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MEDICINA TRADICIONAL CHINESA

Curso de Especialização

(Tomo I)

1. UM POUCO DA HISTÓRIA DO HOMEM E A TRANSFERÊNCIA DE


CONHECIMENTO ENTRE ORIENTE E OCIDENTE

I - A Antiguidade

A área que hoje identificamos como “Oriente” é atualmente a parte do globo que
se estende, num sentido leste – oeste, da península indochinesa às ilhas do Japão, e no sentido
sul-norte, do mar da arábia às estepes geladas da Mongólia e Rússia. Na antiguidade, toda a
terra era muito misteriosa e desconhecida, além do Golfo da Pérsia, e se estendendo aos
confins do mundo! Mas, modernamente separaram-se daí os povos árabes, de cultura distinta
e mais agrupados no “Oriente Médio” e norte da África.

Mesmo sem ser a região geologicamente mais antiga da Terra, é uma delas, e tem
como característica reunir os povos de maior “memória” do planeta e talvez a ocupação
humana mais linear ao longo do tempo. Isto reúne as condições para se manter aí um precioso
arquivo de eventos e fatos que contam uma impressionante história acerca dos povos que se
desenvolveram nesta região. Por outro lado, a maior parte destas culturas ainda está muito
viva e ativa, e naturalmente se transformando! Isto, para quem as observa com os olhos
privilegiados da distância do tempo e da geografia, tanto representa uma preciosa chance de
assistir à materialização de um passado longínquo quanto ao inegável trabalho que o mundo
moderno está fazendo na transformação continuada de todos os paradigmas que compõem os
alicerces destas culturas. Dando voz à controvérsia, para alguns o que se pode ver ali é uma
espécie de “degeneração” dos valores e das características únicas do modo de vida e do
pensamento do oriental. Para outros, o Oriente ainda representa um mosaico fantasticamente
colorido das mais diversas formas do homem encarnar a sua espiritualidade e a sua
humanidade através de seus símbolos ancestrais.

Em todo caso, qualquer que seja o ponto de vista, o que se percebe é que o
Oriente não é mais o mesmo quando se o compara com o seu passado distante. A
característica mais impressionante, de berço da cultura e da espiritualidade humanas, já não se
faz sentir em qualquer esquina de qualquer comunidade, grande ou pequena, como se via na
Antiguidade.

Naquele tempo o Oriente respirava magia e mistério, e todas as almas que ali
vicejavam incorporavam este perfil nos mais ínfimos e delicados detalhes que compuseram
um dia o seu modo de ser e de assistir à própria existência. Hoje se vive do brilho de um
passado que já se torna em grande parte desconhecido para a maioria das pessoas comuns. A
tradição empalidece a cada geração e vai paulatinamente deixando de ser o “eixo” sustentador
do cotidiano dos povos orientais.

Outras “contaminações” culturais vão se acumulando a medida que o processo de


globalização da humanidade os vai alcançando, e fica cada vez mais nítida a propalada
transferência do conhecimento e do método de pensar do Oriente para o Ocidente. Este
fenômeno, que começou a ser verificado a partir do final do Século XVIII, se estende até
hoje, mantendo aberto um ciclo que se abriu então a cerca de duzentos anos.

Na verdade a cultura oriental fascina os povos do Ocidente desde que as grandes


caravanas de comércio se tornaram uma realidade nos séculos pré cristãos. Contudo a
distância geográfica e o exotismo exacerbado, sempre significaram barreiras suficientemente
intransponíveis para manter Oriente e Ocidente como dois mundos separados. É verdade que
se tocaram timidamente pela via do comércio das coisas raras e/ou das guerras expancionistas
que hora levavam o ser humano ocidental ao Oriente ou, no sentido inverso, levava o oriental
ao Ocidente. Entretanto, nenhuma destas violentas incursões significou uma verdadeira
aproximação, posto que foram raros episódios de aventura de ambiciosos líderes militares e
efêmeros demais para promover uma real miscigenação cultural.

A história antiga teve então o seu curso com todos os eventos já conhecidos.
Passou da era pré-cristã para os séculos posteriores ao advento do cristianismo e terminou por
desembocar na época dos grandes navegadores, por volta do século XII. Se inauguraram por
estes anos as relações comerciais mais diretas e consistentes com a China, a Índia e o Japão, e
como já era tradicional para os europeus expansionistas, junto com os interesses comerciais
vieram os interesses políticos e religiosos.

As naus que iam e vinham entre o Ocidente e o Oriente afinal, eram carregadas
por seus fretadores com muito mais do que mercadorias e ouro. Na verdade, como sempre, os
navegadores viam todos os povos não europeus como incivilizados e primitivos, e desde o
primeiro momento fomentaram secretamente mirabolantes planos de domínio econômico e
colonização. Contudo, a realidade ia muito além do ego hipertrofiado dos Duques e Reis da
Europa Medieval, e para todos que algum dia relataram os primeiros contatos entre ocidentais
e orientais sem compromissos tendenciosos (o que foi sempre muito e muito raro!), o que se
viu foi a descoberta de um mundo muito mais rico econômica e culturalmente falando que a
disforme e atrasada civilização ocidental.

Além disso, obviamente, os homens que se dispunham a atravessar o mundo nas


condições quase sub humanas que se enfrentavam nas viagens transoceânicas da época não
passavam, em média, de embrutecidos marinheiros e frios militares, o que ampliava mais
ainda o abismo evolutivo entre as duas raças.

Em função disso, e em que pese o ufanismo e as pretensões fantasiosas dos


governantes que enviavam para ali os seus agentes, o pouco que se conseguiu de influência
sobre os povos orientais esteve sempre intrinsecamente condicionado pela conveniência
destes mesmos!

Mesmo assim, e graças a estas “fantasias ególatras”, em um certo momento os


únicos representantes ocidentais com algum grau de cultura, leia-se aqui os clérigos das
inúmeras ordens religiosas que estiveram no oriente procurando “trazer a palavra de Deus”
aos “pobres” povos orientais, começaram a descobrir as sutilezas fantásticas que compunham
os fabulosos impérios e cidades – estado que dominavam aquela região. Sentiram-se
esmagados pela opulência dos palácios, pela grandiosidade dos monumentos e,
principalmente, pelo ardor fanaticamente servil que o povo nutria por seus governantes.

Enquanto na Europa as casas reais contavam parcos séculos de existência, para


falar das mais tradicionais e antigas, ali linhagens de milhares de anos se perpetuavam no
poder. A ciência e a cultura vicejavam pela casta dominante, e o refinamento e a
tradicionalidade dos ritos cerimoniais alcançavam uma tal dimensão e antiguidade, que a
religião dos “estrangeiros” se tornava bizarra e simplória se tristemente comparada.

Todos estes fatos se encontram nos minuciosos relatórios e cartas secretas que as
missões eclesiásticas enviavam ao Papa regularmente. Mas, para nós, que neste momento,
distanciados cerca de oitocentos anos destes observadores pioneiros, começamos tal qual eles
a tentar entender a cultura e a medicina deste povo, o importante é que acontece o fato que
tornou possível estarmos hoje neste empreendimento.

Em 1617 o padre Jesuíta Antonio de Alcântara Albernaz, chefe de uma delegação


Jesuíta em missão no Japão, acompanhando uma epidemia de uma estranha doença febril
entre os pescadores de uma aldeia ao sul do país, notou os médicos locais aplicarem uma
incomum técnica de tratamento baseada em agulhas inseridas em certos pontos do corpo,
ervas aquecidas aplicadas diretamente à pele e pequenos discos de pedra que faziam deslizar
suavemente pelas costas e pelo ventre. Apesar da gravidade dos casos tratados, e para espanto
do Padre, que sabia ser aquele um mal extremamente agressivo por já tê-lo visto fazendo
vítimas em outras partes do mundo, o sucesso da terapêutica foi sobejamente provado pelo
número reduzido de mortes entre os pacientes. Este evento impressionou tanto ao Jesuíta que
este tratou de incluir a experiência no seu relatório ao Papa, contando-lhe
pormenorizadamente o que tinha presenciado. Alguns anos mais tarde, outro religioso, dessa
vez em território chinês, relatou a mesma técnica sendo aplicada em um serviçal menor do
palácio de verão do imperador.
Novamente causou espanto a pronta recuperação do paciente, que estava sendo
tratado de um grande abcesso em uma das faces, fruto de uma ferida de má evolução causada
pelo coice de um animal.

Manifestando sua curiosidade junto ao médico, percebeu que surpreendentemente


a “técnica” não possuía um nome em especial, sendo identificada por um ideograma que
significava simplesmente “Técnica das agulhas e das moxas”. Diante disso, e como não havia
melhor meio de reportar suas observações aos seus superiores na Europa, este padre cunhou o
termo que no futuro viria a se associar, no ocidente, a toda a Medicina Tradicional Chinesa.

A partir das bases latinas “Acus” (...com ponta) e “puntus” (inserir), criou a
palavra “Acupuntura”, que na verdade, como já visto, não existe no oriente no sentido em que
é comumente empregada aqui .

Este termo se popularizou e, como já dito, com o passar dos séculos se identificou
com toda a medicina chinesa, em que pese a “técnica das agulhas” não englobar mais do que
uma pequena parcela de todo este sistema médico.

De fato a Medicina Tradicional Chinesa (internacionalmente mais conhecida


como T. M. C.) está muito mais baseada em recursos terapêuticos que utilizam a Fitoterapia, a
Trofoterapia (terapia baseada na alimentação) e um sem número de práticas estimulatórias,
que exploram todos os elementos integrantes das relações que o indivíduo estabelece com o
meio em que vive (em verdade, isto não é assim por acaso).

Está baseado na maneira como o oriental concebe o processo de adoecimento e


cura de uma pessoa, e isto por sua vez, vem das profundas crenças espelhadas na filosofia e na
religiosidade deste povo, que estudaremos mais adiante em suas linhas gerais.

Assim a T.M.C. utiliza elementos da geoterapia, da hidroterapia, da fototerapia,


da gemoterapia, da massagem, da meditação, da respiração, e etc. Obviamente, isto configura
uma escola médica altamente complexa e sobejamente completa, que também usa a inserção
de agulhas para buscar o equilíbrio do paciente em meio a estes tantos outros recursos!

Apesar destes primeiros relatos, isto permaneceu como informação privilegiada e


o Ocidente continuou a ignorar a maior parte da magnitude da cultura e da medicina Oriental.

Em função de estarem focados no trânsito de riquezas que estas novas fronteiras


significavam, em verdade houve um enorme desperdício de oportunidades entre os dois
mundos posto que, apesar de se esforçarem o tempo todo em se relacionar e em se
compreender, nunca deixaram também de se prevenir ferozmente um do outro!

Males sempre presentes, quando o único assunto em pauta é dinheiro e influência


política!
II- A Era Moderna

Este estado de coisas se manteve inalterado por toda a Antiguidade e início da era
moderna.

Contudo, alguns fatos, em que pese separados no tempo, começaram a


redirecionar o fluxo da história.

Por volta de 1890, a França e a China iniciaram um estreitamento entre suas


relações comerciais, e apesar da real mobilização dos dois países tal promissor processo
encontrou-se grandemente dificultado diante da absoluta carência de indivíduos ocidentais
e/ou orientais que dominassem a língua de um e de outro.

Neste movimento, foi então enviado para lá, por uma instituição bancária, como
não poderia deixar de ser, um jovem de 20 anos que, naquela época, na verdade tinha muito
pouca experiência em relações internacionais.

Surge na história a figura singular de George Soulié de Morant, que apesar de


sua inexperiência e juventude, era dono de uma mente investigativa brilhante e, mais
importante que tudo, uma frustração por não poder ter se tornado um médico em seu melhor
momento de vida (com a perda prematura do pai, teve que abandonar tais aspirações para
ajudar a família a sobreviver).

Figura 1 - SOULIÉ DE MORANT

Com tais atributos pessoais, é claro que tal personagem não poderia por muito
tempo ficar restrito às mesmices das relações comerciais que no primeiro momento o levaram
ao Oriente. Portanto, foi com extremo prazer que viu o governo francês descobrindo-o como
um personagem de importância no extremo oriente, logo o requisitando para trabalhar no
amadurecimento das relações diplomáticas entre China e França. Neste processo acabou
sendo designado Cônsul francês e, lotado na cidade de Changai, começou a se ocupar em
intermediar e sedimentar tais canais diplomáticos. Entretanto, após um primeiro momento de
intenso labor, próprios de quem está montando a base de uma missão diplomática em terras
distantes, e muito em função do trânsito entre os dois governos ainda ser muito insipiente, não
houve muito mais a fazer em prol destas ocupações.
Felizmente para todos nós, o interesse pela medicina, pela imensa e exótica
cultura e pela história da China, encontrou um bom espaço de tempo e oportunidade no
espírito e no cotidiano de Soulié de Morant.

O seu cargo, é claro, lhe abriu muitas e preciosas portas que antes permaneceram
cerradas para os ocidentais. E o próprio fato de falar e ler fluentemente a língua dos
mandarins, o ajudou a vencer a forte resistência e a natural desconfiança que o povo oriental
nutre por tudo que vem “de fora” (embora isto esteja diminuindo com a crescente “invasão”
da cultura ocidental, ainda hoje a xenofobia é um traço marcante deste povo!).

Quer seja pelo seu valor pessoal, ou pela conjuntura favorável que encontrou, o
fato é que pouco mais de uma década depois Soulié de Morant tinha reunido um
impressionante conhecimento acerca de tudo que se referia àquele intrigante país. E muitas e
variadas foram as áreas em que sua curiosidade insaciável mergulhou, levando-o a coletar,
recuperar e traduzir um cem número de documentos já tornados veneráveis pela tradição e
pela antiguidade, muitas vezes, ocultos pelo tempo dos próprios chineses! Diante de tal obra,
sempre monitorada de muito perto pelo governo chinês, assim como pelas universidades,
bibliotecas e academias freqüentemente visitadas por aquele estrangeiro incomum, quando de
sua volta à França lhe foi outorgado o título de “Doutor” em Tradicional Medicina Chinesa
pela Imperial Academia de Medicina de Pequim, em função do reconhecido saber que
demonstrava nesta especialidade e pelo trabalho de recuperação dos antigos textos médicos
tradicionais, que passaram então a ser novamente úteis às instituições acadêmicas da China.

De volta à Europa, Soulié de Morant começou uma segunda e profícua etapa em


sua vida de erudito e médico tradicional. Logo iniciou um amplo trabalho que tinha como
objetivo tanto tornar realmente conhecida no Ocidente a T.M.C., quanto contribuir para sua
evolução e validação enquanto ciência médica.

Por esta época, já alguns outros cientistas da área tinham escrito e comentado a
singular maneira de curar dos orientais, mas todos, sem exceção, tinham tratado a matéria
como mera curiosidade acadêmica, permanecendo longe de ter-lhe apreendido o significado
ou sequer a valorizado como técnica digna de ser incorporada ao acervo médico ocidental de
recursos terapêuticos.

Com Soulié de Morant o nível de tratamento deste legado correu de modo muito
diferente e rapidamente um grupo de esclarecidos médicos pesquisadores se formou em torno
dele.

Junto a estas personalidades, Soulié de Morant pesquisou, ensinou e clinicou por


cerca de quarenta anos, elevando a T.M.C. a níveis nunca vistos em outras terras que não a
China, o Japão e a Índia.
Apesar disso, já nos anos finais de sua vida, Soulié de Morant estava intensamente
deprimido.

Tinha já publicado vasta obra sobre toda a cultura e a medicina oriental,


eminentemente entre elas seu “Tratado de Acupuntura”, que incluiu um detalhado Atlas
fisioanatômico baseado na associação das figuras tradicionais com um mapeamento feito a
partir da menor resistividade elétrica própria dos pontos de acupuntura, cuidadosamente
verificados anatomicamente com os aparelhos eletroeletrônicos medidores de micro correntes,
já existentes na época.

A partir das figuras ancestrais que trouxera da China, e com a convicção de que
cada ponto de acupuntura teria de ser uma área metabolicamente diferenciada, Soulié de
Morant pacientemente testou bioeletricamente (por esta época, o conceito de “bioeletricidade”
já tinha sido desenvolvido por Michel Devigni e estava muito em voga nas academias
francesas!) cada ponto descrito pela tradição, além de um grande número de outras referências
cutâneas (principalmente francesas e alemãs) que foram surgindo no decorrer do trabalho.

Em que pese isso, em determinado momento Soulié de Morant viu-se tristemente


amargurado com a despropositada perseguição que sofria já a longo tempo pelo fato de não
ser um médico convencional ou um pesquisador ortodoxo, e ainda assim suscitar tanta inveja
e confronto de egos ao chamar para si a atenção da sociedade e do mundo acadêmico.

Em 10 de maio de 1955, sofreu um ataque cardíaco e faleceu subitamente após ter


recebido a notícia de que estava sendo processado pelo Conselho Médico Francês. Tinha sido
denunciado, por um de seus mais queridos ex-alunos médicos, pelo exercício ilegal da
medicina...

Um segundo fato significativo, contemporâneo à história de Soulié de Morant, foi


a libertação da Índia, berço da Tradicional Medicina Chinesa, do secular domínio Inglês.

Isto iniciou um segundo processo revolucionário no ambiente cultural e político


do Oriente (a primeira revolução remontava justamente ao movimento expancionista europeu,
que tinha tornado em colônias muitas das sofisticadas, mas militarmente despreparadas,
civilizações orientais), pois profundas e variadas transformações assolaram a distribuição
geopolítica da região a partir deste acontecimento.

Enquanto colônia a Índia tinha praticamente se desfigurado culturalmente, sendo


inexoravelmente contaminada pela maneira de pensar e de viver do europeu ocidental.

Como todo povo longamente dominado, desabituou-se da condução de seus


próprios processos de evolução enquanto sociedade e entrou em uma severa crise institucional
quando do evento da reconquista de sua autonomia política.
Os antigos valores religiosos e sociais, por tanto tempo inibidos e controlados, se
exacerbaram como nunca, e a intrincada organização por castas, que caracterizou o induismo
desde sempre, criou um número assustador e inadministrável de grupos étnicos com
aspirações separatistas. A guerra civil que se seguiu, foi violenta o suficiente para levar o país
a vários níveis de cisão interna, e de certa forma, até os dias de hoje, este processo continua a
acontecer via a perene animosidade que reina entre a Índia atual, o Paquistão e Bangladesh
(estados residuais que se estruturaram a partir deste conflito).

Para nós, que estamos procurando entender o processo de transferência de


conhecimento do Oriente para o Ocidente, o importante neste processo foi a fuga de
numerosos representantes da elite pensante daquela milenar cultura, e a queda progressiva do
Budismo enquanto pilar filosófico mais profundamente cravado no inconsciente coletivo dos
povos orientais, inclusos aí a China e o Japão.

O fenômeno do Budismo enquanto método de pensamento e base para a


compreensão dos mistérios da vida será mais detalhadamente estudado um pouco mais
adiante. Mas neste contexto, adiante-se que, cumprindo uma dinâmica experiencial diferente
do Ocidente, no Oriente a expressão religiosa de um povo em verdade permeia intensamente
todos os aspectos de sua existência, servindo a religião como uma espécie de “eixo”
sustentador do modo de vida, do modo de pensar, do modo de sentir e das instituições
políticas e sociais. E isto tudo com um grau de comprometimento jamais experimentado pelos
povos que se desenvolveram mais a oeste do globo.

Por esta razão, quando se coloca o enfraquecimento de uma religião de aspecto


mundial tal qual o Budismo, associada com o êxodo para terras longínquas das melhores
mentes que aquela sociedade produziu na época moderna, na verdade, se está transmitindo a
realidade de uma profunda mudança nos paradigmas que um dia alicerçaram esta cultura. É
claro que este é um processo dinâmico e novamente o Oriente está se reerguendo, e talvez à
altura de seus melhores dias.

Entretanto, o está fazendo sob novas bases, e mesmo que novamente a tradição
esteja se tornando importante, este renovado Oriente a está agora colocando em uma outra
perspectiva, certamente muito mais centrada em ver tudo isto, muito mais como uma herança
de todos os povos antigos que ali se desenvolveram.

O contato direto com o resto da humanidade está levando os povos orientais a


cumprir toda a jornada que caracterizou a história do homem ocidental, e isto obviamente lhe
traz tudo que foi ali experimentado de bom e de não bom.

Um terceiro e último elemento que tem que ser explorado aqui é a influência que
vem tendo a invasão chinesa no Tibet.
A partir de 1947, a China tornou-se um país comunista e de nacionalismo
exacerbado, tendo este fato se tornado possível em função da extrema falta de sintonia entre
os últimos imperadores e o povo chinês. A muito a Corte de altos dignatários e seus
administradores havia isolado a família imperial, mantendo-a dentro de uma aura mítica que
tinha como principal função perpetuar sua pretensa origem divina (mas também, mantinha o
imperador na ignorância quanto aos desmandos e negociatas cometidas pelos altos
funcionários nas províncias!). Isto, associado com a obscena inépcia da maioria dos
administradores regionais, escolhidos muito mais em função da representação política que
pela competência, estabeleceu um estado de coisas em que o povo experimentava ao lado de
uma extrema pobreza, a tradicional repressão de todos os seus anseios.

Em um violento movimento compensatório, a revolução, após ter derrubado o


governo imperial e durante o trabalho de sedimentação de um novo estado comunista,
destruiu sistematicamente tudo o que era tradicional e/ou que lembrasse mesmo que
remotamente o passado imperial, objetivando construir por meio disto uma geração de
chineses livres do culto à pessoa do imperador. Destruiu templos e palácios, perseguiu,
assassinou ou expulsou toda a família real, a nobreza em geral e a elite erudita que a apoiava.
Retirou o povo de suas antigas regiões de habitação e o recolocou em lugares novos, muitas
vezes incultos e difíceis.

É claro que este não foi um processo pacífico ou indolor e para levá-lo adiante foi
preciso estruturar uma força militar gigantesca e bem aparelhada. Com a subida ao poder de
Mao Tse Tung, em que pese ser este um frio e violento líder, que não hesitou em usar sua
máquina de guerra contra o povo em mais de uma lamentável ocasião, o furor destrutivo da
revolução comunista arrefeceu.

Mao entendia que um povo forte precisa de um passado glorioso, e ao contrário de


todos os seus antecessores não temia a possível influência que o antigo e falido império ainda
pudesse exercer. Seguindo um inteligente plano de longo prazo, criou as condições para que
voltassem à China toda a elite intelectual que tinha fugido das perseguições da revolução,
iniciou os movimentos de revalorização da medicina tradicional e, em 1959, invadiu o Tibet!

Este ato, embora muitas vezes fosse historicamente justificado pela relativa
posição estratégica daquele pequeno país, situado a meio caminho entre a Península Indu, a
ainda poderosa União Soviética e a China, na verdade buscou trazer para o domínio chinês a
fonte de onde tinha fluído em tempos distantes a maior e melhor parte dos aspectos refinados
da cultura chinesa.

Qualquer que seja a real motivação de Mao, o que importa é que o


desmilitarizado, e pacífico, Tibet não conseguiu opor-lhe a mínima resistência, e rapidamente
estava dominado.
Para que esta se tornasse uma situação duradoura, é claro que era necessário que o
governo budista do Dalai Lama fosse literalmente desmontado, o que se conseguiu através do
fechamento, ou mesmo destruição, da rede de grandes templos budistas que materializavam o
poder secular neste país. Os monges foram violentamente reprimidos e, com a fuga de seu
líder espiritual para a Índia, e depois para outros países ocidentais, tornados acéfalos e fracos
institucionalmente. Este pavoroso processo enfraqueceu espiritualmente não apenas o Tibet,
enquanto maior nação budista do mundo, mas atingiu o próprio Budismo em si que, disperso
pelo globo, está assumindo gradativamente outros aspectos a nível de seus ancestrais cânones
filosóficos.

Neste ponto, alguém deve estar se perguntando porque isto seria importante para
alguém que quer conhecer a Tradicional Medicina Chinesa! Aliás, não apenas em relação ao
Budismo, porque afinal é importante conhecer todo este processo de transferência de
conhecimento Oriente-Ocidente!?

A resposta a isso, para ser a expressão da verdade, tem que ser dada bastante
devagar posto que só vai abarcar a totalidade dos motivos que nos levam a proceder assim,
aquele que já tiver caminhado um bom trecho da tortuosa trilha da aquisição do conhecimento
ancestral. Por agora, é preciso começar a pensar em que todo aquele que opta por este
caminho, está realmente começando a fazer parte de um processo maior que ele mesmo!

Em que pese a importância dos seus próprios impulsos pessoais, sem os quais
nada aconteceria de fato, o que realmente está acontecendo é a associação com um fluxo
altamente energético de nível global! A vida está se transformando neste planeta, e
transformando as pessoas, e para que este processo se dê de forma equilibrada é necessário
que determinados “eixos” sejam garantidos.

O modo de pensar, e o conhecimento acerca dos fenômenos que regulam os


ciclos da natureza é um destes “eixos”. E de tempos em tempos, tal conhecimento tem que se
manifestar em um canto do mundo para que todos os povos façam a sua leitura dele, e se
renovem e amadureçam!

Para que a dimensão verdadeira do que significa isto se faça no espírito do homem
é que, de tempos em tempos, se conta um pouco da história desta última transição.

Por outro lado, tentar compreender a filosofia e a medicina oriental em verdade é


abordar de duas maneiras a mesma realidade.

Como já sugerido, diferente do Ocidental, o Oriental realiza internamente sua


religiosidade de tal forma que todas as expressões de sua vida se organizam e materializam a
partir dos mesmos elementos sutis. A sua concepção do que é divino é altamente metafísica,
mas nem um pouco esotérica!
Ou seja, o Oriental vê a manifestação divina, em todas as suas dimensões, a partir
dos elementos cósmicos (do universo) e telúricos (da terra) que estão acontecendo à sua volta
diariamente! E a partir disto, é que dá uma forma a sua relação com este “Deus”. Como
muitas destas manifestações são extremamente sutis, e se referem a uma dimensão de
fenômenos vitais impossíveis de serem observados diretamente, o Oriental se torna meta-
físico (aquilo que está ao lado do mundo macro e concreto) e altamente sensível às
consequências mínimas que denunciam as realidades deste universo de fenômenos sutis.

Quando se trata então de estudar as técnicas ancestrais, elaboradas no tempo


em que a ciência, do modo que a concebemos, enquanto um método direto e objetivo de
observar e explicar a realidade, era algo extremamente diferente, temos que recuperar o ponto
de vista ideal. Qualquer que seja nossa solução pessoal para alcançar isto, freqüentemente,
significará nos tornarmos, qual os antigos, altamente instintivos, orgânicos e intuitivos. Na
antiguidade, a única fonte deste tipo de conhecimento, incluindo aí os procedimentos gerados
a partir deste conhecimento, eram os templos e os rituais.

Na Antiguidade, o agrupado de fenômenos cósmicos e telúricos que permitiam


à realidade ser o que é, era identificado e experimentado como religião. Por isso faz sentido se
inteirar dos fundamentos das antigas religiões que habitaram o inconsciente coletivo da
humanidade. O conhecimento básico de que necessitamos está depositado ali. O ponto de
vista ideal também e, talvez, o ambiente e a oportunidade para que retornemos ao caminho da
nossa essência espiritual, ou como gostam os Orientais, retornar ao nosso TAO!

III- O Hinduismo

Figura 2 – O símbolo do OM

Como já comentado, a única chance que o Ocidental tem de entender, que seja
medianamente, a Tradicional Medicina Chinesa, é apreender o mínimo do método de
pensamento do Oriental. Entretanto, por ser extremamente distinto do nosso próprio método,
esta não é em tese uma tarefa fácil.

As estratégias de organização do pensamento estão todas profundamente


enraizadas no subconsciente, e poderosamente protegidas na intimidade dos arquétipos que
lhes dão suporte e substância simbólica.
Há uma rede neuronal estruturada para deslocá-las bioenergeticamente pela córtex
cerebral, e isto ao final representa um complexo “programa” fisiológico e psicoemocional que
todos utilizamos diariamente para conceber a vida e a nós próprios.

É muita coisa para se movimentar! E a aquisição de novos paradigmas


conscienciais certamente movimentam tudo isto!

De qualquer forma, esta “alquimia” interna só é possível de ser começada pela


aquisição de uma base conceitual que, não por acaso, pode ser inteiramente encontrada nos
cânones filosóficos fundamentais que alicerçaram a cultura oriental pelos milênios da
antiguidade. Em verdade, todo o conceitual imprescindível ao domínio da T.M.C., aliás como
tudo que se refere à vida dos povos orientais, fluíram da tradição filosófica. E nela felizmente,
podem ser ainda hoje buscados. E por serem conceitos altamente instintivos, e baseados na
relação direta do homem com o universo que o cerca, de fato podem ser entendidos e
incorporados por qualquer ser vivente, desde que disponível para isso.

Os primeiros registros históricos sobre tais idéias, suficientemente, organizados


para serem de algum modo passados à posteridade, podem desde sempre ser encontrados no
contexto do que hoje conhecemos por “Hinduismo”. Embora a maior parte desta tradição,
neste canto do globo que corresponde à península Indu, seja originalmente transmitida em
caráter oral, e principalmente, após o advento dos “Upanishads”, nos últimos séculos não
foram poucos os pensadores que se preocuparam em registrar de forma mais palpável a
sabedoria dos Vedas.

Figura 3 – OS UPANISHADS E OS VEDAS

Entretanto, o próprio termo “Hinduismo” tem que ser para nós esclarecido posto
que o temos absorvido muito interligado com o agrupado de seitas que compõem a religião
indu. O Hinduismo em verdade se refere a tudo que é próprio do vale do rio Indo, um dos
principais rios da Índia e berço das mais antigas ocupações humanas da região. No meio desta
herança está a Medicina Ayurvédica, ou seja, a medicina ensinada pelos Vedas, que para nós
neste momento é de suma importância na medida que serviu de substrato básico para o
surgimento do que denominamos Tradicional Medicina Chinesa(T.M.C.).
Antes dos Upanishads, textos que coletavam as tradições orais e que começaram a
surgir por volta de 200 a 250 D.C., já existiam os “textos sagrados” ou “Védicos”.
Denominação que os coloca como provenientes da época dos “Nobres Estrangeiros (Vedas)”,
dominantes naquela região desde há 20 séculos antes de Cristo.

Tais textos chegaram à época moderna muito fragmentados e apenas através de


citações indiretas que remontam a mais ou menos 800 A.C., e isto por que, quando da época
de elaboração dos Upanishads, apenas algumas memórias ainda subsistiam na mente dos
mais velhos. Os próprios Vedas, considerados uma nobre raça estrangeira, de intelecto e
tecnologia superior, não foram nunca muito bem conhecidos, sendo sua origem um mistério
enterrado para sempre e apenas sugerido por medrosas citações aqui e ali.

Sabe-se apenas, que era um povo que veio do leste, que trouxeram a cultura e a
organização social para os Indus, e que um dia se foram em seus “vimanas” (discos muito
brilhantes e perfeitamente planos que se elevavam do solo sem ruído ou perturbação alguma
da terra ou da atmosfera em volta!?), desgostosos com os ferozes ataques que as bárbaras
tribos nórdicas vinham lhes infligindo por várias décadas.

Figura 4 - VIMANA

Figura 5 - OS VEDAS EM SEUS VIMANAS

Sem a sua proteção, todo o vale do Indo caiu sob a dominação bárbara, e algumas
tribos guerreiras se estabeleceram por ali. Mas, repetindo um processo que já acontecera
algumas vezes antes, inclusive na época dos Vedas, foi apenas questão de tempo para que os
pretensos “conquistadores” fossem por sua vez conquistados pela sutilmente sedutora cultura
dos nativos.
Esta longa história, contada desde cerca de 8.000 anos A.C., estabeleceu uma
intensa miscigenação entre vários povos, e deu origem a um complexo contexto social,
caracteristicamente extratificado por um sistema de castas rigidamente separadas em seus
direitos, atribuições e valores.

Tal estado de coisas se fortaleceu tanto através dos séculos, que até os dias de hoje
persiste e, de certa forma, representa um dos graves entraves sociais que o povo Indu enfrenta
para se tornar mais coeso e mais identificado enquanto nação unificada.

De todo modo, com este apego ao seu antigo modo de ser, e de sentir a
experiência da vida, em seu subconsciente o povo Indu preservou a base filosófica que os
nobres ancestrais, os Vedas, lhes trouxeram um dia.

Os mesmo elementos ainda guiam todos os seus passos ao longo de sua


existência, e mesmo que o vejamos hoje como um povo que se modernizou e se distancia
todos os dias de suas raízes lendárias, não devemos nunca perder a noção de que foi através
deles que em determinada época, algo em torno de 30 séculos antes de Cristo, o povo chinês
bebeu da fonte e iniciou a cultura que exibe hoje.

Mesmo que altamente modificados pelas contribuições do Taoísmo e do Budismo,


que juntos compõem a espinha dorsal da moderna filosofia oriental, os conceitos
fundamentais ainda são os mesmos, e por isso mesmo faz todo o sentido, estar a contatá-los a
partir daí, sua fonte primária!

Nos dizem os ancestrais que tudo provém de uma manifestação divina única, para
os Indus, o Brahmam.

E, obviamente, aqui se inicia um conhecimento importantíssimo!

Figura 6 - BRAHMAN

De fato toda a metafísica que envolve a cibernética e os procedimentos da T.M.C.,


tem como ponto de partida o fenômeno energético, que justamente preconiza a manifestação
multidimensional de um princípio organizador único, muitas vezes descrito apenas como
“fenômeno vital”.
É claro que não vamos antecipar a profunda e inescapável discussão acerca do quê
seria este fenômeno vital e das suas muitas conseqüências, mas desde já, ajuda muito começar
a perceber que tal síntese (é uma idéia simples, que sintetisa toda a fenomenologia que rege o
universo, inclusive o biológico!) só foi possível dentro de um ambiente de idéias que
preconizassem a monolatria. Ou seja, parte-se aqui da certeza de que toda a criação é
emanente e submetida à influência organizadora de um princípio único, um único “Deus”.

É claro que a miscigenação de tantas culturas primitivas enriqueceu muito a idéia


monoteísta, e acomodou ao lado do Deus único um séqüito de “Forças menores” (Deuses
secundários, ou Gui, para os chineses), que agiriam em nome dele, trazendo a este plano
terrestre todas as suas determinações e movimentos. Novamente é deste arranjo, agora
tornado politeísta, mesmo que n´uma dimensão secundária, que fluem idéias importantes que
depois foram se incorporar à T.M.C. Ali, por exemplo, vamos encontrar que o fenômeno vital
se manifesta nas muitas dimensões da criação de forma absoluta. Ou seja, a energia vital
habita todas as estruturas e sistemas, manifestando-se de forma diferenciada em suas
características e dinâmicas de interação, mas nunca deixando de ser apenas o primeiro
princípio. Então, dito de forma mais simples, existe apenas uma “Energia”, manifesta de
forma diferente em cada aspecto e situação em que a surpreendemos. Cada manifestação
realiza um determinado “trabalho”, que visa sempre a transformação e o encaminhamento do
princípio único. Atente-se que, aqui, o termo “transformação” nunca estará se referindo à
estrutura intrínseca do fenômeno, e sim às dinâmicas de atuação. É claro que, mais uma vez,
isto será sempre discutido melhor mais adiante.

Percebe-se nitidamente a transferência de imagens de um plano cósmico, mais


macro, para um plano orgânico, bem mais micro! E as analogias vão mais longe, bem mais
longe...Um outro exemplo, em se tratando da presença onisciente do fenômeno vital, está
relatado que tudo possui um “espírito”(atmã, para os indus), e que este é imortal e imanado
do Brahmam, e que este não faz neste mundo mais que cumprir um ciclo que o levará
inexoravelmente ao seu ponto de partida (Sansara), ou seja, de volta ao Brahmam (isto se
refere aos seres comumente considerados vivos. Os não vivos também possuem um espírito,
mas cumprem ciclos diferentes).

Figura 7 - A RODA DA SANSARA


A referência orgânica disto é o fato deste princípio vital nunca ser próprio do
corpo! Isto é, a energia vital em verdade é definida enquanto tal no ato da concepção. Vai
tomando forma durante a gestação e o nascimento (antes do nascimento a energia vital está
contida na sua forma potencial no cosmos e no campo dimensional da ancestralidade, de onde
deve fluir para o novo ser que está se formando!), a partir dos elementos nutritivos do
ambiente (aqui entra tudo com que a Mãe contribui!), e se incorpora ao ser pelas múltiplas
vias de contato do sistema. Transita por ele durante toda a vida, realizando seus múltiplos
trabalhos e, finalmente, retorna ao ambiente. Desta forma, os antigos orientais já
preconizavam, com 8.000 anos de antecedência, que entre outras conseqüências deste fato, a
quantidade total de energia circulante pelo universo se mantém sempre estável! Não
importando quantas manifestações deste princípio vital se possa contabilizar. O princípio vital
pertence à sua fonte, é auto consciente e inteligente, e só a ele cabe a determinação de suas
manifestações. Este aspecto inclusive, a auto consciência, em função de sua importância
fundamental, será extensamente explorado durante todo este texto, posto que introduz um
poderoso diferencial entre as duas concepções organizacionais universais, ocidental e oriental.
Na verdade, isto é tão importante que, a depender do quanto o curador possa entendê-lo, a sua
medicina terá maior ou menor capacidade de comunicação com o paciente, o que obviamente
determina seu poder de cura!

A partir disto, o Indu organiza então seu pensamento colocando dois movimentos
na relação do ser vivente com esta energia vital universal. O movimento que, quando passado
para o ser, promove a harmonia, que considera “puro”. E o movimento que promove a
desarmonia, que considera “impuro”. É claro que, aqui, as expressões “Puro e Impuro” não
se referem em essência à sanidade ou malignidade de qualquer coisa, mas simplesmente ao
tipo de reação que tal princípio desperta no sistema que está abordando. E mesmo no que se
refere ao movimento impuro, este também trás implícita uma idéia de utilidade! Obviamente,
tudo provém do Brahmam, e portanto, é divino e perfeito em suas atribuições!

A expressão clínica disto, em que pese ser uma concepção bastante óbvia e
simples, surpreendentemente, para o Ocidental tem sido um grande desafio de credibilidade.
Para nós, simplesmente, tem sido muito difícil crer que qualquer processo de desequilíbrio
(causado pela instauração de algum movimento impuro) tem sua razão de ser. A utilidade de
uma experiência de desequilíbrio, em muitas ocasiões, é difícil de perceber, e como tal, no
mais das vezes, na mente do Ocidental, este movimento então deve ser suprimido o mais
rápido possível.

O problema que se cria então é a interrupção, ou transformação, de um processo


que tinha seu próprio curso e sua intenção, e que agora está represado pela ação de outras
forças que não as naturais.
Para o Indu isto gera então um desequilíbrio maior, de conseqüências talvez não
imediatas, mas que certamente em um tempo retornarão ao momento do indivíduo. Para ele
isto representa “Karma”, ou seja, uma perturbação do fluxo de evolução da vitalidade que
em algum momento tem que ser equilibrada. Na concepção induista, o homem, através de
uma sucessão de “erros” na administração de sua energia vital, e a depender da qualidade sua
ação, pode acumular Karma continuamente, o que estenderia a sua permanência neste ciclo
de existência.

Figura 8

Para o Indu esta permanência, algo que se experimenta através de períodos


sucessivos de vida e morte (reencaranção de atmã), alonga a sua “Sansara”, ou jornada pelo
mundo da ilusão e da dor! Retarda a sua iluminação, ou o momento de retornar ao Brahmam.
Para ele, isto seria desastroso, algo semelhante a permanecer enclausurado no nosso
“inferno”!

A consequência clínica deste modo de conceber os processos de adoecimento e


cura, é estabelecer uma rotina médica que proteja sim o indivíduo dos rigores excessivos de
sua experiência, mas que ao mesmo tempo permita o esgotamento de tudo que tal
acometimento trás ao indivíduo, entendendo que assim ele “aprende” fisiológica e
espiritualmente, e evolui. A sua imunidade evolui, e o corpo fica mais competente para estar
se relacionando com as manifestações “impuras” da energia vital.

Se a doença trás a dor, e o homem compreende a sua origem, é mais provável que
ele não cometa os mesmos erros, e não acumule mais Karma, e desenvolva posturas que o
leve mais para o caminho da harmonia física e espiritual. Isto, por sua vez, é acumular
“Dharma”, ou seja, nesta nova postura o homem pratica sua “ética interior”, e harmonizando
o seu fluxo vital, compensa o seu Karma!

Esta idéia introduz o segundo conceito mais fundamental da concepção oriental


acerca da organização do universo (que inclusive, também é muito discutida e utilizada no
ocidente). A dualidade, ou manifestação sempre ambígua da energia.
Neste princípio, um determinado movimento, equilibrado ou não, só será
compensado pelo seu movimento complementar (oposto no sentido da compensação). Isto é,
em que pese haver apenas um princípio vital, este pode assumir dois movimentos
complementares, cada um representando uma dinâmica de manifestação. Sendo assim, o
desequilíbrio de um, por esvaziamento ou por excesso, só será compensado pela ação do
outro, que entrará, respectivamente, em florescência ou degenerescência.

Como já sugerido este é um conceito que, na clínica médica, induz o curador a um


planejamento de intervenção muito próprio desta medicina, e profundamente diferente da
ótica da medicina convencional. Ou seja, neste contexto o curador nunca pensa em ir contra a
“doença”, antes ele se concentra em ir a favor do paciente, o que nem sempre significa uma
melhora imediata ou a supressão dos sintomas!

Ele acredita que, se de alguma forma, ele puder ajudar o sistema a movimentar
sua vitalidade no sentido compensatório, seguindo a dinâmica já descrita, qualquer que seja o
problema, este se ajustará novamente em uma expressão pura do metabolismo. Se ajustando,
estará novamente estabelecida uma economia fisiológica “correta” que, ocupando os espaços
funcionais, confrontará o “impuro” expulsando-o do organismo.

A terceira grande idéia da medicina oriental é algo conhecido também no


ocidente. O diferencial aqui ficando por conta apenas do grau de valorização. A melhor
maneira de reestabelecer, e manter, a expressão correta do metabolismo é editando um estilo
de vida vitalizante. E isto em todos os aspectos!

Para o Indu, o que o tornará puro definitivamente é o esgotamento do seu Karma.

Como já visto, a única maneira de se conseguir isto, é pelo exercício da ética, ou


do Dharma, por qualquer uma das três vias consagradas: o sacrifício, o conhecimento e a
devoção.

Da mesma forma, eminentemente do ponto de vista médico, a única maneira de se


permanecer puro, ou saudável, é pelo mesmo exercício de ética pessoal. Uma ética que leve o
indivíduo a isentar-se dos excessos de prazer. A conhecer a si mesmo, separando o que lhe
convém do que lhe não convém e, talvez mais importante que tudo, devotando-se a valorizar o
seu corpo, o seu espírito e a sua vida como uma rara oportunidade para dar um passo além no
escape à Sansara.

Após o ano 600 A.C., com o advento do “Bhagavad Gita”, um manuscrito das
tradições que com o tempo se tornou a “Bíblia” do Indu, acrescenta-se mais um caminho às
três vias consagradas.

Agora, além do sacrifício, do conhecimento e da devoção, o homem, para se


manter puro, tinha que exercitar o desapego a tudo o que fosse denso e transitório.
Isto é, na prática o homem puro não pode estar apegado à família, embora tenha
que tê-la e honrá-la. Ao dinheiro e às posses, embora tenha que acumulá-las e defendê-las de
se dispersar. Ao poder político ou temporal, embora deva exercê-lo se a ele tocar uma posição
de destaque em sua comunidade.

E coisas do tipo... Simplificando esta aparente ambiguidade, para o Indu o que é


preciso é viver as coisas da vida material com moderação, e isso, só se torna possível a partir
da atribuição do valor ideal a estas mesmas coisas.

Atribuir o valor ideal à vida é exercitar o “Bhakti” (algo como o “caminho da


serenidade”), o que por sua vez só é possível (e esta é uma idéia que não existia antes!)
quando os deuses são favoráveis.

Figura 9 - KRISHNA & ARJUNA in BHAGAVAD GITA

O Bhagavad Gita na verdade significou um grande marco na tradição oriental


indu pois retirou das mãos do homem o poder de realizar sua própria iluminação. Introduziu
definitivamente a ação divina como limitadora ou facilitadora das condições para isso, o que
levou o povo cada vez mais a depender da bênção divina para se sentir cumprindo seu Bhakti.

Acontece que o povo, por esta época, já não sabia mais como conhecer
diretamente os desígnios divinos, e isto obviamente propiciou o surgimento e o crescimento
de uma rede de representações religiosas que antes não encontrva tanto espaço para se
desenvolver.

E sendo a vida do oriental intensamente condicionada pela crença em seu Karma,


e para que sua iluminação pessoal fosse garantida, isto tomou tais proporções, que a partir de
determinado momento para tudo se fazia necessária a intervenção de um monge ou de um
sacerdote. As ordens monásticas tiveram com isso, um crescimento vertiginoso e, com o
tempo, quase toda a sociedade oriental girava em torno dos mosteiros e das festividades
religiosas.
Com o advento do Budismo, a mais ou menos a 500 anos A.C., isto se tornou
mais expressivo ainda pois, pela primeira vez, uma figura humana forte e preponderante, que
não um imperador, capitalizou a “fé” do povo simples da rua. Em torno da figura do Buda
(Sidarta Gautama), um verdadeiro império de fé e devoção se formou, persistindo este
fenômeno humano até os dias de hoje.

Tal é a visão do Hinduismo para o desenvolvimento de todas as coisas e, é claro


que este comentário não esgota em absoluto tudo que poderia ser dito sobre esta vastíssima e
profunda cultura e sua filosofia fundamentalista.

Contudo, a nossa necessidade é em algum momento encontrar a cultura chinesa


que, apesar de ser muito uma conseqüência do desenvolvimento da herança védica, se
diferenciou grandemente da cultura indu por força de sua própria história, assim como pelo
afastamento geográfico e temporal entre os dois povos. O estudo então continua, e a nossa
visão do pensamento oriental deverá ir se tornando mais precisa gradativamente.

De fato, as outras apresentações da filosofia oriental, que estamos estudando no


intuito de “pinçar”, daí os conceitos que depois irão nos esclarecer acerca da prática médica,
não são tão diferentes do que já vimos. Contudo, e isto talvez seja o mais impressionante na
história da tradição oriental, tais idéias nunca ficaram estáticas, tomadas como absolutos
prontos e acabados. A filosofia oriental evoluiu através dos milênios de sua história, e muitas
outras idéias fundamentais surgiram na forma de uma espécie de “polimento” dos conceitos
ancestrais.

Em função disto, vale a pena continuarmos um pouco mais e visitar, mesmo que
ainda rapidamente, um traço mais atual de todo este pensamento. Um ambiente interessante
para se ter este enfoque é o Budismo, e toda a sua visão do universo.

IV- O Budismo

Figura 10 - BUDA

O Budismo enquanto seita, começou a acontecer após o momento de


“iluminação” de Gautama que, de acordo com esta crença, só a partir daí se tornou um
“Buda”, ou seja, “aquele que não necessita mais encarnar”.
Pela tradição este grande evento ocorreu quando este homem já contava 35 anos,
dos quais os últimos seis havia passado libertando seu espírito através do ascetismo. Na índia
os “Ascetas” são aqueles que, abandonando toda e qualquer ligação com os bens materiais,
acreditam que irão alcançar a iluminação, ou a condição de “Bodhi”, pela privação sensorial
(reputam à escravidão dos sentidos as desgraças todas que povoam a vida do homem). Em
função disto se isolam em florestas, comem muito pouco, quase não falam e evitam todo o
tipo de excessos sensoriais que possam levá-los às excitações sensuais e desviá-los de seu
caminho de purificação espiritual.

Gautama, apesar de ter nascido muito rico, filho da fina realeza de uma antiga
etnia Indu, estava marcado pela profecia do astrólogo que fez o seu horóscopo quando de seu
nascimento. Segundo este adivinho, ele só cumpriria o seu destino como herdeiro de seu pai
se, até a idade de trinta anos, não sentisse a dor do mundo. Em vista disso, o Rajá, seu pai,
determinou que ele jamais ultrapassasse os portões do palácio, preservando-o de tomar
conhecimento das misérias da humanidade. Apesar da determinação de seu pai, o jovem
Gautama tinha uma intensa curiosidade sobre tudo e queria muito ver o que existia além do
seu dourado mundo palaciano. Um dia, não se contendo mais, obrigou um servo a trocar de
roupas com ele e, coberto por um manto, conseguiu burlar a vigilância de seus “protetores”.

Conta a lenda que Gautama passou o dia fora, voltando ao palácio já ao escurecer.
Tinha o cenho carregado e não comentou com ninguém acerca do que tinha lhe acontecido em
sua pequena aventura. Entretanto sua esposa, vendo-o ensimesmado e pensativo dia após dia,
pressionou-o a que se abrisse. Gautama fitou longamente a delicada mulher que lhe tinham
concedido como companheira e, com os olhos marejados de lágrimas, contou-lhe que na
verdade naquele dia não tinha se afastado muito do palácio. Entretanto em seu curto passeio,
assistira a execução de um criminoso condenado, vira um homem coxo a pedir esmolas e um
outro, estirado a pé de um muro, doente e faminto. Desde este dia tais visões não lhe saíam da
cabeça e, de fato, suas emoções haviam lhe forjado uma certeza em seu coração. Ele,
Gautama, na verdade não sabia nada da vida e se angustiava imensamente em ter todo aquele
espaço, conforto e abundância a sua disposição, enquanto a maioria das pessoas não tinha
sequer um pedaço de pão para mitigar-lhes a fome crônica.

Não havia mais paz e luz em seu coração, e por isso tomara a decisão de
abandonar tudo aquilo! Iria vagar pelo mundo aprendendo sobre a realidade e, com o tempo,
fazer alguma coisa para minimizar a miséria da humanidade. Apesar da expressão de espanto
da linda jovem ajoelhada ao seu lado, naquele ponto o Príncipe sorriu para ela e convidou-a a
partilhar do seu destino. A expressão da mulher mudou do espanto para o pânico e
inconscientemente , ela se afastou, confusa e dividida. Abandonar tudo que conhecia para
sempre!? Toda a proteção do palácio, sua posição e sua família...!?
Ao entardecer daquele dia, aos 29 anos de idade, Sidarta Gautama abandonou
sozinho as dependências do seu palácio e nunca mais voltou. Se desfez de suas roupas, deu
seu dinheiro a um pedinte e esqueceu-se de seus títulos e de sua herança. Logo juntou-se a um
grupo errante de Dervixes (ordem de monges ascetas que habitam as florestas e campos e
pautam seu comportamento por hábitos extremamente rigorosos, tais como o voto de silêncio
e jejuns quase absolutos por longos períodos) e iniciou seu longo e penoso aprendizado.

Seis anos depois, estava cansado daquela vida de isolamento e silêncio,


terminando por considerá-la vazia e sem propósito prático. Nos poucos momentos que pudera
conversar algumas poucas palavras com seus companheiros de rigores, percebera que viviam
ali e praticavam todos aqueles rituais de privação, principalmente, levados por três motivos: a
culpa (um deles assassinara o irmão para ficar com sua fortuna e sua mulher, mas logo a
culpa se tornara para ele um pesadelo e fora obrigado a abandonar tudo para tentar compensar
o peso daquele Karma), o medo (um outro, ainda jovem, fora o filho primogênito de uma
grande e poderosa família de mercadores, com negócios em vários países longínquos e
trezentos servos. Crescera ouvindo a todo momento que devia se orgulhar daquela imensa
fortuna e se preparar arduamente para quando chegasse o dia de assumir os negócios da
família. Aos dezesseis anos, assistira o seu poderoso pai adoecer de um misterioso mal que
lhe ia tirando progressivamente os movimentos das pernas e braços, o que o impedia de viajar
e tomar conta de seus muitos negócios. Logo, todos os olhares se voltaram para ele, o que
muito confrangeu o seu coração. Na verdade, toda aquela expectativa o apavorou
profundamente e, em uma noite fria e negra, pulou a janela de seu quarto e fugiu para a
floresta). E a ambição (o terceiro monge era o último filho de um homem sábio, muito santo
e muito famoso. O seu nome era sempre apontado por todos como uma referência de justiça,
bondade e bom senso, e não era raro aquele homem ter à porta de sua modesta casa uma longa
fila de pessoas que vinham de muitos lugares distantes a pedir o seu conselho. Aos olhos de
seu filho, toda aquela agitação tornava o seu pai uma figura impar na pobre comunidade em
que viviam e, desde pequeno, jurou a si mesmo que seria tão importante quanto ele. Contudo,
com o tempo, tomou consciência de sua grande pobreza e percebeu que nunca seria aceito em
nenhum mosteiro importante para iniciar os estudos que o tornariam um monge famoso.
Desesperou-se por uma solução até que um dia ouviu sobre o grupo de santos Dervixes que
habitavam a floresta próxima. Aquilo o atingiu como um raio e, no mesmo dia, tomou o rumo
que lhe haviam apontado como provável de encontrar aquela ordem de buscadores).

Em suas longas horas de meditação, Gautama percebeu que estas três motivações
(a culpa, o medo e a ambição), em verdade, não pertenciam ao ser interior divino e puro que
animava cada um daqueles homens. Percebeu que de fato, estes se dedicavam às coisas que
pertenciam à superfície de suas mentes, e que este certamente não era o melhor caminho para
atingir a condição de “Bodhi”, ou iluminação.
Tal conquista só poderia fluir daquele profundo mistério divino que habitava cada
um deles, e que permaneceria irremediavelmente inalcançável se estivessem o tempo todo tão
concentrados com as cosias banais do dia a dia. Aquecido e excitado por suas conclusões, que
lhe vieram como uma poderosa onda de vida e verdade, o jovem se dirigiu aos seus
companheiros, tentando dividir com eles o que vira. Mas, desafortunadamente, tudo isto se
dera em sua mente em meio a um dos mais sagrados períodos de purificação para os Ascetas.
Neste período o mais absoluto jejum e o mais absoluto silêncio eram imprescindíveis!
Quebrá-los sob qualquer pretexto era impensável e, além do mais, quem julgava ser aquele
neófito para instruir os mais empedernidos homens santos daquela floresta!?

Atônito e entristecido com a cegueira de seus velhos companheiros, Gautama


abandonou a floresta e o ascetismo. Entretanto, seis anos haviam se passado e seu jovem
corpo mostrava as marcas cruéis daquele tipo de vida. Semi nu, com as costelas ressaltadas e
os longos cabelos em desalinho, era uma figura muito diferente daquela que saíra do palácio
de seu pai, procurando a verdade da vida e a paz do coração. Caminhando por uma estrada de
pouco movimento, rapidamente se cansou e, encontrando uma frondosa figueira que estendia
generosa sombra a beira de um diminuto riacho, se dispôs a descansar por ali.

Seguindo seu treinamento, comeu apenas alguns figos, bebeu bastante no riacho e
pôs-se a meditar placidamente. As horas passaram e se transformaram em dias, o breve
descanso tornou-se uma verdadeira jornada para o esquecimento e o príncipe, sentado ao pé
da figueira, confundiu-se com a relva, o vento e os raios de luz. A lenda conta que o jovem
permaneceu em estado contemplativo por sete dias e sete noites e, após este tempo, ao
alvorecer do oitavo dia, alcançou o seu “Nirvana”. Ou seja, integrou-se a toda à criação e
teve consciência de cada ser vivo que respira neste mundo. Ficou extasiado com a
multiplicidade da obra da natureza e tomou consciência da magnitude do milagre da vida. Era
um raro milagre!

E como tal, deveria ser reverenciado e valorizado em todos os momentos por


todos a quem tocava vivê-lo. Neste ponto uma sombra se estendeu em seu espírito. Ele
próprio não procedera assim. Vitimado por sua imensa ignorância, estivera a desperdiçar a sua
vida passando fome e frio em uma úmida floresta... Afinal, o que o levara ao tenebroso
engano!?

Um dia abandonara a casa de seu pai, sua fortuna e sua esposa, desejando
encontrar um lenitivo para as misérias do mundo. Haveria motivação humana mais
justificável e nobre que aquela?

Não!

O seu sonho era perfeito! Então...?


Compreendeu que todo o seu engano e sofrimento adviera do “ato de desejar”.

Novamente, sentiu aquela onda de vida e verdade que, agora o sabia,


acompanhava o verdadeiro momento de iluminação. Com um sorriso compreendeu
finalmente, o que tinha que fazer e realizou finalmente, o desapego absoluto de todas as
ambições desta vida terrena. Sentiu, verdadeiramente, que alcançara o maior sentido da
existência humana e que estava pronto para deixar a materialidade de seu corpo, unindo-se ao
Bhramam na sua infinitude.

Contudo, lembrou-se dos Dervixes da floresta e o porque de tê-los abandonado.


Lembrou-se da primeira vez que viera ao mundo além dos muros de seu palácio e se
confrangera com a dor da humanidade. Percebeu então, que alcançara com sua trajetória
espiritual uma verdade que, para ser completa, teria que ser dividida com quantos a
quisessem escutar...Esta história (ou estória?) teve a continuidade que a maior parte da
humanidade conhece. Deu início, com séculos de antecedência, a algo que o ocidente só
experimentou como o advento do Cristianismo e seu ícone crucificado. O que um dia foi
considerado o “fenômeno búdico” mudou o perfil psicológico e conceitual da humanidade, e
certamente constituiu-se em algo que foi muito além de Sidarta Gautama.

O homem Sidarta separou-se de seu corpo físico perto dos oitenta anos de idade,
deixando para a humanidade toda uma vida de ensinamentos, a grandeza de um exemplo de
simplicidade e humildade e, para seus discípulos, um resumo poderoso do que deveria saber
qualquer um que busque trilhar o caminho do Buda (trilhar este caminho significa buscar o
Samadi, a iluminação!).

A este resumo foi dado o nome de “AS QUATRO NOBRE VERDADES”:

a) O homem está adoecido;


b) A doença que o consome é o “desejo”;
c) O “desejo” pode ser curado;
d) Só o homem cura a si mesmo, e se cura pela prática dos “Oito
Caminhos”.

Antes de conhecer a essência dos “Oito Caminhos”, e ainda com o intuito de


aproximar a base filosófica da prática clínica, vale a pena aprofundar nossa percepção das
“Quatro Nobre Verdades”.

A Primeira Nobre Verdade denuncia a “doença” do homem. Em uma avaliação


mais rápida, o sentido da necessidade de tal denúncia poderia escapar posto que, na percepção
médica convencional, qualquer estado de adoecimento seria algo que mais cedo ou mais tarde
sempre “aparece”!

Nem sempre.
Na verdade o que o Buda está nos dizendo é que, primeiro, a verdadeira doença do
homem não é visível diretamente, pertence ao reino do espírito (da psique!). E, segundo, todo
processo de adoecimento sempre começou muito tempo antes de seus primeiros sintomas
visíveis se apresentarem!

Este sem dúvida é um alerta valioso para o curador tradicional. Nunca espere uma
cura rápida para a verdadeira “doença” do homem, sejam lá quais forem as suas
manifestações aparentes, pois o seu caminho de dor espiritual é longo e deverá ser, durante a
cura, todo percorrido ao contrário.

A Segunda Nobre Verdade trás o “diagnóstico” para tal desequilíbrio milenar. O


“desejo”. Aqui cabe então uma pausa para meditação... O primeiro elemento importante é,
todo processo de adoecimento tem causa interna! Isto é, apesar da aparente, se for o caso de
aparente causa exógena, “infecção” que leva o homem ao desequilíbrio de suas funções, na
verdade esta não ocorreria se este homem estivesse íntegro em sua imunidade. Assim a
“infecção” sempre dependerá de um terreno propício para se desenvolver! O segundo
elemento importante, decorre da leitura ideal do primeiro. A princípio o nosso sistema,
inserido que está na ordem que rege todas as manifestações deste universo, fica perfeitamente
preparado para se relacionar de forma harmônica com tudo que existe no seu ambiente. O que
o remove de seu estado de harmonia, como sempre, é uma causa interna. Neste aspecto, o seu
próprio comportamento. O comportamento, como sugere o Buda, torna-se patogênico quando
é ditado pelo desejo desenfreado, que leva aos excessos. Os excessos, que pela tradição são de
sete tipos, adoece a mente, e depois o corpo!

É a medicina tradicional, velha de pelo menos 8.000 anos, nos trazendo a


realidade soberana da “psicogenia” do adoecimento! Neste caso, com 2.500 anos de
antecedência!

A Terceira Nobre Verdade revela que o “desejo” pode ser curado. O valor central
desta afirmação é a “esperança”. Ou seja, primeiro sugere que, não importando quão grave
seja o quadro de desequilíbrio, sempre haverá disponível um tipo de “cura”. Então o homem
tem a obrigação de procurar por ela! E repetindo, não importa a gravidade do caso, sempre há
uma cura!

O segundo elemento importante é mais um alerta para o curador. Nunca haverá


uma cura efetiva se a causa interna não for tocada pela terapêutica. É o “desejo” a causa
básica, ou, sendo mais comportamentalista, os excessos oriundos dele. Se o homem não
“aprende” com o seu momento de desequilíbrio, a cura não estará realizada (ele ainda estará
carregando psiquicamente as rotinas que construíram aquela atitude!) e ele voltará, em um
determinado tempo, aos seus excessos e ao adoecimento.
A Quarta Nobre Verdade, de fato, é muito clara e deve ser aproximada da
realidade clínica quase que literalmente. Isto é, somente o homem pode curar o homem! Isso,
dentro da nossa realidade atual, quer caracterizar o absurdo da idéia de se transferir para outra
pessoa, talvez um médico, a responsabilidade por sua cura. É claro que esta solução não pode
funcionar, principalmente, se partirmos do pressuposto de que a vivência do adoecimento
nunca é ocasional. Ou seja, tudo ocorre como resultado de um processo. Se o homem não
“aprende” que aquele método de vida o adoece, e isto, certamente ocorrerá se a cura for
“facilmente” providenciada por outra pessoa, nunca estará verdadeiramente curado, mesmo se
os sintomas que o afligiam desapareceram momentaneamente! Em segundo plano, está o fato
de que, por mais competente que seja, o médico nunca saberá tanto acerca do processo do
paciente quanto ele mesmo! Pelo menos no que concerne à qualidade de suas experiências,
tanto no processo de adoecimento quanto no processo de cura. Por isso, dentro desta idéia,
quem determina o ritmo e a direção do tratamento sempre deverá ser aquele que vive o
processo em si, e nunca alguém que está ao lado, mas que não está dentro.

De passagem vem embutida aí uma exortação ao médico para que mantenha a


humildade. Nunca será ele, ou sua ciência, ou seus aparatos, ou suas tisanas que realizarão a
verdadeira cura do seu paciente! No máximo, todos estes recursos lhe permitirão maior
conforto, mais tempo e mais lucidez para experimentar seu processo de adoecimento e cura.
Em verdade, quem leva o homem ao seu equilíbrio é a mesma força que dali o retirou: a
energia vital. Um princípio único de autocura que todo ser vivente carrega em seu íntimo
enquanto uma conseqüência de ser justamente o que é: uma entidade viva e auto consciente.

Por outro lado, e sempre considerando que o homem só adoece por sua ignorância
acerca do que é correto, o Buda trata de fornecer os elementos fundamentais para se prover a
cura, ou mesmo para nunca se necessitar de adoecer para fazer seu crescimento.

E aqui entram então as chamadas “OITO VIAS DO CAMINHO PERFEITO”:

a. Manter uma perfeita compreensão


b. Manter a perfeita aspiração
c. Manter a perfeita fala
d. Manter a perfeita conduta
e. Manter o perfeito meio de subsistência
f. Manter o perfeito esforço
g. Manter a perfeita atenção
h. Manter a perfeita contemplação

Obviamente, a partir da fala simples do Buda, uma infinita discussão pode ser
desencadeada acerca da amplitude de seus significados. E por certo, sempre houve aqueles
que se dedicaram a isso a vida toda!
Contudo, e sempre considerando este um espaço não dedicado apenas às questões
filosóficas, vale a pena discutir alguns aspectos apenas para situar melhor aquele que vai
meditar em cima destas verdades milenares.

A primeira e a segunda via objetivam minimizar a maior motivação interna ao


homem que o leva ao adoecimento: a ignorância. Entretanto, é preciso considerar que “manter
a perfeita compreensão”, significa sobretudo aprender a encaixar todo e qualquer elemento
novo que se apresente em sua vida na “ordem” que a vem mantendo harmônica até então.

Atente que este elemento inédito sempre será uma aquisição a se somar ao seu
patrimônio existencial. Sendo assim, “compreendê-lo” nem sempre será se inteirar de seus
mecanismos internos, embora possa passar por aí, eventualmente.

Antes, será mais importante introduzir tal elemento no seu esquema de vida sem
permitir que este estabeleça ali um processo desarmônico!

Por outro lado, “manter a perfeita aspiração”, sempre passará por não desejar
aquilo que não lhe cabe naquele momento. O Buda acredita que o seu Karma sempre lhe trás
o necessário para que se cumpra o seu ciclo de vida. É impensável desejar acelerar as coisas,
sem que isto traga ao homem o infortúnio!

É impensável desejar mais do que se pode consumir ou controlar, sem que isto
traga os excessos, que trazem os adoecimentos! É impensável desejar o que é do outro, sem
que isto traga ao homem os malefícios próprios da total ignorância de tudo acerca do que está
desejando!

A terceira via quer proteger o homem dos rigores da comunicação. Ou seja,


manter a “perfeita fala” significa garantir duas coisas: primeiro, que o que se está dizendo é
realmente o que se quer dizer. E segundo, que quem o está ouvindo esteja compreendendo o
que está recebendo. Sem estes dois aspectos presentes o que está se estabelecendo é o caos, e
não a comunicação!

A quarta via se preocupa em estabelecer algo essencial para todo aquele que vive
próximo aos outros: a ética. Mas é importante perceber que manter a “perfeita conduta”, nem
sempre é agir de acordo com a ética da maioria.

Aqui, o único movimento que faz realmente sentido é manter-se fiel à própria
ética interior, buscando sempre harmonizá-la o máximo possível com as regras do grupo em
si.

É preciso entender que sempre haverá uma distância a ser acomodada aí, e a arte
do conviver está justamente em perceber o melhor momento para avançar, assim como o
melhor momento para recuar no preenchimento destes espaços.
A quinta via esclarece ao homem que a sua iluminação não necessariamente passa
pela privação dos recursos materiais. Há que se atentar que esta é uma vida que se desenrola
na dimensão do concreto, e isto não é assim por acaso!

Há uma “intenção divina” nisto tudo, que seria absolutamente desvalorizada se o


homem desafiasse esta realidade virando as costas à ela.

Ou, por outro lado, estar presente aqui significa que o caminho de iluminação
passa por aprender tudo que se refere a este tipo de experiência, e assim torná-la
insubstituível!

Entretanto, é preciso atentar para o fato de que o “perfeito meio de subsistência”


nunca será aquele direcionado para a acumulação excessiva dos bens. Antes o homem
necessita mesmo é de extrair de sua ocupação o “pão do espírito”. Ou seja, o seu prazer de
produzir o bem estar para si e para sua família. A riqueza material que se agregar
naturalmente a isto será sempre mera conseqüência, como tantas outras que necessariamente
surgirão a partir de qualquer ação!

A sexta via fala do “perfeito esforço”. Aqui o Buda se preocupa com o excesso de
vitalidade aplicada em objetivos mal equilibrados. Nesta verdade ele quer transmitir ao
homem que, quando a aspiração se torna “desejo”, a tendência é de se tentar movimentar uma
quantidade enorme de recursos para se alcançar aquilo que se idealizou com tanta paixão. E
isto adoece o homem!

Normalmente, nesta tentativa ele extrapola os seus limites, e com isso


obviamente, esgota a si mesmo de energia e de recursos. O “perfeito esforço” foi abandonado
no momento em que não se observou mais os limites.

Então, afinal onde estaria a medida certa para se tentar alguma coisa!? Nada
menos do que o máximo do que se pode dar, mas nunca nem um centímetro além!

A sétima via começa a fechar o círculo da ação perfeita, encaminhando o homem


para o que há de elevado e espiritual em sua vida. Manter a “perfeita atenção”, em verdade, é
a construção de uma atitude de estender um olhar mais que casual para a vida. Um olhar
atento, que permita ao homem usufruir de cada momento de sua existência, fazendo sobretudo
a verificação de quão rica e pródiga ela já é!

Por certo, um homem de atenção verá muitas coisas não boas e sentirá, como um
dia sentiu o Buda, a dor do mundo. Contudo, fará também a nítida percepção de que para cada
dor existe um lenitivo, existe uma cura!

E os meios para se alcançar isso, freqüentemente, estão muito próximos,


perfeitamente disponíveis para quem os pode enxergar.
Fechando o círculo, e como não poderia deixar de ser, a última atitude necessária,
a via da “perfeita contemplação”, é a que cria um contato do homem para com o que há de
sagrado nele mesmo.

Em última análise, com o seu Deus. No torvelinho em que a vida pode se


transformar há que se criar um momento de silêncio. Há que se criar uma atitude de
“contemplação”, ou se preferirmos, de meditação. O ideal é que, tal qual o homem sábio,
possamos meditar enquanto fazemos todas as coisas cotidianas, e com isso vamos obviamente
harmonizar cada passo, cada gesto, cada sentimento, cada reação, fazendo de cada parte um
todo.

Contudo, esta é uma realidade ainda distante da média das pessoas, e não se
pretende que estejamos todos tão prontos assim para só então trilharmos nosso caminho de
iluminação. A qualquer um tem que ser possível o seu momento de recolhimento e descanso
da alma.

Se por desventura não houver esta possibilidade, somente esta constatação já é um


poderoso sinal de que algo está muito..., muito errado.

Provavelmente, a via do “perfeito esforço” não está sendo observada e este


homem não olha para os seus limites. Este homem que não tem a oportunidade para o silêncio
não está usufruindo de sua vida, pois está ocupado o tempo todo, e certamente já está
gravemente doente!

E desta forma simples se pode resumir a fala perfeita do grande mestre.

De fato o Budismo nunca foi apresentado à humanidade, pelo menos durante a


longa vida de seu iniciador, como uma religião.

Embora isto tenha acontecido mais tarde, certamente atendendo à necessidade do


ser humano de se sentir incluído em algo maior que ele mesmo, nunca foi este o objetivo do
Buda e, talvez, este, se estivesse aqui, lamentaria tal “roupagem” para suas idéias. E isto
somente pelo fato de que há a tendência de se separar o que é religioso, do que é comum na
vida das pessoas.

O Budismo pretende muito mais ser um modo de sentir a vida, e por isso mesmo,
por um longo tempo, não instituiu templos, não possuiu dogmas e nem representantes oficiais.

Havia apenas aqueles que sabiam um pouco mais acerca de todas estas coisas pelo
simples fato de conviver com elas a mais tempo!

E por as praticar cotidianamente, haviam alcançado em certa medida o que nós


todos aspiramos alcançar. Nenhum deles se auto intitulou jamais um “Buda”, mas sem dúvida
foram vistos assim por outros.
É claro que a institucionalização da religião budista veio depois, e perdura até
hoje. Se isto contribuiu para que as verdades que representa, fossem mais ou menos
alcançáveis pela humanidade é ainda muito discutível. Contudo, a essência das idéias também
perdura e está aí, exposta à opção de cada um que as considerem úteis.

O Budismo, assim como o Hinduísmo e uma série de outras linguagens filosóficas


orientais, formam hoje em dia um ambiente de idéias que vem tornando possível à toda
cultura ocidental tomar contato, e de certa forma se tornar herdeira, da imensa riqueza que
vem do oriente.

Em que pesem as distorções, e dos muitos usos incrivelmente equivocados, este


patrimônio de experiência está vindo a nós de maneira muito natural. E está novamente
plantando a semente da renovação.

Assim como outros campos, toda a indústria da saúde está se ressentindo destas
novas influências, e já não é possível conceber que, atualmente, exista algum profissional de
saúde que não empregue, direta ou indiretamente algum elemento desta medicina atemporal.

A medicina tradicional está ressurgindo, e desta vez, esperamos, veio para ficar.

Em um futuro que por enquanto podemos apenas vislumbrar, estará tão


estreitamente associada com a medicina convencional que já não será possível distinguir uma
da outra o que, há que se reconhecer, foi sempre a infalível estratégia de sobrevivência de
toda a cultura oriental.