, das subjetividades operantes. Há que ser desertor porque essa comunidade
perdida é ilusão, ou o é enquanto alienada pelas amarras que impedem sua decolagem, deixando o
homem sempre pequeno, responsável por segurar as pontas da moral, da ordem e da lei, equilibrando
sobre sua cabeça pedras de costumes que não são os seus, chicoteando em suas costas desejos
importados de uma máquina produtiva, levando esse homem esvaziado à morte antes de morrer.

Onde está essa ponte que liga o homem a si mesmo? Como diz Pelbart (2003, p.36),
acompanhando o raciocínio de Blanchot, seria uma recusa de poder, e mais, uma indolência em
relação a ele, um corpo que se esvai quando pode ser apanhado, e se não pode ser preso, não pode ser
apreendido.

Não ser apanhado é se libertar de um sistema de relações e sentimentos, molecular. Não


conceber a crise e as paixões como possíveis estremecimentos do sistema, porque o terremoto não
pode ser barrado, a não ser sob os braços da máquina que quer tentar reger e impor um sistema
normativo padrão, de forma que este seja o dominante entre as outras possibilidades e subjetividades,
e seus discursos normativos se esvaiam com força no espaço - social, imagético, midiático -,
costurando os pequenos desabamentos causados pelo desafio da potência contrária a sua força; seu
poder de convencimento é hábil e está em “uma posição privilegiada dentro da gigantesca indústria de
normalização, de adaptação e de esquadrinhamento do socius na qual se apóiam as sociedades
capitalísticas” (Guattari, 1981, p. 59).

A comunidade pretendida, de possibilidade da liberdade, é a revolução molecular. Os pensadores


da contemporaneidade se afirmam e se afinam quando percebem na sociedade a existência das
comunidades sonhadas e não percebidas. Sua fala é encontrada nas letras de música, no visual, no
olhar, no desejo. Quando esses não foram cooptados e estão em estado puro de explosão.

Esse pequeno itinerário pode servir para descobrirmos comunidade lá onde não se via comunidade, e não
necessariamente reconhecer comunidade lá onde todos vêem comunidade, não por um gosto de ser esquisito, mas
por uma ética que contemple também a esquisitice e as linhas de fuga, novos desejos de comunidade emergentes,
novas formas de associar-se e dissociar-se que estão surgindo, nos contextos mais auspiciosos ou desesperadores
(Pelbart, 2005, p. 41).

Na corrente de ferro da linha dura, a adjacência surge na entrega dos sentidos, na volúpia. E na
força de uma natureza inoperante o seu sequestro. O animal, a rebeldia incontida também pode se
tornar refém das próprias armadilhas, não apenas as armadilhas de um Estado que se materializa em
50

suas máquinas determinantes de um modo de pensar único, dicotômico, que fixa o código
normatizante. Não é o Estado, mas o micro que se organiza através dos códigos, como a linguagem e
os saberes, o comportamento, a ação e os sentimentos.

“O direito à preguiça”72 é o grito do molecular, da vida ressurgente, o indeterminado chegando


lento e pungente como a tempestade. Anunciando-se numa linguagem que alguns podem ler. Infecção
no organismo, por ser reação à vida imposta a esse organismo. Bicho preso que se torna violento.

O perigo de cada linha. O perigo de microfascismos. Porque o perigo subsiste incansavelmente


em cada uma delas, como se habitasse calado na sombra de sua própria casa. A maravilha do vivo:
essa morte que se apresenta em seu alterego, um presente divino pronto para as instrumentações
necessárias dos homens, jogando-os ao léu de vontades. A dádiva da escolha. A casa da liberdade
divina. O antro do poder. Pois nem o Estado ou suas artimanhas desenvolvidas podem escapulir.
Ninguém sabe onde estamos e nem para onde iremos, o que resulta em florestas virgens, com toda a
doçura que elas possam ter.

O sentimento de Luiz, de se sentir um forasteiro entre os punks, é o Eu inconforme e


desconforme. Se entre punks se cria uma linha dura, se entre punks e a conformidade é linha volátil.
Ele ainda detona as perspectivas enrijecidas:

Pra mim, os punks não tem estofo ou potencial pra mudar coisa alguma, seja na sociedade, seja em suas
próprias vidas. Ao contrário, vejo-os como sintoma social, não como uma alternativa a essa sociedade que aí está.
Some-se a isso haver entre eles um estoque considerável de conservadorismo. Não aceito discurso libertário na boca
de gente tão conservadora. Você deve estar se perguntando: "o que estou fazendo entre eles, então?" Como eles,
estou dando de comer aos meus demônios. Talvez, seja uma tentativa de sobreviver a um inimigo comum; talvez,
suportar coletivamente o peso de um mal maior que se abateu sobre todos: um mundo que perdeu o sentido, uma
cultura pseudo-dionisíaca, sei lá... Há entre eles uma coisa tão 'plug and play', tão 'don't worry, be happy', tão em
sintonia com o narcisismo moderno... Mudar o quê? Quem? Às vezes, me sinto um etnógrafo desastrado no meio
deles, que confunde suas próprias expectativas com as contradições que identifica a todo momento.

O duro é caos que se cava embaixo de nossos pés, que não veem pra onde correr. As vidas que
passam como os minutos passam assim porque se dispersam em amor, em trabalho, em conquistas,
em solidões. Somos capturados e a vida é longa e curta como uma história sem final.

72
Música da banda Restos de Nada que diz “ Onde esta o meu direito? Que sucumbiu com o tempo? Arrancaram das páginas / falsificaram
minha história / Inventaram minha vida / e o meu direito à preguiça?// Eu sei que arrancaram das páginas escritas / nesse lugar colocaram uns
tais livros sagrados / para nos enganar e nos escravizar / Mas sei que somos capazes de construir a história / com o meu direito à preguiça.
51

Doce solidão coletiva. O agenciamento se formando mais uma vez no seio do ultrajante. Há um
labirinto a nos efetivar e nos liberar, pois se nascemos em linha de fuga, como diz Deleuze, somos
movidos de alguma forma a nos estabelecer e depois a vomitarmos o estabelecido. E que armas
teríamos a nos dispor contra nós mesmo, doces bárbaros?

Se não somos iguais, somos portados de uma mesma esfera do individual, de transgressões e
desejos de poder? Há no ar a perda de uma infância. Essa lucidez é intragável, pois nos é inoperante –
e dela surge o total, o invólucro do poder absoluto. Como dizem Deleuze e Parnet, o Estado (tanto
quanto as máquinas de guerra), também é experimentador tentando impor sua subjetividade:

A questão de uma revolução nunca foi espontaneidade utópica ou organização de Estado. Quando se recusa o
modelo do aparelho do Estado, do aparelho de Estado, ou da organização de partido que se modela sobre a
conquista desse aparelho, não se cai, por isso, na alternativa grotesca: ou apelar para um estado de natureza, para
uma dinâmica espontânea ou então tornar-se pensador, por assim dizer, lúcido de uma revolução impossível, da qual
se tira tanto prazer no fato de ela ser impossível. A questão sempre foi organizacional, de modo algum ideológica; é
possível uma organização que se modela sobre o aparelho de Estado, mesmo para prefigurar o Estado por vir?
Então, uma máquina de guerra, com suas linhas de fuga? Opor a máquina de guerra ao aparelho de Estado: em
qualquer agenciamento, mesmo musical, literário, seria preciso avaliar o grau da vizinhança com determinado pólo.
Mas como uma máquina de guerra, em qualquer domínio, se tornaria moderna, e como ela conjugaria seus próprios
perigos fascistas, frente aos perigos totalitários do Estado? De certa maneira, é bem simples, se faz sozinho, e todos
os dias. O erro seria dizer: há um Estado globalizante, mestre de seus planos e que arma suas armadilhas; e então,
uma força de resistência que ou vai adotar a forma do Estado, admitindo a possibilidade de nos trair, ou então vai
cair em lutas locais parciais ou espontâneas, admitindo a possibilidade de serem a cada vez, abafadas e derrotadas.
O Estado mais centralizado não é de modo algum mestre de seus planos; também ele é experimentador, faz
injeções, não consegue prever o que quer que seja. (Deleuze, Parnet, 1998, p. 118).
52

CAPÍTULO III – CAOS E CORAÇÃO

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés.


Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne.
De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina.
Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos
e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa - respondi - Ele veio e atacou-me.
Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes!
Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor - Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? - disse eu - Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente - disse o senhor – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. - respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem - disse o senhor - Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente.
Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois,
empinando-se para tomar impulso,
como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser.
Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente
nos abismos infinitos do meu sangue.

O Abutre – Franz Kafka.

“A gente não tem medo de perder, porque a gente não tem nada” 73 diz Shebba.

A liberdade, a imagem, os vínculos sociais e familiares, o anonimato do espaço público, a


esperança – em que ponto ou até que ponto o homem é capaz de perder para ser livre?

Neste capítulo, procuro desvelar conceitos sobre a liberdade e o efeito de uma civilização
situada na modernidade, supraidentificada com intensidades e apatias. Sendo o novo povoado pelo
selecionado como ideal, mórfico, o costume ao extremo formando atos mecanicamente repetidos, que
se pretendem constantes pelo poder, até se perder de vista a evolução que não se designa ao saber
oficial e utilitarista em paralelo com a existência do punk na cidade, a relação de seu inconformismo à
apatia, seu ímpeto em causar desconforto, e na percepção de que sua forma política está habitada no
comportamento, na ação do dia a dia.

O fato é que edificamos a razão nos pilares de nossa sociedade moderna; que a liberdade, a
segurança e a ordem presidiram os campos vivenciais; e que a resposta na contemporaneidade foi a
exaltação da liberdade individual, outrora responsabilizada como inimiga do bem-comum, numa

73
Frase de autoria de Shebba, punk dos anos 80 em Cuiabá.
53

proporção devastadora e ávida por prazer, após se livrar da repressão imposta. Na seguinte citação,
retirada do artigo escrito por Miguel Bezerra, “A cultura no corpo do Teatro da Crueldade”74, pode-se
perceber uma rejeição à rigidez moderna e uma limitação às suas prioridades racionais:

Há aí uma recusa do Eu metafísico, desse Eu que pode ser inspecionado e classificado com bases racionais,
desse Eu fechado sobre si próprio, auto-referendado, uno e indissoluto, desse Eu que deu origem à idéia de sujeito,
desse Eu coroado e banhado em luzes por um intelecto desencarnado, dessa identidade formada a partir de
oposições binárias de classificação, dessa configuração racional de uma identidade sedentária, estável e passível de
ser sistematizada, enfim de um Eu formado por uma razão sem sangue e sem carne. Mas é na sombra desse Eu, na
penumbra dessa pretensiosa luz que a vida explode, e explode em tonalidades e intensidades jamais previstas; em
compulsões e epilepsias que fariam trincar as lentes e as réguas de qualquer matemático; diríamos até que com
possibilidades reais de alçar o impossível em bárbaras danças que o império recusou-se a ver. (Bezerra, 2008, p.03).

Ganhamos em quê? Liberdade de expressão, possibilidades de ascensão social, liberdade


religiosa e sexual, coaguladas pelo simulacro da realidade, pela politicagem do mercado, dos
movimentos sociais e dos representantes políticos, numa troca sanguínea em que o poder é a essência
da vida-morte.

Ao abandonar a técnica valorizada no período anterior, a liberdade distribui alternativas para os


cidadãos utilizarem o repertório produzido, canalizando o desejo lentamente, como um vampiro que se
fortifica com o sangue de sua vida. O individualismo é o que coloco não em contraposição à liberdade,
mas como uma acoplagem, fator existente, portanto, real, nos espaços público, privado, universal e
urbano. Com esses dois conceitos, do molar e do molecular, do novo renascendo na repetição
comportamental no âmbito social, como manter amarradas essas esferas na contemporaneidade - do
novo brotando no ventre do arcaico e da força molar desse arcaico reproduzindo-se na subjetividade
do novo que se inventa - ou que aspectos do interesse individual se resguardam e não se curvam ao
coletivo e como o coletivo preenche cinestesicamente o indivíduo – o seu inconsciente maquínico, os
devires? / e o que seria / ou será – da vontade coletiva se se predispusesse ao desejo individual?

A multidão é a potência dos corpos, o fremir dos desejos, as moléculas agitadas – quando
compostas pela resistência, são tomadas pela potência e em determinado momento arrebentam os laços
em uma insurreição, cortam as amarras. Não uma unidade, mas um conjunto de unidades que,
isoladas, são plenas de multidão, porque cada corpo o é em sua particularidade. Não pode ser passível
de representação, pois é o ser, a carne que responde. A multidão é o que é e se faz continuamente em
sua práxis. Ela absorve em seu corpo as subjetividades dos corpos que a formam, e sua singularidade
se torna estatística de venda, estratégia de marketing através das medições do perfil do consumidor, do
cidadão, do cliente, do eleitor. Assim se pretende as maquinarias do Estado em colheita de

74
O artigo foi apresentado no GELCO, encontro nacional do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste, em novembro de 2008.
54

subjetividades, matéria-prima da produção dos desejos, criadora do globo, da hiper-realidade, do


simulacro.

O ciclo da demanda e produção de mercadoria está no âmbito da vida, de sua potência criadora.
Mas não há um movimento circular, a não ser aparentemente, porque a vida não pode ser controlada,
não a sua potência intelectual, criativa, não a linguagem e o cotidiano. As explosões estão no êxodo,
na saída, em alguma porta, sempre há uma porta, um ponto da infinita mata virgem do cérebro que não
pode ser comandado. A vontade coletiva é essa vontade da multidão simultaneamente à vontade do
uno que são todos. Dessa maneira, o desejo individual é operante na multidão, forma atômica do
corpo, e é recriado por conexões coletivas provindas desse mesmo corpo isolado e pleno da multidão,
porque cada corpo-multidão o é em sua particularidade.

Inicio essa discussão traçando o que é e como se configura a nova economia, apoiando-me em
pensadores como Franco Berardi, Pelbart, Bataille e Guattari para endossá-los às condições do desejo,
do impetuoso corpo que não se adere, da vitalidade que não se normatiza, em conjunto com as
proposições de autores como Clastres, Deleuze, Hakim Bey e Gabriel Tarde e das entrevistas cedidas
pelos punks e anarquistas de Cuiabá sobre temas e conceitos como Liberdade, Sistema, Realidade,
Mecanismos de Controle e Fuga. Como os túneis acadêmicos se encontrarão à vivência do punk, no
seu agir, na sua indeterminação causada pelas correntezas que o levam: o puramente utópico à
condição real da vivência, o pensamento extinguindo o corpo e materializando novamente no possível,
afinal, como ser punk o tempo todo, como existir em eterna linha de fuga.

Esse encaminhamento vem sugerir uma simetria de pensamentos tanto de uma visão acadêmica,
conceituada por filósofos e antropólogos contemporâneos escolhidos para esse entendimento, como
também de uma percepção de membros da sociedade, denominados por Franco Berardi como “mentes
sub-globais” de um “sistema vivo” (Bifo, 2005, p. 79). Para isso, começo referindo-me ao conceito de
sistema vivo definido por ele:

É dotado da capacidade de evoluir com base nas instruções que ele possui dentro de si, as instruções que
foram inseridas nele pelo próprio processo de evolução. Um sistema vivo, um organismo, é capaz de auto-
regularização, de autocorreção, e um organismo é um sistema no qual as interconexões entre os elementos que
concorrem para constituí-lo são por demais numerosas e por demais complexas para que se possa pensar em
submetê-las a um governo racional de tipo mecânico ou voluntarista (Berardi, 2005, p. 79).

Como é revisto por muitos autores, permito-me recorrer à explicação sobre mente global e
mentes sub-globais para figurar sua compreensão sobre o que vem a ser a nova economia: uma
complexa rede de sistemas informativos e comunicacionais interligados em fluxos aos cérebros
55

humanos. Nessa rede infindável não é possível que as partes compreendam o todo, assim como os
pensamentos particulares ficam imperceptíveis aos mesmos que compõem a rede.

O resultado é uma combinação que não limita o comportamento ou suas ações subsequentes,
pois isso não é apenas um somatório, é muito mais, é um jogo de combinatórias espontâneas das
atividades das mentes componentes.

Quando se fala dos punks, visualiza-se uma teia comunicacional que se libera em tempos
múltiplos: em funcionamento social, através de uma iconografia mítica e relativamente fechada, com
revisões que passam por uma iniciação de seus códigos ou não, quando é proposto ao gosto dos fluxos
de passagem ou (re)territorialização. Há, ainda, o vaivém do pensamento e suas extrapolações, como o
pensamento que nunca foi pensado, o inatingível e impossível de ser codificado por esses corpos
tomados pela ambigüidade e indeterminação, pois a espontaneidade não pode ser esquadrinhada, e seu
comportamento sendo espontâneo, não pode ser simétrico.

Essa assimetria se escancara na sociedade moderna. Opondo-se, surge a força contrária do poder
hegemônico tentando manter o domínio: a conquista do espaço extraterrestre foi substituída pela
conquista do espaço interno, da alma e do pensamento, a mente humana é a evolução no caminho do
capitalismo. De outro viés, a informação orienta a sociedade provinda da nova economia, se
destituindo cada vez mais do significado – quanto mais informação, tanto menos significado, para que
se possa acelerar sua fluidez.

Pelbart se inspira em Bataille para compreender essa realidade do mundo em que vivemos e que
se baseia no campo

... da utilidade, do acúmulo, do encadeamento da duração, da operação subordinada, das obras úteis, em
contraposição a essa dose de acaso, de arbitrário, de esplendor inútil, fasto ou nefasto que já não aparece em formas
rituais consagradas exteriormente, como em outros tempos, mas em momentos e estados difusos e subjetivos, de
não servilidade, de gratuidade milagrosa, de dispêndio ou apenas dissipação (Pelbart, 2003, 35).

É com o princípio da utilidade que Bataille abre seu livro “Noção de despesa”. Para Bataille, o
útil é falseado nas interlocuções e opiniões representadas, pois nas atuais circunstâncias é impossível
descrevê-lo, porque o prazer intenso daí retirado e classificado como patológico.

O prazer, quer se trate de arte, de desregramento admitido ou de jogo, é definitivamente reduzido, nas
75
representações intelectuais que estão em curso , a uma concessão, ou seja, a um descanso cujo papel seria
subsidiário. A parte mais apreciável da vida é dada como condição – às vezes inclusive como a condição lamentável

75
Grifo do autor.
56

– da atividade social produtiva (Bataille, 1967, p. 28).

E assim se forma o abismo entre o almejado e o rotineiro, onde o desejo entra no limiar do
sacrifício e do sempre procurado, deixando espaço para o desenvolvimento de inúmeros fatores
socioeconômicos; e sob essas condições o desejo e o prazer podem ficar relegados aos costumes,
amedrontamentos e ilusões. Sob essa ótica, o mundo como reflexo da mente se firma numa indústria
com intuito de normalizá-la, para pacificá-la, apoiada na crendice de que o espírito da evolução
necessita da ordem e do progresso, do utilitarismo, e teria como consequência um grau elevado de
bem-estar e de felicidade.

Justamente essa felicidade é recusada entre os punks, a felicidade do consumo, a felicidade que
está sempre à frente, e nos classifica numa categoria sub-liminar, em uma roda de hamster: o caminho
em círculos que não chega a lugar algum, porque o que se persegue não está ligado a uma essência do
desejo e da vontade própria, e sim a uma padronização de desejos. O desejo é a vontade, é o devir da
vida, o que está dissociado do aparelhamento global, da imagem ou do status. Desligado dos códigos
de identificação de determinado grupo que se presta a uma diferenciação entre outros.

Se por um lado a felicidade surge na obrigatoriedade e na aquisição do código estabelecido que


determinada o pertencimento, apenas tendo que se guiar por algumas regras, por outro, há que se
lembrar que as regras se perpetuam em nós, de forma independente, por processo de imitação, gerando
grupos sociais, em que se percebem as diferenças sociais.

A liberdade em uma sociedade que discrimina possui cidadãos livres? Essa sociedade que
controla as vias públicas com câmeras, que ao buscar eliminar o crime acaba por tornar o
desconhecido suspeito, que classifica seus indivíduos em grupos como forma de controle, que acredita
em um ordenamento que possa servir a todos: segurança e harmonia têm uma liberdade vigiada.

O princípio da perda é a atividade dos seres humanos que não se coliga a uma utilidade
coletiva. Note-se o consumo dividido em duas partes: a primeira, quando se utiliza o mínimo
necessário para a permanência da vida e a sua capacidade de gerar produção; a segunda se estabelece
nas despesas improdutivas, ou seja, nas atividades cuja finalidade assenta em si mesmas, e resultam
despreocupadas, como “... o luxo, os enterros, as guerras, os cultos, as construções de monumentos
suntuários, os jogos, os espetáculos, as artes, a atividade sexual perversa (isto é, desviada de sua
finalidade genital)” (Bataille, 1967, p. 30). Quando penso nos punks nesse contexto de despesa,
57

lembro-me da música que não pode agradar a todos os ouvidos, das roupas que são costuradas e
retalhadas, dos shows em que a galera poga e que para muitas pessoas pode parecer violenta; mas
lembro-me também desse abandono de participação na sociedade, um devir destruindo e construindo
uma nova identidade.

Nem é preciso citar elementos pesquisados por Bataille para explicar o sentido de miséria ou
miserável que deduzo na comparação - é o miserável que nega, que não aceita. Daquele que não se
prende aos sentidos ou ao desejável estabelecido. O “não, obrigado”76 de quem se julga não ter nada e
nem nada quer dentre o que está sendo oferecido, o “nós não temos nada, mas não temos nada a
perder” de Shebba. Posição que se refere não a um papel de vítima, mas de força potencial.

Esse não querer nada, dito por Shebba, é pleno no sentido utilizado por Bataille e parece revogar
o fato de que soberano é aquele que não tem utilidade e dispõe de seu tempo abusando dos recursos do
mundo ou desapossando os outros - ele é como um rei, dado ao desperdício de recursos e como um
senhor do próprio tempo, vive o instante e não se preocupa com nada mais, a não ser o prazer, o devir-
prazer viril da natureza.

O prazer da soberania vem do profundo desejo do homem. Aquele desejo que foi transformado
- necessidades em série, cabíveis na publicidade, por exemplo -, e que deu margem ao capitalismo
para que a subordinação e a castração fossem não só aceitáveis, mas necessárias. A despeito da crença
no positivismo, na civilização ordenada para determinados fins, no culto ao lucro, a relação humana
entrou em um processo de defasagem afetiva. Em vez de prazer e segurança, encontrou-se um prazer
embalado, com margens reguladas e uma paranoia em relação ao outro.

Há uma deserotização da vida, e o trabalho foi parte dos meandros para atingir o estágio de
depuração, de remoção. O trabalho na sua primariedade industrial, substancialmente mecânico,
tedioso, dentro de uma estrutura hierárquica, em que o homem e a mulher realizam movimentos
repetitivos que nada exigiam de sua capacidade intelectual. A digitalização, em contraposição,
modifica a relação de sua execução e o desejo é tão alterado quanto a lógica do trabalho. Se antes o
desejo estava longe da idéia de trabalho e, conseqüentemente, do capital, na nova esfera econômica o
desejo está na autorrealização do trabalho e fora desse campo não há desejo, nem impulso vital.
Extremo mais perceptível na sociedade. Deleuze, no entanto, fala do contágio e da invenção como
possibilidade de erupção dos desejos.

76
Título do disco da banda Lixomania da década de 80, de São Paulo.
58

Temos diferentes discussões, aqui propostas por inúmeros estudos. A mutilação do desejo; a
liberdade refrigerada e embalada dos anúncios publicitários somados à controvérsia e questionamento
do que vem, realmente, a ser a liberdade; a despersonalização e as resistências individuais e coletivas
são características do mesmo ser que criamos, do sistema vivo agora chamado de hiper-capitalismo,
que tem a capacidade de se desdobrar, de absorver, deglutir, mastigar, de se camuflar. A sua força tem
poder para criar novas necessidades e faz dos aspectos afetivos e sensíveis uma possibilidade de
produtos para o mercado. Um labirinto onde está em jogo a vida no sentido pleno e que abre caminho
aos espetáculos e simulacros.

O indivíduo, onde se encontra? É fonte, é o âmago do capitalismo? Ou é dele que surgem as


comunidades e as tribos da cidade? Há resistência ou – em que limite - o capitalismo pode ser
enfraquecido em seu domínio sobre as subjetividades?

O saber local ressurge em relação ao afogamento que os dados, as medições, as regras


propiciaram, são mecanismos de controle a serviço de uma ordem e uma normatização para uma
pretensa padronização - leia-se refreamento das subjetividades, impostação frenética, porém
articulada, dos desejos – do prazer, da alegria. A equidade, o reconhecimento dos direitos e,
importante dizer, do reconhecimento social, é influenciada em todo momento, pelos instrumentos de
comunicação, pelo contato direto - inclusive o pesquisador. O intelectual tem a possibilidade de se
infiltrar nesses aparelhos e coincidir sua pesquisa social em âmbito que ultrapassa os muros
acadêmicos e dá ponto de início para a discussão do próprio meio social pesquisado.

O interlocutor poderá unir, de forma desvinculada do forte discurso dos grupos legitimados, os anseios de
parte da população que não encontra nos meios de comunicação a abertura necessária para se expor. O pesquisador
pode se ater pela busca de dignidade igual, colocando a possibilidade de grupos e etnias terem seus códigos de
linguagem expostos a população geral, o que, certamente, irá gerar a troca entre grupos, sendo agora constituída
uma verdadeira pluralidade cultural, baseada na possibilidade da exposição de diferentes modos de interagir com a
realidade. Lembrando sempre que os grupos sociais são reflexos de uma sociedade em conflito e que procuram uma
transformação em sua lógica e em seus processos. (Ana Paula de Sant’Ana, 2007, p. 8).

O desvio é risco, porque atinge um ponto que se deixará como que ao sabor do vento, dos
desejos internos. Escapará ao comportamento esperado e estabelecido, não só da máquina maior, da
economia engendrada, do capitalismo, mas aos olhares dos iguais, do vizinho, do outro. Guattari retira
a dureza da compreensão estruturalista ao compreender que o sistema não se funda e termina em uma
horizontalidade imperturbável e dogmática, mas transcende o sistema operacional pelas subjetividades
e singularidades que, se adormecidas, podem ser despertas. Rearticulando-se em microestados
sistêmicos, invisíveis ao poder até o momento preciso para restaurarem uma “revolução molecular”,
59

formam os agenciamentos, constituídos por sujeitos que existem em todos os lugares, mesmo que
apenas potencialmente capazes de desestruturar os “estados de equilíbrio, as ‘chaves’ sistêmicas”
(Guattari, 1981, p. 43).

As chaves têm o poder de abrir a subjetividade em alcance múltiplo, fora de seu espaço de
origem, e por isso mesmo tornam o sistema indeterminado – há um jogo de disputa de poder e
resistência. É por isso que a subjetivação, a contragosto da força capitalista, não pode ser trancada,
ainda que possa ser subtraída, assimilada, associada, ignorada. Portanto, aparece uma espécie de
oposição ao predomínio das linguagens padronizadas estabelecidas, e segrega a vida e o sentimento
humano ao reduzi-lo à mercadoria, uma centelha não-contaminada pela ordem da tradição e dos
costumes, pela felicidade somatizada pelo ter, pela obrigatoriedade de ser vencedor, de ser
conquistador. A mercantilização dos desejos e os devires irão se debater em certo momento.

A revolução molecular é infinitesimal. Feito átomo. Porque ela se libera da linguagem e está
mais para a abundância de significados semióticos. Essa captação dos sentidos é única, singular, não
se prendendo às estruturas nem em relação ao exterior, nem na inter-relação que é estabelecida entre
os indivíduos, ainda que seja essencial que nela se encontre de tudo; só sob essa condição se poderá
dar conta de seu caráter heteróclito e de sua sujeição à sociedade de consumo. Alguma ação
procedente do inconsciente pode ser tanto do passado, mas pode ser também desapegada e exaltada no
presente. Sua formulação do conteúdo não é só independente da temporalidade, como o é também do
espaço. Sendo assim, cada localidade possibilita novos conteúdos de discernimento individual ou
coletivo.

Não sendo mais mantida em uma identidade fixa, posso ser eu e posso ser o outro. Cada um é
habitado por esse inconsciente maquínico que nos perpassa de intensidades constituídas e, na visão de
Guattari, resulta ser “um nó de interações maquínicas através da qual somos articulados a todos os
sistemas de potência e a todas as formações de poder que nos cercam” (1977, p. 170-171)

É o inconsciente maquínico que irá armar contra a funcionalidade do poder em que a economia
se sobrepuja nessa conquista do desejo, pelas forças produtivas. Em oposição ao enrijecimento de
valores, ao controle de desejos, o capitalismo é ser mutante em suas formas. Ainda que seja alvo de
repúdio, ele se transfigura e se adapta às novas posturas que apontam. Enorme, seus tentáculos
alcançam meandros submersos, obscuros, a mente humana e suas funções vitais. Transluz em suas
cores o resplendor da imagem do eu, do outro, do desconhecido. Se desterritorializa, integrando o
mundo; mas chega desrespeitando os modos antigos de vida. Ardiloso e vivaz. A desterritorialização
60

reduz o conhecimento a uma aproximação do trabalhador com o conhecimento aplicável e lógico;


ultrapassada a fase da classe social, divide-os agora em grupos, e também coordena os modos da
melhor maneira fazendo transparecer que há aí um reconhecimento do diferente, uma democracia que
assegura direito ao incomum, aceita a todos, hospeda qualquer um. Assim mesmo, consulta a todo
tempo, pergunta sempre o que é o melhor para todos quando já sabe, já programou o que devem
responder. Está fortalecido, pois não se pode mirá-lo.

É justamente esse o campo de guerra combatido pelo punk, e que na atualidade se reconfigura
juntamente com as modificações do sistema, não se liberando, inclusive, da apatia que asfixia, da
comercialização de seu modo de vida, do sensacionalismo na mídia, da perda de sentido, e tentando
resistir à massificação desde a década de 80 nas letras das músicas, na velocidade musical que não se
adéqua aos gostos comerciais, e principalmente, na tentativa de formular outro tipo de sociedade que
não esta que se apresenta, mesmo que isso signifique lidar com contradições.

Quanto ao trabalho, parece ouvir as vozes clamantes por liberdade e horas livres. Afinal, é do
seu interesse e as vontades sindicais se igualam à diminuição do tempo de trabalho, desde que seu
tempo de lazer lhes traga possibilidades de desenvolvimento produtivo. Contanto que se respire nos
espaços que não os econômicos – os espaços sociais -, atividades não imediatamente produtivas, mas
capazes de manter e desenvolver suas competências, economicamente recuperáveis. O ambiente exige
que ele seja assim. Passada a fase de expansão geográfica, ganha terreno no corpo e na alma humana.
Ele se questiona e se põe à prova.

Os ataques sofridos são chamados de crise, mas são reconfigurações para seu livre
funcionamento. Não é protecionista de grupo algum, protege, isso sim, os modos de produção e do
controle social, apoiado sempre na livre escolha. Os grandes custos com o controle foram trocados
pela autovigilância e pela observação crítica do outro.

Assim se armou estrategicamente a fortaleza do capitalismo. Guattari pergunta: “Até onde pode
ir essa revolução molecular?” (1981, p. 76). Que forças haveriam de desestruturá-lo se ele tudo
assume, incorpora? Movimentos sindicais ou o gueto tem a pedra derradeira? Ou: o que deve compor
o grupo de ataque para desestabilizá-lo?

São perguntas assim, que talvez soem de forma até inocente, mas são verdadeiramente
oportunas, pois se há, e isso sim existe, uma inconformidade, um repúdio às formas que foram
impostas para se viver – afinal essa é a melhor qualidade de vida que esperávamos?
61

A forma de produção do capitalismo colide com a vida plena, os desejos íntegros dos grupos
sociais. Pois todo o campo do devir dos grupos não se adapta, e em certo momento vêm a explodir
com todas as normatizações, e se não destrói o muro vem a machucá-lo, cria constrangimento mesmo
que se tornem fatos nos meios de comunicação.

Para essas questões, Guattari propõe que os agenciamentos potencialmente revolucionários


venham se articular a partir do seu grupo de interesse. O desejo é o combustível da luta dos grupos, a
intensidade dos ideais. Um problema identificado por ele é a relação dos porta-vozes dos grupos.
Parece-me que a rigidez do papel fixo absorvido por eles causa uma retração no poder revolucionário
que deveriam ter. É uma temeridade que o teor necessário para a revolução molecular esfrie.
Novamente observo que é o comportamento pessoal, do próprio indivíduo, a essência da combustão de
luta. Pois, afinal, se se repetem velhos modelos de comportamento, nada mais pode acontecer a não ser
resultados obsoletos e ineficazes. Uma repetição tediosa do medo da libertação dos desejos, um
desrespeito às singularidades. Ou seja, os grupos com potencial revolucionário se perderiam em
questões burocráticas, hierárquicas, absolutas como o são os equipamentos de poder. A conseqüência é
um trabalho que fortalece a chamada revolução molar, a ordem do sistema, ao alimentá-la a agir de
forma mecânica.

Da mesma maneira, Bey descreve a condição para essa revolução molecular ou sabotagem:

(...) uma postura realista exige não apenas que desistamos de esperar pela “Revolução”, mas também que
desistamos de desejá-la. “Levantes”, sim – sempre que possível, até mesmo com o risco de violência. Os espasmos
do Estado Simulado serão “espetaculares”, mas na maioria dos casos a tática mais radical será a recusa de participar
da violência espetacular, retirar-se da área de simulação, desaparecer. (Bey, 2004, p. 18).

As questões estratégicas deveriam ser pensadas de forma própria – local, microssocial, nos
sentidos de agir a comunicação, a decisão e a organização. É o que o autor define como agir de forma
programática, mas não diagramática, isto é, se orientar pela forma singular do desejo e de uma
realidade própria. A chama é a política do desejo, altamente transformadora, e nada tem a ver com os
espetáculos midiáticos.

Um princípio, portanto, é a própria movimentação vital e altamente questionadora das formas


impostas. Cito aqui parte da entrevista com Esqueleto, que não tem o conteúdo revolucionário
enquadrado como político, em que partir para briga significa, a seu ver, ir contra as formas de
comportamento:

Não é preciso planejar. Uma manifestação que não agredisse frontalmente através da violência, mas que
agredisse os princípios morais mesmo, tipo uma suruba na Avenida Paulista, pára na Avenida Paulista e vai todo
62

mundo trepar na Avenida Paulista, saca? É claro que isso não é uma manifestação de ímpeto político, mas é uma
afronta às estruturas morais que dão suporte ao sistema político também, né? E não só isso, uma série de outras
situações que podem ser criadas pra afrontar os valores que sustentam isso, né? Porque não adianta a gente fazer
igual os vermelhinhos fizeram, esbanjar o Estado, acabar com o exército, e fazer a mesma bosta de novo. O que está
de fundo nessa história é justamente o que precisa ser mudado, é uma postura perante o mundo, é uma postura de
valor, de prática de liberdade. E o sexo... Eu falei do sexo por causa disso, o sexo é uma das forças mais potentes do
ser humano, das forças que mais impulsionam o ser humano, a gente tem que bater nesse ponto. É uma questão
central por estar dentro do processo de uma maneira vital. Mas não só isso. Mas eu acho que se ao invés de
77
pregações políticas, se fizesse orgias em praças públicas teria um impacto revolucionário maior .

De acordo com Hakim Bey, autor que utiliza esse codinome e tem identidade secreta - ato
coerente com sua teoria do Caos e do Terrorismo Poético - o imediatismo, a invisibilidade são ações
que ele sugere aos agentes do caos, aos terroristas poéticos como a revolução da própria pele, um
brado em prol da insurreição ao descartar a idéia de revolução. O tema sexo foi discutido de maneira
fundamental por Reich, e Bey o defende quando diz “repressão sexual aumenta a obsessão pela morte”
(Bey, 2003, p.28).

A atividade primordial da ação dos sabotadores do sistema é, para Bey, desestruturar os poderes
de maneira audaz em relação aos velhos modos de se constituir uma luta política revolucionária,
também criticada por Guattari.

Os clichês comportamentais são fortalecidos quando os reproduzimos na família, na educação,


nos espaços públicos e quando depositamos credibilidade ao consumi-los pelos meios de
comunicação, do espetáculo e dos outros produtos mercantilizados, tanto os materiais quanto os
imateriais, como o status, a felicidade, a paz e a segurança.

Bey diz que a arte é crime, mas o artista não deve ser pego. Essa é a diferença, para o autor,
entre o ato do delinquente e o ato dos sabotadores: o terrorista poético arma prazerosamente a rebelião,
o acontecimento tem teor festivo de evocação à alegria, contrariamente à rigidez e ao monopólio das
instituições ou dos grupos. Inclusive a idéia de revolução, de transição de uma forma de poder para
outra qualquer, não é libertária, porque se prende à tentativa de permanência, enquanto o ideal é a
insurreição, essa sim fluida e espontânea.

As normas para o ataque poético se desvinculam de deveres, sendo uma exaltação ao prazer. Não
há um sentido de obrigatoriedade no encontro entre os participantes, mas a comunhão que lhes permite
o conhecimento do outro. Já nas ações propriamente ditas, estas se realizam pelas duas faces da
moeda: pela junção de Deus e do demônio, no poder de destruição para a criação do deus hindu Shiva.

77
Punk de São Paulo que reside em Cuiabá, já participou do movimento anarquista, e hoje diz que busca apenas participar de movimentos
interiores, próprios, que lhe cause pulsações e que lhe permita um auto-conhecimento ou mesmo um espanto de si.
63

O poder da criação e da destruição é necessário para a mobilidade, para que não se petrifique a
conquista do novo, porque este, afinal, só se conserva fresco se for destruído. A transformação da vida
cotidiana surge na essência de cada indivíduo, de acordo com o desejo íntimo e se coletiviza quando
atinge o deleite e a satisfação mútua. “O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as
bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino
adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito
comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão” (Bey, 2003, p. 05).

A sabotagem é a perda da referência do eu - deve ser espontânea, e sua energia, movimento. Não
há aplauso, pois a arte-sabotagem se dispersa nas avenidas e entre as pessoas, dissimulando o artista
como um passante qualquer. Sua ação é desavisada e desprevenida. A poesia se inflama de vida e a
arte convencional e trancafiada corre risco com a sabotagem. Não é crime contra a arte, mas
provocação inflamada e inflamável. O terrorismo é performático, deixa seu recado como uma
metáfora. É delirante. Não à violência que é parte da ação midiática, e sim ao atropelamento dos
valores com palavrórios vomitados. Presenteiam-se as vítimas com a vida cotidiana contrária ao sonho
espetacular que a mídia propaga.

Em Cuiabá, o terrorismo poético aconteceu principalmente na década de 90, como conta Cláudio
Dias, do Coletivo Libertário:

A gente fazia tipo uma performance, tipo colocar um militar encoleirado por um burguês, né... Essa coisa...
Cão de guarda da burguesia, né? E aí a gente fez um panfleto, acho que até o Jomar que fez a arte, que era charge,
que era uma coisa mais de humor, a gente mexia com essa questão do lúdico, a gente aparecia tocando também,
parodiando uma fanfarra. Eram umas vinte, trinta pessoas, a gente pegava a rasteira do desfile, né? Entrava na
avenida, em 94 nós entramos.. No final sofremos uma repressão... Os caras foram lá, mas não tinha o que fazer,
pegaram a coleira nossa... Eram ações de panfletagem propagandística que a gente fazia. 13 de maio a gente fazia,
na época do próprio MUC, transição MUC – Coletivo, né? Rodolfo fazia charge, a gente ia fazer panfletagem, falar
sobre a escravidão, que a escravidão continuava até hoje, fazer uma denúncia assim... A gente fazia ali naquela roda
da Praça da Republica, época de Natal, a gente fazia na época do Coletivo, contra o consumismo... Mas tradicional
era o 7 de setembro. Durante uns três ou quatro anos nós fizemos todo ano. Era sempre falar que a independência
era uma farsa, que a independência foi comprada, que não éramos independentes de fato, e a questão do
militarismo, né? E as bandeiras do movimento punk: armas não matam a fome, esses slogans assim... E fazíamos a
pixação antes, amanhecia 7 de setembro e a cidade já estava no centro com algumas pixações, a galera que fosse
subindo já ia vendo as pixações78

De acordo com Hakim Bey, os inimigos a serem derrotados nada mais são que aqueles que
vendem a imagem da ordem, apropriando-se inclusive das manifestações desordeiras da sabotagem
para aliá-las ao discurso das normas. Os artistas que proliferam a miséria ou mesmo aqueles que

78
Claudio Dias, do Coletivo Cultural Libertário.
64

querem se integrar ao Caos são alvo de crítica.

Há que se tornar máquina de guerra para desfrutar a sociedade. Porque só a máquina de guerra é
invisível e não se reitera aos princípios dogmáticos. O primeiro passo é percebê-la, diferenciar os atos
e atacar. O ataque é moral, contra a sua parafernália e a defesa é ser invisível. Ao descrever a Zona
Autônoma Temporária, Bey pergunta como o mundo acaba se endireitando e defende insurreição em
relação à Revolução. O levante, a insurreição como algo interminável é oposição à formação de um
outro Estado mais forte que o anterior, vencido, e foge do ciclo eterno da Revolução, da tomada de
poder por grupos diferentes que se alternam e permanecem dentro dos mesmos vícios.

Bey descreve a Zona Autônoma Temporária ou TAZ não como um fim em si, mas a
possibilidade de fundar outras táticas e procedimentos:

Nós a recomendamos porque ela pode fornecer a qualidade do enlevamento associado ao levante sem
necessariamente levar à violência ou ao martírio. A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado
diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para
se refazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la. Uma vez que o Estado se preocupa
primordialmente com a Simulação, e não com a substância, a TAZ pode, em relativa paz e por um bom tempo,
“ocupar” clandestinamente essas áreas e realizar seus propósitos festivos (Bey, 2004, p. 19).

Vejo como exemplo da possibilidade de ocorrência da TAZ o invadido 79 dos punks na década
de 1980, quando tomaram o prédio de órgãos do Estado, e também o Coletivo Cultural, funcionando
como espaço para discussões teóricas e práticas contra a ordem estatal, inclusive zombando da data da
Independência do Brasil e do Exército. Do mesmo modo, o grupo organizado de pichação Geléia do
Asfalto, dos anos 90, que escrevia em frente a locais estratégicos frases de poetas e escritores
brasileiros em frente a locais estratégicos.

Esse comportamento rebelde seria como uma vivência do sonho de liberdade plena, uma
possibilidade de vivenciar esse futuro neste momento. Porém, para que essa possibilidade se afirme,
não se pode correr o risco de ser apanhado pelo Estado, pela polícia. Acredito que essa apreensão a
que se refere Bey não é apenas ser assaltado de maneira física, mas sim uma imposição de
singularidade graças aos mecanismos de pertencimento e de identidade que a lógica do simulacro do
Estado oferece, o confisco da alma e dos desejos que citei anteriormente, que podem ser distribuídos,
após captura, como produto. A “máquina de guerra nômade conquista sem ser notada” (Bey, 2004,
p.19) e essa é a primeira condição da sua força e eficiência.

79
Invadido ou squatter são os prédios que punks invadem e passam a servir de moradia e centro cultural.
65

Bey procura indicar como a TAZ deve se movimentar, detentora de certas estratégias que
incluem não apenas ser propulsora de reação, mas o uso da inteligência visionária que mira uma
sociedade outra.

A mídia mais uma vez aparece como provável agravante da sociedade do simulacro e sua
finalidade é percebida como transformadora de impulsos em mercadoria. Por essa razão a mídia é tão
atacada no manifesto da Zona Autônoma Temporária, sendo o segundo ponto de prioridade de
estratégia.

O nomadismo é a terceira via para o fortalecimento da TAZ. Bey sugere tanto a invisibilidade
quanto a possibilidade de se manter alterável e maleável, aspectos fundados na ação festiva e na
rejeição a se deixar assimilar pela mídia. É a revolução de todo dia e a sede de vida que rege a fluidez
da ação guiada sempre para o estado positivo da ação empreendida, o que significa dizer que a negação
de algum valor social deve ser não apenas abolido, mas deve ser oferecida outra maneira de vivenciar
os fatores sociais.

Talvez por isso os bandos, como Bey prefere nomear essa ordem de grupo, como o são os punks,
são válvulas de destruição e criação. Destituindo o normal e duvidando dele, porém, e sobretudo,
incorporando no comportamento as atitudes afins para a potencialidade de uma nova organização,
como diz Rato, que pressupõe, inclusive, a saída dos guetos e a incorporação em outros grupos e
afinidade com pessoas que tendem a esse pensamento revolucionário:

O punk está mais atrelado à cultura. A política é um meio de atuação. É um meio de atuação, assim como tem
vários anarquistas, eu sou anarquista também, mas não que eles queiram ser partido político. Você pode ter que
construir alguma coisa dentro, mas não forçando, você não vai mudar o que as pessoas pensam. Independe do
partido, elas querem construir alguma coisa, elas querem mudar alguma coisa, e dentro da faculdade já é uma meta
de você mudar alguma coisa, com várias pessoas, você não pode se fechar no seu mundinho, naquele grupo de
pessoas... naquele grupo de pessoas que acham que vão mudar o mundo, que é minoria, e não dá chance pra outras
pessoas que têm o mesmo pensamento, lógico que você não vai ficar junto com nazista, fascista, integralista, mas
uma pessoa que você está vendo que quer mudar alguma coisa junto a você, então você pode acrescentar, que você
80
pode estar junto de pessoa que pode mudar o rumo de alguma coisa .

Uma liberação psicológica, ou seja, a visão de perceber como real a possibilidade de liberdade.
É a consciência de autonomia, mas que em contraposição, para que se efetive, tem de se sentir livre.
Como lembra o próprio Rato, os punks constituem família, procuram desenvolver algum trabalho, e é
assim, dentro de uma cadeia produtiva que é o trabalho proporcionado pelo sistema, que há de se
plantar o novo. É dentro dessa Fábrica de Infelicidade - título do livro do Bifo -, dentro desse caos,

80
Anarcopunk que mora em Cuiabá.
66

que se extrapolam os desejos que não podem ser contidos.

Não pode ser encarado meramente como parte de uma ficção, ou utopias juvenis, mas aí onde
mora o subversivo, dentro de cada trabalhador, como diz Daniel Cabelo 81. Ele faz críticas ao punk por
acreditar que seu potencial de transformação social é baixo por ser espontaneísta. O punk, no entanto,
é altamente explosivo enquanto comportamento que quer abolir a todo o momento as normas sociais e
culturais. Em seu ato de colidir-se com as normas, ainda que muitas vezes de maneira involuntária,
mas sempre dentro do festivo colocado por Bey, e até mesmo ritualístico, até em casos de violência, é
a exaltação de uma não-adequação social. Mas o punk também pode participar dentro das camadas na
sociedade, incorporando lutas de outros grupos fortalecendo sua veia revolucionária, e Rato
revida:

O punk, ele é multiétnico, engloba várias culturas e várias etnias dentro de uma só. O movimento punk é
envolvido com movimento indígena, afro, movimento gay, dos artesãos, dos pescadores. O movimento punk quer
estar ali pra se envolver naquilo ali pra desenvolver dentro da comunidade ou lugar que ele esteja. Vários punks aí
que estão morando em aldeias indígenas, cultivando horta, em movimentos negros estão em quilombos. Por isso eu
82
falo que ele é mais cultural que político, ele se envolve mais com o cultural que com o político.

Isso nos faz pensar que os grupos autônomos estão se formando em todas as culturas, na
formação de comunidades isoladas, ainda que essas sejam vistas como despossuídas de fator
transformador, como coloca Daniel Cabelo. Mas a pergunta que eu faço é: de que maneira os grupos
que apenas pretendem uma maior participação na sociedade podem transformá-la se almejam não uma
mudança estrutural a princípio, mas uma abnegação do que é dado? Acredito, isto sim, que essa
mudança só pode se dar pela via das sedimentações do sistema e de uma fuga das grades, das
cartografias esquadrinhadas. Para atingir essa mira, Bey oferece como sugestão para o drible do
sistema as comunidades, um cenário que “implique um espaço livre que se estende em um tempo
igualmente livre” (Bey, 2004, p. 05), que é como Rato prevê a escapatória do círculo eterno que
envolve as cidades:

Eu gosto da natureza, mato... Mas hoje em dia não dá pra entrar em qualquer lugar, porque vai ter um dono:
Ah, não sei... “Fora da minha propriedade”. Então você fica bitolado só dentro da cidade. O movimento punk está se
tornando... era muito urbano, e ele está se tornando mais natural. Hoje em dia você não encontra muito punk dentro
da cidade, eles se mudam pra cidade pequenininha, quem tem mato, que tem cachoeira, eu tenho vários amigos que
estão morando em praia, não praia que tenha cidade perto, mais isolada, o pessoal vai lá e monta uma comunidade,
ali eles produzem pão, tipo uns fazem e os outros saem pra vender, aí tem tudo ali, tem horta, nada comprado da
cidade, é só trabalho deles mesmos.83

Essa é a Zona Autônoma Permanente descrita por Bey. Porém, neste escrito, estamos

81
Daniel Cabelo se iniciou no grupo punk nesta década de 2000, porém sempre foi mais ligado ao movimento anarquista.
82
Entrevista com Rato, anarcopunk que vive em Cuiabá.
83
Idem.
67

descrevendo os atos que estejam vinculados à cidade e, como máquinas de guerra, acertam os alvos
das condições molares. A produção do homem, podendo ela ser material, é de sua essência criadora a
natureza das coisas por ele realizada. Consequentemente, não há como se dividir os termos sociais –
como algo artificial – do próprio homem, que alavanca de dentro do seu ser, dos seus sentidos
desejantes, para a invenção que é reformulada constantemente no social.

Em um embate dos seus criadores com a criação social, sublimam toda espécie de desejos
incompatíveis, arrastados e encaixados nos formatos aceitáveis: ciclo eterno de subjugação dos
desejos, momento de explosão e surto de experimentação de novos modos de viver em sociedade,
amarrados no sistema capitalista pela obrigatoriedade da produtividade: tanto do corpo produtor
quanto do consumo. O momento derradeiro constitui-se na desordem, na negação e socialmente se
compreende pelas erupções em que não se pode prever a sua força.

Na camada social ocorrem essas maquinações de maneira difusa, funcionando, como já


observado por muitos pesquisadores, não como contracultura, mas sim como subsistema de um
sistema geral. Melucci reconhece que o campo social sofreu intensas modificações e, com elas, o
entendimento dos movimentos sociais se faz a partir de outros valores, como os caracteres
temporários, ou seja, os grupos não são estanques e os indivíduos que o formam são alterados. Posso
acrescentar que tanto em essência física, trocando de atores sociais, quanto esses mesmos indivíduos,
passam por diversas modificações internas.

Em referência à transposição social, novamente reviso a fala do anarcopunk Rato, quando


discerne que o punk é multiétnico, abrindo a análise de que o punk, como um movimento social
contemporâneo, une em sua luta social a singularidade de seus componentes. Revisto por Melucci
como um campo múltiplo de forças (2001, p. 24).

Na conversa com Daniel Cabelo, abordamos linhas como o espontaneísmo, um dos definidores,
segundo ele, do baixo teor revolucionário do movimento punk. Isso é herança da fragmentação pós-68,
quando a maioria dos grupos passa a se gerir pela luta social baseados na cultura:

O trabalho era feito no intuito de se potencializar uma única identidade: a de uma classe trabalhadora em luta
contra o Estado e os patrões, o que dificilmente é visto nestas experiências pós-1968 que estão ligadas, direta ou
indiretamente ao anarquismo, uma vez que tratam a luta especifica: feminismo, ambientalismo e cultura, no caso do
punk, como a luta em si, o comportamento individual e não a classe passa a ocupar o espaço central. São estas as
minhas críticas ao punk. Não desconsidero o movimento, acredito que tenha elementos interessantes, no entanto, ao
se pensar uma transformação social, a quebra das estruturas deste sistema capitalista, acredito que seja ineficaz, o
que não inviabiliza que o próprio movimento participe deste processo. Existem muitos coletivos punks
(principalmente em países como México e Espanha) que estão a trabalhar ao lado da classe trabalhadora em suas
organizações (movimentos de bairro, associações, sindicatos, etc.), não como punks, senão como classe trabalhadora
e oprimida que busca um novo destino, que por suas devidas particularidades encontraram no punk um movimento
68

cultural que expressa seus anseios, assim como outros trabalhadores encontraram em outras expressões culturais que
não é pelo fato de não ser caracterizada como contracultura seja algo alienante e sem possibilidade de levantar
elementos de contestação social 84.

A linha de fuga é a fuga do limite dado segundo Deleuze. A fuga é o abandono do recapitular
histórico para o risco de naufrágio contido na evasão do domínio do imaginário. Com a fuga, o
fugitivo leva junto a desterritorialização.

A desterritorialização e a fuga contêm um risco e esse risco é a reterritorialização, o comum, o


devir à apreensão sistemática dos enquadramentos do sistema, da família, das normas e da boa
educação. Mas leva também à loucura, à delinqüência. Não há como escapar deles, assim como não se
pode sabê-los com antecedência. A única possibilidade é a sorte de ter o poder de começar novamente,
na linha rompida. Deleuze empunha a linha de fuga como algo demoníaco. Próprio dos demônios, que
ao contrário dos deuses não possuem temperamento, códigos ou personalidades fixas. Mas é a
regência em se jogar no desconhecido, abandonar pai, mãe, descartar o seguro, que abre as portas do
próprio coração, a experimentação-vida. “Uma minoria nunca existe pronta, ela só se constitui sobre
linhas de fuga que são tanto maneiras de avançar quanto de atacar” diz Deleuze (1998, p.36).

Mas transpostar para a vida social a linha de fuga é uma fuga da vida?

Se o fosse, não seria aplicável nesse momento. Pois é justamente a busca da vida, que
diferencia o punk de outros movimentos sociais. O punk visto aqui, talvez de maneira metafórica e
inatingível, é o punk vestido para o ritual. Para a festa e todo o sortilégio de imprevistos na noite. É o
punk que pode ser despedido porque não pode trabalhar com moicano. É o punk que vai trabalhar
todos os dias, que talvez constitua sua família, mas dentro dele o gérmen já foi plantado, e ainda que
ele se enquadre no sistema, porque na prática isso acontece, ele teve a chance de se jogar em um devir.

É como quando Aranha, hoje fora do movimento punk, diz que o sofrimento que todo que o ser
humano sente, no punk ele é intensificado, mas que quando era punk não percebia nem seus
sofrimentos. Ele se jogava nos sentimentos sem poder codificá-los, e muito menos enquadrá-los no
jogo binário entre o bem e o mal. Para Aranha isso é uma grande fuga da realidade social, mas ele
compreende hoje que ter se tornado punk o livrou da vida bandida que era bem próxima a ele, pois
nasceu na região conhecida como Morro da Luz e muitos dos seus conhecidos de juventude tornaram-
se bandidos. Há uma ética, a ética do desejo.

Não que haja impossibilidade de um punk ou outra pessoa de um grupo qualquer se tornar

84
Daniel Cabelo reside em Cuiabá, participa de um grupo com fins políticos, estuda história na UFMT.
69

bandido. Isso seria justamente negar o próprio devir que defendo. Mas o punk é uma possibilidade de
exercer o devir, o sonho e o delírio, de se deixar percorrer em linhas desconhecidas que marquem
como trilha o corpo de quem se deixou envolver. Não só contradição da sociedade capitalista traz a
evolução natural, mas as suas linhas de fuga extrapolam uma pretensa uniformização decorrente da
ordem tecnocrata.

Somente o exercício do devir, que consiste em exercer as potencialidades da subjetividade, poda


a eficácia do conjunto de mecanismos normativos: o hábito impregnado no comportamento doma a
liberdade. Funciona como o esquizofrênico descrito por Deleuze: aquele que não guarda em sua
memória o sentimento antigo, dando aos novos ou aos velhos acontecimentos uma recepção de origem
primária, do nunca experienciado: os códigos não se acumulam, portanto, não se acumulam
explicações.

Tanto os mecanismos do poder quanto os grupos de resistência têm como objetivo assegurar e
resguardar a vida. Pelbart, em uma análise sobre Deleuze, fecha seu artigo com o seguinte
questionamento que responde essa questão sobre resistência e vida:

Quando perguntado pelo militante italiano Toni Negri: "Qual política pode prolongar na história o esplendor
do acontecimento e da subjetividade?", Deleuze respondeu com a mais heraclitiana e nietzschiana das inspirações:
"Acreditar no mundo é o que mais nos falta, nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele". E
acrescenta, como um duende: "Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo
pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempo, mesmo de superfície ou volume reduzidos"
(Pelbart, 2000, p. 10).

Quando a aproximação entre anarquismo e movimento punk acontece, não é porque os punks são
necessariamente anarquistas. Classificá-los de libertários talvez seja uma denominação mais próxima.
O combate dos punks se liga à luta dos anarquistas pelas várias questões em comum, como a
dissolução do Estado, a repulsa pelo consumismo.

Em uma verificação das sociedades primitivas ou arcaicas, segundo pesquisa realizada por Pierre
Clastres, é possível notar pontos em comum entre esse ideal e o modo de organização política dos
índios, ainda que sejam rotuladas como sociedades sem Estado, sem mercado, portanto, de
subsistência; e sociedades sem escrita, à primeira vista, parecem também não ter história. Clastres
discorre sobre esses temas criticando a visão da sociedade dita civilizada por essa necessitar que
sociedades fundamentadas em outros princípios sejam como espelho e reflitam a mesma organização.
Ele desconstrói as crendices sobre as sociedades indígenas, como por exemplo, as explicações sobre a
não produção de excedentes, daí ser desnecessária a formação de um mercado. A idéia de sociedade de
subsistência não pressupõe, segundo ele, uma sociedade à beira da miséria. Também a visão de que as
70

sociedades arcaicas sejam incompletas por não possuir aparelhamento estatal são rebatidas pelo autor.
Perguntei aos entrevistados Daniel, Aranha e Edzar, todos ligados ao movimento na década de 90,
sobre a ligação entre punks e o anarquismo e obtive diferentes respostas. Aranha, por exemplo,
acredita que é essencialmente a dissolução do governo, pois ele é a base da diferenciação social, e
como os punks nutrem aversão pelo poder, essa é uma explicação que se encaixa.

Clastres afirma que:

... quando, na sociedade primitiva, o econômico se deixa identificar como campo autônomo e definitivo,
quando a atividade de produção se transforma em trabalho alienado, contabilizado e imposto por aqueles que vão
tirar proveito dos frutos desse trabalho, é sinal de que a sociedade não é mais primitiva, tornou-se uma sociedade
dividida em dominantes e dominados, em senhores e súditos, e de que parou de exorcizar aquilo que está destinado a
matá-la: o poder e o respeito ao poder. A principal divisão da sociedade, aquela que serve de base a todas as outras,
inclusive sem dúvida a divisão do trabalho, é a nova disposição vertical entre a base e o cume, é o grande corte
político entre detentores da força, seja ela guerreira ou religiosa, e sujeitados a essa força (Clastres, 2003, p. 216).

Isso tudo resulta num apontamento interessante sobre o diferencial da rebeldia e negação do
poder der do jovem burguês e do jovem de família trabalhadora. O último se indigna com o poder e
obrigatoriedade do trabalho e das leis que o Estado representa, enquanto o jovem burguês se revolta
contra a própria família. De qualquer forma, o jovem é, na maioria das vezes, tratado como identidade
fixa tanto pela biologia, quanto pelo meio social em que se vê mais claramente nos meios de
comunicação.

Em Cuiabá, no entanto, foco da pesquisa, o jovem punk é muitas vezes provido de família mais
abastada, como bem ressalta o punk Babu85: “por que só eu tenho que ir pro CPA, por que só eu não
tenho dinheiro? Todos são burgueses, todos os punks de Cuiabá dos anos 90 eram burgueses”.

O fato é que os jovens que iniciaram no movimento punk em Cuiabá continuam sua militância
de alguma forma. Seja na vida pessoal incorporando o modo de vida ou ao menos tentando. Sua
capacidade crítica é um diferencial. A isso atribuo um dos motivos de não se considerar o punk ou o
movimento punk como sendo próprio da juventude, se foi incorporado na vida e no cotidiano,
desfazendo velhos hábitos herdados, e carregando em seu seio o questionamento, mesmo com toda
sorte de amarras que possam vir a sofrer tentando condizer o comportamento social com as posições
ocupadas, seja no trabalho, no espaço público, no lazer e na família.

A ligação entre o punk e o anarquismo me parece estar voltada ao aspecto comportamental.


Assim parece quando Daniel se refere à inaptidão do punk nas suas manifestações para a
transformação social. Acredito que, na verdade, todo o questionamento é válido desde que se

85
Citado anteriomente. Babu morava em Cuiabá, hoje reside no Acre, é artista plástico.
71

modifique as microestruturas, coisa que só a politização pode não dar conta, ainda que, como ele diz
seja uma alteração que se fecha em um gueto, esquecendo-se do indivíduo e das pequenas alterações:

Acredito que o anarquismo do qual faço referência possa ser um instrumento que possa animar, fornecer
elementos para fortalecer a luta de classes e fortalecer o povo e seus instrumentos de luta, no entanto, não acredito
que seja o anarquismo ou qualquer outra corrente do socialismo, tão pouco o punk ou qualquer outro movimento de
contracultura um agente transformador da sociedade. O agente transformador da sociedade não pode ser outro, se
não o mesmo que é obrigado em meio às mais diversas violências a erguer a sociedade, ou seja é a classe
trabalhadora e oprimida, e se tanto o punk como qualquer outro movimento de contracultura pretendem transformar
a sociedade, não possuem outra alternativa senão mergulhar onde existe e resiste este agente e a partir de lá ser um
dos muitos elementos que fortalecem seu protagonismo em busca de uma nova sociedade86.

Sim, percebe-se aqui que a política é a grande arma dos anarquistas contra a repressão e a luta
por uma melhor qualidade de vida. Mas o homem, a mulher, o jovem, a criança, não são apenas
retraídos no âmbito do trabalho ou da exploração advinda dele. Há algo maior que isso: a subjetividade
é que foi recalcada e transformada em capital.

Apesar da pertinência da sequência de perguntas, a complicação em respondê-las não é só por


sua complexidade, mas por estarmos vivenciando, experimentando-as como processo natural
contemporâneo. Não é somente atual, mas bombástico no sentido de perceber que a vida na sociedade
disciplinar já é desvalorizada, e agora, na sociedade de controle ela é nada mais que o corpo informe, a
mercadoria. O descontentamento com o social ou com as possibilidades de exercer a subjetividade é a
base da transformação social. É a potência. O princípio formador. Sendo, então, dentro do movimento
anarquista, do movimento punk ou de outra articulação coletiva qualquer, ou mesmo individual, a
negação é o princípio de força. O questionamento se resolve por Pelbart, numa reação a essa
cartografia, a esse biopoder:

Que possibilidades restam de criar laços, de tecer um território existencial e subjetivo na contramão da
serialização e das reterritorializações propostas a cada minuto pela economia material e imaterial atual? Como
reverter o jogo entre a valorização crescente dos ativos intangíveis tais como inteligência, criatividade, afetividade,
e a manipulação crescente e violenta da esfera subjetiva? Como detectar modos de subjetivação emergentes, focos
de enunciação coletiva, territórios existenciais, inteligências grupais que escapam aos parâmetros consensuais, às
capturas do capital e que não ganharam ainda a suficiente visibilidade no repertório de nossas cidades? (Pelbart,
2003, p. 22).

3.1 Esferas e representações


Dentro do sistema coexistem inúmeras esferas sociais que são os grupos interligados por
afinidades, sobretudo, formados por indivíduos dessemelhantes. As representações sociais que regem a
sociedade – economia, política, tradições, cultura – são todas invenções mutantes dos seus integrantes.
Entre as esferas há marginalidades que uma produz sobre a outra. E os movimentos sociais

86
Daniel Cabelo, anarquista.
72

contemporâneos são formados nessa zona de conflitos.

Os conflitos, por sua vez, são tão alteráveis quanto o são os desejos de cada grupo e,
aproximando-se ainda mais, de cada indivíduo que o conforma, não podendo dessa maneira ser visto
vulgarmente como resposta à estrutura de representações.

No movimento punk, indivíduos ligados por laços afetivos e identificações no comportamento,


na cultura, e no ideal trazem uma desconfiança para com o sistema normativo dominante que emana e
conduz à aceitação e à passividade dos indivíduos. No entanto, é muito provável que, se for o punk
denominado como movimento, dúvidas pairarão porque a sua rejeição ao sistema e suas normas
sufocantes têm um alvo obscuro.

De que poder se fala? Qual é a alternativa proposta? O que seria uma sociedade libertária?

A alternativa seria uma sociedade em que a liberdade de expressão prevalecesse, em que os


meios de comunicação alternativos seriam fundamentais para o alcance entre os grupos. Desvincular-
se do protótipo da felicidade ligada à imagem e ao status e da necessidade de pertencimento e
legitimação de um grupo opressor e hegemônico perante outro, dominado e subjugado, em que o seu
universo simbólico seja tido como inferior diante do grupo hegemônico, acarretando a vontade de se
descaracterizar e tornar-se o outro.

Sobre a definição dos movimentos sociais, Melucci traz esclarecimentos sobre os formatos que
se diferenciam por especificidades em relação ao modo de lidar com o poder e as exigências em
relação a ele. Seguindo a descrição proposta por esse autor, o anarquismo estaria localizado em um
tipo de movimento social político. As características que o colocam nesse grupo de movimento seriam
essencialmente a “luta pela ampliação da participação nas decisões” (2001, p. 41) e a crítica ao jogo
do poder que sempre tem um grupo dominante e se orienta para sempre estar em posição vantajosa.
Sua intenção é melhorar e garantir acesso e participação nas decisões que o sistema político determina.

Os anarquistas entrevistados guardam críticas ao movimento punk justamente por isso, e na


87
visão de Edzar , quando afirma que no Brasil a maioria (dos punks) está no primitivismo, niilismo,
individualismo. Confirmando então que o movimento punk está preso em seu “mundinho” cultural.

87
Anarquista de atuação política atuando no mesmo grupo que Daniel Cabelo. Quando Rato foi entrevistado por mim disse sobre Edzar que ele era o
único punk que conhecia em Cuiabá. Esse fato me leva a crer mais uma vez que os anarcopunks são extremamente fechados em sua concepção e
definições. Outro fato interessante foi uma conversa informal após a entrevista em que ele ao se referir a sua esposa disse companheira. Ao ser
perguntado por que não dizia mulher por exemplo disse que não era bem aceito por outros integrantes do grupo e que, se está dentro de um grupo,
deve-se respeitar a nomenclatura, a linguagem utilizada por eles.
73

Essa reação ao punk e ao movimento punk talvez aconteça por causa de sua abstração,
denominada muitas vezes por Edzar e Daniel como niilismo. Segundo a definição dada por Melucci, o
movimento punk é um movimento antagonista, ou seja:

É uma ação coletiva portadora de um conflito que atinge a produção de recursos de uma sociedade.
Luta não só pelo modo como os recursos são produzidos, mas coloca em questão os objetivos da
produção social e a direção do desenvolvimento”. Ainda de acordo com sua explicação é o tipo de
movimento mais abstrato, pois “situado em uma sociedade concreta, um movimento passa por meio dos
sistemas organizativos e através das formas de representação e de decisão política. (Melucci, 2001, p. 42).

Os grupos dominantes buscam dissimular os conflitos ocorridos dentro do sistema dando a eles
um caráter de crise passageira. Quando acontecem fenômenos dessa natureza, tenta-se diminuir sua
intensidade, muitas vezes cooptando-os. Em Cuiabá, por exemplo, acredito que a intimidade dos
meios de comunicação com o grupo e algumas facilitações dadas por órgãos do governo podem ter
amansado a violência e a rejeição em relação a eles.

Por outro lado, como o grupo se desfez várias vezes, creio que o renascer sempre trouxe de volta
a carga do potencial explosivo. O rompimento, porém, fragmentou sua força política e simbiótica,
tendo que se reiniciar e se recriar dentro de uma etapa nova de aprendizado. Se não houve grandes
evoluções no âmbito político, também não houve enrijecimento e fixidez de uma suposta identidade.

Um movimento antagonista “puro”, que não consiga uma base instrumental e não tenha alguma relação com os
mecanismos de representação e de decisão, tende a “fragmentar-se” e a dividir-se ao longo das dimensões que definem a
sua ação. Conflito e ruptura dos limites de compatibilidade se separam. O conflito perde a sua raiz social e as suas
conotações de antagonismo, e se transforma em busca simbólica de inovação, que toma facilmente a forma de uma
contracultura evasiva e marginal, sem alguma incidência sobre os mecanismos cruciais do sistema. A ação de uma ruptura
perde as suas referências conflituais (adversários e aposta em jogo) e torna-se a repetição desesperada de uma rejeição, que
se esgota em si mesma, que encontra na marginalidade violenta a única forma de expressão. (Melucci, 2001, p. 42).

Essa descrição de Melucci é tão certeira que parece se dirigir especificamente ao movimento
punk. A comparação entre o movimento político anarquista e o movimento antagonista dos punks
retrata o abismo que os separa, a despeito da afinidade genérica que os une.

O movimento antagonista é definido como puramente cultural, pois quer atingir os mesmos
fundamentos da sociedade sem procurar articular-se com a ordem existente. Daí o alto grau de
complexibilidade na resolução dos conflitos, que são imateriais, não-quantificáveis, e de difícil
solução, não chegando, portanto - teoricamente -, a nenhum resultado. A não ser no caso da mutação
comportamental, que parece óbvio. Mas este é um aspecto lento, imperceptível, que dá margem à sua
desqualificação. Como se houvesse necessidade de aceitação ou aprovação para que ele continuasse a
existir e a traçar sua guerra no espaço micro, para travar sua conspiração embaixo dos olhos que, ainda
74

assim, nada enxergam.

Parece ser como o jogo entre a repetição e a invenção descrita por Gabriel Tarde. Acreditar que
não há potencial no comportamento é duvidar da fúria do desejo da alma, da inconstância dos seres. A
ordem é apenas uma barreira vinda do desejo de outro grupo, mas o conflito sempre existirá.

3.2 Pontas do quadrado

Os punks estão aí. Para quem não os conhece, e pode nem vir a saber. Os punks mesmo se
reconhecem nos olhos. Uma imperfeição, uma ponta do quadrado, a exceção das estatísticas. Um estar
na sociedade e poder dela fugir. Uma pulsão, um batimento cardíaco acelerado, o punk rock. O
estranho, o viscoso de Bauman. O que não pode ser retratado nem em um jornal, nem em uma
pesquisa acadêmica, porque nada é como estar entre eles. Mergulhar na música. Os bares e a cerveja, a
noite.

A diferença sempre foi relegada ao território sujo da desrazão, do meramente subjetivo. Pois o
punk encarna a sujeira da desrazão, não só porque está nessa categoria social, mas porque é presente, é
vida, e sua adaptação ao sistema não o impede de existir em desejo e subjetividades que realmente se
contrapõem ao sistema, com o grande conflito de continuar pertencendo, constituindo, o que significa
ser também alterado por ele, mas, ainda assim, alterando-o.

Mas o homem com sua racionalidade, definindo o cientificismo como pensamento superior,
talvez não tivesse como olhar para dentro de si e ver a culpa e a arrogância que vêm sendo alimentada
de maneira coercitiva, de um lado para outro. Com aparelhamentos persuasivos e constantes. Mas o
grito também vem junto na esfera desse espaço. Vem inclusive de dentro do próprio aparelhamento do
Estado, às vezes amansado, quando se envelhece, em sua violência mais corporal, como a certeza de
que em sua integridade, como primeiridade, ele pode renascer. É a este pulso da juventude que me
refiro: a vivência, a entrega. O que acontece nesse envelhecimento é talvez a diminuição de um
contato mais de impacto físico com o mundo. Mas é preciso dizer, o punk se entranha é na alma.
Carregando ou não em seu corpo o visual.
75

Se o possível é mais rico do que o real, isso se reflete na sociedade ad infinitum. Não há como
parar o trem. E toda dimensão de força que queira barrar todas as outras forças é inválida e cômica,
mas é parte do comportamento animal. Parte do natural. Que se entrelaça novamente, como em uma
dança, às vezes, como um pogo. “É preciso reconhecer que essas supostas regras estão repletas de
exceções, e que a evolução linguística, jurídica, política, econômica, artística e moral, não são uma via
única, mas uma rede de vias onde as encruzilhadas abundam” (Themudo, 2002, p. 22).

É o sintoma do contágio, ele passa de corpo para corpo. Ele chega às camadas diferentes, entra
nos aparelhos de comunicação oficiais e alternativos, contribuindo para acrescentar a outras
individualidades, processo de imitação, porque, como diz Themudo sobre esse conceito, “esta
produção não instaura uma semelhança absoluta entre o indivíduo e a série na qual embarcou”.

A potência não deixa de existir e romper com a sequência, com a imitação. Explode o novo.
76

CAPÍTULO IV – PUNK: LINGUAGEM

Tal é a condição das almas nobres: nada querem ter gratuitamente,


E menos que tudo, a vida.
O que forma parte da populaça quer viver gratuitamente; mas nós, a quem a vida se deu,
Pensamos sempre no melhor que poderíamos dar em troca.
E na verdade é nobre a linguagem que diz: “O que a vida nos prometeu a nós,
Queremo-lo nós comprir... à vida!
Não se deve gozar onde se não é motivo de gozo.
E... não se deve querer gozar!
Que o gozo e a inocência são as coisas mais pudicas:
Nenhuma delas deve ser procurada.
É preciso possuí-las; mas ainda vale mais procurar a culpa e a dor.

Nietzsche – Assim falava Zaratustra.

Os livros escritos especificamente sobre o movimento punk são linguagens geradas pela
memória e recolhimentos pessoais, língua escrita, eco de impressões diferenciadas, a verdade sendo
emitida - e quando eu mesma escrevo sobre o punk, estou utilizando uma linguagem de narração
própria, minha. O eu, no entanto, é rastro. De Corvo. Do Batman, que eu não entrevistei, mas de
quem colhi impressões próprias pelo contato, pelas conversas. De Esqueleto, que sempre me veio
com um algo a mais, vendo o corpo como puro desejo de liberação. De Rodolfo, sempre
preocupado com a arte, com o pulsar punk de maneira natural. De Carol Punk, que gosta de
conversar e diz que já nasceu filósofa. A linguagem entre os punks de Cuiabá e Várzea Grande, que
não se uniram apesar de serem divididos apenas por uma ponte. O Rio Cuiabá, o porto e o centro,
onde tudo desse lado de cá começou.
77

A linguagem que se sobrepõe e forma os tecidos do corpo, os gestos, os signos do punk. Sua
linguagem entoa um conjunto ímpar, elegante, duma sobriedade crua, como a beleza dos filmes em
preto e branco; porém, numa exatidão carrancuda, da rua, do cimento, dos cabelos sem lavar, das
roupas esgarçadas, dos remendos que o recriam para ser único.

Ziguezague de sensações entre sons, palavras, beijos, tretas. Espinhos e pele em contato
orgânico também com a rua que o hospeda, que lhe lança olhares enviesados e a quem ele devolve
um olhar oblíquo, preto, desconfiado, desafiador. E sempre em riste: algumas vezes, um chamar
para uma briga; outras, pura pose. Um chamar para briga por não se render em sua essência, por ser
mais velho que o tempo que lhe foi cotado, pautado no modismo.

Sistema funcionando como organismo independente. Reorganizando-se.

A linguagem do punk é ampla, da roupa ao som, da atitude à palavra escrita. Corvo me


contou sobre a influência de Rodolfo na arte e na organização do movimento punk em Cuiabá, de
sua importância na circulação de material e na troca interpessoal – um vetor do contágio deleuziano.

A primeira língua a ser falada ou não, é calada: o visual, a identificação e o reconhecimento


de uma similitude que se expande e se deixa ser apreciada ao olhar. Quando pergunto ao Rodolfo
sobre como é ser punk, ser artista, produzir zines e distribuí-los, ele me responde que

O indivíduo, o artista, (está) no sangue. A mente é que busca a verdade e a justiça, que se identificam
com o visual punk e com a consciência punk. Eu me identifiquei primeiro com o visual, depois com as idéias,
pois eu estava evoluindo para a consciência política, socialista... para depois me decepcionar com isso, pensar
mais, filosofar mais, e ver a desgraça humana mesmo, e ver cada vez mais o oceano subindo, pinguins mortos na
praia... que romântico!

Um ar de ironia, de decepção que ri de si mesma. Se numa fase da adolescência, da juventude,


que é quando muitos conhecem o punk como movimento, há um desgaste exacerbado dos
sentimentos, um tempo depois, eles são acalmados, recompostos numa outra maneira de encarar o
mundo à sua volta.

Essa resposta de Rodolfo, acredito, ilustra bem a conexão que Derrida faz entre a escrita e a
fala, a perda da simbiose que transmuta o pensamento em fala, o lógos, o “dir-se-ia, por anacronia,
que o ‘sujeito falante’ é o pai de sua fala” indivíduo de corpo e sangue e de sua verdade proferida,
ou como ele descreve mais adiante o ato da fala, como uma necessidade que “deveria ser análoga à
necessidade biológica, ou antes, zoológica. Sem o que está claro não tem pé nem cabeça”(Derrida,
1991, p. 22).
78

Como se a linguagem, de maneira vital, seguisse uma cronologia de dentro para fora, da alma,
do sangue mencionado por Rodolfo, que veste a pele para, só depois, ser incorporada na fala, e
posteriormente, talvez, na escrita.

Quando Rodolfo confirma isso, torna lógico todo o sistema de significados do punk.

O visual como primeira linguagem e a escrita como percepção do interior do indivíduo são,
por vezes, contrastantes. Até mesmo para os punks. Eis o relato de Corvo sobre a apresentação entre
ele, Batman e Rodolfo, que tiveram o primeiro contato através da escrita, as cartas, como era
costume entre os punks das primeiras décadas do movimento:

Quando a gente conheceu Rodolfo, foi através de carta, a gente morava em Cuiabá e ele lá, né? Era um
dos caras mais conhecidos no Brasil, no meio punk, sabe? Todo mundo falava de Rodolfo... os caras de São
Paulo conhecem Rodolfo; no Rio de Janeiro: Rodolfo; Nordeste: Rodolfo. Aí quando a gente foi pra Curitiba, a
gente já pensou, vamos nos corresponder com ele... ele fazia esse zine, “Ovelhas Negras do Brasil”, era um dos
zines mais famosos que tinha no Brasil, era se falar de zine, era Ovelhas Negras. A gente conheceu ele por
cartas, tal... A gente foi lá e conheceu o cara, não tinha nada a ver, tipo assim... Eu achei que não tinha nada a ver
com o que eu pensava, era totalmente diferente do cara que escreveu... Apesar do Rodolfo ter aquele visual punk
assim, eu acho ele um cara padrão assim, tá entendendo? Não tinha nada a ver com punk. Ele era muito educado,
a gente não tinha onde comer, ele levou a gente numa cantina, todo arrumadinho. Rodolfo foi com “jaco”, mas o
jaco dele era... bonito... cabelo penteado, era moicano, mas penteado de lado, parecia um cara normal, levou a
gente lá... Um cara normal, eu pensava: esse aí que é o Rodolfo... Punk...? Ele que escreve aquelas coisas lá, né?
Nem parece... Fomos conhecendo o cara e ele pegou uma amizade muito forte com a gente. Quando a gente
voltou pra Cuiabá, ele ficou querendo conhecer Cuiabá... Aí a gente trouxe ele... que aí que ele conheceu a Rosi,
aí... apaixonou, né? Eu lembro o dia que ele chegou, a gente tava tocando num show lá na casa do Orelha, rolava
muita festa na casa dos caras, e colocavam banda pra tocar, aí convidamos ele... Tocou Blokeio e GTW... Aí
solidificou mais a amizade com ele.

O primeiro contato foi feito pelas escrituras: pelas cartas e trocas de zines. E no universo punk
a escritura tem o valor do que ali vigora, não é a sua materialidade que lhe dá valor, mas sua própria
intimidade com o criador, o deus, o rei. Inicialmente, como vem a ser o caso dos punks Rodolfo e
Corvo, a palavra escrita foi determinante na admiração, na formação, nos conhecimentos
compartilhados, mas não de forma estanque, pois a elaboração foi realizada de modo que um zine
ultrapassa o signo de ser um meio de comunicação para ser um relato da existência e dos desejos
daqueles que o escrevem ou o interpretam. É como Corvo afirma: “no zine, você vai ver coisas que
não vai ver em livro nenhum”. É a escritura mesma da pele de quem o redige.

Ao ser secundária por si só, como o é a escritura, descarrega nas letras a veracidade mesma
que o ato da fala e da potência pela intimidade entre o criador e a escrita.

4.1 Da pele das letras

Indecidível é aquele que não se é nem se deixa ser; é o transeunte à deriva dos contornos da
cidade, da contradição que empunha no peito, no punk e sua roupa é que prosa do asfalto, das noites
que o guiam entre surpresas enquanto ele se deixa levar. Pensamento hesitante que lhe fornece as
marcas, os signos corporais. Uma beleza meio indecifrável, um não sei o quê de frágil, áspero,
79

romântico e violento. É um não apanhar, sendo a todo tempo requisitado, com sua inexatidão
pontual poética bailando entre a vida, o consumo dela mesma, um entranhamento do outro em si,
efervescendo em multiplicidade, em agenciamento. Briga da perda de identidade ao ser coletivo
com um ser Um que se apaixona e se perde em si mesmo sem saber o que é ser: o eu mesmo e o eu
todos.

“A desconstrução nos lança no terreno movediço de conceitos que estão incompletos, estão
quase definidos, mas permanecem como indicadores de fundamentos menos rígidos, mais
instáveis” (Carla Rodrigues, 2008, p. 76). Tal só é possível para aquele que não é o pai da Verdade.
Os punks possuem subdivisões definidas por detalhes que acreditam diferenciá-los, particularidade
especial entre punks metropolitanos88, enquanto em Cuiabá essa transparência não é tão legível.
Talvez porque ela não exista, a não ser em relação à segregação entre punks e anarcopunks, como
aconteceu claramente no início de 2000. Punks da banda Atrito - Aranha, Hyngrid, Edzar - não
tocavam em locais ou eventos que eram realizados por outros punks. Tocavam apenas em
determinados bairros e em eventos realizados por eles mesmos.

Outra diferenciação evidente era entre os punks e metaleiros. Mesmo que o contato dos dois
grupos date dos primórdios da cena underground cuiabana, sempre foram envolvidos num desejo de
certo distanciamento, como se dele dependesse a defesa da identidade e da territorialidade.

Posso citar exemplos disso quando é projetada a visão da mídia sobre eles, que em Cuiabá
personifica punks, metaleiros, gays, roqueiros - enfim, todos os agenciamentos em um mesmo
caldeirão. A inflamabilidade é recoberta com uma amabilidade de ser notícia, num apoio midiático
que divulga as festas e os recobre de atenção.

Patú Antunes89 enuncia uma matéria sobre o Abalo Sísmico da seguinte maneira:

É animador. De uma só vez, 14 bandas de rock do cenário alternativo estarão se apresentando hoje em Cuiabá, a
partir das 19h, no festival Abalo Sísmico. Sem dúvida, uma boa escapada às inóspitas noites de sábado, quando
muito regadas com um cineminha ou boate, dos sons mais sem graça. Para os tímidos, um aviso encorajador: o
movimento underground quer, exige, demanda a sua presença!

Isso na mesma página de jornal em que é noticiada uma festa de drag queens, cuja matéria se
inicia com uma chamada direta, e utilizando, inclusive, termos que lhes dizem respeito
particularmente e são subtendidos pelos iniciados.

88
Como os Raw Punks, os SE,
89
Jornalista novamente citada nesta dissertação.
80

Em oposição ao retratar jornalístico, busco os fanzines. O zine é criado por um, ou pelo
agenciamento de uns, mas mantendo uma identidade pessoal, pois são assinados, refletindo o meio
de comunicação criado por punks e assimilados por outros grupos posteriormente. Percebo o zine
não apenas como um meio de comunicação de política, poesia, quadrinhos, divulgação de bandas
ou de cenários distantes por onde o punk se espalha, e sim dotado de força criadora, artística e
sociológica, como é empregado por Canclini: duma arte que não só expressa os sentimentos em
relação à vida social de quem o produz, mas, que é, também, construído de forma artesanal e de
custo baixo e acessível, podendo ser distribuído no corpo-a-corpo em locais estrategicamente
definidos.

A propriedade do ato da escrita, seja ela de cunho político ou artístico, é coerente com todo o
arsenal que é derivado das manifestações punks. O conflito, contudo, é a eterna quebra e
restauração do punk e de seu movimento. Paralelamente aos debates internos da sensação da
identidade e do agir coletivo diante da subjetividade de cada um, há o bando, o agenciamento, que
luta contra a assimilação, pelo mercado, do seu estilo. Contra o enrijecimento do grupo na
correlação entre seus indivíduos, pregam não a igualdade, mas, mais que isso, a possibilidade de ser
o que se é e, de outro lado, a apreensão dos signos que lhe são mais caros, transformados em títulos
vendidos aos jovens que querem a rebeldia como se ela pudesse ser comprada.

A desconstrução que propõem Derrida é a fuga da verdade, o se deixar levar pelos rastros que
nos formam, pois só a não-verdade pode, segundo o autor, nos proporcionar a significação. Apenas
a não-verdade se converte em verdade. Isso ocorre não de uma forma dialética. Ocorre, sim, na
desconstrução onde não existe uma bilateralidade, nas infinitas possibilidades que podem ser
recombinadas em plano infinito, pois tudo o que existe e o que não existe tem a possibilidade de
existência, de estar no terreno do impossível é ter a porta aberta à invasão do outro - porque se não é
possível barrá-lo, não é possível cercar-se contra os afetos, contra os códigos, contaminamo-nos em
aceitação ou não; o segundo sim, é aceitação, é a acolhida que a fragilidade das cercas não
conseguiu resguardar.

A invasão do outro se reflete marcadamente entre os símbolos punks. A suástica nos patches,
por exemplo, barra entre dentes a assimilação midiática, por ser esta condenada pela moral e a ética
geral, ainda que possa realçar o caráter negativista que a mídia serve de canal para divulgar. Seu
intuito é massificar uma aparência violenta e irracional do jovem despossuído de equilíbrio mental,
normalmente provindo de família desestruturada.
81

O punk em Cuiabá não se originou em uma classe social definida, não foi “porta-voz da
rebeldia adolescente nas classes menos privilegiadas” (Bívar, 2001, p. 127), como afirma Bívar
sobre os punks da metrópole de São Paulo.

O correio iniciou o transporte de comunicação entre os punks. O sarcasmo como atitude do


punk aparece numa ação para driblar os gastos com selos, de acordo com o relato de Corvo:

O lance era o seguinte: eu ia corresponder com um cara lá de Manaus, ele mandava o selo, passava uma
cola aqui encima do selo, aí o correio carimba encima: o selo não vale mais. O cara recebia lá, lavava aquela
cola, e aí mandava a carta de volta pra você com o mesmo selo que você mandou. Rolava muito isso aí, era um
esquema paralelo.

Simultaneamente às ações que burlam uma rede sistemática de leis do direito e da ética, agem
com normas internas que petrificam uma possível fluidez, uma máquina de guerra no sentido que
Bey dá a essa denominação de Deleuze. É a identidade, o jogo de pertencer contrário à expulsão do
grupo em direção a si mesmo. São os signos, criados a partir de uma produção simbólica conjunta,
que os une enquanto grupo, como identidade coletiva. Nesse sentido, de acordo com Derrida, o
deslocamento, a desterritorialização, não é um aspecto que se prende à identidade, mas o contrário:
foge, isso sim, da estruturação rígida que, num próximo passo, deve determinar o como agir, e mais
ainda, como se comportar, ou seja, o que se deve ser.

Há uma confluência, uma série de intuitos conceituais, que interliga a linguagem dos autores à
tentativa de fazer com que o homem escape das teias das regras, normalizações e normatizações em
que o alvo é a desterritorialização de Deleuze e Guattari, do deslocamento e da desconstrução de
Derrida. É, sem dúvida, como Hakim Bey define um ataque ao sistema e às normas, sem se deixar
ser pego, “a luta que não pode cessar mesmo com o fracasso final da revolução política ou social,
porque nada, exceto o fim do mundo, pode trazer um fim para a vida cotidiana”.

A categoria dos símbolos seria um apego ao social e dependente do jogo proposto por ele: de
reconhecimento, uma subscritura da alma, como se ela pudesse, enfim, ser mimeografada através
dos aspectos simbólicos, dependente, inclusive, para demarcar e legitimar a história. Assim explica
Rodolfo90 sobre a importância dos zines:

Pra mim é algo muito importante, é o registro das idéias das pessoas daquele momento, naquela década,
registra os fatos, bandas, protestos, idéias... e depois que passam 5 anos e aqueles punks já são da antiga daí eles
vão entender a importância... pois aquilo é a única coisa registrada do que aconteceu... e é o movimento na
palavra escrita, o registro, o poder da palavra escrita.

90
Rodolfo, punk de Curitiba, muito conhecido é o zine Ovelhas Negras do Brasil, de sua autoria, produzido em meados da década de 1990 e
início de 2000.
82

O zine toma outra proporção em relação ao seu início e como parte de um acervo. A
mentalidade de Rodolfo circunscreve a importância dessas associações que em muito se
assemelham a grupos que, potencialmente, podem vir a acarretar uma revolução molecular por
imbuírem-se na produção simbólica original. Lembrando que a captura pelos punks dos elementos
conhecidos socialmente são ressignificações do signo, podendo ou não ser entendidas por pessoas
de fora e, não poucas vezes, mal interpretadas. É pelas referências simbólicas que há um
engendramento que permite atuar com liberdade dentro da esfera macro que possui seu sistema, da
mesma forma, pleno de aspectos simbólicos.

Os zines funcionam dentro do grupo como fator de comunicação e, sobretudo, propagando os


signos, a escritura, a cartografia da pele, questionando sua própria valorização, a entrada de outros
meios de comunicação, e demonstrando a audácia de pertencer a uma sociedade consumista sob o
lema do “faça você mesmo” transposto da mesma forma no visual. A música é, de forma
semelhante, incluída no espaço de signos, pois esta, o punk rock não é assimilável mesmo aos
grandes mercados, sua energia advinda da rapidez da sua batida e das letras de cunho ou político ou
fortemente contestatórias que expurgam uma vivência insatisfeita certamente não agrada um
público diferenciado, pois a mesma insatisfação e miséria de contatos nas cidades repercutem em
todos e evidencia um fracasso geral, pouco apreciável ao sistema mercadológico, ainda que exista
público consumidor.

Há uma freqüência grande na interpretação desviada para um caráter negativo, mas que é
propositalmente programada. Quer-se determinar o caráter duvidoso e frágil no punk, mas ele,
passível de cometer tantos deslizes sociais, não deve, porém, ser qualificado a partir da identidade
fixa também que é maciçamente colocada sobre eles de maneira que os reduz a essa identidade
forjada.

Eu sou capaz de respeitar um nazista, sim, eu acho isso a coisa mais anarquista que poderia ter,
anarquista a ponto de não respeitar? Que libertário é? Porque hoje eu já penso assim, o ser humano é livre pra
fazer o que ele bem entender, ele vai arcar com as merdas que ele fizer, não vai? O punk está na diferença do
respeitar e do aceitar, o punk está no respeitar. Não quer dizer que eu aceito o nazismo, acho a coisa mais
estúpida, nacionalismo, pô, quer coisa mais estúpida que nacionalista, entendeu? Pô, essa dificuldade toda que
você tem com passaporte, pra conhecer uma outra cultura, esse negócio de território, né? Isso é ridículo, mas e
aí? Eu não gosto de pagode, eu vou sair matando todo pagodista?

Tem-se aí um testemunho de Carol Punk que afirma ter sofrido represália de alguns punks. De
acordo com ela a violência que sofreu teve como início o fato de usar em seu visual suspensório, e
este é tido como próprio da roupa dos skinheads. Parece ser totalmente incongruente, e é.
83

A esse respeito, do código visual que se mutabiliza, agregando cada vez menos o visual
pesado em todas as cidades Rodolfo dá seu testemunho de que em Curitiba se usa o moicano, mas
que lá “virou moda moicano baixo, muita gente usa, os punks mais novos andam com aquele visual,
mas aqui está totalmente dispersado, é como se tivesse muitos indivíduos punks pela cidade e
nenhum Movimento Punk”. Novamente percebe-se a ligação que extrapola os muros territoriais das
cidades e une os punks numa mesma veracidade histórica, seja em São Paulo, Cuiabá e em outros
lugares.

As vocações no bando punk, como não se referir a elas de maneira natural, e perceber que é o
vínculo humano com que nele nada mais há que nada além dele mesmo, é o que alimenta
essencialmente os punks que conheci: educados ou desafiadores, mantém sempre uma linha de
raciocínio perspicaz, ousada e acompanhadas a um olhar desafiador: Esqueleto, Corvo, Carol,
Daniel Cabelo, Fernanda, Cláudio Dias. Todos e cada um podem ausentar-se sutilmente como uma
linha de desvio, fina quase imperceptível, uma fuga quase doce, quase distraída, que se agarra
apaixonadamente à vida, leve e tensa.

O 1° Encontro Punk de Mato Gosso é um papel levemente amarelado, mas que na fragilidade
desse tecido perdura sua memória, em que constam informações a respeito desse evento,
registrando fatos como a citação do punk paulistano, uma referência ao show da banda Estado
Crítico, elogiada por fazer jus e similaridade com a banda Lobotomia91 e com o punk sueco e
Filandês.

No entanto, a escritura dá conta da perpetuação como o filho do rei. Seja quando vai nas suas
linhas demarcar um comportamento, uma cultura de qualquer conjunto de pessoas afins, de uma
determinada época, movidos por aspectos afetivo e, pode-se dizer, políticos, quando querem
administrar a competência, a sabedoria, o correto e os desviantes.

Na mesma folha de papel vem escrito com outra letra, possivelmente em momento menos
apressado, menos informal e posteriormente ao primeiro registro, que verificava os “primeiros anos
de underground em Cuiabá não tínhamos muito o que fazer. Algumas vezes saíamos em bando92
pra assistir algum filme. Uma vez fomos assistir o retorno dos mortos vivos, no Cine Teatro. Foi o
maior choke. Os playboys e patricinhas, todos com medo de nós, que estávamos bem ao estilo
undergound”.

91
De São Paulo.
92
Grifo meu.
84

Fazendo correlações entre zines de outras cidades que tive acesso, São Paulo e Curitiba93,
percebo a coerência histórica entre os fatos de cada uma delas. De Cuiabá recebi os zines
produzidos pela banda Atrito, por Hyngryd, Batman, Rodolfo, Rino, Carol Punk e Alysson entre os
anos 90 e 2000.

Recebi os zines de São Paulo “SP Punk”, “Carne Oficina”, e “Cadernos de Sarjeta”. O zine
“Ovelhas Negras do Brasil” foi produzido por Rodolfo em Curitiba e em Cuiabá, quando este
residiu por aqui.

4.2 Ovelhas Negras do Brasil


O fanzine “Ovelhas Negras do Brasil” é (foi?) e tinha uma tiragem que alcançava
muitas regiões brasileiras. O zine tem um perfil menos político que outros que recebi de Curitiba.

O número 8 da edição “Ovelhas Negras” traz na capa um punk velho, desgrenhado,


com rugas e olheiras, vestida com uma jaqueta que tem o nome da banda “Sex Pistols” no peitos, no
braço um patche do símbolo da anarquia, pulseira com rebites afiados e logo abaixo da figura
encontra-se a frase: “we are the rebels with a cause”94. Esse número do zine tem a proposta de fazer
um resgate do punk em Curitiba, segundo o produtor da revista Rodolfo Scheffler, removendo das
lembranças do primeiros punks de Curitiba a história dos encontros em 1975.

O país estava sob as sombras da ditadura militar e havia pouca arte subversiva, pouco
rock e pouco contato com outros países onde o rock e o punk aconteciam. Foi num contato entre
dois curitibanos com um outro garoto que chegou de Manchester, numa praça de skate, que deu-se o
início do Movimento.

A mesma história se repete: adolescente de 15, 16 anos inconformados com os valores morais,
com as regras da igreja, do Estado e da política querem expor seus sentimentos de revolta através de
um comportamento fora do padrão, necessariamente a vontade era chocar as pessoas. A violência
consistia nesse absurdo visto pelo olhos dos outros, e não a violência física, como pode-se notar
pela entrevista com Demétrio e Magrão publicada no “Ovelhas Negras”:

93
Faço essas analogias para comprovar o alinhamento do pensamento e ações do punk entre as duas cidades e Cuiabá, Curitiba pela
aproximação entre os punks principalmente por causa da comunicação com Rodolfo Scheffler, e com São Paulo por ser a cidade
metropolitana onde o punk primeiro se desenvolveu e tem grande expressão, pela força dos seus zines, bandas e por estar, primeiramente,
antenada aos acontecimentos mundiais do punk.
94
Nós somos rebeldes com causa.
85

A vida era sempre na rua. Duas ou três gerais da polícia era comum, por semana, imaginem usar visual
por aqui naquela época, éramos vistos como marginais, nunca procurávamos encrenca, a gente ficava na nossa,
juntava grana, comprava um vinho barato e ia beber no cemitério, era um lugar tranqüilo e seguro, os mortos não
nos discriminavam. A revolta tava na nossa cara, mas nunca agredíamos ninguém, as pessoas é que nos
agrediam, quando necessário respondíamos a altura. Queria deixar bem claro que nós nunca procurávamos
encrenca, violência. Quando não gostávamos de certa coisa simplesmente desprezávamos. Mas foi nessa época
que começou o radicalismo, as tretas, e as subdivisões: HC, Oi, Skunk, Metal. É aí que fode tudo. Hoje em dia
existe muita rivalidade, violência entre as tribos. Este pessoal que anda por aí arrumando tretas, isso não vai
levar a nada, a nada mesmo.

Quando comparamos com a cidade, com os transeuntes que pertencem a ela, que levam para
as ruas, nos contatos cotidianos, corriqueiros, no seu desterritorializar toda sorte de finco com
estático, com o tradicional, percebemos que as cidades, tanto as metropolitanas quanto as mais
provincianas estão arraigadas, da mesma maneira, numa normalização que se materializa pelo modo
de se vestir, por exemplo.

Mas ao deparar o depoimento dos punks curitibanos com o fato de em Cuiabá, nos anos 90,
estar acontecendo em Cuiabá as primeiras invasões em prédios localizados no centro da cidade, em
que os punks preocupavam-se com o comportamento do grupo, mantendo o local sempre em ordem,
e lutavam pela sua ocupação legal, verificamos o que o caráter marginal, de permanecer na rua, não
acontecia por aqui.

Apesar do choque que o visual causava, o comportamento do punk cuiabano dirigia-se para
uma legalidade, e para conquistas de um espaço público com vínculos afetivos e culturais.
Juntando-se a esse fator as descrições e o envolvimento da imprensa local com a divulgação de uma
série de eventos produzidos por eles, nota-se um movimento menos agressivo e menos discriminado
do que nas grandes cidades.

Invertendo a cronologia do lançamento do zine, cito a importância do número 2, produzido


em Cuiabá quando Rodolfo veio a residir nessa cidade. O mesmo aspecto de noticiar os fatos que
acontecem no mundo punk, dos shows e bandas por intermédio de entrevistas está presente. No
“Ovelhas Negras” número 2 além de tratar da importância do zine há um extensa entrevista com o
Corvo tratando da banda Blokeio Mental, além das dificuldades em tocar som punk por aqui,
reclamando a falta de locais para shows e dos rótulos recebidos pelo grande público, como trash,
harde core e até rap, enquanto os integrantes estavam preocupados em tocar sons que refletissem a
realidade e os compromissos ideológicos.
86

Ao perceber que a confecção e distribuição dos zines não haviam sido incorporadas a rotina
do punks cuiabanos, Rodolfo busca estimulá-las como forma de comunicação, de fortalecimento de
um mecanismo de divulgação de bandas, protestos e pensamentos, integrando-a ao movimento das
cartas que era bem mais presente, clamando pelo intercâmbio entre as redes.

4.3 Zines cuiabanos

O zine produzido por Batman foi o “Face Oculta”, no final dos anos 90. A influência de
Rodolfo se faz sentir na ilustração de capa desenhada por ele, e no formato dividido entre textos e
entrevista. O caráter político ainda aparece de maneira geral se comparado aos zines do ano 2000
em que os produtores são anarcopunks ou envolvidos com a questões mais especificamente
políticas, como a causa do homossexualismo.

O tema voltado para questão política é sobre a globalização, mas o zine todo é composto por
matérias que tratam do cenário musical do Estado: as transformações da cena do rock ganhando
espaço onde predomina o rasqueado, com uma notória reclamação contra a imprensa que dá
preferência a divulgação desse estilo musical. Sobre as novas influências e miscigenação cultural,
Batman retrata as misturas do rock com a viola de cocho, mocho, viola e percussão, fora as novas
misturas entre punk rock, trash metal, heavy metal, e hardcore. Há espaço para o anúncio de shows
como também descrição daqueles que ocorreram.

O zine “Atrito” produzidos entre os anos 2002 e 2003 traz uma carga maior de mensagens
políticas. Produzido por Hyngryd, Aranha, Edzar e Julio HC retratam o potencial de arma política
evocada pela banda de mesmo nome.

As chamadas para o leitor são “saudações ao povo libertário”, “punx ativos de luta”, e uma
carta ao leitor escrita por Julio HC reflete a vontade de se falar em nome de uma conscientização,
palavra que parece ser fundamental na atitude do punk, mesmo entre aqueles que não possuem
envolvimento com o anarquismo:

Pois é, amigos, um ano se passou desde que a necessidade de ação, persistência e resistência nos fez
perceber a importância que a coletividade, a auto-gestão e a cooperação exerce em uma cena. Eis então a
brilhante idéia de produzir um zine que pudesse ao menos instigar as pessoas a enxergar essa realidade em que
vivemos de uma outra forma. O conformismo, o comodismo são as pragas da sociedade, um mal que todos –
independentemente de ideologia, raça, credo – precisam destruir, e fazer com que isso não nos leve à estagnação.
Gostaríamos de esclarecer que este zine não deve ser lido da maneira que se lê a bíblia. Apenas expressamos
nossas idéias e opiniões. Afinal, não somos donos da verdade.
87

Sendo a palavra-chave conscientização no impulso mais vital entre os punks, é verdade


também que para muitos deles palavras de ordem não bastam. Isso pode acontecer com punks que
são mais ligados ao circuito artístico como é o caso de músicos, mas em punks guerrilheiros, como
informa Esqueleto

A idéia da conscientização, de todos os gritos de ordem políticas que dá uma referência de ação de certo
modo, acho que existe essa referência, por mais que o punk seja uma movimento bem múltiplo. Porque punk tem
aspectos políticos dentro do seu corpo. Muito embora ele seja composto de toda uma gama de manifestações de
outra ordem, as culturais, o aspecto político está claro nos fanzines, nas letras das músicas, nas fixações dos
punks em acordarem e fazerem revolução, em destruir a burguesia, embrenhado em todas as expressões do
movimento punk. Você parece considerar o punk como um movimento cultural enquanto os punks se pudessem
estavam pegando em armas. Sobre onde querem chegar? Nem os anarquistas políticos sabem disso, ninguém
sabe como deve ficar, ninguém tem de antemão planos elaborados. Tudo se move em torno desse conceito vago
chamado liberdade, e todos se movem em direção a isso, a essa idealidade. De idéias que carregam a vida nas
costas. Parece que todas essas abstrações são a razão de ser da vida. Como se todas essas idéias de liberdade não
fossem filhas da vida. O punk fica cada vez mais político quanto mais deixa sua vida se escravizar dentro dessas
abstrações. Doença do abstrato, da perfeição, do ideal, o punk morre disso. Se você tirar a idéia de justiça,
liberdade, dignidade, eu quero saber no que se pautaria esse Movimento.

Os princípios originam-se numa série de conceitos vivenciais acumulados. Quero, com isso,
dizer que a escrita foi feita não só em função da percepções que atuam no sentido presente, mas que
estes são envolvidos na infinidade das teias da escrita e da memória.

A escritura, usando a nomenclatura de Derrida, não é contrária à vida, mas é como uma
articulação dela própria. E sendo dessa maneira, não pode ser considerada como algo que foge a
memória, ou como simulacro.

Essa tríade da fala, da escrita e da memória são alicerces da discussão do que para o autor
vem a se constituir a différance. Não mais pensada em termos opostos ela se torna ampla e
indeterminada, ela é o movimento, porque a vida e a memória não cessam. Por isso a posição de
não impor uma verdade ou o apego a uma identidade fixa. E é isso que dificulta a prática da
desconstrução proposta por ele.

A ilusão de uma identidade – que deve se guiar por rituais de comportamento e de


pensamento – simultaneamente a fortifica e fragiliza, ao impedir a dinâmica da desconstrução que
está voltada a uma identidade multiplicada.

No cenário real que se delineia em jogos de sentidos e em que o outro se limita vale para
reafirmar o eu mesmo, é facilmente manipulado, pelo consumo e pela credibilidade em
fundamentos abstratos como o status, a supremacia da individualidade, o bem-estar próprio. Se,
88

porém, o capital é tomado de seu equilíbrio, ao sofrer pequenos ataques, ele é que pode ser
desestabilizado em sua balança que pretende se estagnar.

O punk ao se predispor do poder, que se torna livre diante da necessidade de se afirmar


perante o outro, que se livra do compromisso de ser o portador da verdade, pelos simples fato de
não haver uma verdade, talvez se tornasse um cyberpunk, um gênero da literatura de ficção
científica.

Porque as convicções se estabilizam diante do simbolismo que o forma, mas são elas que
determinam a afinidade afetiva e simbólica. O comportamento é que precisa se salvar das
armadilhas criadas não para eles mesmos enquanto arma de guerra. O desejo e a liberdade,
conceitos como o disse Esqueleto abstratos, pois o que são eles, ou melhor, o que é cada um de nós
quando nos perdemos em nossas próprias considerações de nossas vontades que são manipuladas?

A armadilha recai em tornarmo-nos simulacros de nós mesmos e nos confundir com todos os
fluxos sociais e materiais que nos permeiam. Guattari escreve que “é um nó de interações
maquínicas através do qual somos articulados a todos os sistemas de potência e a todas as
formações de poder que nos cercam”, não se tratando, finalmente, apenas advindas das interações
advindas da persuasão própria que estabelece o capitalismo, mas das próprias ligações da rede que
se pertence.

4.4 Ser punk

No reconhecimento do signo que pode resvalar a fronteira do tempo graças a memória, tem na
escritura, a linguagem no sentido amplo, que se deixa codificar pela fala, pela aparência, pela
decisão em como se mostrar ao mundo e pelas entrelinhas que escapam, são solidificadas nas
imagens, sejam fotos ou desenhos do universo punk.

A atitude concentra em si o universo semiótico, a repetição engendra pelos caminhos do


inconsciente e do racional, da emoção e do agrupamento identitário. O que é ser punk está
respondido na sua linguagem. Se de um lado Rato provoca que ser punk não é tocar em banda de
punk rock, Rino acredita que as pessoas “se tornam punks em época de instabilidade e de formação
de personalidade”, mas soma com Aranha a certeza de que essas influências ele carregará para o
resto da vida. As contradições que a vida impõem, como o caso de Rino que trabalha para o Estado
depois de execrá-lo, e as contradições da absorção de novos punks no Movimento que, ao entrar,
89

ainda não reconhecem a cartilha do que é que se deve ser para ser punk, como se pudesse, então,
postular e construí-lo, não só o Movimento, mas quem o integra.

De fora para dentro, quem é o punk? Confundido com marginal, com punk de boutique, com
rebelde sem causa, com filho da geração de famílias desestrutura. Rino contou-me que, nos idos de
1980 um garoto comentou com outro, ao analisá-lo que ele era um cowboy que monta em touros.
Aranha vê similaridade entre os punks e os carecas em relação ao acessório e até a ideologia,
Esqueleto lembra, rapidamente, que o punk prega a igualdade e a liberdade, diferentemente dos
skinheads.

Se por um lado os punks agem em prol da conscientização, eles, entre si, entram em conflito
dentro do grupo ou individualmente. Se se pretende desmistificar o Movimento, levá-lo a um
reconhecimento social, desprezam as articulações midiáticas que são feitas em torno do grupo.

Dentro dessa linguagem a repetição do código funciona, segundo os punks, para informar não
só quem está dentro do grupo, mas é também entregue em shows e locais de passagem da cidade
com o propósito de ter alcance além do Movimento.

O Geléia do Asfalto foi um grupo de jovens que agiu nesse sentido de propagar a mensagem
para um público maior de forma diferente: pixavam os muros da cidade com poesia. A despretensão
marcou as ações pela cidade: “Foi um bando de adolescente. Na época só pixavam besteiras: fulano
eu te amo, Gonçalo do CPA... aí a gente resolveu pixar poesias no muro. Não tem muito o que falar,
foi um negócio de 18 anos atrás, era um bando de adolescente, o mais velho era eu que tinha 20
anos, todo mundo tinha 18, 17, 15 anos”.

À despeito do despojamento dos jovens pixadores o jornal noticia a ação como a chegada de
grafiteiros em Cuiabá, abrindo o texto com o contexto histórico de grafitagens pelo mundo e uma
exaltação do que o jornalista 95 chama de a “arte do precário”. O jornalista entende que o grupo
Geléia do Asfalto, que ele denomina “anárquico”, tem caráter de denúncia. Os trechos poéticos, os
haikais são pixados em muros que a frase tenha uma correspondência óbvia, em locais de passagem
de ônibus, como o “parem o mundo que eu quero descer” na rua Voluntários da Pátria96, em frente à
Igreja do Boa Esperança vem a frase: “Se os homens ficassem grávidos o aborto seria sacramento”,
no muro do Sindicato dos Jornalistas o haikai “Passa e volta. A cada gole uma revolta”. O jornalista

95
O jornalista é João Bosquo.
96
Lembrando que nessa rua a sede do Coletivo Cultural Libertário, e que Erik fazia parte desse e de outros grupos como o MAU
(Movimento Anarquista Universitário) e da banda de Hard Core Esbórnia.
90

percebe o ato do pequeno terrorismo irônico, o ímpeto de transgressão, a articulação que escapa,
sutilmente, da ordem.

A escritura está invadindo os muros da cidade, desdenhado a falta de acesso da maioria, e se


aproveitando dos momentos oportunos e das frases de escritores e poetas para formular e comunicar
sem necessitar do apoio de grandes veículos de comunicação:

A mensagem de Geléia do Asfalto que procura fugir dos elementos usuais como o livro, que é um
espaço pequeno e limitado em seu alcance e muito íntimo, o out-door que tem acesso só os “políticos” ricos e
poderosos para as suas mensagens (?), tem que ser lida no conjunto em que foi escrita e fazer todas as leituras
possíveis, provocadas ou não pelo autor. Não importando o propósito ou finalidade das
frases/poemas/haicais/perguntas/conclusões. (Bosquo, Folha do Estado, 1990).

4.5 Punk e um processo contínuo


A resistência aos apelos às grandes corporações, o anti-consumismo, o descrédito em relação
ao Governo, sistema, capitalismo, ou que nome queira dar a esse mecanismo articulado de produção
e, de invenção, de desejos, da impiedosa fronteira entre o individualismo, do ponto de vista de
cuidar de si e dos seus, pensando a micro-revolução comportamental, e do egoísmo, como a
abstração ou o ato de expulsar os estranhos, se não engolidos, como diz Bauman; isso tudo se
reverte no presente quando pontos espalhados e sistematicamente filtrados, cifrados, como diz
Deleuze sobre a posição dos indivíduos na sociedade de controle, exclama – como se a vida
gritasse, vez ou outra, a incompatibilidade do capitalismo com o homem – o aprisionamento que lhe
submetem.

E outras tantas vezes, autoriza e se reconhece na idéia de que essa fábrica liberta o homem
para o que ele é: animal em luta da espécie, dentro dela a luta pelo poder, a voz do mais forte,
através da força, psíquica, métrica, simbólica. Repete, ininterruptamente, repetindo-se e então
constrói o liquefazendo o simulacro. Mais puro que o natural, como olhos digitalizados percebem,
exagerado, plástico, de definição apurada. Conquista, sorrateiramente como uma serpente encantada
que canta.

E o Movimento Punk é um movimento de fato: Sendo, sendo... Invariavelmente. E repetindo,


com velocidade. Mas isso não mata o ideal. As idéias pairam no ar, e está ao alcance. Pairam entre
os sentidos do corpo, todos. E é contagioso.

No repetir continuamente, pode acontecer um deslocamento, porque se existe o eterno retorno


existe o combinar, o fragmentar antes de confluírem novamente. Porém com a criação de essências,
91

quem sabe o que pode dar, dentro do campo do imprevisível, uma nova combinação social,
psíquica, em um ponto qualquer da esfera num tempo qualquer?

O punk é arte, corpo, linguagem. Às vezes só estética, outra máquina de guerra, mas é arte
pela sua exatidão, por ser genuíno, pois renasce de si mesmo, em três décadas. Em Cuiabá, há duas.

E sua guerra é, essencialmente, abstrata, ideológica. Se se perde dentro disso, é também


encontrado. Reencontrado. E quando repetido pode ser sugado pelo mercado, pela mídia, e pode ser
produto. Torna-se também, mas não deixa de existir em forma de inconformismo, de raiva, que em
exuberância, jorra no espaço novamente.

Aí está formado o deslocamento convidando o movimento repetitivo desconstruir-se. Ao


eliminar o sentido binário e opositivo, as múltiplas combinações convergem-se suntuosamente à
vista e a contra gosto dos que detém o poder, eles sabem sobre o perigo que as novas combinações
dos choques podem causar.

O punk é arte quando a idéia do “Faça você mesmo” percorre um show de bandas, o som e
sua fúria elaboradas numa sonoridade crua, mas sintomática, selvagem, coerente, vermelha. A
rapidez na dança, dentro de um núcleo que se dispersa em ondas.

Os espaços são elaborados. Os punks se infiltrando entre headbanguers, imagens televisivas


de bandas de metal, mesas de sinuca, alguns muito jovens deslumbrados com a noite, com o punk.
Alguns amigos de longas datas que comparecem de visual, como Corvo com seu sobretudo preto e
pulseiras com rebite. Serginho H com visual Ramones que marcou a história do punk em Cuiabá.

Ao associar o global e o local é arma de guerra, informando com intuito de conscientizar. Na


relação entre mídia oficial e o zine este adentra-se num movimento contrário ao se expandir.
Examinando seu observador faz dele presa.

4.6 Desconstrução: a linguagem punk

Uma análise de um texto escrito num zine punk, um punk com visual, o punk rock, é cada um
universo simbólico que se ligam entre si. Quando Derrida descreve a desconstrução de um texto
qualquer como sendo um processo de extrapolar as suposições que ele carrega, aprofundar-se nas
evidências que submetem intenções e desejos, até mesmo os calados, para delas retirar o âmago, a
essência.
92

O punk está mergulhado dentro do universo simbólico mas a cada um, mesmo mergulhado
numa identidade grupal, incorpora, materializa cada um dos itens de maneira individual.

Nunca foi igual usar um moicano nas ruas. Os zines tem como característica a estética da
colagem, mas não há um zine igual ao outro. Alguns símbolos que se repetem, e que tornam
reconhecível um punk, quando utilizados em patches, são modelações únicas. Por isso, a leitura do
punk é sempre um risco. Sua articulação é, deveras, singular.

Isso é interessante em Cuiabá, em Curitiba eu já tinha levado inúmeras vezes geral da polícia, com muita
porrada mesmo. E até uma vez me levaram uns cintos de rebites que eu fazia pra vender. Fui a falência. Em
Cuiabá saí muitas vezes de moicano de dia e de noite, e nunca aconteceu nada. a nao ser aquela vez que a
policia fechou todo o bar. Mas isso já era 1999... eu acho. E a polícia foi bem violenta. Em Cuiabá é estranho,
me parece que a população já está acostumada com a presença de índios e de gringos, é mais misturado, e não
tem tanto esse problema. Já no sul é preconceito mesmo, discriminação mesmo, de maneira consciente disso.
Em Cuiabá, a polícia não pára quem está de visual pra dar geral por causa de drogas. Me parece que a coisa em
Cuiabá neste sentido é algo bem maior. E numa população de um milhão de habitantes, vai ser sempre meia
dúzia de "metaleiros" na visão da polícia e da sociedade. já em Curitiba, não, a polícia pára mesmo quem tá de
visual pra dar porrada mesmo, e pra procurar drogas mesmo.... Uma vez no Linos bar eles levaram os soldados
recem formados pra dar geral nos punks como forma de treinamento!

Está claro que a localidade influencia, como Rodolfo coloca, a interpretação e o movimento.
A relação entre os punks com sua cidade, com outras cidades, com novos sons que chegam, pela
comunicação por internet, carta.

A importância do zine não é só informar, e sim funcionar como um documento que,


posteriormente, serve para compreender o punk e suas origens, mas sobretudo para, no presente,
atuar como forma ardilosa de driblar os poderes da comunicação de massa. Ainda de acordo com
Rodolfo:
A palavra escrita é um documento, e fica para história, como um livro, e faz parte desta Cultura Punk
Internacional, o Movimento Punk não é mais algo novo, já é um Movimento dos anos 70, resistindo ao tempo, se
transformando, mutante, sem esquecer que a liberdade de expressão é fundamental como o é não criar regras
para ser punk.

4.7 O corpo e o pogo, a música é o punk rock

No meio de um oceano em que a massa de água são ondas sonoras, como ondas ficam num
movimento incessante de ir e vir. Um mar bravio de ondas que vibram até seu corpo, local que não
serve com caixa para se depositar, pois é dele emitido o mesmo vaivém das ondas.
93

O corpo no meio do oceano é transfigurado pelas ondas bruscas. E se pensa em encontrar-se


cai em si para saber que não existe ali noção alguma de tempo e espaço. Não pode acessar seu
sentido da visão, pois tudo é escuro. O corpo parece sozinho dentro do perigo que lhe chega pela
audição. Mas o novo é que por ela todos os outros sentidos se tornam acionados. Como um gato,
um morcego ou um rato se torna atento para a próxima bomba sonora que lhe alcançará. Nessa
profusão seu corpo único, próprio e conhecido foi esquecido sem que pudesse lhe acarretar saudade
ou dor porque é como a morte que chega e não se tem mais tempo pra pensar sobre ela.

Inicia-se se assim o ritual da transfiguração. Ao corpo lhe é acometido a desrazão, o eteno, o


esquecimento. E só a morte apressa o equilíbrio.

Quando abre os sentidos na escuridão e os medos se esvaíram o corpo percebe que não está
só. As ondas multiplicam-se agora pelo impulsionar dos outros corpos que se agitam rapidamente,
com movimentos rápidos e perigosos.

Se de longe parece uma guerra, de dentro é a guerra em uma dança da destruição. Esse corpo
vibrátil perde sua identidade para se tornar um corpo só. O equilíbrio. Agora sim está formado o
corpo, em unicidadade.

É na presença da guerra e do equilíbrio que o corpo uno se mostra e é pura máquina de guerra,
destruidora e destrutível. Impassível, mas ao mesmo tempo tensa à realidade, aos mundo lá fora, ao
próprio corpo que merece ser poupado porém não o é. Porque para ele o que importa é entrar em
harmonia com as ondas e os outros corpos.

Somente um olhar de fora que possa congelar a cena pode descrevê-la, coturnos, calças
apertadas, camisetas, talvez alguma jaqueta. Mas percebe os rebites afinadíssimos com pregos,
cortantes até a alma. Coleiras e rostos com olhos firmes, algumas vezes pintados de preto.

Se algum movimento dentro da dança da guerra sair de uma perfeita velocidade sincrônica é
possível que o corpo seja arremetido. Sangue.

Como o movimento pode ser tão harmônico dentro de algo que não tem métrica, não tem
fórmula, não tem certo ou errado só pode ser explicado como algo da natureza que se contra
94

balanceia na disfunção permanentemente operante. Como a fúria da natureza que não poupa, pois é
amoral. Corpos de homens e mulheres são todos corpos de guerra.

As ondas sonoras vinda dos três, quatro, poucas vezes cinco acordes é o punk rock, o
hardcore.

Os poucos acordes e o rápido tempo da música são responsáveis pelos golpes sonoros ecoados
nas paredes nuas que revidam da mesma forma que os corpos em transe o som que lhes chega.

Os corpos se movimentam habilmente ao serem penetrados pelo punk rock ou pelo hardcore.
Tão rápido quanto, tão violento quanto.

Os homens no palco são pura força masculina, vozes firmes, olhos firmes, corpo impassível
que se lhe tirassem o som de nada faltaria para se perceber que se trata de uma denúncia.

Nos shows, como Abalo Sísmico, Tarde pro Rock, Blecaute, sempre se encontrava punks
vestidos a caráter, entre eles os mesmos que tinham bandas. Pelas fotos nota-se que a produção
pesada era deixada para shows, próprios ou de outras bandas. Os caras e as minas vestem
geralmente calças justas e rasgadas, as calças usadas são as jeans, preta ou com motivos de exército,
que podem ter patches costurados, muitas vezes estão, tanto um como ou outro, de camiseta
sobreposta. As imagens mais presentes são a suástica, o A de anarquia, nomes de bandas. Coletes de
couro ou não, cintos e pulseiras de rebite, coturnos ou tênis All Star ou Adidas completam o visual.
Para as meninas existe ainda a alternativa de saias curtíssimas com coturno ou tênis e meias, muitas
vezes meia calça que pode ser rasgada, e para eles ou elas a bermuda ou o short. As jaquetas de
couro já foram usadas por aqui, principalmente na década de 80, mas atualmente só completa o
visual se for noite de frio.

Está descrição, no entanto, se refere ao visual clássico do punk, meio rasgado, gasto pelo
tempo. Confeccionado pelo próprio punk. Atualmente os punks com mais de 30 anos que não
aderem ao visual usam roupas joviais como jeans, tênis e camiseta. Ainda que não haja mais, com
clareza, um visual punk ali, por se confundir com estilo street, as escolhas das roupas são feitas de
forma consciente, seja pelo preço, pela cor, como Esqueleto que me disse que as roupas que veste
tem haver com seu estado de espírito, por isso as determina pela cor, pela sua ilustração.
95

O visual não deve ser encarado como um estado que fixa a imagem de um punk até porque as
alterações entre eles são várias, justamente por ser produzido por cada um. Como nas grandes
cidades há a diferenciação por tribos em Cuiabá, também o há. Não entre skinheads e punks, ou
entre as denominações do punk. A diferença agora aqui era outra:
Os núcleos se dividiam em grupos por afinidades! Ou seja, por estilos musicais, ou por gosto por
drogas. Os chamados junkies, que era formado por futuros integrantes do GTW e amigos, eles herdaram dos
roqueiros o consumo exagerado pela droga. O pessoal do heavy metal consumia drogas em escala menor, e outra
diferença ao clã do Grande Terceiro ao clã do Araés, era além do gosto por bandas metal, a falta de atitude em
correr atrás dos acontecimentos. Eles simplesmente esperavam as coisas acontecerem, os eventos musicais. Os
Punks do Araés eram avessos as drogas, mas estavam ligados ao núcleo do Grande terceiro, pois era lá que
fervilhava os primeiros acordes de revoltas, era reconhecido que os cabeludos do GT97 também gostavam de
HC98 e Punk Rock. entre estes grupos haviam respeito mútuos. Mais a treta rolava mesmo era entre punks do
Araés x Junks. Coisa de bolar plano de morte. Logo o punk cuiabano ganharia novos aliados,os primeiros
skatistas que por aqui surgiram, eram adeptos do punk rock e HC, então o núcleo punk era bem maior e mais
articulado.

As diferenciações eram menos bruscas, consolidando-se mesmo entre metaleiros e punks. Os


cabelos curtos e levantados do punk, pronto para enfrentar as tretas é uma das diferenças entre eles,
pois o metaleiro conserva seus cabelos bem compridos.

Todo esse visual era elevado no shows. Uma outra forma de linguagem são as letras das
músicas. Os temas, como de outras bandas punks brasileiras ou não, giram em torno da denúncia da
decadência da política, da insatisfação gerada pela desigualdade social.

Da banda Motivos para Morrer cito o material de divulgação da banda que trata a essência do
que é punk rock:

E por falar em música? O barulho está montado! Berros, uivos, contra-baixo, bateria, furadeira,
máquina mármore, liquidificador... Para incomodar seu ouvido. Sua cabeça não vai agüentar a anti-música da
banda Motivos para Morrer. Um extremo barulho totalmente anti-social voltado a expressão odiosa da
contracultura punk. repudiando a massa social, exploradora burguesa cristã que manipula nossas vidas e nos tira
a liberdade de vivermos com dignidade negando a existência deste mundo frio e capitalista sobrevivendo e
mantendo a cultura marginal do punk vivo e ativo na resistência. Formação: Luciano HC: Berros, uivos, contra-
baixo, bateria, furadeira, máquina mármore e liquidificador.

Tem-se o exemplo da banda Motivos pra Morrer de Luciano HC para demonstrar que o punk
rock, ainda que sem letra, é a válvula de explosão da contestação através da arte. Muitas vezes é
dito que a música punk é tosca pela sua simplicidade que dá acesso a possibilidade de tocar
instrumentos, graças ao três acordes necessários.

97
Bairro Grande Terceiro.
98
HC é a música ou cena hardcore.
96

O punk rock por si só é música de resistência, de acessibilidade a quem não tem


conhecimento clássico de música, de esbanjamento de energia que abre outras possibilidades como
propõe Bataille, a desnecessidade de palco, público grande, e a possibilidade de apenas tocar é algo
de soberano também proposto pelo autor: um não ter finalidade, não ter resultado, somente voltado
ao prazer.

É quando o punk rock toma a noite nos bares apertados. A letra dita em velocidade rápida mal
pode ser compreendida, cabe aos músicos distribuírem em zines.

A primeira banda de punk rock Blokeio Mental tem nas letras invocações contra o Estado, a
contradição que a legitimação do poder nos impõe. Problemas sociais são discutidos nas letras de
forma mais específica como Ditador que critica a reeleição e Fernando Henrique Cardoso. Está em
uníssono às temáticas do Hardcore e do punk rock, que tratam da indignação e da hipocrisia social.

Segundo Rodivaldo, os anarcopunks dessa época eram isolados, pesados em estética, pesados
sonoramente e pesados em posição política. Nada ver com os emos que herdaram do punk mínimos
resquícios de seus acordes. Porém, foram os punks dessa geração que iniciaram a discussão a
discriminação sexual principalmente com Aranha, Hyngryd, Edzar da banda Atrito.

Corvo lembra que visualmente eles também eram diferentes, Aranha, por exemplo, tocava nos
shows de saia ou calça fuseau. Para Corvo que afirma não ,se importar com nada, era um choque
ver um cara punk tocando de saia e se expondo em favor do homossexualismo.

Cuiabá, de acordo com ele, não estava preparada para essa exposição. Não havia passeata de
orgulho gay como acontece de uns anos pra cá, existia os michês na rua, mas era camuflado. Tudo
era muito escondido. Foi nessa época que a linguagem de ideologia, música, visual se articularam e
explodiram, logo, no comportamento dos novos meninos e meninas que passsavam a curtir punk
rock. Os punks da década de 80, principalmente, se chocaram com toda essa abertura. Muitas
meninas eram vistas beijando na boca de outras meninas nos shows.

O pior é o seguinte. O pior é que aqui em Cuiabá é mais tranqüilo. Eu vou te dar um exemplo, ali na praça da
republica. Agora a movimentação está toda ali na praça Alencastro, na frente da prefeitura. Ali esta uma matilha
de lésbicas e de veadinhos, e eles estão assim, abertamente, se beijando na praça, e do outro lado está o skatista e
do outro lado o pessoal que curte metal, que curte punk, hoje em dia está tudo misturado. Isso na década de 90
97

não existia não, se chegasse um perobinho ali já embaçando ali, já.. o pau comia pra cima dele. Tanto que
naquela época havia a rixa entre punk e skatista. A confusão era foda. Outro dia eu estava sentado ali na praça e
dois viadinhos se beijando. Eu disse olha só cara na década de 90 isso não existia não, eu não tenho preconceito
nenhum. Mas o cara tinha sido já dizimado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O punk, o caminho paralelo quando habita o corpo, como um sentimento audaz. Veste a pele
com a roupa da coragem e da vontade de transformar, impulsionado pela música dos bravos.
Articula a matilha pela coragem. Desabriga o comum, o óbvio. Mora na rua e faz da incompreensão
veneno que lhe fortalece. Permeia as veias da cidade destilando o vírus, que cabe muito bem aos
jovens que serão a arma de guerra para o lugar-comum.

O punk é tentativa de encontrar na sociedade uma outra sociedade vivendo nela mesma.
Como um raio, um relâmpago, pode a qualquer momento se esvair deixando o corpo novamente
refém das armadilhas que buscou escapar. Sua rigidez está em sua própria idéia, no seu ideal.
Quando faz do seu transpassar ordem, se encurrala. Como ser punk 24 horas por dia, como vencer
os obstáculos do sistema, e pior, como ultrapassar a própria força humana de sistematizar o caos?

É que no desvario ele se faz, como em um estado de vigília. Ao acordar pode encontrar as
cordas que o cercam em si mesmo, e aí então perde o dom do devir. Seu aprisionamento acontece
não só quando se torna grupo ou produto, mas, e o mais grave, quando se enrijece nas regras que ele
mesmo cria. De um lado, o fator da identidade, do pertencimento que o marca como símbolo de
uma juventude perdida, nada parecida com a aura que deveria ser herdada das ebulições de
contracultura, mas formatada na sociedade midiática, com cara, tipo, idade, classe social que,
consequentemente, o limita em toda plena existência. Do outro lado, tanta força, como se o próprio
corpo não suportasse tamanho brilho, toma dois caminhos: ou se estilhaça, eximindo-se da
realidade, ou retorna tentando controlar as forças da própria natureza.

Por isso mesmo o ser punk é negociado dentro do próprio sistema que é o corpo. Por sua
energia ser extrema, e por ter encontrado a superação que transborda os limites sociais, as amarras
do comportamento esperado, ele retorna do ponto de fuga para não morrer, para não enlouquecer
98

dentro dos parâmetros dessa mesma sociedade, e acaba repetindo os mesmos vícios daquilo que
combate: a obrigatoriedade, as regras, o respeito.

Quando reflito sobre isso, me lembro de Fabião, punk de Várzea Grande, esbravejando e me
questionando sobre a minha pesquisa. Fabião tem o punk como parte de sua vida, teme o expropriar
dos seus significados, do seu meio simbólico. Teme, sobretudo, a banalização do seu universo, do
seu conhecimento de mundo. E cobra dos punks de antes atitude, presença.

Fabião é um punk diferente dos que conheci em Cuiabá: fechado, sério, possui uma presença
ameaçadora; quando fala, parece sempre estar prestes a desferir um soco, dependendo da resposta
que ouve. É, no entanto, extremamente inteligente, rápido. Mas ele quer possuir o movimento
porque isso é sua vida. E aí acaba seu poder: limita o punk, reduz o punk a uma gramática finita do
que é ser punk, de quem é punk e quem não é.

Isso, inclusive, não é um comportamento dele apenas. Dos punks que conheci sempre obtive
a mesma pergunta e a mesma resposta: “Quem é punk pra você? Quem você está entrevistando?
“Mas ele não é punk. Aliás, ninguém aqui é punk”. “A não ser eu mesmo” é o fim da frase que não
se ouve.

O punk se torna então um ser incorpóreo! E talvez seja isso mesmo. Não há um punk, não há
um comportamento substancialmente punk que se permita existir dentro da duração do tempo
infinitamente, que se esvaia, indiferentemente, às relações sociais.

Isso seria o êxtase. O fim.

Então o punk encontra suas próprias armadilhas e sobrevive no meio social. É bem verdade
que a conduta do punk o atravessa. Seu sentimento de contestação, de não ajustamento às ordens
gratuitas, sua perseverança é, vendo a sociedade por olhos de observador, uma fuga.

Esse é o devir que surge, estando o punk no seu meio ou não, pois nele já se instaurou uma
capacidade de escapar da frágil corrente social, porque a correnteza da natureza, do animal que nos
habita, é muito mais forte, e a natureza nada tem a ver com a idade nem com as prescrições da
realidade inventada pelo humano para se viver no coletivo. A ela o punk despeja festivamente sua
singularidade animal. Lobo faminto.

O comportamento é o desestabilizador, e o punk é irônico por ser verdadeiro dentro da


pretensa ordem castradora. Quando se torna matilha, seu melhor é quando é uma matilha
99

desgovernada no sentido mais pleno. Assim, foge à regra e não se equipara a ordem alguma. Sua
falta de meta já é, em si mesma, a meta de estragar, sujar, deturpar, agredir.

Aí sim está o jovem interminável: no sentido de rir dos rótulos que lhe são dados. Se punk é
ser necessariamente jovem e desajustado, então eu realmente não conheci nenhum.

Ou como no filme Subúrbia, em que os punks jovens fundam uma comunidade em uma
parte abandonada da cidade com esse mesmo nome, que significa uma mistura de subúrbio com
utopia. O local é tomado por cães sem donos, que abandonados se tornaram selvagens. E eles
gostam dessa metáfora. Talvez porque eles mesmos não querem ser domesticados e fogem
buscando ausentar-se eternamente.

Se autointitulam rejeitados, querem viver uma sociedade outra, mas que não se esquiva da
sociedade que eles querem se livrar. Ser rejeitado para eles não é como se sentir abandonado, mas
sim como se sentir livre e pronto para uma outra construção social, diferente daquela que os rejeitou
ou de onde eles mesmos se sentiram rejeitados, o que é mais provável.

Assim são os squatters. Mas o tempo passa e o punk percebe a dificuldade de se afastar,
percebem como é complicado tentar mudar o mundo, e mais uma vez descobrem um caminho
possível, não o abandono, não mais a necessidade de se criar movimentos, mas a possibilidade de
vivenciar esse mesmo mundo, com todas as suas complicações. Querem agora poder alterar, ao
menos, os seus espaços e exercer sua microrrevolução ao conjugar novos aspectos de família, de
amizade, novos formatos relacionais com o outro.

Dessa maneira, quando me perguntam sobre onde está o movimento punk que estudo, digo
que está em qualquer um. Está em mim inclusive. Principalmente, quando pude realmente enxergar
o punk não como algo a ser decodificado, mas a ser sentido. Vivenciá-lo em seu ambiente,
experienciar a complexidade da sua potência de sentimentos, inclusive as enfermidades que sentem
na cidade, na urbanidade, na razão ortodoxa, e que embutem no próprio corpo e no corpo do grupo.
Acredito que o punk vive a experiência de tentar transformar sua própria mentalidade, algo talvez
mais livre da atenção do que se dispor a uma guerra contra o sistema, contra a globalização, contra
os políticos, porém, uma tentativa de interligação entre as partes ainda que aparentemente isoladas.
Equilibrar a potência da insubmissão, articulá-la à manutenção dos laços familiares, conjugais,
trabalhistas, comunitários, sociais, enfim, não é tarefa para garotos rebeldes. Como se fazer uma
100

nova sociedade é a pergunta que os punks se fazem há pelo menos trinta anos. Se são esperançosos,
pouco importa. Os punks são, sim, resistentes.

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MIRANDA, Claudia. Movimento anarquista inaugura QG em Cuiabá. Folha do Estado, Mato Grosso, 14
de abril 1999. Caderno Mais, p. 15;

RIBEIRO, Rodivaldo. 18 anos de rock em Mato Grosso. Diário de Cuiabá, Mato Grosso, 15 de janeiro
2003. Ilustrada, p.27.

Jornais e Revista eletrônicos

Caracterização de Má Índole. Edson Paes. Jornal de Debates. Disponível em


HTTP://www.jornaldedebates.ig.com.br/debate/punk-movimento-ou-gangue/artigo/caracterizacao-ma-
indole

Cientista estuda porque bons soldados torturam prisioneiros. Cláudia Dreifus. Globo.com. Disponível em
http://g1.globo.com/noticias/ciencia/0,MUL19398-5603,00html

Entrevista com Deleuze. Antonio Negri. Rizomas. Disponível em www.mogulus/filosofia

Mutações Contemporâneas. Peter Pál Pelbart. Estéticas da biopolítica – Audiovisual, política e novas
tecnologias. Disponível em http://www.revistacinetica.com.br/cep/peter_pal.htm

Noite de terça – 27/05 – O público e as bandas. Bruno P. Rodrigues. Operação Cavalo de Tróia.
Disponível em http://operacaocavalodetroia.blogspot.com/2008_05_01_archive.html

O caso do solitário. Gustavo Parisse Cassel. Um outro homem é possível. Disponível em


http://www.umoutrohomemepossivel.blogspot.com/2007/o3/o-caso-do-solitario.html
103

Imagens em movimento

SUBÚRBIA. Direção: Penélope Spheeris. Produção s/n. Los Angeles, www.arapongasmotor.com.br ,


ano 1984, formato Rmvb

Documento Sonoro

BLOKEIO MENTAL. Angustiado. Mato Grosso, 1985, 1CD;

BLOKEIO MENTAL. Ditador. Mato Grosso, 2003;

BLOKEIO MENTAL. Eu não queria estar aqui. Mato Grosso, 1997, 1CD

LIXOMANIA. Não, obrigado. São Paulo, MNF, 2005, 1CD;

RESTOS DE NADA. Deixem-me viver, São Paulo, Devil discos, 2002, 1CD;

RESTOS DE NADA. O meu direito à preguiça. São Paulo. Devil Discos, 2002, 1CD;

Zines

BAPTISTA, Alexandra. Cadernos de Sarjeta. São Paulo, 28 de junho 2002, p.09;

BATMAN. Face Oculta. Mato Grosso. 1999;

HYNGRID; ALLEN, Edzar; HC, Júlio. Atrito. Mato Grosso, 2002 – 2003;

SCHEFFLER, Rodolfo. Ovelhas Negras do Brasil. Curitiba. 1985, p. 05;

SCHEFFLER, Rodolfo. Ovelhas Negras do Brasil. Cuiabá. 1986, p. 04;

Folheto

HC, Luciano. Motivos pra Morrer. 2003;


104

Entrevistas

ALLEN, Edzar. Depoimento (agosto 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

ARANHA. Depoimento (janeiro, maio e agosto 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana e Miguel
Bezerra. Mato Grosso – UFMT, 2008;

CABELO, Daniel. Depoimento (agosto 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

CAROL PUNK. Depoimento (junho 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

CORVO. Depoimento (fevereiro, março, abril e maio 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana.
Mato Grosso – UFMT, 2008;

DIAS, Cláudio. Depoimento (julho de 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

DRAILLER. Depoimento (abril 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT,
2008;

ESQUELETO. Depoimento (julho 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT,
2008;

FERREIRA, Eduardo. Depoimento (abril 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

HYNGRID. Depoimento (fevereiro 2006). Entrevistador: Corvo. Mato Grosso – site Underground
Cuiabá, 2006.

PERLUIGGI, Luiz. Depoimento (setembro 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso
– UFMT, 2008;

RATO. Depoimento (maio 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT, 2008;

RIBEIRO, Rodivaldo. Depoimento (abril 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008;

RINO. Depoimento (março 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT, 2008;
105

NOITE. Depoimento (maio 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT, 2008;

SANT’ANA. Fernanda N. Depoimento (maio 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato
Grosso – UFMT, 2008;

SHEBBA. Depoimento (março 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso – UFMT,
2008.

SCHEFFLER, Rodolfo. Depoimento (maio 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso
– UFMT, 2008;

WOJCIK, Erik Lee. Depoimento (outubro 2008). Entrevistadora: Ana Paula de Sant’Ana. Mato Grosso –
UFMT, 2008.
106

Anexos

Início da Sessão: quarta-feira, 14 de maio de 2008

 Hanna (empoema@hotmail.com)
 Leandro Aranha>>><<< (aranhacba@hotmail.com)
(16:33) Hanna: aranha
(16:33) Leandro Aranha>>: oi
(16:33) Leandro Aranha>>: moça
(16:33) Leandro Aranha>>: fala ai
(16:33) Hanna: beleza? sabe do evento que estou realizando no festival de
cinema?
(16:34) Leandro Aranha>>: sim
(16:35) Leandro Aranha>>: eu vi seu nick
(16:35) Leandro Aranha>>: quando vai ser mesmo?
(16:35) Leandro Aranha>>: cherry
(16:35) Leandro Aranha>>:

(16:41) Hanna: dia 27 de maio, as 14 no centro cultural


(16:41) Hanna: aranha
(16:41) Hanna: vc iniciou no movimento em 90 né?
(16:42) Leandro Aranha>>: no fim
(16:42) Leandro Aranha>>: final de 99 início de 2000
(16:42) Hanna: quando vc começou como estava o movimento?
(16:42) Leandro Aranha>>: fragmentado
(16:43) Leandro Aranha>>: não conhecia ninguém daqui
(16:43) Leandro Aranha>>: eu come cei a envolver
(16:43) Leandro Aranha>>: com um amigo do movimento de sampa
(16:43) Hanna: ele morava aqui?
(16:44) Leandro Aranha>>: sim
(16:44) Leandro Aranha>>: morou aqui por uns dois anos
(16:45) Hanna: como foi isso? o que ele passava pra vc? e pq não conhecia a
galera daqui?
(16:45) Leandro Aranha>>: bem
(16:46) Leandro Aranha>>: eu não conhecia as pessoas daqui
(16:46) Leandro Aranha>>: pq nen sempre eles estava nos mesmo lugares que eu
(16:46) Leandro Aranha>>: e alguns já haviam desistido
(16:46) Leandro Aranha>>: outros mudado
107

(16:46) Leandro Aranha>>: de cidade


(16:47) Leandro Aranha>>: eu quando resolvi me "assumir" punk
(16:47) Leandro Aranha>>: não se via mais ninguém de moicano e o visual nos shows
(16:48) Leandro Aranha>>: o que me foi passado por este amigo foram muitos zines
(16:48) Leandro Aranha>>: sons
(16:48) Leandro Aranha>>: contatos de outras pessoas
(16:50) Hanna: e como vc conheceu a galera da banda? edzar, hyngrid???
(16:50) Leandro Aranha>>: a hyngrynd namorava com esse meu amigo
(16:51) Hanna: ela já era punk?
(16:51) Leandro Aranha>>: o edzar conheci atraves de outro integrante da banda
(16:51) Hanna: então havia uma galera punk desarticulada?
(16:51) Leandro Aranha>>: quando conheci ele era strait eddge
(16:51) Leandro Aranha>>: sim
(16:53) Hanna: e que não tinha se vinculado as décadas anteriores
(16:53) Leandro Aranha>>: uai
(16:53) Leandro Aranha>>: sabe quantos anos tenho?
(16:53) Hanna: quem é daqui de cuiabá dessa galera que conheceu?
(16:53) Hanna: rs
(16:53) Hanna: quantos?
(16:54) Leandro Aranha>>: hoje 23
(16:54) Hanna: rs
(16:54) Hanna: mas e o resto da galera?
(16:54) Leandro Aranha>>: na época tinha uns15 ou 16
(16:54) Hanna: alguém já era do movimento, ou vcs todos eram novos? e
quantos eram de fora e daqui de cuiabá?
(16:55) Leandro Aranha>>: eramos todos novos
(16:56) Leandro Aranha>>: tentandos nos encotramos nesse movimento
(16:56) Leandro Aranha>>: conheci alguns punks de fora
(16:56) Leandro Aranha>>: troquei material
(16:56) Hanna: o que faz alguém se tornar punk?
(16:56) Leandro Aranha>>: os daqui fui conhecendo aos pouco
(16:56) Leandro Aranha>>: ódio e revolta
(16:57) Hanna: como vc achou os punks de fora pra se comunicar?
(16:57) Leandro Aranha>>: bom pelo menos foi o que me levou a principio
(16:57) Hanna: acha que todos eles tinham isso ódio e revolta?
(16:57) Leandro Aranha>>: atravez do meu primeiro zine
(16:57) Leandro Aranha>>: que tinha outros contatos
(16:58) Hanna: e como essa parada mais anarquista foi vinculada a vcs?
108

(16:58) Hanna: e pq demorou tanto pra galera ser punks anarquistas


ativos?
(16:59) Leandro Aranha>>: bom...
(16:59) Leandro Aranha>>: no meu caso
(16:59) Leandro Aranha>>: foi assim
(16:59) Leandro Aranha>>: eu já tinha o necessario
(16:59) Leandro Aranha>>: que erra o ódio e revolta
(17:00) Leandro Aranha>>: eu só precisei identificar
(17:00) Leandro Aranha>>: do que eu sentia tanta raiva
(17:00) Leandro Aranha>>: e encotrei outros punks
(17:00) Leandro Aranha>>: que falavam de anarquismo
(17:00) Leandro Aranha>>: contra este sistema opressor
(17:01) Leandro Aranha>>: pronto comecei a leer e oesquisar sobre o assunto
(17:01) Leandro Aranha>>: e logo comecei a conhecer pessoas que tinha esta mesma afinidade
(17:01) Leandro Aranha>>: comigo
(17:01) Leandro Aranha>>: e depois de um tempo resolvemos fazer pequenas ações
(17:02) Leandro Aranha>>: até chegar ao ponto de resolver atirar a trota
(17:02) Leandro Aranha>>: torta
(17:02) Hanna: simm
(17:02) Hanna: e como foi depois disso? foi uma ação importante vc acha?
(17:03) Leandro Aranha>>: neurose total
(17:03) Leandro Aranha>>: me senti perseguido
(17:03) Leandro Aranha>>: observado
(17:03) Leandro Aranha>>: por um bom tempo
(17:03) Leandro Aranha>>: importante .... sim isso foi sim
(17:04) Hanna: pq?
(17:06) Leandro Aranha>>: ue´
(17:06) Leandro Aranha>>: para mim eu pude perceber
(17:06) Leandro Aranha>>: se quisessemos
(17:06) Hanna: perceber o queeeeeeee?
(17:06) Leandro Aranha>>: até onde poderiamos ir
(17:06) Hanna: sm
(17:07) Leandro Aranha>>: e o quão perigoso poderiamos nos tornar mos
(17:07) Hanna: seria mais uma importancia dentro de cada um né?
(17:07) Leandro Aranha>>: junção explosiva
(17:07) Leandro Aranha>>: sim
(17:07) Hanna: e depois dias houveram outros "atentados"?
(17:07) Hanna: rs
109

(17:08) Leandro Aranha>>: não comigo


(17:08) Hanna: e vc sabe de algum?
(17:09) Leandro Aranha>>: não
(17:09) Leandro Aranha>>: eu depois disso
(17:09) Leandro Aranha>>: me desliguei de todos
(17:10) Leandro Aranha>>: daí comecou outra história em minha vida
(17:10) Leandro Aranha>>: hehehee
(17:10) Hanna: depois disso é?
(17:10) Leandro Aranha>>: sim
(17:10) Leandro Aranha>>: espero ter ajudado pelo menos um pouquinho no trabalho
(17:11) Hanna: vc sempre me ajuda
(17:11) Hanna: vou ver se apartir disso consigo escrever mais umas coisas e
qualquer coisa te chamo
(17:12) Hanna: obrigada aranha, pela sua disposição em me ajudar
(17:12) Leandro Aranha>>: ok
(17:12) Leandro Aranha>>: bom
(17:12) Leandro Aranha>>: faço o que eu puder para te ajudar
(17:12) Leandro Aranha>>: ok
(17:12) Leandro Aranha>>: beijos
(17:12) Hanna: eu irei gravar uma entrevista com vc quando o festival
acabar

(17:13) Leandro Aranha>>: ehhehehehe


(17:13) Leandro Aranha>>: ta

Início da Sessão: quarta-feira, 14 de maio de 2008

 Hanna (empoema@hotmail.com)
 Leandro Aranha>>><<< (aranhacba@hotmail.com)
(18:37) Hanna: aranha, eu de novo.
(18:37) Leandro Aranha>>: fala meu bem

(18:38) Hanna: qual a sensação que vc


tinha quando se
preparava o visua?
(18:38) Hanna: rs
(18:38) Hanna: *visual
(18:38) Leandro Aranha>>: como uma caveleiro se
preparando para uma batalha

(18:38) Leandro Aranha>>: em alguns momentos

(18:39) Leandro Aranha>>: em outros como um serial


110

killer pensando na próxima


vítima

(18:40) Hanna: sabe me dizer o que


determinava um
sentimento ou outro?
(18:40) Leandro Aranha>>: sim

(18:40) Leandro Aranha>>: quando eu ia tocar me sentia


o serial

(18:40) Leandro Aranha>>: agora quando ia apenas dar


um role

(18:41) Leandro Aranha>>: me sentia como a cavaleiro

(18:41) Leandro Aranha>>: o*

(18:41) Hanna: e quando saia as ruas?


como as pessoas te
olhavam?
(18:41) Leandro Aranha>>: putzzzzzz

(18:41) Leandro Aranha>>: ausuhasuhasuhasuh

(18:41) Leandro Aranha>>: e como

(18:42) Leandro Aranha>>: as vezes algumas pessoas


atravessavam a rua

(18:42) Leandro Aranha>>: para não passar perto de


mim

(18:42) Leandro Aranha>>: algumas vezes as velihas


olhavam para mim e benziam

(18:42) Leandro Aranha>>: o corpo e tudo mais

(18:43) Leandro Aranha>>: já fui chamado do capeta


inumeras vezes

(18:43) Leandro Aranha>>: hehehehe

(18:43) Hanna: vc acha que o visual de


vcs poderia chocar mais
que na década de 80?
(18:44) Leandro Aranha>>: não

(18:44) Leandro Aranha>>: penso que não

(18:44) Leandro Aranha>>: pois década de 80 era algo


realmente novo

(18:45) Hanna: sim


111

(18:45) Leandro Aranha>>: até porque a tendencia da


moda de 90 para 2000

(18:45) Leandro Aranha>>: estava ligada a essa coisa de


rock

(18:45) Leandro Aranha>>: especialmente o punk

(18:45) Hanna: sim


(18:46) Hanna: mas pq será esse
espanto nessa época tão
recente?
(18:46) Leandro Aranha>>><<< alterou
o estado para Ocupado
(18:46) Leandro Aranha>>><<< alterou
o estado para Online
(18:47) Leandro Aranha>>: apesar de não ser nenhuma
novidade
(18:47) Leandro Aranha>>: aqui não era tão comun
(18:47) Hanna: sim
(18:47) Leandro Aranha>>: até pq quando eu usava esse
visual de dia

(18:48) Leandro Aranha>>: eu não havia encontrado


ninguém que

(18:48) Leandro Aranha>>: estive perambulando por ai

(18:48) Leandro Aranha>>: daquele jeito

(18:48) Hanna: hummm


(18:48) Hanna: e a galera do atrito? não
andava de visual?
(18:49) Leandro Aranha>>: depois de um tempo

(18:49) Leandro Aranha>>: sim

(18:49) Leandro Aranha>>: mas o "escrotão" era eu

(18:49) Leandro Aranha>>:

(18:50) Leandro Aranha>>: é mas com o tempo foram


aparecendo mais e mais
pessoas

(18:50) Leandro Aranha>>: daí me tronei comun

(18:50) Leandro Aranha>>:

(18:50) Hanna: quem eram essas


pessoas?
112

(18:51) Leandro Aranha>>: alison

(18:51) Leandro Aranha>>: cora

(18:51) Leandro Aranha>>: edzar

(18:51) Leandro Aranha>>: igor

(18:51) Leandro Aranha>>: bob

(18:51) Leandro Aranha>>: tainan

(18:52) Leandro Aranha>>: e outros que não lembro o


nome agora

(18:52) Leandro Aranha>>: nenhum deles

(18:52) Leandro Aranha>>: que eu conheci que morava


lá era o rodolfo

(18:52) Hanna: certo


(18:52) Leandro Aranha>>: mas esse é tipo dinossauro

(18:52) Leandro Aranha>>: uhsauhasuhas

(18:52) Hanna: antiiiiiiiigo?


(18:53) Hanna: vc chegou de sentir uma
necessidade de busca da
natureza em alguns
punks?
(18:53) Leandro Aranha>>: como assim natureza?

(18:53) Leandro Aranha>>: tipo arvores

(18:53) Hanna: rs
(18:53) Hanna: mato
(18:54) Leandro Aranha>>: e afins

(18:54) Hanna: cachoeira


(18:54) Leandro Aranha>>: hummm

(18:54) Leandro Aranha>>: sim

(18:54) Leandro Aranha>>: e muito

(18:54) Hanna: eu acho engraçado isso


(18:54) Leandro Aranha>>: tanto que acabei depois de
algum tempo m,orando e
trabalhando na salgadeira

(18:54) Hanna: punks parecem tão


ligados a metrópole a
113

cidade
(18:54) Hanna: vc era punk ainda?
(18:54) Leandro Aranha>>: eu acredito que seja overdose
de concreto

(18:55) Leandro Aranha>>: mais ou menos

(18:55) Hanna: mais ou menos???


(18:55) Leandro Aranha>>: pq já tinha abandonado o
visual

(18:55) Leandro Aranha>>: a militancia

(18:55) Leandro Aranha>>: mas ainda tinha

(18:55) Leandro Aranha>>: aquilo que me fez começar a


ser punk

(18:55) Hanna: vc acha que o punk


partiu pra o
individualismo?
(18:55) Leandro Aranha>>: o ódio e revolta

(18:55) Leandro Aranha>>: nada

(18:56) Leandro Aranha>>: partiu de markting

(18:56) Leandro Aranha>>: isso claro

(18:56) Leandro Aranha>>: que para mim

(18:56) Hanna: ok
(18:56) Hanna: qualquer coisa grito de
novo
(18:56) Hanna: vc vai no dia 27
né????????????
(18:57) Leandro Aranha>>: ahh

(18:57) Leandro Aranha>>: acho que sim mas nun sei


ainda

(18:57) Hanna: pq??


(18:57) Hanna: eu quero muito que vc vá
(18:57) Hanna: será uma honra pra mim
(18:57) Leandro Aranha>>: eu to passando mais uma vez
por uma situação meio foda

(18:57) Leandro Aranha>>: uia

(18:57) Leandro Aranha>>: fico lisonjiado


114

(18:57) Hanna: então tb me deixe


(18:59) Leandro Aranha>>: ok
(19:00) Hanna: eba
(19:00) Leandro Aranha>>: você é uma mulher que
maravilhosamente bem

(19:00) Leandro Aranha>>: não tem como resistir a seu


argumento

(19:00) Leandro Aranha>>:

(19:00) Hanna: quando estiver mais


próximo te aviso de novo
(19:00) Hanna: yeah!
(19:00) Hanna: abraços
(19:01) Leandro Aranha>>: abraços
(19:05) Hanna: outra coisa: como vc
acha que acabou essa
última fase do
movimento punk?
(19:06) Leandro Aranha>>: sabe

(19:06) Leandro Aranha>>: o capitalismo é muito


interessante

(19:07) Leandro Aranha>>: tipo ele se diz sem


preconceito

(19:07) Leandro Aranha>>: te abraça te acolhe

(19:07) Leandro Aranha>>: e te transforma nun produto

(19:07) Leandro Aranha>>: e assim é o fi m do punk

(19:07) Leandro Aranha>>: virar produto

(19:08) Leandro Aranha>>: pq já viu as lojas


especialzadas

(19:08) Leandro Aranha>>: nesse publico?

(19:08) Hanna: concordo totalmente com


vc
(19:08) Hanna: mas e especificamente
aqui em Cuiabá?
(19:10) Leandro Aranha>>: bom
(19:11) Leandro Aranha>>: não vai ter fim
(19:11) Hanna: acha que não teve fim?
(19:11) Leandro Aranha>>: que vai conhecer
115

(19:11) Leandro Aranha>>: sempre vai ter aquele garoto"a"


(19:11) Hanna: mas e o MOVIMENTO?
(19:11) Leandro Aranha>>: a fazer toda a trajetória que
todos fizemos

(19:11) Leandro Aranha>>: ah

(19:11) Hanna: RS
(19:11) Hanna: difícil né?
(19:11) Leandro Aranha>>: isso não saberei te dizer

(19:12) Leandro Aranha>>: foda

(19:12) Leandro Aranha>>: asusauhauhauh

(19:13) Hanna: aranha


(19:13) Hanna: estou saindo mesmo
agora
(19:13) Hanna: rs
(19:13) Hanna: mas volto daqui uma
hora
(19:13) Leandro Aranha>>: ok

(19:13) Hanna: se estiver aí


provavelmente irei te
encher de perguntas
(19:14) Leandro Aranha>>: é sempre um prazer falar
contigo

(19:14) Leandro Aranha>>: hahahaha

(19:14) Leandro Aranha>>: ta ok

(19:14) Hanna: obrigada


(19:14) Leandro Aranha>>: beijos

(19:14) Hanna: beijos

Carol Punk
Carol

Começo

Eu assisti um filme, se não me engano, o primeiro filme do Robocop, a mídia tem essas manipulações, o punk é
o vândalo, é o surfista é retardado, o metaleiro é bandido, ou seja, cada um tem a sua classificação, eu via na
116

TV e eu via na TV e ficava: nossa que legal, eu achava que isso não existia no mundo..eu achava que era uma
coisa só do filme.. eu achava: nossa, que legal... aí eu vi que existia no mundo e quis conhecer..

A minha história começou aqui em Cuiabá mesmo, eu comecei com a galera anarquista, que era o Claudio Dias,
que tinha o CTL.

Os dois. Primeiro a mídia. Em questão de Brasil: Quem é que está na rua se manifestando? se não é PT, CUT,
Movimento Negro... é o punk, e a mídia passa como: ah, ta fazendo baderna, ta destruindo tudo, e os caras
estão se manifestando pelo povo... a mídia deturpa um pouco, mas os próprios indivíduos, porque é
complicado você dizer: ah, o punk é isso, todos que se dizem anarco tem que ser assim, porque se trata de
indivíduos, né? Trata de cada um, dentro do punk tem punk 77, raw punk, punk que é crush, eu já não tenho
mais saco pra isso..

Eu estou totalmente fora disso, o punk é uma coisa que está no meu sangue, pra não entrar em atrito... não me
fala em eclético, eclético é uma coisa que eu sempre zuei... isso pra mim é farofa, então pra não entrar em
atrito eu digo: eu sou estúpida mesmo, eu só gosto de punk rock.

Mas é sentimento só, pra mim hoje em dia é sentimento que eu tenho e vou ter sempre. Tem um amigo meu
de Londres, ele me mandou um email com essa conversa: ah, isso é uma coisa que a gente se acostumou, ter
esse pensamento caótico, essa coisa contra o sistema, sai fora disso, mas como assim sai fora disso, eu não
ando mais de visu como eu andava antes, mas uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa, essa coisa é o
sentimento... eu não sei, de repente deve ter sido a política pra ele que mexeu, não sei...

Eu comecei pelo meio anarquista, primeiro essa coisa de questionar, como Rodolfo diz: ovelha negra já nasce
negra... aí estudei sempre em colégio particular, sempre no meio de burguês, aí você começa a questionar,
começa a ver umas coisas e começa, tipo: pra quê, por que? Eu não tinha porque ser anarco. anarquismo tal aí
política, aí começou a politicagem, já tinha uma galerinha punk aqui, tinha o Paulo, era o Jésus, eram dois
assim, sempre é minoria, sempre vai ser minoria... e tinha aquela coisa também que anarquista não dá com
punk, nunca, né? Anarquista não gosta de punk, e aí eu fui me identificando mais com punk, inclusive até o
vegetarianismo, apesar que eu acho que quem é vegetariano já nasce vegetariano, mas eu conheci com eles,
sou vegetariana a 11 anos... Aí foi um interesse mesmo pela cultura, você começa a querer saber, comecei a
trocar cartas, não tinha email. Tinha rotina de estudar, encontrar galera, pra discutir, falar de política, com uns
13, 14 anos.

Anarquismo x Comportamento

Eu deixei de ser anarco, costumo dizer que não cuspo no prato que comi, mas eu peguei raiva de anarco,
assim.. eu deixei de ser anarco, mas eu estava lá na Bahia, tomando bomba da polícia, o ACM, filho da puta,
fechou a estrada que era pra chegar mais 3 ônibus de anarcos, nessa manifestação tinha muita polícia, muita
polícia, era uma coisa surreal, mas uma coisa que eu até me arrepio quando eu conto, sabe? Você dá os braços
quando você está marchando contra a polícia, porque você acredita na mudança social, você está olhando pro
povo, e aí toda treta que rolou ali, você conversando com o pessoal que morava ali, eles tinha consciência, ó...
essa terra é dos índios, eles sabiam que estavam errados, sabe? É foda, essa questão política, eu não cuspo no
prato que comi, sabe? Acho lindo, é uma coisa que eu estava até conversando com Daniel, eu do meu lado
cético, entendeu? E eu falo pra ele, tem que ter pessoas como vocês, porque eu acho que a mudança social só
acontece aí mesmo, se a passagem não aumentou... se alguma coisa melhorou... é porque tem gente dando a
sua vida, se fodendo com a polícia, e a mídia passa: olha aí, tem vândalos na rua..
117

Eu acho lindo sabe? Mas pra mim não serve mais, eu acredito em formas mais sutis de mudanças, você ajudar
uma pessoa, é questão energética que eu falo, você ajudar uma pessoa, conversar com uma pessoa... essa
coisa mais sutil, que você também tá atuando no mundo.. essa coisa mais eu sou formada e acupuntura, boa
parte da minha vida é baseada na filosofia chinesa, o in e o yang, tudo o que existe na vida só existe com a
união dos dois, senão se separam já é uma questão cultural que o ocidente separou, no caso eu estudei na
medicina, então eu saberia explicar mais em termos de patologia, porque que a doença vem, e é exatamente
por isso, você separar o negativo, aí você adoece, você não assume a sua sombra e aí você adoece... Yang é
esse povo que está na rua, se fodendo, como eu já fiz, não posso ver na TV que eu já saio correndo e já estou lá
na rua de novo, mas eu não quero mais envolver com isso, e essa outra parte energética, entendeu? Que é no
dia a dia, sei lá, coisas pequenas, coisas bobas, de repente eu penso assim, se vai comprar um salgado aí por
quilo, aí sei lá o cara coloca mais dois, mas o cara tem que babar ovo do patrão, eu acho quando eles fazem
isso uma coisa anarquista. Mas eu não tenho mais esse tipo de esperança.

Aí é que eu falo, a questão política, sabe? A política nunca vai estar separada de mim, eu só não atuo mais. Não
acredito, não não é sim, tem que ter, mas não é mais pra mim, mas não vou mais me foder por alguém que não
está nem aí..

Rio de Janeiro, movimento pela paz. Aí você entra no ônibus é um empurrando o outro, aí você pergunta: que
paz é essa? Essa paz começa aí, é um bom dia que você dá, é ajudar uma pessoa aqui.. um dia eu subi a
passarela, meio dia, aí uma senhora passando, ó, devagar, o sol ta quente, aí ela olha e quem sou eu, é o que
eu digo pro Daniel, o ser humano não vai mudar por consciência, ele vai mudar por necessidade. Quem tem
uma consciência política e ta manifestando pelo todo, ele ta manifestando pelo todo, o movimento sem terra
pra mim são pessoas ignorantes, ele não ta ali pensando.. ele ta ali pra salvar a família dele, ele ta pensando no
dele, é que nem falam, quando não tiver mais água, aí é que a pessoa vai despertar, aí é que a pessoa vai
mudar, não vai ser por consciência nenhuma não, vai ser por necessidade de mudança, então eu não consigo
estar solta de uma consciência política, mas eu acho que é dessa forma, pra mim.

Eu sou capaz de respeitar um nazista, sim, eu acho isso a coisa mais anarquista que poderia ter, anarquista a
ponto de não respeitar? Que libertário é? Porque hoje eu já penso assim, o ser humano é livre pra fazer o que
ele bem entender, ele vai arcar com as merdas que ele fizer, não vai? O punk está na diferença do respeitar e
do aceitar, o punk está no respeitar. Não quer dizer que eu aceito o nazismo, acho a coisa mais estúpida,
nacionalismo, pô, quer coisa mais estúpida que nacionalista, entendeu? Pô, essa dificuldade toda que você tem
com passaporte, pra conhecer uma outra cultura, esse negócio de território, né? Isso é ridículo, mas e aí? Eu
não gosto de pagode, eu vou sair matando todo pagodista?

O povo sabe que eu vou em shopping, vou mesmo, sou consumista, entendeu? mas a minha essência cultural,
o que eu gosto, o som que eu gosto, o visual que eu gosto, as idéias que eu gosto. Cultura, né? Cultura é o que?
É um conjunto de costumes e hábitos que você tem, ir no cinema, teatro, mas todo mundo consome do mesmo
jeito. Mas não teve um que chegou pra mim e disse é for fun, mas não chega, é punk ainda... eu não tenho com
isso, de andar assim, de tirar o visual, não está fora, está dentro.

Todos consomem, qual a diferença? Vai no salão e faz chapinha, põe piercing, qual a diferença, todos
consomem. Todo ser humano é igual, na sua essência todo ser humano é igual, por fora... todos consomem. É
uma vaidade da mesma forma.

Os iguais se procuram. Acho que você procura estar dentro daquele grupo de pessoas que você se identifica,
que você aceita. Pô, vai eu chegar toda no salão, eu vou no salão fazer unha, aí eu vou de moicano, ta, não dá
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nada, mas vai de você, você sabe o que que aquilo vai causar, o que que aquela repressão de certa forma, vai
de como você vai lidar, o punk tem isso muito do emocional do psicológico, porque pra você assumir um visual
você tem que peitar, viu? Porque não é fácil, é o preconceito, a discriminação, as pessoas olhando torto, você
ser mal atendido, porque isso acontece sim, então é assim, se eu quiser tirar o visual eu tiro e não sou menos
punk por isso, então vai de tão cabeçudo você é pra saber lidar com essa sociedade, é uma adaptação porque
você tem que sobreviver, aí já é palhaçada pra mim, porque você tem que comer, tem pessoas que não fazer
questão de ter conforto, mas eu acho que isso não é verdade, tem história de punk que estavam na rua, foram
pra minha casa, aí.. toma um edredon aí... não não quero não.. e de manhã estavam lá enrolados no
edredon...todo ser humano quer conforto...aí, sei lá... tem uns que não tem tanta ambição, sei lá... eu tenho...
aí vou me adaptar... tem que andar assim... tá bom... vai ter o show do cólera? Demorou, vou levantar o
moicano...não tem mais essa crise sabe? O punk tá dentro de mim. Adoraria que me esquecessem...

O punk é uma pessoa comum, como qualquer outra, que tem suas afinidades culturais, como a dentista que
tem que andar de branco, ela tem os costumes dela, o punk, sei lá, se ele trabalha numa fábrica, se ele é
advogado, tem um amigo meu que é advogado e toca numa banda, e aí o que ele faz final de semana? Então
isso é um pensamento bem terceiro mundo, sabe? Você ficar naquela tem que ser assim, e não é assim, é
individual, sabe?

A arte está ligada ao do It Your self, é o faça você mesmo... isso é muito legal, aí você vem um jaco assim, ah, o
jaco de fulano, é uma coisa única sua, ninguém vai ter o patch do The Clash ali, não vai ter outra igual, o fanzine
é a mesma coisa, você não vai numa gráfica imprimir, você faz, você pega as matérias, monta do jeito que você
quer, esse do it your self que que acho lindo, você criar o que é seu.

Eu fui agredida aqui em Cuiabá, o pessoal acha que suspensório é coisa de nazista, aí o cara não te conhece,
não te estende a mão, e aí aquela coisa típica do movimento, ô, meu e aí, firmeza? O que que você é 77? 69?
Raw punk? crush? Ah, não fode, cara, aí meu amigo disse pra ele, eu sou cachaceiro, eu sou cachaceiro, aí você
começa dissociar, você gosta daquilo... mas... quando tiver um show eu vou de sandália, aí, porque o povo tem
que implicar, aí você compara com a sociedade, tem alguma diferença? Não é a mesma merda?

O cara foi mandante ideológico, ele fez a cabeça de quem não me conhecia, fez a cabeça dos hippies da praça,
porque aqueles ali, meu, não tem nem vida, são pessoas mortas, não tem nada a perder, aí o cara chegou
dizendo que eu andava com careca, uma hippie negra bateu em mim, lógico, o cara divulgou que eu sou nazista
e quem vem pra bater em mim é uma negra, aí eu cheguei pra fazer o B.O. e a enfermeira disse ai, meu deus,
isso já está chegando em Cuiabá? (risos)

Cláudio Dias

Cláudio Dias

O coletivo surge a partir de 95, a partir de um cenário, ele não surge do nada. Tinha gente que vinha
participando do movimento estudantil na Escola Técnica, tinha umas siglas, era mais um movimento
sem uma junção, mas a gente chamava de Movimento Estudantil Libertário, MEL, mas não era uma
organização, mas às vezes só pra assinar um panfleto a gente se denominava dessa forma, tinha uma
atuação num grêmio, não num grêmio, mas teria nas instâncias dos movimentos estudantis da
universidade e nos Congressos Estaduais de Estudantes, a gente ia anarquista, como libertário ali, e
ia aglutinando gente, conhecendo outras. Então, isso era um setor ali do Coletivo, outro setor que
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também tinha uma intenção, já tinha um cenário que movimentava era mais underground assim, né?
Pelo MUC, as pessoas que participavam do MUC, ou iam nas reuniões, na verdade eram encontros
de jovens, pra conversar ou pra beber, e fazer ação... A ação do MUC era pixar, né? Pixar muro, essas
coisas, e depois que a gente começou a regularizar as reuniões de uma forma mais de debate mesmo
aí começamos a fazer na universidade onde ali é a ADUFMAT, só que era aberto e domingo a gente ia
pra lá, quem organizava isso era o Rodolfo, o Rino participava, e aí ia pessoas tanto punks, quanto
metaleiros, a proposta do MUC era um pouco isso. Era juntar todo mundo ali e discutir.
Com o lance da pixação era um lance meio de trazer uma discussão política, mas também tinha um
lance de ir pra um lugar e curtir um som, uma coisa meio assim sem muito compromisso formal
assim...
Mas começou a dar uma repercussão assim, porque todo mundo via as pixações, tinha bastante no
centro, todo sábado praticamente o pessoal saia pra pixar, e aí começou a se politizar mais a gente
começou a sentir necessidade de ter um espaço mais formal. O Rodolfo organizou o fanzine do MUC
que era Cuiabá Underground, né? E aí nesse processo de politização quem ficou mais foi a galera que
tinha uma posição mais libertária, né? Mais política, né? Alguns já atuavam no movimento estudantil,
mas também atuava também no MUC, e tinha pessoas que atuava no movimento estudantil e não
atuava no MUC, né? E aí a gente falou: não, a gente podia juntar tudo, né? Uma proposta um pouco
mais aberta, além do underground, né? Uma proposta política, cultural, de contracultura, e de
cultura alternativa, e juntar essas pessoas dentro de um grupo, né? Mais aberto que o MUC, que o
MUC sempre foi muito esteriotipado que era coisa de metaleiro, então a gente teve necessidade de
formar o Coletivo Libertário, depois que a gente colocou Coletivo de Cultura Libertário.
O Coletivo Libertário juntava mais gente, né? Porque ele juntava os estudantes, e juntava o pessoal
mais ligado a questão underground, que também às vezes era estudante, né? Então isso foi em 94
quando a gente tinha uma experiência do movimento estudantil, tinha um grupo de movimento
estudantil grande, que tava se afinando com o pessoal anarquista, e já tinha umas pessoas que não
estava contentes com a questão só do underground, tavam querendo partir pra uma outra discussão,
e aí a gente tinha essa visão de uma necessidade de juntar todo mundo, né? Independente ser metal,
punk...

Bandas a gente tinha carência... Apesar que nem todos eram punks, mas todo mundo gostava de
uma música mais de protesto, tinha uma questão política assim, né? A cena tava com o
fortalecimento do metal, né? O próprio GTW tinha muita crítica, tava indo pro lado do crossover, né?
O Drailler tava na guitarra, tinha morrido o Vicente, que era o guitarrista que veio antes, da formação
original, que era punk, que tinha uma levada mais tradicional, do hard core, aí a gente, o GTW ta indo
pro lado do crossover, não tinha uma banda de punk rock mesmo, assim, né? A galera gostava do
punk rock mais tradicional, assim, né? E aí a gente resolveu montar uma banda, assim.. Isso era uma
coisa que caminhou paralelo ao projeto pessoal, paralelo ao Coletivo, né? Mas que depois acabou
tudo junto impulsionando a cena, né? Mas a necessidade, a princípio, nossa era o quê? Fazer um som
que a gente queria escutar e que a gente não escutava nos shows, né? Era uma coisa bem simples...
Nem tinha uma discussão mais politizada, tipo, Garotos Podres era fascista, depois que a gente
começou a ter contato com grupo de fora, aí a gente meio que rompeu... aí a gente montou a banda
Joãozinho e Maria. Isso foi em 93, a gente tocou a primeira vez na Escola Técnica.
A gente começou a fazer umas ações no 7 de setembro. A gente fez uma ação no 7 de setembro que
a gente reuniu a galera mais punk, a galera mais estudante, pra fazer pixação e panfletagem, e sair
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no 7 de setembro no centro, na Getúlio Vargas, tradicionalmente o movimento punk sempre fez, em


Cuiabá a gente não sabia se os caras tinham feito antes, a gente acreditava que sim, mas a gente
começou a fazer em 93, fizemos a primeira, e em 94 fizemos já como Coletivo Libertário que aí foi
uma coisa maior...
A gente fazia tipo uma performance, tipo colocar um militar encoleirado por um burguês, né... essa
coisa... cão de guarda da burguesia, né? E aí a gente fez um panfleto, acho que até o Jomar que fez a
arte, que era charge, que era uma coisa mais de humor, a gente mexia com essa questão do lúdico, a
gente aparecia tocando também, parodiando uma fanfarra. Eram umas 20, 30 pessoas, a gente
pegava a rasteira do desfile, né? Entrava na avenida, em 94 nós entramos.. no final sofremos uma
repressão... os caras foram lá, mas não tinha o que fazer, pegaram a coleira nossa... Era ações de
panfletagem propagandística que a gente fazia.
13 de maio a gente fazia, na época do próprio MUC, transição MUC – Coletivo, né? Rodolfo fazia
charge, a gente ia fazer panfletagem, falar sobre a escravidão, que a escravidão continuava até hoje,
fazer uma denúncia assim... a gente fazia ali naquela roda da praça da republica, época de Natal, a
gente fazia na época do Coletivo, contra o consumismo... Mas tradcional era o 7 de setembro,
durante uns 3 ou 4 anos nós fizemos todo ano. Era sempre falar que a independência era uma farsa,
que a independência foi comprada, que não éramos independentes de fato, e a questão do
militarismo, né? E as bandeiras do movimento punk: armas não matam a fome, esses slogans assim..
e fazíamos a pixação antes, amanhecia 7 de setembro a cidade já estava no centro com algumas
pixações, a galera que fosse subindo já ia vendo as pixações.
E aí começamos a fazer as reuniões e pensamos: a gente precisa de uma sede, na verdade desde o
início havia essa vontade de ter uma sede, um local pra todo mundo se encontrar, porque éramos
um grupo de amigos, de afinidade, que de certa forma ainda é, né? A gente queria ter um lugar
nosso, morava todo mundo na casa de pai, um lugar pra gente se organizar, pra ter uma biblioteca,
um espaço pra banda ensaiar, morava em apartamento, ensaiava no apartamento, no meu quarto,
ou às vezes ensaiava lá em Várzea Grande, ia de ônibus, levava a bateria, ou na casa de amigo,.
A nossa primeira bateria compramos até do Blokeio Mental, a gente achou legal que foi uma
transição, pegou a bateria lá no Batman, de ônibus, até lá no centro, carregando uma bateria, bateria
do Blokeio Mental, que era a primeira banda punk daqui, tipo assim, Joãozinho e Maria com uma
bateria que era da primeira banda punk, e na época não tinha nenhuma banda punk... GTW tinha
uma afinidade com o punk, a Rosi e o Rodolfo na produção, mas os integrantes não tinham aquela
coisa da política assim que a gente queria ver e mesmo o som já estava indo por um outro caminho,
então a gente tinha essa vontade mesmo de fazer.
E aí com o Coletivo a gente pensou e aí, como é que nós vamos fazer pra ter essa sede? Vamos fazer
alguns shows, porque a gente já tinha esse contato com banda, e vamos fazer uma grana pra poder
pagar os aluguéis iniciais e depois a gente toca ali um projeto cultural, com bar, vende cerveja tal,
assim...

Tocava GTW, Joãozinho e Maria, Mister Magoo, Juke Box, e bandas que começaram lá, como Alergia,
hard core mesmo (Wender do Caximir (TEM GRAVAÇÃO), Anarcore (TEM GRAVAÇÃO), Fungo de
Trigo, Fantasma, Atena (as duas de metal).

Todo ano tinha um tributo a Raul Seixas, tinha uma galera que era Raulseixista, era uma coisa meio
estranha, porque punk geralmente eles não gostam de Raul Seixas, né? Então não era um punk
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tradicional como de São Paulo... Essa galera era assim... Até acho que os punks antes da gente, eles
eram mais sectários, aquela coisa do punk mesmo... a gente já era uma coisa que transitava por
outros caminhos, né? Mistura assim...
POR QUE SERÁ ESSA ABERTURA?
Acho que por causa de falta de contato com o pessoal de São Paulo.
NA ÉPOCA DELES SE CORRESPONDIAM POR CARTA, E VOCÊS?
A gente se correspondia, tinha um galera mais punk que se correspondia, eu era meio ruim de
correspondência, mas eu fazia um fanzine de poesia, tinha uma mala-direta, uns contatos, mas era
assim de poesia, nem era assim punk, mandava pra galera mais punk mas não tinha um
direcionamento.
A gente tinha contato e ficamos sabendo do I° Congresso Punk, foi no Rio de Janeiro, aí isso foi um
momento de transição, foi o momento de conhecer outras coisas, e aí a gente compra idéia, com 18,
19 anos você compra muita idéia, né? Então como a gente tava muito isolado a gente tinha essa
coisa mesmo, e chegando lá a gente queria tocar, a gente se sentiu até meio discriminado, primeiro o
nome da banda Joãozinho e Maria...
O Julio foi com a gente, né? O Rino. O Rino era da banda, e ele já estava meio saindo do punk,
chegando lá era um Congresso embaixo de um viaduto numa favela, né? Era embaixo de um viaduto,
precário pra caramba a situação, né?
MAS POLÍCIA NÃO IA LÁ E FECHAVA TUDO NÃO, NÉ?
Não porque quem mandava era o Comando Vermelho, a gente olhou pra cima e “o que que é aquela
cruz lá?” “é área do Comando Vermelho, tem que ter essa cruz acesa à noite”. Só que na ultima noite
teve, a polícia chegou lá de madrugada, vixi a gente vai morrer...” Mas o Congresso não foi bom, o
Rino que já estava meio decepcionado, já estava no fim do punk dele, foi pra praia e ficou só eu e o
Camacho tentando tirar alguma coisa...
MAS POR QUE NÃO FOI BOM?
A estrutura era muito precária, tinha galera que ia ali pra usar drogas, e curtir mesmo e tinha galera
que estava ali pra discutir, esse teve esse entrave dentro do movimento. No nosso grupo tinha muita
gente que queria uma discussão política, mas lógico que tinha gente que queria usar drogas, e tal..
Na volta ia ter um Seminário lá na USP chamado USPCORE, né? Eu falei: ah, eu vou lá, já estou aqui
no Rio mesmo... Aí a galera foi embora e eu fui, aí acho que lá valeu a pena, pelo menos pra mim,
teve uma programação mais politizada puxada por uma galera lá da USP, veio do punk, mas fazia
história, até de várias tendências do movimento punk, né? Punks da cidade, os anarcopunks, né? Até
o Kid Vinil fez uma palestra lá, falando mais de som... Misturou a questão política e de contracultura,
né? Mas só que tinha informação né? E aí a gente ficou com alguns contatos disso daí...

Aí a gente viu que algumas coisas que a gente fazia aqui , tipo Garotos Podres era coisa de fascista, lá
era for fun, a gente chegou assim a comprar essas idéias, a gente chegou aqui, quando a gente
chegou em Cuiabá, primeiro show, tinha Mostra de Imprensa Alternativa, né? A MIACU, que era
organizada pelo Rofolfo, e em determinado momento o Coletivo Libertário fez parte da realização,
né? Então o Rodolfo tinha um fanzine dele que era Ovelhas Negras, e a gente assinava como
Coletivo Libertário.Como a gente tinha ido pro Congresso a gente meio que se afastou da
organização, quando a gente voltou tinha marcado um show lá na MIACU, no PC do B, pra gente
aquilo já era complicado porque estávamos aprofundando a discussão anarquista, tava indo pro
congresso de estudante sempre em conflito com o PC do B, né? E aí o que que a gente faz: deixa de
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tocar o Joãozinho e Maria, ou vai lá, usa o espaço e detona o PC do B? A gente preferiu a segunda
alternativa. Esse foi o primeiro rompimento, né? Porque o PC do B era um local onde tinha shows, a
gente chegou lá e meteu a boca. Até a história do movimento operário, em determinado momento
da época de Getúlio Vargas, o PC do B apoio que massacrou vários movimentos operários
anarquistas, colônia penal em Roraima, tipo campo de concentração mesmo, então a gente colocou
isso no show e gerou uma polêmica porque estava dentro do PC do B.

Outro posicionamento foi não tocar mais músicas do Garotos Podres, né? Pra não tocar qualquer
música, a gente tocava Replicantes, mas nem é punk é for fun... Então começamos a trazer uma
discussão pra Cuiabá que não estava tão presente, teve galera que queimou o disco dos Garotos
Podres, porque tem essa... tem umas contradições dentro do movimento, depois a gente
ponderando sabe que não é assim, né...

Fizemos um show grande lá na Escola Técnica, os Beneditos, que era rock roll, a banda do Sodré, eu
tocava bateria e Jomar, tocava The Doors, tinha uma banda de nós.
Todas as bandas tocavam em português a maioria ........... e a gente mesmo organizava, a gente tava
tocando e a gente mesmo montava o palco, eu tive câimbra, o Camacho teve câimbra.

Começamos a fazer um estatuto... O grupo começou a crescer, chegamos a ter reunião com 30
pessoas, sempre nessa questão, com straiedhge, metaleiro, a gente falava que ser aparecesse um
jaboti, a gente adotava o jaboti, todo mundo que chegava lá tinha espaço, essa idéia de trazer...
depois a gente percebeu que tem coisas que não dá pra juntar, mas ali a proposta era essa, né?
Justamente acho que essa coisa de punk tradicional, de fechar em um rótulo, tinha muito essa
discussão na verdade, ah, a gente não é tubaína pra ter rótulo, mesmo o anarquismo... foi uma coisa
que demorou pra se dizer anarquista, né? Entender que o anarquismo não é se fechar em uma
proposta, se eu me fecho em uma coisa, em determinado momento seria se fechar, eu sempre gostei
de música brasileira, eu não queria ser cobrado... esse sectarismo... de comportamento, de roupa,
né? O visual a gente não usava e usava, em determinado momento não usar visual passou a ser uma
atitude mais punk que usar visual, eu me lembro que no próprio congresso punk tinha um cara da
banda da Bahia que é o Bosta Rala, o cara se vestiu todo de social e foi pra lá ter uma conversa e isso
gerou uma... que é justamente essa proposta do visual gerou uma agressão mais que se ele tivesse
aparecido com um visual mais punk possível, o visual dele era mais punk do que quem estava de
moicano, porque aquilo lá gerou uma inquietação, isso é a adequação do movimento contracultural.
A gente que estava lá, que ia discutir, que tinha mais afinidade, os caras estavam lá de moletom, de
camiseta de banda normal, assim... Por que a gente não estava num lugar frio, a gente estava num
lugar quente, né? Tinha gente que usava moicano, tinha gente que não usava e isso não era o
importante da questão...
Se dizer punk em um determinado momento não era... Gerar o debate era mais importante do que
entregar logo o rótulo, né? Construir sua identidade, sua individualidade, mas se for pegar na prática
a cultura que a gente praticava era uma cultura punk... Essa atitude irônica era punk pra gente... E
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talvez não fosse mesmo porque o punk tem uma proposta estética diferente, a gente tinha mais
atitude punk.
Quando a coisa não é moda você acaba assumindo mais isso, quando é muito absorvido você fica até
em crise, e tinha pressão em casa também, então não é fácil usar um visual. Meu pai falava quando
eu saia de moicano “quando você voltar em casa se você estiver de moicano você não entra”.
O próprio Clóvis Irigaray foi agredido fisicamente, ele não tinha um visual punk, mas que tinha
origem no punk também. Quem usava visual era um extraterrestre, eu cheguei na escola de moicano
e era o assunto da escola, hoje não né? O Becker não tem um moicaninho?

Conflitos internos, como divulgar ou não na mídia. Era uma época de transição pra todo mundo, de
secundarista pra universitário, Glaucos já se formando na universidade e pensando em arrumar a
vida, pessoal saindo, começando a ficar mais velho, começando a trabalhar, e ao mesmo tempo a
galera mais metal tava indo no bar do gaúcho, que era o bar do lado, lá tava liberado a questão de
droga e tava até começando a fazer um showzinho, começando a tocar, e então deixava de
participar...
Aí a gente ponderou um monte de coisa, a questão da droga que tava pegando, segundo nós não
conseguimos avançar num projeto político mesmo, numa questão política de intervir mesmo. Hoje a
gente faz crítica ao projeto do Coletivo Libertário, mas o que... Na época era mais a propaganda
mesmo, soltar panfleto, não estávamos conseguindo montar grupo de estudos, fizemos, né? Mas a
gente queria avançar mais nisso, na verdade a gente não sabia direito o que que a gente queria, mas
a gente queria alguma coisa... E aquilo lá não estava mais satisfazendo, tava virando muito for fun, e
pra quem tava envolvido no trabalho tava virando tarefeiro, né? E a gente tem que pensar também...
A gente não tava tendo tempo pra pensar... Quantas cervejas a gente tem que vender pra pagar o
aluguel... não estava conseguindo avançar nem na questão cultural mesmo, se tornar um espaço
cultural, o pessoal ia mais pra beber, e os discos que tinha lá pro pessoal escutar, os livros pro
pessoal ler... Isso começou a naufragar e a gente começou a ponderar... Então vamos fechar a sede
do Coletivo. O que não era fechar o Coletivo.
Tenho 31, na época eu tinha 17, 18 anos... sei lá... Existia um grupo na universidade, vamos fazer um
grupo de discussão política aqui pelo Movimento Estudantil, um grupo chamado Ação Estudantil,
esse grupo começou a se colocar também como libertário, e a gente viu que não dava conta da nossa
necessidade que era fazer uma discussão no movimento popular, nos bairros, a universidade
servindo ao povo, né? Servindo a outros interesses que não são os interesses do mercado, um
projeto de educação popular, e aí a gente começou a levar essa discussão. Depois a gente teve
contato com outros grupos de fora, o Encontro de Estudantes Libertários, meio paralelo aos
encontros de estudantes da UNE, e aí em determinado momento a gente abandonou essa proposta
de movimento estudantil tradicional e começou a discutir uma outra proposta, chamada de Coletivo
pela Universidade Popular, COLUPO, vamos atuar em algum bairro, começar a fazer projeto, a gente
já tinha projeto de alfabetização de adulto, a questão de rádio comunitária na comunicação, e aí a
gente começou a ter contato com esse bairro adjacente de onde eu moro, a gente viu a necessidade
de demandas, né? De periferias, a gente começou a pensar nisso...
Só que chegando no bairro não tinha estrutura nenhuma assim, precário bastante,né? Então vamos
lá ajudar a construir o centro comunitário, um espaço cultural, né? Um espaço que dê pra fazer
reunião, né? Atividade culturais, né? Tinha o pessoal de enfermagem na época, então tinha na área
de saúde, e a gente começou a construir e tal, mas esse processo demorou mais do que a gente
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esperava, e aí muita galera estudante foi saindo... e algumas pessoas da comunidade começaram a
se incorporar, né? A associação de moradores era meio fraca lá, aí passou 6 meses alguns já tinham
formado, então vamos formar um grupo daqui, com essas pessoas daqui que não são da
universidade, e vamos dar uma identidade nossa, então a gente chamou Centro de Cultura Popular,
em 2002. E lá a gente tem um projeto de rádio comunitária, a gente desenvolveu um projeto de arte
educação com criança todo domingo, durante 3 anos, e discussões políticas. Aí veio a Fernanda, a
Virginia que nem tinham contato nessa época, e as coisas foram se articulando. As pessoas que
participaram do Coletivo, e podem nem estar mais, mas ela tem uma outra consciência de mundo,
né? Em participar de um projeto coletivo desse, as pessoas passam assim, ás vezes não vão ficar a
vida inteira, mas fizeram parte dessa história, do Coletivo, do Centro de Cultura, do COLUPA, e hoje a
gente ta conseguindo uma sede nossa mesmo, né?

CORVO

Foi uma desbravação, não havia referência, tudo estava sendo moldado, não tinha fanzine, não tinha visual.
Então, isso aí foi uma das principais diferenças das gerações que já pegou a coisa pronta. Tipo: banda: a gente
tinha que se espelhar em bandas de fora, a gente não sabia nem o que os caras usavam de distorção, aquela
coisa tudinho, né? A parte de escrever fanzines também tinha uma coisa de diferente, você começar uma idéia,
né? Então, como todo começo essa é a principal diferença. Agora na segunda geração a galera já tinha mais
motivação, a galera já tinha as bandas, os fanzines, mas sempre envolvida no mesmo princípio de “do yourself”
, a galera fazia o visual, os locais dos eventos, isso nos anos 80, falando do lado musical teve essa batalha toda
aí. Fazer os pontos que são os mesmos que se tem hoje (Peça Bis, Sede do PC do B), os locais que o pessoal faz
show, manifestações são os mesmos daquela época lá. E o pessoal de agora, sei lá, desse século agora (risos) é
que tem o lado anarcopunk, deixaram de lado o lado mais punk e tem um lado político, é mais anarco que
punk.

Drailler

O movimento punk na época era Blokeio Mental: Corvo e companhia, junto com GTW, que na época era uma
banda punk fora as outras adjacentes que nasciam e morriam da noite pro dia.

Tanto o Blokeio Mental quanto o GTW foram melhorando a qualidade musical dos caras, no meu entender.
Não dizendo que o som punk é ruim, não é, o que acontece?a gurizada quando começa a tocar sabe 2, 3, 4, 5
notas e aí vai fazer o que? Vai fazer punk. Mas ele foi alicerce pra tudo.

(como chegava as informações em Cuiabá na década de 80)

Drailler

Os fanzines eram super importantes, pelos fanzines mantinham contato com o Brasil inteiro, então a gente
sempre tava ligado no que acontecia com as bandas gringas e as bandas nacionais.todo mundo tinha fitas, e
quando chegava as fitas tinha fila de 20 neguinhos pra copiar. É onde começou a pirataria (risos).
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(sobre os bairros)

Corvo

Vou falar quando já estava formada a galera lá do Grande Terceiro, ali do Jardim Europa, a gente achava que
não devíamos ficar só ali no bairro, tinha que vir pro centro que todo mundo passava e ia ver a gente com
aquele visual pra se conhecer mais gente, a gente queria que o movimento crescesse, a gente queria mais
interação, que o pessoal que tava desgarrado por aí... Então a gente se reunia algumas vezes por semana e
vinha e ficava á noite na frente do correio trocando idéia e sempre passava alguém, alguém que vinha da
Escola Técnica, tinha que passar para pegar ônibus ali e aí rolava: ah, você é da onde? Ah, sou de tal lugar.

Nessa época também rolou um programa na rádio atividade, que falava só sobre rock. Serginho H ajudava na
divulgação do programa e fazia comentários. E esse programa também reunia, a galera sabia do programa no
domingo e descia lá pra rádio. E a galera dos outros bairros foi conhecendo a galera do Grande Terceiro que era
o núcleo principal.

Drailler

Quando eu cheguei aqui eu morava lá no Coxipó. Aí eu saia pro centro pra ver se encontrava alguém que me
desse alguma referencia, ou que me falasse assim po, tal dia tal local.. aí eu encontro Chico e lorival. Lorival
tinha uma loja de discos que ficava embaixo do Palácio do Comércio. E dali eu comecei a me interagir, porque
eu já sabia que o povo se reunia na praça. Foi fundamental a atitude dos caras, sairem dos bairros, começar a
circular mais com o visual mais pelo centro, até porque muita gente desgarrada queria saber onde acontecia as
coisas, e de repente nem sentiam incentivo de sair com o visual porque não tinham nenhuma referencia e não
tinha ninguém pra ficar junto com eles, entendeu? Aí quando eles viam, aí, po, tem meia dúzia aqui que fica ali,
então vamos chegar junto, vamos fazer o movimento crescer.

Corvo

Aqui nos anos 80 os militares estavam jogando terra pro povo vir pra cá, então tava tudo envolvido, né? Do sul,
do norte. Isso aí foi fundamental. Já tinha aqui uma cultura musical. Ajuntou com os aborígenes aqui e rolou
isso aí.

Drailler

E hoje você já pode considerar todos cuiabanos porque graças a eles veio toda uma cultura de fora, porque
Cuiabá foi colonizada musicalmente (risos) como qualquer outra cidade. Cuiabá não existia, São Paulo também
não, são Paulo foi colonizada por italianos e babababa... e hoje em dia é o principal pólo de cultura é são Paulo,
e por que? Porque veio gente de fora, que se fixaram, trouxeram as suas culturas, o que curtia de som e assim
começaram a aplicar.

Corvo

As principais ações do começo era fazer os espaços pra ter os eventos. O rock, o punk veio antes do sertanejo.
Nos anos 80 não existia isso aqui em Cuiabá. Quer dizer, essa raiz do punk, já que a gente está falando do punk,
126

é mais antiga do que essa coisas de pagode, pagodeiro. A gente abriu os espaços. Aqui tinha Job Menezes. A
gente tinha que botar a cara. Quando tinha evento na praça quem estava lá? Eram essas bandas que estavam
encabeçando.

Drailler

Isso tudo surgiu do movimento universitário, todo esse povo era da universidade, eles eram do DCE, eles
tinham que movimentar alguma coisa, fazer alguma coisa. Até o próprio Caximir saiu dali também. E foi a partir
daí do movimento punk, do movimento rock que já tem mais um conglomerado de pessoas, eles acharam que
tinha que ter espaço lá dentro, até porque os próprios alunos começaram a exigir algo mais de som, não só
aquele MPB que é bom, mas, pelo amor de Deus, muito é demais.

Corvo

Isso aí exigiu até de quem trabalhava com som em Cuiabá. Eu lembro um som que a gente fez na universidade,
no saguão do bloco de história, aí na hora que a gente estava tocando o Serginho pulou assim e tomou o
microfone da mão do vocal assim e aí o Gomes falou, não, pelamordedeus, meu microfone é importado, acabei
de comprar, vocês vão destruir.. eu vou desligar o aparelho (risos). Tudo aquilo ali estava começando. Ele
estava acostumado a tocar com violãozinho, a partir do momento que começou isso aí o os caras começaram
investir: tem que colocar cabeçote, bateria, microfone. Aí foi isso aí. Foi uma evolução, criou um mercado na
área de som também. As lojas também começaram a vender instrumentos, que era uma raridade, você
comprar uma guitarra aqui...

(visão de sociedade)

Corvo

Era um bando de drogados, era filho do capeta, era uma aberração. Quantas vezes eu saí de moicano e tinha
gente que falava: deixa eu pegar. Você tinha que provar que não era aquilo. Hoje eu pego como exemplo a
Carol, a Carol Punk, se você ver a Carol, andar com a Carol, você percebe que as pessoas tem medo dela.
Acham que ela é uma pessoa extrema, e ela é super doce.

Isso aí aconteceu comigo no ano passado, eu saí, levantei o cabelo, eu desci a Av Getulio Vargas pra comer um
cachorro-quente, de repente, veio um cara que desceu do ônibus, o cara me deu uma mochilada em mim, se a
mochila tivesse pegado num ponto mais aqui tinha me matado. O cara estava indignado com o visual, uma
coisa que agrediu ele. Isso em 2007 o cara fazer uma coisa dessas...

Drailler

Ainda choca mais naquela época chocava muito mais.

O pior é o seguinte. O pior é que aqui em Cuiabá é mais tranqüilo. Eu vou te dar um exemplo, ali na praça da
republica. Agora a movimentação está toda ali na praça Alencastro, na frente da prefeitura. Ali esta uma
127

matilha de lésbicas e de veadinhos, e eles estão assim, abertamente, se beijando na praça, e do outro lado está
o skatista e do outro lado o pessoal que curte metal, que curte punk, hoje em dia está tudo misturado. Isso na
década de 90 não existia não, se chegasse um perobinho ali já embaçando ali, já.. o pau comia pra cima dele.
Tanto que naquela época havia a rixa entre punk e skatista. A confusão era foda. Outro dia eu estava sentado
ali na praça e dois viadinhos se beijando. Eu disse olha só cara na década de 90 isso não existia não, eu não
tenho preconceito nenhum. O cara tinha sido já dizimado!

Cara da Skarros

Agora é assim: Você está virando gay? Não eu sou emo.

Drailler

Essas rixas nas grandes metrópoles elas são muito mais fervorosas, e são muito mais perigosas, porque sai
morte. Aqui ainda é uma coisa assim um tanto pacífica.

Corvo

Acho que pelo fato de ser uma colônia. Mas no começo lá, apesar da gente ter começado todo mundo junto ali,
rolava uma tretinha. Quantas vezes eu não estava andando com namoradinha, e os caras diziam agora eu vou
te pegar, e aí tinha que sair correndo. Hoje tudo é amigo. (30’20”)

Drailler

Hoje em dia tudo é liberado, você pode andar de punk, pode andar de head banger, pode andar de emo.

(...)

Aqui em Cuiabá tem meia dúzia de pessoas que tem uma atitude de ser punk, de dizer que é punk. Na verdade
se dizem punk mas não tem atitude punk,porque eu acho que punk é uma ideologia que já foi superada,
entendeu? Eu acho que, hoje em dia, as pessoas nem sabem mais o que que é punk. Acha que punk é rebeldia,
tudo bem o punk pode até ser rebeldia contra não-sei-o-que, contra religião, contra a política, mas nos grandes
centros a coisa é bem mais pesada, a coisa aqui é bem mais light.

(Punk em Cuiabá e nos grandes centros)

Diferencia sim porque nos grandes a coisa é um pouco mais massificada. A gangue de punk lá tem 100
neguinhos, tem 200 neguinhos.

Corvo
128

A mídia de fora pega pesado. Aqui em Cuiabá já se passaram quase 30 anos, a gente tem espaço na mídia. A
mídia não vê como vê o punk de São Paulo. Aquela entrevista da semana do rock, a menina ligou pra mim: ah,
gostaria de falar com o senhor Corvo, será que podíamos marcar uma entrevista. Em nenhum momento ela
falou mal, ela denegriu a coisa...

A mídia lá fora já massifica como marginal. Aqui nunca se ouviu falar que “punk bateu em alguém”

Drailler

Está aí a diferença. Os punks daqui...são mais legais. (risos) os punks daqui tem somente a atitude de se vestir
como punk.

Corvo

Aqui talvez seja mais pacifista. Pelo fato do próprio meio não oferecer tanta violência.

Drailler

Eles são até mais ecológicos.

(...)

Drailler

Como eram poucos os shows aqui, quando tinha um show, a banda punk, hard core, ou trash, todo mundo ia
no mesmo local, apesar que teve uma época que tinha umas tretinhas. Tinha uma época que skatista não ia no
show de metal, os punks também não ia no show de skatista. Mas o importante é que Cuiabá é o melhor
movimento punk do Brasil, porque aqui todo mundo se dá super bem, o que aconteceu no passado... a gente
conseguiu um respeito né?

Corvo

Tem banda que fala que é punk, que é hard core.. Mas os caras são emo.. os caras que que eles tocam, eles
tocam isso aí, ficam falando de amorzinho, tudo bem que Ramones também falava... os caras não tem nem
noção do que que é punk...

Drailler

Não tem mais o que interferir. Punk é punk, vai ser punk pro resto da vida, é igual uma vez rock and roll sempre
rock and roll, mesmo que se mude a vestimenta ou alguma coisa, mas a sua ideologia, sua cabeça sempre vai
ser punk, você sempre vai ter uma opinião formada sobre isso aí.

Corvo

O punk pode não interferir, mas ele deixou uma referencia , obrigou os caras a olhar a cena musical diferente,
o visual e o comportamento.. Se voce olhar bem vai ver que algumas pessoas alternativas que tem aqui em
Cuiabá é bem punk. A interferência é assim.
129

Diria que a questão é bem mais complexa e exige um debate mais amplo, que passa por um breve
resgate histórico sobre o anarquismo. Começo respondendo a essa perguntando lançando uma outra pergunta:
O que é o anarquismo? Qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento a respeito do tema poderia nos
responder afirmando que seria uma sociedade onde a auto-organização do povo substitui a organização do
Estado e seus alicerces autoritários: sua economia capitalista, mecanismos de alienação e fabricação de
consensos, aparelhos de repressão etc. No entanto, isso é algo extremamente vazio a partir de um ponto de
vista prático, real e não saudosista. Como colocar isso em prática, como fazer destes anseios que constituem o
anarquismo algo real e não mero discurso romântico?

Acredito que esta seja a questão mais importante e historicamente ela marcou o anarquismo. É um
grande equivoco afirmar que existe um anarquismo, este, assim como as demais correntes do pensamento
socialista tem suas inúmeras ramificações, que muitas vezes encontram um maior número de divergências do
que convergências.

Quando afirmo que acredito no anarquismo como um ideal que possa servir de instrumento, se não
para uma transformação social, mais ao mínimo para contribuir o máximo possível neste processo, falo do
ponto de vista do anarquismo clássico, classista, organizado e com forte presença nas lutas de classe. O
anarquismo de Bakunin e da Aliança, Malatesta e Luiggi Fabri, Makhno e o Grupo Dielo Truda, de Buenaventura
Durruti e seu grupo Los Solidários da FAI na Revolução Espanhola, da Federação Anarquista Uruguaia que existe
a mais de 50 anos no país vizinho dentre uma série de outros exemplos que poderia citar. Ainda estas
referências de anarquismo sustentam um bocado de divergências entre si, mais confluem no mesmo sentido: a
necessidade do anarquismo estar presente no seio da classe trabalhadora, em suas lutas cotidianas e reais,
buscando a partir daí canalizá-las para uma luta maior, de cunho revolucionário, afinal de contas, quem fará
uma revolução social serão justamente estes trabalhadores e não nós, anarquistas ou socialistas de outras
matizes. Não só propunham essa presença dos anarquistas em meio a classe trabalhadora e de suas lutas como
sua organização política enquanto anarquistas, enquanto partido político, que pudesse planejar de forma
estratégica o avanço das lutas, como canaliza-las de acordo com nosso programa, e como nos preparar para
momentos difíceis que são resultantes do acirramento dos conflitos sociais. É bom deixar claro que partido
político aqui não tem o mesmo significado de uma agremiação política que se organiza para disputar, ainda que
só taticamente, as instituições do Estado via eleições. Partido aqui tem o sentido de um grupo de pessoas,
articuladas em torno de uma proposta política(um programa), que se organizam no intuito de pensar os meios
de concretiza-la, de forma a não se perder nas lutas momentâneas, um grupo de pessoas que toma parte deste
projeto político como diria Malatesta.

Bom, este mesmo anarquismo, foi perdendo muito o seu terreno entre a classe trabalhadora da
década de 20 do século passado pra cá, sua última grande aparição foi durante a derrotada revolução
espanhola (1936-39). A partir de então o anarquismo mergulhou em um profundo isolamento, foi perdendo
seu espaço de inserção, se reduzindo cada vez mais a centros de estudo e cultura e pouquíssima inserção
social. O declínio foi total e as conseqüências são sentidas ainda hoje.
130

O anarquismo ainda que tivesse algumas experiências de presença nas lutas sociais (e de fato as tinha)
após a década de 30, não ocupava um cenário importante nas mesmas, era minúsculo e não conseguia
apresentar alternativas. Salvo no Uruguai, com a experiência da FAU que ocupou importante espaço nas lutas
da classe trabalhadora deste país, participando ativamente das lutas sindicais, de bairros, do movimento
estudantil, da luta armada e na resistência a ditadura militar, além de ter realizado uma vasta produção teórica
sobre problemas vivenciados na época.

Após esse largo sumiço do anarquismo, que se inicia na década de 20, ele começa a reocupar
paulatinamente um espaço após os agitados eventos que se iniciam em 1968, com destaque ao Maio francês.

No entanto, o anarquismo que ira reaparecer com os eventos de 1968, não será esse mesmo
anarquismo citado acima. Teremos aqui um anarquismo cada vez mais comportamentalista, culturalista. Na
busca de se livrar do forte e estúpido economicismo imposto pelos partidos comunistas orientados por Moscou
ou Pequim os anarquistas caíram lastimavelmente em um outro extrema absurdo: o comportamentalismo e o
culturalismo. O eixo da crítica e intervenção dos anarquistas então passa a ser a cultura, os comportamentos
individuas. Daí começa a nascer questões cada vez mais fragmentadas: anarco ambientalismo, anarco
vegetarianismo, anarco feminismo, anarco pacifismo, etc. a referência classista, a classe trabalhadora e
oprimida no seu conjunto (empregada ou não) passa a ocupar um papel cada vez mais secundário, pra não
dizer que passa a ser desacreditada por muitas destas aparições pós-1968. Muito do que aparece aqui vem a
resgatar a concepção individualista e anti organicista que também marcou presença no anarquismo de século
XIX e princípios do século XX, concepções estas que possuem uma grande influência do liberalismo, na medida
que coloca o indivíduo acima da sociedade. É sempre válido lembrar, que a principal referência deste
anarquismo-individualismo, o alemão Max Stiner sequer se afirmou algum dia como anarquista, sendo
considerado corretamente por muitos anarquistas como um liberal radical.

E o punk, com todas suas particularidades é um legado de 1968. Nasce nos subúrbios da Europa como
um movimento cultural espontâneo de uma juventude sem perspectivas de futuro, arrasada pela corrosão do
Estado de bem estar social, marcada pelo desemprego. Traz elementos interessantes ao questionar a cultura
como atividade meramente lucrativa e não como uma atividade criadora, de libertação... no entanto, esta
preso a esta fragmentação resultante de 1968, tem toda sua atividade girando em torno da cultura, é,
sobretudo um movimento de resistência, questionamento e subversão cultural.

Não desqualifico todos estes elementos lançados após 1968 e que o punk é um dos legados, todas
estas questões, a cultura, a necessidade de se pensar as relações sociais do cotidiano: o machismo, a
homofobia etc. foram muito debatidas por este anarquismo classista que faço referência. O movimento sindical
que foi impulsionado pelos anarquistas, seja pelo anarco-sindicalismo, seja pelo sindicalismo revolucionário,
tinha na cultura um forte alicerce. Os sindicatos promoviam atividades teatrais, construíam “escolas livres e
racionalistas” que educavam os trabalhadores e seus filhos, já naquela época unificando meninos e meninas
nas mesmas salas de aula, questionando a relação aluno-professor dentre outros aspectos. Nunca é demais
lembrar que na Espanha, país de forte tradição católica e machista a CNT, central anarco-sindicalista aglutinava
em seu interior uma forte organização feminista de sindicalistas, as Mujeres Libres que organizou milhares de
mulheres à se juntar nas barricadas de armas em punho ombro a ombro com seus companheiros no decorrer
da Revolução, além de ter ocupado lugar central nos debates sobre os direitos da mulher no interior do
movimento sindical espanhol, como o direito ao aborto.

No entanto, todo este trabalho era feito no intuito de se potencializar uma única identidade: a de uma
classe trabalhadora em luta contra o Estado e os patrões, o que dificilmente é visto nestas experiências pós
1968 que estão ligadas, direta ou indiretamente ao anarquismo, uma vez que tratam a luta especifica:
feminismo, ambientalismo e cultura no caso do punk como a luta em si, o comportamento individual e não a
classe passa a ocupar o espaço central.
131

São, em linhas gerais, estas as minhas críticas ao punk. Não desconsidero o movimento como afirmei
acima, acredito que tenha elementos interessantes, no entanto ao se pensar uma transformação social, a
quebra das estruturas deste sistema capitalista, acredito que seja ineficaz, o que não inviabiliza que o próprio
movimento participe deste processo. Existem muitos coletivos punks (principalmente em países como México
e Espanha) que estão a trabalhar ao lado da classe trabalhadora em suas organizações (movimentos de bairro,
associações, sindicatos, etc.), não como punks, senão como classe trabalhadora e oprimida que busca um novo
destino que por suas devidas particularidades encontraram no punk um movimento cultural que expresse seus
anseios, assim como outros trabalhadores encontraram em outras expressões culturais que não é pelo fato de
não ser caracterizada como contra-cultura seja algo alienante e sem possibilidade de levantar elementos de
contestação social.

Concluindo, acredito que o anarquismo do qual faço referência, possa ser um instrumento que possa
animar, fornecer elementos para fortalecer a luta de classes e fortalecer o povo e seus instrumentos de luta, no
entanto, não acredito que seja o anarquismo ou qualquer outra corrente do socialismo, tão pouco o punk ou
qualquer outro movimento de contra-cultura um agente de transformador da sociedade. O agente
transformador da sociedade não pode ser outro, se não o mesmo que é obrigado em meio as mais diversas
violências a erguer a sociedade, ou seja é a classe trabalhadora e oprimida e se tanto o punk como qualquer
outro movimento de contra cultura pretendem transformar a sociedade não possuem outra alternativa se não
mergulhar aonde existe e resiste este agente e a partir de la ser um dos muitos elementos que fortalecem seu
protagonismo em busca de uma nova sociedade. Infelizmente o punk, principalmente no Brasil, tem aportado
muito pouco, se não em absolutamente nada neste sentido.

HANNA: vc está ocupado agora? posso te fazer uma pergunta por aqui..
das que conversamos já?

(00:16) Daniel: rapida? eu ja tava indo durmi, to cansadao

(00:16) HANNA: rs

(00:16) HANNA: sim

(00:16) Daniel: mais pode faze

(00:16) HANNA: se puder

(00:17) HANNA: pq acha que o punk não é agente transformador da sociedade? e


pq o fundamento anarquista propõe possibilidades de
transformação?

(00:19) Daniel: da mta prosa ai

(00:19) Daniel:

(00:19) HANNA: hum


132

(00:19) Daniel: rs

(00:19) HANNA: só essa

(00:19) HANNA:

(00:20) Daniel: posso te responde isso em email amanha cedo, pra me faze claro aqui precisaria
fala um bocado, articula umas ideias

(00:20) HANNA: tá

(00:20) HANNA: então está perguntado

(00:20) HANNA: aí é só vc responder tá bom?

(00:20) Daniel:

(00:20) HANNA: beleza

(00:21) Daniel: envio ela de manha mesmo

(00:21) HANNA: ok

(00:21) HANNA: boa noite dani

(00:21) Daniel:

(00:21) Daniel: boa notie

(00:21) Daniel: bjo

(00:21) HANNA: beijo

Início da Sessão: terça-feira, 26 de agosto de 2008

 HANNA (empoema@hotmail.com)
 Daniel (da.ni.ell@hotmail.com)

(16:09) HANNA: dani você não me respondeu!

(16:10) Daniel: oi

(16:10) Daniel: to terminando

(16:10) HANNA: eba


133

(16:10) HANNA: fico aguardando em off

(16:10) Daniel: entrei pra te envia

(16:10) Daniel: foi mal

(16:10) Daniel: acordei depois das 12h hj

(16:10) HANNA: sem problema

(16:10) Daniel: ainda com dor de cabeça

(16:10) Daniel:

(16:10) HANNA: oh dó... dani ... vc tem que tirar férias

(16:12) Daniel: pois é... mais agora so final do ano

(16:12) HANNA: sim

(16:12) HANNA: mas um final de semana apenas já ajuda...

(16:12) Daniel: mais ja to melhor... durmi bastante

(16:15) Daniel está Offline

(16:20) Daniel: é..

(16:20) Daniel: to relendo e ja envio

(16:20) Daniel: terminei ja

(16:20) HANNA: certo

(16:25) Daniel está Offline

(16:26) Daniel:

(16:28) HANNA: mandou?

(16:33) Daniel está agora Online

(16:35) Daniel: inda nao...to corrigindo alguns pontos

(16:35) HANNA: tá bom

(16:35) HANNA: fica tranquilo


134

(16:41) Daniel: minha conexção ta um saco

(16:41) HANNA: rs

(16:41) HANNA: estou vendo que está caindo toda hora

(16:41) Daniel: toda hora cai

(16:41) Daniel: tem como aparece ai pra mim envia por aq mesmo

(16:41) Daniel: ?

(16:41) Daniel: so o msn q nao cai

(16:41) HANNA: aqui aparece que vc se desligou

(16:42) Daniel:

(16:43) Daniel: ta ai?

(16:43) A mensagem a seguir não pôde ser entregue a todos os destinatários:

rs

(16:43) A mensagem a seguir não pôde ser entregue a todos os destinatários:

estou vendo que está caindo toda hora

(16:43) A mensagem a seguir não pôde ser entregue a todos os destinatários:

aqui aparece que vc se desligou

Início da Sessão: quarta-feira, 27 de agosto de 2008

 HANNA (empoema@hotmail.com)
 Daniel (da.ni.ell@hotmail.com)

(12:58) HANNA: dani

(12:58) HANNA: recebi o email, muito obrigada

(12:59) Daniel: oi

(12:59) Daniel:

(12:59) HANNA: quando o capítulo estiver pronto, se vc tiver interesse em lê-lo


posso lhe enviar
135

(12:59) Daniel: legal

(12:59) Daniel: envia sim

(13:00) HANNA: ok

(13:00) HANNA: dani

(13:00) HANNA: pode me responder uma perguntinha pequenininha agora rs?

(13:01) Daniel: hm

(13:01) HANNA: hahahaha

(13:01) HANNA: se puder

(13:01) HANNA: ....

(13:01) HANNA: é o seguinte: o que liga os punks ao movimento anarquista?

(13:02) HANNA: (perguntei ao edzar tb, ele tb me enviará a resposta)

(13:03) Daniel: é, ai entra um pouco da minha resposta anterior, não acredito nisso de mov
anarquista... é algo muito amplo, não tem uma coesão

(13:03) Daniel: anarquismo, como disse é um termo muito vago

(13:03) HANNA: uhum

(13:04) Daniel: enfim, haveria entao uma ligação do punk com o anarquismo

(13:04) Daniel: no sentido do ideal

(13:05) Daniel: mais são questoes do cotidiano, o surgimento do punk como expressão de uma
juventude sem perspectivas

(13:06) Daniel: que busca dar um grito de basta, não aceitar o que esta posto ai

(13:06) Daniel: buscar subverter as normas

(13:06) Daniel: isso liga o punk a uma cultura de contestação

(13:07) HANNA: mais especificamente: é o Estado, o consumismo, o que?

(13:07) Daniel: que pode ser assimilado tanto a um tipo de anarquismo

(13:07) Daniel: como ao niilismo


136

(13:07) HANNA: sim

(13:07) Daniel: ou ate ao marxismo

(13:07) Daniel: no entanto

(13:08) Daniel: pelo fato do punk ter se apegado muito na questao cultural, comportamental

(13:08) Daniel: ele consequentemente sera mais atraido àquele anarquismo que ira resurgir após
1968 como disse anteiormente ou ao niilismo

(13:08) HANNA: uhum

(13:09) HANNA: dani

(13:09) HANNA: vou ter que sair um pouco, mas já volto

(13:09) Daniel: acho que é isso

(13:09) HANNA: eu queria saber de maneira mais específica...

(13:09) Daniel: como assim?

(13:10) HANNA: é a dissolução do Estado que os une? os punks e os


"anarquistas" desejam isso? que pontos em comum entende?

(13:11) HANNA: dani, já volto

(13:14) Daniel: dissolução do estado é apenas um dos aspectos que caracterizam o anarquismo,
não o unico e pra mim não o principal... muitos neoliberais defendem isso, niilistas
também o defendem

(13:14) Daniel: muitas vezes esse questionamento ao estado no punk

(13:15) Daniel: pretenção em destrui-lo

(13:15) Daniel: esta associada ao niilismo

(13:15) Daniel: ainda que diga "anarquismo"

(13:15) Daniel: se for fazer uma analise

(13:15) Daniel: esta pro niilismo

(13:16) Daniel: a caracterização de anarquismo apareceu muito em meio, não so ao punk como
em outras contra culturas suburbanas, como meio de "chamar atenção" provocar
uma sociedade reacionaria
137

(13:16) Daniel: um bom exemplo disso

(13:16) Daniel: é por exemplo o famoso grupo sex pistols

(13:17) Daniel: da mesma forma que teem uma musica chamada

(13:17) Daniel: anarchy in the UK

(13:17) Daniel: "reeivindicando" a anarquia no reino unido

(13:17) Daniel: voce tem a imagem do sid vicious usando uma camiseta com uma suastica

(13:17) Daniel: é um meio de chamar atenção

(13:18) Daniel: muitas vezes o trmo anarquia no punk é evocado como referencia ao caos, detona
tudo, manda pro ar essa sociedade de merda

(13:18) Daniel: isso, sinceramente é niilismo

(13:18) Daniel: enfim

(13:18) Daniel: mais essa cultura de contestação, como disse

(13:18) Daniel: que leva a questionar

(13:18) Daniel: o consumismo

(13:19) Daniel: a autoridade do estado

(13:19) Daniel: subverter normas

(13:19) Daniel: leva o punk a buscar um encontro

(13:19) Daniel: seja com o anarquismo

(13:19) Daniel: seja com o niilismo

(13:19) Daniel: ainda que muitas vezes haja, em meio ao movimento, uma confusão sobre o que
seria cada um

(13:20) Daniel: mais eh importante demarcar isso

(13:20) Daniel: e encontrando o anarquismo

(13:20) Daniel: tende a encontrar um anarquismo mais ligado a questoes fragmentadas

(13:20) Daniel: o comportamento do individuo, cultura

(13:20) Daniel: ...


138

(13:24) Daniel: (sei que não esperava falar em niilismo mais a leitura que eu faço sobre essa
questao o identifica, assim como 68 como um dos elementos centrais no punk)

(13:27) HANNA: dani

(13:27) HANNA: deu pra esclarecer aqui pra mim

(13:28) HANNA: talvez não concordemos em todos os pontos, mas de qualquer


forma eu respeito sua opinião, e na minha escrita sua frase vai
constar na íntegra..

(13:28) Daniel: o que voce tem utilizado como referencia de anarquismo no punk?

(13:31) HANNA: estou buscando mais autores contemporâneos, né? tem um cara
que é brasileiro, o Pelbart, não sei se o conhece, mas ele escreve
muito baseado em Deleuze, Gabriel Tarde... li alguma coisinha de
Foulcault tb... e Guatarri. como estou te dizendo, não estou me
aprofundando no anarquismo, mas sim, na potência de vida, na
resistência ao poder, e por isso interesso-me pela questão mais
politizada dentro do movimento punk, já que muitos são
anarquistas...... ou libertários, é melhor falar assim?

(13:32) Daniel: sei la, tanto faz

(13:32) Daniel: rs

(13:32) Daniel: mais digo

(13:32) Daniel: dentro do punk

(13:33) HANNA: aí tenho lido algumas coisas sobre anarquismo, bem pouco, é
verdade, pq não é o ponto principal, o principal como eu disse é
a resistência....... é a vida, o comportamento, a cultura.. esses
pontos que o sistema, o estado, o consumo, o simulacro, não
conseguem ludibriar

(13:33) Daniel: o que ta sendo utilizado como referencia de anarquismo dntro do punk

(13:33) HANNA: aí procurei o max stirner... mas não li ainda e bey, que vc não
gosta rs

(13:33) Daniel: crass, conflicto, subhumans?

(13:34) HANNA: uau... me explica isso

(13:34) Daniel: conflitc

(13:34) Daniel: digo


139

(13:34) Daniel: que bandas vc tem utilizado como refenrencia de anarquismo dentro do punk

(13:34) Daniel: isso eh importante

(13:34) Daniel: pq como eu disse

(13:34) Daniel: mtas vezes o anarquismo aparece no punk mais como meio de provocação

(13:35) Daniel: um niilismo

(13:35) HANNA: sim

(13:35) Daniel: e isso é expresso nos grupos

(13:35) HANNA: pois então, meu estudo tem como foco o punk em cuiabá... a
banda que eu sei que tem mais essa veia é a Atrito, correto?

(13:35) Daniel: por isso que perguntei, no caso quais bandas

(13:36) Daniel: é

(13:36) Daniel: mais eh bom da uma olhada no mov como um todo

(13:36) HANNA: não consegui falar ainda com edzar sobre isso... aliás preciso de
material deles

(13:36) Daniel: procura algo sobre o mov peace punk

(13:36) HANNA: certo

(13:36) HANNA: pode me indicar algumas bandas pra eu ouvir, de preferência


nacionais?

(13:36) Daniel: é das maiores referencias de anarquismo no punk

(13:37) Daniel: que nao estava confundido com niilismo

(13:37) Daniel: o mov peace punk rolo na inglaterra

(13:37) Daniel: as bandas q disse

(13:37) Daniel: conflict

(13:37) Daniel: crass

(13:37) HANNA: aaaaaah

(13:37) Daniel: subhumans


140

(13:37) HANNA: sim

(13:38) HANNA: rs

(13:38) HANNA: são bandas!!!???

(13:38) HANNA: hahahahehehe

(13:38) Daniel: isso

(13:38) HANNA: não as conhecia

(13:38) Daniel: mais o peace punk eh a raiz do anarquismo no punk

(13:38) Daniel: antes como disse era algo confuso

(13:38) Daniel: mais associado com o niilismo

(13:38) HANNA: entendi

(13:38) HANNA: dani

(13:39) HANNA: vou sair, mas volto mais tarde tá?

(13:39) HANNA: esse hominho pogando aí o que é?

(13:39) HANNA: parece um rudeboy!

(13:39) Daniel: isso mesmo

(13:39) Daniel: rs

(13:39) Daniel: ska

(13:39) Daniel: mais oh

(13:39) Daniel: de bandas brasileiras

(13:40) Daniel: que pegariam uma influencia forte do anarquismo

(13:40) Daniel: anota ai

(13:40) HANNA: manda

(13:40) Daniel: execradores, metropolixo e abuso sonoro

(13:40) Daniel: tem mais uma infinidade


141

(13:40) Daniel: mais pra mim sao as melhores e principais

(13:40) HANNA: ok

(13:40) HANNA: valeu dani

(13:40) Daniel: vamo marca uma hora pra gte se tromba depois

(13:40) Daniel: e eu te passa aluns sons q tenho

(13:41) HANNA: uau

(13:41) HANNA: yeah

(13:41) Daniel: eh bom pega pra da uma nalisada nas bandas

(13:41) HANNA: eba

(13:41) Daniel: sonoridade

(13:41) Daniel: letras

(13:41) HANNA: sim

(13:41) HANNA: e eu tb GOSTO de ouvir rs

(13:41) Daniel: se nao vc se perde na teoria... isso é perigoso ao se estudar mov de contra cultura

(13:42) Daniel: vo separa uns sons q tenho aq

(13:42) Daniel: ai a gte marca algum dia ai

(13:42) HANNA: certo

(13:42) HANNA: vc conhece o vitor queiroz?

(13:42) Daniel: não

(13:42) Daniel: de onde ele eh?

(13:42) HANNA: aaah

(13:42) HANNA: rs

(13:42) HANNA: daqui

(13:42) Daniel: pelo menos de nome eu nao sei


142

(13:42) HANNA: é aniversário dele

(13:43) HANNA: pensei que talvez vc fosse

(13:43) Daniel: da filosofia

(13:43) Daniel: ?

(13:43) HANNA: nãoooooooooo

(13:43) HANNA: victor surto

(13:43) HANNA: rs

(13:43) Daniel: sei nao

(13:43) HANNA: conhecido assim rs

(13:43) Daniel: num faz nenhum curso na univ?:

(13:43) HANNA: formado em publicidade pela unirondon

(13:43) HANNA: amigo da dani tb

(13:43) HANNA: ms tudo bem

(13:44) HANNA: combinamos de nos encontrar tá?

(13:44) HANNA: beijo dani, e muito obrigada pela ajuda

(13:44) Daniel: blz

(13:44) Daniel: bjs

Início da Sessão: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

 HANNA (empoema@hotmail.com)
 D-ARTS DESIGN (draillersouza@hotmail.com)
(15:28) HANNA: olá drailler
(15:28) HANNA alterou o estado para Online
(15:28) HANNA alterou o estado para Ocupado
(15:29) HANNA: seguinte, estou fazendo uma pesquisa e queria falar contigo quando tiver
um tempo aí... fico aqui ocupada, quando puder me grita!
(15:48) HANNA: hey, drailler
(15:48) HANNA: pois é
(15:48) HANNA: estou em uma pesquisa aqui e acho que vc pode me ajudar
143

(15:48) HANNA: estou mexendo na história do punk em mt


(15:48) D-ARTS DESIGN: sim.. o que eu puder ajudar..
(15:50) HANNA: você participou dessa história? foi mais envolvido com o metal?
(15:50) D-ARTS DESIGN: mais com o metal..
(15:54) HANNA: aham
(15:54) HANNA: mas ao menos vc acompanhou a cena de perto?
(15:55) D-ARTS DESIGN: NEM TANTO..
(15:55) D-ARTS DESIGN: eu num me envolvia muito com os caras..... mais eles gotavam muito do GTW......
(15:55) D-ARTS DESIGN: mais .. ai.. quando entrei pro GTW.. essa punk praticamente num existia mais.. alguns poucos..
(15:56) D-ARTS DESIGN: mais vou te passar o email do corvo... do underground cuiabá.. ele foi punk nessa época.. meia
com movimento.. ec....
(15:56) HANNA: hum
(15:57) HANNA: eu conheci o corvo esses dias.... o gtw era metal né?
(15:57) D-ARTS DESIGN: hbluel@hotmail.com
(15:57) HANNA: tenho o msn dele
(15:57) D-ARTS DESIGN: naum o GTW.. era Punk Hard Core.. ai depoois que eu entrei virou trash core...
(15:59) HANNA: ah
(16:00) HANNA: vem cá
(16:00) HANNA: consegue dividir em épocas isso?
(16:00) HANNA: tipo: que época chegou o punk? até quando durou? teve gerações e tals?
(16:00) D-ARTS DESIGN: de 80 até 92 por ai...
(16:01) D-ARTS DESIGN: durou o punk,.,. mais sempre ic
(16:01) D-ARTS DESIGN: tinhas alguns resistentes...rsrsr
(16:01) D-ARTS DESIGN: mmais punk sempre existiu .. e atpé existi.. só que com comportamentos diferentes, mais
seguindo a mesma linha..
(16:02) D-ARTS DESIGN: até hj existi..
(16:02) HANNA: é?
(16:02) HANNA: que banda punk vc conhece aqui em cuia?
(16:02) D-ARTS DESIGN: skarros
(16:03) D-ARTS DESIGN: tem mais umas 3 que não lembro os nomes..
(16:03) D-ARTS DESIGN: la o tijucal..
(16:03) HANNA: conheci skarros esse fim de semana
(16:03) HANNA: curti muito
(16:03) HANNA: pô
(16:03) HANNA: podia lembrar as outras
(16:03) HANNA: pois só conheço skarros
(16:03) D-ARTS DESIGN: os caras do skarros.. conhece elas..
(16:03) HANNA: pode crer
(16:03) HANNA: o que vc acha que é comportamento punk?
(16:04) D-ARTS DESIGN: hein.. pra que que isso mesmo?
(16:04) HANNA: ahahahahahahahah
(16:04) HANNA: seguinte, véio
(16:05) HANNA: estou fazendo uma pesquisa pro mestrado... vídeo como meio de
comunicação do movimento punk e como os punks são representados na
mídia
(16:05) D-ARTS DESIGN: hummmmm
144

(16:05) HANNA: aí já me apaixonei pela história e passsei a querer saber do movimento em


cuia... "resgatar" a história... penso em mais coisas como um documentário
e tals
(16:06) HANNA: não quero me limitar a academia saca?
(16:06) HANNA: e estou com várias idéias
(16:06) D-ARTS DESIGN: então.. eu nunca fui punk.. na verdade eu nunca fui nada...rsrsr
(16:06) D-ARTS DESIGN: simplesmente fui,. e sou do movimento musical...
(16:07) HANNA: sim
(16:07) HANNA: mas vc falou de comportamento diferente entre os punks, queria saber o
que seria isso?
(16:07) D-ARTS DESIGN: nunca fui ligado , rótulos de que vc tem que ser isso, pq v oca
(16:08) D-ARTS DESIGN: toca esse tipo e musica.. e.. tals...
(16:09) D-ARTS DESIGN: e que naquela época era outra realidade, outra geração.. as musicas que os caras ouviam era as
raizes punks..
(16:09) D-ARTS DESIGN:
e hj em dia tem os punks de butique.. que são.. os
(16:09) D-ARTS DESIGN: kkkkkkkkkkkk
(16:10) HANNA: os.........?
(16:10) D-ARTS DESIGN: emos
(16:10) HANNA: HAHAHAHAHAHAHA
(16:10) HANNA: mas os punks persistem também...
(16:11) D-ARTS DESIGN: sim,.. claro....
(16:11) HANNA: como vc acha que dá pra ser fiel a um movimento se hoje em dia (não há
ditadura, por ex) é difícil ser impulsionado ao debate, ou à luta?
(16:12) D-ARTS DESIGN: hummm.. vc acha que punks perderam a razão de serem punks....rss
(16:12) HANNA: não
(16:12) D-ARTS DESIGN: tem que ter algo.. pra reclam,ar......kkkkkkkkkk
(16:12) HANNA: acho que é difícil ser contestador numa sociedade que busca sempre a
amenidade
(16:12) HANNA: simm
(16:13) HANNA: é mais fácil se virar com o que tem do que ficar brigando por algo que
ninguém mais acredita... anarquismo.... igualdade.... respeito.... não que não
ache que tem que ser assim... mas é fácil nos deixarmos levar
(16:16) D-ARTS DESIGN: é isso.. news times...rsssss
(16:16) HANNA: uhum
(16:16) HANNA: e como fica isso?
(16:16) HANNA: rs
(16:17) D-ARTS DESIGN: rsssss.... fica do jeito que ta. eu nunca fui punk mesmo........kkkkkkkkkkkk
(16:17) HANNA: HAHAHAHA
(16:17) HANNA: doido
(16:17) HANNA: hein
(16:17) HANNA: tenho que sair
(16:17) D-ARTS DESIGN: falow querida... rssss
(16:17) HANNA: vou elaborando coisas pra te perguntar, ok?
(16:17) D-ARTS DESIGN: to rachando o bico aqui.......
(16:17) D-ARTS DESIGN: ok...
(16:17) HANNA: tenta lembrar nomes e tals que eu possa correr atrás
(16:17) D-ARTS DESIGN: de boas
145

(16:17) HANNA: ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah


(16:17) HANNA: eu tb
(16:18) HANNA: mas fico inconformada
(16:18) HANNA: (vontade de quebrar tudo de vez em quando)
(16:18) HANNA: ahahahahahahahah
(16:18) D-ARTS DESIGN: é uma ideia.. mais num nada...!
(16:18) HANNA: e vc? está com banda aí?
(16:18) HANNA: ah
(16:18) D-ARTS DESIGN: estou montando o zagaia aqui.. com outros musicos
(16:18) HANNA: o que é o nada, drailler?
(16:19) D-ARTS DESIGN: num vai resolver nada.. e vc pode ainda se machucar.. com os cacos...rs
(16:19) HANNA: hummm
(16:19) HANNA: ok
(16:19) HANNA: beijos
(16:19) HANNA: nos falamos
(16:19) D-ARTS DESIGN: bjos

Entrevista com Erik Wojcik sobre o Geléia do Asfalto

Foi um bando de adolescente. Na época só pixavam besteiras: fulano eu te amo, Gonçalo do CPA... aí a gente
resolveu pixar poesias no muro. Não tem muito o que falar, foi um negócio de 18 anos atrás, era um bando de
adolescente, o mais velho era eu que tinha 20 anos, todo mundo tinha 18, 17, 15 anos.

O que eu faço agora? Nada, falo mal dos outros, critico as bandas da cidade.

Eu tive uma banda, mas foram uns 4 shows só. Foi a Esbórnia. Era hard core. Eu era vocalista, era um resgate
até da cuiabania de vocês aí. As letras eram tipo assim “Vadernil, cadê Varderson? Tá na casa de Tjutju”. Tipo
um cururu, mas rock, rock pesado. Era eu, Drailler, Podre, e Jean Carlo.

Eu tive uma banda também de Rock Industrial, com sucata lá da Odessa. Até que eu me cortei. Onde que eu
me cortei meu deus do céu? Eu tenho cortes até hoje. Eu destruí minha mão numa sucata, isso o pessoal
lembra também. Rock Industrial é monte de sucata no palco, mola, parafuso, amortecedor, tudo o que você
possa imaginar, isso era vanguarda no último. Aí tinha uma bateria, um guitarrista, e som de sucata, eu fazia
sucata. Foi no Coletivo. Eu não sei se tem gravado, mas eles tem na memória.

Um bando de guris, que qeuriam o anarquismo. Nós entramos na hist´roria pq nós éramos do mau. EU ERA
UMA ESPECIE DE DIREITA DELES, E TINHA ATÉ OS STRAIEDGE.

Fernanda – Entrevista

Que cena? Eu sei assim, ó. Uma galera que se dizia punk, que eu era adolescente, que eu não conhecia
ninguém. Na real, eu conheço agora o Serginho H, o Rodivaldo, o Capilé, essa galera que diz que tinha essa
galera punk aqui, e aí parece que essa cena morreu, e aí teve uma galerinha aí que tentou reviver a cena aqui,
o Edzar, o Daniel Cabelo, a Hyngryd, o Aranha, o Roney, que saudade do Roney...
146

Era uma época bem propícia, porque o Cubo tinha umas bandas de Hard Core Melódico, então tava tocando
uma bandas que o Cubo punha pra tocar nas festas, né? Então acho que isso ficava bem próximo, acho que isso
favoreceu pra aquilo.

Um certo tipo de revolta, um descontentamento social, com a sociedade em si, com os valores da sociedade,
com o que é ensinado nas universidades, com a forma careta de ver o mundo, contra o conformismo
generalizado. Acho que é isso que unia e une as pessoas até hoje, E aí é claro, vem visual, é o som, é o goro, a
maconha. Aí vem as ...Drogas, as piras, sabe? O desejo adolescente de transformar o mundo todo de uma vez,
acho que rola isso também. Que o pessoal tinha, sempre tinha. A gente achava que podia mudar o mundo, e
pode, devagar e sempre.

Punk é... veio com a história do Faça Você Mesmo,do que eu conheço, nunca estudei sobre o Movimento Punk,
com aquelas musicas toscas, aí veio o Sex Pistols, os Ramones.e a galera começando o Faça Você Mesmo. Eu
acho que esse slogan tem muito haver com aquele outro que está muito na moda agora, que eu boto muita fé:
Agindo Localmente, Pensando Globalmente. O punk é revolucionário nesse sentido, assim. O Faça Você
Mesmo, você pode fazer, sabe? Vai e faz, vai e vê aí no que que dá.

No Movimento Underground tem isso de ser True, de ser verdadeiro. Na real eu sou eu, não tenho o True da
coisa. Com orgulho que eles são genuíno.

Acho punk é um elefante branco ... Ele vai ser diferente pra cada um que vê, meu vizinho estava falando que
ele punk, meu pau que ele é punk...

Parece assim... a impressão é que me dá é que você está remexendo as cinzas do movimento punk daqui...

(eu) Engraçado que tem foguinhos ...

Sabe você está indo lá, está remexendo a brasa. Aí acho incrível porque teve o festival na casa fora do eixo, aí
veio o Cólera agora, o Ariel no festival de cinema. Parece que você que ta trazendo essas coisas, que há muito
tempo eu não estava sabendo. Tirando o skarros, que eu conheço...

Skarros não é punk mesmo. Qual a necessidade quem tem de rotular?

Eu me acho punk, de todos esses rótulos que eu posso ter o que eu mais gosto é o punk, esse é o mais legal pra
mim, tem mais a ver com meu espírito, sabe?

E o que falta pra vc não dizer que isso é um rótulo? Pq é um rótulo?

Porque quando a palavra punk aparece, ou quando a figura de um punk aparece, tem uma série de
comportamento, de formas de ser no mundo, que é pré-determinado, que as pessoas esperam dessas pessoas
que se dizem punk, e não quero que as pessoas pensem que eu sou assim, exatamente assim... Porque eu teria
que dizer várias coisas, eu sou psicóloga, punk...

É mais fácil dizer assim, eu escuto rock pra caralho, eu gosto de ouvir barulho, já fiz barulho com uma banda,
era massa, eu gosto de ouvir história de vampiro, adoro jogar futebol, eu falo palavrão, quando tem show eu
adoro bater cabeça e pogar no meio da galera, fumo maconha pra caralho, eu andava de skate...

Eu lembro da fase mais junkie que eu assumo, Fernanda era junkie, Fernanda era junkie, muito junkie, parei
com as drogas, mas continuo junkie. Eu estava na fase mais junkie de todas, eu fazia trabalho voluntário no
147

Parque Geórgia, a única coisa que dava motivo de levantar, de ir pra faculdade, de fazer as coisas, de ficar viva
era a criançada lá do Parque Geórgia. Aí a Vivi nasceu e deu um gás, assim... então agora eu consigo trabalhar
no social e ganhar dinheiro, isso é bom demais, pra caralho, sonho da minha vida, estudei psicologia pra isso.

Esqueleto

É um bagulho impensado. Não é preciso planejar. Uma manifestação que não agredisse frontalmente através
da violência, mas que agredissem os princípios morais mesmo, tipo, uma suruba na avenida paulista, pára na
avenida paulista e vai todo mundo trepa na avenida paulista, saca? É claro que isso não é uma manifestação de
ímpeto político, mas é uma afronta ás estrutura morais que dão suporte ao sistema político também, né? E não
só isso, uma série de outras situações que podem ser criadas pra afrontar os valores que sustentam isso, né?
Porque não adianta a gente fazer igual os vermelhinhos fizeram, esbanjar o Estado, acabar com o exército, e
fazer a mesma bosta de novo. O que está de fundo nessa história é justamente o que precisa ser mudado, é
uma postura perante o mundo, é uma postura de valor, de prática de liberdade. E o sexo... Eu falei do sexo por
causa disso, o sexo é uma forças mais potentes do ser humano, das forças que mais impulsionam o ser
humano, a gente tem que bater nesse ponto.

É uma questão central por estar dentro do processo de uma maneira vital. Mas não só isso. Mas eu acho que
ao invés de pregações políticas, se fizesse orgias em praças públicas um impacto revolucionário maior.

Dia 22 de setembro

O som, a expressão artística do punk carrega muito desse ato de explosão e de desperdício de energia.

A idéia da conscientização, de todos os gritos de ordem políticos, que dão uma referência de ação de certo
modo. Acho que existe essa referencia, por mais que o puk seja uma movimento bem múltiplo ainda assim
acho que existe certas referencias comuns que o caracterizam.

Quanto o punk tem aspectos políticos dentro do seu corpo. Muito embora ele seja composto de toda uma
gama de manifestações de outra ordem, as culturais, o aspecto político é claro nos fanzines, nas letras das
músicas, nas fixações dos punks em acordarem e fazerem revolução, em destruir a burguesia, embrenhado em
todas as expressões do movimento punk.

Você parece considerar o punk como um movimento cultural enquanto os punks se pudessem estavam
pegando em armas.

Nem os anarquistas políticos sabem disso, ninguém sabe como deve ficar, ninguém tem de antemão planos
elaborados.

O meu plano de alguma maneira o planejamento do que deveria ser construído na hora, dentro de certas
referências fque na época eu tinha. Tinham ações que destituíam instituições que eu via como pilares da
opressão capitalista, e da opressão como um todo. A primeira parte era levar a ruína essas instituições, e a
segunda era construir com outros parâmetros, como atender esse anseio de liberdade.

Tudo se move em torno desse conceito vago chamado liberdade, e todos se movem em direção a isso, a essa
idealidade. De idéias que carregam a vida nas costas. Parece que todas essas abstrações que são a razão de ser
da vida. como se todas essas idéias de liberdade não fossem filhas da vida. o punk fica cada vez mais político
quanto mais deixa sua vida se escravizar dentro dessas abstrações. Doença do abstrato, da perfeição, do ideal,
148

o punk morre disso. Se você tirar a idéia de justiça, liberdade, dignidade, eu quero saber no que se pautaria
esse movimento.

Entrevista com Corvo

1- quero saber sobre o squatters.. como funcionava.. o que os punks faziam


lá... de que forma isso mexia com a cidade...

O SQUATTER EM CUIABÁ

Depois de muito tempo se reunindo na praça Vermelha (praça da biblioteca na Issac Póvoas), a galera do
movimento punk resolve invadir um prédio abandonado pelo poder público! E o prédio escolhido é a antiga
sede do clube do operário. O Prédio se localizava onde hj funciona o Cavernas Bar, mais era bem maior,
abrangia além das dependências do Cavernas, mais a edificação do lado direito, e também onde hj funciona um
estacionamento! Era um prédio realmente grande, e se tivesse sido preservado, uma construção do patrimônio
histórico. Após invadir o prédio, começamos a limpeza local, e como era bastante espaçoso, além de porão e
soton, o mesmo tinha grandes cômodos onde eram realizadas reuniões, onde debatia mos as ações a serem
promovidas pelo coletivo. Além de punks, também tinham no grupo, alguns Headbangers (metaleiros) e muitos
anarquistas proveniente do M.A.U.(Movimento anarquista Universitário). O Squatter tinha como objetivo de
servir de alojamento para aqueles q estivessem sem lugar para ficar(uma espécie de albergue),e também como
um ponto de encontro,para debates, planejamentos, e também um centro cultural, onde eram feito exposições
de zines, confecções de faixas e cartazes de passeatas e manifestações organizadas pelo grupo! Ali também
rolava idéia sobre como seria desenvolvido os zines, tanto do M.A.U, como dos punks.

Bom para a cidade isso foi meio chocante, o Squatter aconteceu no ano de 1991, e para Cuiabá isso era um
choque, imagine um bando de garotos e garotas de visual se reunindo ali, em pleno centro da cidade, o que
imaginava a sociedade em geral, era que nos reunia mos para usar droga, ou fazer orgias, mais em nem um
momento se viu isso no ambiente, pq nós punks sabia mos da responsabilidade q era estar ali fazendo uma
ocupação de um prédio de terceiro, e pleiteava mos ganhar o local, e transformar em centro cultural.

2- quando vcs estavam na rua como era? conte fatos

Bom, quando o punk estava na rua era uma questão polêmica, de chamar a atenção
de todos, de um lado, curiosos querendo saber como era feito para levantar o cabelo,
e de onde vinha essa revolta visual! E de outro lado à repressão, tanto da polícia
como da população masculina, pq em Cuiabá predominava as gangues, ou do Dom
Aquino, ou do Morro, e eles qdo cruzavam com nós punks, já queriam partir para cima
pra bater, agredir, mais sempre tinham um pouco de receio, pelo fato de estar mos
sempre de cintos de rebites e cravos, correntes, q fazia parte do visual, e os cabelos
ou moicanos, ou espetados. Aquilo era uma agressão e algo fora da realidade para as
mentes primatas dessas gangues. Querendo ou não o punk sempre teve um lado mais
intelectual q os outros movimentos, pq forçava os membros a pensar, expor suas
149

idéias, ou através dos fanzines, ou pelas bandas em sua letras.Bom as garotas,


colegiais ou não qdo encontravam com nos punks, queria nos conhecer e saber mais
sobre o movimento,de onde vinha, qual era a proposta. Enquanto a polícia nos via
como uns marginais e perigosos, sempre havia abordagem, e estavam sempre
querendo tomar nossos coturnos. Os Religiosos (evangélicos) pediam aos filhos para
não terem amizades com os punks,pq eram verdadeiros diabos. Era sempre bem
vindo na UFMT, e ns imediações, pq representava mos algo de novo em todos os
sentidos, musical, cultural e até em uma postura anárquica de propagar o vote nulo, e
o não ao serviço militar obrigatório.

Um fato curioso qdo estávamos nas ruas aconteceu assim: nosso grupo do núcleo
araés, estava mos voltando do Grande terceiro, qdo ia virando a Pedro Celestino, o
Júlio sentiu um golpe nas costa, qdo nos viramos, um grupo de capoeirista já vinham
correndo para nos bater, sem a mínima justificativa, um deles havia atingido o Júlio,
como estávamos em numero menor, a opção foi 3 de nos ficar e segurar eles com as
correntes, enquanto o resto correu para não levar a pior, então os maiores e mais
fortes ficaram e se digladiaram lá até q conseguimos todos fugir dos animais
capoeirista.

os apelidos, como eram escolhidos? explique o apelido do mamuth.. da galera


toda que puder... quem batizava?

Bom os apelidos surgiam de formas engraçadas, o do Mamuth surgiu por que um dia
um dos meus irmãos tava lendo uma revista em quadrinho e lá tinha um cara
chamado professor Djama muht, ai ele achou engraçado, e como o Mamuth se
chamava Djalma, ai comecei a chamá-lo de Mamuth. Os apelidos às vezes eram
escolhido pra zuar com o cara, ou era pq não sabia mos o nome do novo integrante.

Tipo tantop o Batman, ou o Corvo, foram pq ambos usavam camisetas com os nomes
q são conhecidos hj. O Corvo editava um zine, chamado: O Corvo no Inferno! E tinha
uma camiseta pintada com o nome do zine, ai quem não conhecia ele pelo nome:
falava,aquele cara do Corvo. Já o Batman, a mesma história, usava uma camiseta
com o símbolo do Batman, e sse já foi eu q coloquei o apelido, pq achava ridículo
aquela camiseta preta com o desenho do batman amarelo. Mais rolava também qdo
vc num gostava do cara e colocar um apelido bem paia, tipo “Poison”, ou Kibe! Dois
cars bem chatos q estão por ai até hj! Agora André Hc. Era pq ele era a cara do
Hardcore! Fazia jus ao nome.

como essa coisa de sair de bairros periféricos e ir ao centro pode ter


transformado a cidade?

e o que mais vc lembrar relacionado a isso


150

A transformação de sair dos bairros e ir para o centro transformou a cidade no sentido


dela saber que algo estava mudando na pacata Cuiabá.As lojas de vendas de discos, as
bancas de revistas, as de instrumentos musicais, começaram a perceber q havia um
novo público consumidor, os produtores de eventos culturais, começaram a perceber q
não era só aquela mpb regional q o jovem queria ver tocando, foi abrindo espaço nos
eventos, as rádios, os jornais, começaram a fazer matérias relacionadas ao q tava
acontecendo na cidade. Revista contato, diário de Cuiabá, a tribuna, todos esses veículos
correram atrás pra saber oq era o punk, pq ele veio, e para q. E é importante ressaltar q
nessa Cuiabá, não havia músicos de rasqueado e nem tão pouco lambadão e pagode! O
Punk rock tava aqui bem antes desses gêneros musicais. Embora que eu ache q tanto o
Grande Terceiro e Jardim Europa, + araés não são e não eram bairros periféricos. A Bem
verdade é que a periferia de Cuiabá sempre foi pobre culturalmente e ainda é. Alguns
jovens da periferia buscaram saber mais sobre o punk vindo até a região central, ou nos
bairros acima citados. Se dependesse da periferia, acho q o punk não chegaria em
Cuiabá tão cedo.

Como já havia lhe dito certa vez, quando olho o Bell Som fazendo uma sonorização, me
lembro dele em seu primeiro som, umas caixinhas pequenas, pouca aparelhagem, e hj
ele com uma sonorização q pode atender até bandas internacionais. Ele evoluiu
juntamente com essas primeiras bandas, já q cada vez q ia fazer um evento, a exigência
era maior, musicalmente falando, o punk contribuiu para esse crescimento.

Entrevista com Rato

O pessoal está alargando, deixando aos poucos o pensamento de que eu não vou estudar, não vou
trabalhar. Muitos estão construindo família, tem filhos, né? Então estão procurando desenvolver
algum trabalho, algum estudo, pra poder estar sustentando a família, né?

O movimento punk não perde nada com isso, só ganha, só ganha. Porque as pessoas se aproximam
mais da gente. Tipo eu mesmo, quando voltei a estudar lá na minha escola, as pessoas achavam que
eu era um cara violento, e quando me conheceram mudaram totalmente a concepção deles a meu
respeito.

O movimento punk antigamente quando só aparecia na mídia quebrando os outros, né? Quebrando
polícia, né? Hoje não, com essa onda do pessoal estar no meio, as pessoas se aproximam mais do
movimento punk, as pessoas estão passando a conhecer. Mas a mídia está em cima do movimento
punk, mas não pra colocar o movimento punk como um movimento de mudança, de atuação. Ela
está colocando o movimento punk, tipo, banalizando o movimento punk pra que ele acabe, para que
o movimento acabe. Tem guri montando banda. O que a mídia quer. Que o movimento comece a se
destruir por si próprio. Porque as pessoas vão desisitir. Porque eles sabem que o movimento punk é
um movimento forte, de atuação, de impacto... Diferente dos outros movimentos que ocorrem aqui
no Brasil.

Em relação aos outros movimentos


151

Tirando a indumentária que todos os movimentos têm, o punk é mais, como eu posso falar? Ele
dialoga mais, se aproxima mais das pessoas, e tem uma posição ideológica firme. Já outros
movimentos não, outros movimentos é só curtição, só rock and roll. Não vou falar que não tem, mas
é o mínimo.

O punk está mais atrelado á cultura. A política é um meio de atuação. É um meio de atuação, assim
como tem vários anarquistas, eu sou anarquista também, mas não que eles queiram ser partido
político.você pode ter construir alguma coisa dentro, mas não forçando, vc não vai mudar o que as
pessoas pensam. Independe do partido, elas querem construir alguma coisa, elas querem mudar
alguma coisa, e dentro da faculdade já é uma meta de você mudar alguma coisa, com várias pessoas,
você não pode se fechar no seu mundinho, naquele grupo de pessoas naquele grupo de pessoas que
acham que vai mudar o mundo, que é minoria, e não da chance pra outras pessoas que tem o
mesmo pensamento, lógico que vc não vai ficar junto com nazista, facista, integralista, mas uma
pessoa que você está vendo que quer mudar alguma coisa junto a você, então você pode
acrescentar, que você pode etar junto de pessoa que pode mudar o rumo de alguma coisa.

O punk ele é multi-étnico, engloba várias culturas e várias etnias dentro de um só. O movimento
punk é envolvido com movimento indígena, afro, movimento gay, dos artesãos, dos pescadores. O
movimento punk quer estar ali pra se envolver naquilo ali pra desenvolver dentro da comunidade ou
lugar que ele esteja. Vários punks aí que estão morando em aldeias indígenas, cultivando horta, em
movimentos negros estão em quilombos. Por isso eu falo que ele é mais cultural que político, ele se
envolve mais com o cultural com o político.

Eu gosto da natureza, mato... mas hoje em dia não dá pra entrar em qualquer lugar, por que vai ter
um dono: ah, não sei... fora da minha propriedade. Então você fica bitolado só dentro da cidade.
Dentro da cidade você consegue encontrar várias coisas pra você trabalhar, o movimento punk está
se tornando... era muito urbano, e ele está se tornando mais natural. Hoje em dia você não encontra
muito punk dentro da cidade, eles se mudam pra cidade pequenininha, quem tem mato, que tem
cachoeira,eu tenho vários amigos que estão morando em praia, não praia que tenha cidade perto,
mais isolado, o pessoal vai lá e monta uma comunidade, ali eles produzem pão, tipo uns fazem e os
outros saem pra vender, aí tem tudo ali, tem horta, nada comprado da cidade, é só trabalho deles
mesmos.

Acordar de manhãzinha cedo, olhar pro mato... não tem como tirar, eu mesmo sou acostumado a
andar com visual, eu não ando todos os dias porque tem lugar que tem que ir, tipo banco, correio,
você não vai entrar cheio de cinto, que a portinha não abre, aí você tem que ficar tirando tudo, aí
colocando tudo de novo, só quando você vai pra algum lugar, vamo bebe, vamo sai, vamo pra algum
lugar, aí é assim... mas o punk não deixa de ter a sua indumentária.. ele vai estar carregando aquilo
152

ali, tem uns que não usam mais, né? Porque já estão mais velhos, aí o cara não usa mais o
bracelete,o moicano, mas está sempre de preto... tem a cultura ainda.

 Em que período você viveu o movimento punk em Cuiabá?

Quando chegou aqui como era o cenárfui conhecer Cuiaba a convite do Toiça (Marcelo) ex batera do blokeio
mental, em 1992, depois dele ter morado em Curitiba, na minha casa, era p ficar uma semana e nos primeiros
dias eu ja tinha conhecido a Rosi, vocal do GTW, (gostei muito da banda também!!!)e ja rolou um clima.... rsrsrsrs
e ja estava com um trabalho de arte finalista numa gráfica, indicado pelo Corvo (blokeio mental) bom eu e a
Rosi começamos a namorar e logo fomos morar juntos.... só fui p Curitiba buscar uma mudança de caminhao....
nossa.... rsrsrsrsrs... bom ai comecei a me dedicar a minha sobrevivencia em Cuiaba e ao movimento punk,
fazendo reuniao e zines.... me dediquei a muitas coisas em Cuiaba até o fim deste relacionamento com a Rosi,
mais ou menos em 1999 em 2000 fui tentar a vida em Curitiba de novo.... mas ai ja tinha a casa em Chapada, e
foi muitas indas e vindas de Curitiba pra Cuiaba, em Cuiaba, comecei a fazer reunioes na UFMT na "arena
underground" para incentivar os zines e as discussoes politicas, fiz alguns números do zine ovelhas negras, e
me dediquei muito aos show do GTW, na produção divulgação e finalmente em 1994 mais ou menos consegui
levar a banda para tocar em Curitiba, nuns 3 shows inesquecíveis... em Cuiaba, continuei com zines e fiz a MIACU
"mostra de imprensa alternativa de Cuiaba" que tinha como objetivo a distribuição gratuita de zines de todo o
pais e exterior, era bem legal e isso estimulou muitas correspondencias e a criação de outros zines... depois teve
o surgimento dos grupos MUC "movimento underground Cuiaba" que era pra moçada se interar e ver que isso ja
existia em outras cidades... que acabou tendo uns equivocos por parte de alguns e alguns radicalismos.... teve
depois o surgimento do coletivo libertário, grupo de estudos politicos que chegou a ter uma sede na rua
voluntários da pátria, que eu achei muito engraçado e batizei a sede de voluntários sem pátria!!!!! a gente fica
velho se cansa e existe o momento de deixar a coisa acontecer por si só, e até hoje existe esse grupo e
naturalmente suas lideranças naturais num bom sentido, eu continuava a fazer as coisas pelo movimento mas a
sua vida tem que estar em primeiro lugar..... em Chapada dos Guimaraes tentei fazer algo neste sentido, de
concientização, e cobrar dos politicos que fizesem algo pela cidade "turistica" que apilidamos de "duristica" mas
o nível de consciencia politica local era muita fraco, desarticulado mesmo, só porra loquice mesmo....
rsrsrsrsrsrss..... dai ja estavamos em final de 1999 e eu ja voltando para Curitiba tentar a vida, deu certo lá
vários vídeos de animação, mas voltava sempre p Chapada para cuidar da minha casa..... isso ja era 2001, ja
quase para conhecer a Juliana, que mais tarde teríamos um filho..... io desse movimento?
 Sabendo que o movimento em Cuiabá se iniciou na década de 80 que impressões você tem dessa década
anterior? Havia continuidade em relação a questões práticas como produções de zines, planejamento das
reuniões, tentativa de se manter um cenário musical ou não?
fiquei de cara com Cuiaba! a cidade era maior e bem mais agitada do que eu imaginava, achei bem legal naépoca tinha o
bar obelix onde tocava o GTW! tinha mais outras bandas e um público, poucos punks mas misturado com poucos head
bangers e doidos conscientes da noite.... sem tretas e sem SKIN HEADS!!!!!!!!!!!!!! rsrsrsrsrsrs... muita cerveja e
calor................... rsrsrsrsrsrss..
nossa que pergunta comprida!!! rsrsrsrss.... sim havia a tentativa de se manter o movimento punk vivo em Cuiaba, a
organização de shows etc... me pareceu uma época de divisão, dos mais políticos e os mais junks!!!!! que agora são todos
amigos e dinossauros do rock matogrossense!!!!!!!!!!!!

 Você que participou do movimento em outras cidades, poderia traçar as especificidades do movimento em
Cuiabá?
"especificidades????" o que é isso?? é de couro ou de escama esse bicho???? rsrsrsrsrsrss a diferença é que em Cuiaba
é um calor do cacete, e no sul dava pra usar aquele visual que tinhamos como refencia, do punk na europa..... mas o legal é
que o punk foi se tornado uma coisa do mundo inteiro, e em cada lugar com suas caracteristicas....

 Como o punk em Cuiabá era visto pela população em geral? Pelas forças de poder como a polícia?
isso é interessante em Cuiaba, em Curitiba (CWB) eu ja tinha levado inúmeras vezes geral da polícia, com muita
porrada mesmo... e até uma vez me levaram uns cintos de rebites que eu fazia p vender.... fui a falencia!!!!!!!!!
rsrsrsrsrs.... em Cuiaba, sai muitas vezes de moicano de dia e de noite, e nunca aconteceu nada! a nao ser
153

aquela vez que a policia fechou todo o bar.... mas iso ja era 1999... eu acho.... e a polícia foi bem violenta.... em
Cuiaba é estranho, me parece que a população ja esta acostumada com a presença de indios e de gringos, é mais
misturado, e nao tem tanto esse problema, ja no sul é preconceito mesmo, discriminação mesmo, de maneira
consciente disso!!!!! em Cuiaba, a polícia nao para quem esta de visual pra dar geral por causa de drogas.... me
parece que a coisa em Cuiaba neste sentido é algo bem maior.... e numa população de um milhao de abitantes,
vai ser sempre meia dúzia de "metaleiros" na visaõ da polícia e da sociedade..... ja em Curitiba, nao, a polícia
para mesmo quem ta de visual pra dar porrada mesmo, e pra procurar drogas mesmo.... uma vez no linos bar eles
levaram os soldados recem formados pra dar geral nos punks como forma de treinamento!!!!!!!!!!!!

 O movimento punk é um movimento de gueto?


sim no começo era, das entranhas dos esgotos, dos restos de nada....
 Como situar o punk hoje entre a necessidade de sobrevivência, o consumo e a arte?
voce tem que ser voce mesmo, antes de ser punk, anarquista, socialista, comunista ou qualquer "ista" rsrsrsrsrs sua
sobrevivencia e seu talento, seu DOM tem que estar em primeiro lugar.... temos que consumir , mas nao significa ser
consumista, a arte, sempre, pela arte, em defesa da arte... da música etc.... esta pergunta esta confusa!!!!!!

 O que você acha do movimento hoje?


hoje existe indivíduos punks em todas as cidades do mundo.... isso tudo é um grande movimento internacional, de
expressao, de protesto, de indignação, de revolta, e de sobrevivencia num sistema injusto e desumano, num mar de
ignorancia!!!!!!

 ana paula (empoema@hotmail.com)


 Rodolfo (rodoxart@hotmail.com)
(16:14) ana paula: acabei de ler uma entrevista sua no art underground, gostei!
(16:14) Rodolfo: que legal!!!!
(16:15) Rodolfo: quem é?
(16:15) ana paula: foi dessa vez que esteve aqui?
(16:15) ana paula: quem é o que?
(16:15) ana paula: aiaiaiaiaiaiaai-ai
(16:15) Rodolfo: em poema???
(16:15) Rodolfo: que entrevista???
(16:15) ana paula: ai, rodolfo, sou eu, ana paula. saco!
(16:16) Rodolfo: aaaa....
(16:16) Rodolfo: a megrela...
(16:16) ana paula: no site do art underground
(16:16) Rodolfo: meio kilo?
(16:16) ana paula: e aí?

(16:16) Rodolfo: e a cachaça chegou inteira?


(16:16) ana paula: estou vasculhando as entrevistas aqui
(16:16) Rodolfo: gostou das respostas??
(16:16) ana paula: que cachaça?
(16:16) ana paula: sim
(16:16) Rodolfo: é pra onde??
154

(16:16) ana paula: estou separando pra começar escrever algo


(16:17) Rodolfo: a que ficou no porta malas do seu carro...
(16:17) ana paula: vou ficar offline e qualquer coisa posso te gritar, baby?
(16:17) Rodolfo: mas gostou?
(16:17) ana paula: ahhhhhhhhhhhhhhhhh
(16:17) ana paula: cara
(16:17) Rodolfo: o que achou??
(16:17) ana paula: nem te conto...
(16:17) ana paula: ahahahahhaah
(16:17) ana paula: rendeu história
(16:17) ana paula: ahahahahaha
(16:17) Rodolfo: o que, quebrou???
(16:17) ana paula: nãoooooooo
(16:17) ana paula: tomei tudo numa noite só
(16:17) Rodolfo: aaaaaa que bom o que a cachaça???
(16:17) ana paula: aham
(16:17) ana paula: ei
(16:17) Rodolfo: nossa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!]
(16:17) Rodolfo: bebeu tudo????
(16:18) ana paula: vou fazer os lances aqui e te chamo quando precisar de ti
(16:18) Rodolfo: kkkkkkkkkkkkkkk...
(16:18) ana paula: bebi
(16:18) ana paula: hehehe
(16:18) ana paula: ok?
(16:18) Rodolfo: quantas cervas voce me deve?
(16:18) ana paula: depende
(16:18) ana paula: quanto mais rápido vc voltar mais crédito tem

(16:20) Rodolfo: ta acho que vou em julho....


(16:20) ana paula: eba
(16:20) Rodolfo: estou vendo se armo algum trampo....
(16:20) Rodolfo: por ai....
(16:20) ana paula: massa
(16:20) Rodolfo: ta beijos na coxuda da sua irma....
(16:20) Rodolfo: rsrsrsrsrss....
(16:20) ana paula: eu queria trazer restos de nada pra cá, mas não acho ninguém pra
topar essa empreitada comigo

(16:21) Rodolfo: inté


155

(16:21) ana paula: té


(16:21) Rodolfo: manda um beijo p ela então...

(16:21) ana paula: tá


(16:21) Rodolfo: pra Fernanda.......
(16:22) ana paula: hummmmmmm
(16:22) Rodolfo: ummmmmm....
(16:22) ana paula:

(16:22) Rodolfo: rsrsrsrs...


(16:22) ana paula: hehehe
(16:32) ana paula: rodolfo, tem uma pergunta que vc diz estar confusa
(16:32) ana paula: e eu queria que vc a entendesse
(16:32) ana paula: está ocupado?
(16:33) Rodolfo: fala....
(16:34) ana paula: é simples. como ser punk e ter que ser um consumidor ao mesmo
tempo?
(16:35) ana paula: tipo, uma coisa não nega a outra?
(16:35) ana paula: ou melhor
(16:35) Rodolfo: como a ssim, voce falou da arte também...
(16:35) Rodolfo: somos a favor da arte....
(16:35) ana paula: como ativar sempre essa essencia punk nessa vida atribulada, de
trabalhos, de coisas que precisamos ter
(16:35) Rodolfo: mas tem muito punk burro também....
(16:35) ana paula: eu sei
(16:36) Rodolfo: é dificil generalizar um mov. tao diversificado...
(16:36) Rodolfo: eu sei!!!!
(16:36) Rodolfo: kkkkkkkkkkkkk.....
(16:36) ana paula: mas eu quis dizer assim: de um lado o punk, a arte e de outro, a vida
que exige outras coisas
(16:36) Rodolfo: estamos dentro de um sistema mas nao precisamos concordar com ele, é isso...
(16:36) Rodolfo: então consumimos o necessário, o obvio....
(16:37) ana paula: mas como se vc tem que vender sua força de trabalho... tem que suar
pra ganhar grana, tem que fazer parte do sistema
(16:37) Rodolfo: mas por atitude voce nao vai em lugares de consumo....
(16:37) ana paula: entendo
(16:37) Rodolfo: nao vai se preocupar em marcas de consumo....
(16:37) ana paula: vc não vai ao shopping?
(16:37) Rodolfo: em ir no mac donalds.. etc...
(16:37) Rodolfo: raramente vou em shopping...
(16:37) ana paula: rs
(16:37) Rodolfo: principalmente aaqui...
156

(16:38) Rodolfo: em Cuiaba nao tem outro mlugar p ir a nao ser no shopping por causa do calor....
(16:38) ana paula: gostei muito dessa resposta aqui ó: em Cuiaba, sai muitas vezes de
moicano de dia e de noite, e nunca aconteceu nada! a nao ser aquela
vez que a policia fechou todo o bar.... mas iso ja era 1999... eu
acho.... e a polícia foi bem violenta.... em Cuiaba é estranho, me
parece que a população ja esta acostumada com a presença de indios
e de gringos, é mais misturado, e nao tem tanto esse problema, ja no
sul é preconceito mesmo, discriminação mesmo, de maneira
consciente disso!!!!! em Cuiaba, a polícia nao para quem esta de
visual pra dar geral por causa de drogas.... me parece que a coisa em
Cuiaba neste sentido é algo bem maior.... e numa população de um
milhao de abitantes, vai ser sempre meia dúzia de "metaleiros" na
visaõ da polícia e da sociedade..... ja em Curitiba, nao, a polícia para
mesmo quem ta de visual pra dar porrada mesmo, e pra procurar
drogas mesmo.... uma vez no linos bar eles levaram os soldados
recem formados pra dar geral nos punks como forma de
treinamento!!!!!!!!!!!!
(16:38) Rodolfo: é isso é legal né....
(16:39) Rodolfo: aconteceu mesmo....
(16:39) Rodolfo: gosotu pelo jeito????
(16:39) ana paula: sim, muito. fico tentando entender o que o punk de cuiabá pode ter de
diferença de outros lugares
(16:39) ana paula: e isso foi um ponto legal que vc lembrou
(16:39) ana paula: essa aceitação
(16:40) ana paula: apesar que tem gente que afirma que o punk aqui é marginalizado,
pela polícia e tals
(16:40) ana paula: talvez uma diferença de ponto de vista, não?
(16:40) Rodolfo: nao..... todo individuo punk,....
(16:40) Rodolfo: principalmente no começo quer se sentir um trapo humano e marginalizado pela
sociedade...
(16:41) Rodolfo: e desculpa p beber
(16:41) Rodolfo: eeee...
(16:41) Rodolfo: eeerrggg...
(16:41) Rodolfo: vomitar....
(16:41) ana paula: "quer"?
(16:41) Rodolfo: e fazer cara de mal....
(16:41) ana paula: "quer se sentir" é?
(16:41) Rodolfo: rsrsrsrss,,...
(16:41) ana paula: hummm
(16:41) ana paula: e pq? está ligado as forças ocultas rs da juventude?
(16:41) Rodolfo: é... quer... passar por um monte de coisas...
(16:41) Rodolfo: se sentir....
(16:42) Rodolfo: isso nao da p explicar...
(16:42) Rodolfo: é a vicencia de ser punk......
(16:42) Rodolfo: tem que experimentar isso p saber...
(16:42) Rodolfo: sentir.....
157

(16:42) Rodolfo: é querer... ser igual ao mendigo....


(16:42) Rodolfo: é passar por essas coisas...
(16:42) Rodolfo: entende?
(16:43) ana paula: entendo
(16:43) Rodolfo: ummmmm...
(16:43) ana paula: mas isso não está ligado exclusivamente ao punk, né?
(16:43) Rodolfo: então depende muito da idade...
(16:43) Rodolfo: mesmo...
(16:43) Rodolfo: acho que nao....
(16:43) Rodolfo: mas no caso é disso...
(16:43) Rodolfo: é nisso....
(16:44) ana paula: acha que o punk tem uma tendencia ainda maior a essa "auto-
destruição"?
(16:52) ana paula: não responde não, rodolfo.. tá bom... estou indo..
(16:52) ana paula: beijo
(16:52) Rodolfo: mas eu respondi....
(16:52) ana paula: foi? ok! rs
(16:52) ana paula: eu vou indo
(16:52) ana paula: terminar aqui
(16:52) Rodolfo: ta beijos....
(16:53) Rodolfo: magrela....
(16:53) Rodolfo: meio kilo.....

Rodolfo Scheffler
por Underground Cuiabá

Rodolfo foi um dos mais ativos dentro do movimento punx,


tanto em Cuiabá quanto em Curitiba, no fim da década de 80 e
começo da de 90. Passado tanto tempo, Rodolfo nesta
entrevista, resgata um pouco dessa história e também deixa
suas opiniões sobre a atualidade.

Publicada em 4/4/2008 16:34:27

Undercba: Rodolfo, no começo dos anos 80 você era muito conhecido na cena underground
nacional( especialmente na cena punk). Falar de zines sem citar o "Ovelhas negras do Brasil"
seria o mesmo que falar de futebol sem citar o Brasil. Como era fazer parte desse contexto, e
quais eram as dificuldades e os estímulos?
158

Rodolfo Scheffler: Não tinha dinheiro para o xerox, tirava poucos exemplares de cada número,
até pegar as "manhas" de conseguir xerox em repartições públicas, escritórios de amigos.
Estímulos?! Sempre vai ter nove pra te criticar e um pra te elogiar. Fiquei 1 ano no quartel, e
nesta época tive dinheiro para zine e depois alguns trampos também.

Undercba: Como deu-se o 1º contato com a cena Cuiabana? E como foi depois trocar Cwb por
Cgb (em que ano isso aconteceu, e como)?Foi difícil se adaptar?
Rodolfo Scheffler: Em 1990 eu acho, nós organizamos em Curitiba(Cwb) o 1º PUNKARANA,
a idéia era fazer o que estava ao nosso alcance para fortalecer a Cena PUNK no Paraná, já que
haviam os primeiros contatos com bandas de Londrina e fizemos tudo sem um centavo, e para a
nossa surpresa veio bandas de Santa Catarina(1) DESTROYER, DE São Paulo(1) DZK, e de
CUIABÁ(1) o BLOKEIO MENTAL. Recebemos todos da melhor maneira possível. Na época
então o BATMAN(Baixista do BLOKEIO MENTAL), e o TOIÇA(Vocal), quiseram morar um
tempo em Curitiba, ficaram na minha casa, uma micro kitinet num bairro de CWB, que ganhei
da minha Mãe (a verdade seja dita), depois de um tempo ficou só o TOIÇA, e um dia me
convidou para conhecer CUIABÁ. Pedi demissão da madeireira onde trabalhava a uns meses, a
grana era pouca, lembro que dividimos o marmitex na viagem. E em Abril + ou - de 92 eu
estava aqui, achei CUIABÁ completamente diferente é claro, nunca tinha visto um Pé de Manga
ou de Caju. Passei mau com o calor, mas em uma semana em CUIABÁ já rolou o 1º emprego de
arte finalista numa gráfica, indicação do CORVO inclusive, e depois conheci a vocalista do
G.T.W., e começou realmente uma história aqui, os trampos de arte também começaram a dar
certo graças aos amigos na época também. Já em 1992 fizemos o Clip do G.T.W. com animação
de bonecos e imagens da banda e foi vinculado na MTV nacional, Foi aí o começo de tudo. Os
trampos para se manter em CUIABÁ, mas sempre foi muito difícil se adaptar principalmente ao
calor, ia para Cwb todos anos, no começo com mais freqüência, depois só de vez em quando.

Undercba: Com o passar dos anos você se tornou uma figura lendária na cena cuiabana e muito
querido por todos. Houve algum momento em que você se arrependeu de estar por aqui?
Rodolfo Scheffler: Querido por todos! Ha, haha, não sei não, infelizmente direi uma imagem
muito anti-social, em outubro de 1997 meu Pai faleceu em Curitiba, eu estava no meio uma
produção de um vídeo de animação, um trampo grande mesmo, que depois valeu um prêmio de
publicidade, mas não fui ao enterro, e foi quando bateu esse sentimento da sua pergunta, pouco
depois disso o relacionamento com a Rosi acabou também. Ai veio uma fase difícil aqui, muito
difícil. inventei de comprar um terreno em Chapada e fazer uma casa, que nesta busca por mais
natureza e menos urbanoide me deu muito trabalho e problemas, me amarrando muito. Tive que
emprestar a casa e voltar para Cwb, onde consegui bons trampos com os vídeos de animação. Se
não tivesse a casa em chapada não teria voltado para cá varias vezes, em Cuiabá muitas portas
de trabalho se fecharam e eu voltei a ser um forasteiro...

Undercba: É difícil deixar de falar da sua parceria com a banda G.T.W. Graças a seu trabalho o
G.T.W. tornou-se uma banda mais próxima do underground, mais participativa e cresceu em
popularidade na cena. Como foi feito o seu trabalho de produção que alavancou essa banda? Foi
gratificante, e você teve alguma oposição dentro da banda?
Rodolfo Scheffler: Logo que vi o G.T.W. no OBELIX BAR, gostei muito da banda e quis me
dedicar, queria realizar o sonho de ver o G.T.W. tocando em Cwb, que só consegui realizar anos
depois já com algumas mudanças na formação. Oposição não, mais falta de consciência de
grupo sim, fiz tudo sem grana, poderia ter feito muito mais se os integrantes da banda se
dedicassem a produção de material de divulgação. Lógico que a dedicação teve a ver com o
relacionamento com a vocalista, eu a incentivava muito a continuar com a banda. O G.T.W
nunca foi uma banda PUNK, foi uma banda TRASH/HARDCORE, sem compromisso com o
movimento PUNK. Eu influenciei a banda com letras de várias músicas, como: Tetas do Estado,
Limite Animal da Vida,Antes da Bomba/Depois da bomba(AB/DB), etc...É lógico, divulguei
para os meus endereços de bandas PUNX da época, e os shows que consegui em Cwb na
"Fábrica de Vagabundos", junto com CÓLERA, DZK, EXTREMA AGONIA e outras em 1994
ou 1995, não me lembro. Eu nunca fui músico integrante da banda, gostei muito de ter me
dedicado de Corpo e Alma ao G.T.W desde o começo com a antiga formação. Fiz muitos
amigos também com as mudanças de formação, vale destacar o guitarrista VICENT de São
Carlos(SP) que faleceu lá num acidente despencando de um morro após um ataque de abelhas!
Foi dessa época em diante que o G.T.W ficou conhecida como uma banda PUNK, pois o
VICENT foi o único na banda a usar o cabelo MOICANO. Sou a favor da iniciativa de ex-
integrantes se unirem para resgatar as músicas, gravarem e vender o CD, sendo justos com os
direitos de todos os envolvidos.

Undercba: Como foi organizar Aa M.I.A.CU, e como surgiu essa idéia?E o que você acha da
159

iniciativa da nova geração organizar a MIACU 2004, a primeira pós século 20?
Rodolfo Scheffler: Mostra de Imprensa Alternativa de Cuiabá, logo em 1992 eu comecei umas
reuniões na "arena"(UFMT), e levava os zines para a galera conhecer! Eu recebia muita
correspondência e ZINES, ai resolvi juntar durante alguns meses e fazer uma grande exposição e
distribuir gratuitamente, para fortalecer o Intercâmbio Cultural de indivíduos de Cuiabá com
bandas e Zines de outras cidades, a receptividade foi mais que eu esperava, aí realizei mais umas
03, num total de 04 (eu acho) uma por ano, sempre em julho, com apoio de amigos na
organização, acho que isso Influenciou para o surgimento do COLETIVO LIBERTÁRIO, e o
M.U.C (Movimento Underground de Cuiabá), que houve inclusive muita confusão e
desinformação, como se fosse uma gang ou algo que só existisse em Cuiabá. Depois pelo que
parece ficou claro que o termo "UNDERGROUND" existe no mundo todo como algo
subterrâneo "entrada do metro", inclusive prefiro o termo "alternativo", pois hoje em dia este
mundo UNDERGROUND está associado a "junks"(drogados). Acho ótimo ter pessoas
querendo organizar a "Cyber" MIACU, estou numa luta pela sobrevivência muito difícil no
momento da minha vida, mas se eu puder colaborar de alguma maneira, contem comigo,
acreditem na força dos ZINES, inclusive para divulgação de bandas.

Undercba: Qual a sua opinião sobre o punk no século 21, onde um bando de garotos, na
maioria das vezes com muita grana, montando bandas e saido por ai dizendo que é "Punk Rock"
e algumas se denominando "HardCore", quando na verdade não passam de um pop rock
disfarçado! Isso não te deixa um pouco magoado, pois você sempre batalhou por essa corrente, e
ver um bando de playboys pagando de "Revolts", quando na maioria nunca fizeram nada em pró
da cultura underground, sem as vezes nunca ter nem idéia do que é um zine?
Rodolfo Scheffler: Ninguém tem obrigação de saber o que é um zine! Pessoas que fazem
ZINES tem mais experiência em montar uma publicação, do que quem trabalha num jornal. Mas
procure escrever no seu ZINE textos seus ou de amigos, mas não só xerocar textos de livros, o
que também é válido, mas o quero dizer é que o seu ZINE tem que ter sua opinião, seus textos.
A palavra escrita é um documento, e fica para história, como um livro, e faz parte desta Cultura
PUNK Internacional, o movimento PUNK não é mais algo novo, já é um Movimento dos anos
70, resistindo ao tempo se transformando, mutante, sem esquecer que a liberdade de expressão é
fundamental e não criar regras para ser PUNK.

Undercba: Voce tem ainda contato com os amigos do começo do movimento punk, e o que eles
andam fazendo!(Cwb e Cgb)
Rodolfo Scheffler: Meu trabalho ta muito difícil aqui em Cuiabá, eu vou começar uma
Faculdade de Artes agora em Janeiro, pra ter o diploma, tão valorizado nesta sociedade, para
poder ganhar mais a tal grana! E atenção bandas; estou a disposição para criar clips com roteiros
de animação. Penso sim em ter uma terra com uma nascente de água, a propriedade é o grande
mal da sociedade, mas na minha luta pessoal e individual não vejo outra sida, a não ser comprar
uma chácara, para garantir uma certa subsistência, uma paz, pensando no futuro, na velhice, nos
70 ou 80 anos. O grande fazendeiro, o latifundiário, este sim é um explorador do trabalho em
prol da sua riqueza, acho que no mínimo devemos lutar para termos nossa casa, nosso espaço,
inclusive para preservar e se integrar mais ao meio ambiente e principalmente a nascente de
água. Meu filho vai ser adulto em 2025! Acho que o sistema já é como fala na pergunta, uma
prisão sem grades como disse o Sérgio Kunze(ex-batera do Blokeio). Quero garantir minha
sobrevivência com a arte, com minha criatividade e talento, e prover tudo que puder para minha
companheira JULIANA e meu filho ARIOM, e se DEUS permitir futuramente em algum lugar
sozinho ou coletivamente, ter uma terra para plantar, preservar e viver mais integrado a
natureza, e menos urbano.

Undercba: O que você vê de positivo na cena cuiabana?(Zines, bandas e outras ações)


Rodolfo Scheffler: Acho que tem muita gente nova ai, com boas intenções fazendo muita coisa
apesar da falta de grana neste começo de governo LULA, mas como sempre uma certa
concorrência no meio, ao invés de UNIR mais os esforços em prol da COLETIVIDADE,
lembrando que CUIABÁ está muito longe de outras capitais, e isso dificulta a saída de bandas
daqui, e a vinda de bandas para cá, fazendo de CUIABÁ uma ilha(um movimento isolado),
tendendo ainda a divisões e bairrismos. No mais não posso dizer muito pois não estou tão
interado, tão envolvido diretamente nas atuais produções de shows e etc.

Undercba: Deixe um recado para o público do undergroundcuiaba!


Rodolfo Scheffler: DEUS não acredita em ateus! Todo apoio as questões indígenas, a
preservação das culturas e povos indígenas, seus direitos, suas terras, até a ampliação de áreas
indígenas, desde que estes continuem preservando e utilizando os recursos naturais tão
sabiamente como sempre fizeram. Tudo que fazemos é para o próximo, o sistema encravou na
160

sua cabeça o egoísmo, o individualismo, é preciso agir coletivamente preservando a


individualidade. Pois o coletivo é feito de indivíduos, ou seja não pensar egoisticamente, pensar
coletivamente. Isto serve tanto para uma banda de Rock ou para uma comunidade
urbana(Squater/Ocupação) ou para uma comunidade rural. Muito Obrigado pelo espaço, pelas
perguntas! Abraço a Todos, Consciência e Atitude!

HANNA diz:
rodolfo
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
vc foi (bem) falado hoje à tarde em cuiabá
Rodolfo diz:
oiiiiiiiiieeeeeeeeeeeee.....
Rodolfo diz:
rsrsrsrs
Rodolfo diz:
matei a aula!!!!
Rodolfo diz:
rsrsrsrs
Rodolfo diz:
como assim me explique, o meio kilo!!!!!
Rodolfo diz:
rsrsrsrs
HANNA diz:
hehehe
HANNA diz:
corvo veio trazer umas coisas aí pra mim, zine, foto, panfleto...
Rodolfo diz:
a esta ai...
Rodolfo diz:
e então me explique isso!
Rodolfo diz:
aaaannnnn
HANNA diz:
aí falou sobre vc
Rodolfo diz:
aaaaaaannnnnnnnn
HANNA diz:
como foi fundamental aqui nessa coisa da troca
HANNA diz:
entre curitiba e cuiabá
HANNA diz:
e com cuiabá e o brasil
HANNA diz:
rs
Rodolfo diz:
eles tao muito enrolados p fazer contatosa com o cara aqui, p eles virem tocar.....
HANNA diz:
é
HANNA diz:
ele me disse isso
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
também achei
Rodolfo diz:
rsrsrs
Rodolfo diz:
161

pois é, é simples, voce pode passar isso p qualquer banda dai....


HANNA diz:
como era isso de vc conseguir contatar o brasil todo rodolfo?
Rodolfo diz:
quanto antes entrar em contato com o JR melhor....
Rodolfo diz:
evai trocando ideias, e negociandp enfim...
Rodolfo diz:
evendo uma data etc....
Rodolfo diz:
planejando enfim...
HANNA diz:
mas como acontece?
HANNA diz:
como vc escutava falar da galera? como se conheciam?
HANNA diz:
sem internet rs?
Rodolfo diz:
erma as correspondencias, e a coisa das capitais em contato com o interior e cada um fazer na
sua cidade o mov. acontecer;....
Rodolfo diz:
emandar os zines da sua cidade, p outros saberem como andava os protestos punks em cada
cidade....
Rodolfo diz:
só por correspondencia!!!!
Rodolfo diz:
conheci o corvo o batman assim....
HANNA diz:
mas pq gente de todo mundo te conhece? o que vc fez rs?
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
do brasil e tals
HANNA diz:
(conhece o lorenzo falcão?)
Rodolfo diz:
mas como assim tanta gente me conhece???
Rodolfo diz:
da onde???
HANNA diz:
rs
Rodolfo diz:
sim o jornalista......
HANNA diz:
punks de várias regiões
Rodolfo diz:
amigo nosso, da Rosi....
Rodolfo diz:
na época....
Rodolfo diz:
né,.....
Rodolfo diz:
aaannnnn
Rodolfo diz:
era o intercambio, eu mandava zines p todo o Brasil..
Rodolfo diz:
e fazia as mostras de zines e diztribuia gratuitamente...
Rodolfo diz:
162

e assim os fanzineiros me agradeciam, e me mandavam zines por que sabiam que eu dava valor
e distribuia, nao deixava na gaveta.....
HANNA diz:
como era uma mostra de zine? tipo, espaço físico mesmo?
Rodolfo diz:
quando se é mais velho a gente fica assim....
Rodolfo diz:
nao tem medo d emais nada.....
HANNA diz:
hahahaha
HANNA diz:
simm
Rodolfo diz:
"kill me please!"
HANNA diz:
hein rodolfo
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrs
HANNA diz:
conta.... vc está ocupado?
Rodolfo diz:
as mostras de zines foram em varios lugares,
HANNA diz:
sim
HANNA diz:
sim
Rodolfo diz:
a primeira consegui o sindicato dos jornalistas, e foi com a ajuda do Lorenzo.....
HANNA diz:
humm
HANNA diz:
olha só
Rodolfo diz:
matei aula,
Rodolfo diz:
evou beber.....
Rodolfo diz:
rsrsrsrs
HANNA diz:
e quem estava envolvido... de que cidade...

Rodolfo diz:
calor ai?
HANNA diz:
sim
HANNA diz:
muito
HANNA diz:
e não chove
Rodolfo diz:
aqui ta uns 5 graus de novo!!!!
HANNA diz:
hmmm
Rodolfo diz:
vije........
HANNA diz:
putz
HANNA diz:
aí dá pra sair de visual pra beber né?
163

Rodolfo diz:
blusa de la e jaqueta......
Rodolfo diz:
rsrsrsrs
HANNA diz:
rs
Rodolfo diz:
sim, os mais novos.....
HANNA diz:
?
Rodolfo diz:
mas moicano aqui virou moda.....
Rodolfo diz:
moicano baixo....
Rodolfo diz:
muita gente usa.....
Rodolfo diz:
os punks mais novos andam com aquele visual...
Rodolfo diz:
mas aqui ta totalmente dispersado...
Rodolfo diz:
é como se tivesse muitos individuos punks pela cidade e nem um movimento punk entende?
HANNA diz:
hm
HANNA diz:
certíssimo
HANNA diz:
a mesma coisa que aqui
HANNA diz:
acabei de acender um cigarro pra conversar com vc
Rodolfo diz:
aann
HANNA diz:
tomara que tenha tempo aí
HANNA diz:
rs
Rodolfo diz:
putz......
Rodolfo diz:
bele...
Rodolfo diz:
tenho conta nesta lan.....
Rodolfo diz:
etem uma loura do lado que meu Deus......
HANNA diz:
então posso perguntar?
Rodolfo diz:
rsrsrsrsr
Rodolfo diz:
pera.....
HANNA diz:
sua ligação com a massinha... arte.... como se junta isso ao cara que é punk,
que faz zine e que organiza as mostras?
Rodolfo diz:
quanto ao visual aqui, é mais rocabily e pscicobili...
Rodolfo diz:
e punks mais de calça xadrez etc....
Rodolfo diz:
e a policia pegfa pesado em visu...
164

Rodolfo diz:
ainda.....
HANNA diz:
sua ligação com a massinha... arte.... como se junta isso ao cara que é punk,
que faz zine e que organiza as mostras?

Rodolfo enviou em 16/9/2008 20:51:


pera.....
HANNA diz:
ok
Rodolfo diz:
é justamente o contrario meu amor.....
Rodolfo diz:
os individuos, artistas, no sangue, e mente que busca averdade e a justiça, se identificam com o
visul punk e com aconsciencia punk...
Rodolfo diz:
eu me identifiquei primeiro com o visual!!!!!!!!
HANNA diz:
sim
Rodolfo diz:
depois com as ideias, pois eu estava evoluindo, da consciencia politica, socialista etc.....
Rodolfo diz:
para depois me decepcionar com isso, pensar mais, filosofar mais, e ver a desgraça humana
mesmo......
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrsrss
HANNA diz:
entendo
Rodolfo diz:
e ver cada vez mais o oceano subindo.....
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrs
HANNA diz:
mas e o zine especificamente: o que ele significa para o punk, para o
movimento punk?
Rodolfo diz:
pinguins mortos na praia... que romantico......
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrs
Rodolfo diz:
pra mim , é algo muito importante, é o registro das ideias das pesoas nequele momento,
naquelka decada.....
Rodolfo diz:
registra os fatos, bandas, rotestos idéias.....
Rodolfo diz:
e depois que passa 5 anos, e aqueles punks ja sao da antiga....
Rodolfo diz:
dai eles vao entender.....
Rodolfo diz:
a importancia....
Rodolfo diz:
pois aquilo é a unica coisa registrada do que aconteceu.....
Rodolfo diz:
e é o movimento na palavra escrita!
HANNA diz:
aaaaah
HANNA diz:
sim
Rodolfo diz:
165

o registro....
HANNA diz:
e o alcance do zine, do que depende? como é que se faz a comunicação?
Rodolfo diz:
o poder da palavra escrita.....
Rodolfo diz:
veja, dois zines cheios de erros d eportugues é a unica coisa que tenho p te mandar.....
Rodolfo diz:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
HANNA diz:
hahaha
HANNA diz:
vc já colocou no correio alguma coisa né?
Rodolfo diz:
sim.....
Rodolfo diz:
ja.......
HANNA diz:
massa
Rodolfo diz:
maas as coisas antigas, vou xerocar mesmo...
HANNA diz:
hum
HANNA diz:

Rodolfo diz:
vai esperar um pouco.....
Rodolfo diz:
aaaaaaa mas tem amigos aqui te te mandariam um monte de coisas!!!!!!!!!
HANNA diz:
isso
HANNA diz:
peça a eles, zines atuais tb
HANNA diz:
né?
Rodolfo diz:
kavera; Tiago! 91170777
Rodolfo diz:
99810777
HANNA diz:
hum
Rodolfo diz:
ligue e fale d emim, e peça o fone fixo......
Rodolfo diz:
anoite......
HANNA diz:
contato por net é melhor né?
Rodolfo diz:
é......
HANNA diz:
rs
Rodolfo diz:
dai, explique......
HANNA diz:
HEIN RODOLFOOOOOOO
Rodolfo diz:
e ele te mandará muita coisa tenho certeza!!!!!
Rodolfo diz:
a loura do lado nao d amoral!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
166

Rodolfo diz:
saco!!!!!!!
HANNA diz:
hum?
Rodolfo diz:
tenho tara por louras!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rodolfo diz:
só tive duas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rodolfo diz:
saco!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
HANNA diz:
hum..
HANNA diz:
saco
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
como é que se faz os contatos?
HANNA diz:
como vão se conhecendo? punks de cidade diferente?
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:05:
putz!!!!!!!!!!!!!!!
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:05:
ja se passaram quantas gerações ein?????
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:05:
rsrsrsrsrsrs
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:05:
depois das cartas....
HANNA diz:
bom.. agora é pela net né?
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:05:
é o seguinte,...
HANNA diz:
vai
Rodolfo diz:
minha magrela.... que vai me arrumar duas amigas bem gostosas.....
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrsr
HANNA diz:
hahahah
HANNA diz:
eu mereço
HANNA diz:
agora tem que ser duas é?
Rodolfo diz:
um zine tinha meia duzia de endereços.....
HANNA diz:
sim
Rodolfo diz:
e mandava p baia.....
Rodolfo diz:
que mandava p nordeste....
Rodolfo diz:
que mandava p belo horizonte....
Rodolfo diz:
teve o primeiro emcontro punk em belo horizonte em 1988
Rodolfo diz:
fomos daqui em 5 com visual de frio etc....
HANNA diz:
167

hehe
Rodolfo diz:
moicanos enormes ejaquetas....
Rodolfo diz:
etc...
Rodolfo diz:
e os punks do nordeste, moicano, brincos de conchinhas e sandalias e cuturnos também....
HANNA diz:
hahaha que legal
Rodolfo diz:
então, um zine la de jaragua do sul,
Rodolfo diz:
publicava meu endereço e de outros e assim ia se espalahndo.....
Rodolfo diz:
anotou o fone do Kavera???
HANNA diz:
putz
HANNA diz:
interurbano é foda
HANNA diz:
até pra ligar pra galera daqui pra celular é um custo
HANNA diz:
:$
Rodolfo diz:
pis é mas ligue, e peça o email......
Rodolfo diz:
estou indo p bar.....
HANNA diz:
nãoooooooooooooooooooooooo
HANNA diz:
eu não acabei de perguntar
HANNA diz:
falta pouquinho
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
mas o que é o zine?
Rodolfo diz:
muié!!!!!!!!!!!!!!! cerveja!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
HANNA diz:
sabe
HANNA diz:
na essência
Rodolfo diz:
poutz meu!!!!!!!!!!!!!!!!!!
HANNA diz:
não é só um meio de comunicação
HANNA diz:
é?
Rodolfo diz:
mas que be a ba!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsr
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
contaaaaaaaa
HANNA diz:
quero sabe
168

HANNA diz:
saber
HANNA diz:
é só um meio de comunicação?
HANNA diz:
esse é o único sentido?
HANNA diz:
rodolfoooooooooo
HANNA diz:
falaaaaaaaaaaaaaaaaa
Rodolfo diz:
porra meu tem que ter no sangue mesmo essa coisa punk.....
Rodolfo diz:
nao adinta explicar......
Rodolfo diz:
é tudo junto.....
Rodolfo diz:
é a vontade de se expresar......
HANNA diz:
como vc conheceu o corvo e o batman? foi por causa do zine?
Rodolfo diz:
de ter um veiculo proprio p divulgação das suas ideias....
HANNA diz:
(conta conta conta)
Rodolfo diz:
na sua linguagem.....
HANNA diz:
fala mais
Rodolfo diz:
etc...
HANNA diz:
etc nãoooooooooooooooooooooo
HANNA diz:
HAHAHAHAH
Rodolfo diz:
sim nos conhecemos graças aos correios!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrs
HANNA diz:
como?
HANNA diz:
contaaaaaa
Rodolfo diz:
pera......
Rodolfo diz:
os zines, meio de comunicação proprio, e protesto!
Rodolfo diz:
é isso!
Rodolfo diz:
nao tem o que explicar mais!!!!!!!!!!!!!!!!!
HANNA diz:
hum
HANNA diz:

HANNA diz:
depois eu esmiuço essa parate
HANNA diz:
parate
HANNA diz:
169

parte!
HANNA diz:
conta como conheceu corvo e batman
Rodolfo diz:
assim, pelas correspondencias e dai eles foram tocar em Curitiba em 1989....
Rodolfo diz:
no punkaraná!!!!
Rodolfo diz:
o kavera que te mandei fone conhece eles é amigo!!!!
Rodolfo diz:
tem foto deles aqui!!!!
HANNA diz:
massa
HANNA diz:
vc não conta os pormenores
HANNA diz:
os detalhes
HANNA diz:
ai que raiva rodolfo
HANNA diz:
rs
HANNA diz:
(vc conhece The Cramps?)
HANNA diz:
(só pra saber)
Rodolfo diz:
sim...
Rodolfo diz:
o som...
Rodolfo diz:
conhece Alin sex fiend?????
HANNA diz:
uhum
HANNA diz:
é legal?
Rodolfo diz:
1987.....
Rodolfo diz:
alemanha, começo do industrial. e pscico.....
Rodolfo diz:
alienigenas a fim de sexo!!!!!!!
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsr
HANNA diz:
hahaha
HANNA diz:
só vc
HANNA diz:
hahahahaha
HANNA diz:
tem como reconhecer pelo zine o seu criador?
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrsrs
Rodolfo diz:
lógico, sempre é bem a cara de quem fez, mas as vezes tem mais maos!!!!
Rodolfo diz:
é o caso do ovelhas negras 3 que vou te mandar....
Rodolfo diz:
1988....
170

Rodolfo diz:
unico que sobrou!!!1
HANNA diz:
eba
HANNA diz:
hehe
HANNA diz:
mas como é que dá pra perceber isso?
*
Você acabou de pedir a atenção.
*
HANNA diz:
heheheh
Rodolfo diz:
putz.................
Rodolfo diz:
meu.................
Rodolfo diz:
saco................................
HANNA diz:
AHAHAHAHAH
Rodolfo diz:
o rato podre.... falava sem parar......
Rodolfo diz:
o zine dele era só frases do começo ao fim....
Rodolfo diz:
o Kavera, politizado e certinho, correto...
Rodolfo diz:
poiticamente correto.....
Rodolfo diz:
o zine dele, anarquia em berço esplendido.....
Rodolfo diz:
era certinho e politico.....
Rodolfo diz:
rsrsrsrsrs
Rodolfo diz:
chega!!!!!!!!!!!
Rodolfo diz:
fui................
HANNA diz:
nãooooooooooo
HANNA diz:
fernanda está aqui
HANNA diz:
te mandou beijo
HANNA diz:
fui abrir a porta pra ela
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:28:
ummmmmmmmmmmmm...
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:28:
rsrrsrsrss
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:28:
beijos p ela.......
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:28:
rsrsrsrs
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:30:
cADE ELA?

Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:30:


171

rsrsrsrsrsrs
Rodolfo enviou em 16/9/2008 21:31:
beijos fui.....

Corvo
172

Banda Blokeio Mental


173

Show da banda Skarros no Caverna’s Bar


174

Banda Atrito
175

Recorte de Jornal com a banda GTW

Corvo e Batman em entrevista.


176

Carol Punk.
177

Corvo
178
179

Banda GTW

Em frente ao Caverna’s Bar


180

Carol Punk
181

Corvo, Xucs e Babi


182

Carol Punk
183

Corvo

GTW
184

Pogo no Caverna’s Bar

Desenho de Rodolfo Scheffler


185

Quadrinhos retirado do Zine Ovelhas Negras do Brasil de Rodolfo Scheffler


186

Capa do zine Ovelhas Negras do Brasil de Rodolfo Scheffler


187

Carta de Rodolfo Scheffler para Carol Punk

Zi
ne da banda GTW
188

Zine produzido por Rino


189

Capa do zine Ovelhas Negras do Brasil