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UNIDADE DISCIPLINAR

“O SISTEMA TERRA-ATMOSFERA”

Esta unidade de ensino “O Sistema Terra-Atmosfera”, escrito pelo prof. Rodrigo da


Silva, faz parte dos “Seminários Integradores”, neste caso sendo ministrado pelo Instituto de
Engenharias e Geociências da UFOPA. Trata de um tema que esclarece sobre a nossa
sobrevivência no Planeta Terra, um sistema termodinâmico aberto possui fluxos de massa e
energia que a tornam um sistema relativamente estável. A radiação solar que incide
continuamente sobre o Planeta, é seguramente responsável pela existência de características
diversas de vida de acordo com a localidade. A quantidade de radiação incidente nas regiões
varia, contribuindo assim para existência de diferentes espécies.
Estudar o balanço energético, fundamentado em uma complexa troca e transformação
de energia, é importante para se entender a estabilidade (ou a falta desta) em algumas regiões
do globo terrestre e suas conseqüências sobre a vida dos seres vivos, além de ser
indispensável às previsões do tempo, à agricultura, à geração de energia entre outros.
Para melhor proveito, o estudante deve fazer a leitura do texto-base antes da realização
do seminário, procurando identificar os pontos-chave do conteúdo, suas dúvidas e a relação
desta temática com outras já estudadas. Deve participar ativamente das discussões e não
deixar de buscar sempre fundamentar a sua opinião, de forma a enriquecer e aprofundar os
debates.

Visão geral da UD
O texto tem início apresentando as esferas terrestres divididas nos grandes sistemas
interligados por onde flui energia disponibilizada pelo sol. Essas esferas são: a Atmosfera, a
Hidrosfera, a Litosfera, chamadas abióticas, que numa complexa troca e transformação de
energia dão forma a esfera biótica, que é composta pela Biosfera.
A seguir o autor discorre sobre a formação do Universo, pelo Big Bang, dando origem
ao tempo e espaço como os percebemos. Nesse quadro localiza-se a formação do Sistema
Solar e seus respectivos planetas; até deter-se, mais especificamente, no sistema Atmosfera.
O autor mostra como se formou a Atmosfera e o que a compõe, numa perspectiva
temporal, e como sua composição química foi sendo alterada pelo processo de resfriamento
progressivo, pela radiação ultravioleta do sol, pela eletricidade estática, entre outros. A
atmosfera terrestre é hoje composta por uma mistura de gases e de partículas sólidas em
suspensão, dos quais os mais abundantes são o nitrogênio e o oxigênio. É nesse contexto que
surgem os primeiros organismos vivos, só passíveis de sobrevivência nas profundezas dos
corpos d’água. Afirma ainda que hoje já se sabe que os “processos de interação entre a
atmosfera, a superfície dos oceanos, a crosta terrestre e os seres vivos, são e serão os fatores
que determinarão o futuro do planeta Terra”.
O texto aborda as principais formas de interação entre a superfície e a atmosfera
relativas à entrada de energia no sistema e sua distribuição pela camada limite planetária,
porção inferior da atmosfera na qual os efeitos da presença da superfície terrestre são
diretamente sentidos.
Em sua parte final é destacado o papel que a Amazônia, como floresta tropical, possui
em termos energéticos: funcionam como uma imensa bomba d’água e um enorme radiador.
Assim, a Amazônia é importante na manutenção dos níveis energéticos na atmosfera que
regulam o clima do Planeta.
Por último, é desejável que o aluno procure responder às questões para fixação do
conteúdo elaboradas pelo autor, a fim de verificar o seu grau de compreensão do assunto.

Objetivo
Este texto tem como objetivo abordar, de forma introdutória, as características do
fluxo de energia dentro do sistema terra-atmosfera, seu balanço, sua distribuição e seu frágil
equilíbrio, o qual garante a sustentabilidade das diversas formas de vida encontradas no
planeta Terra.

Conteúdo
• Introdução
• O tempo, o espaço e a terra
• Atmosfera terrestre
• Composição e estrutura da atmosfera
• O fluxo de energia
• O balance de energia
• Questões para fixação

Texto base
O SISTEMA TERRA-ATMOSFERA
Rodrigo da Silva1
INTRODUÇÃO
As esferas terrestres são divididas e quatro gigantescos sistemas interligados, por onde
flui toda a energia disponibilizada pelo Sol que sustenta o sistema biogeofisico terrestre. São
eles: a Atmosfera, a Hidrosfera, a Litosfera e a Biosfera que interagem entre si. Dentro da
imensidão da superfície terrestre, três desses sistemas, as esferas abióticas (Atmosfera,
Hidrosfera e Litosfera), sobrepõem-se uma as outras, em uma complexa troca e transformação
de energia para dar forma ao reino da esfera biótica, ou esfera da vida, a nossa Biosfera.

Figura 1 – As quatro esferas terrestres inter-relacionadas pela incessante troca de energia e


massa entre elas.

A Atmosfera é um fino manto, uma capa gasosa que envolve o globo terrestre, e
permanece presa a terra devido à ação da força gravitacional. A Hidrosfera é a esfera que
abriga água em seus três estados (solido, liquido e gasoso) e compreende a água que se
encontra na atmosfera, na superfície e na crusta terrestre próximo a superfície. Juntas, a
hidrosfera e a atmosfera possibilitam a vida no planeta. A litosfera é a crosta terrestre, porção
solida mais externa do nosso planeta e é composta por rochas e solo. Ao lado da hidrosfera e
da atmosfera, constituem a biosfera. A biosfera, por sua vez, sustenta a única forma de vida

1 Professor da UFOPA (Doutorado em Física (2006), atua na área de Micrometeorologia e Processos de


Interação Biosfera-Atmosfera.)
conhecida em nosso universo. Pode-se definir que a Biosfera é formada por um conjunto de
ecossistemas que se estende desde o leito dos oceanos até 10 km dentro da atmosfera.
O sistema ambiental do planeta é composto pela atmosfera e de forma geral por toda
superfície do planeta (oceanos, lagos, rios, florestas, desertos, cidades, montanhas, animais).
Este sistema é caracterizado por uma complexa rede de inter-relações e por um fluxo de
energia que tem como fonte primaria o Sol. É dentro deste sistema que ocorrem os processos
de interação entre a superfície e a atmosfera, e é esta interação, do ponto de vista de troca de
energia, que caracteriza e modela o clima, os ecossistema, a biodiversidade, existente no
planeta. Este texto abordará de forma introdutória as características do fluxo de energia dentro
desse sistema, seu balanço, sua distribuição e seu frágil equilíbrio, o qual garante a
sustentabilidade das diversas formas de vida encontradas no planeta terra.

O TEMPO, O ESPAÇO E A TERRA


E tudo começou com uma grande explosão: o big bang.
Este conceito, que explica a criação do Universo, estabelece que tudo, absolutamente tudo
dentro do Universo, teve origem a partir dessa grande explosão. Este instante, que deu origem
ao tempo e ao espaço com os percebemos, foi estimado ter ocorrido a inimagináveis 13 a 14
bilhões de anos atrás.
Para se ter uma idéia correta das dimensões de espaço e tempo do Universo conhecido
a partir das observações feitas da Terra é preciso entender o conceito de velocidade da luz. A
física moderna estabelece que toda forma de radiação eletromagnética se propaga no vácuo a
uma velocidade constante, chamada velocidade da luz, representada pela letra c. No vácuo, a
velocidade da luz foi calculada em 299.792.458 metros por segundo (m/s), ou
aproximadamente 300.000 quilômetros por segundo (km/s) ou 1.079.252.848,8 quilômetros
por hora (km/h). Em outras palavras uma onda eletromagnética, as mesmas que são utilizadas
pelos seres humanos em seus sistemas de telecomunicações (TV’s, radio’s, celulares), bem
como a luz que irradia do Sol, percorre nove trilhões de quilômetros em um ano. Está
gigantesca distância percorrida pela luz em um ano é conhecida como “ano-luz” e é essa a
unidade utilizada para medir o vasto Universo.
O planeta Terra está localizado dentro do sistema solar, que está localizado em um dos
braços da galáxia conhecida como Via Láctea. Esta é a nossa galáxia e recebe este nome por
que ao olhar para o céu noturno encontramos um caminho esbranquiçado cruzando o céu.
Estima-se que existem algumas centenas de bilhões de estrelas em nossa galáxia, na ordem de
200 a 400 bilhões de estrelas. Por outro lado, estima-se que no universo existam mais de
2.000 bilhões de galáxias. A Cosmologia é a ciência que estuda a formação das galáxias.
A hipótese mais aceita sobre a formação das galáxias é de que depois do big bang as
partículas primordiais tenham, durante o processo de esfriamento, se agrupadas em nuvens
contendo partículas e gases elementares que sofria forte influência da força da gravidade. A
partir dessas nuvens originaram-se as galáxias e seus constituintes (estrelas, planetas, etc). Da
mesma forma, os sistemas planetários também tiveram origem a partir de nuvens de poeira
cósmica, porém, provenientes de espetaculares explosões estrelares ou super-nova.
A formação do sistema solar teve inicio há cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, a partir
de uma nuvem de gás e poeira que devido seu peso entrou em colapso. Lentamente, esta
nuvem de gases e poeira, girava em torno de seu centro e assim foi tomando forma de disco,
onde partículas mais pesadas eram lentamente afastadas de seu centro, deixando apenas gases
leves como o hidrogênio. Ondas de choque devido a outras explosões estrelar e a intensa força
de atração gravitacional determinaram o colapso dessa nuvem (figura 2). Este colapso gerou
enorme pressão e o aumento súbito de temperatura no centro da nuvem que por fim torna-se
capaz de promover reações nucleares e químicas em seu núcleo. Nasce assim uma estrela, o
nosso Sol.

Figura 2 – (A) nebulosa planetária, produto da explosão de uma supernova; (B) colapso da
nebulosa; (C) formação dos protoplanetas; (D) formação dos planetas rochosos e dos gigantes
gasosos; (E) sistema solar atual. (fonte: http://planetmars.sites.uol.com.br; autor
desconhecido)

No sistema solar exterior, formaram-se quatro grandes massas que deram origem aos
planetas gigantes gasosos: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno; estes planetas gasosos possuem
uma densa atmosfera gerada pela sua intensa gravidade. Nas proximidades do Sol formaram-
se os chamados planetas terrestres (rochosos): Mercúrio, Venus, Terra e Marte. Ainda, ao
longo dos milhares de anos de intensa agitação do jovem sistema solar, colisões desde
pequenos detritos a gigantescas massas rochosas foram moldando a geometria do sistema
solar, determinando seu equilíbrio orbital e as orbitas de cada planeta em torno do Sol.
Atualmente, o nosso sistema solar é composto por oito planetas que circundam o Sol
descrevendo órbitas estáveis (plutão não é mais considerado planeta) e a maioria deles possui
satélites naturais (luas). Ainda compõem o sistema solar os asteróides e os cometas que são
resíduos do sistema solar primitivo em formação.
Em especial, dentre todos do sistema solar, a posição em que o Planeta Terra se
encontra, teve e tem grande impacto para o estabelecimento e consolidação da vida neste
planeta. A Terra está a uma distancia do Sol que lhe permitiu agregar elementos fundamentais
para o desenvolvimento de uma atmosfera capaz de reter água e conservar-la nos três estados
(solido, liquido e gasoso). Conseguiu agrupar ferro em quantidades suficientes para manter
um núcleo quente e dinâmico capaz de gerar um campo magnético (magnetosfera) que
protege a Terra da radiação cósmica e ventos solares nocivos aos seres vivos.
Adicionalmente, embora consideremos o espaço interplanetário (distancia entre os planetas)
um imenso vazio, os asteróides são resquícios errantes da formação do sistema solar
potencialmente perigoso ao nosso planeta. Contudo, os milhares de asteróides que entram ou
atravessam o sistema solar todos os anos, a grande maioria deles são atraídos pela força
gravitacional dos gigantes gasosos, que funcionam como verdadeiros escudos para os planetas
rochosos localizados no sistema solar interior (próximos ao Sol).
De fato, embora existam trilhões de trilhões de trilhões de planetas na imensidão do
universo, apenas um é conhecido por ser capaz de abrigar e manter uma enorme diversidade
de formas de vida. Contudo, a presença de vida da forma que a Terra abriga hoje é muito
recente dentro da historia e da evolução do Planeta Terra e possui um frágil equilíbrio
construído pelo próprio planeta durante centenas de milhares de anos.

ATMOSFERA TERRESTRE
A formação da atmosfera se confunde com a própria formação do planeta. A cerca de
4,5 bilhões de anos, a atmosfera primordial era composta de gases remanescentes da nebulosa
de que formara o sistema solar. No estágio inicial de formação da Terra, transformações
físico-químicas deram origem a substâncias gasosas que escaparam da massa solidificada da
superfície e formaram a primeira película gasosa em torno do planetóide. Esta atmosfera
primitiva era rica em hidrogênio (H) e o hélio (He), contudo, durante o primeiro bilhão de
anos a elevada temperatura e o constante bombardeamento da superfície terrestre, forneceram
energia e condições para que houvesse a perda para o espaço de grandes quantidades de H2 e
He. A agitação térmica das moléculas suplantava a força gravitacional. Em menor quantidade
havia gases contendo hidrogênio como o metano (CH4), a amônia (NH3), o vapor d’ água
(H2O), o dióxido de carbono (CO2) e gases nobres.
Ao longo do tempo a composição química da atmosfera foi sendo alterada devido ao
progressivo resfriamento, ao efeito da radiação ultravioleta do Sol, a eletricidade estática e
raios e por transformações físico-químicas que forneceram condições à formação de novos
elementos químicos, liberação de oxigênio da superfície, condensação do vapor d’água e a
decomposição da amônia, liberando o Nitrogênio (N2) elemento que seria dominante nesta
época. Essa lenta transformação provocou chuvas e a formação dos oceanos, que dissolveram
o excesso de CO2 presente na atmosfera através de reações químicas com os componentes
desse oceano primitivo, originando gigantescos depósitos de calcário.
Ao longo do tempo em que a Terra se resfriou, dando origem a uma atmosfera
primitiva, surgiram os primeiros organismos vivos. Entretanto, sem a presença de ozônio e
oxigênio, a radiação ultravioleta proveniente do Sol não era filtrada nesta atmosfera e chegava
até a superfície da Terra. A vida que então se iniciava só era possível nas profundezas dos
corpos d’água, onde o ultravioleta não penetrava. Hoje acredita-se que foram bactérias e
outras formas de vida anaeróbicas e fixadoras do nitrogênio que deram inicio a vida nos
mares primitivos. Há registros fosseis os organismos fotossintetizadores surgiram há pelo
menos 3,5 bilhões de anos atrás. Como nos dias de hoje, estes primeiros organismos
utilizavam energia solar para produzir seu alimento a partir de água e CO2 e eliminavam
oxigênio. Mesmo com a liberação de oxigênio, a atmosfera continha muito pouco desse
elemento, pois o que era produzido seria utilizado no processo de oxidação da superfície.
Portanto, esta atmosfera primitiva era anóxica e redutora.
Hoje em dia, o minério encontrado na terra é rico em oxigênio, óxido de ferro, óxido
de manganês, oxido de urânio, uma conseqüência de milhares de anos do processo de
oxidação da superfície. Ao mesmo tempo em que os organismos produtores de oxigênio
aumentavam, os elementos redutores na superfície eram saturados e o oxigênio lentamente
começou a se acumular na atmosfera. O aumento da concentração de oxigênio na atmosfera
possibilitou a formação da camada de ozônio na estratosfera e o surgimento de organismos
aeróbicos e a proliferação da vida nos mares. Esta condição marca uma importante mudança
ambiental, onde a atmosfera deixa de ser redutora para ser uma atmosfera oxidante rica em
oxigênio e a presença da vida teve papel determinante para essa condição. A Teoria de Gaia
de J. E. Lovelock explora estes aspectos. Também, considera que é possível analisar a
presença de vida em outro planeta através do conhecimento da composição de sua atmosfera.
Hoje se sabe que os processos de interação entre a atmosfera, a superfície dos oceanos,
a crosta terrestre e os seres vivos que aqui habitam, são e serão os fatores que determinarão o
futuro do planeta Terra.

COMPOSIÇÃO E ESTRUTURA DA ATMOSFERA


A atmosfera terrestre é uma mistura de gases de e partículas sólidas em suspensão. Os
gases mais abundantes que compõem a atmosfera são o nitrogênio e o oxigênio, que
respondem juntos por, aproximadamente, 99% da nossa atmosfera seca. Ambos os gases
possuem uma importante associação com a vida. O nitrogênio é removido da atmosfera e
depositado na superfície da Terra por bactérias especializadas em fixar nitrogênio, e por
relâmpagos através da precipitação. O nitrogênio retorna a atmosfera primariamente através
da combustão de biomassa e denitrificação. O oxigênio sofre a troca entre a atmosfera e os
seres vivos pelo processo de fotossíntese e respiração. A fotossíntese produz oxigênio quando
o dióxido de carbono e água são quimicamente convertidos em glicose com a presença da luz
solar. Na respiração, oxigênio é combinado com glicose para fornecer quimicamente energia
para o metabolismo. Os produtos desta reação são água e dióxido de carbono que na
atmosfera são agentes reguladores das condições ambientais como o clima do planeta.
O vapor de água varia em concentração na atmosfera tanto espacialmente quanto
temporalmente. As concentrações mais altas de vapor de água são encontradas próximas ao
equador sobre os oceanos e florestas tropicais. O vapor de água possui diversas funções muito
importantes no nosso planeta: Agente responsável pelo ciclo hidrológico e regulação térmica
do nosso planeta. É o principal gás natural do efeito estufa.
O dióxido de carbono, apesar de sua pequena concentração na atmosfera, apresenta
um papel fundamental no cenário atual das mudanças climáticas globais, pois o seu volume
tem aumentado drasticamente nos últimos 300 anos. Este aumento é uma conseqüência direta
da queima de combustíveis fósseis para geração de energia e o desflorestamento para a
expansão da produção de alimentos e outros usos do solo. Esse gás também está associado
com o efeito estufa.
O ozônio é importante por participar em processos fotoquímicos na atmosfera,
funcionando como um filtro em relação à radiação solar ultravioleta, que pode ser danosa à
vida, em proporções elevadas. O ozônio é encontrado próximo à superfície da terra em
regiões industriais e urbanas e na camada de ozônio estratosférica.
Essa camada que envolve a Terra possui uma espessura de aproximadamente 400
quilômetros, entretanto, mais de 90% da composição da atmosfera se encontra nos níveis mais
próximos da superfície terrestre. A atmosfera geralmente é dividida em camadas levando-se
em conta suas propriedades termodinâmicas ou químicas (figura 3). Basicamente, são cinco
camadas de espessuras variadas: Troposfera (0 – 12 km); Estratosfera (12 – 50 km);
Mesosfera (50 – 80 km); Termosfera (80 – 500 km) e Exosfera (acima dos 500 km).

Figura 3 – Estrutura e composição da atmosfera moderna. (Fonte: internet


http://www.caastro.hpg.ig.com.br/composicao.htm; autor desconhecido)

Na realidade somente o limite inferior da atmosfera é bem definido. Mesmo os limites


de cada camada podem sofrer variações. Dentre as camadas, as três primeiras camadas juntas
formam a região conhecida como homosfera, pois a composição básica da atmosfera se
mantém constante dentro desta região. Contudo, é na troposfera que ocorre a interação direta
entre a superfície do planeta e a atmosfera, trocando incessantemente energia e massa entre si.
É através da superfície do nosso planeta que se dá quase a totalidade da entrada de
massa e energia disponível no sistema Terra-Atmosfera. Estas propriedades são transferidas
através de diferentes processos para níveis superiores da atmosfera ou para o interior do
planeta. Os processos de transferência para as camadas mais profundas do solo são
moleculares, decorrentes da interação direta entre as diferentes camadas de solo em contato
entre si e, portanto, são pouco efetivos e atingem no máximo alguns metros de profundidade.
Em profundidades da ordem de 2 m, por exemplo, na maioria das localidades a temperatura é
praticamente constante, sendo impossível sequer que se percebam as variações decorrentes da
passagem das estações do ano. Já as transferências para a atmosfera são muito mais efetivas,
pois além dos processos de troca molecular estão presentes interações turbulentas, através da
qual as moléculas de ar se deslocam para níveis superiores carregando consigo propriedades
tais como momento, calor, umidade ou poluição.
Dentro da troposfera, a camada limite planetária (CLP) é definida como aquela
porção inferior da atmosfera na qual os efeitos da presença da superfície são diretamente
sentidos. Tais efeitos são, basicamente, de dois tipos: dinâmicos, causados pelo atrito exercido
pela superfície, que desacelera o vento em níveis mais baixos, causando uma grande variação
vertical de sua velocidade nos primeiros metros acima da superfície, e térmicos, decorrentes
do aquecimento da superfície pela radiação solar. O balanço entre esses dois efeitos
determinam a espessura da CLP, que apresenta tipicamente um ciclo diário bem definido,
sendo muito mais rasa durante a noite (até poucas centenas de metros) que durante o dia
(chega a poucos quilômetros de altura). Além disso, a localidade, características da superfície
(como cobertura vertical, textura, propriedades térmicas) e época do ano também influenciam
a espessura que pode atingir a CLP.
O estudo das interações entre a superfície e a atmosfera é, assim, o estudo da CLP,
pois é nessa camada que se acumulam os efeitos das trocas de massa e energia ocorridas na
superfície. Tais processos têm conseqüências diretas na vida do ser humano, e o seu bom
entendimento é importante para o desenvolvimento de atividades como agricultura, meio-
ambiente, previsão de tempo, geração de energia, transportes, urbanismo, conforto térmico
entre outras. Todas as atividades humanas e biológicas ocorrem nesta camada. A transferência
de massa e energia, dentro da Camada Limite, regula uma grande variedade de processos em
toda a atmosfera. Neste texto, abordaremos as principais formas de interação entre a
superfície e a atmosfera, em duas partes: a entrada de energia no sistema e sua distribuição
pela CLP.

O FLUXO DE ENERGIA
A energia pode ser definida como a capacidade de realizar trabalho e transferir calor.
O calor é definido como o total de energia cinética de todos os átomos, íons ou moléculas em
movimento em uma substância. A temperatura é a medida da velocidade média do movimento
dos átomos, íons ou moléculas da matéria, em um dado instante. Uma conseqüência direta é
que uma substância pode ter muito calor (muita massa e grande movimento de átomos, íons
ou moléculas), porem possuir uma temperatura baixa (velocidade média das moléculas baixa).
Todos os corpos com temperatura acima de zero absoluto (0ºK ou -273.15 ºC) emitem
energia. Energia e calor podem ser transferidos pela radiação, que ocorre através de ondas
eletromagnéticas, pela condução, quando ocorre através de colisões entre moléculas, e pela
convecção que ocorre através de circulação de um fluído. O espectro eletromagnético (figura
4) é a distribuição da intensidade da radiação eletromagnética em função do seu comprimento
de onda ou de sua freqüência.

Figura 4 – Espectro Eletromagnético é o intervalo da radiação eletromagnética, que contém


desde as ondas de rádio, as microondas, o infravermelho, a luz visível, os raios ultravioleta, os
raios X, até a radiação gama. (Fonte: http://kajkrause.blogspot.com/2009/06/o-espectro-
eletromagnetico.html; autor desconhecido)

A Lei de Planck descreve a radiação emitida em função do comprimento de onda, de


acordo com essa lei, para um mesmo comprimento de onda, a emissão é maior para maiores
valores de temperatura. As duas leis que tratam da transferência de energia através da
radiação são:
• A Lei do Deslocamento de Wien, a qual diz que o comprimento de onda (distância
entre os picos da onda) de emissão depende da temperatura do corpo emitente. Quanto
mais quente o corpo, menor o comprimento de onda, ou seja, são inversamente

proporcionais:
• A Lei de Stephan-Boltzman estabelece que a quantidade de energia emitida por um
corpo depende da sua temperatura. Quanto mais quente o corpo, maior a quantidade
de energia emitida. Essa energia é diretamente proporcional à quarta potência da
-8 -2
temperatura: , onde σ é a constante de Stefan-Boltzmann (5,67 x 10 W m
K-4), e ε é a emissividade do corpo, que indica o quanto ele emite em relação á
emissão de um corpo negro (corpo ideal que emite toda energia incidente).
A figura 4 mostra a distribuição espectral de energia radiante de um corpo negro à
temperatura de 6000 ºK (como a temperatura da superfície do Sol) lado esquerdo e de um
corpo negro com temperatura de 303 ºK (como a temperatura da superfície da Terra) lado
direito.
A quantidade de energia emitida por cada corpo é muito distinto. O Sol emite energia
radiante na ordem de 107 watts por metro quadrado por micrometros (W/m2 por µm)
transportada por pequenos comprimentos de ondas, quanto que a Terra emite apenas poucas
dezenas de watts por metro quadrado por micrometros transportada por comprimentos de
onda maiores. O pico da emissão solar ocorre a um comprimento de onda de 0,48 µm
(microns 10-6 m), enquanto que o da Terra ocorre a 10 µm (figura 4). Importante observar que
os maiores níveis de energia emitidos pelo Sol são transportados pelos comprimentos de onda
que compõem o espectro da luz visível. Devido a grande diferença entre os comprimentos de
onda típicos do espectro de energia do Sol e da Terra pode-se diz-se radiação de onda curta a
radiação solar, enquanto que a terrestre é chamada de radiação de onda longa.

Figura 4 – Distribuição espectral de energia radiante do Sol (6000 ºK) e da Terra (300 ºK) em
função do comprimento de onda.

Outra lei fundamenta na natureza é a lei de conservação de energia. Quando a energia


de determinado comprimento de onda incide (I ) sobre uma substância, ela pode ser
λ

transmitida através desta (T ), refletida por sua superfície (R ) ou absorvida (A ), de forma que
λ λ λ

a conservação de energia pode ser expressa como: ou , onde


, são respectivamente a transmissividade, refletividade e absorvidade.
Essas propriedades são típicas de cada substancia e definidas para cada comprimento de onda.
Na pratica, entretanto, pode-se defini-las para bandas espectrais razoavelmente largas
nas quais elas não apresentam grandes variações. Um exemplo disso é a propriedade chamada
albedo, que representa a refletividade em onda curta.
Cada gás constituinte da atmosfera tem propriedades radiativas especificas. Assim, a
radiação a radiação solar incidente é por ela parcialmente refletida, transmitida, absorvida e
reemitida. A parcela absorvida depende do espectro de absorção dos gases atmosféricos
(figura 5). Os constituintes atmosféricos em geral não são bons absorvedores de radiação de
onda curta (0,15 a 3,0 µm), exceto pelo ozônio (O3), bastante eficaz na absorção de radiação
solar ultravioleta, abaixo de 0,30 µm, e pelo vapor d’água que se torna progressivamente bom
absorvedor para comprimentos de onda acima de 0,80 µm. Na banda espectral em que ocorre
o pico de emissão solar, em torno de 0,48 µm (dentro do espectro da luz visível) pode-se dizer
que a atmosfera é transparente a essa radiação. Portanto, a energia irradiada pelo sol que irá
interagir efetivamente com a superfície da terra está na sua grande maioria concentrada na
região da luz visível.

Figura 5 – Absorção por constituintes atmosféricos e pela atmosfera como um todo em função
do comprimento de onda da radiação incidente. (Fonte: Oke (1987) adaptado)

Os processos de troca da energia radiativa em comprimento de onda longa são bem


mais complexos, pois a maioria dos constituintes atmosféricos são bons absorvedores em
alguma faixa dessa porção do espectro eletromagnético. Além disso, cada camada da
atmosfera recebe radiação incidente de onda longa vinda de cima (emitida pelas camadas
superiores da atmosfera) como de baixo (emitidas pelas camadas inferiores e pela superfície
terrestre). Em geral, a atmosfera é boa absorvedora em onda longa, e os constituintes que mais
contribuem para isso são o vapor d’água (H2O), dióxido de carbono (CO2) e ozônio (O3).
Destes, o vapor de água é o mais importante, pois suas maiores concentrações na atmosfera
associadas a presença de água no estado liquido na forma de gotículas de nuvens potencializa
sua absorvidade de onda longa. Existe, entretanto, um intervalo dentro do espectro de
comprimentos de onda longa para o qual a atmosfera, na ausência de nuvens, é transparente
para essa radiação de onda longa. Na faixa de 8 a 11 µm, exceto por uma estreita banda de
absorção do ozônio entre 9,6 a 9,8 µm, não há absorção de radiação por parte de nenhum
constituinte atmosférico. Este intervalo é chamado de janela atmosférica, e é através dela que
se dá grande parte da perda de energia (na forma de calor) do sistema Terra-Atmosfera para o
espaço. A presença de nuvens e poluição, entretanto, pode “fechar” parcialmente a janela.

O BALANÇO DE ENERGIA.
A Atmosfera terrestre, da mesma forma que uma máquina de calor, transforma energia
disponível em movimentos de imensas massas de ar. Praticamente todo o combustível para
esta "máquina" é fornecido pelo sol. A atmosfera terrestre é semitransparente a radiação solar.
Estritamente falando 25% da energia é absorvida diretamente pela atmosfera e 28% é refletida
pelas nuvens ou por partículas em suspensão e pela própria superfície. O resto,
aproximadamente 47%, passa através da atmosfera e é absorvido pela superfície.
Posteriormente esta energia é transferida de volta, por movimentos convectivos, para as
primeiras centenas de metros da atmosfera.
O saldo entre a energia radiante que chega a Terra e o que é emitida ou refletida pela
mesma é chamado de balanço de energia ou balanço radiativo. Através do entendimento do
balanço de energia é possível determinar como a energia é aplicada no sistema terra-
atmosfera. O fluxo de energia na Biosfera pode ser expresso pela seguinte equação:
Rn = G + H + LE,
onde: H = é o Fluxo de Calor sensível que é aquela energia transferida da superfície para as
primeiras camadas de ar da atmosfera por condução e tem a função de aquecer ou resfriar o
ar; LE = é o Fluxo de Calor latente, que é a energia utilizada para realizar a mudança de fase
da água; G = é o Fluxo de Calor do solo, que é a energia transferida para os níveis mais
baixos da superfície.
O limite de energia solar (radiação de onda curta) imposto ao sistema Terra-Atmosfera
é conhecido como Constante Solar (I0) e seu valor é de 1.367 W/m2 no topo da atmosfera.
Esta radiação que incide no topo da atmosfera pode ser absorvida por constituintes
atmosféricos, refletida por estes de volta ao espaço, refletida novamente pela atmosfera em
direção a Terra, ou recebida diretamente na superfície. A componente que chega à superfície
após múltiplas reflexões na atmosfera é denominada radiação solar difusa (D), que faz com
que dias de céu encoberto não seja escuro. A parcela que incide em determinada superfície é
ainda reduzida em função do ângulo θ que os raios solares fazem com o zênite, de acordo com
a seguinte expressão: S = Si cos(θ). Na superfície a radiação total de onda curta recebida é
simbolizada por K↓ = S + D. O valor médio de energia que chega ao topo da atmosfera ao
longo de um ano é 342 W/m2, um quarto da constante solar. Esta energia representa 100% da
energia primaria disponível para o sistema Terrestre em um ano. O balanço de radiação de
onda curta na media ao longo de um ano é o seguinte:

Assim, do total de energia solar incidente no topo da atmosfera, 19% são refletidos
diretamente de volta ao espaço por nuvens e 6% são refletidos pelos constituintes
atmosféricos (gases e particulados). Estes por sua vez, são melhores absorvedores de onda
curta (K*atm 20%) do que as nuvens (K*nuvens 5%). Do total que chega à superfície da Terra,
3% são diretamente refletidos para o espaço e 47% absorvido. Desta forma, 28% da energia
de onda curta que chega a Terra são refletidas de volta para o espaço e 25% são absorvidas
pela atmosfera e 47% são absorvidas pela superfície terrestre (figura 6).
A emissão de energia pela superfície da terra e pela atmosfera é dada pela Lei de
Stefan-Boltzmann. Em uma boa aproximação podemos considerar que a superfície da terra
possui índice de emissividade (ε) igual a um, e que a temperatura media da superfície é de 15
ºC (288 ºK), aplicando esses valores obtemos que a energia media emitida pela superfície da
ao longo de um ano é de 390 W/m2. Esse valor é 14% maior que a energia primaria que chega
do Sol, ou seja, a superfície terrestre emite 114% (figura 6). Isso só é possível porque boa
parte da energia de onda longa emitida pela superfície é bloqueada pela atmosfera. Na
ausência da atmosfera toda energia de onda curta seria refletida para o espaço ou absorvida
pela superfície terrestre, que a reemitiria na mesma proporção em onda longa. Neste caso,
sem atmosfera, a soma de energia de onda curta refletida e a emissão em onda longa deveriam
igual o valor de energia incidente de onda curta. Como hipótese, no caso de toda energia
incidente (342 W/m2) fosse absorvido ao longo do ano pela Terra, aplicando a Lei de Stefan-
Boltzmann a temperatura média da Terra seria de apenas 5 ºC. Portanto, a presença da
atmosfera com sua composição atual elevam a temperatura da superfície do planeta em 10 ºC.
Este fenômeno que a atmosfera proporciona de elevar a temperatura da superfície da Terra é
conhecido como efeito estufa, e é causado por alguns gases atmosféricos que possuem a
propriedade de absorver e emitir radiação de onda longa. Os principais gases presentes na
atmosfera com essa propriedade, os gases do efeito estufa, são o vapor d’água e o dióxido de
carbono. O aumento das concentrações desses e de outros gases do efeito estufa presentes na
atmosfera, como o metano e o oxido nitroso, gera uma intensificação do efeito estufa, pois
torna aumenta a capacidade da atmosfera de reter e emitir mais radiação de onda longa
(calor). Contudo, o efeito estufa é uma propriedade natural da atmosfera e sem esse efeito as
condições ambientais na Terra completamente diferentes e se mesmo as forma de vida que
nele habitassem seriam igualmente distintas das existentes hoje.

Figura 6 – Balanço de energia do sistema Terra-Atmosfera (T-A). A presença da atmosfera


gera um sado positivo de energia na superfície terrestre.

Entretanto, mesmo com a presença do efeito estufa em nossa atmosfera, a lei universal
de conservação de energia deve ser satisfeita. Uma breve analise nos mostra que dos 100% de
energia recebida do espaço pelo sistema Terra-Atmosfera, apenas 28% dessa mesma energia
(onda curta) retornou para o espaço. Os outros 72% de energia restante são devolvidos ao
espaço pelo sistema Terra-Atmosfera na forma de radiação de onda longa (calor) emitidos
parte pela superfície do planeta (5%) e grande parte pela atmosfera (67%). Desta forma, a
Terra como um todo está em equilíbrio radiativo. Contudo, desde que a sociedade humana
fundamentou todo seu avanço tecnológico através da geração de energia através da queima de
combustíveis fosseis e modificou a paisagem de grandes áreas sobre a superfície terrestre, este
equilíbrio radiativo pode estar sendo quebrado.
Embora, o sistema planetário terrestre esteja em equilíbrio energético, o sistema
superfície-atmosfera não deve estar em equilíbrio, pois deve existir um saldo de energia
positivo na superfície terrestre responsável pela manutenção de sua temperatura acima
daquela que seria possível apenas com a energia de onda curta. Este saldo positivo (29% de
) é chamado de radiação liquida ou energia liquida, e representa a quantidade de energia
(aproximadamente 100 W/m2) disponível para impulsionar os processos físicos, químicos e
biológicos que ocorrem na biosfera.
Do ponto de vista pratico o balanço radiativo mais importante para ser analisado é o
da superfície terrestre, pois é na superfície que se encontra quase que a totalidade dos
ecossistemas. As componentes desse balanço são:
• K↓ radiação incidente de onda curta, é composta pela soma das componentes direta
(S) e difusa (D). Essa componente sobre variação de acordo com a época do ano e
local, em função da posição do Sol, bem como as nuvens interferem em sua
magnitude. Possui um ciclo diário bem definido seguindo a posição do Sol no céu e é
nula durante a noite. Cerca de 50% dessa radiação solar que chega a superfície da
Terra ocorre em comprimentos de onda curta úteis para a fotossíntese, a chamada
Radiação Solar Fotossinteticamente Ativa. Entretanto, mesmo as espécies vegetais
mais eficientes, podem somente incorporar de 3% a 10% dessa radiação na produção
de biomassa.
• K↑ radiação de onda curta refletida pela superfície terrestre, depende da radiação
incidente (K↓) e do albedo da superfície (α), desta forma: K↑ = α · K↓. Esta
componente tem papel importante no balanço pois responde energeticamente a uma
alteração superficial. Podemos tomar como exemplo as calotas de gelo, que possuem
albedo em torno de 0,9, ou seja, refletem até 90% da radiação solar incidente sobre
elas, com a redução da área das calotas de gelo, menor será a quantidade de radiação
solar refletida e maior será a radiação absorvida pela superfície.
• L↓ radiação de onda longa emitida pela atmosfera para a superfície, depende da
composição e temperatura atmosféricas. É a componente do balanço radiativo com
menores variações ao longo do dia. Por exemplo, a atmosfera úmida possui maior
capacidade de emissão radiativa do que atmosfera menos úmida ou seca.
• L↑ radiação de onda longa emitida pela superfície. Depende da temperatura e
emissividade superficiais, pois L↑ = ε·σ·T4. Devido essa dependência com a
temperatura superficial, apresenta valores maiores durante o dia (superfície mais
aquecida) e valores menores durante a noite devido ao resfriamento superficial (perda
radiativa).

A soma dessas quatro componentes determina a radiação liquida (Rn) e o balanço


radiativo superficial: Rn = K↓ + L↓ - K↑ - L↑. Durante o dia Rn é positivo pois K↓ é o
componente radiativo dominante (radiação solar), e se torna negativo a noite quando somente
existe as componentes de onda longa, das quais L↑ é tipicamente maior do que L↓.
Embora as componentes que partem da superfície (K↑ e L↑) possuam dependência do
tipo de superfície (floresta, campo, oceano, deserto, etc) não há grandes variações de radiação
liquida para diferentes locais, pois elas tendem a se compensar, da seguinte forma: superfícies
nas quais o albedo é maior (maior K↑) absorvem menos energia em onda curta, se aquecendo
menos e emitindo menos L↑, de forma a reduzir a variabilidade de Rn.
A radiação liquida é particionada em três componentes: parte é usada para aquecer as
camadas inferiores do solo, parte é utilizada para aquecer a atmosfera e parte é utilizada para
evaporar a água presente na superfície, como visto anteriormente (Rn = G + H + LE). Os
mecanismos através dos quais calor e umidade são transferidos da superfície para a atmosfera
pelo deslocamento de parcelas de ar contendo essas propriedades são os chamados fluxos
turbulentos: fluxo de calor sensível (H) e fluxo de calor latente (LE).
O balanço dessa energia varia de diversas maneiras dependendo do tipo de superfície.
Por exemplo, na figura 7 é mostrado o balanço de energia para três distintas condições de
superfície: floresta amazônica, deserto da Namíbia e o oceano pacífico tropical. Pode-se notar
que não há variação significativa do valor máximo (em torno de 400 W/m2) da radiação
liquida entre as três superfícies, mesmo o valor de K↓ ser significativamente diferente nas três
condições (pico de 600 W/m2 na floresta, 800 W/m2 no deserto e 700 W/m² no oceano). O
termo G é significativamente maior no oceano devido à transparência da superfície do mar
que permite a penetração dos raios solares e aquecimento de níveis mais profundos. No
deserto, devido à ausência de cobertura os raios solares incidem diretamente na superfície
aquecendo-a mais rapidamente, promovendo assim uma difusão de calor para as camadas
inferiores da superfície.

Figura 7 – Particionamento da energia dentre os componentes do balanço de energia para as


três superfícies: a) Oceano Pacifico; b) Deserto da Namíbia; c) Floresta Amazônica. Fonte:
Garstang and Fitzjarrald (1999)

A partição de energia entre calor sensível e calor latente varia muito entre as três
condições superficiais. O oceano contrasta com o deserto. Sobre o oceano, praticamente não
há energia sendo disponibilizada para aquecer a atmosfera, pois o fluxo de calor sensível é
praticamente nulo, por outro lado o fluxo de calor latente é grande e praticamente constante
ao longo do dia. Isso se deve ao fato da superfície do oceano oferecer uma fonte continua de
umidade para a atmosfera, desta forma a parcela de energia liquida que é transferida para a
atmosfera será usada quase que na sua totalidade no processo de evaporação do oceano. Já no
deserto, existe uma ausência de umidade na superfície, o que determina um fluxo de calor
latente nulo e toda a energia transferida para atmosfera é utilizada exclusivamente para
aquecer o ar durante o dia (valor positivo de H) e resfriá-lo durante a noite (valor negativo de
H). Esse fato faz com que o ciclo diário de temperatura sofra grandes variações, com
temperaturas elevadas durante o dia á temperaturas abaixo de zero durante a noite. Já na
floresta a distribuição de energia é mais equilibrada, sendo que muito mais energia é utilizada
no processo de evaporação (LE) que para aquecer o ar (H), com pouca energia sendo utilizada
no aquecimento do solo. Esse domínio do fluxo de calor latente é uma conseqüência direta da
capacidade que as florestas tropicais possuem de manter um fluxo continuo de umidade para a
atmosfera através da evapotranspiração. As florestas tropicais possuem dupla funcionalidade
em termos energéticos: funcionam como uma imensa bomba de água e um enorme radiador.
Estes exemplos ilustram bem a dinâmica de troca de energia entre superfície e a
atmosfera. Especificamente, as florestas tropicais, em especial a Amazônia possui um
importante papel na manutenção de níveis energéticos na atmosfera que regulam o clima do
planeta. De fato, toda e qualquer alteração provocada na superfície tem reflexo imediato na
maneira com que a energia disponível será utilizada, ou para armazenar calor no solo, ou para
aquecer o ar ou para transformação de estado da água. O fato é que devido a alterações nos
níveis de dióxido de carbono na atmosfera, o sistema Terra-Atmosfera está tendo que se
ajustar a um novo balanço energético, que poderá ter conseqüências severas para os seres
vivos que habitam esse planeta.

Mudanças no balanço de energia na Amazônia.


Novos cenários de mudanças no uso da terra avançam sobre áreas naturais dentro da
região Amazônica, em especial na região oeste do Pará, provocando alterações que tornam
imprevisíveis a intensidade dos impactos causados por esse novo ciclo de produção. O avanço
da fronteira agrícola sobre áreas naturais, removendo a cobertura vegetal natural, alterando
suas características físicas e as formas de interação com a energia disponível (albedo), e
mesmo o impacto da utilização de novas técnicas de produção e novas formas de manejo tem
conseqüências imprevisíveis nos processos conduzidos por microorganismos, pelas novas
formas de cultura que se estabelecem dentro da região e principalmente para os processos
climáticos na região.
A utilização e até mesmo a preservação desses recursos naturais, a manutenção do
clima e conseqüentemente das características e funções ecológicas dos ecossistemas
Amazônicos, o tão almejado desenvolvimento sustentável, ainda está longe de ser alcançada.
A necessidade de maiores estudos avaliando os impactos nos processos de troca de energia
entre biosfera e atmosfera na Amazônia e também determinando formas de utilização dos
recursos naturais, na tentativa de melhorar a eficiência de produção com uma redução dos
impactos nessas áreas naturais torna extremamente importante a injeção de recursos, para
programar novos estudos e fomentar a geração de recursos humanos qualificados (Mestres e
Doutores) com conhecimento sólido para promover a redução dos impactos causados ao
ambiente e promover sustentabilidade.
Os resultados de pesquisas em curso até agora obtidos no que se refere às trocas de
energia e massa entre a superfície e atmosfera em regiões de florestas primárias, secundárias,
pastagens e áreas plantadas, rios e regiões alagadas já levantaram questões interessantes
referentes ao balanço regional do carbono e os impactos nos fluxos de energia (calor latente e
calor sensível) nestas áreas, mas muitas perguntas ainda continuam não totalmente resolvidas.
Por exemplo, nas estimativas dos fluxos de CO2 somente agora tem avançado a compreensão
da importância das circulações de mesoescala (e sua eventual convergência com os ventos
dominantes) e da ocorrência ou não de nuvens na variabilidade dos fluxos turbulentos. Além
disso, avanços recentes nos estudos das características da camada limite noturna têm ajudado
na interpretação de fenômenos locais ou regionais com características bastante peculiares
(rajadas e jatos de baixos níveis) que parecem desempenhar importante influência na
variabilidade temporal dos fluxos.
Portanto, existe uma necessidade de ampliação do acervo de informações referentes às
influências dos ecossistemas terrestres sobre as interações da biosfera com a atmosfera bem
como seus impactos no sistema climático. Modelos climáticos requerem estas informações de
modo a possibilitar a parametrização das trocas de massa e energia entre a vegetação e
atmosfera.
Um completo entendimento do ciclo de alguns constituintes atmosféricos e do ciclo
hidrológico é de fundamental importância para entender como a atmosfera irá responder a
perturbações no clima e na ecologia tanto em escala local como em escala global. Entretanto,
como já mencionado, apesar do considerável progresso nos últimos anos, algumas questões
básicas ainda permanecem sem respostas. Eventos climáticos como períodos de el niño e la
niña apresentam mecanismos climáticos diferenciados dos períodos de condições climáticas
normais e precisam ser estudados em maior profundidade. A possibilidade da implantação ou
da continuidade de estudos sobre os processos de interação entre a Biosfera e a Atmosfera, ou
seja, o completo entendimento sobre o balanço de energia e massa em áreas alteradas e o
monitoramento das áreas naturais na Amazônia é extremamente importante na elaboração de
políticas públicas de utilização racional dos recursos e para definir planos de manejo para a
redução dos impactos nessas regiões.

QUESTÕES PARA FIXAÇÃO


É correto afirmar que a Atmosfera terrestre é uma película protetora (filtro) para a superfície
do planeta? Justifique sua resposta com base na estrutura da atmosfera e de seus constituintes.

Explique o que é Efeito Estufa. Isso é um fenômeno natural ou não? Justifique sua resposta.

Explique porque é possível distinguir a radiação solar da radiação terrestre apenas pelo
comprimento de onda destas?

Explique porque a Atmosfera é semitransparente a radiação solar? O que a camada de Ozônio


e o vapor d’água presente na atmosfera têm haver com isso?

O que significa dizer que o Albedo da Floresta Nacional do Tapajós vale 0,14 e que o Albedo
do Rio Tapajós vale 0,03?

Sabemos que o valor médio de energia que chega ao topo da atmosfera ao longo de um ano é
de 342 W m-2. Admitindo que a emissividade ε da superfície da terra seja igual à unidade, use
a Lei de Stefan-Botzmann (E=εσT4, onde σ = 5,67 x 10-8 W m-2 K-4) para estimar qual seria a
temperatura media da superfície do planeta se seu albedo fosse igual a zero. Comente o
resultado.

Sabemos que no balanço de energia do sistema Terra-Atmosfera, existe um saldo positivo de


29% de energia na superfície do planeta. Mostre que é a Atmosfera a responsável por fornecer
essa quantidade de energia para a superfície do planeta.

Explique porque é correto afirmar que o aquecimento global é devido a uma alteração no
balanço de energia do sistema Terra-Atmosfera? Onde está esta alteração?

Bibliografia:
CHRISTOPHERSON, R. W. Geosystems – An introduction to physical geography. 4ª ed.
New Jersey: Prentice Hall Inc., 2002.
LABOURIAU, M. L. S. História ecológica da Terra. 5ª ed. São Paulo: Edgard Blücher,
2006.
MORAES, O.L.L.; SILVA, R.; ACEVEDO, O.C.; ZIMMERMAM, H.; ANABOR, V.;
MAGNAGO, R. Fluxos turbulentos superficiais na Amazônia e sua importância em
estudos climáticos. Ciência e Natura, p.146-168, 2005.
REICHARDT, K.; TIMM, L.C. Solo, planta e atmosfera: conceitos, processos e
aplicações. Barueri-SP: Manole, 2004.
TOLENTINO, M.; ROCHA-FILHO, R. C. E SILVA, R. R. A atmosfera terrestre. 2ª Ed.
São Paulo: Moderna, 2004.