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XIV Cúpula Social

do Mercosul
Debates e Propostas

PRESIDÊNCIA PRO TEMPORE BRASILEIRA


Brasília, 4 a 6 de dezembro de 2012
Presidência da República

XIV Cúpula Social do Mercosul: Debates e Propostas


Dilma Vana Rousseff

Secretaria-Geral da Presidência da República


Gilberto Carvalho

Fundação Banco do Brasil


Jorge Alfredo Streit

Universidade Federal da Integração Latino-americana


Helgio Henrique Casses Trindade

Apresentação
Antônio de Aguiar Patriota
Gilberto Carvalho
Marco Aurélio de Almeida Garcia
Jorge Alfredo Streit

Relatoria
Nilson Araújo de Souza – coordenador
André Aguiar
Cezar Karpinski
Fábio Borges
Fabrício Pereira da Silva
Felix Pablo Friggeri
Gisele Ricobom
Luciano Wexell Severo
Mario Ramão Villalva Filho
Renata Peixoto de Oliveira
Tereza Maria Spyer Dulci
Victoria Ines Darling

Coordenação Editorial
Murilo Vieira Komniski
Taís Maldonado Niffinegger
Danniel Gobbi Fraga da Silva
Deborah Cristina Rodrigues Ribeiro

Fotografia
Eduardo Aigner

Colaboração
Claiton Mello
Lívia de Oliveira Sobota
Cláudio Alves Brennand
ÍNDICE

1. Apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

Secretaria-Geral da Presidência da República. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

Ministério das Relações Exteriores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

Assessoria Especial do Gabinete Pessoal da Presidenta da República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

Fundação Banco do Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2. Programação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

3. Abertura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

4. Mesas Temáticas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

Oficina - Direito à Memória, à Verdade e à Justiça. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30

Oficina - Migração e Trabalho Decente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

Oficina - Mecanismos de Participação Social no Mercosul. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40

Oficina - A Cúpula Social que Queremos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

Oficina - Comércio Justo e Economia Solidária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50

Oficina - Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56

Oficina - Identidade Cultural Sul-Americana. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

Oficina - Democratização da Comunicação e Cultura Digital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

Oficina- Cooperação e Desenvolvimento Regional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

Oficina - Educação para a Integração. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80

5. Debate Temático: O Ano da Juventude no Mercosul - Construindo um Novo Protagonismo. . . . . . . . . . 86

6. Plenária Final. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90

7. Encerramento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92

8. Declaração da XIV Cúpula Social do Mercosul. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96

9. Vinte Propostas para o Aprofundamento da Democracia e da Participação Social no Mercosul. . . . . . 100


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APRESENTAÇÃO

Ministro Gilberto Carvalho Assunção e Montevidéu (2009), Isla del Cerrito


Secretaria-Geral da e Foz do Iguaçu (2010), Assunção e Montevidéu
Presidência da República (2011), Mendonza e Brasília (2012). Cerca de cinco
mil participantes, de centenas de organizações
Resultado de um longo processo de construção sociais e movimentos populares dos Estados Partes
conjunta de movimentos populares, organizações e Associados, incorporaram-se a esta experiência
sociais e governos de nossa região, as Cúpulas inovadora de participação social.
Sociais do Mercosul tornaram-se um evento regular
da agenda oficial do Bloco e representam um avanço É visível o avanço do processo de integração pautado
importante, tanto no que se refere à construção de na participação e inclusão social como cerne de
uma agenda social, quanto à adoção de um método nossas políticas públicas. A primeira Cúpula Social do
de decisão mais transparente, legítimo e participativo. Mercosul organizada pelo governo brasileiro ocorreu
em dezembro de 2006, reunindo em Brasília (DF) mais
Desde 2006, quatorze edições da Cúpula Social foram de 500 representantes de organizações da sociedade
realizadas: Córdoba e Brasília (2006), Assunção da Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
e Montevidéu (2007), Tucumã e Salvador (2008), Fato inovador, a declaração final contendo sugestões

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dos movimentos sociais para políticas a serem Chefes de Estado do Mercosul para apreciação pelos
implantadas no Mercosul foi entregue aos presidentes presidentes do Bloco, o que garante maior interação
dos países membros e associados do Bloco durante a com os movimentos e organizações sociais da região.
Cúpula de Chefes de Estado, em janeiro de 2007.
As Cúpulas Sociais são organizadas com o apoio do
Em dezembro de 2008 a Cúpula Social aconteceu em “Programa Somos Mercosur”, uma iniciativa pública
Salvador (BA). Convocado sob o lema “integração lançada na Presidência Pro Tempore do Uruguai em
produtiva e desenvolvimento social”, o encontro foi 2005, e também do “Programa Mercosul Social e
uma oportunidade para debater as respostas dos Participativo”, estabelecido via Decreto Presidencial
governos à crise mundial e, ao mesmo tempo, de pelo Brasil em 2008, sob coordenação da Presidência
apresentar propostas para a agenda produtiva e social da República e do Ministério das Relações Exteriores.
do Mercosul. Somando esforços, ambas as iniciativas visam a ampliar
a inserção da sociedade civil em espaços de debate,
Em dezembro de 2010, houve a X Cúpula Social, em formulação de demandas e participação em processos
Foz do Iguaçu (PR). O evento reuniu cerca de 700 decisórios voltados para a integração regional cidadã.
lideranças da sociedade civil dos países da América
do Sul. A programação incluiu o debate de temas No segundo semestre de 2012, no âmbito da
como perspectivas para a integração sul-americana, Presidência Pro Tempore do Brasil, a Secretaria-
ações coordenadas na fronteira, segurança alimentar Geral da Presidência da República teve a missão de
e nutricional no Mercosul, entre outros. fomentar a participação da sociedade civil organizada
em debates sobre o tema da integração regional. O
Nas demais edições, foram discutidos os mais diversos governo brasileiro assumiu a presidência no contexto
temas, dentre os quais Mercosul Produtivo e Social, de vinte anos após a criação do Mercosul e dos
marco institucional e as assimetrias entre os países recentes rearranjos institucionais do Bloco, importante
membros, agricultura familiar, comunicação, informação momento para discutir os avanços e desafios para
e transparência, juventude, saúde e acessibilidade, uma integração que prime pela cidadania e pela
afrodescendentes, infância e adolescência, esportes, participação social.
pessoas portadoras de necessidades especiais,
educação popular, gênero e diversidade, migrações, Durante a XIV Cúpula, realizada em Brasília entre
pensamento latino-americano, povos tradicionais, os dias 4 e 6 de dezembro de 2012, foram realizadas
saúde, integração social, tecnologias sociais, direitos dez oficinas temáticas, cada uma contando com
humanos, educação e cultura, LGBT e voluntariado. importantes expositores e discutindo temas previamente
selecionados pelos pontos focais da sociedade civil. Ao
No Brasil, as Cúpulas Sociais do Mercosul são final, foram produzidas um total de vinte propostas,
coordenadas pela Secretaria-Geral da Presidência da dentre as quais destacamos a harmonização das
República e pelo Ministério das Relações Exteriores. legislações migratórias, o livre trânsito dos produtos e
As Reuniões Especializadas também têm um papel serviços da economia social, solidária e popular, o ensino
chave, como é o caso, dentre outras, da Reunião sobre de disciplinas como Culturas Latino-Americanas e
Direitos Humanos (RAADH) e da Agricultura Familiar Direitos Humanos e das línguas portuguesa e espanhola,
(Reaf), que vêm desenvolvendo ações de participação leis que democratizem a comunicação e políticas que
social no Mercosul. expandam o acesso a internet, além da ampliação do
escopo dos fundos de financiamento do Mercosul para
A partir de 2006, as Cúpulas Sociais passaram a ser abarcar projetos sociais.
realizadas semestralmente no âmbito das Presidências
Pro Tempore do Mercosul. Desde então, constituem o Além das oficinas temáticas, a Cúpula congregou uma
principal espaço de diálogo e interação entre governos série de eventos paralelos, dos quais destacamos o
e sociedade civil dos países membros e associados Seminário Internacional “Desafios da Construção da
do Bloco. Os resultados dos debates realizados nas Democracia no Mercosul”, organizado pela Secretaria
Cúpulas Sociais são apresentados nas Cúpulas de Nacional de Articulação Social, o Debate Temático

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intitulado “O Ano da Juventude no Mercosul – civil, homenageou o arquiteto Oscar Niemeyer, que
Construindo um Novo Protagonismo”, a Reunião do faleceu durante os trabalhos da Cúpula. Imbuídos do
Parlamento Juvenil do Mercosul, organizada pelo espírito de solidariedade entre os povos da região e
Ministério da Educação, o Seminário “Tecnologias engajados na construção de um bloco que se atenha
Sociais do Mercosul: uma Articulação Necessária”, aos aspectos sociais e à melhoria da qualidade de
organizado pela Fundação Banco do Brasil, a Reunião vida das pessoas, as resoluções aprovadas traduzem
da Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone os reais anseios e expectativas das populações que
Sul e, por fim, a exibição do filme “Nãnde Guarani”, formam o Bloco.
organizada pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
Merecem destaque como ideias-força da Declaração:
A consolidação dos mecanismos de participação social (i) o apoio à Cláusula Democrática, no sentido de
no Mercosul foi um dos pontos centrais nas discussões garantir a manutenção e fortalecimento da democracia
da XIV Cúpula. Em busca deste objetivo, as lideranças na América do Sul; (ii) o apoio à entrada da Venezuela
formularam um conjunto robusto de propostas que no Bloco, bem como a aprovação de entrada da Bolívia
visam a efetivação da Unidade de Participação Social e do Equador; (iii) o reconhecimento da importância
do Mercosul (UPS), responsável pelo acompanhamento da pauta econômica e financeira e a expectativa de
das decisões das cúpulas sociais e habilitada a incidir que ela considere também o aperfeiçoamento da
nos espaços de decisão do bloco, a ter acesso a participação social, trabalhista, educativa, ambiental
informações e a financiamento, permitindo o trabalho e cultural da integração regional e os temas sensíveis
da sociedade civil no período entre as cúpulas. aos produtores da região; (iv) o reconhecimento de
valores como o multilateralismo, a defesa da paz e
Para a Secretaria-Geral da Presidência da República, a da justiça social; (v) o desenvolvimento industrial
Cúpula é um espaço de celebração da democracia e regional e o desenvolvimento sustentável; (vi) a
dos avanços no pleno desenvolvimento com inclusão soberania alimentar e nutricional; (vii) a liberdade de
social. As mudanças econômicas e sociais para o expressão e a promoção de uma integração regional
Mercosul só serão realizadas quando conseguirmos que garanta a cidadania no Mercosul; (viii) a livre
tornar a democracia mais verdadeira, nos campos circulação de trabalhadores, que incentive a economia
político, econômico e social. Para tanto, é imprescindível solidária e que reconheça as diversidades existentes;
a criação e o fortalecimento de mecanismos efetivos (ix) a transparência nas negociações do Mercosul e
de participação social, por meio da união e articulação o fortalecimento dos espaços de diálogo e interação
entre nossos povos. entre povos e governos; e (x) a necessidade de
implementação das diretrizes do Plano Estratégico de
A questão social e participativa é condição essencial Ação Social do Mercosul (Peas), o fortalecimento do
para a integração no Mercosul, visto que representa Instituto Social do Mercosul e o Estatuto da Cidadania
um reflexo da maturidade da democracia. A do Bloco.
integração passou de ser um objetivo compartilhado
pelas sociedades dos Estados Membros e Associados. A XIV Cúpula Social foi encerrada com a sensação
O Mercosul é hoje um autêntico e amplo projeto de de dever cumprido. Apesar de estarmos cientes dos
desenvolvimento regional e não mais apenas um grandes desafios ainda por serem enfrentados, temos
projeto de construção de um espaço econômico e a certeza de que todo esforço até aqui empreendido
comercial. Nesse sentido, é importante ter em conta resultará na construção de uma América do Sul mais
que os benefícios da integração devem ser para todos. justa, igualitária e próspera e, principalmente, mais
E imbuído desse espírito, enalteço ainda a importância coesa. Queremos dar passos concretos na direção de
da institucionalização do Estatuto da Cidadania do um novo modelo de desenvolvimento efetivamente
Mercosul, bem como a prioridade de consolidação do sustentável para nossos países. Nesse sentido, o
acordo de residência do Bloco. trabalho realizado durante as Cúpulas Sociais do
Mercosul insere-se no contexto da construção de
A declaração final do encontro, além de enunciar as uma democracia participativa, por meio da qual a
vinte propostas consensualizadas pela sociedade sociedade civil seja parte ativa na tomada de decisões.

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A publicação aqui apresentada busca dar testemunho Aprovou-se, na reunião do Conselho do Mercado
das vozes populares e sociais na XIV Cúpula ocorrida Comum da última PPTB, decisão que assegura a
no Brasil, como instrumento de registro e base de periodicidade semestral para a Cúpula Social. A
apoio aos debates e esforços coletivos que temos decisão também determina que os resultados da
adiante para construir uma região cada vez mais forte, Cúpula Social serão encaminhados ao Grupo Mercado
soberana e solidária. Comum que, por sua vez, os transmitirá às instâncias
competentes na estrutura institucional do Mercosul.

Trata-se de uma decisão que insere a Cúpula Social, de


Ministro Antônio Patriota forma definitiva, no Mercosul e que permitirá que os
Ministério das Relações Exteriores debates realizados nesse foro possam “oxigenar” os
trabalhos das demais instâncias do Bloco.
Estou convencido de que o aprofundamento das
dimensões social e cidadã do Mercosul é condição O tema escolhido para a Cúpula Social de Brasília
essencial para o avanço do processo de integração – “Cidadania e Participação” – ganhou crescente
regional. A experiência adquirida nos mais de 20 anos
importância no Mercosul nos anos recentes, como
do processo de integração ensina que a aproximação
demonstra a aprovação do Plano de Ação para
de nossos povos requer ir além da dimensão comercial.
a conformação de um Estatuto da Cidadania do
Mercosul, na Presidência Pro Tempore Brasileira de
A incorporação das dimensões social e cidadã à
2010.
agenda do Mercosul é um corolário da maturidade da
democracia em nossas sociedades.
O Plano de Ação estrutura-se em torno de três
objetivos gerais: a implementação de uma política
Na última década, lançamos as bases para que o
de livre circulação de pessoas na região; a igualdade
projeto do Mercosul buscasse consolidar o pilar social
de direitos e liberdades civis, sociais, culturais e
e instituísse o pilar da cidadania.
econômicos para os nacionais dos Estados Partes do
Mercosul; e a igualdade de condições para acesso ao
A integração passou a ser, mais claramente, um
trabalho, saúde e educação.
objetivo compartilhado pelas sociedades dos Estados
Membros. Passou a ser uma realidade para a qual
De modo a cumprir essas metas, contemplaram-
essas sociedades contribuem diretamente, e na qual
se ações concretas nas seguintes áreas: fronteiras;
os cidadãos, em diferentes níveis, consolidam seu
identificação pessoal; documentação e cooperação
status de verdadeiros partícipes de um projeto maior.
consular; trabalho e emprego; previdência social;

Nem poderia ser diferente. O Mercosul é, hoje, educação; transporte; comunicações; defesa do

um autêntico projeto de desenvolvimento, o que consumidor; e direitos políticos.

pressupõe buscar maneiras de assegurar não apenas


que os benefícios da integração sejam usufruídos A elaboração do Plano de Ação exigiu a coordenação

por todos, mas também que seus mecanismos de entre as diversas instâncias e incluiu não apenas órgãos

deliberação contem com os aportes do conjunto de governo, mas também representantes da sociedade
da cidadania. Por isso é tão auspicioso constatar civil. Conferiu-se, ainda, ao Alto Representante-Geral
a presença, na Cúpula Social do Mercosul, de do Mercosul papel de destaque na implementação do
representantes de movimentos sociais de todos os Plano.
membros do Mercosul.
O Estatuto da Cidadania do Mercosul poderá ser
No segundo semestre de 2012, durante a Presidência operacionalizado por meio da assinatura de um
Pro Tempore do Brasil (PPTB), avançamos de forma protocolo internacional que incorpore o conceito de
decidida para que os movimentos sociais sejam atores “Cidadão do Mercosul” e constitua parte integral do
com maior voz e participação no projeto de integração. Tratado de Assunção.

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Durante a PPTB, demos passo importante na Esses são desdobramentos fundamentais, porque é,
implementação do Estatuto. Aprovamos, por sobretudo com os olhos voltados para o futuro, que
exemplo, o Acordo Mercosul sobre Direito Aplicável nos engajamos nos esforços de integração. E o futuro
em Matéria de Contratos Internacionais de Consumo, são os jovens. Sem seu entusiasmo e sua criatividade,
que permitirá que o consumidor de nossos países, ao sem sua perspectiva renovada sobre o mundo,
firmar um contrato de consumo, possa se beneficiar nosso trabalho sairia perdendo. Ganhamos todos ao
da aplicação da lei do Estado Parte que se mostre trabalhar para a juventude e com a juventude. Que
mais benéfica. a Cúpula Social do Mercosul siga representando,
também, um ponto de convergência dos anseios e
Na área de fronteiras, progredimos na revisão do dos valores dos nossos jovens. Que os jovens possam
Acordo de Recife, que tem o objetivo de regular os imbuir-se cada vez mais do espírito de integração que
controles integrados nas fronteiras dos Estados Partes nos anima a todos.
e facilitará os fluxos migratórios.

A agenda da cidadania do Mercosul torna-se cada dia


Progredimos, igualmente, na revisão da Declaração
mais palpável. Essa agenda é a concretização de uma
Sociolaboral do Mercosul e na harmonização
visão de integração que acreditamos ser essencial
progressiva da legislação trabalhista e previdenciária
para a consecução dos objetivos que compartilhamos:
entre nossos países, o que contribuirá para reduzir as
seguir construindo sociedades crescentemente
assimetrias e facilitará a circulação de trabalhadores
plurais, prósperas e justas – e, na América do Sul,
no espaço do Bloco.
continuar o trabalho de consolidação de um espaço
de paz, cooperação e, também, democracia e
A ampliação do Acordo de Residência é uma prioridade
desenvolvimento econômico com inclusão social.
do Mercosul social. Durante a PPTB, a Colômbia aderiu
ao referido acordo, o que facilitará a circulação de
Temos muito presentes os desafios que persistem.
cidadãos colombianos no Mercosul e vice-versa.
Não subestimamos os obstáculos que ainda temos a
enfrentar para que tenhamos, em todas as dimensões,
Gostaria de referir-me brevemente a uma questão,
o Mercosul a que aspiramos. E a agenda cidadã não
que foi objeto de oficinas temáticas durante a última
é uma exceção: também aqui há, pela frente, um
Cúpula Social. Trata-se da questão da juventude.
longo caminho a percorrer. Mas percorreremos esse
Como todos sabem, a Decisão 01/11 fixou o período de
caminho com a certeza de quem sabe mover-se no
1º de julho de 2012 a 30 de junho de 2013 como o “Ano
bom sentido e com o ânimo de quem, ao olhar para
da Juventude do Mercosul”.
trás, vê o quanto já pudemos fazer juntos.

Durante o segundo semestre de 2012, a Presidência


brasileira procurou dar tratamento articulado a temas
relacionados a áreas capazes de aumentar o interesse
e o envolvimento das novas gerações no processo de Marco Aurélio de Almeida Garcia

integração regional. Assessoria Especial do Gabinete


Pessoal da Presidenta da República
Como resultado desse empenho, aprovamos o
estabelecimento de um Sistema de Mobilidade Há alguns anos as reuniões do Conselho do Mercosul,
Integrado do Mercosul (SIM Mercosul), que tem composto pelos Presidentes da República dos Estados
o objetivo de promover um salto quantitativo e partes, têm sido acompanhadas por encontros
qualitativo nas iniciativas de mobilidade acadêmica do chamado “Mercosul Social”, onde estão as
em educação no âmbito do Mercosul. Deverá ser organizações da sociedade civil dos cinco países do
priorizada, além das iniciativas que estimulem o Bloco. Nessas reuniões têm comparecido sindicalistas
aprendizado do espanhol e do português no Mercosul, e dirigentes de movimentos sociais da região, o que
a mobilidade nos cursos acreditados por nosso reflete a nova realidade política que a América do Sul
mecanismo regional de acreditação. passou a viver nos últimos anos.

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novos governantes dos países membros avançaram
uma agenda na qual passou a ter mais importância
“ A discussão e o intercâmbio a integração produtiva e o relacionamento político,
como formas de superar as assimetrias entres as cinco
dessas experiências que economias, que só as trocas comerciais não eram

articulam sociedade e Estado capazes de resolver.

são fundamentais para que Essa aproximação dos quatro países, aos quais se

o Mercosul possa ser um somou a Venezuela antes que ela aderisse formalmente
ao Mercosul, foi determinante para a não aceitação da
espaço de solidariedade e não proposta de uma Área de Livre Comércio das Américas
(Alca), que os Estados Unidos e outros países da
um processo de integração América Latina tentavam criar.

fundado na dominação A recusa da Alca não estava dominada, como


de uns sobre os outros.” pretendem alguns, por um sentimento anti-Estados
Unidos, mas decorria essencialmente da percepção
Marco Aurélio de Almeida Garcia
dos cinco governos de que a proposta da Alca não se
encaixava com os novos projetos de desenvolvimento
em curso na região.
Em sua origem, o Mercosul - quando ainda não tinha
essa designação - foi a resultante da aproximação entre A agenda neodesenvolvimentista, distinta daquela
Argentina e Brasil, levada a cabo pelos presidentes do velho desenvolvimentismo dos anos 60, buscava
Alfonsín e Sarney, nos anos 80, como consequência (e busca) articular de forma harmônica crescimento
do processo de democratização dos dois países, na econômico, inclusão social, democracia política e
esteira da crise das ditaduras militares no Cone Sul. soberania nacional.
Punha-se fim a um artificial antagonismo entre os dois
países. Desenvolvida em cada país segundo as tradições
político-culturais locais, sem afãs hegemônicos de
A força dessa aproximação foi tal que Uruguai e parte de qualquer governo, essa linha de trabalho
Paraguai, saindo igualmente de regimes autoritários, facilitava, por um lado, o processo de integração
também buscaram sua integração no Bloco. Nascia o e, por outro, colocava na ordem do dia não só a
Mercosul, ao qual viria mais recentemente incorporar- decisão governamental, como a forte participação da
se a Venezuela. O peso que a nova organização passou sociedade na regionalização.
a ter permitiu que todos os países da América do Sul
buscassem a ela associar-se. Foi possível avançar nessa tarefa na medida em que
os governantes dos países do Mercosul conduziam
Nos anos 90, quando dominavam as propostas seus países em estreita relação com a sociedade. Esse
neoliberais em todo o continente latino-americano, o processo tem muito que avançar, mas deixa alguns
Mercosul se viu reduzido a uma associação centrada ensinamentos.
no comércio, tida pelo ideário dominante como capaz
de resumir e de resolver todos os problemas da Como construir uma política econômica consistente
integração regional. sem uma profunda ligação com o mundo do trabalho –
sindicatos e patrões – ou com as demandas, explícitas
Com o advento de governos pós-neoliberais na parte ou não, de importantes segmentos marginalizados da
sul do continente, nos primeiros anos do século produção, do consumo e da cidadania real?
XXI, foi possível realizar uma importante inflexão na
agenda do Mercosul. Sua dimensão comercial não foi Como avançar a agenda de um Mercosul cidadão, sem
abandonada – pelo contrário, intensificou-se –, mas os levar em conta as demandas de contingentes como os

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povos originários, os afrodescendentes, as mulheres, os que acarreta a criação de novas formas de governança
jovens e tantos outros postergados em nossa história? de escopo regional. Prova disso é a participação de
representantes de organizações e movimentos sociais
Como definir os novos contornos do desenvolvimento nas agendas de negociações da integração regional
em nossos países e na região sem levar em do Mercosul, a exemplo da Reunião Especializada de
consideração as questões relacionadas com a Agricultura Familiar (Reaf), que conta com lideranças
sustentabilidade social e ambiental, sobretudo de movimentos sociais camponeses desses países.
quando está colocada na ordem do dia a construção
de importante infraestrutura logística e energética Essa ampliação se reflete também na diversificação
unindo nossos países? de diferentes fóruns democráticos. Durante muitos
anos, os assuntos relacionados aos Estados - seja no
Como avançar em políticas públicas – especialmente âmbito interno, seja em suas relações internacionais
na esfera social – sem ouvir a voz dos que nelas estão - eram tratados exclusivamente por representantes
diretamente implicadas? eleitos, ficando restrito, portanto, na esfera da
democracia representativa. A efetiva prática de uma
Como aperfeiçoar nossas instituições políticas e democracia participativa não é uma substituição à
proteger os Direitos Humanos, finalmente, sem discutir democracia representativa mas, sim, a ampliação do
as experiências concretas que nesse longo período de próprio conceito de democracia.
transição para a democracia foram sendo gestadas
nos espaços públicos de nossos países? Essa prática da promoção participativa, com o
estímulo ao protagonismo social de comunidades de
A discussão e o intercâmbio dessas experiências que Norte a Sul do Brasil, sobretudo da última década,
articulam sociedade e Estado são fundamentais para tem sido um dos pilares de atuação da Fundação
que o Mercosul possa ser um espaço de solidariedade Banco do Brasil na construção de suas políticas, ações
e não um processo de integração fundado na e tecnologias sociais, envolvendo povos indígenas,
dominação de uns sobre os outros. populações quilombolas, agricultores familiares e
assentados da reforma agrária, bem como, catadores
O destino da integração regional em outras regiões do de materiais recicláveis, nos centros urbanos.
mundo, especialmente neste momento de crise global,
constitui-se em um alerta, como se fosse necessário, Nosso propósito é promover a inclusão socioprodutiva
para os rumos que a aproximação entre nossos países dos segmentos sociais participantes por meio
deve seguir. da Tecnologia Social, contribuindo, assim, com o
desenvolvimento sustentável. Entendemos Tecnologia
A relação – muitas vezes conflitiva, como em toda Social como todo produto, técnica ou metodologia
democracia – entre Estado e sociedade deve também reaplicáveis, que sejam desenvolvidas na interação
ocorrer na esfera regional. Só por isso o Mercosul com a comunidade e que representem efetivas
social seria importante. soluções de transformação social.

No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos de uma


parceria exitosa na reaplicação de Tecnologia Social
Jorge Alfredo Streit acontece com agricultores familiares e populações do
Fundação Banco do Brasil Semiárido, com a reaplicação das Cisternas de Placas
que consiste em captar água de chuva para consumo
Tecnologia social para superar a pobreza no Mercosul humano no período de estiagem, resolvendo um
A integração regional se intensifica a cada problema histórico do país. Essa ação é desenvolvida
ano. Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e mais em conjunto com a Articulação do Semiárido Brasileiro
recentemente a Venezuela vêm acelerando o processo – ASA, organização que certificou a Tecnologia Social
de ampliação, em profundidade e abrangência, das Cisterna de Placas no primeiro Prêmio Fundação
relações entre suas economias, culturas e povos, o Banco do Brasil de Tecnologia Social, em 2001.

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A ASA é uma organização presente em todo o Brasil de Tecnologia social, que realizamos a cada
Semiárido brasileiro, envolvendo milhares de dois anos, que identifica esses conhecimentos. No
associações e coletivos de diversas naturezas, BTS, constam tecnologias certificadas nas áreas de
constituída por redes locais, articulando Redes em educação, energia, renda, saúde, alimentação, entre
Rede. Esse amplo tecido social já construiu mais de outras, que podem contribuir para políticas e ações
meio milhão de Cisternas de Placas, contando com de Estado ou de organizações da sociedade civil.
a parceria do Governo Federal, da Fundação Banco
do Brasil, do Banco Nacional de Desenvolvimento Uma integração regional, que fortaleça e amplie a troca
Econômico e Social (BNDES), entre outras de conhecimentos na esfera social entre nossos países,
instituições, construindo assim políticas públicas possibilitará a aceleração no combate à pobreza no
com a participação e protagonismo direto das nosso continente. Assim, promover a identificação
comunidades, a partir da Tecnologia Social. de Tecnologia Social no Mercosul contribuirá para
alcançar as metas do Plano Estratégico de Ação Social
É com essa constatação, de que a Tecnologia Social do Mercosul (Peas).
tem se constituído em elemento de transformação
social no Brasil, que colocamos à disposição dos É nessa perspectiva que a Fundação Banco do Brasil
países irmãos nosso Banco de Tecnologias Sociais está estabelecendo a agenda positiva por meio de
(BTS), constituído de mais 500 soluções, bem como parcerias para implementar Centros de Referência em
a metodologia de nosso Prêmio Fundação Banco do Tecnologia Social (CRTS) em cidades brasileiras em

12
linhas de fronteiras com os países irmãos, para facilitar novas metodologias que amplifiquem a perspectiva
a troca de experiências, conhecimentos e saberes. integracionista que vem apontando para a
construção de uma identidade própria do Mercosul,
O primeiro desses centros está presente no mesmo baseada em ideias, sonhos e ações concretas para o
local em que se realizou a Cúpula Social do Mercosul desenvolvimento sustentável.
em 2010, no Parque Tecnológico de Itaipu, em Foz do
Iguaçu, PR, junto à tríplice fronteira entre Argentina, Como sabemos, a Cúpula Social do Mercosul surge
Brasil e Paraguai. como desejo político de se aprimorar a integração
dos países da região, para que sua atuação não se
A iniciativa de se implantar os CRTS foi fruto de restringisse às questões comerciais e econômicas.
propostas apresentadas naquela edição da Cúpula Portanto, acreditamos no fortalecimento de
Social. Esses centros contribuirão para um novo iniciativas que aumentem e qualifiquem a agenda
patamar de articulação e integração sobre Tecnologia positiva que está em andamento relacionada aos
Social, fazendo com que os saberes locais e temas sociais, que é construída por meio da discussão
comunitários possam se articular com o conhecimento e formulação conjuntas, entre representantes de
formal das academias e universidades, superando suas organizações e movimentos sociais, fundações
próprias especificidades nacionais, transcendendo- e institutos, bem como por representantes de
as e articulando-as internacionalmente, na busca de governos dos países e órgãos do Mercosul, e a esse
uma confluência na formulação e implementação de processo queremos nos somar.

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Programação
A Cúpula Social do Mercosul ocorre, a cada fim de semestre, simultaneamente com a Cúpula dos chefes de
Estado do Bloco regional. É um espaço de diálogo entre os movimentos sociais e os governos da região. A
XIV Cúpula, realizada de 4 a 6 de dezembro de 2012, no Museu Nacional da República, em Brasília/DF, marca o
encerramento da Presidência Pro Tempore brasileira – a qual, no período seguinte, será exercida pelo Uruguai.

A programação da XIV Cúpula consistiu de cinco partes: 1) solenidade de abertura, com lançamento do Prêmio
Mercosul Social, na noite do dia 04.12.2012; 2) realização de grupos temáticos, ao longo do dia 05.12.2012; 3)
debate temático sobre “O Ano da Juventude no Mercosul – Construindo um novo protagonismo”, na noite do
dia 05.12.2012; 4) Plenária Final para aprovação da declaração final e das demandas dos movimentos sociais, na
tarde de 06.12.2012; 5) solenidade de encerramento, na noite de 06.12.2012.

Realizaram-se cinco grupos temáticos, a saber: 1) Direitos Humanos; 2) Participação Social no Mercosul;
3) Tecnologias Sociais e Integração Produtiva; 4) Comunicação, Cultura e Identidade; 5) Cooperação para o
Desenvolvimento e Integração Regional. Cada grupo temático, por sua vez, dividiu-se em duas oficinas.

Este relatório visa contribuir para a construção da memória da Cúpula. Seguindo a programação, distribui-se
em seis seções: I – Programação; II – Abertura; III – Mesas Temáticas; IV – Reunião da Juventude; V – Plenária
Final; VI – Encerramento

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ABERTURA

Equipe Universidade Federal da Integração possibilite a troca de experiências entre sociedade


Latino-Americana (Unila) civil, governos locais, universidades e outros centros
de pesquisa, permitindo que se aprenda a atuar sobre
No início da sessão de abertura, a locutora anunciou os diversos temas da área social de forma proativa e
o Prêmio Mercosul Social, que é uma iniciativa dos aprendendo com as próprias experiências, não só com
Ministros de Desenvolvimento Social do Mercosul as experiências de outros países, mas aprendendo
e do Instituto Social do Mercosul para o ano de com os saberes de nossos povos, com os saberes das
2013. A primeira edição do prêmio terá como tema pessoas que estão enfrentando hoje as dificuldades
“Erradicação da Pobreza Extrema na Região”. Para de transformar o país.
falar desse tema, foi convidada a Secretária Nacional
Adjunta de Avaliação e Gestão da Informação do O primeiro tema é a erradicação da extrema pobreza,
Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à uma obsessão perseguida pelo governo Dilma e
Fome do Brasil, Paula Montagner. todos os ministros, que tem ensejado a integração
de políticas e de várias ações somando os esforços
Paula Montagner cumprimenta o público e diz que do governo e da sociedade civil. Espera-se também
está representando a ministra Teresa Campello, a qual que as nossas experiências possam assimilar as
encontra-se numa reunião, em João Pessoa, sobre experiências dos outros países do Mercosul, para
assistência social. Para ela, esta iniciativa permite aprender deles. Diz que queremos contar a nossa
que o Prêmio Mercosul Social seja implantado e experiência e, quem sabe, inspirar outros colegas

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de outros países com aquilo que fazemos. Nós impor à sociedade na década de 90. Essa não é nossa
pensamos que este é um meio através do qual se ideia. Queremos que estejam participando com as
somem esforços, se articulem experiências. Este não suas ideias e as suas iniciativas.
é um prêmio que entrega valores monetários a quem
atua, seja realizando estudos, seja fazendo práticas A locutora convida para a composição da mesa o
com comunidades, seja atuando para melhorar a ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência
ação dos governos locais. A ideia é que se visibilizem da República, Gilberto Carvalho; o ministro das
essas experiências, se troquem informações e se Relações Exteriores, Antonio Patriota; o representante
inspirem outras pessoas. do Parlasul, senador Roberto Requião; o Alto
Representante-Geral do Mercosul, Ivan Ramalho; do
No Brasil, o fato de ter proposto este Prêmio tem Governo da Argentina, o deputado Edgardo Depetris;
a ver com a realização do Prêmio Rosane Cunha e do Governo do Uruguai, o vice-ministro de Relações
de ter apropriado esse conhecimento através de Exteriores, Roberto Conde; do Governo da Venezuela,
um observatório que troca essas experiências e que vai a vice-ministra para América Latina e Caribe,
inspirando outras municipalidades, outros movimentos Verónica Guerrero; representante da sociedade civil
sociais. Espera-se que essa experiência construa uma do Paraguai, Nicolás Caballero; o coordenador das
rede forte que possa fazer trocas verdadeiras e de Centrais Sindicais do Cone Sul, Valdir Vicente.
fato construir novos conhecimentos. Vamos fazer
desse Prêmio uma possibilidade real de aprendizado
entre nós.
Hamilton Pereira
A seguir, Cristian Adel Mirza, do Instituto Social Secretario de Cultura
do Mercosul, assume a palavra e diz que o Prêmio do Distrito Federal
Mercosul Social é o reconhecimento do que fazem os
atores sociais em território, implica o reconhecimento Saudações em nome do governador Agnelo
da capacidade de iniciativa que tem a sociedade civil Queiroz. Esta cidade é produto da imaginação da
para resolver os problemas que lhe afetam. Sabemos esquerda brasileira, desenhada pela mão mágica de
que a responsabilidade principal é do Estado. Ele é a Oscar Niemeyer; Brasília recupera sua vocação de
primeira e a última garantia do exercício dos direitos participação popular, de reconstrução democrática e
de cidadania. Mas aqui há iniciativas que têm a ver com participativa de governo. Dá as boas-vindas.
produção agroecológica e com formas de organização
da sociedade civil que resolvem problemas concretos
das pessoas.
Valdir Vicente
Lembra que o Instituto Social do Mercosul e o Tribunal Coordenadora de Centrais
Permanente de Revisão (TPR) estão funcionando Sindicais do Cone Sul
em Assunção e vão seguir funcionando lá, porque
convém lembrar que o povo paraguaio não está O Mercosul não foi pensado no social, mas, hoje em dia,
suspenso. temos um Mercosul voltado ao social graças à ação dos
governos populares. Represento a Coordenadora das
A seguir, diz que apresentará alguns dados breves Centrais Sindicais do Cone Sul. O Mercosul tem sido um
sobre o Prêmio: dentro do tema da erradicação da êxito; fala-se muito que há problemas no Mercosul, mas
extrema pobreza, há categorias de políticas locais há intenção e interesse em solucionar esses problemas.
e comunitárias, pesquisas aplicadas e de atores e A sociedade civil tem sido acolhida no Mercosul e
organizações sociais. A inscrição é gratuita e será grande parte das suas propostas tem sido aceita e
realizada por formulário eletrônico no portal do Instituto incluída nas resoluções do Mercosul. Podemos falar
Social do Mercosul, entre abril e maio de 2013. A ideia de vários instrumentos como, por exemplo, o Acordo
é que, assim, os projetos estejam intercambiando, não Multilateral de Segurança Social, que deverá sofrer
competindo. O conceito de competição tratou-se de agora, segundo nos têm informado, uma adaptação à

18
modernidade; queremos falar sobre o Instituto Social; testemunhas desses feitos. Estamos duplamente
queremos falar sobre o Estatuto da Cidadania. Esse agradecidos por estarmos aqui para trazer nossa
Estatuto da Cidadania é um instrumento que terá a sua voz, porque os meios de comunicação de nosso país
aplicação efetivada se nós, as sociedades civis, junto não refletem a voz de mais de 90% da população e,
com as entidades sindicais, pressionarmos. sim, a voz desses 3% ou 5% que dominam os meios
de comunicação. A estrutura fundiária do Paraguai
Devemos avançar na livre circulação de pessoas e é igualmente perversa, porque 4% da população
em um conjunto de propostas para reforçar o caráter detém 96% das terras cultiváveis. Curuguaty, a
social do Mercosul. Os trâmites para o trânsito de cidade onde ocorreu a matança que foi usada como
pessoas e trabalhadores nas fronteiras devem ser desculpa para dar um golpe de Estado parlamentar,
simplificados; ampliação das áreas de controle se insere nesse contexto.
integradas; harmonização com a denominação
Mercosul dos produtos que tenham Mercosul no seu
rótulo; revisão da Declaração Sociolaboral que estamos
discutindo - estamos tendo dificuldades para que ela Verónica Guerrero
seja revista, está sendo uma luta árdua e esperamos Vice-ministra da América Latina e do
que a partir da próxima Presidência Pro Tempore Caribe, representante da Venezuela
tenhamos essa Declaração já revista; fortalecimento
da Comissão Sociolaboral que acompanha a Trago as saudações revolucionárias de Hugo Chávez.
aplicação dessa Declaração; desenvolvimento de No meu ponto de vista, a Cúpula Social deve ser a razão
diretrizes de emprego; Plano sobre trabalho infantil; do Mercosul, onde os povos se encontrem, se conheçam
inspeção homogênea de trabalho em cada estado e onde todos juntos construímos alternativas para um
com o mesmo tipo de fiscalização; facilitação da mundo mais justo e solidário, para a salvação do nosso
circulação dos trabalhadores; integração dos sistemas planeta Terra. É a primeira vez que a Venezuela participa
de controle; estabelecimento de um programa de como membro pleno. Sem dúvida, foi a pressão de
educação previdenciária e equivalência de títulos e vocês que garantiu nossa presença, apesar de que os
dos transportes. parlamentos de direita fizeram o impossível para que
hoje não estivéssemos aqui. A Venezuela já não é a
Hoje, no Seminário, ouvimos uma discussão sobre o mesma, não é a neutra ou complacente que existia nessa
Acordo Mercosul-Israel. Queremos deixar claro que a diplomacia tradicional da Quarta República. Agora, a
Coordenadora de Centrais Sindicais, desde o início da Venezuela leva o nome de Bolívar porque somos uma
discussão desse Acordo, se pronunciou contra a sua Revolução. Seu povo feito governo, feito poder popular,
assinatura. Nós não nos ocupamos apenas de temas feito poder comunal chegou ao Mercosul para colocar
sindicais; cuidamos de temas políticos. Será uma nosso grão de areia nesta construção da Pátria Grande.
das bandeiras da Coordenadora a discussão política Cremos ter muito que aportar a esta união, desde nossa
porque, se não participamos da política, dificilmente modesta experiência; levamos doze anos construindo a
teremos mudanças. Nesse contexto, a questão da boa Pátria, na que todos sejamos construtores de nosso
Palestina é uma questão que vamos levar adiante. destino.

O primeiro que tem feito este governo é restituir os


direitos ao povo venezuelano, desde o princípio de
Nicolas Caballero uma educação gratuita e de qualidade, inclusiva e
Representante da sociedade de solidariedade, de princípios socialistas; de nada
civil do Paraguai serve ensinar com princípios egoístas; venceu-se o
analfabetismo. Temos garantido ao povo venezuelano
Agradeço aos que ajudaram para que estejamos seu direito a uma saúde de qualidade, antes de
presentes. Meu país está passando por um momento tudo preventiva, com nossos médicos a ensinar
difícil à raiz da matança de Curuguaty que propiciou à comunidade como sustentar padrões de vida
o golpe. No sábado assassinaram uma das principais saudáveis. Soma-se a isso o investimento do Estado

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 19
para garantir a melhor tecnologia para a saúde, com em Mar Del Plata, onde derrotamos contundentemente
o apoio solidário da revolução cubana. Garantimos a opção da Alca, e estamos construindo a nova Pátria
o direito a uma alimentação sadia, suficiente e de latino-americana social, solidária, de trabalhadores, que
qualidade: hoje os venezuelanos consomem mais nos encontra num destino comum. Assim como nosso
proteínas que em toda sua história. O PNUD e a povo tem lutado, a briga segue vigente porque as
FAO reconheceram que a Venezuela alcançou as corporações econômicas, os grupos concentrados, as
Metas do Milênio na redução da fome e da pobreza. elites dominantes e os setores do poder querem deter
Avançamos em direitos que não são reconhecidos todos os avanços que nossos povos estão logrando;
em grande parte do mundo, como o direito à terra. fruto de seu protagonismo e fruto de sua decisão.
Estamos em dura batalha contra o latifúndio, que
permanece gerando mortes; mas vamos seguir até Mas quero reconhecer o companheiro Lula, que foi
lograr democratizar a terra. uns dos primeiros construtores dessa nova América.
No mesmo caminho, quero fazer um reconhecimento
Nossa democracia participativa e protagônica garante ao nosso querido companheiro Néstor Kirchner, ex-
o exercício direto da soberania pelo povo, e o faz secretário-geral da Unasul e outro construtor da
através de seus conselhos que planificam, fazem seus unidade de nossos povos. Seguramente, são muitas as
orçamentos participativos e executam diretamente coisas que nos faltam, mas é bom que gozemos dos
seus planos em todo o país. Há muitas experiências avanços que logramos. Hoje, para a grande maioria dos
do que hoje seja a explosão do poder popular, povos da América Latina, a política tem voltado a ser a
como os Conselhos Escolares, as Mesas técnicas capacidade e a possibilidade de transformar a sociedade
de água e os conselhos camponeses que dirigem o para terminar com a pobreza, com a miséria e com a
desenvolvimento agrícola de pescadores e pescadoras. indigência. Estes são os verdadeiros objetivos de uma
Esse empoderamento do povo hoje é irreversível. política que representa os interesses dos nossos povos.

São muitas as coisas que a Venezuela pode oferecer Como não sentir alegria pela forma que se trabalha com
ao Mercosul, e muito o que podemos aprender de o Brasil, com uma complementaridade não somente
todos vocês. Todos juntos devemos seguir puxando os industrial, senão econômica, política, sindical? Como
processos até uma maior transformação do Mercosul, não vamos com o triunfo de Chávez, que enfrentou
com a incorporação da Bolívia e do Equador e de todas as corporações midiáticas e os setores da direita
as nações que queiram avançar na independência de golpista? É por essa confiança na América Latina
nossa América. Todos têm a grande tarefa de fazer que podemos dizer que, diferentemente dos Estados
com que os povos sintam o impacto do que deve Unidos ou da Europa, a América Latina cresce, e cresce
ser o Mercosul. Para isso, contem com a Venezuela sobre a base de emprego. E não somente cresce, ela
revolucionária e bolivariana. se complementa. Já não existe mais a disputa de
mercados, a disputa por quem oferecia mais mão-
de-obra barata, quem baixava mais os impostos para
as transnacionais para que venham investir. Hoje
Deputado Edgardo Depetri existem governos que se parecem a seus povos, e
Representante do Governo povo e governo estão realizando a batalha por lograr
da Argentina a identidade cultural, a soberania e a democracia.

Apresento os cumprimentos em nome da presidenta


Cristina Kirchner. Nós devemos estar contentes porque
estamos fazendo tornar-se real a afirmação de que Roberto Conde
outro mundo é possível. Estamos ganhando a briga Vice-Ministro de Relações
contra o neoliberalismo e contra o capitalismo, mesmo Exteriores do Uruguai
com o fato de que davam por certa a perspectiva de
que somente a concentração do capital em poucas O Brasil é um país transformado em potência, mas
mãos era o destino de América Latina. Lá, batalhamos também em um país solidário com os demais países

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coração do Mercosul, e tem que vir aqui conservando
suas preferências e suas conquistas, sem pagar
“ O Mercosul, hoje, é o nenhum preço para entrar no Mercosul. Estamos

único processo de integração dispostos a trabalhar em um programa específico


que contemple as assimetrias, para facilitar seu
que tem vida na América ingresso. Não nos cremos superiores a nenhum povo
irmão da América Latina. Somos irmãos neste mundo
Latina, que tem como democrático e progressista que somos capazes de

objetivo construir um construir.

espaço comum e integrado O Mercosul, hoje, é o único processo de integração

para o desenvolvimento que tem vida na América Latina, que tem como
objetivo construir um espaço comum e integrado
de nossos povos.” para o desenvolvimento de nossos povos. É um
desafio histórico que o Mercosul conserva, com
um alto grau de ambição e compromisso que não
Roberto Conde
podemos rebaixar. Propomo-nos transformá-lo
num espaço comum de desenvolvimento, que essa
é a única forma de ser soberanos hoje. Ou somos
da América Latina. Quero fazer uma homenagem capazes também de resolver nossa integração
aos povos Mercosulinos, representados por sua econômica ou somente construiremos um foro de
sociedade organizada. Uma saudação especial para concertação política para que no mundo sigam
a Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul, mandando as empresas transnacionais. O Mercosul
que tem sido a organização mais lutadora e mais tem que resolver sua integração total: econômica,
consequente e comprometida com a unidade de social, política e cultural. E para isso estão os povos
nossos povos Mercosulinos. O rumo histórico de nosso do Mercosul como última garantia de que esse
processo de integração é inseparável do destino dos processo não rebaixe sua ambição. Se acontecer
trabalhadores e, cedo ou tarde, teremos uma Carta ao Mercosul o que ocorreu com a Comunidade
Sociolaboral do Mercosul efetivamente aplicada. Andina, que se desintegrou, poucas possibilidades
de integração ficarão para o futuro.
Bem-vindos todos os povos. Incluo o povo do Paraguai,
como membro de um governo que teve de tomar a O Mercosul deve manter-se como motor da integração.
dolorosa decisão de sancionar a outro governo por Temos que ser conscientes de que há uma viga mestra de
atentar contra a democracia. A sanção foi feita sem todo o processo de integração sul-americana: a relação
arrogância, convencidos de que estamos cumprindo o de cooperação estratégica entre Argentina e Brasil. Se
compromisso democrático que todos assinamos; para essa viga se rompe, todo o processo se rompe. Para que
fazê-lo efetivo e não para transformá-lo em um papel a Unasul progrida, o Mercosul deve consolidar-se, senão
inútil. E essa defesa da democracia pode nos dividir fracassará todo o processo continental. Passamos por
em algum momento, uns governos de outros, mas momentos difíceis e por enfrentamentos conjunturais.
jamais dividirá uns povos de outros, porque a unidade Isso tem explicação na história: são duzentos anos
de nossos povos se carimba, se constrói e se fortalece de desenvolvimento desigual, geradores de tensões,
com a luta democrática comum. desajustes e conflitos. Temos que ter a grandeza de
respeitar os problemas de cada um de nossos países,
Boas-vindas à Venezuela à primeira Cúpula, boas- compreendê-los, trabalhar para solucioná-los com
vindas à Bolívia. Estamos vivendo com muita solidariedade, e saber que jamais podemos permitir que
expectativa as declarações que o governo boliviano um desajuste ou problema conjuntural se transforme
tem feito em La Paz. Todos sabem que o povo numa virada estratégica.
boliviano é um dos mais sofridos e explorados de
nossa América. A Bolívia pertence à Bacia Platina e ao

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Ivan Ramalho questão das aposentadorias. Nos já temos no Mercosul
Alto Representante-Geral do Mercosul avanços extraordinários na área social, e o que falta
é uma maior divulgação para que as pessoas possam
Saúdo os jovens presentes, os quais vejo com participar mais conosco.
entusiasmo. Sendo egresso da área comercial do
Mercosul, lembro que, quando o Mercosul começou,
principalmente voltado à livre circulação de bens
entre os países integrantes, tínhamos um comércio Senador Roberto Requião
dez vezes menor que hoje. Junto com esse comércio, Representante do Parlasul
temos a criação de vínculos de milhares de pessoas.
Evoluímos muito também em investimentos e em Saúdo a Venezuela, que integra o Mercosul. Bem-
integração produtiva. Com o ingresso da Venezuela, vindos, Equador e Bolívia. Companheiros são
os membros do Mercosul totalizam mais de 80% do aqueles que, sentados à mesma mesa, repartem o
PIB da América do Sul; tal fator revela que esse é um pão. Estamos vivendo momentos difíceis na América
projeto desde o ponto de vista econômico, comercial, Latina e América do Sul e necessitamos de soluções
industrial, inegavelmente consolidado. políticas nesse processo em que a globalização e a
financeirização da economia nos lançou.
Agora temos que estar voltados mais para a área social,
divulgando mais os avanços do Mercosul nesse âmbito. Como presidente da Seção brasileira do Parlasul,
Espero que a Bolívia possa estar pronta para entrar no estive na reunião com o Parlamento Europeu.
Mercosul. Necessitamos que outros Estados conheçam Esses encontros culminaram na certeza de que,
mais o Mercosul, e vice-versa. Especialmente na esfera isoladamente, não iremos nos salvar. A cada hora
social, temos várias iniciativas de grande importância, alvejados por uma mídia servil aos interesses imperiais
como o Plano Estratégico da Ação Social, o Estatuto e sempre pronta a sublinhar nossa inferioridade,
da Cidadania e a livre circulação de pessoas. Além todo sentimento de latinoamericanidade é tratado
disso, devemos apoiar mais o nosso Instituto Social do como manifestação atrasada. “Moderno, avançado”,
Mercosul, divulgar mais a questão do reconhecimento proclamam os liberais e seus meios de comunicação,
de títulos, de diplomas; a mobilidade acadêmica; e a “é resignar-se ao papel de produtores de commodities

22
e consumidores de produtos importados. Moderno é do processo da integração regional. A experiência
ser dependente; modernos são os acordos bilaterais”. adquirida nos últimos vinte anos no processo de
Colocam o exemplo da Vale do Rio Doce. Isso lembra integração demonstra que o processo de integração
o tratado entre Portugal e Inglaterra de 1703. entre nossos povos requer uma visão ampla, que
vai muito além da dimensão comercial. Precisamos
Nosso grito da independência deveria ser “ruptura trabalhar com foco em nossa cidadania, voltar nosso
ou morte”. As classes dominantes não duvidam em esforço para a construção de um espaço integrado
romper a normalidade democrática quando os seus onde nossos cidadãos possam gozar de liberdades e
interesses são ameaçados. Nós pensamos e atuamos garantias comuns.
absolutamente dentro das instituições postas. Mas
as instituições não beneficiam a maioria de nossos A incorporação do social à Agenda do Mercosul é
povos. Logo, não são democráticas, tampouco reflexo da maturidade da democracia em nossas
humanitárias. Avançamos sim, mas esses avanços sociedades. Não por acaso, a origem do Mercosul está
não resistiram à crise, como o Estado de Bem-Estar na dinâmica da redemocratização de nossos países. Na
não resistiu à globalização e à financeirização da última década, lançamos as bases para que o projeto
economia. do Mercosul buscasse consolidar seu pilar social e
instituísse o pilar da cidadania. Com essas mudanças,
Nossa missão é maior: a melhoria de vida dos mais a integração passou a ser mais claramente um objetivo
pobres não é uma revolução, porque do outro lado compartilhado pelas sociedades dos Estados membros;
da praça reinam os mesmos ditados do grande passou a ser uma realidade com a qual as sociedades
capital. Para nós, povo, a ruptura também é uma contribuem diretamente e na qual os cidadãos em
questão de vida ou morte. Sem ruptura não há saída diferentes níveis consolidam seu status de verdadeiros
na direção do desenvolvimento e do bem-estar participantes de um projeto maior.
de nossos povos. Sem revolução não há salvação.
Não estou incitando ninguém ao levante, a pegar Nem poderia ser diferente, pois o Mercosul é hoje um
armas. Os conservadores buscam sempre associar autêntico projeto de desenvolvimento, não um mero
a palavra “revolução” à luta armada, à violência, projeto de construção de um espaço econômico
estigmatizando a ideia de mudança estrutural e de liberdade comercial. O que pressupõe buscar
da sociedade. maneiras de olhar, não apenas se os benefícios da
integração são atingidos por todos, mas também se
Vamos debater a integração latino-americana, mas os mecanismos de deliberação contam com o apoio
deixemos espaços para debater a revolução, a do conjunto da cidadania. Por isso, é tão auspicioso
radicalização de nossas propostas. A revolução é ver nessas cerimônias representantes dos movimentos
legitima. O resto é diversão, que significa desviar sociais de todos os membros do Mercosul, e é com
do que importa. Na crise, os interesses imperiais se particular satisfação que contamos com a participação
distraem. A crise é a oportunidade. Vamos pensar de representantes paraguaios. Esperamos que ocorra o
no rompimento das instituições. Na desobediência quanto antes no Paraguai o pleno restabelecimento de
e na criação de um modelo latino-americano, uma ordem democrática, para que o país possa retornar
diferente da tia Merkel, diverso das propostas ao Mercosul e também à Unasul. É o que desejamos.
de Bush. Mas a presença de nossos companheiros paraguaios em
nossa Cúpula Social já se reveste de significado especial:
trata-se da demonstração prática de que, ao suspender
o Paraguai em cumprimento de nossas cláusulas
Antônio Patriota democráticas, nada fazemos que possa prejudicar o
Ministro das Relações povo paraguaio que, ao contrário, queremos sempre
Exteriores do Brasil mais próximo como na noite de hoje.

O aprofundamento da condição social e cidadã do É também estimulante ver, ao lado dos amigos
Mercosul é uma condição essencial para o avanço argentinos, paraguaios, uruguaios, de outros amigos

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da região, da Bolívia e Equador, a Venezuela no colaboração entre as diversas instâncias, incluindo
Mercosul como membro pleno, com todas suas forças governos e representantes da sociedade civil.
econômicas, comerciais, energéticas, geopolíticas.
Há um aspecto, porém, que não pode deixar de ser O Estatuto da Cidadania do Mercosul só poderá
ressaltado para todos nós: a adesão da Venezuela ser operacionalizado por meio da assinatura de um
contribui para um efetivo engajamento também da Protocolo Internacional que incorpore o conceito
posição norte de nosso país, do Brasil, num esforço de cidadão do Mercosul e constitua parte integral
de integração, já que desde algum tempo alguns do Tratado de Assunção. Durante nossa atual
compreendiam essa integração como um exercício Presidência Pro Tempore, conseguimos avançar
mais voltado para o sul de nosso continente sul- na implementação do Estatuto e aprovamos, por
americano. Sejam, portanto, muito bem-vindos, nossos exemplo, a Corte Mercosul sobre direito aplicado em
irmãos, como membros plenos. matéria de contratos internacionais de consumo, o
que permitirá aos consumidores de nossos países
Neste semestre, avançamos de forma decidida para firmarem um contrato de consumo para que possam
que os movimentos sociais sejam atores com maior beneficiar-se da lei do Estados Partes que se mostre
participação no projeto de integração. É assim, mais benéfica.
com prazer, que anuncio que deveremos aprovar na
reunião do Mercado Comum a decisão que assegura Na área de fronteira, avançamos com o Acordo do
periodicidade semestral para a Cúpula Social. A decisão Recife, que tem o objetivo de regular os controles
também determina que os resultados da Cúpula Social integrados nas fronteiras dos Estados Partes
serão encaminhados ao Grupo Mercado Comum, que e facilitará os fluxos migratórios. Avançamos
por sua vez os transmitirá às instâncias competentes igualmente na revisão da Declaração Sociolaboral
na instância institucional do Mercosul. Trata-se de uma do Mercosul e na harmonização progressiva da
decisão que insere a Cúpula Social de forma definitiva legislação trabalhista e previdenciária entre nossos
no Mercosul e que permitirá que os debates realizados países, o que contribuirá para reduzir as assimetrias
nesse foro possam oxigenar os trabalhos das demais e facilitará a circulação dos trabalhadores no espaço
instâncias do Bloco. Fico especialmente feliz de do Bloco. A ampliação do Acordo de Residência
que esse resultado tenha sido alcançado durante a é uma prioridade do Mercosul Social. Durante a
Presidência Pro Tempore brasileira. Presidência Pro Tempore brasileira, a Colômbia
aderiu a esse acordo, que facilitará a circulação de
Gostaria de dizer algumas palavras sobre o tema cidadãos colombianos também na área do Mercosul,
central desta Cúpula: Cidadania e Participação; tema e vice-versa.
que ganhou crescente importância no Mercosul nos
anos recentes, como demonstra a aprovação do Plano Uma questão que será objeto de oficinas temáticas
de Ação e a conformação do Estatuto da Cidadania durante esta Cúpula Social: trata-se da questão da
na Presidência Pro Tempore brasileira desde 2010. juventude. Como todos sabem, a Decisão um onze
O Plano de Ação é uma estrutura em torno de três avos fixou o primeiro período de 2012 a 30 de junho
objetivos gerais: a implementação de uma política de 2013 como Ano da Juventude do Mercosul,
de livre circulação de pessoas na região; a igualdade e durante este semestre a Presidência brasileira
de direitos e liberdades civis, sociais, culturais e procurou dar tratamento articulado a temas capazes
econômicos para os cidadãos dos Estados Partes do de aumentar o interesse e o envolvimento das novas
Mercosul; e a igualdade de condições para acesso ao gerações no processo de integração regional. Como
trabalho, à educação e à saúde. De modo que, para resultado desse empenho, deveríamos aprovar o
cumprir essas metas, contemplamos ações concretas estabelecimento de um Sistema de Mobilidade
necessárias: fronteiras, identificação pessoal, Integrado ao Mercosul, que tem o objetivo de
documentação e cooperação consular, trabalho e promover um salto qualitativo e quantitativo nas
emprego, previdência social, educação, transporte, iniciativas de mobilidade acadêmica e educação no
comunicações, defesa do consumidor e direitos âmbito do Mercosul. Deverá ser priorizada, além das
políticos. A elaboração do Plano de Ação exigiu uma iniciativas que estimulem o aprendizado do espanhol

24
“ A agenda da Cidadania do Mercosul está cada dia
mais povoada. Essa agenda é a concretização de uma
visão da integração que acreditamos ser essencial para
a consecução dos objetivos que compartilhamos.”
Antônio Patriota

e do português no Mercosul, a mobilidade dos Gilberto Carvalho


cursos acreditados por nosso mecanismo regional Ministro-chefe da Secretaria-Geral da
de acreditação. Presidência da República do Brasil

Estes são desdobramentos fundamentais com que nos Apresento as saudações da presidenta Dilma e agradeço
engajamos em nossos esforços de integração. O futuro a todos os que fizeram um esforço extraordinário para
são os jovens. Sem seu entusiasmo, sua criatividade, estar nesta assembleia histórica, uma assembleia da
sem sua perspectiva renovada sobre o mundo, qual emana uma energia, uma esperança e uma decisão
nosso trabalho sairia perdendo. Ganhamos todos se de luta que é extraordinária. Agradece ao governo do
trabalharmos para a juventude e com a juventude. Isso Distrito Federal, homenageia os companheiros que
lembra uma frase de um representante da ONU que trabalharam. Destaca o trabalho prévio: o Juvensur em
visitou recentemente o Ministério, que dizia que há Foz do Iguaçu, encontros de mulheres, de agricultura
jovens de todas as idades. Então, aqui todos somos familiar, sindical, uma série de reuniões preparatórias
jovens. Que este foro siga representando também os que vão compondo um tecido entre nós. Fiquei
pontos de convergência dos valores de nossos jovens, pensando no significado histórico de estarmos aqui
e que os jovens possam imbuir-se cada vez mais do hoje. Houve tempo em que mal podíamos nos encontrar.
espírito de integração que nos anima a todos. É verdade que estamos de frente a muitas dificuldades,
mas é verdade também que é importante celebrar as
A agenda da Cidadania do Mercosul está cada dia conquistas duramente alcançadas por nossas lutas, que
mais povoada. Essa agenda é a concretização de uma é a conquista democrática.
visão da integração que acreditamos ser essencial
para a consecução dos objetivos que compartilhamos: Houve um tempo em que os países se relacionavam
seguir construindo sociedades crescentemente plurais, para planejar a Operação Condor, para planejar a
prósperas e justas na América do Sul, continuar o repressão aos nossos movimentos sociais. Houve um
trabalho de consolidação da paz, da cooperação tempo em que nós nos encontrávamos para chorar
e, também, da democracia e do desenvolvimento nossos mortos, para tentar lutar contra ditaduras
econômico com inclusão social. Temos muito presentes que nos impunham. É muito significativo que nós
os desafios que persistem, não subestimamos os estejamos hoje aqui para celebrar exatamente a nossa
obstáculos que ainda temos que enfrentar para que democracia e os avanços que queremos fazer porque,
tenhamos em todas as dimensões o Mercosul que evidentemente, não nos contentamos com aquilo que
aspiramos. E a agenda cidadã não é uma exceção, já conquistamos, que não é pouco, mas insuficiente
também aqui tem pela frente um longo caminho a para nosso sonho, para nossa utopia. Nós queremos dar
percorrer. Mas percorreremos esse caminho com a passos concretos, seguros na direção, na perspectiva
certeza de quem sabe mover-se num bom sentido e de um novo modelo de desenvolvimento efetivamente
com o ânimo de quem, ao olhar para trás, vê o quanto sustentável para os nossos países. Nós estamos felizes
já pudemos fazer juntos. com a inclusão de milhões, com a superação de muita
exclusão, de muita diferença, mas nós queremos
mais. Nós queremos vida mais abundante, queremos

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 25
direitos para todos os nossos cidadãos, queremos de origem popular e suas consequências - porque
a participação de uma democracia que rompa os os governos populares mostram que fazem bem ao
limites de uma democracia meramente representativa; povo de cada um dos nossos países pelas conquistas
queremos efetivamente construir uma democracia sociais -, estamos observando, no entanto, que as elites
participativa, atuante, na qual a sociedade civil de não estão paradas e nem olhando com muito prazer
nossos países tome, em suas mãos, a decisão de seus as nossas conquistas. A cada dia somos atacados, a
povos. E para isso, nós sabemos que ainda falta muito. cada dia sofremos, de fato, as oposições dos que não
querem uma alternativa popular, mas que têm uma
Sabemos que muitas vezes a nossa participação terrível saudade do tempo em que as elites batiam
democrática é muito mais retórica do que efetiva, e ainda com seu tacão em nossos povos, e havia a repressão,
custa aos nossos governos romper uma cultura que nós a exploração. Essas elites continuam nos atacando de
criticamos tanto, de verticalismo, de autoritarismo das toda forma e, quem tiver dúvida, olhe o exemplo que
elites, mas que nós, governos populares que chegamos aconteceu em nosso querido Paraguai, onde, ao menor
ao poder — a essa espécie de poder, porque não nos vacilo e fragilidade nossa, eles armaram um golpe. E
iludamos: nós estamos no governo e não estamos não pensemos que o Paraguai é um caso isolado.
efetivamente no poder —, muitas vezes, ao usarmos
esse instrumento do Estado, não somos capazes de Portanto, de um lado, vamos avançar e vamos nos
promover a efetiva participação, a efetiva chamada defender contra essa ameaça que paira assim sobre
de nosso povo para nos ajudar nas decisões mais nós. E quem governa, quem participa de um governo,
importantes. É nisso que nós apostamos: as mudanças seja no Brasil, seja no Uruguai, seja na Argentina, na
econômicas, as mudanças sociais que nós queremos Bolívia, na Venezuela, sabe do que estou falando:
para o Mercosul só serão realizadas na medida justa desse combate pela volta de outro sistema de
em que conseguirmos aprofundar efetivamente uma exploração que quer, sim, voltar a imperar na América
verdadeira democracia no campo político, no campo Latina. E a melhor maneira de fazermos essa defesa
social, mas, sobretudo, no campo econômico. E isso só é avançar em direção dessa democracia profunda,
se faz com um chamado à participação, só se faz com de nosso enraizamento em meio ao povo, de andar
a criação de mecanismos efetivos de participação para no meio do povo, de ouvir esse nosso povo, e trazer
a cidadania dos nossos países. esse nosso povo como partícipe eficiente, eficaz e
efetivo junto dos nossos governos. Banho de povo,
E esse caminho, essa mudança cultural, temos que fazer audiência do nosso povo e a sua parceria - essa é a
nos unindo, nos articulando e intercambiando muito única garantia pela qual nós conseguiremos, de fato,
entre nós. Nenhum dos nossos governos, nenhum dos fazer continuar nosso projeto de avançar a justiça, de
nossos países, nenhum dos nossos movimentos tem avançar os direitos, de avançar naquelas conquistas
a receita única e melhor. É conversando, é trocando, que dão dignidade à nossa gente.
é intercambiando, é formando redes entre os nossos
movimentos, é fazendo cada vez mais para que Nós temos, aqui nessa sala, uma enorme
nossos cidadãos se aproximem, que conseguiremos responsabilidade. Se é um privilégio estarmos aqui
aperfeiçoar nossa democracia. Por isso, a importância hoje, é também uma grande responsabilidade.
dessas novas medidas que expôs o ministro Patriota: a Trabalharemos agora durante dois dias nas oficinas e
circulação entre nós, mas também a iniciativa de nossos nas plenárias. A reunião da Cúpula de dirigentes dos
movimentos sociais e de nossos governos; temos que nossos países espera de nós não apenas um bom
nos encontrar muito, estar muito perto uns dos outros. documento, espera de nós não apenas as sugestões
Somente assim vamos encontrar o verdadeiro caminho que entregaremos na tarde da quinta-feira aos nossos
de mudança e de redenção da nossa querida América presidentes e representantes oficiais, mas espera de
Latina e dos nossos povos. nós um compromisso de que a nossa luta, de que
a nossa fidelidade será de toda nossa vida para a
E não temos ilusão: se é verdade que alcançamos realização de transformações efetivas. Não se fazem
muitos resultados nos últimos tempos, se é verdade que transformações profundas, não se faz a revolução sem
uma primavera coloca a América Latina com governos que nossos movimentos sociais estejam articulados,

26
sem que eles vençam as barreiras que se lhes impõem, Bloco forte economicamente, forte socialmente, forte
sem que eles se articulem muito ativamente aqui nessa sindicalmente e, sobretudo, forte do ponto de vista
América Latina. Que estes dois dias de trabalho sejam cultural e do ponto de vista político.
dias em que nós, iluminados por esse nosso sonho,
essa nossa utopia, tenhamos a capacidade de propor, Às vezes, as coisas andam mais lentamente do que nós
de fato, novos caminhos para os nossos governos, gostaríamos. Mas é assim. Nós temos que consolidar
novos caminhos para nossa querida América Latina. um processo, e temos que consolidar de forma coesa,
sólida, para que a gente não sofra tantos desbarrancos.
Ao final da sessão de abertura foi transmitido um Quando a gente consolidar mais a Cúpula Social do
vídeo com declaração do ex-presidente Lula aos Mercosul, vamos ao mesmo tempo construir a Cúpula
representantes dos movimentos sociais. Eis a síntese Social do Mercosul e a África, quem sabe depois
de seu pronunciamento: discutir com outros países, porque nós precisamos
garantir que os países do Sul se unam cada vez mais, se
“Não imaginam a vontade que eu tenho de estar preparem cada vez mais, e discutamos politicamente e
aí discutindo com vocês, conversando com vocês, culturalmente cada vez mais, para que a gente possa
aprimorando nossas discussões sobre a integração discutir em pé de igualdade com os chamados países
social de nosso querido Mercosul, de nossa América do do Norte.
Sul, de nossa América Latina, mas estou numa viagem
internacional, um compromisso assumido. Mas vou, Lamento do fundo de meu coração não estar aí, porque
através deste vídeo, deixar uma mensagem carinhosa eu acredito vivamente que sozinhos temos menos
de um companheiro que, mesmo não sendo presidente, chance. Acho que, juntos, podemos garantir uma coisa
continua acreditando vivamente que a integração sagrada: não vamos desperdiçar o século XXI como
da América Latina, da América do Sul, do Mercosul desperdiçamos o século XX. É preciso que a gente
é condição básica para que a gente possa alcançar tenha em mente: nós seremos o que nós quisermos, e
um nível de conquista social, que possa alcançar um não aquilo que outros queiram que a gente seja. É isso
padrão de vida digno que todo ser humano deve ter. que precisa nortear o nosso debate, a nossa cabeça,
para que a gente possa criar uma doutrina do que é a
Até pouco tempo, a gente estava de costas uns para os nossa integração, que não é um mero acordo. E que vai
outros, só olhávamos para os Estados Unidos, Europa, ter muitas disputas, mas só no futebol, pois na política
como se pudessem atender às nossas necessidades a divergência se resolve numa mesa, negociando. No
sociais, e poucas vezes a gente parou para pensar: movimento sindical, a gente constrói as reivindicações
e nós? O que poderemos fazer por nós mesmos? conjuntas numa mesa de negociação. Um movimento
Agradeço a Deus por haver feito parte de uma social é a mesma coisa. E, depois, desde o ponto de
geração de políticos que compreendeu isso, que era vista cultural, nós temos uma riqueza imensa, uma
preciso que a gente olhasse mais para nós mesmos, riqueza incomensurável que está muito dispersa e que
que a gente descobrisse a singularidade de nossos vamos tentar juntar, respeitando os valores de cada
países, um potencial de coisas que nós poderíamos país, a cultura de cada país. Nós precisamos unificar o
produzir, comercializar, mas sobretudo um potencial que nós temos de melhor para que a gente possa fazer
de capacidade de fazer nossa integração política, valer a nossa vontade nas negociações internacionais,
uma integração cultural, uma integração social, a nossa participação no mundo.
uma integração sindical, ou seja, uma integração
que discutisse todos os aspetos que uma sociedade Por isso, queridos companheiros, lamentando não estar
precisa discutir e, obviamente, também o empresarial, aí e não poder discutir isso pessoalmente, eu quero
o comercial, o sentido tecnológico; que nossos que vocês tenham um belíssimo encontro. E que possa
estudantes possam visitar os outros países, fazer a luz de vocês iluminar a cabeça de nossos dirigentes
intercâmbios entre universitários, que mais gente da para que a gente faça cada vez mais e o povo ganhe
América Latina venha fazer pós-graduação no Brasil, cada vez mais. Um abraço e boa sorte.”
que mais gente do Brasil vá fazer pós-graduação na
América Latina, para que a gente possa formar um

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28
Mesas Temáticas

Nesta seção serão apresentados os relatórios sobre os grupos temáticos. Cada relatório foi
elaborado por um professor ou professora da Unila, devidamente identificados. De cada relatório
consta a sistematização das apresentações feitas pelos painelistas, dos debates realizados com os
representantes das organizações da sociedade civil, do conjunto das propostas elaboradas em cada
mesa, e das duas propostas que constarão do documento final a ser apreciado na Plenária Final e
entregue aos chefes de Estado.

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OFICINA

Direito à
Memória,
à Verdade
e à Justiça

Grupo Temático 1: Direitos Humanos


Professor sistematizador: Cezar Karpinski
Coordenadora: Graciela Rodriguez
Resumo dia 05 de dezembro de 2012 e contou com a presença
de representantes do Serviço Pastoral dos Imigrantes
A América Latina foi abatida, ao longo das décadas de São Paulo, da Secretaria-Geral da Presidência da
de 1960, 1970 e 1980, por regimes autoritários que República do Brasil, do Governo do Estado do Rio
suspenderam direitos e garantias fundamentais, Grande do Sul, da União dos Estudantes Angolanos, da
garrotearam liberdades e cercearam o parlamento, Confederação das Mulheres no Brasil, do Movimento de
criminalizaram movimentos sociais e oprimiram Assuntos e Temas Imigratórios do Uruguai, do Centro
minorias. A luta pelo direito à memória, à verdade e de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, da
à justiça não aceita que se queira virar essa página da União Popular de Mulheres, de Centros e Movimentos
história sem que se aprenda com ela. O Mercosul tem Sociais e Populares do Paraguai, do Serviço Paz e
realizado, de modo amplo e suficiente, políticas de Justiça do Uruguai, de estudantes da Universidade
justiça requeridas para a consolidação da democracia? Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e do
O que as experiências dos países da região têm a nos Projeto Educar para o Mundo do curso de Relações
ensinar, e como é possível cooperar para lançar luz a Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).
1
este momento da nossa história?
A mesa foi organizada em dois momentos. No primeiro,
foi feito um debate sobre a experiência das Comissões
da Verdade e da Justiça, por meio de exposições
Proposta e participantes que tiveram como objetivo relatar alguns trabalhos
realizados no Brasil e no Uruguai. Já no segundo
A proposta deste Grupo Temático foi a de promover momento, a plenária elaborou duas propostas que
diálogos e trocas de experiências sobre os trabalhos seriam levadas aos presidentes do Mercosul. Essas
das Comissões da Verdade e Justiça instaladas em propostas deveriam resumir as principais demandas
países do Mercosul. Sob a coordenação de Graciela do eixo temático da mesa de forma propositiva e
Rodriguez, da Rede Brasileira pela Integração dos concreta, para que se tornassem realidade nos países
Povos (Rebrip), o debate teve início às 10h17min do do Mercosul.

_______________________________________________________________________________________________________________

1. CUPULA SOCIAL DO MERCOSUL, 14, 2012, Brasília-DF. Programação.


Disponível em: <http://socialMercosul.org/oficinas-tematicas/>. Acesso: 11 dez 2012.

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Exposições

A primeira expositora foi a professora da Universidade


Federal de Minas Gerais, Heloísa Starling, que faz
parte da Comissão da Verdade, Justiça e Direito à
Memória no Brasil. Como assessora desta Comissão,
apresentou uma perspectiva histórica dos trabalhos
e expôs um projeto sobre mortos e desaparecidos
no Brasil por obra dos agentes do Estado. A partir
do livro “Direito à memória e à verdade: comissão ditaduras militares. No Uruguai, o Servicio de Paz
especial sobre mortos e desaparecidos políticos”, 2 y Justicia tem analisado três governos, e conta
foi elaborado um material midiático, transformando com inúmeros processos que são resultado da luta
as discussões do livro acessíveis aos jovens, às de movimentos sociais, da denúncia das vítimas
escolas e às pessoas da sociedade em geral. Neste e daqueles que, de alguma forma, combatem a
projeto, coordenado pela expositora, o principal impunidade. A partir desses debates e embates,
desafio foi trabalhar a interface da história e da instaurou-se no ano 2000 uma comissão, pela
memória de 375 personagens mortos durante a qual o Estado uruguaio passou a investigar a sua
ditadura militar, garantindo sua singularidade ao culpabilidade nos crimes da ditadura. Um dos
apresentar o contexto histórico de sua morte. Foi momentos cruciais desse processo foi a celebração
mostrado ao público o arquivo daqueles mortos de um convênio entre a Presidência da República e a
em pequenas fotografias, apenas com o material Universidade da República do Uruguai, coordenado
reconhecido pelo Estado através da Comissão pelo dr. Gerardo Caetano, cujas investigações
da Verdade e da Justiça. Tal projeto construiu geraram um compêndio documental de mais de
um sistema que abarcou grande parte da história cinco mil páginas, que foi o ponto de partida para a
do período da ditadura militar no Brasil, a partir instalação dos processos judiciais contra o Estado
daqueles que foram assassinados pelos aparelhos nos crimes. O principal objetivo desses trabalhos
de controle estatais. As fontes para a pesquisa foram no Uruguai é dar à sociedade o direito de ter uma
vídeos, fotografias e documentos pesquisados no memória do que foi a ditadura militar, para que
acervo disponibilizado pela Comissão da Verdade e os acontecimentos desse período não voltem a
da Justiça. acontecer.

A segunda exposição contou com a presença da


uruguaia Ana Juanche, do Servicio Paz y Justicia
– Uruguai, que expôs à plenária sua experiência Debate
junto a esse órgão. Relatou como o Servicio Paz y
Justicia tem contribuído para a verdade, a memória Das questões levantadas no debate, destacam-se:
e a justiça dos mortos e desaparecidos do período
das ditaduras militares na América Latina. Para 1. 
A necessidade de um levantamento dos casos de
a expositora, o direito à memória e à justiça não morte e perseguição aos estrangeiros nos países
está associado apenas ao passado recente, mas da América Latina, principalmente os imigrantes ou
aos termos de convivência cidadã. Desde o México exilados políticos.
até a Terra do Fogo, a história da América Latina
foi permeada por genocídios e, a partir da década 2. Uma instrução metodológica para que os cidadãos do
de 1960, essas práticas passaram a ocorrer com as Mercosul continuem a denunciar os crimes do Estado,

_______________________________________________________________________________________________________________

2. B
 RASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Direito à
verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos
Humanos, 2007. Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/sedh/biblioteca/livro_direito_memoria_verdade/livro_direito_
memoria_verdade_sem_a_marca.pdf>. Acesso: 11 dez 2012.

32
foram realizados em períodos da história. Tais abusos
partem de um modelo econômico que precisa da
concentração da terra, de seguir pensando o território
como fonte de riqueza natural para exportação. Nesse
sentido, é urgente que a sociedade tenha acesso às
suas memórias para transformá-las em história, a fim
de construir possibilidades de modificação através
de tratados e legislações. Essa discussão propiciou
o trabalho prático de elaborar duas propostas para
tanto os do passado como os do presente, no tocante serem incluídas na pauta dos dirigentes.
aos abusos do poder de polícia que configurem
violações de direitos humanos.

3. Como as mulheres vítimas de tortura aparecem nos Propostas


relatórios, devendo as comissões aprofundar a questão
das torturas sexuais e da retirada dos filhos das presas. Tendo como base as discussões das expositoras e
o debate, foram constituídas estas propostas, que
4. 
A necessidade de as Comissões da Verdade posteriormente seriam debatidas numa plenária geral
e da Justiça trabalharem em conjunto com as com todas as mesas da Cúpula Social para a aprovação
universidades, principalmente com a história dos e inserção em documento oficial a ser entregue aos
movimentos estudantis. dirigentes do Mercosul:

5.
Da possibilidade de haver uma rede compartilhada 1. Exigimos que os Estados Partes fortaleçam o
de informações entre as Comissões da Verdade e da Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos
Justiça nos países do Mercosul. do Mercosul (IPPDDHHM) através da destinação
de recursos materiais e humanos para seu efetivo
Um momento importante do Grupo Temático foi a funcionamento (fortalecendo os planos de trabalhos
intervenção dos representantes da sociedade civil regional das Secretarias de Direitos Humanos dos
do Paraguai, com o relato de suas experiências. Uma países do Mercosul e promovendo a articulação e a
das líderes do grupo na Cúpula Social do Mercosul divulgação educacional e pública dos trabalhos das
disse estar sob ameaça de morte por advogar Comissões de Verdade e Justiça).
pelos camponeses e indígenas, cujos direitos são
violados no Paraguai. Explicou detalhadamente os 2. Garantir a implementação do Plano Estratégico
acontecimentos, denunciou o abuso de poder e a de Ação Social do Mercosul (Peas), através do
violação de direitos e noticiou a criação de um comitê estabelecimento de metas, ações e orçamentos
de investigação paralela às que são forjadas pela para processos de prevenção, justiça e garantias
mídia e pelo Estado paraguaio, cujo governo não é de não repetição das múltiplas violações de direitos
considerado legítimo. Tanto os movimentos de apoio humanos, com ênfase nos povos indígenas, migrantes,
aos camponeses, quanto os que apoiam a causa camponeses, afrodescendentes, jovens, crianças,
indígena estão sendo rechaçados e perseguidos por mulheres e a diversidade de pessoas e coletivos
meio da atual ditadura paraguaia. vulneráveis em seus direitos.

Considerações finais

Como conclusões da oficina, destacaram-se a


necessidade de mais discussões sobre a repressão,
a ditadura e os atropelos dos direitos humanos que

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 33
OFICINA

Migração
e Trabalho
Decente

Grupo Temático 1: Direitos Humanos


Professor sistematizador: André Ramalho Aguiar
Coordenador: Roque Pattussi
Resumo

O Tratado de Assunção, que criou o Mercosul em 1991,


já estabelecia o objetivo de constituir no Bloco uma
área de livre circulação de pessoas. Apesar de avanços
como os Acordos sobre Residência para Nacionais
dos Estados Partes – que reconhecem aos migrantes
do Mercosul o direito humano ao trabalho –, ainda se
enfrentam percalços para que isso se torne realidade,
em especial no que tange ao pleno direito de residir
e trabalhar em outros países do Mercosul. Além da
agenda de avanços institucionais, como transformar os
compromissos dos textos normativos em realidade na
vida dos cidadãos do Bloco? E como garantir também
a dignidade dos imigrantes provenientes de outros
países que não fazem parte do Mercosul? 3

Oficina temática e atores participantes

Com a consigna de que “trabalhar não é crime, migrar


não é crime”, o objetivo desse Grupo Temático foi o de
construir um diálogo de saberes acerca da migração
e do trabalho decente no Mercosul. Nesse sentido,
o debate buscou como referência os relatos de
experiências dos países que compõem a Comunidade
Andina de Nações (CAN), no que tange às políticas
públicas regionais voltadas a cumprir uma agenda
social e trabalhista entre tais Estados. Assim, repensar
como essas políticas poderiam servir de inspiração na
construção de um projeto de integração mais justo, no
que se refere ao processo migratório e trabalho digno
no Mercosul.

Sob a coordenação de Roque Pattussi (Serviço Pastoral


do Imigrante e Centro de Apoio ao Imigrante – Brasil),
o debate teve início às 14h30 do dia 05 de dezembro
de 2012 e contou com a presença de representantes
da Secretaria-Geral da Presidência da República, da
Rede Brasileira pela Integração dos Povos, do Espaço
sem Fronteira – Peru, do Centro dos Direitos Humanos
e Cidadania do Imigrante – Brasil, do Serviço Paz e
Justiça – Uruguai, de Centros e Movimentos de Sociais
do Paraguai, bem como de estudantes da Universidade
Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

_______________________________________________________________________________________________________________

3. CÚPULA SOCIAL DO MERCOSUL, 14, 2012, Brasília-DF. Programação. Disponível em: <http://socialMercosul.org/oficinas-
tematicas/>. Acesso: 11 dez 2012.

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Metodologia As comunicações

Proposta pelo coordenador Roque Pattussi, a Oficina A segunda mesa de debates sobre direitos humanos
foi organizada em três etapas: da Cúpula Social do Mercosul, coordenada por
Jorge Gimenez, representante do Centro de Apoio
1. Duas comunicações relacionadas ao tema “Migração aos imigrantes - São Paulo, começou em clima
e Trabalho decente”. de integração latino-americana. Antes de iniciar
sua intervenção, Aida Garcia Naranjo Morales,
2. Criação de grupos de trabalhos e elaboração das embaixadora do Peru no Uruguai, interpretou a
propostas. música “Canción con Todos”, da argentina Mercedes
Sosa, e foi acompanhada pelos participantes do
3. Discussão coletiva e apresentação das propostas debate.
elaboradas.
Neste ambiente fraterno, a primeira comunicadora
Dando sequência à proposta metodológica do apresenta um trabalho relacionado à migração
coordenador Roque Pattussi, a primeira comunicação e trabalho decente. Aída Garcia Naranjo Morales
foi ministrada por Aída Garcia Naranjo Morales, recorda que a criação do Mercosul advém de um
embaixadora peruana no Uruguai. A expositora projeto neoliberal que não contemplava a garantia
apresentou como tema central “A convergência e do trabalho decente. Segundo a expositora, definir
articulação das experiências da Comunidade Andina uma “agenda social” num contexto neoliberal não
(CAN) e do Mercosul”. Em seguida, Paulo Illes era um tema relevante entre os chefes de Estado no
coordenador do Centro de Equidade e Segurança para momento da instalação do Mercosul. Nesse sentido,
os Trabalhadores Migrantes – Cedic, apresentou uma a renda social e a luta por um trabalho decente
comunicação intitulada “As condições de equidade deveriam contar com o apoio das centrais sindicais
e segurança para os trabalhadores migrantes na do Mercosul. As centrais sindicais impulsionariam
América Latina”. Os dois trabalhos visavam expor uma agenda laboral, baseada na declaração dos
suas respectivas experiências sobre atividades direitos laborais do Mercosul 4, assinada na cidade
executadas no Brasil e nos países andinos (Bolívia, do Rio de Janeiro, Brasil.
Peru, Equador e Colômbia), respectivamente.
Em tal sentido, a expositora faz uma alusão ao
Ao final das comunicações centrais, o mediador processo migratório/laboral dos países andinos.
Roque Pattusssi convocou o público presente a Segundo a Embaixadora, a Comunidade Andina das
organizar rodas de discussão. Formaram-se dois Nações tem uma visão laboral que permite, entre seus
grupos de aproximadamente 10 participantes cada países membros, o direito a migrar. Os trabalhadores
um. A discussão em torno do tema central da andinos utilizam seus passaportes para trabalhar na
oficina - “Migração e Trabalho decente” - teve uma região. A legislação laboral autoriza-os a lutarem por
duração aproximada de 40 minutos. Em seguida, os seus direitos em igualdade de condições. Esse direito 5
participantes da oficina iniciaram os debates finais. abarca os seguintes países: Colômbia, Equador, Peru
As propostas elaboradas por cada grupo foram e Bolívia. Para concluir o tema de migração e direitos
projetadas ao coletivo e discutidas. A partir dessa laborais, a expositora afirma que a aproximação
discussão, os atores sociais presentes na oficina entre CAN/CAN, CAN/Mercosul, CAN/Unasul
elaboraram duas propostas finais. As propostas significará uma forte articulação, no que concerne
foram lidas pelo mediador e, em seguida, levadas à ao fortalecimento da integração laboral dos povos
votação, sendo aprovadas por unanimidade. latino-americanos.

_______________________________________________________________________________________________________________

4. D
 eclaração Sociolaboral do MERCOSUL, 10 de dezembro de 1998, Rio de Janeiro - Brasil. Disponível em :
http://www.mercosur.int/msweb/portal%20intermediario/Normas/Tratado%20e%20Protocolos/sociolaboralPT.pdf

5. O
 ficina Internacional do Trabalho. Em: “La capacitación laboral en los países andinos”. Setembro de 1998, Genebra, Suíça.
Disponível em: http://www.oit.org.pe/WDMS/bib/publ/doctrab/dt_076.pdf

36
Outro aspecto destacado pela Embaixadora durante a aplicabilidade do documento um avanço nas
sua comunicação foi o fato de analisar a Unasul políticas públicas locais. Inclusive, tal documento, de
como um espaço para convergência e articulação acordo com ele, poderia ser expandido aos países
das experiências da Comunidade Andina (CAN) andinos. Em referência aos países do Mercosul, o
e do Mercosul. “As relações entre CAN e Mercosul expositor mencionou que parte dos recursos do
devem ser de convergência. Se as normas desses Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul
Blocos forem convergentes, potencializarão a Unasul (Focem) seja destinada ao desenvolvimento das
comercial e politicamente”, afirmou. Nesse sentido, comunidades vulneráveis dos países de que têm
de acordo com a expositora, a integração da América origem os migrantes.
Latina ultrapassa as fronteiras do Mercosul. Ela está
relacionada aos organismos como Unasul, Aladi, Segundo o coordenador do Centro de Direitos
Celac e CAN. Humanos e Cidadania do Imigrante, o Equador
é considerado um exemplo no que se refere aos
Ao concluir, a Embaixadora reconheceu que houve direitos dos migrantes. Por meio de uma política
avanço no âmbito do trabalho decente, como a pública eficaz, o governo equatoriano criou em julho
Declaração Sociolaboral do Bloco. Assim mesmo, de 2008 a Secretaria Nacional do Migrante, com
afirmou que é necessário que haja um encontro entre o objetivo de integrar a política migratória local e
teoria e prática, entre direito adquirido e praticado defender a livre mobilidade como direito de todos
de fato, a fim de colocar em evidência as declarações os cidadãos do mundo. Entre tantos resultados
e acordos já assinados pelos representantes produzidos por essa Secretaria, o mais expressivo
governamentais da região. foi a criação de uma cartilha com os direitos e
deveres dos migrantes no Equador. Ao contrário
A segunda comunicação contou com a participação do exemplo equatoriano, Paulo Illes fez algumas
de Paulo Illes, coordenador do Centro de Direitos críticas ao Brasil que, segundo ele, é o único país
Humanos e Cidadania do Imigrante - Cedic, no do Mercosul que não dá a seus imigrantes direito ao
estado de São Paulo, Brasil. O expositor iniciou o voto. Disse ainda que São Paulo concentra a maior
discurso defendendo as condições de equidade quantidade de trabalhadores migrantes em condição
e segurança para os trabalhadores migrantes na de vulnerabilidade no Brasil.
América Latina. Afirmando que “todo trabalho
é decente; indecentes são as condições”, Paulo Ao concluir, Paulo Illes afirma que há uma mudança
Illes expôs ao público presente que no Brasil e na de paradigma a partir do sul do nosso continente:
Argentina alguns trabalhadores são privados de a América Latina vem cumprindo com os direitos
suas liberdades porque “cumprem jornadas de até laborais na contemporaneidade. Ao contrário
13 horas por um salário mais baixo que o salário da Europa e dos EUA, o nosso continente está
mínimo para suas categorias”. E, para superar esses consolidando os direitos dos trabalhadores. Cita
problemas, é necessário que se cumpra a Convenção o caso brasileiro concernente ao crescimento
Internacional sobre a Protecção dos Direitos de econômico e os direitos laborais: “O Brasil vem
Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros crescendo economicamente, da mesma maneira
das suas Famílias. O expositor ratificou, inclusive, que vêm crescendo os direitos laborais de seus
que Brasil e Venezuela são os únicos países que trabalhadores”.
ainda não adotaram esse documento na América
Latina. Os países que ratificaram essa Convenção
não podem infringir esse estatuto. Assim, não devem
criar políticas locais para tratarem seus imigrantes Propostas finais
de maneira diferenciada e discriminatória.
1. 
Exigimos a implementação imediata do estatuto
Paulo Illes também destacou a importância da Carta da cidadania (decisão CMC 64/2010) do Mercosul,
Laboral do Mercosul, no contexto dos direitos e que deve ser também um marco para provocar
deveres dos migrantes na região. Ele considerou a harmonização das legislações migratórias na

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 37
região, expandindo direitos já existentes em um país
a todos os outros países. Nesse sentido, deve-se
realizar sua ampla divulgação, promover o trabalho
decente, viabilizar a revalidação de diplomas,
garantir a igualdade de gêneros e direito ao voto
pelos imigrantes, bem como à saúde, educação,
entre outros. Nossa defesa é da cidadania universal
para os imigrantes que residem no Mercosul, vindos
inclusive de outros continentes.

2. 
Exigimos políticas públicas direcionadas
à construção de redes de informação e
acompanhamento da situação dos direitos dos
imigrantes em todos os países do Mercosul,
com particular atenção às realidades de partida,
trânsito e destino dos fluxos migratórios.

Considerações finais

Como conclusão da mesa intitulada “Migração e


Trabalho Decente”, ficou evidente a necessidade de
maior tempo disponível para amadurecer o processo
de discussão entre os representantes governamentais
e os representantes civis. As comunicações centrais
consumiram boa parte do tempo, o que dificultou
o debate final. Além disso, as exposições tiveram
um peso significativo no momento de construir
uma matriz de opinião do público presente. Por
isso, as propostas finais tiveram uma forte carga de
influência do conteúdo trabalhado, no decorrer do
encontro. Assim mesmo, é importante mencionar
que o debate final foi profundamente enriquecedor.
Os participantes levaram em consideração
problemas reais no que se refere ao fluxo de
migração, leis trabalhistas regionais, seguridade
social, direito dos imigrantes ao voto, criação de
um plano sindical latino-americano, revalidação de
diplomas e laboratório laboral, entre outros. Todas
as demandas e comentários partiram do coletivo e,
portanto, deveriam representar os anseios concretos
da realidade social dos cidadãos e das cidadãs que
integram os países do Mercosul.

38
X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 39
OFICINA

Mecanismos de
Participação
Social no
Mercosul

Grupo Temático 2: Participação Social no Mercosul


Professora sistematizadora: Renata Peixoto de Oliveira
Coordenadora: Márcia Campos
Temas em debate organizações que lutam contra todas as formas de
desigualdade e discriminação.
• Institucionalização.
2. Institucionalizar uma participação real das organizações
• Protagonismo dos movimentos sociais e participação sociais, que garanta a incidência nos espaços de
na tomada de decisões; e Parlamento do Mercosul. decisão, o acesso à informação e o financiamento, bem
como colocar em prática mecanismos que permitam o
trabalho entre as Cúpulas.

Principais questões sobre as quais não 3. Efetivar os espaços de representação e participação


houve consenso já existentes, como o Parlasul, realizando eleições
diretas em todos os Estados Partes, e regulamentar
• Debater a questão do Focem, sua estrutura, ou criar espaços de participação direta nos diferentes
novo Fundo. fóruns temáticos do Mercosul, de forma a garantir
que as demandas da sociedade civil recebam
• Tentativa de incluir debate sobre imigração. encaminhamento nos órgãos decisivos.

4. Criar um fundo de emergência para o combate à


pobreza, bem como apoiar a saúde e a educação,
Propostas evitando que a migração dos países membros e
associados seja por obrigação, mas, sim, uma opção
1. 
Implementar a Unidade de Participação Social do do cidadão e não uma necessidade recorrente,
Mercosul, responsável pelo acompanhamento das tendo a mesma lógica de arrecadação e distribuição
decisões das Cúpulas, em respeito à diversidade das de recursos que existe no Focem.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 41
Definição de duas propostas mais importantes a Kathia Dudyk, representante do Conselho Nacional
serem apresentadas na Plenária Final de Juventude.

1. Implementar a Unidade de Participação Social do


Mercosul, responsável pelo acompanhamento das
decisões das Cúpulas, em respeito à diversidade das Expositor Jefferson Miola
organizações que lutam contra todas as formas de Diretor da Secretaria do
desigualdade e discriminação, institucionalizando, Mercosul - Brasil no Uruguai
assim, uma participação real das organizações
sociais que garanta a incidência nos espaços de Para Miola, a fotografia desta oficina mostra a vitalidade
decisão, o acesso à informação, o financiamento, do futuro do Mercosul, com a massiva presença da
e colocar em prática mecanismos que permitam o juventude. Faz referências às companheiras da mesa
trabalho entre as Cúpulas. e destaca o fato de o evento estar sendo realizado em
um lugar distante de onde as decisões são tomadas, em
2. Efetivar os espaços de representação e participação termos de política externa e relações exteriores, posto
já existentes, como o Parlasul, realizando eleições que nos reunimos paralelamente às reuniões oficiais
diretas em todos os Estados Partes, e regulamentar que ocorrem no Itamaraty. Salienta o fato de estarmos
espaços de participação direta nos diferentes representando a sociedade civil, mas também o fato
fóruns temáticos do Mercosul, de forma a garantir de não incidirmos sobre as decisões tomadas. De igual
que as demandas da sociedade civil recebam maneira, na Argentina, a Cúpula Social foi realizada em
encaminhamento dos órgãos decisivos. uma ilha, o que é demonstrativo de que, geralmente,
ocorrem em lugares de difícil acesso. Assim sendo,
naturalizamos uma visão precária sobre a participação
social no Mercosul.
Observações
Ele acredita que estamos em estágio muito avançado
A seguir, serão relatadas as comunicações realizadas no Bloco, e que ainda nos encontramos frente a um
na oficina “Mecanismos de participação social” no Mercosul novo, tendo em vista a incorporação da
painel “Participação Social no Mercosul“, que ocorreu dimensão social e política, a partir das presidências de
na manhã do dia 05 de Dezembro de 2012 no Instituto Lula, no Brasil, e Néstor Kirchner, na Argentina. Mesmo
Israel Pinheiro, como parte da programação da assim, ainda há consideráveis desafios, haja vista que
Cúpula Social de Brasília. As exposições antecederam o Instituto Social do Mercosul corre riscos e o próprio
a formação dos grupos responsáveis por sinalizar Parlasul não tem poder de decisão, é apenas consultivo.
as demandas para compor o documento final a ser
entregue aos chefes de Estado. Em realidade, de acordo com ele, estamos diante
de uma nova realidade na região, ao relembrar os
presidentes dos países do Mercosul na época de
sua criação, em 1991. Disto decorre muitos de seus
Abertura aspectos. O Mercosul é o mesmo, mas a região
mudou. Acredita que devemos transmitir ao âmbito
Na abertura, Márcia Campos, coordenadora, deseja comunitário as mudanças da era pós-neoliberal,
boas-vindas a todos e todas e agradece o empenho nossas mudanças políticas recentes, pois ainda, na
por participarem da Cúpula Social do Mercosul. realidade, temos uma velha institucionalidade no
Considera que o painel discutirá mecanismos de Mercosul em relação às suas sociedades. O mundo
participação social no Mercosul, remetendo-se ao financeiro e diplomático é hegemônico nas decisões
debate que ocorreu no seminário que antecedeu tomadas no âmbito do Mercosul.
a Cúpula, afirmando que o referido debate foi
bastante aguerrido. Após informações sobre a Ainda nesse sentido, ressalta que o Mercosul dos
dinâmica dos trabalhos, compõe a mesa convidando anos 1990 foi marcado pelo Estado mínimo, ou seja,

42
“ É necessária a construção de uma governança
comunitária que possa contar com recursos para
organizarmos políticas comunitárias, para um espaço
de deliberação pública. Deve-se combinar democracia
participativa com democracia representativa.”
Jefferson Miola

a estrutura do Bloco é minimalista para não possuir pontuais e não arranjos deliberativos com incidência
capacidade de intervenção na realidade, conforme os real nos processos decisórios do Bloco.
preceitos do neoliberalismo.

Para avançarmos em nossa organização interna, uma


década seria um tempo razoável para alcançarmos Expositora Maria Júlia Aguerre
uma nova institucionalidade. Devemos nos recordar Centro de Participación
que a União Europeia demorou seis décadas para se Popular- Uruguai
consolidar, passando hoje por profunda crise. Miola
afirma que os ciclos históricos não são eternos. As entidades da sociedade civil não foram
Se hoje estamos em fase positiva, esse ciclo tem contempladas no início do Mercosul, nos assegura
duração determinada. Aguerre, mas sempre existiu forte demanda
nesse sentido, desde a criação do Bloco, para que
No que se refere à participação democrática, todos ele se alterasse em diferentes componentes de
os processos de integração foram acompanhados por sua institucionalidade. Assim, criaram-se redes,
um déficit. Foi assim na União Europeia e na Nafta, plataformas e espaços não institucionais para garantir
que enfrentaram grandes resistências e conflitos a participação no Bloco e contribuir com a construção
sociais. Temos o desafio de construir uma nova da integração.
institucionalidade, que seja abrangente em diversas
áreas para que seja possível uma vida comunitária, A sociedade civil, heterogênea e complexa, apresenta
não apenas em termos econômicos, mas com controle uma multiplicidade de atores e visões, o que implica
democrático, direitos sociais garantidos e aliando a necessidade de um aprofundamento democrático
estratégias de desenvolvimento econômico com para que se logre a constituição de um projeto
desenvolvimento social. comum. As redes e fóruns da sociedade civil têm
um papel importante para articular essa mesma
É necessária a construção de uma governança diversidade. Se atuarmos individualmente, não temos
comunitária que possa contar com recursos para força para pensar a integração. Nesse sentido, as
organizarmos políticas comunitárias, para um espaço redes têm o papel articulador, já que são atores locais
de deliberação pública. Deve-se combinar democracia que, além disso, atuam na esfera global, constroem
participativa com democracia representativa. Assim, novas agendas como a discussão pública de novos
seria preciso construir espaços de debate e deliberação direitos, do consumo, de questões ambientalistas, de
pública, pois a política media conflitos e interesses. modelos de desenvolvimento e de regras do comércio
Dessa forma, no interior da sociedade, constituímos internacional.
diferentes visões e hegemonias em determinados
períodos históricos. Fazem-se necessários espaços Segundo Aguerre, a ação local, regional ou global de
para além das Cúpulas Sociais, já que as mesmas são atores sociais levou a direitos e cidadanias múltiplas,

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 43
em uma expansão que transforma antagonismos Devemos criar um novo conceito de cidadania, que
nacionais em solidariedades setoriais, avançando implique em uma noção de direitos e cidadania ativa. O
sobre as fronteiras nacionais, criando assim Mercosul está em construção e seu modelo ainda está
aproximações que são embriões de uma cidadania em disputa. Para construir o Mercosul social e cidadão,
regional. devemos identificar e construir agendas comuns e
regionais. Temos que fazer esforço para colocar-nos
É necessário constituir espaços articulados de visões de acordo com uma agenda comum a partir de toda
compartidas, conformando identidades coletivas. a comunidade do Mercosul, pressionando para lograr
Assim, cria-se uma base de processos de novas esse objetivo. A agenda deve ter caráter regional, e não
configurações de cultura política. ser mera soma das agendas nacionais. Desta maneira,
as Cúpulas Sociais são um bom âmbito para discutir e
A participação da sociedade civil no processo de elaborar essa agenda comum. Outro ponto importante
integração é muito importante. As relações exteriores é vincular o cidadão comum com o processo de
não são mero tratado internacional, posto que, integração.
ainda antes que sejam assinados, existe diversidade
acerca do próprio processo de integração: se vai ser
apenas livre comércio, econômico, ou incluir direitos
de cidadania. Esses temas estão presentes antes e
“ É necessário constituir
durante o processo de integração. Esse é um processo espaços articulados de visões
de mudança que deve transitar em comum em países
e sociedades com estruturas políticas, legais, culturais compartidas, conformando
e sociais diferentes.
identidades coletivas. Assim,
Trata-se de um terreno de conflito e disputas. Se cria-se uma base de processos
estamos convidados a discutir o processo nacional,
temos que participar, de igual maneira, no plano
de novas configurações
regional para pensar a integração. A sociedade civil de cultura política.”
participante implica na legitimidade do processo em si
e a qualidade democrática de sociedades que geram
Maria Júlia Aguerre
este mesmo processo.

44
Devemos fortalecer os espaços de institucionalidade Assim, devemos dizer e trabalhar com os governos
inclusiva do Mercosul, politizando e contribuindo com para aprovar a Carta Sociolaboral do Bloco; colocar
temas, a fim de que tais espaços não fiquem vazios, em marcha o Parlamento do Mercosul; fazer cumprir
com pouco conteúdo. Devemos fazer um esforço para os objetivos do Instituto Social do Mercosul; fazer
aprofundar nossas propostas com rigor técnico, para um plano de ação para a conformação do Estatuto
fortalecer nossa presença nesses espaços institucionais da Cidadania; além de exigir que funcione a Unidade
do Mercosul. Dessa forma, devemos reclamar aos de Participação Social que foi criada por pressão da
governos o cumprimento de compromissos e sociedade civil, mas que precisa de apoio político.
resoluções com ações imediatas a respeito do que
fora decidido nas Cúpulas anteriores, por exemplo.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 45
OFICINA

A Cúpula
Social que
Queremos

Grupo Temático 2: Participação Social no Mercosul


Professor sistematizador: Fabrício Pereira
Coordenadora: Ana Patrícia Almeida
Temas em debate Manifestou-se algum ruído devido às diferentes
concepções sobre a noção de “autonomia”, se
• Institucionalização. autonomia em relação ao governo, autonomia em
• Protagonismo dos movimentos sociais e participação relação ao Estado, em relação à política, etc. No
na tomada de decisões. entanto, percebem-se diferenças de opinião que
• Integração social e política (integração dos povos). transcendem esse debate.
• Integração ampliada.
Dessa discussão deriva outra: a Cúpula deveria ser um
espaço autônomo do qual emanariam as propostas
Principais questões que não dos MMSS para avaliação dos governos, ou um espaço
encontraram consenso de composição de propostas entre MMSS e governos?

As divergências se concentraram, basicamente,


em torno do debate sobre a autonomia ou
dependência dos movimentos sociais (MMSS). Propostas
Alguns participantes manifestaram a defesa da
integração dos MMSS com os governos, que devem 1. Gerar um espaço de encontro prévio entre as Cúpulas
ser defendidos. A maturidade dos MMSS não deve para que haja maior discussão.
levar à autonomia, mas à consciência de que é
necessário apoiar os governos atuais da região, com 2. Celebrar a institucionalização das Cúpulas, enquanto
os quais se pode dialogar como nunca antes. Não uma conquista; e fortalecer a institucionalização,
se deve retroceder à etapa anterior (Cumbres de los trabalhando para dar um salto de qualidade na
Pueblos, etc.). Autonomia leva à fragmentação, que participação até aqui alcançada.
significa enfraquecimento dos governos populares.
Essa posição foi, majoritariamente, defendida por 3. 
Criar mecanismo entre as Cúpulas de mesas de
representantes argentinos. seguimento e acúmulo de todas as Cúpulas.

De outra parte, apresentou-se a defesa da autonomia 4. 


Realizar implementação imediata das eleições
enquanto soberania, distanciamento, capacidade de diretas do Parlasul, do Estatuto da Cidadania e
crítica e disputa, o que não significa falta de apoio fortalecimento do Instituto Social do Mercosul.
e sustento aos governos, sempre que necessário.
Não se vai fazer o “jogo da direita”, mas autonomia 5. 
Implementar um programa de capacitação e
é crucial, na medida em que não são “nossos formação de quadros dirigentes dos MMSS.
governos”, mas governos de composição. Posição
defendida, majoritariamente, por representantes 6. 
Criar um sistema (ao menos provisório) de
brasileiros. coordenação entre os MMSS.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 47
7. 
Constituir oficinas permanentes de convivência política, cultural e econômica com o Estado da
com metodologias de participação democrática Palestina, de modo a dar suporte à sua viabilidade e à
de educação popular nos sistemas educativos dos sua consolidação em meio a tanta adversidade. Viva
países do Bloco. o Estado da Palestina! Viva a paz no Oriente Médio!

8. 
Criar Cúpulas Sociais com agenda e definição 3. 
Saudamos a entrada da Venezuela no Mercosul e
de participantes definida pelos MMSS – com esperamos o pronto ingresso da Bolívia e do Equador.
financiamento estatal.
4. Moção à representação do povo do Paraguai na XIV
9. 
Lutar para que os Estados Partes garantam Cúpula Social do Mercosul. Saudação à expressiva
financiamento de Cúpulas Sociais com agenda e presença e participação das organizações sociais do
participação definida pelo conjunto de organizações Paraguai na Cúpula, rumo ao retorno da democracia
participantes de cada país. plena no país.

Observações

Definição de duas propostas mais Houve diversas intervenções por parte da plenária,
importantes a serem apresentadas na no sentido da defesa de melhor metodologia dos
Plenária Final eventos onde há participação. Por exemplo: regras
claras, divulgação antecipada das agendas e melhor
1. 
Fortalecer e celebrar a institucionalização das organização. A Cúpula é um espaço conquistado que
Cúpulas Sociais, trabalhando fortemente para dar um deve ser aperfeiçoado, mas valorizado. As Cúpulas devem
salto de qualidade na representação e participação ser institucionalizadas e reconhecidas – assim como
até aqui alcançada. Nesse sentido, construir mesas outras redes regionais de participação. Essa inovação
permanentes de cada eixo temático que funcionem não deve ser perdida, não se deve perder o diálogo entre
entre as Cúpulas para seguimento, avaliação e análise os movimentos sociais e os organismos do Mercosul e
pré e pós Cúpula. entre os movimentos sociais e os governos. No entanto, a
Cúpula deve ser aperfeiçoada, como a culminância de um
2. 
Formar uma coordenação permanente das processo de participação. Devem ser explorados espaços
organizações sociais para realizar o seguimento e anteriores de participação até se chegar à Cúpula.
avaliação do Plano Estratégico de Ação Social (Peas).
Afirmou-se também não haver uma representatividade
da riqueza da sociedade (e nem do interior do próprio
governo), mas há caminhos metodológicos ainda a
Moções explorar para a melhor relação e aproveitamento de
um e de outro. De fato, há uma demanda reprimida de
1. 
Moção Estado Palestino já! Saudação ao povo maior participação das organizações na realização da
palestino pela aprovação, na ONU, do status de Cúpula e pela autonomia do processo – mas a falta de
Estado Observador, que foi comemorado no mundo representatividade afeta ainda mais seus resultados.
todo. Uma profunda vitória do povo palestino!

2. 
Moção pela suspensão dos acordos comerciais
com Israel. Os movimentos sociais, organizações Coordenadora Ana Patrícia Sampaio
da sociedade civil e acadêmicos exortam os países Centro de Ação Cultural, Paraíba,
do Mercosul a suspenderem os acordos comerciais que coordena o Programa Mercosul
com Israel até que este país abandone a política de Social e Solidário no Brasil,
construção de assentamentos em áreas palestinas, rede de MMSS, ONG’s
bem como retorne as negociações de paz. Também
instamos os governos a ampliarem a cooperação Informou que houve uma disputa com os governos

48
pelo poder de convidar e de definir a agenda da Apresentação de Gonzalo Berrón
Cúpula, e não se conseguiu de todo – agendas foram Diretor da Fundação Friedrich Ebert
definidas pelos governos, e nem todos os indicados
foram convidados. De outra parte, a organização se A internacionalização dos MMSS da região teria
defende dizendo que não há, por opiniões políticas, começado na luta contra a Alca. Antes disso, as questões
censura nem seleção de quem participa. internacionais eram tratadas majoritariamente pelos
partidos. O movimento ambientalista teria sido o
primeiro a nutrir preocupação internacional. Depois
do bloqueio da Alca, organizações sociais se voltaram,
Apresentação de Fátima Melo com esperanças, aos processos de integração regional.
FASE e Rede Brasileira pela
Integração dos Povos A crise mundial paralisa os processos de integração
– com exceção da Unasul, um Bloco eminentemente
Temas a serem tratados num espaço político.
como a Cúpula:
As Cúpulas levaram a um processo de aprendizagem
• A integração na região mais desigual do mundo por parte dos MMSS e dos governos. Diálogo, estudo,
deve ter como ênfase a redução das desigualdades. etc são um conquista. No entanto, deve haver
Além de redução das assimetrias entre países, a mudanças:
integração deve servir para reduzir as desigualdades
internas; • Defesa de autonomia da Cúpula Social
• Defesa da transparência de informação
• Inauguração de novo ciclo político na região • Direito à consulta em qualquer tema que vá ter
constitui momento histórico, positivo para a impacto social
construção de novos arranjos institucionais • Capacidade de levar propostas, e obrigatoriedade
na integração. No entanto, o ambiente do de que elas sejam tratadas
pós-neoliberalismo ainda não resultou no
desenvolvimento de novos arranjos institucionais
nos espaços de integração;

“ A integração na região
• Discussão sobre o neoextrativismo, defesa de novo
padrão de desenvolvimento, que deve ser debatido mais desigual do mundo
num espaço como este;
deve ter como ênfase a redução
• A Cúpula Social deve centralizar a discussão, das desigualdades.”
não ficar isolada como um espaço de debates
“do social”. Setores empresariais devem ser
Fátima Melo
chamados ao debate aqui, evitando que a Cúpula
seja um espaço paralelo. Temas-chave devem ser
discutidos aqui: econômicos, comerciais, gestão
compartilhada dos recursos naturais, direitos
sociais regionais, salário mínimo comum. A Cúpula
deveria colaborar para a consolidação de uma
posição concertada da região. Devem-se debater
os outros mecanismos de integração e articulações
possíveis com eles: Alba, Unasul etc.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 49
OFICINA

Comércio
Justo e
Economia
Solidária

Grupo Temático 3: Tecnologias Sociais e Integração Produtiva


Professores sistematizadores: Fábio Borges e Felix Pablo Friggeri
Coordenadora: Shirlei Silva
Introdução % de agua, y 6 % de población, esta relación es
por la cual vienen. Tenemos 12 % de la producción
Antes de debater acerca do tema da oficina previsto de pesca y materiales estratégico, Niobio, Litio, el
para a tarde, Mário Volpi, ex-combatente das Malvinas 90 % está en AL, Hidrocarburos, Hay 3000 boyas
de La Plata, fez a sua exposição sobre as Malvinas, controlando el Atlántico Sur, Sistema Argo, controla
conforme fora acordado pela manhã. clima, salinidad, temperatura, Minería extractiva de
los fondos marinos, el proyecto del Reino Unido es la
Segundo Mário, existem 72 bases militares na alta tecnología en el mar, la empresa que extrae los
América Latina que ameaçam os recursos naturais. módulos polimetálicos, lo extraen del fondo marino
Argumentou que a questão das Malvinas é a do lo que está prohibido (...)”
futuro dos recursos naturais, na medida em que as
potências estariam lá por conta dos hidrocarbonetos. Concluiu falando sobre o lema: “Voltar às Malvinas de
mãos dadas com a América Latina”. Portanto, acredita
Informou que nas Malvinas existe um acesso para que tenhamos que defender a desmilitarização do
a Quarta Frota, presente na região por “razões Atlântico Sul. Para ele, todos os presidentes deveriam
humanitárias”, mas o que está em jogo, de fato, são os buscar dialogar com o Reino Unido, dentro das
recursos antárticos, a água doce e a biodiversidade resoluções da ONU, em vistas a estabelecermos, no
(com potencial farmacêutico) da região. Explicou a Atlântico Sul, uma zona de cooperação e paz.
pretensão do Reino Unido para o estabelecimento
de uma Antártida britânica, a reconfiguração da
presença do Ocidente em uma área que havia
abandonado depois da descolonização da África. Shirlei Silva Fórum Brasileiro
Dessa maneira, com enclaves coloniais, controlaria Coordenadora
toda a região até o Brasil no Atlântico Sul e também
a costa africana. Começa fazendo as seguintes perguntas: Será que o
comércio justo é possível no mundo de hoje? Seria
Questionou a razão da América Latina ser interessante, possível um Mercosul participativo? Apresenta os
explicando: dois palestrantes: Jorge Strade, da Fundação Banco
do Brasil, e Francisco dos Reis, da Alampyme da
“Con 40 % de biodiversidad, 30 % reservas Argentina.
florestales, 106 millones de has. agrícolas, por qué
vienen por el agua, Sudamérica es 2ª reserva, 26

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 51
Jorge Streit Informou também que existem 14 mil hortas
Fundação Banco do Brasil agroecológicas, e que foi criado um sistema
de compras públicas para essas produções. O
O expositor inciou o seu discurso declarando expositor forneceu exemplos de experiências bem-
que a Fundação Banco do Brasil (FBB) tem uma sucedidas, como o da fécula da mandioca na Bahia.
boa imagem dentro do núcleo que trabalha com Existe ali uma cooperativa que, após oito anos,
agricultura familiar e que já conseguiu firmar linhas começou a produzir a fécula da mandioca em um
de atuação dentro do país. Também informou que empreendimento solidário. Outro exemplo é o caso
estão conseguindo ter uma visibilidade nos países da Cocaram (uma cooperativa cafeeira de Roraima),

vizinhos e intercambiar ideias com companheiros dos que produz café orgânico de grande qualidade

outros países. na Amazônia brasileira. Também apontou a Rede


Cerrado, que produz mel e vários produtos em

Disse que a Fundação se destaca pela tecnologia Brasília, com agregação de valor.

social, não pela criação de artefatos, mas sim pelos


Declarou que é central que as políticas públicas
métodos e práticas que são usados no trabalho
coloquem em evidência a tecnologia social,
com as comunidades para produzir transformação
trabalhando com o governo brasileiro e alguns
social. Informou que, às vezes, produzem tecnologias
governos estaduais. Informou que estão construindo
inovadoras, mas que frequentemente incorporam
um debate com a Secretaria-Geral da Presidência da
tecnologias conhecidas pelas comunidades. E o fato
República e com a Secretaria de Educação, no sentido
de dominar a tecnologia significa muito: consegue-se
de que os professores trabalhem o tema da Tecnologia
se apropriar melhor do valor agregado das cadeias
Social. Acrescentou que, junto aos Institutos Federais,
produtivas. Acrescentou que já existe um banco de
estão criando centros de referência, como no caso da
tecnologia social com 504 soluções registradas e que
tecnologia da reciclagem do bambu.
a FBB fez uma grande rede com a Petrobras e o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
Explicou que, principalmente nos Institutos nas áreas
(BNDES), e isso vai avançando. Criou-se também
lindeiras, como na Tríplice Fronteira com a Unila,
um Prêmio, de dois em dois anos, para a tecnologia
estão convidando os técnicos argentinos, brasileiros,
social no Brasil; e fizeram-se convênios, por exemplo,
uruguaios e paraguaios que sabem apenas a tecnologia
para tradução, em outros idiomas, da tecnologia
tradicional, dos grandes domínios do agronegócio,
social desenvolvida aqui. Também se criou o Banco
para realizarem um diálogo com a economia solidária
de Tecnologias Sociais no âmbito do Mercosul, que
e o comércio justo. Salientou que muitos estudantes
visa cadastrar projetos que são realizados em outras só sabem tecnologias convencionais - defensivos
partes da América do Sul. agrícolas, etc. - e que no Brasil já existe dificuldade
de contratar técnicos em comércio justo e economia
Ressaltou que muito do trabalho da Fundação está solidária.
voltado para a agroecologia, para trazer práticas ao
debate sobre sustentabilidade. A tecnologia social Estão propondo criar a rede das redes. Nela, por
é um instrumento que permite impactar quatro meio da cultura digital, discutir-se-iam as redes
dimensões: agroprodutivas. Deu um exemplo na questão da
coordenação entre Brasil (Acre) e Peru na questão
• Agroecologia: trazer para a prática o debate da dos peixes na fronteira. Finalizou dizendo que
sustentabilidade, temos muitas características em comum com os
países vizinhos (ditadura, neoliberalismo e governos
• Respeito cultural, populares) e que agora estamos em situação de
construir alternativas.
• Solidariedade econômica
Nesse sentido, a coordenadora Shirlei perguntou
• Protagonismo social como a tecnologia poderia estar disponível para

52
“ É necessário distanciar-se do neoliberalismo, pois
o mesmo levou a Europa a uma crise terminal, e
acredita que eles seguem insistindo nisso.”
Francisco dos Reis

todos os povos e como os movimentos podem se de emprendimientos que han sobrevivido y hasta
fortalecer. Também questionou como se estuda a están calificadas para exportar, (...) Teníamos que
economia solidária, enfatizando que o modelo atual cambiarles la mentalidad de los empresarios (…).”
não é a Economia para os pobres. Defendia que a gestão das empresas não deveria
ser pautada somente pela crise, mas pelo uso da
criatividade para lidar com a crise argentina, em vez
de punir ainda mais os trabalhadores.

Citando Samir Amim, disse que é necessário


Palestra 2 distanciar-se do neoliberalismo, pois o mesmo levou
a Europa a uma crise terminal, e acredita que eles
Francisco dos Reis seguem insistindo nisso. Chegaram a dizer que, na
Alampyme, da Argentina Argentina, não haveria leite, pão, trigo e nada disso
aconteceu.
Francisco começou relatando ter vindo da área das
“Pymes” (pequenas e médias empresas), e que uma Comentou sobre a “Crise Tequila”, no México, e
vez se encontrou com Lula na Nicarágua, ocasião em como a Alampyme foi para lá e não podia acreditar
que foi articulado um grupo entre México, Nicarágua, nos impactos. Imaginava-se que isso ocorreria com
Brasil e Argentina (que depois foi ampliado para todos. Disse que descobriu que essa crise era pior
13 países). Uma das razões pelas quais o grupo e maior que a de 1929, mas que a inércia agravaria
foi idealizado é porque se acreditava haver uma seus efeitos. Disse haver percebido a resistência do
separação entre o empresariado e a comunidade. inimigo, e citou a Lei de Meios debatida na Argentina,
Disse que em todos os países existia uma corrente de que visa diminuir o poder do Clarín.
opinião progressista de defesa do mercado interno,
defesa do salário, um protecionismo relativo. Em suas Fez as seguintes propostas:
palavras, uma “economia entornada”, nem aberta e
nem fechada. 1. 
O Mercosul tem uma agenda, mas não interação
entre pequenas empresas. Propôs o encontro entre
Afirmou que nunca tinha imaginado em 2001 o que 20 empresários, sendo 5 de cada um dos países do
ocorre hoje, pois, durante a crise, muitas empresas Mercosul, e que se reúnam para ver o que podem trocar.
foram tomadas pelos trabalhadores. Os trabalhadores
tinham muito medo dos empresários e eles, por 2. 
Que se adotem novas formas de produção nos
sua vez, tinham medo de apoiar aos trabalhadores. negócios transfronteiriços.
Explicou, em seguida, que “nosotros decíamos que
todo lo que se salva no se va, y hoy hay cientos 3. Que o Brasil tenha um papel central.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 53
Concluiu dizendo que seu sonho era o de combater a Grupo 1
fome entre as crianças.
1. Criar o prêmio Mercosul de Tecnologia Social
A coordenadora Shirlei fez alguns questionamentos, (referência ao prêmio da Fundação Banco do Brasil).
tais como: Como incentivar pequenas empresas e
pequenos produtores? É possível fazer isso? Como 2. Certificar como Tecnologia Social os conhecimentos
pensar a integração entre esses diversos atores? e saberes dos povos originários e das comunidades,
Como projetos escritos avançam? Como nossos para gerar novo modelo de desenvolvimento.
produtos podem ter um mercado comum? Declarou,
ao final, que a economia solidária ainda é formada Grupo 2
por produtos marginais.
1. Criar espaços e redes para construção do
Na fase de debates, um dos participantes afirmou conhecimento livre chamado “tecnologia social”, que
que seria excelente a ideia de cadeias municipais, em uma perspectiva inclusiva sirva para articular,
mas questionou a atitude que seria tomada sobre a intercambiar e potencializar soluções relacionadas ao
complexidade das fronteiras. comércio justo e a economia solidária no Mercosul.

Luis Carranza (Plataforma de Articulação Grupo 3


Solidária, Faces do Brasil) disse que o Brasil está
na implementação do comércio justo e solidário, 1. Instituir uma plataforma de dados e sistematização
inclusive com apoio do Ministério do Trabalho. de Tecnologias Sociais (TS) com fomento à formação
Apontou que seria importante saber como o Brasil de multiplicadores regionais a partir da educação
está implementando essas iniciativas e quais as básica.
experiências dos vizinhos. Andréa (Centro de
Tecnologia Social do Sertão de Minas Gerais)
discutiu qual seria a maneira mais prática de
sistematização dessas experiências e divulgação Propostas finais
no Mercosul.
1. 
Constituir uma plataforma de dados e
Retomando a palavra, Francisco Dos Reis argumentou sistematização de Tecnologias Sociais para
que os países mais prejudicados no Mercosul são potencializar os conhecimentos e saberes dos
Paraguai e Uruguai. Para ele, existe uma tentativa povos originários e das comunidades, assim como
de desenvolver o Banco do Sul, além do tema da das práticas de comércio justo e economia solidária,
moeda Sucre como um substituto do dólar para as permitindo criar mecanismos de certificação
transações internacionais, como já vem ocorrendo destes saberes e práticas de desenvolvimento.
entre Venezuela, Equador e Nicarágua. A criação do prêmio Mercosul de Tecnologia Social
(tendo como referência o prêmio Fundação Banco
Por sua vez, Jorge Streit disse que o grande objetivo do Brasil de Tecnologia Social) irá contribuir para
era a sistematização das experiências em Tecnologias o fortalecimento e/ou criação de espaços e redes
Sociais, tanto com fundações brasileiras como não em uma perspectiva inclusiva e para o fomento
brasileiras. Propôs também a criação de uma espécie à formação de multiplicadores regionais a partir
de manual e argumentou que isso seria um grande da educação.
salto entre nós. A concretização desse objetivo
estaria prevista para a metade do ano de 2013. 2. Instituir o livre trânsito dos produtos e serviços da
economia social, solidária e popular no Mercosul
A partir daí, os participantes se dividiram, por proposta
de Shirlei, em pequenos grupos para a elaboração de
duas propostas sobre a temática tratada, quais sejam:

54
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OFICINA

Soberania e
Segurança
Alimentar
e Nutricional

Grupo temático 3: Tecnologias Sociais e Integração Produtiva


Professores sistematizadores: Fábio Borges e Felix Pablo Friggeri
Coordenadora: Alessandra Luna
Introdução Palestra 1

A mediadora da oficina foi Alessandra Luna, da Elizabeth Tortosa


Confederação Nacional dos Trabalhadores da Participación Activa y Social - PAS
Agricultura (Contag) e responsável pelas Relações
Internacionais da Organização dos agricultores Segurança e Soberania Alimentar na Venezuela
familiares e assalariados.
Elizabeth começou dizendo que estava feliz por
Explicou a forma de trabalho, relembrando que estar naquele espaço e que se sentia privilegiada
se sugeriria chegar a duas propostas prioritárias. por ser a primeira vez que a Venezuela participava
Também esclareceu que todos receberiam uma do Mercosul. Fez uma citação de Chávez: “El amor
versão preliminar da Declaração da Cúpula e que alberga el corazón de una mujer es una fuerza
que poderiam fazer emendas, desde que fossem sublime para salvar la causa humana, ustedes son la
emendas coletivas (com prioridade para aquelas vanguardia de esa batalla” e apresentou o seguinte
envolvendo mais de um país) e que tivessem um questionamento: quais são as leis que tivemos que
caráter regional. mudar na batalha pela alimentação?

Apresentou os dois palestrantes: Elizabeth Tortosa Afirmou que o mundo capitalista sofre umas das
(Participación Activa y Social - PAS – Venezuela - maiores crises de sua história: a crise alimentar. Junto
Organización de Mujeres “Participación Activa por aos maiores níveis tecnológicos também existem
los Derechos de la Mujer”) e Edélcio Vigna (Instituto maiores níveis de fome. Dois fatores explicariam
Socioeconómico -Inesc) a situação alimentar: 1) a especulação financeira
tomou o mercado de alimentos de assalto, uma vez

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 57
que o capital investe em alimentos para lucros fáceis
e rápidos; 2) um crescente volume de alimentos
se orienta para os biocombustíveis,
existem sérias deficiências na alimentação humana,
enquanto
“ Somente um Estado
pressionando os preços e reduzindo a disponibilidade democrático que encarne os
de alimentos para os seres humanos. Em outras
palavras, houve uma perversão ética da importância
interesses populares poderia
social dos alimentos. estimular a produção e a
Segundo Elizabeth, no que diz respeito à Venezuela, compra da colheita por um
os governos da burguesia ao longo do século XX
deixaram um pesado lastro social, agravado pelas
preço justo, estabelecendo
políticas neoliberais aplicadas nos anos 90. Elevados e desenvolvendo cadeias
níveis de desemprego, pobreza, miséria e exclusão se
traduziram em alarmantes e massivos fenômenos de
de produção.”
fome e desnutrição.
Elizabeth Tortosa
As políticas de abertura econômica exterminaram boa
parte da produção agrícola, já golpeada pelo modelo
rentista imperante no país. Esse modelo estimulou, metade a proporção das pessoas sob tais condições
desde os anos 30, uma agricultura de portos com antes do ano de 2015. Acrescentou que, desde 1999,
efeitos destrutivos sobre a produção interna agrícola a Venezuela conseguiu incrementar em 80% o acesso
e de alimentos como um todo. da população aos alimentos e em 74% aos produtos
da cesta básica. Da mesma forma, a ingestão de
De outra parte, também explicou que esse modelo de proteínas entre os venezuelanos passou de 29,7
capitalismo rentista e dependente, em vez de propor gramas diárias para 47,6 nos últimos treze anos,
a erradicação do latifúndio, estimulou-o. A reforma enquanto que o consumo diário de calorias aumentou
agrária levada a cabo nos anos 60, “con los fines de de 2.127 para 3.182 calorias.
frenar el avance del comunismo”, se reverteu em uma
maior concentração da propriedade da terra e na Elizabeth mencionou que o avanço nas políticas de
crescente pobreza rural e urbana. alimentação estava relacionado às políticas públicas
do Estado venezuelano dirigidas a produzir, distribuir
Ainda de acordo com a exposição de Tortosa, a resposta e comercializar os alimentos de forma oportuna
histórica para essa profunda crise social e sistêmica e a baixos custos para toda a população. Assim se
que atravessou o país na última década do século inscrevem as redes de distribuição de alimentos
passado foi precisamente a Revolução Bolivariana, subsidiados como a Mercados de Alimentos (Mercal),
a qual incluía especialmente o setor agrícola. as redes de comercialização como a Productora y
Nesse sentido, informou que o Governo Nacional Distribuidora de Alimentos S.A (Pdval) e Abastos
tem desenvolvido políticas sociais e econômicas Bicentenario, assim como as empresas públicas e
dirigidas a erradicar a fome e a desnutrição do povo comunitárias nos setores agrícolas e agroindustriais.
venezuelano, em que a estratégia de Segurança e Redes vão substituindo as redes especulativas de
Soberania alimentar tem desempenhado um papel de distribuição de alimentos. Tais fatores têm permitido
extraordinária importância. à Venezuela dar um salto gigantesco contra a
desnutrição e a fome.
O reconhecimento desse esforço foi dado pela FAO,
que fez um anúncio declarando que a Venezuela Outro notável contribuinte ao alcance dos objetivos,
se encontra entre as nações latino-americanas e é o programa de alimentação escolar, que garante a
caribenhas que já cumpriram a Meta do Milênio sobre alimentação gratuita e balanceada a todas as crianças.
o combate à fome e à miséria, por haver reduzido à Nas palavras da própria expositora:

58
“Con estas políticas se ha logrado que solo el 1,6% de generadas por los enemigos de los cambios sociales
los venezolanos come menos de tres veces al día y y políticos, que tienen lugar en el país, y que golpean
sólo el 0.4% una vez o menos. En Venezuela los niños poderosos intereses responsables por la crisis del
desnutridos constituyen sólo el 3,25% de la población, país en el siglo XX. Estos sectores van perdiendo sus
un indicador que superaba 7% antes de la Revolución privilegios y la reacción a ello es el chantaje a través
Bolivariana, en tanto que la desnutrición global se del acaparamiento y la especulación más voraz, a
ubicaba en más del 11%, situándose actualmente en los fines de detener las transformaciones creando
menos del 6%. El hambre ha sido erradicada como zozobra en la población e inestabilidad del sistema
fenómeno social, que tanto peso evidenció en el político. Eso lo vivimos de la manera más cruda en
pasado reciente, y ya no existe el problema de la víspera y durante el golpe de Estado, que derrocó
desnutrición como problema de salud pública.” por 48 horas al Comandante Chávez en abril del año
2002, así como durante el sabotaje petrolero del
Explicou que o Estado promove a agricultura 2002-2003.”
sustentável para garantir a segurança alimentar.
Esta, por sua vez, seria de interesse nacional, com Concluiu que se oferecem estímulos aos médios e
níveis estratégicos de autoabastecimento, setores pequenos produtores, fator chave na luta contra
artesanais e de pesca protegidos e a proibição da o latifúndio, que coloca a terra a serviço dos
pesca de “arrasto”. Promulgaram-se 11 leis nesse especuladores. Mas isso provoca terrorismo nas
sentido. Dentre elas, a Lei de Terras e Desenvolvimento zonas rurais, que deve ser derrotado com uma
Agrário e a Lei de Segurança Alimentar. Citando suas importante força social no marco de uma verdadeira
próprias palavras: revolução agrária. Já foram contabilizados cerca de
200 camponeses assassinados.
“Como podemos observar no se trata tan solo de
garantizar la seguridad alimentaria, es decir, el Por fim, Tortosa declara estar suficientemente
acceso de alimentos de calidad y a bajos precios por documentado que o mercado não é o mecanismo
parte de la población, sino, más aún, de alcanzar la adequado para melhorar a produção de alimentos,
soberanía alimentaria. En ese sentido se desarrollan pois os convertem em mercadoria. Somente um
planes para elevar la producción y la productividad Estado democrático que encarne os interesses
de a producción agrícola y agroindustrial. Esto populares poderia estimular a produção e a compra
es esencial para sustituir el elevado componente da colheita por um preço justo, estabelecendo e
importado de los alimentos y de los insumos de la desenvolvendo cadeias de produção. Para ela, o
industria agroalimentaria del país. La dependencia governo de Chávez revela vontade política, mas,
de la importación de esos rubros constituye un além disso, é necessária uma importante participação
rasgo característico el modelo rentístico petrolero. popular capaz de derrotar os inimigos da mudança e
El objetivo es incrementar las hectáreas de siembra, construir um novo modelo de produção.
elevar el rendimiento de la producción, así como
diversificar la producción en la medida de nuestras
posibilidades climatológicas. La dependencia de
las importaciones genera una tremenda fragilidad Palestra 2
económica-financiera al exigir un volumen muy
importante de divisas para satisfacer un área vital de Edélcio Vigna
la sociedad, en un contexto internacional de severas Instituto de Estudos
presiones al alza de los precios de los alimentos.” Socioeconômicos - Inesc

Apontou também o que ela chama de “inimigos das Edélcio começa destacando a importância desse
mudanças sociais”: tema na Cúpula. Crê que a crise nos preços dos
alimentos denota a necessidade de debatê-lo em
“Asimismo, esta situación provoca una elevada meio à crise global. Salienta que há ganhadores e
fragilidad política, que se desprende de presiones perdedores com esse jogo internacional dos preços

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 59
dos produtos alimentícios básicos. Ressalta que, garantir a segurança sobre o seu próprio país, com
quando falta alimento para a classe empobrecida os vizinhos passando fome.
brasileira, a população uruguaia, paraguaia, argentina
e de outros países vizinhos também sofre. Ou seja, a Segundo o expositor, nós temos que romper com
desnutrição pode afetar toda a região. a macroeconomia, com a macropolítica, pois são
construções sociais que podem ser ressignificadas.
Explicou que, em sua opinião, a discussão da sociedade Enfrentar a oligarquia que define, com todo o poder
civil é importante, porque deveríamos nos mobilizar, político e econômico, o que vamos plantar e comer é
nos unir para pressionar os governos a promoverem difícil, mas não impossível.
produtos alimentícios seguros, livres de transgênicos
e agrotóxicos. Acrescentou que não seria o governo, Por fim, ressaltou que o Brasil tem superávit comercial
por si só, que se preocuparia com essa questão, mas com todos os países na América do Sul; ou seja, retira
sim que ele atua a partir das pressões da sociedade. recursos dos outros países. O Brasil não deveria se
E alertou: se não existe pressão, seguiremos comendo gabar dessa balança comercial positiva, mas sim
agrotóxicos e plantando sementes transgênicas. utilizar esses recursos para políticas regionais. Não
Destacou ainda que não seria a mobilização de apenas adianta uma classe social do Brasil acumular riqueza.
um país que funcionaria, mas sim que deveríamos Temos que pensar: como é que esses recursos podem
pensar formas de pressionar regionalmente, de modo voltar para as populações vizinhas?
que os recursos públicos aplicados favoreçam a nossa
alimentação. Questiona quantos atuam na Reaf (instância do
Mercosul em que se discutem as questões agrícolas
Disse que agora estão chegando mais companheiros do Bloco). Afirma que temos que incitar os nossos
da sociedade civil para essa luta regional. Acrescenta governos a integrar o Reaf, porque lá se propõe a
que, quando se pensa em Pátria Grande, estamos reforma agrária, a agricultura familiar e camponesa
pensando em povo grande, não em governos grandes. em nível regional. Por fim, diz que sem a nossa
Porque se o povo é grande, o governo terá uma organização e propostas, não quebraremos a
expressão grande, mas baseada no povo. hegemonia da elite agrária desse continente.

Analisou que quem produz alimentos não é o A coordenadora Alessandra concluiu as apresentações
agronegócio, mas a agricultura familiar e camponesa. da Oficina destacando a importância, para as
Informou que, no Brasil, 70% do que comemos é organizações, da agenda de soberania e segurança
produzido pela pequena agricultura. Para ele, se não alimentar, observando a conjuntura que assola todos
houver reforma agrária, não teremos nem soberania os continentes. Disse que não via alternativas para
e nem segurança alimentar e teremos que importar o processo de insegurança alimentar, a menos que
alimentos. se fortalecessem os produtores, para o que seria
necessária a união da sociedade civil nessa agenda.
Adverte que, quando falamos de agricultura, Afirmou que, quando se produz e não se tem um
estamos pensando em confrontar a oligarquia - o preço justo, também não se tem esse preço justo aos
uso da terra como propriedade, instrumento de que compram nos centros populacionais. Esclareceu
controle social. Mas a terra é vista também como um que nosso continente produz a quantidade suficiente
bem da nação, com função social. Uma empresa ou de alimentos, mas que o problema é a governança.
um agente financeiro não pode comprar uma terra Disse que entende que a agricultura familiar é
para especular sobre ela. É um direito aprovado pela fundamental na associação com a sociedade civil;
FAO que a terra deva ser desapropriada quando não por isso, estão desenvolvendo uma articulação nos
cumpre a sua função social de produzir alimentos, quatro continentes em torno da construção do ano
de produzir aquilo que o país precisa. A terra é internacional da agricultura familiar como estratégia
um bem nacional para a população nacional e um mundial. Acrescentou que existe um grande risco de
bem regional para a população regional. Também desaparecimento desse setor, já que a apropriação
argumentou que um país não deve se restringir a das terras coloca os camponeses nas cidades.

60
Iniciando os debates, Soledad Fontela (do Uruguai, o camponês: pesquisa participativa, conhecimento e
formando parte da Acir) disse que ali estavam experiência.
pessoas com acúmulo em distintos temas, sendo ela
militante da tecnologia e da acessibilidade. Explicou Sobre a livre circulação da produção, diz que, dentro
que no Uruguai, no início do século XX, houve um do capitalismo monopolista, lamentavelmente se
político que se comunicava pelo rádio e que se transacionam grandes quantidades de monoculturas.
fortaleceu muito, porque informava quais seriam os E faz a seguinte indagação: poderia o Brasil vender
preços justos das mercadorias. Concluiu que, com a produtos que não existem no Peru e vice-versa?
tecnologia de hoje, isso seria mais fácil ainda. Propôs Informou que o Peru possui 3.500 variedades de
a participação cidadã no Mercosul. batatas, e que, por isso, teria que haver livre comércio.
Mas salientou que isso não quer dizer desordem e que,
A seguir, Andréa (Centro de Tecnologia Social do para garantir essa livre circulação, é necessário fazer
Sertão de Minas Gerais) ressaltou que a reforma uma normativa de agricultura orgânica, para fins de
agrária das décadas de 60/70 não foram construídas certificação participativa do pequeno produtor com o
pelos povos, mas sim pela estratégia política de consumidor.
grupos. Que seria necessária uma reforma agrária
diferenciada desde o conceito de soberania alimentar, Ressaltou, quanto ao direito à propriedade privada no
em que os povos não sejam abandonados à mercê Acre e em Madre de Dios, onde um grande território
da sorte. Apontou também o envelhecimento da agrícola está sendo concedido pelos governos para
população rural. Dessa maneira questionou: quais as a exploração de minerais, que deveria haver uma
bases da reforma agrária? Que tipo de política pública regulação, não simplesmente desse espaço externo, e
podemos oferecer? Apontou a descontinuidade das sim desde o subsolo. Por fim, defende que a educação
políticas, pois, quando ascendem novos governos, deve estar em função de cada localidade, pois muitas
tudo se transforma e se perde. universidades ofertam cursos não relacionados com
suas localidades.
Finalizando, Eber Sanchez (peruano, agrônomo)
relatou que, de acordo com sua experiência, a Nesse momento, a coordenadora Alessandra retoma
agricultura familiar deve vir associada ao respeito ao a palavra e propõe formar pequenos grupos para
meio ambiente. Informou que nos Andes Peruanos construir as prioridades. Abre-se, no entanto, um debate
as terras estão subdivididas em famílias, com 1000 sobre essa proposta. Para Humberto Nadal (Tucumán),
m2 cada uma em média, e que essas famílias usam essa proposta não seria boa, pois representaria
produtos químicos por influência dos meios de continuarmos pensando como o Ocidente, ou seja,
comunicação. Adicionou que a tecnologia tem que não deveríamos atomizar o conhecimento. Critica a
ser produzida desde a experiência do camponês; deve divisão proposta pelas Nações Unidas entre o homem
existir sinergia entre a pesquisa técnica e a que faz e a biosfera. Termina seu discurso dizendo que temos

“ A discussão da sociedade civil é importante,


porque deveríamos nos mobilizar, nos unir para
pressionar os governos a promoverem produtos
alimentícios seguros, livres de transgênicos e agrotóxicos.”
Edélcio Vigna

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 61
que continuar trabalhando a partir do resgate da 2. Institucionalizar a soberania, seguridade alimentar
cosmovisão que tinham nossos antepassados. e nutricional tendo como marco de referência
os Objetivos do Milênio e de acordo com as
Pascual Manganiello (Argentina) argumentou que diversidades regionais.
deveria haver uma melhor metodologia de trabalho
com divisões de temas antes de formar as comissões, Grupo 3
e que seria um movimento de ida e volta nos debates.
Edélcio Vigna (Inesc) esclareceu que, quando se 1. 
Colocar como princípio a segurança, soberania
pensou nessa Cúpula, pensou-se em alguns eixos alimentar e nutricional no documento do Mercosul.
temáticos. Pensou-se em “soberania” e “segurança
alimentar” e também no uso da tecnologia para 2. 
Que a soberania e a segurança alimentar devem
promover políticas regionais. fazer parte das políticas dos Estados Partes,
fortalecendo a Reaf.
Por sua vez, Juan Canella (Comisión de Salud del Consejo
Consultivo Cancillería Argentina) fez uma crítica à Ao encerrar o trabalho em grupo, a coordenadora
exposição de Edélcio, dizendo que as classes ricas não Alessandra pede para projetarem as propostas
comem bem, sendo exemplo disso o consumo de coca- escritas e abre para os debates. Elizabeth sugere
cola e batatas fritas. E acrescentou que não se pode falar que se incorpore o termo “movimentos sociais” em
em sistema produtivo sem incorporar o tema da saúde complemento à sociedade civil. Mariano Bertinat (La
coletiva, que, em sua visão, é determinante para além Cámpora-Río Gallegos-Argentina) explicou que, na
da Cúpula. Argentina, é mais forte o conceito de “organizações
sociais”, mas que no restante da América Latina,
Mario Volpi (Centro de ex-Combatientes de Malvinas ”sociedade civil” é bastante utilizado. Humberto
de La Plata) pediu para fazer uma apresentação propôs que houvesse a criação do Instituto de
depois dos trabalhos dos grupos. Tecnologia Social do Mercosul, de tal maneira que as
tecnologias sociais estivessem ao alcance de todos.
Daniel Mojoli (Paraguai) ponderou que Tecnologia
Social já pressupõe estar ao alcance de todos. Mariano
Reuniram-se então os grupos, que criticou o termo “política regional de agroecologia”,
elaboraram as seguintes propostas: dizendo que, em questões ambientais, seria mais
adequado o termo “sustentável”, para que se
Grupo 1 contemplassem as gerações futuras. Edelcio propôs
o uso do termo “a agricultura familiar como cultura
1. Fortalecer o modelo de produção agroecológico de sustentável e agroecológica”. Heber disse que o tema
sementes utilizando o conhecimento tradicional e de agroecologia era específico, e propôs a utilização
utilizando tecnologias sociais. da expressão “agricultura familiar sustentável”.
2. Criar no âmbito do Mercosul uma política regional Humberto relevou que a Monsanto também se diz
de agroecologia. sustentável. Propõe o termo “familiar e camponês”.
3. Garantir a participação dos grupos nas próximas Adriana disse que se deveria especificar o tema das
Cúpulas. sementes e incorporar os termos “crioulo” e “nativo”.
4. Fazer moção sobre o apoio às Malvinas. Por fim, Humberto retoma a palavra e diz que deveria
estar presente o termo “indígena”.

Grupo 2 Propostas finais

1. 
Promover e legitimar o conselho de organização 1. Criar no âmbito do Mercosul uma política regional
social e alimentar na Cúpula (monitoramento para de agricultura familiar sustentável e agroecológica,
manter a conexão entre todos os atores em rede). considerando modelos de produção sinérgicos
Institucionalizar esse espaço. entre o conhecimento indígena, tradicional e

62
tecnológico, que respeite o uso e os costumes 2. 
Propor como princípio a soberania e segurança
sociais, valorizando as sementes crioulas. alimentar e nutricional no documento final do
Mercosul.
2. 
Que a soberania e a segurança alimentar e
nutricional sejam parte das políticas de regulação
de cada Estado, tendo como base um plano regional
que, entre outros pontos, fortaleça o Mercosul.

Propostas amplas ao documento final

1. 
Criar uma política de fomento que garanta a
participação das organizações e movimentos
sociais no Conselho de Organização Popular e
permanente na Cúpula Social do Mercosul.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 63
OFICINA

Identidade
Cultural
Sul-americana

Grupo temático 4: Cultura e Identidade


Professora sistematizadora: Victoria Darling
Coordenador: Silvio Caccia Bava
Articulação do debate em torno de De fato, o jornalista sustentou que, se não
quatro temas estamos satisfeitos em sermos identificados como
consumidores, se queremos atuar em nossas
A mesa sobre o tema “Identidade Cultural Sul- sociedades para construir uma nova identidade,
Americana” foi coordenada pelo jornalista Silvio devemos realizar uma crítica à tentativa de
Caccia Bava e contou com a presença do secretário homogeneização, ao individualismo, à competição
de Cultura do Distrito Federal, Hamilton Pereira. Silvio e à ideia de destruição do oponente, próprios da
introduz a apresentação colocando em debate a crise dinâmica do mercado. Que outros valores colocar em
de hegemonia cultural contemporânea. Argumentou seu lugar? Como resgatar a história de nossos povos?
que presenciamos uma crise dos valores do mercado,
uma crise do discurso que nega nossa identidade. Em sua fala, Hamilton Pereira (Secretário de Cultura
Sustentou que “todos somos medidos por nossa do GDF) apresentou sua trajetória de vida militante.
capacidade de consumo”. Nesse sentido, os meios de Expôs como pergunta-guia do debate: “Quem disse
comunicação, os filmes e a imprensa teriam imposto que somos ocidentais?” (Retomada de Fernández
a ideia de que o cidadão é aquele capaz de consumir. Retamar). Se não somos ocidentais, o que somos
nós? Argumentou que se trata de uma busca similar
Além disso, a capacidade de resistência das culturas à dos adolescentes, de afirmação frente ao mundo.
dos povos das distintas regiões põe em xeque a Considerou que não somos brancos, não somos
tentativa de uniformização e homogeneização. anglo-saxões, não somos ocidentais, não se sabe
Por isso, apresenta-se uma visão alternativa desde bem o que somos. Para isso, registrou que é preciso
os imigrantes, as formas de produção, o próprio reconstruir, com dados da realidade, nossa afirmação
consumo e a história dos povos. No atual processo como construção histórica. “Víctor Sergio, quando
de integração, temos guaranis: identidades que desembarcou em Havana e viu aquela alegria, a
ultrapassam as fronteiras nacionais. Isto desafia a musicalidade, ficou chocado. Escapou da prisão e
busca de solidariedades para construir um novo tinha muitos caminhos a serem percorridos. Ficou
processo. deslumbrado por Cuba pela sensualidade, pela

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alegria. Essa é a tragédia dos povos-criança, os povos também devem ser discutidas. “Disse Galeano que
que ainda não se construíram de maneira madura”. a violência é tão cotidiana que, na América Latina,
não temos quatro estações: temos verão, inverno,
Por sua vez, apresentou a ideia de “núcleo oral” como primavera, outono e massacre. Ele reflete de maneira
conceito útil. Se a identidade cultural sul-americana não brilhante essa condenação de uma sociedade desigual
existe em singular, então há identidades variadas em e conflitiva irredimida porque busca utopias”. Pereira
uma mesma região. De fato, explicou que Carpentier agregou que as ditaduras e a resistência que se
comenta que, em um mesmo barco, vieram uma recriam no começo da democracia também dão
máquina de impressão e a pena de morte como legado conta de diversas identidades políticas.
europeu. “Esses dois elementos, dentro do navio que
se chama ‘contrato social’, também formam parte Destacou que os governos atuais da região formam
das identidades culturais latino-americanas”. José parte desse processo, dessa crise em que surgem
Hernández ou Juan Rulfo perceberam essa identidade. as identidades utópicas. “O que nos unifica além de
nosso legítimo desejo de soberania é uma luta para
Temos que percorrer o continente montando esse acabar com as desigualdades. Precisamos de uma
mosaico inconcluso que são os diferentes rostos das percepção de que, ao lado das dificuldades que
identidades culturais latino-americanas. Não é possível enfrentamos, alcançamos vitórias sobre as terríveis
ter uma imagem abarcadora sobre a América Latina ditaduras que passaram. Ao contrário das lutas de
sem ver os murais de Orozco, Siqueiros, Guayasamin. independência das nações, avançamos agora por um
Há nações violentas forjadas por libertadores, como caminho diferente”.
Simón Bolívar. No Brasil, o trabalho manual é visto
como trabalho de negros, resultado da escravidão. “O Contribuindo na ampliação deste primeiro tema
Brasil é o segundo maior país em população negra concernente à integração como dilema cultural,
do mundo”, sustentou. Por conseguinte, desde sua Sylvia Valdés (assistente, Coordenadora de Cultura
perspectiva, esse é um traço fundamental de nossa do Ministério de Relações Exteriores da Argentina
construção histórica e cultural. “Que lástima para e professora da Universidade de Buenos Aires)
vocês que Guimarães Rosa não escreve em espanhol, propôs realizar um giro cultural pela América Latina
assim como, para os brasileiros, é uma pena que que resgate os povos americanos do epistemicídio.
García Márquez não haja escrito em português”. Sustentou que, em geral, os estudantes da
Universidade propõem como elementos conceituais
Hamilton assinalou que as identidades estéticas são marcos teóricos franceses como Deleuze, Derrida
múltiplas. Por conseguinte, as identidades políticas etc. Então, temos que estudar “mais além dos heróis,

66
temos nossos pensadores latino-americanos, como Librada falou em tom de denúncia a respeito da
Vasconcelos, Farías Brito, Amoroso Lima, que se construção de Itaipu e da relocalização da população
dedicam a pesquisar o que é a identidade latino- posterior à construção da usina. “Negação de
americana. Há também, para nossa referência traslado, inundação de áreas importantes, conflitos
identitária, a corrente historicista que começa no internos e debilitação da organização social pré-
Peru, com a revista Amauta de Mariátegui. A última existente. No Paraguai, nunca se assumiu a existência
corrente é a liberacionista, que começa nos anos de um estado multicultural. Fala-se da conservação
70 com Enrique Dussel, enriquecida pela teologia da biodiversidade, mas não da pobreza dos povos
da liberação e a filosofia da liberação. Além das indígenas. Em toda a América Latina, é necessário
vanguardas, as pós-vanguardas. Todas contribuem ver com as lentes da diversidade cultural e linguística
para o entendimento de nossa identidade”. existente. Não é casual o controle dos povos indígenas
em nome da modernidade dos Estados. O Paraguai,
Na mesma linha, Rafael Alaya, do partido Miles de desde 1992, se reconhece como país pluricultural e
Argentina, sublinhou que hoje temos a oportunidade plurilíngue. São reconhecidos os direitos e os grupos
de recomeço para o Mercosul. Afirmou que, como anteriores ao Estado paraguaio. Isso não se
quando falamos de todas as variantes que a cultura reconhece na prática, há uma doutrina baseada na
aponta, devemos cuidar para não cair na noção de superioridade de indivíduos e grupos aduzindo
vanguardismo. Pediu aterrissar conceitos e não questões de origem religiosa, nacional e cultural”.
intelectualizar o debate.
Silvina Sanchez (da Frente Transversal Argentina),
Com esse debate contribuiu Igor (da Universidade por sua vez, distanciou-se da abordagem paraguaia,
Federal do ABC), que adicionou que as identidades considerando que cada processo cultural se dá
são plurais e se encontram aplastadas e invisibilizadas em relação a cada governo. “Na Argentina, vemos
pelos tempos neoliberais que ainda seguem. A quantos valores foram destroçados nos anos 90. A
destruição de nossas identidades se expressa em cultura do trabalho, da escola. Os movimentos sociais
tentativas de introduzir uma identidade que vem dos hoje podem levar ao bairro as políticas públicas que
centros imperialistas. Existe um desconhecimento saem do governo”. Ademais, esclarece que esse
mútuo entre nossos países. Por isso, de seu ponto tema é tratado pela organização da qual participa.
de vista, conhecemos muita música do imperialismo, “Desde 2003, há uma política cultural que orienta a
mas quase nada do que fazemos uns e outros na militância. Isto se vincula aos povos originários, como
região. Ademais, argumentou que os governos o caso de Jujuy”.
progressistas são alvos de ataque das mesmas
forças que mantêm a dominação cultural: os meios Thiago Vinicius apresentou o tema das “ausências”
de comunicação, a imprensa empresarial, a empresa no debate sobre a identidade. Como representante
editorial. Isso deslegitima os governos na busca de da periferia de São Paulo, da equipe de formação,
tentativas de democratização da cultura. “O pouco relatou o trabalho que vem realizando com a União
que se tem avançado em termos de democratização Popular de Mulheres Miguel Abad e comunidades
dos meios de comunicação e da cultura é em resposta eclesiásticas de base. Fez referência ao nível de
à investida que vem de Washington. O conjunto violência que marcou as gerações nesse espaço
de trabalhadores de imprensa se reúne seguido de em que confluem “varias periferias”. Disse: “Existe
diretrizes que partem dos Estados Unidos”. uma cultura periférica, uma cultura que dá conta
de música, poesia, de militância cultural. Há uma
A partir da questão abordada, Rosane Bertotti (da narrativa que se vê ameaçada pela destruição e
CUT brasileira) fez a seguinte pergunta: “Como morte de gerações que se reprimem duramente
podemos criar políticas públicas que ampliem e nas periferias. A violência é trazida de fora para
garantam novas formas de cultura e expressão”? dentro. Mais de 150 pessoas morreram, policiais,
habitantes e quem não tem nada que ver com esse
Librada Martínez (da API, Associação Paraguaia tipo de conflito. A América Latina está marcada por
Indígena) colocou um segundo tema: a dívida social. genocídios e extermínio”.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 67
No encerramento da discussão, Carlos Monje (do não só responder comunicacionalmente à agenda
Centro de Apoio ao Migrante, Brasil) acrescentou que que propõem os meios de comunicação. Assegurou
os latino-americanos são migrantes por necessidade que essa definição deve ser discutida no marco de
e propôs uma comissão de combate à pobreza, de um projeto político, de uma construção entre as
modo que a migração não ocorra de maneira forçada. organizações sociais e os governos.

O terceiro tema colocado em debate foi a ocupação


de espaços públicos. Adriano de Angeles (um
realizador audiovisual que milita em redes de arte em Metodologia
Brasília) comentou a herança positiva da Argentina
e Venezuela. Comentou que as praças são espaços O debate foi iniciado por uma conferência realizada
comuns que deveriam estar permanentemente em pelos participantes da mesa coordenadora (um
pauta como espaços de socialização de culturas coordenador e o secretário de Cultura de Brasília).
latino-americanas. Citou o Memorial de América Foi estabelecido um diálogo entre eles, envolvendo
Latina de São Paulo, e propôs a criação de outros perguntas orientadoras. Ao longo da manhã,
espaços.
realizou-se uma dinâmica de comentários dos
assistentes, alternados pelos membros da mesa
Colaborando com essa ideia, Silvana Mamani (aluna
coordenadora. A cada três participantes do público,
da Unila) sugeriu pensar na diversidade de línguas
havia uma interrupção para que os integrantes da
da América Latina, o que implicaria pensar em uma
mesa coordenadora participassem e respondessem
integração do modo de conhecer ao outro, como
às inquietações. Alguns temas foram recuperados e
sinal de tolerância e respeito.
destacados no decorrer do debate, e outros, como
o das denúncias dos povos guaranis e o dos direitos
Mais ainda, Maria Fernando (da União de Estudantes
dos migrantes, ficaram relegados. Quanto ao mais, o
Angolanos de São Paulo) assinalou a necessidade
debate também constou de demandas e comentários
de aplicar-se uma lei de ensino da história africana
sobre a especificidade da vida cultural no Distrito
nas escolas brasileiras. Nessa linha, Guillermo Guerra
Federal brasileiro. Em tal intercâmbio não houve guia
(do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do
que fixasse ou cristalizasse o diálogo em propostas
Imigrante) reconheceu que o tema abarca todos, mas
específicas para levar à posterior plenária.
que, desde seu aporte, trabalha para que nos direitos
humanos o Brasil se identifique com outras culturas
latino-americanas por meio de mostras e expressões
artísticas.
Propostas
O quarto tema foi abordado por Carlos Borgna
(responsável de Comunicação do Conselho da A definição de propostas segue a lógica da análise do

Sociedade Civil da Chancelaria argentina), que discurso dos interventores, podendo-se destacar os

comentou a impossibilidade de se discutir cultura seguintes pontos suscitados:

sem discutir comunicação, e vice-versa. Afirmou que


“nos encontramos em uma batalha cultural que deve 1. 
Apoiar os países que tiveram avanços na
definir seus conteúdos”. Relatou a experiência de democratização dos meios de comunicação, e
reunião recente de um conjunto de comunicadores exigir a outros, como o Brasil, impulsionar tal
do Mercosul na Argentina, na qual perguntaram: democratização.
quais devem ser os temas que integram esses
conteúdos para a integração regional? O primeiro 2. 
Intensificar os mecanismos de identificação
tema definido foi o da cultura e, como subdivisão, a regional, sobretudo os meios como Tele Sul.
música. O segundo tema foi o da terra, em relação
ao meio ambiente. Ao referir-se à integração regional, 3. 
Promover a integração no campo da educação,
sugeriu pensar em uma agenda pública de temas, sobretudo universitária.

68
4. 
Construir uma comissão de comunicação 2. Modificar o intercâmbio cultural. Os recursos para
alternativa. Por exemplo, há um início de diálogo o desafio de trazer e levar expressões e produções
com o governo do Distrito Federal do Brasil, mas artísticas pela região.
não há emissoras próprias nem outros meios
(propôs Gesil, de Comunicação Social). 3. 
“Não há nem uma hipótese da história comum.
Como o Brasil lê a história da terrível guerra do
5.Combinar a defesa contra o imperialismo com um Paraguai, por isso é preciso trabalhar nesse
mecanismo ofensivo em termos de identidade sentido”.
latino-americana. Propõe-se um Instituto Cultural
do Mercosul para articular nossa identidade 4. Criar políticas de comunicação. “Neste momento,
cultural para fora. a direita partidária e parlamentar perde espaço;
então, a mobilização dos militantes é fundamental
6. 
Fortalecer uma estratégia de comunicação que para enfrentar o tema da democratização dos
envolva as organizações sociais. meios de comunicação. Assegurar as conquistas
e apoiar as reivindicações, como existe no Brasil”.
7. 
Outro aspecto assinalado foi a necessidade de
reparar na produção audiovisual para trabalhar 5. Destacou que é importante contar com políticas
em várias salas da região conteúdos latino- públicas de tradução de línguas.
americanos, de modo a difundi-los. Sugere-se
apontar conteúdos desde as organizações sociais. 6. 
Por último, disse que devem ser fortalecidas
iniciativas como a TeleSur. Falou da exigência de
8. 
Colocar os documentos oficiais do Mercosul na investir.
língua guarani.
Mais tarde, após compartilhar sua experiência como
9. 
Ampliar as ações culturais que alcancem os militante revolucionário no Estado, o Secretário
imigrantes, na prática. argumentou que, no Brasil, há uma grande diversidade
de línguas e, por isso, deve haver um fomento às
10. 
Denunciar a tomada de terras e a violação de línguas originárias da América Latina. Logo, propôs
direitos das populações indígenas paraguaias, por a organização de cadeias produtivas de Cultura
parte da usina binacional Itaipu, e recuperar, na para criar conteúdos sustentavelmente. “A televisão
prática, a importância das comunidades indígenas e o mundo simbólico são vitais para entender o
no marco de ações culturais do Mercosul. espaço da cultura. A questão da terra aparece na
maior parte dos discursos, assim como a soja. Não
11. 
Desenvolver uma campanha para que diversas obstante, a sustentabilidade não tem visibilidade. O
grandes cidades do Mercosul tenham uma agenda tema dos direitos humanos é um tema que requer
permanente de atividades artísticas e culturais, trabalho. Trata-se de uma sociedade racista no Brasil,
assim como intervenções, como forma de que mascara a violência. Estigmatizar o Estado e
socializar parte das diversas culturas dos países sacralizar os movimentos sociais representa um erro
sul-americanos. porque, desde sua perspectiva, o Estado é reflexo da
sociedade”.

O Secretário de Cultura do Distrito Federal


enumerou outras propostas, entre as quais estão:

1. 
Exigir dos representantes do Mercosul o ensino
de línguas de Português e Espanhol e traduzir os
documentos oficiais também para o Guarani.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 69
OFICINA

Democratização
da Comunicação
e Cultura Digital

Grupo temático 4: Cultura e Identidade


Professor sistematizador: Mario Ramão Villalva Filho
Coordenadora: Rosane Bertotti
Introdução “O direito humano à comunicação tem como
empecilhos de longa data, na América Latina, a
A reunião teve início às 14h45, com a intervenção da concentração oligopólica dos meios de comunicação.
coordenadora da mesa encaminhando as propostas A criação e o fortalecimento de veículos públicos e
da manhã, que posteriormente foram apresentadas estatais, bem como a abertura de maiores espaços
mediante leitura da professora Victoria Darling, para a radiodifusão comunitária, têm sido buscados
da Unila. pelos países do Bloco? Como garantir a liberdade de
expressão a todos, inclusive àqueles tradicionalmente
A coordenadora do grupo de Comunicação decide alijados deste processo pelo poder econômico?
que se passe para o final do evento a escolha das Também serão objeto deste debate os aportes
duas propostas que deveriam ter sido apresentadas trazidos pela cultura digital para a construção de
como resultado dos debates do período da manhã. um ambiente de liberdade e ampla participação na
internet, incluindo questões como as políticas de
Imediatamente, a coordenadora apresenta para o software livre e a discussão sobre neutralidade da
grupo a metodologia da reunião, dizendo que na rede e direitos autorais. (http://socialMercosul.org/
primeira hora haverá a apresentação dos temas oficinas-tematicas/)”
pelos dois convidados palestrantes e que, depois,
o debate será aberto aos participantes, mediante O primeiro palestrante é apresentado pela
inscrição. Cada um terá no máximo 3 minutos para a coordenadora: o argentino Pedro Lanteri (da
sua intervenção e a cada meia hora a palavra voltará organização La Voz de las Madres de Mayo, funcionário
à mesa para as considerações e respostas ao público. público federal argentino), que apresenta a Ley de
Medios. Começa pela história da citada lei e explica as
dificuldades para a aprovação. Duas centrais laborais
se colocaram de acordo para aprovar a Lei. São 21
Início do tema pontos da comunicação que a Presidenta argentina
apresentou para a comunidade popular como fórum
Rosane Bertotti apresenta o tema da mesa, de discussões, e somente depois foi enviado ao
improvisando sobre o seguinte resumo que está Congresso. Neste 7 de dezembro, entraria em efetiva
publicado no site da Cúpula: vigência a Ley de Medios.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 71
Lanteri explica por que deve ser uma “lei fundacional”: governos. Araya (Argentina) indicou que, de acordo
em toda a América Latina há necessidade dessa lei, com as duas propostas apresentadas, o uso deve ser
por causa da forte influência dos meios e o perigo em favor da população, sugerindo que o conteúdo
que eles estejam em poucas mãos. Exemplificou que passe pela educação e apresentando mais uma
o grupo Clarín possui 2.500 emissoras de rádio, das proposta, a da leitura crítica da comunicação para a
2.700 de todo o país. E continua explicando a luta população; esta proposta não foi retomada pela mesa
da Presidenta argentina no enfrentamento ao grupo nem pelo grupo depois.
comunicacional: “Antigamente eram 10 capas de
jornal, com poder de derrubar um presidente; hoje Enrique Amestoy (de software livre, Uruguai) propôs
há mais de 200, o que fortaleceu mais a presidenta a criação do Instituto de Tecnologia Social para o
Cristina Kirchner”. Mercosul, com membros de todos os países. Parte
da proposta foi lida para o grupo em cerca de três
O segundo tema foi apresentado por Sergio Amadeu minutos, tempo determinado pela coordenadora.
(sociólogo, representante da sociedade civil no Igor Fuser (da UFABC, Brasil) defende o cuidado
CGI.br. - Comitê Gestor da Internet -, professor da com a utilização da censura pelos donos das redes na
UFABC, pesquisador de cibercultura e membro internet. Osvaldo Cruz (ex-diretor de software livre,
da comunidade do software livre). Ele inicia com a Paraguai) conta a experiência do Paraguai, em que
explicação da comunicação em rede e sobre o que um site utilizado pelos professores para criar uma
é inclusão digital. Afirma que o serviço fundamental enciclopédia foi tirado do ar por causa da influência
deve ser a banda larga. Apresenta, a seguir, os sites das corporações.
mais acessados e descreve algumas anotações do
grupo, a saber: Fred (Plataforma de rede e conteúdos entre os
blogueiros progressistas do Brasil, Brasil) refere-se
1. Pelo respeito à diversidade digital. ao “pacto federativo” do Mercosul. Deve ser um novo
espaço de democracia no Mercosul e que não fique
2. Pela liberdade de criação e de compartilhamento. em mãos de empresas. Que se constitua um grupo
latino-americano de universidades para estímulo e
3. Pela produção colaborativa, a exemplo da Lei do desenvolvimento da internet.
Marco Civil da Internet.

Foram elaboradas várias leis no mundo que beneficiam


as grandes corporações e o controle delas no acesso Volta à mesa a discussão
e distribuição de informações na internet, por
exemplo: o Stop Online Piracy Act (em tradução livre, O argentino Pedro Lanteri (la Voz de las Madres), da
Lei de Combate à Pirataria Online), abreviado como mesa, retomou a palavra explicando a necessidade
Sopa e Pipa (Protect IP Act), que seria o bloqueio de apoiar no Mercosul a Ley de Medios. Para o dia
estrutural de acesso e a concentração dos controles 7 de dezembro, sugere que o brasileiro esteja nas
pela Indústria do Copyright principalmente. Termina ruas, com alegria, usando as tecnologias para esse
dizendo que o Mercosul tem que se manifestar contra dia. Finalizou sua parte dizendo que é preciso saber
esse controle e apresenta a sua proposta número 2 usar as ferramentas e preparar as pessoas em busca
sobre o apoio para a Lei do Marco Civil. da comunicação emancipadora, a exemplo de Paulo
Freire.

Sérgio Amadeu (Universidade Federal do ABC, Brasil),


A palavra com a plenária da mesa, insiste que a liberdade digital deve ter
sentido amplo, que a liberdade deve ser de todos. As
Marcelo (Brasil) defende a ideia da liberdade na operadoras não devem ter o poder de decidir o teor
internet, denunciando ameaças a tais interesses. Os e a autoria do conteúdo publicado. Falta incentivo à
três dos grandes Blocos: Copyright, provedores e produção cultural no Mercosul. Defende a prática do

72
uso de software livre, pois o computador não precisa Encerramento pela coordenação da mesa
de propriedade nem de controle da criação.
A coordenação comentou que nenhuma das
propostas está em oposição às demais, ressaltando
que todas são parte de uma só. Desenvolveu o seu
Mais uma rodada da participação do grupo discurso final sem a necessidade de votações ou mais
debates. A coordenadora da mesa fez o discurso
Nicolas Caballero (Paraguai) apoia as ideias tentando encerrar em um tema apenas, mas esse
expostas, mas insiste na proposta do Instituto relator foi descrevendo as propostas em itens para
para evitar o colonialismo digital: “tem que melhor apreciação.
ser criado o Instituto de Tecnologias Sociais
do Mercosul (ITS-Mercosul)” expressou. Carlos 1. A Ley de Medios igual em todo Mercosul, respeitando
Borgna (Argentina) fala da importância da as especificações de cada país.
capacitação teórica e prática de pessoas no
marco de um projeto e sugere que representantes 2. 
Uma proposta de garantir a neutralidade da
de Comunicação Social de cada país elaborem internet e a criação do Instituto de Tecnologias
uma política para o Mercosul. Recomenda que o Sociais do Mercosul (ITS-Mercosul) e o apoio à Lei
Brasil faça uma proposta de gerenciamento para do Marco Civil.
que acadêmicos e técnicos trabalhem juntos. O
participante do Paraguai apoia duas propostas da 3. 
Reunião Especializada de Comunicação: formar
mesa: sobre o marco civil e sobre a criação do parte da reunião permanente de coordenação, o
Instituto Tecnológico. Peas.

Librada Martinez (principal representante indígena, Como moções, ficaram mais dois itens: a mesa
Paraguai) fala em guarani, explicando a importância entregaria à Presidenta argentina apoio à Ley de
de o Paraguai participar da Cúpula, mesmo “não Medios, além de ratificar a moção a favor da causa
tendo presidente o país”. Disse que ainda participam palestina.
grupos sociais e populares permanentemente. E
agradece à mesa pela oportunidade.

A mesa retoma a palavra, dizendo que a lei do marco Propostas apresentadas durante a reunião
civil deve ser apoiada e que ainda falta apoio da
sociedade civil para essa lei. “Não há como ir contra No entender deste relator, durante o decorrer da
o lobby das empresas provedoras e das empresas de reunião houve quatro propostas específicas:
comunicação; precisamos centrar forças para obter o
apoio amplo da sociedade civil”. 1. Marco civil para garantir a liberdade e a diversidade
da internet.
Na última participação, o representante de grupos
de quilombolas falou da importância da alma para 2. A Ley de Medios deve ser aplicada em todo o
continuar na luta: “pelo tambor reconhecemos os Mercosul, respeitando as especificações.
códigos”, disse. A seguir, fez uma performance
com a plateia brincando com o tema da internet, 3. Leitura crítica da comunicação a ser aplicada em
especificamente com os números binários 1 e 0. forma de educação, alfabetização para os meios
de comunicação que rompa com a monopolização
Antes da coordenação da mesa retomar a palavra, dos meios.
o argentino Pedro Lanteri (palestrante) respondeu
a algumas observações sobre o governo argentino 4. 
Criação do Instituto de Tecnologias Sociais do
dizendo: “ter o governo não é ter o poder”, e propõe Mercosul, desenvolvimento para a criação deste
que o fórum sobre Comunicação seja permanente. instituto com membros de todos os países.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 73
Considerações finais

Não houve problematização dos temas em nenhum


momento: todos apoiaram os temas propostos
pela mesa; os itens propostos pela plenária, de
alguma forma, foram incluídos no argumento final
desenvolvido pela coordenadora. Também houve
vários comunicados por parte das pessoas que
participavam da reunião; o caso da representante
indígena paraguaia que se pronunciou em guarani
como um claro exemplo de fazer-se partícipe do
evento: “estamos aqui, nós falamos língua originária”.

Com consenso ou não, houve um discurso final


que “contemplou” a todos os presentes. As duas
propostas que foram encaminhadas e publicadas no
site são as seguintes:

1. Elaborar e/ou apoiar as leis de democratização da


comunicação que garantam o direito a palavra, a
acesso, a pluralidade e diversidade, e a liberdade
de expressão, a exemplo da lei de meios de
comunicação da Argentina, considerando a
realidade de cada país.

2. Defender um marco civil da internet que garanta a


neutralidade da rede e a liberdade de expressão;
e construir um Instituto de Tecnologia Social do
Mercosul.

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OFICINA

Cooperação e
Desenvolvimento
Regional

Grupo Temático 5: Cooperação para o Desenvolvimento Regional


Professor sistematizador: Luciano Wexell Severo
Coordenador: Sérgio Miletto
Sérgio Miletto (coordenador) explica a metodologia capital. O Estado pesou a balança para o lado do
da mesa e esclarece que as propostas concretas e capital na relação capital-trabalho.
objetivas serão levadas aos presidentes. Sugeriu que
fossem feitas palestras provocativas, seguidas de Apontou que a luta de classes é palpável e evidente.
grupos de trabalho. Explicou que serão priorizadas Nos últimos anos na América Latina, na última década
duas propostas, sem, contudo, descartar as demais, do século XX e nas primeiras do século XXI, o Estado
que serão tratadas posteriormente. Os temas a estaria pesando a balança para o lado do trabalho.
serem abordados serão: Plano Estratégico de Ação Por meio do voto popular, foram levados ao poder
Social (Peas), Fundo de Convergência Estrutural do políticos de inspiração progressista e de esquerda.
Mercosul (Focem) e Objetivos do Milênio (ODM). Considera que a variável principal é a política e que
Comenta que o Peas possui ideias muito boas, mas há avanços em vários países. Repudiou o golpe de
sem especificar detalhes relacionados com a sua classe no Paraguai, de uma oligarquia, contra um
execução, como metas, datas etc. processo tímido de mudanças.

Sobre a dimensão social da integração, considera que


o tema social precisa preponderar sobre os assuntos
1ª. Palestra comerciais, alfandegários e aduaneiros. Crê que
devam ser priorizadas ações de combate à pobreza
Christian Mirza e às assimetrias regionais. Estaria em gestação uma
Instituto Social do Mercosul – ISM nova significação da integração, que teria exemplos
concretos. Julga oportuno aprimorar o “plano de
Em sua palestra, apresenta os seguintes pontos: voo”, cumprir eixos, diretrizes estratégicas e objetivos
1) breves anotações do contexto regional; específicos do Peas. Comentou sobre os vínculos do
2) explicação sobre o processo sócio-histórico- Peas com os Objetivos do Milênio (ODM), que tem oito
político atual; 3) a outra face da integração; grandes objetivos para 2015. Afirma que o Peas aborda
4) dimensão social da integração. Afirma que durante todos esses temas e, inclusive, transcende os ODM,
a década de 1990 prevaleceu na América Latina um sendo mais exigente. Sobre o Focem, defende que a
modelo de corte neoliberal, com seus impactos de liberação de recursos para os projetos não seja guiada
desemprego e pobreza. Recordou que a corrente por conceitos meramente contábeis como a VAR ou
neoliberal nasceu entre os anos 1944-45, com a a Taxa Interna de Retorno (TIR). Deveriam, assim, ser
ideia de que o mercado era o gerente mais eficiente readequadas pautas de exigências e normas. Defendeu
dos recursos e que o Estado deveria se retrair. O a adoção de políticas de combate à riqueza extrema
Estado assumiria, então, seu papel de garantidor (reformas tributárias que taxem os mais ricos) e uma
das liberdades dos agentes econômicos, do grande mudança no modelo de desenvolvimento.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 77
2ª. Palestra Argentina e Brasil, 10%. O Fundo não é apenas tímido
em recursos, como também se volta essencialmente
Adhemar S. Mineiro à modernização, sem qualquer ênfase no processo de
CUT-Dieese mudança estrutural que aponte na direção de maior
complementaridade e comércio planejado. Existem,
Em sua palestra, apresentou três pontos: 1) avaliação no entanto, alguns indícios de que o Fundo ganharia
dos resultados do Peas e projetos do Focem; maior peso nos próximos anos. Seria importante
2) descrição dos projetos e 3) apresentação de que o Focem financiasse mais projetos sociais ou de
uma perspectiva compensatória para a integração. transformação estrutural e que os grandes projetos
Considera que o Peas é uma declaração de intenções, de infraestrutura sejam financiados por outras
com projetos distribuídos da seguinte forma: instituições.
Paraguai – 18; Uruguai – 8; Brasil – 5; Argentina – 3; 1
plurinacional (febre aftosa) e 1 do Mercosul. Afirma que Jorge Alejandre (Tierra, Vivienda y Habitat - FTV)
o Focem serve muito mais para compensar os males defendeu mudanças na propriedade da terra e
estruturais e que carece de maior articulação de seus modificações na estrutura produtiva dos países.
projetos com a nova dinâmica do desenvolvimento. Considera necessária uma reforma agrária, uma
Nesse sentido, a ideia de compensar problemas reforma urbana e programas de habitação com
da estratégia se sobressairia à ideia de mudar a PyMES e autoconstrução. Julga fundamental criar um
estratégia. Em outras palavras, seria necessária mecanismo de articulação real entre sociedade civil
uma perspectiva estratégica para sair do modelo e governos para consulta, seguimento, avaliação e
dependente. Sem mudanças, o Fundo reforçaria a controle do Peas.
inserção internacional subordinada, como exportador
de matérias primas. Finalmente, propõe que a Cúpula Julio Torres (PyME – Uruguay) julga necessário
seja realizada pela sociedade civil, com financiamento criar programas de habitação com PyMEs e
do governo. autoconstrução. Além disso, defende a criação de um
fundo para financiar projetos de PyMES.

Rogério Dutra (estudante de Economia – Unila)


Metodologia defendeu que o Focem financiasse projetos de
cooperação entre universidades da América Latina,
Cerca de 35 a 40 participantes formaram quatro que potencializassem a criação de incubadoras,
conjuntos diferentes, sendo cada um deles responsável cooperativas de catadores de lixo, artesanato etc.
por apresentar ao grupo geral uma proposta ao final Em suma, que o Focem financie projetos de apoio a
dos debates. Os professores Tereza Spyer e Luciano pequenos empreendimentos.
Wexell foram os relatores das discussões dos grupos.
Ao término, foram apresentadas três propostas que, Dalia Dassa (Red Latinoamericana de Universidades de
depois das discussões gerais, foram sintetizadas em Empreendedorismo Social) argumentou que o Focem
duas, a serem levadas à Plenária Final do dia seguinte. deveria concentrar-se no financiamento de projetos
de apoio a pequenos empreendimentos, projetos para
desenvolvimento social e estímulo a incubadoras.

Resumo das principais propostas Angela Garofali (estudante da Unila) propôs a criação
dos grupos de um Focem Social, considerando que as estruturas
atuais do Focem não possibilitam a sua utilização
Luciano Wexell (Unila) comentou que os recursos como propulsor do desenvolvimento da economia
do Focem são fornecidos da seguinte forma: Brasil social e popular.
(70%), Argentina (27%), Uruguai (2%) e Paraguai
(1%). Os recursos dos projetos são distribuídos da Isaac Inmanuel (Plataformas Asociativas de la
seguinte maneira: Paraguai, 48%; Uruguai, 32%; Juventud) defendeu que o Focem financie projetos

78
de apoio a pequenos empreendimentos, bem como 3. Que se regule o acesso à água potável gratuita e
propôs um Sistema de Bolsas de Intercâmbio entre ao saneamento em todas as cidades e povos do
Secundaristas e Universitários. Preconizou também Mercosul.
a importância de que os financiamentos do Focem
regulem a qualidade do trabalho.

Paulo Henrique (Geografia – Unila) propôs a Duas propostas finais encaminhadas à


descentralização das áreas urbanas dos grandes Plenária Final
centros e a promoção do aumento da densidade
populacional nas regiões de fronteira. Ressaltou-se 1. Para mitigar as assimetrias da região, propomos a
que já existem os Grupos de Fronteira. criação de um mecanismo de participação social
na definição, na gestão e no acompanhamento
Gonzalo sugeriu que o Focem faça um mecanismo dos projetos do Focem, bem como a ampliação
de consulta ou crie um conselho para avaliar quais dos recursos financeiros e as áreas de atuação
projetos serão aprovados para ampliar a participação para contemplar a execução dos projetos do Peas,
social. Deveria haver participação popular nos com um mecanismo de articulação real entre a
estudos, sem serem controlados pela Caixa, sociedade civil e os governos para sua consulta,
empreiteiras etc. seguimento, avaliação e controle.

Célia propôs um fundo para projetos sociais, que 2. Criação de um Focem Social ou readequação da
deve ser fortalecido e revisado. Além de projetos normativa do Focem, para que sejam incluídos:
de infraestrutura, criar-se-ia também um fundo para projetos de fortalecimento da identidade regional,
projetos sociais. Indagou quais representantes dos por meio de iniciativas de educação de base
países que estão decidindo tais aspectos, bem como regional e criação de centros de educação para a
pediu/exigiu cadeiras para a sociedade civil. integração regional; e projetos sociais, com foco
nas diretrizes do Peas e ODMs (como o acesso
Renato apresentou a possibilidade de participação à água potável gratuita e ao saneamento) que
popular nas instâncias do Mercosul: assento e não estejam experimentando avanços (exemplo:
participação efetiva. O ideal seria um Banco de gênero – representação paritária nas comissões e
Desenvolvimento com um fundo anticíclico. Sugere: órgãos do Mercosul)
a) ampliação do Focem para a convergência
estrutural; b) criação de outro fundo para as outras
convergências (outros temas do Peas).

Propostas finais

1. Criação de um Focem Social como mecanismo de


articulação real entre sociedade civil e governos para
consulta, seguimento, avaliação e controle do Peas.

2. Para cumprir os objetivos do Focem e eliminar as


assimetrias da região, propomos a criação de um
mecanismo de participação social na definição, na
gestão e no acompanhamento dos seus projetos,
bem como a ampliação dos recursos financeiros e
as áreas de atuação para contemplar a execução
dos projetos do Peas.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 79
OFICINA

Educação
para a
Integração

Grupo Temático 5: Cooperação para o Desenvolvimento


Regional e Integração Regional
Professora sistematizadora: Tereza M. Spyer Dulci
Coordenadora: Fernanda Lapa
Palestras

Fernanda Lapa (coordenadora) abre os trabalhos da Em sua palestra, Soledad Garcia Muñoz defendeu
tarde, destacando a importância do tema “Educação que a educação em direitos humanos seja uma
para a Integração”. Apresenta-se aos palestrantes, das principais apostas do Mercosul nos próximos
ressaltando que suas exposições serão centradas no anos. Para a palestrante, a questão da pobreza
direito à educação em direitos humanos, assunto que representa uma grave violação dos direitos
interessa a todos os países e, em especial, aos que humanos (a América Latina, de acordo com a Cepal,
sofrem com altos índices de violência escolar, como é a região mais desigual do planeta). Muñoz tratou
muitas nações latino-americanas. Antes de passar a das políticas sociais no Mercosul, notadamente
palavra às colegas, enfatizou a importância de se discutir os principais acertos em matéria de educação
o direito à educação e à educação em direitos humanos em direitos humanos e as principais debilidades.
como um direito em si, tratando a educação em direitos Explicou ainda que educação em direitos humanos
humanos no plano regional/internacional e não nacional significa que todas as pessoas, independente de
(tentativa de superação da lógica nacional). gênero, condição econômica, social, geográfica etc
têm o direito de ter a oportunidade de saber quais
são os seus direitos: “ Sem consciência dos nossos
direitos, muito dificilmente os veremos realizados
1ª. Palestra e respeitados”. Para a palestrante, essa formação
pode ajudar muito a reduzir o índice de violência
Soledad García Muñoz nas escolas da América Latina. Por último, Muñoz
Representante do Instituto apresentou uma proposta curricular e metodológica
Interamericano de Derechos Humanos elaborada pelo IIDH, que será compartilhada com os
- IIDH, com sede em Costa Rica e países do Mercosul, para que seja discutida e, talvez,
filiais no Uruguai e em Bogotá incorporada à educação formal, especialmente
Representa a sede uruguaia entre jovens de 10 a 14 anos.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 81
2ª. Palestra palestrante defendeu a criação de uma agenda comum
de políticas educativas e usinas de políticas públicas
Mariana Bardisa comuns para a educação, além de compartilhar as
Representante do Impulso Argentino: políticas educativas que já estão em voga nos países
fundo de capital social vinculado ao do Mercosul: “compartilhamos o sangue, as batalhas
Ministério de Economia e Finanças perdidas, os sonhos”.
Públicas, com sede em Buenos Aires

Em sua palestra, Mariana Bardisa tratou da questão


dos direitos humanos na Argentina, a partir de sua Metodologia
experiência no Impulso Argentino, com projetos cujo
público-alvo são jovens excluídos de 18 a 24 anos Os participantes, por volta de 35 a 40 pessoas,
sem ensino secundário, desprovidos de educação foram divididos em quatro equipes, responsáveis
formal e trabalho. Essa experiência de educação por apresentar ao grupo geral uma proposta, cada
popular (os jovens foram capacitados em economia equipe, ao final dos debates. Os professores Tereza
social e solidária e direitos humanos) com programas Spyer e Luciano Wexell ficaram responsáveis por fazer
impulsores de formação de seis meses em economia os relatórios das discussões dos grupos (destacamos
social e solidária ajudou na inserção de quatro mil abaixo, sinteticamente, essas discussões). No final,
pessoas em toda a Argentina apenas em 2012. foram apresentadas quatro propostas que, depois
das discussões gerais, foram compiladas em dois
Bardisa afirmou que o governo argentino pós-2003 tópicos finais que foram levados à Plenária Final do
ampliou as universidades e as expandiu para outras dia seguinte.
áreas do país que não tinham universidades públicas
gratuitas, uma vez que essas instituições estavam Resumo das principais propostas do grupo do
concentradas nos grandes centros urbanos: “Acredito professor Luciano Wexell
que para poder crescer como país e como América
Latina é fundamental um projeto que tenha como Mariana, representante do Impulso Argentino,
base a educação, a batalha mais difícil de todos os apresentou as seguintes propostas, avaliadas
povos. Só assim vamos dar o salto e sair do conceito posteriormente pelo grupo: que os processos de
de pátria pequena para pátria grande”. Ademais, revalidação de diplomas sejam menos exclusivos (não
outra medida importante que o governo argentino somente pelo Celpbras/Inep); que sejam estabelecidas
vem tomando nesta área diz respeito a “asignación medidas para facilitar trâmites de estudantes e o
universal por hijo”, que dá incentivo financeiro e intercâmbio entre as instâncias de educação formal e
controle médico às famílias que tenham filhos na informal de Espanhol, Português e Guarani.
escola, iniciativa que gerou grande inclusão social.

Para a palestrante, o apoio do Estado não encontra


seus objetivos se a sociedade civil não conhece a Propostas
política pública e não participa. Bardisa afirmou que o
investimento em educação, em especial em educação 1. 
Criar um organismo dentro do Mercosul (com
sobre direitos humanos, é fundamental para que recursos econômicos), que exerça a função
as pessoas saibam que há ferramentas políticas e de promover políticas públicas comuns para a
um governo que as apoia. Acrescentou, ainda, que educação formal e informal, e ações que unifiquem
somente com consciência a população poderá fazer os sistemas educativos regionais, ampliando a
sua própria interpretação da realidade e enfrentar presença da sociedade civil nos seus mecanismos
momentos como o que a Argentina vive na briga pela de consulta, seguimento, avaliação e controle.
aplicação da Lei de Medios, aprovada pelo Congresso
Nacional, e que visa reduzir a concentração dos 2. 
Criar uma Secretaria Regional dentro dos
meios de comunicação no país vizinho. Por último, a Ministérios de Educação de cada país com a

82
finalidade de facilitar os trâmites burocráticos para entre os países da nossa região. Proposta: revisão
a admissão de estudantes e profissionais da área dos sistemas educativos que estão implantados
de ensino formal e informal oriundos do Mercosul, nos países. Educação para a cidadania. Situação
e reconhecer os certificados de idiomas dos países do Paraguai hoje exemplifica isso. Para que nos
do Bloco (Espanhol, Português e Guarani). estão formando? Reconhecimento dos diplomas
acadêmicos.
Resumo das principais propostas do grupo da
professora Tereza Spyer Adhemar S. Mineiro (Brasil-CUT/Dieese). Como
passar do marco nacional para o marco internacional?
Mateus (Brasil/UFGRS): necessidade de um plano Não reduzir o tema da integração à educação
de integração em educação. Proposta: Plano universitária. Proposta: Conferência do Mercosul
de Integração Educacional do Mercosul, com focada na educação. Envolver atores como os
destaque para os seguintes itens: compreender a conselhos profissionais para poder avançar na
educação como direito universal do ser humano questão dos diplomas. Falta estabelecer diretrizes
e dever do Estado, educação pública, laica mais claras dentro do Mercosul.
gratuita e de qualidade; promover a mobilidade
acadêmica; reconhecimento de títulos e diplomas; Adriana Monzón (Argentina-CCSC). Em Buenos
desenvolvimento e compartilhamento da produção Aires, criamos uma disciplina chamada “construção
científica e tecnológica; criar parques tecnológicos da cidadania”. Proposta: Criar uma disciplina ou algo
comuns; criar disciplinas comuns entre os cursos do tipo que trate da construção da cidadania para
e produção de conhecimento livre a serviço da construir relatos latino-americanos.
sociedade; contribuir para a soberania científica e
tecnológica do Bloco. Julien Denplene (Paraguai-Unila). Já temos um
avanço com a criação do Instituto Social do Mercosul
Sylvia Valdés (Argentina-CCSC). Proposta: valorizar o (ISM). Devemos criar outros organismos?
pensamento latino-americano próprio, independente
da Europa e dos EUA. Pensamento latino-americano Lidia/Victor (Peru): o idioma é muito importante para a
como de Vasconcelos, Freyre e outros autores. integração. Proposta: desenvolver o ensino dos idiomas.

Guzman (Uruguai-Unila): educação pela Propostas finais


integração. Problema da Unila: educação brasileira.
Educação intercultural foi apresentada como 1. Convocar uma conferência regional sobre educação
sendo uma redundância. Destacou o ponto entre para discutir diretrizes para a integração, tomando
interculturalidade e multiculturalidade, de maneira em consideração os seguintes temas: compreender
que a educação seria feita pela integração e não a educação como direito universal do ser humano
integração pela educação (o título em si é um e dever do Estado, educação pública, laica gratuita
problema). Proposta: que os projetos de integração e de qualidade; promover a mobilidade acadêmica;
não sejam feitos por um único país. reconhecimento de títulos e diplomas (envolver
atores como os conselhos profissionais para poder
Nilsen: não existe a cultura de integração latino- avançar no reconhecimento); desenvolvimento
americana. Não devemos só pensar a educação e compartilhamento da produção científica e
superior. Proposta: devemos criar, nas capitais dos tecnológica; valorizar o pensamento latino-
países da América Latina, centros de educação para americano próprio; criar parques tecnológicos
a integração latino-americana (criar a consciência/ comuns; criar disciplinas comuns entre os cursos;
cultura para a integração). Capacitar as pessoas em produção de conhecimento livre a serviço da
nível local para trabalhar pela integração. sociedade; contribuir para a soberania científica
e tecnológica do Bloco; valorizar o pensamento
Maria M. Pereira (Paraguai-Las Ramonas): existem latino-americano próprio; desenvolver projetos de
ainda desvantagens/diferenças muito grandes integração que tenham autonomia e não estejam

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 83
sujeitos às legislações dos Estados nacionais; revisão vista as semelhanças regionais e globais. Para tal
dos sistemas educativos que estão implantados reformulação, estabelecer fóruns especializados
nos países (educação para a cidadania); reforma entre governo e sociedade civil organizada.
curricular do ensino básico e superior e incentivar o
ensino dos idiomas. 3. 
Criar e implementar, de forma participativa,
considerando as boas práticas do Bloco e
2. 
Coordenação das políticas públicas educacionais os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto
nos países partes do Mercosul no marco do Programa Interamericano de Direitos Humanos (IIDH), um
Mercosul Educacional, com vistas à reformulação Plano Regional de Educação em Direitos Humanos,
dos currículos nacionais (primário, secundário e que entre diversos temas contemple: a integralidade
superior), de forma a abranger disciplinas comuns, dos direitos humanos e as perspectivas de gênero
tais como História da América Latina, Culturas e diversidade, a articulação da educação formal
Latino-Americanas, Direitos Humanos e etc, com com experiências da educação não formal, a
viés crítico e multicultural. A partir dessa reforma, revalidação de diplomas e reconhecimento de
estabelecer mudança de paradigma educacional títulos e a aproximação de currículos da educação
formal, abandonando a relação hierárquica formal entre os países.
mestre x aluno e priorizando a educação popular
e valorizando a extensão universitária popular, 4. 
Criar um organismo dentro do Mercosul (com
com ênfase nas vivências locais, sem perder de recursos econômicos), que exerça a função

84
de promover políticas públicas comuns para a
educação formal e informal, e ações que unifiquem
os sistemas educativos regionais, ampliando a
presença da sociedade civil nos seus mecanismos
de consulta, seguimento, avaliação e controle.

5. Criar uma Secretaria Regional dentro do Ministério


de Educação de cada país, com a finalidade de
facilitar os trâmites burocráticos para a admissão
de estudantes e profissionais da área de ensino
formal e informal oriundos do Mercosul, e
reconhecer os certificados de idiomas dos países
do Bloco (Espanhol, Português e Guarani).

Duas propostas finais encaminhadas à plenária final

1. Convocar uma conferência regional sobre educação


para discutir diretrizes para a integração e um
Plano Regional de Educação em Direitos Humanos,
tomando em consideração a educação pública,
laica, gratuita e de qualidade, a integralidade dos
direitos humanos e as perspectivas de gênero e
diversidade.

2. 
Fortalecer o Mercosul Educativo, por meio da
coordenação de políticas públicas educacionais,
valorizando as vivências locais sem perder de
vista as semelhanças regionais e globais com
vistas à revalidação de diplomas, reconhecimento
de títulos, reformulação dos currículos nacionais
(primário, secundário e superior), e aproximação
de currículos para incluir disciplinas comuns, tais
como História da América Latina, Cultura Latino-
Americana e Direitos Humanos, com viés crítico e
multicultural.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 85
Debate Temático

O Ano da Juventude
no Mercosul -
Construindo um Novo
Protagonismo

Equipe Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)


O encontro da juventude durante a Cúpula Social do Segundo a palestrante, os jovens são o grupo social
Mercosul contou com uma mesa com representantes mais impactado pelos problemas, em especial os
do Brasil, da Colômbia, da Argentina, do Paraguai problemas gerados pelo neoliberalismo da década
e do Uruguai. Organizada pela Secretaria-Geral de 1990. As políticas públicas para os jovens na
da Presidência da República, a Cúpula Social do região aumentaram muito, mas ainda não são o
Mercosul fechou o encontro com o tema do Ano da suficiente. Para exemplificar, trata do caso brasileiro.
Juventude no Mercosul, de julho de 2012 a julho de Avanços: Conselho Nacional de Juventude, Prouni,
2013. Na sequência, apresentaremos os principais cotas nas universidades públicas etc. Problemas/
temas tratados por esses representantes. Desafios: precarização do trabalho, violência,
situação dos jovens rurais (migração), etc. Severine
Severine Macedo (brasileira/secretária Nacional de criticou, ainda, a invisibilidade que os jovens tinham
Juventude da SNJ) tratou do fortalecimento dos dentro dos governos do Mercosul. Porém, para
temas relacionados à juventude dentro do Bloco, ela, a mudança para os governos progressistas na
ressaltando a participação social e as políticas região ampliou a inclusão social e a emancipação
públicas para esse segmento. Para ela, as atividades da juventude em função das novas agendas dos
anteriores à Cúpula — 1) Juvensur, realizado em Foz governos e pela mobilização dos próprios jovens: “os
do Iguaçu (300 jovens) e 2) Curso de formação do governos precisam entender os jovens como sujeitos
Cefir em Montevidéu — representaram um grande estratégicos”.
avanço para a juventude, com elementos acumulados
nos debates, tais como a constatação do papel da Sebastian Galo (colombiano/representante da
juventude na região e no mundo, protagonista de juventude no Parlamento Juvenil do Mercosul)
mudanças e de transformações. fez um histórico da participação estudantil no

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 87
Parlamento Juvenil do Mercosul, tratando do primeiro trás um modelo neoliberal, devemos avançar na
grupo que surgiu em 2010 (cujos representantes discussão sobre o modelo de desenvolvimento que
ficarão no cargo até 2014). Relatou ainda o papel queremos para a região. Os movimentos sociais
desempenhado pelos estudantes, destacando os devem contribuir mais com o novo modelo de
avanços de reconhecimento da juventude no Bloco. desenvolvimento, ou seja, é essencial aumentar a
Com respeito aos obstáculos, afirmou que existe falta participação política dos movimentos sociais, com
de interesse entre os jovens dos países do Bloco e de destaque para a participação da juventude.
alguns Estados nacionais.
Aldo Gimenez (paraguaio/representante do Conselho
Federico Montero (argentino/representante da Casa Permanente de Organizações Sociais e Populares do
Pátria Grande – Presidente Néstor Carlos Kirchner) Paraguai) começou sua fala relatando o processo
começou sua intervenção apresentando um vídeo que levou ao golpe no Paraguai. Ressaltou que,
com ações do ex-presidente argentino nas relações apesar de seu governo estar suspenso do Mercosul,
com diferentes países da região. Ele propugnou o povo paraguaio está presente na Cúpula Social
“um modelo de desenvolvimento alternativo ao representando o país: “Não podemos implementar
neoliberalismo, que garanta a justiça social e a um Estado de democracia com um governo golpista.
soberania e amplie a democracia”, além de propor Não sabemos se haverá eleições sem fraudes em 2013
maior participação dos jovens nas mudanças políticas: com o governo de Federico Franco”. Ressaltou, ainda,
“A presidente Cristina Kirchner diz que o melhor lugar que o Paraguai enfrenta muitos problemas além do
para a juventude é a política, e, no ano de juventude, golpe de Estado, tais como: entrega da soberania
é onde vamos estar”. Afirmou, ainda, que se deve alimentar a Monsanto; papel dos EUA no Paraguai
discutir o que os jovens devem fazer pela integração. e desrespeito aos direitos humanos dos indígenas.
Para Montero, mesmo que tenhamos deixado para Terminou sua fala afirmando que a integração deve

88
ser do povo para o povo, e não feita pelos governos conhecimento na região etc. Falta, ainda, garantir
para o povo. a participação institucionalizada da sociedade civil
e defender a mobilidade acadêmica regional: “A
Manuela Braga (presidenta da União dos Estudantes juventude precisa participar mais dentro dos fóruns
Secundaristas do Brasil e representante do Conselho que temos. Porque estamos apenas engatinhando
Nacional de Juventude - Conjuve) iniciou sua fala na participação da juventude na definição de
com uma saudação aos estudantes venezuelanos, políticas públicas”.
bem como à reeleição do presidente Hugo Chávez.
Repudiou o golpe no Paraguai, afirmando que o Martín Pereira (uruguaio/representante do movimento
golpe é um “ símbolo do retrocesso da democracia, sindical do Uruguai), o último representante da
em um momento que conseguimos avançar em juventude, criticou o neoliberalismo e o consumismo
muitos outros países”. Ao falar do Brasil, comemorou que vêm imperando desde a década de 1990. No caso
a aprovação da destinação de 100% dos royalties uruguaio, destacou avanços como: a legalização do
futuros do petróleo para a educação brasileira e aborto, a luta contra o narcotráfico, o casamento gay
pediu o reconhecimento dos jovens como um fator etc. Com relação aos problemas, enfatizou o trabalho
estratégico para o desenvolvimento do Brasil e da precário (em especial das mulheres que ganham três
América Latina. Sobre os desafios, afirmou que falta vezes menos que os homens). Por último, propôs o
participação da juventude nos fóruns do Mercosul. resgate do papel da juventude nas mudanças pelas
Para ela, deve-se ampliar os fóruns de participação quais a América Latina está passando e criticou
da sociedade civil no Mercosul. Segundo Braga, o sistema capitalista, que vê a juventude como
o Mercosul Educativo não tem a participação mercadoria.
da juventude. È necessário que se discuta a
mobilidade, o reconhecimento de títulos, a troca de

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 89
Plenária Final

Equipe Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)


Participantes da mesa organizações. Condena o golpe no Paraguai,
distinguindo a sociedade daqueles que usurparam o
Rosane Bertotti (coordenadora, Brasil) governo. Comenta a necessidade de se preparar para
Mario Volpi (Argentina) a próxima Cúpula, em Montevidéu.
Fatima Rallo (Paraguai)
Enrique Amestoy (Uruguai) Fátima Rallo (Paraguai) lamenta o golpe em seu
Elizabeth Tortosa (Venezuela) país. Pede comemorar o arquiteto Oscar Niemeyer.
Agradece ao Brasil a hospitalidade. Argumenta que
Logo no início, representantes de organizações os movimentos sociais são o motor da integração.
indígenas e sindicais da Bolívia solicitam ingresso
na Cúpula Social do Mercosul. Seguem comentários Rosane Bertoti (coordenadora, Brasil) agradece aos
sobre a participação dos movimentos sociais trabalhadores, comenta a participação no Fórum
(Confederación Nacional de Juntas Vecinales, Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre.
Conajuve) em processos políticos atuais. Declara Apresenta a leitura das vinte propostas derivadas
apoio ao presidente Evo Morales e apresenta a dos grupos temáticos. Inicia-se o debate sobre o
organização Juana Azurduy, boliviana. Comenta documento e se apresentam propostas de correção
a importância da participação no Bloco pela ou complemento, a saber:
solidariedade e interculturalidade inerente à região.
Destaca a participação das mulheres nos espaços • Assinalou-se que falta a ideia de criar oficinas
políticos institucionais. Assinala a importância do permanentes de educação popular para o
processo de mudança como processo para toda a desenvolvimento democrático participativo.
região, no marco de uma crítica ao capitalismo. •Propôs-se agregar o orçamento participativo (a
coordenadora informou que não se poderia incluir
Elizabeth Tortosa (Venezuela) faz referência à recomendações não debatidas nos grupos temáticos).
necessidade de construir o socialismo na Pátria • Apresentou-se a proposta de mudar o conceito
Grande de Bolívar. Comenta o que aprendeu pelo que de vulnerabilidades por pessoas em processos de
escutou nos grupos temáticos. Leva “a experiência” e vulnerabilidade.
agradece ao povo brasileiro. • Propôs-se a inclusão da criação de Fundos Sociais
para combater a pobreza.
Mario Volpi (Argentina), que representa o centro
de ex-combatentes das Ilhas Malvinas, agradece o Depois da leitura e debate do documento com as
apoio do governo brasileiro. Assinala a importância vinte propostas, deu-se a leitura da Declaração
da reivindicação das Ilhas. Propõe a desmilitarização Final. Ambos foram aprovados por aclamação. As
total do Atlântico Sul, o desmantelamento de bases Propostas e Declaração Final foram colocadas na
militares e a soberania das Ilhas. Conclui com a leitura sítio eletrônico da Cúpula (http://socialMercosul.
de um poema. org/). Encerra-se a plenária com os agradecimentos
por parte dos membros da mesa.
Enrique Amestoy (Uruguai) saúda a Venezuela e
propõe não depender dos governos, senão das

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 91
Encerramento

Equipe Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)


Foi exibido um vídeo na abertura – O Mercosul É Maximilien Arveláiz
FEITO DE GENTE – e feita uma homenagem a Oscar Embaixador (Venezuela)
Niemeyer (1907 – 2012). A seguir, a mestre de cerimônia
Oscar Laborde
destacou que, nesta noite, celebra-se o sucesso da
Coordenador Nacional do
Cúpula Social, que contou com transmissão ao vivo
“Somos Mercosur” (Argentina)
de sua programação, chegando a 65.980 acessos na
internet ao longo dos dias em que se realizou a Cúpula Federico Gomensoro

e o seminário que a antecedeu. Por fim, enfatizou a Secretário Executivo do Centro de Formação

realização de oficinas temáticas sobre as propostas para a Integração Regional (Uruguai)

que serão entregues aos chefes de Estado. Fatima Rallo


Representante da delegação paraguaia (Paraguai)
Para compor a mesa, foram convidadas as
Marcia Campos
seguintes autoridades presentes e representantes
Presidenta da Federação Democrática
da sociedade civil:
Internacional de Mulheres (Brasil)

Gilberto Carvalho Carlos Eduardo Gabas


Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Secretário Executivo do Ministério da
Presidência da República Previdência Social (Brasil)

Ivan Ramalho Anaia Betarte


Alto Representante do Mercosul Representante do Parlamento
Juvenil do Mercosul

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 93
Gilberto Carvalho trabalhador e promover o respeito aos seus direitos.
Relembra a conquista do direito à aposentadoria
O ministro agradece a todos os presentes, aos como uma garantia para cidadãos, através do Acordo
quais se refere carinhosamente como “queridas Previdenciário do Mercosul.
e queridos amigos”. Saúda a delegação boliviana,
que se juntou aos demais participantes ao final dos Oscar Laborde
trabalhos, além de todos que se empenharam para a
realização daquele evento, funcionários da empresa O representante argentino defende que a Cúpula Social
organizadora, do Museu Nacional e patrocinadores seja parte da Cúpula dos Chefes de Estado. Ele acredita
como a Caixa Econômica Federal e a Fundação Banco que estejamos fazendo um caminho popular e latino-
do Brasil. Por fim, estende seus agradecimentos americano e reivindica mais e melhor participação
à Unila, na figura de seu reitor pro tempore , cidadã. Reconhece serem consideráveis esses esforços,
Helgio Trindade. Pede desculpas pelas falhas e e que é importante nos encontrarmos uma vez por
possíveis problemas na organização e assegura semestre. Releva, ainda, o debate desenvolvido sem,
que a organização das Cúpulas é um processo em contudo, colocar em questionamento a unidade que
construção. Ao ter acesso ao documento com as vinte já temos. Por fim, saúda a entrada da Venezuela e se
propostas que seriam entregues aos presidentes alegra com a possibilidade de entrada da Bolívia e do
dos países, afirma orgulhar-se da sociedade civil, Equador. Segundo ele, estamos caminhando para a
com sua ação consistente e consciente. Afirma que integração solidária e social.
o Mercosul é feito de gente e que isso tem que ser
nossa consigna e nossa luta. Somos cidadãos latino- Federico Gomensoro
americanos e desejamos uma pátria livre em que
todos os cidadãos sejam respeitados. Gomensoro mostra-se solidário ao povo brasileiro
pela perda de Niemeyer, arquiteto e comunista
Ivan Ramalho como poucos, que em tão longa vida criou e propôs
coisas maravilhosas. Ao referir-se à mudança da
Ramalho saúda todas as autoridades governamentais Presidência Pro Tempore do Mercosul, lembra que, no
presentes e representantes da sociedade civil. dia seguinte, o Uruguai a assumirá, mas é impossível
Reafirma que acompanhou toda a formação do não pensar que quem deveria estar ali é o Paraguai
Mercosul e que, para além de áreas já consolidadas e seu presidente eleito democraticamente. Refere-se
como a de investimentos e comércio, esse projeto, aos acontecimentos políticos no país vizinho como
que fortalece as interações sociais, deve ser um golpe duro ao povo paraguaio, posto que não há
ampliado. lugar para ditaduras no Mercosul.

Maximilien Arveláiz Destaca a importância da centralidade da Unidade


de Participação Social na organização das Cúpulas.
O embaixador reconhece o fato de ter poucos Defende que o Plano Estratégico de Ação Social é
companheiros venezuelanos na Cúpula, tendo em vista uma das decisões mais importantes do Mercosul
a realização de eleições em duas semanas em seu país. e que não seria possível implementá-lo sem a
Contudo, assegura que, no próximo evento, serão maioria. participação da sociedade civil. Sobre o Instituto
Social do Mercosul, afirma que é algo fundamental e
Carlos Eduardo Gabas que muitas vezes perdemos esses espaços por falta
de investimentos. Cada país tem sua tradição e temos
Fazendo menção ao período em que o PT está na que respeitar as diferentes visões. As organizações
Presidência da República, afirma que desde 2003 sociais são chave e referência para o avanço de
percebe-se que economicamente o Brasil vai bem, nossos programas. Nossos países não alcançarão o
mas socialmente ainda há problemas a enfrentar. desenvolvimento fora do Mercosul. Quando falamos
Salienta o fato de terem sido orientados pelo ex- de imperialismo, sempre devemos pensar na tentativa
presidente Lula e pela presidenta Dilma a valorizar o de nos balcanizarmos. Para ele, o imperialismo não

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passa apenas pela política, devemos nos tornar Reforça seu argumento ao afirmar que não existe
independentes de multinacionais, garantindo mais Mercosul sem participação popular. Afirma que
integração e mais Mercosul. Devemos, assim, o Mercosul precisa de nossa participação, pois
alcançar nossa segunda e definitiva independência. os movimentos sociais são os instrumentos da
Agradece aos companheiros de Brasil. E conclui: viva transformação: “nós somos a força do Mercosul”.
o Uruguai e a Pátria Grande! Para ela, devemos saudar a força do Mercosul, com a
presença das mulheres e da juventude, que fizeram a
Fatima Rallo diferença na Cúpula Social.

Inicia sua fala garantindo que os paraguaios ali presentes Agradece aos grupos focais de todos os países
não eram representantes do governo golpista, mas do que enviaram seus representantes e faz referência
povo do Paraguai. Afirma que valoriza este espaço do ao povo do Paraguai. Em sua opinião, a Bolívia não
Mercosul para melhorar as condições de vida digna precisa ser convidada, já que ela é a cara do Mercosul:
para a América Latina. Reconhece que solicitaram ao chegou e aqui ficará. Estende seus cumprimentos ao
Instituto Social do Mercosul formas de participar da Equador: a cara do Mercosul é a cara dos povos da
Cúpula Social. Conclui: obrigada aos pontos focais região. Destaca o papel dos movimentos sociais em
por nos fazer sentir parte da Pátria Grande, tendo em debates acalorados, profundos e compromissados,
vista que estamos resistindo a esse governo golpista, contribuindo para a construção de um caminho
esperando a volta da normalidade democrática. fraterno, e de um Mercosul com a cara dos povos
da região. Diz que a altiva participação mostra aos
Anaia Betarte governos os reclamos dos seus povos. Prossegue
versando sobre pressões que considera serem
Segundo a representante da juventude, o Parlamento imperialistas e que encontraram resistência nos povos
Juvenil preocupa-se com a inclusão educativa, da região. Faz referência à vitória do povo palestino:
com o acesso à educação, defendendo que todas “devemos garantir a suspensão dos acordos com
as universidades devem ser públicas, gratuitas e Israel”. Relembra a questão das Malvinas, afirmando
de qualidade. Referindo-se às demandas surgidas que são argentinas: aqui corre o sangue de todos os
nos dias de debate que ocorreram nos eventos povos dessa região. Após essas palavras, entregou
paralelos da Cúpula, defende a participação cidadã, ao ministro Gilberto Carvalho o documento final com
a democracia, os direitos humanos, a saúde pública os pontos a serem entregues aos chefes de Estado.
universal, a integração regional, os intercâmbios
culturais para países da região e o fortalecimento do Gilberto Carvalho
conhecimento sobre a América Latina nas disciplinas
de Línguas e Humanidades. Estes seriam elementos O Ministro convida para ato final de homenagem
para criarmos um verdadeiro Mercosul. Ao final de sua ao arquiteto Oscar Niemeyer, afirmando que houve
fala, entrega o documento com os pontos propostos um tempo em que estávamos chorando nossos
pela plenária do encontro da juventude ao ministro mortos e que hoje celebramos a democracia.
Gilberto Carvalho. Ao cumprimentar os jovens presentes, propõe a
realização de uma chamada simbólica para resgatar
Márcia Campos a presença de figuras históricas que, como Oscar
Niemeyer, não estão mais entre nós, a maioria
Agradece à presidenta Dilma, ao ministro Gilberto Carvalho vítimas das ditaduras e das lutas pela independência
e à sua equipe de pessoas jovens, todos construindo um na região. Foram citadas várias figuras históricas,
espaço para dar voz e cara aos movimentos sociais e dentre as quais José Marti, Simón Bolívar, Ernesto
populares do Mercosul. Homenageia Oscar Niemeyer por Che Guevara, Honestino Guimarães, Zumbi dos
sua origem comunista e por ter mostrado a vários povos Palmares e Salvador Allende.
a sua obra. Saúda o Alto Representante do Mercosul,
Ivan Ramalho, e a plenária, que mostrou com altivez o
Mercosul que queremos.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 95
Declaração da
XIV Cúpula Social
do Mercosul
Representantes dos movimentos sociais e populares seio do Mercosul, com a retomada de seu caminho
da região, convocados pelos governos dos Estados democrático em eleições livres e sem ceder às
partes, associados e observadores do Mercosul no pressões internas e externas para assinar acordos
marco do Programa Somos Mercosul, queremos de livre comércio nem admitir a instalação de bases
expressar nesta Declaração o consenso alcançado militares estadunidenses no seu território como vem
pelas delegações presentes, enfatizando a sendo especulado pela imprensa.
necessidade de fortalecimento da agenda social e da
participação cidadã no Mercosul. 3. Concordamos que a dimensão econômica e
comercial deve se pautar no aperfeiçoamento da
Surpreendidos pela notícia do falecimento do participação social, trabalhista, educativa, ambiental
arquiteto Oscar Niemeyer, e reunidos em Brasília, e cultural da integração regional, superando as
cidade que ele projetou e tanto amou, homenageamos receitas neoliberais que, ainda hegemônicas, têm-
ele nesta declaração, inspirados por seu enorme se fortalecido com a crise pela atuação global das
legado arquitetônico e cultural, sobretudo, pelos Instituições Financeiras Multilaterais e dos países
valores de justiça social, igualdade e solidariedade centrais. Essas são políticas ainda presentes em forma
entre os seres humanos que marcaram sua vida e cada dia mais agressiva, como é o caso dos fundos
obra. especulativos, e com novos formatos de tratados
de investimentos e de associação, ameaçando as
1. A recente quebra do processo democrático no economias emergentes e periféricas que continuam
Paraguai, por meio do golpe parlamentar contra buscando manter seu crescimento.
o legítimo governo eleito, mostra a fragilidade da
construção das democracias emergentes que na Nesse sentido, nos preocupa o avanço das
região já vivenciaram nas últimas décadas diversos negociações do Bloco com a União Europeia,
momentos de corte institucional. Queremos especialmente em temas de grande sensibilidade para
neste sentido reiterar o repudio ao rito sumário a nossos países, como compras de governo e matérias
que foi submetido o presidente Fernando Lugo, normativas e, por isto, reiteramos a necessidade de
democraticamente eleito, e a sua deposição maior transparência nesse processo negociador.
sem direito de defesa, situação que resultou na Alertamos para que este acordo não venha reproduzir
suspensão do Paraguai do Mercosul, atendendo à as negociações nos padrões da Alca.
Cláusula Democrática do Bloco, numa medida que
consideramos correta e que apoiamos. Esta sanção 4. Ratificamos, no marco da soberania nacional,
política se aplica somente aos representantes do do multilateralismo e da defesa da paz e da justiça
Estado Paraguaio e não a sua sociedade civil, que social, a importância de fortalecer e ampliar o
participa plenamente da Cúpula Social. Mercosul, em articulação com os diversos processos
de integração que estão se desenvolvendo na região,
2. Por sua vez, saudamos a incorporação por muito particularmente na América do Sul. E, ao mesmo
tempo adiada da Venezuela que irá trazer sua valiosa tempo, em que se fortalecem mecanismos novos
contribuição ao processo de integração regional, de integração financeira regional, como o Banco do
tão necessário em época de aprofundamento da Sul e o Fundo de Reservas do Sul, acreditamos na
crise global que se estende desde 2008. As recentes importância de buscar posições comuns da região
eleições na Venezuela, com uma massiva participação no G20, na OMC e no sistema ONU, entre outros,
popular, reforçaram ainda mais as convicções que promovam uma transformação no sentido de
democráticas desse país que ora se incorpora ao democratizar o poder global assimétrico. Propomos
Mercosul. impulsionar uma profunda mudança no sistema
financeiro global, de modo a inibir, entre outros, a
Assim, a Plenária da Cúpula Social apoia não só especulação desenfreada dos preços dos alimentos e
a plena inclusão da Venezuela como também da das commodities, criminalizar a lavagem de dinheiro
Bolívia e do Equador ao Bloco. Da mesma forma, e adotar medidas efetivas para por fim ao sigilo
queremos ver prontamente o retorno do Paraguai ao absoluto de jurisdições nos paraísos fiscais.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 97
5. Acreditamos no Mercosul como um processo que do trabalho de migrantes mantidos na ilegalidade
responda às expectativas de mudanças nas condições não pode ser tolerada.
de vida e de trabalho de nossos povos, no sentido de
transformar o modelo de desenvolvimento primário- Da mesma forma, rechaçamos todas as maneiras
exportador ainda vigente em alguns países, que de discriminação de gênero, raça, etnia, orientação
agrava a degradação ambiental e da biodiversidade sexual, crenças ou religiões, ideologias, origem,
e aprofunda a violência no campo e nas cidades, diferenças físicas ou qualquer outra distinção que
promovendo a exclusão social. menospreze os direitos das pessoas e limite o
exercício da sua cidadania. O compromisso com os
Instamos a promover o desenvolvimento industrial Direitos Humanos é fundamental e seu cumprimento
regional para atender às necessidades de nossos e proteção uma prioridade.
povos, à complementação entre os países e sub-
regiões do continente, tendo em conta o conceito de A integração que queremos requer o reconhecimento
desenvolvimento sustentável e as especificidades das da diversidade de sujeitos socioculturais existentes
Micro, Pequenas e Médias Empresas. e dos territórios dos povos e nações indígenas, que
inclusive muitas vezes ultrapassam as fronteiras dos
6. Assim mesmo, defendemos a soberania alimentar Estados nacionais. Neste momento em particular,
e nutricional, cujos princípios articulam políticas de exigimos a apuração do massacre de Curuguaty e
autonomia produtiva baseadas nas necessidades o fim da perseguição e o aniquilamento de povos
nacionais e regionais dos povos, e não subordinadas indígenas, em particular do povo Guarani Kaiowá.
às demandas do mercado mundial, comandado pelas
grandes corporações transnacionais. Resulta urgente Exigimos também políticas públicas universais e
implementar nos diversos países reformas agrárias compatíveis entre os países do Bloco que respondam
estruturadas na soberania alimentar e territorial efetivamente às necessidades de homens e mulheres
dos povos indígenas, comunidades tradicionais, de acesso ao trabalho, à educação, a saúde, a serviços
camponeses e da agricultura familiar. públicos essenciais, e ao exercício pleno dos direitos
econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais.
Para nós, a integração dos povos inclui considerar O combate às assimetrias não pode se esgotar em
as diferenças entre eles como expressão da medidas compensatórias, mas deve contribuir a
diversidade cultural, ao mesmo tempo em que temos resolver os problemas estruturais que impedem a
o desafio de conquistar melhores condições de vida autonomia e o bem-estar de nossos povos.
para todos e todas, através do desenvolvimento
regional integrado, da complementaridade, e da Por sua vez, o Mercosul deve incorporar e implementar
solidariedade mútua. uma política para as Micro, Pequenas e Médias
Empresas e os empreendimentos da Economia
7. Os processos de integração devem garantir a Solidária como eixo estratégico para a ampliação e
plena cidadania no Mercosul e a livre circulação intensificação da integração sócio-produtiva num
de trabalhadores e trabalhadoras, construindo um mercado regional ampliado, que estimule a criação de
marco jurídico de proteção trabalhista que eleve os coletivos de produção de Micro, Pequenas e Médias
padrões atuais na região e garanta a plena liberdade Empresas . Além disso, deve-se promover ações para
de organização e de negociação coletiva, bem como inclusão laboral dos jovens.
a atualização e aperfeiçoamento da Declaração
Sociolaboral e a garantia de instrumentos para sua 8. Entendemos que não há liberdade de expressão
aplicação. Da mesma forma é fundamental tomar sem a democratização dos meios de comunicação.
realidade o Observatório do Mercado de Trabalho Neste sentido, enfatizamos a necessidade de se
do Mercosul. Ao mesmo tempo, garantir o direito garantir a participação dos movimentos sociais
das pessoas a não migrar como também todos os organizados no debate público, elaboração,
direitos dos e das migrantes. A competitividade implementação e controle social posterior
baseada no trabalho escravo ou na sobre-exploração de novas leis de comunicação que reflitam a

98
diversidade social do nosso continente, que exige a 11. Reivindicamos a legítima soberania argentina sobre
democratização da palavra, a pluralidade de vozes, as Ilhas Malvinas, Georgias do Sul e Sandwich do Sul,
e a extinção dos monopólios da comunicação, e os espaços marítimos e insulares correspondentes.
visto que a comunicação é um direito e não uma Exigimos o cumprimento das Resoluções e das
simples mercadoria. Ao mesmo tempo, o Estado Declarações das Nações Unidas sobre a questão
deve garantir a democratização de uso das novas das Malvinas e do Atlântico Sul como zona de paz e
tecnologias de informação e comunicação em favor cooperação. Exigimos, ainda, o desmantelamento de
de uma democracia substantiva. todas as bases militares estrangeiras na região que
ameaçam a segurança e a soberania de nossos povos.
9. Sabemos que a única forma de aprofundamento
dos processos democráticos é através da 12. Saudamos o Estado Palestino pela conquista do
participação efetiva dos movimentos sociais e status de Estado Observador nas Nações Unidas,
populares que, no caso da integração regional, como primeiro passo para o seu reconhecimento e
devem ampliar a cada dia sua atuação no processo a autodeterminação do povo palestino. Ao mesmo
decisório do Mercosul. tempo, propomos a suspensão do acordo entre o
Mercosul e Israel até que cessem as atrocidades
Exortamos aos governantes a garantir a transparência cometidas contra a Palestina e o processo de paz
e acesso às informações nas negociações do seja restabelecido.
Mercosul e a fortalecer os espaços de diálogo e
interação entre povos e governos, estimulando os 13. Exigimos aos Estados Partes o compromisso
mecanismos de democracia participativa e controle solidário e a contribuição técnico-científica para
social. Celebramos a institucionalização das Cúpulas o povo irmão do Haiti, em substituição das tropas
Sociais aprovadas pelo Mercosul e propomos o militares presentes nesse país.
fortalecimento da participação das organizações
sociais e dos movimentos populares, em diálogo com 14. Finalmente, as organizações e movimentos
os governos, garantindo as condições necessárias sociais do Mercosul, reunidos em Brasília, ratificam
para viabilizar a presença dos movimentos sociais e a vontade de continuar impulsionando a integração
populares nesses espaços. dos povos: por uma verdadeira integração que nos
permita recuperar a soberania plena a partir e para
Instamos ao imediato funcionamento da Unidade de os povos do Sul.
Participação Social do Mercosul, criada pelo Conselho
do Mercado Comum em 2010. A XIV Cúpula Social felicita o Brasil pela organização
deste encontro em sua Capital Federal e agradece a
Também chamamos os governos a implementarem hospitalidade e carinho recebido.
as diretrizes do Plano Estratégico de Ação Social
do Mercosul (Peas) por meio do fortalecimento do Frente à crise global, reforcemos a integração
Instituto Social do Mercosul, e também o Estatuto da regional dos Povos!
Cidadania do Mercosul.

10. Instamos os governos a se comprometerem com


a harmonização das legislações vigentes e a ampla
difusão de acordos que favoreçam a integração,
como, por exemplo, os Acordos de Seguridade
Social ou de Residência para nacionais do bloco, e o
reconhecimento dos diplomas acadêmicos. Exigimos,
também, que os países cumpram com o processo
de eleição por voto direto dos/as representantes
no Parlamento do Mercosul, incluindo a paridade de
gênero.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 99
20 Propostas para o
Aprofundamento
da Democracia
e da Participação
Social no Mercosul
Preâmbulo Mecanismos de participação social no Mercosul

Nós, os movimentos e organizações da sociedade 5. Implementar a Unidade de Participação Social


civil do Mercosul reunidos em Brasília, de 4 a 6 de do Mercosul, responsável pelo acompanhamento
dezembro de 2012, na XIV Cúpula Social do Mercosul, das decisões das Cúpulas Sociais, com respeito
para debater o tema da cidadania e participação a diversidade das organizações que lutam contra
social, exigimos a adoção, pelos Chefes de Estado todas as formas de desigualdade e discriminação.
dos países membros, das seguintes propostas: Assim, institucionalizando uma participação real
das organizações sociais, que garanta a incidência
Direito à memória, à verdade e à justiça nos espaços de decisão, o acesso à informação, o
financiamento e, colocar em prática, mecanismos que
1. Que os Estados partes fortaleçam o Instituto de permitam o trabalho entre as cúpulas.
Políticas Públicas de Direitos Humanos do Mercosul
- IPPDDHHM por meio da destinação de recursos 6. Efetivar os espaços de representação e participação
materiais e humanos para seu efetivo funcionamento,
já existentes, como o Parlasul, realizando eleições
fortalecendo os planos de trabalhos regionais das
diretas em todos os Estados parte, e, regulamentar
Secretarias de Direitos Humanos dos países do
espaços de participação direta nos diferentes
Mercosul e promovendo a articulação e a divulgação
fóruns temáticos do Mercosul, de forma a garantir
educacional e pública dos trabalhos das Comissões
que as demandas da sociedade civil recebam
de Verdade e Justiça.
encaminhamento dos órgãos decisórios.

2. A implementação do Plano Estratégico de Ação Social


A Cúpula Social que queremos
do Mercosul – Peas, adotando metas e assegurando
orçamento necessário para a prevenção das múltiplas
7. Fortalecer e celebrar a institucionalização das
violações de direitos humanos, com ênfase nos povos
Cúpulas Sociais, trabalhando fortemente para dar um
indígenas, migrantes, camponeses, afrodescendentes,
salto de qualidade na representação e participação
jovens, crianças, mulheres e a diversidade de pessoas
até aqui alcançada. Nesse sentido, construir mesas
e coletivos vulneráveis em seus direitos.
permanentes de cada eixo temático que funcionem
entre as Cúpulas para seguimento, avaliação e análise
Migração e trabalho decente
pré e pós-Cúpula.

3. A implementação imediata do Estatuto da


8. Formar uma coordenação permanente das
Cidadania do Mercosul, que deve ser também um
organizações sociais para realizar o seguimento e
marco que provoque a harmonização das legislações
migratórias na região para se expandir direitos já avaliação do Peas.

existentes em um país aos demais países. Nesse


sentido, deve-se realizar sua ampla divulgação, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional

promover o trabalho decente, viabilizar a revalidação


de diplomas, garantir a igualdade de gênero e o 9. Criar no âmbito do Mercosul uma política regional

direito ao voto pelos imigrantes, bem como à saúde, de agricultura familiar sustentável e agroecológica,

educação, entre outros direitos. Nossa defesa é da considerando modelos de produção sinérgicos entre
cidadania universal para os imigrantes que residem o conhecimento indígena, tradicional e tecnológico,
no Mercosul, vindos inclusive de outros continentes. que respeite o uso e os costumes sociais, valorizando
as sementes crioulas.
4. Políticas públicas direcionadas à construção de
redes de informação e acompanhamento da situação 10. Que a soberania e segurança alimentar e
dos direitos dos imigrantes nos países do Mercosul, nutricional sejam parte das políticas de regulação
com particular atenção às realidades de partida, de cada Estado, tendo como base um plano regional
trânsito e destinos dos fluxos migratórios. que, entre outros pontos, fortaleça o Mercosul.

X I V C ú p u l a S o ci a l d o M e r c o s u l : D e b a t e s e PROPO S TA S 101
Comércio Justo e Economia Solidária PEAS, FOCEM e ODM: cooperação para o
desenvolvimento regional
11. Constituir uma plataforma de dados e sistematização
de Tecnologias Sociais para potencializar os 17. Para mitigar as assimetrias da região, criar um
conhecimentos e saberes dos povos originários mecanismo de participação social que defina,
e das comunidades, assim como das práticas de acompanhe e administre os projetos do Focem, bem
comercio justo e economia solidária, permitindo criar como ampliar os recursos financeiros e as áreas de
mecanismos de certificação destes saberes e práticas atuação do Fundo com o objetivo de contemplar
de desenvolvimento. A criação do prêmio Mercosul de a execução dos projetos do Peas. Dessa forma, o

Tecnologia Social (tendo como referência o prêmio Focem será um mecanismo de articulação real entre

Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social) irá a sociedade civil e os governos para sua consulta,

contribuir para o fortalecimento e/ou criação de seguimento, avaliação e controle.

espaços e redes em uma perspectiva inclusiva e para


18. Criação de um Focem-Social ou readequação
o fomento à formação de multiplicadores regionais a
da normativa do Focem para que sejam incluídos:
partir da educação.
projetos de fortalecimento da identidade regional
por meio de iniciativas de educação de base regional
12. Instituir o livre trânsito dos produtos e serviços
e criação de centros de educação para a integração
da economia social, solidária e popular no Mercosul.
regional; e projetos sociais, com foco nas diretrizes do
Peas e ODMs (como o acesso à água potável gratuita
Identidade Cultural Sul-Americana
e ao saneamento) que não estejam experimentando
avanços (exemplo: gênero – representação paritária
13. Promover políticas públicas de maior integração
nas comissões e órgãos do Mercosul)
no campo da cultura e educação por meio da adoção
do ensino das línguas portuguesa e espanhola nas
Integração pela educação
escolas, fortalecimento do guarani e valorização das
demais línguas dos povos originários; de uma política
19. Convocar uma conferência regional sobre educação
ativa de tradução de literatura, do intercambio de
para discutir diretrizes para a integração e um Plano
estudantes, da intensificação das trocas de ações
Regional de Educação em Direitos Humanos, tomando
culturais e fortalecimento das cadeias produtivas
em consideração a educação pública, laica, gratuita e
culturais.
de qualidade, a integralidade dos direitos humanos e
as perspectivas de gênero e diversidade.
14. Promover a democratização dos meios de
comunicação e ampliar o alcance da Telesur e outras
20. Fortalecer o Mercosul Educativo por meio da
iniciativas regionais que reforcem os mecanismos de coordenação de políticas públicas educacionais,
comunicação popular. valorizando as vivências locais sem perder de vista
as semelhanças regionais e globais com vistas a
Democratização da Comunicação e Cultura Digital revalidação de diplomas, reconhecimento de títulos,
a reformulação dos currículos nacionais (primário,
15. Elaborar e/ou apoiar as leis de democratização secundário e superior), e a aproximação de currículos
da comunicação que garantam o direito a palavra, o para incluir disciplinas comuns tais como História da
acesso, a pluralidade e diversidade, e a liberdade de AL, Culturas Latino-Americanas e Direitos Humanos,
expressão, a exemplo da lei de meios de comunicação com viés crítico e multicultural.
da Argentina, considerando a realidade de cada país.

16. Defender um marco civil da internet que garanta


a neutralidade da rede e a liberdade de expressão;
e construir um instituto de tecnologia social do
Mercosul.

102
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Esta obra foi impressa pela Imprensa Nacional em julho de 2013.

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Tiragem: 600 exemplares.


XIV Cúpula Social do Mercosul Conselho de Desenvolvimento
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