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MICHEL ONFRAY (França, 1959) - A POTÊNCIA DE EXISTIR (2006)

Sexta parte: uma política libertária

I – UMA CARTOGRAFIA DA MISÉRIA

2 – Miséria suja contra miséria limpa


(...) Secretárias e porteiros de edifício, agricultores e desempregados,
pequenos comerciantes e professores de escolas em ZEPs*, suburbanos e
imigrantes, mães solteiras e trabalhadores precários, catadores e intermitentes
do espetáculo, metalúrgicos e desempregados e moradores de rua, vigias e
trabalhadores temporários, todos esses esquecidos da política politiqueira,
todas essas vítimas da violência liberal, todos esses marginalizados pela
sociedade consumista. (...)
Em A política do rebelde, descrevi esse novo inferno reativando os abismos da
Divina comédia: privados das atividades e corpos improdutivos: os velhos, os
loucos, os doentes, os delinquentes; forças improdutivas: imigrantes,
clandestinos, refugiados políticos, desempregados, beneficiários do programa
renda mínima, terceirizados; forças exploradas do corpo social: nômades e
privadas de segurança: trabalhadores temporários, aprendizes; ou sedentárias
e privadas da liberdade: adolescentes, assalariados, prostitutas, proletários,
precários. Milhões de pessoas excluídas do corpo social, expelidas da lógica
dita democrática.
Nunca representadas, nunca evocadas em parte alguma, incessantemente
postas de lado, invisíveis nos mundos da cultura, da política, da literatura, da
televisão, da mídia, da publicidade, do cinema, das reportagens, da
universidade, da edição, proibidas de ter visibilidade, os oligarcas que não
querem que ninguém se lembre da existência dessas provas por dejeto de que
o sistema funciona bem e a todo vapor. Todo reaparecimento desse refugo os
irrita, e eles autorizam tudo para aniquilá-lo, impedi-lo. Inclusive, é claro,
recorrendo a soluções imorais. A negação da parte sofredora da população, o
foco dos projetores nas misérias planetárias limpas (...). A denegação da
miséria suja produz um eterno refugo niilista. (...)

III – UMA PRÁTICA DE RESISTÊNCIA

2 – A associação de egoístas
(...) O governo planetário a que aspiram os liberais de todos os continentes – a
não ser que já não se trate de realidades... – requer uma resposta apropriada.
Primeiro com a criação de um ideal da razão: a resistência rizômica, depois,
com objetivos claramente definidos, uma política hedonista. Dispõe-se desse
modo de um fim e de meios para alcançá-lo. A política não se revigorará
criando grandes sistemas inaplicáveis, mas forjando pequenos dispositivos
temíveis, como um grão de área na engrenagem de uma máquina
aperfeiçoada. Fim da história imodesta, advento da história modesta, mas
eficaz.
Essa resistência rizômica se dá no terreno individual – a exemplaridade de uma
vida de resistência ou o acúmulo de situações de resistência –, ou, mais
amplamente, em espaços coletivos, o das associações de egoístas**. Essas
redes alternativas se tornam imediatamente eficazes, desde a sua criação
espontânea, voluntária e deliberada. O contrato de ação dessas associações é
pontual, sinalagmático ***, renovável e capaz de ser rescindido em qualquer
momento. Essa adição de forças deve se contentar em visar a energia
necessária à inércia e à sabotagem. Uma vez produzido o efeito, a associação
se desfaz, se desagrega, e os membros desaparecem.

3 – Uma política hedonista


Em que sentido esse dispositivo de resistência pode ser dito hedonista? Aliás:
existe uma política hedonista? E, se existe, qual? (...)
(...) [T]oda política hedonista se preocupa com a maior felicidade possível para
o maior número de pessoas. Esse objetivo permanece atual...
(...) A política hedonista e libertária pós-moderna tem em vista a criação de
setores pontuais, de espaços liberados e de comunidades nômades
construídas em cima de princípios supracitados. Nada de revolução mundial ou
planetária, mas de momentos em que escapam dos modelos dominantes. A
revolução se efetua em torno de si, a partir de si, integrando indivíduos
escolhidos para participar dessas experiências fraternas. Essas
microssociedades eletivas ativam microrresistências eficazes para derrotar
momentaneamente os microfascismos dominantes. A era micrológica em que
nos encontramos obriga à ação permanente e os engajamentos perpétuos.
Visar um Estado melhor, uma sociedade pacificada, uma civilização feliz é um
desejo infantil. Nesse universo de malhas liberais poderosas, construamos
utopias concretas (...). Políticas mínimas, decerto, políticas de tempo de guerra,
sem dúvida, políticas de resistência a um amigo mais poderoso que nós,
evidentemente, mas política apesar de tudo. (...)
A posição libertaria propõe uma prática existencial em todas as ocasiões e em
todas as circunstâncias. A anarquia, que pretendia gerir e organizar a
sociedade com base no princípio de um modelo preestabelecido, conduziria
inevitavelmente à catástrofe. Uma sociedade anarquista? Está aí uma sinistra e
improvável perspectiva. Em compensação, um comportamento libertário,
inclusive numa sociedade que pretendesse realizar a anarquia, aqui como
alhures, é sempre o mesmo: criar ocasiões individuais ou comunitárias de
ataraxia real e de serenidades efetivas.

*Zona de educação prioritária, onde a educação é reforçada por conta do baixo


desempenho, consequência da baixa renda dos estudantes.

**Conceito criado pelo filósofo Max Stiner, que significa grosso modo uma associação
na qual a liberdade dos indivíduos fique garantida.

***contratos bilaterais em que existe uma reciprocidade entre as obrigações das


partes.