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SOBRE O QUARTO E O QUINTO PODERES

Marcus Ianoni
Doutor em Sociologia Política pela PUC-SP e docente da Faculdade Cásper Líbero
email: marcusianoni@uol.com.br

Resumo:
O texto levanta alguns conceitos importantes para a compreensão do Quarto Poder e de seu
papel nos dias atuais, tais como ideologia, cenário de representação política e esfera
pública. A seguir, aborda a idéia de constituição de um Quinto Poder, alternativo e
fiscalizador do Quarto Poder. Mostra como a comunidade profissional das comunicações
tem jogado um papel importante na luta pela democratização dos meios de comunicação e
pela formação do Quinto Poder.
Palavras-chave: mass media, Quarto Poder, Quinto Poder

Introdução

O objeto deste texto é discutir a idéia de Quinto Poder, ou seja, um poder


alternativo a e fiscalizador do Quarto Poder, representado pela mídia. Para tanto, será feita
uma abordagem da idéia de Quarto Poder e de seu papel central nos dias atuais, o que
passará pelo trato de alguns conceitos-chave para se compreender a mídia. A seguir será
considerada a necessidade política de se reforçar a iniciativa de constituição de um Quinto
Poder.
O texto procura se apoiar, sobretudo, no marxismo e nos pensadores que
dialogam com essa corrente de pensamento. Se o marxismo, por meio de algumas de suas
versões mais ortodoxas, descambou no sectarismo, hoje, talvez mais do que nunca, é vítima
de mal semelhante, sob a guarida de seu pretenso fracasso enquanto teoria. Mas o
marxismo não vulgar é um pensamento aberto: afinal, Marx enfatizou o caráter histórico,
portanto mutável, da sociedade humana e das próprias idéias produzidas pelos homens.
Ademais, o marxismo de Marx sempre dialogou com outras correntes de pensamento, seja
nas diversas áreas da filosofia, na política, na economia, na história etc. Lenin, por

1
exemplo, via na filosofia de Hegel, na economia política clássica de Adam Smith e no
socialismo utópico francês as três fontes principais do marxismo. Assim, dizer que se apóia
na chave aberta por Marx não significa excluir a incorporação de conceitos e idéias filiados
a outras correntes de pensamento. Trabalhar com o marxismo implica, sobretudo, articular
os nexos dialéticos entre economia e política, sociedade e Estado, estrutura e
superestrutura, existência e consciência, trabalho e alienação, assim como, em uma visão
gramsciana, hegemonia e contra-hegemonia e assim por diante.
Marx se orienta pela dialética materialista, filosofia que teoriza sobre a
mudança social fundada nas contradições e que se ampara na visão do homem enquanto
zoon politikon, ou seja, animal social, emaranhado em um conjunto de relações necessárias
para a sua produção e reprodução como ser social. A dialética materialista nos alerta para o
fato de que existe um processo histórico e que o pensamento está a ele articulado como uma
das forças da história. O pensamento muda, inclusive o pensamento que se desenvolve com
base na dialética materialista. Os pressupostos fundamentais da dialética materialista
sobrevivem, mas se recriam alguns desdobramentos do sistema marxista composto com
base nessa filosofia. Hoje, o pensamento marxista é convocado a repensar-se para enfrentar
os novos desafios postos pela história. Uma das tendências aprofundadas pelo
desenvolvimento capitalista nas últimas décadas tem sido a emergência de novos atores
sociopolíticos (novos sujeitos) em várias áreas de atuação democrática, para além do
clássico proletariado. Por fim, algumas previsões de Marx foram claramente confirmadas
pela história, outras seguiram cursos que eu diria não dizerem respeito ao pensamento
genuíno dos formuladores do socialismo científico, como a degeneração burocrática e
totalitária da experiência socialista real.

Mídia e ideologia

A sociedade moderna é extremamente caracterizada pela divisão do trabalho,


tanto do ponto de vista técnico, no interior das empresas, sobretudo as grandes, como do
ponto de vista social, no sentido de que o trabalho social - ou seja, o trabalho necessário
para a reprodução dialética, portanto contraditória, de um determinado padrão de interações
e necessidades sociais - é cada vez mais subdividido e especializado. Há empresas que

2
fabricam aviões, outras que produzem lâmpadas, ou alimentos, ou medicamentos, ou
combustível, ou informação, ou entretenimento, para encurtar a lista e chegar ao ponto
desejado. Os mass media, ou seja, o universo da informação e do entretenimento, têm como
uma de suas funções, no processo de divisão social do trabalho, a produção e reprodução de
ideologia (o que tem a ver com a fabricação de consenso, como diz Noam Chomsky). Eles
pressupõem a separação entre trabalho manual e trabalho espiritual. Os mass media
também são grandes corporações econômicas, grandes empresas capitalistas e, nessa
medida, operam sobre as bases em que se colocam as relações sociais de produção e as
forças produtivas. Mas agora, o que me interessa abordar é a dimensão ideológica dos mass
media. Lembremos que Althusser caracterizou os mass media como pertencentes ao
aparelho ideológico de Estado. Para abordar a relação entre mídia e ideologia, farei uma
rápida digressão conceitual.
O modo de produção capitalista tem como sua marca distintiva a produção
de mercadorias. A sociedade capitalista produz, por excelência, mercadorias. No
feudalismo, praticamente o que se produzia eram valores-de-uso, ou a troca era feita para
fins de uso. A junção do binômio valor e valor-de-troca ao valor-de-uso só veio com o
capitalismo. As mercadorias, enquanto forma socialmente dominante do produto do
trabalho humano, são inventadas pelo modo de produção capitalista, ou seja, têm
determinação histórica. Mas o caráter histórico da mercadoria não pára na sua origem, e
sim prossegue na história da própria produção de mercadorias, que são criadas, recriadas,
inventadas a todo instante. Diferentes momentos históricos implicam diferentes
necessidades e, portanto, diferentes mercadorias. Nas sociedades capitalistas, as
mercadorias nos cercam, são inseparáveis de nós, mesmo quando nos faltam, mesmo
quando não as possuímos.
Assim, o marxismo nos faz ver a mercadoria como tendo três propriedades:
valor, valor-de-troca e valor-de-uso. Quando a empresa produz sua telenovela, e o faz na
previsão racional de que seu produto cultural terá uma audiência e que, assim sendo, poderá
ser vendido para os anunciantes, pois se vive em uma sociedade de economia de mercado,
ela está gerando valor, ela está criando, através do trabalho, uma mercadoria. O valor-de-
troca de uma mercadoria se realiza na troca. Quando uma emissora de TV produz um
produto comercial, como uma telenovela, e financia concretamente a produção dessa

3
mercadoria através dos anunciantes que veiculam a propaganda de seus bens ou serviços
durante o horário em que o programa também é veiculado, ela realiza o valor-de-troca de
sua mercadoria cultural. O valor-de-uso da mercadoria diz respeito à sua utilidade.
Considerando que cada mercadoria tem a sua utilidade, as mercadorias são diferentes
enquanto valor-de-uso. Os aviões são meios de transporte, as lâmpadas são equipamentos
de energia elétrica, os alimentos são produzidos para que os homens vivam ou sobrevivam,
os medicamentos nos ajudam a continuar vivos, os combustíveis são insumos básicos para
o funcionamento da economia, as informações e o entretenimento são necessidades, de um
lado, arquetípicas do homo sapiens e, por outro, ao menos nos últimos cem anos, são
necessidades criadas e recriadas com o auxílio precioso dos mass media, invenção da
modernidade reinventada pela pós-modernidade e a revolução tecnológica atual. A questão
é a seguinte: qual é o valor-de-uso da informação e demais produtos da indústria cultural?
Se se deixar de lado a comunicação direta entre as pessoas, não por ser algo desprezível,
mas para se ter como objeto a informação produzida pela intermediação dos mass media,
que é cada vez mais a informação que se consume nas sociedades modernas, vamos
perceber que ela tem a ver com o modo concreto e historicamente determinado como o
homem se comunica, ou seja, responde à necessidade de informação do homem, que, como
vimos, é um zoon politikon. Responde também à necessidade humana de lazer e
entretenimento. O homem não é apenas um homo faber. Podemos concebê-lo também
como homo ludens1. Aliás, essas duas dimensões da cultura humana são levadas em conta
pela antropologia cultural. Porém, ao realizarem seus valores-de-uso, as mercadorias
informação e entretenimento, produzidas pela grande mídia, veiculam ideologia. Isso é
muito claro, por exemplo, no reino da publicidade, quando a um produto se vincula uma
imagem que reforça valores ou idéias dominantes. Ou seja, quando as grandes empresas de
mídia vendem seus produtos, não estão apenas vendendo as bases de seu sustento material,
mas também suas concepções de mundo, seus valores, ou seja, sua ideologia. Assim, os
produtos da mídia, ao mesmo tempo em que satisfazem necessidades humanas, têm a
propriedade privilegiada de veicular ideologia. E não o fazem necessariamente de maneira
premeditada, mas, não raro, espontaneamente. Marx já havia dito que as idéias dominantes

1
Luiz Octávio de Lima Camargo, Educação para o lazer.

4
em uma dada época são as idéias da classe dominante. A classe que tem a força material
dominante também possui a força espiritual dominante.
Isso não quer dizer que tudo que a grande mídia corporativa produz seja pura
ideologia e, portanto, material intelectual inaproveitável. Não é essa a concepção que Marx
possui de ideologia. O conhecimento ideológico – que aparece em todas as áreas da
produção do espírito humano - também possui valor, embora seja necessário um esforço
permanente para, por assim dizer, procurar depurá-lo, o tanto quanto possível, de sua
tendência a mascarar o concreto. A própria ciência não está livre da ideologia.2
Dizer que a mídia veicula ideologia não significa dizer também que só haja
dominação e não haja sujeito no processo de comunicação feito por meio dos mass media.
Não se trata de ter uma visão apocalíptica do jornalismo e da indústria cultural, ou
dogmaticamente frankfurtiana3, até porque isso seria negar a dialética, o movimento
contraditório do real que atravessa inclusive a mídia. O jornalismo e a indústria cultural,
como não podia deixar de ser, também são constituídos por contradições. Trata-se, sim, de
realçar hierarquias. O poder que os grandes grupos de comunicação têm de transmitir seus
conteúdos é muito maior do que o poder de qualquer um dos simples mortais destituído
desses meios de produção. Há uma clara desigualdade. Até as concepções mais liberais de
comunicação política reconhecem essa desigualdade. “Nos regimes democráticos, a
comunicação tende a ser constante entre a elite e a opinião pública. As mensagens vão, quer
das elites às massas para lhes solicitar apoio, quer, se bem que com maior dificuldade
(grifos meus), das massas à elite através dos múltiplos canais que transmitem à instância
política”4. Porém é sabido que, apesar dessa desigualdade, o MST, por exemplo, que é
constantemente bombardeado pela mídia não-pluralista e não possui instrumentos
jornalísticos com o mesmo poder de fogo da grande imprensa (que conta com enormes
recursos para implantar e gerir sua produção diária) para fazer sua contra-informação, não
deixa de existir e lutar por seus ideais, até perante a opinião pública, com os meios de que
dispõe, inclusive devido às contradições que também existem na mídia de estrutura
oligopólica operante no Brasil.

2
Para um estudo sobre a questão da ideologia, consultar Konder (2002).
3
Não quero dizer que os frankfurtianos foram dogmáticos.
4
Ângelo Panebianco, in: Bobbio, Norberto, Matteucci, Nicola e Pasquino, Gianfranco. Dicionário de
Política, p. 201.

5
O público possui espírito crítico, pensa, mas o faz com base no material de
pensamento social disponível, cujo conteúdo é muito conformado pela mídia. Observa-se
que isso é reconhecido também pela análise estrutural-funcional do sistema político: “Nos
sistemas políticos modernos, a Comunicação política passa [...] através de canais
especializados: os meios de comunicação de massa. A qualidade dos mass media, o tipo de
mensagens transmitidas e a freqüência das próprias mensagens são decisivos para a
formação das atitudes da opinião pública e, conseqüentemente, para o tipo de pressões que
ela exerce sobre os centros decisórios do sistema político”5.
Quanto menos participativa for a democracia existente, maior será o
potencial ideológico da mídia. Quando o cidadão vincula-se a movimentos sociais, ele
incorpora valores alternativos, torna-se sujeito, adquire identidade sociopolítica. Porém, a
democracia representativa no Brasil tem muito que avançar em termos de participação.
Apesar de podermos caracterizar o país como uma sociedade ocidentalizada, conforme a
visão gramsciana, as profundas desigualdades no processo de individuação ainda
comprometem o avanço do processo democrático. Nesse sentido, nosso Estado ampliado
ainda tem muito que evoluir. A educação dos cidadãos pode ser um fator de estímulo ao
espírito crítico. No Brasil, o sistema educacional, além de deixar muito a desejar em termos
de adesão da população e em termos de qualidade, não está voltado para uma visão crítica
da mídia, mal que existe também em países desenvolvidos. Nesse sentido, o professor
inglês Roger Silverstone – que, junto com Ignácio Ramonet, tem levantado a idéia de
Quinto Poder - propõe que as escolas ensinem o público a lidar com a mídia. “Precisamos
saber, todos nós, como a mídia funciona e precisamos saber como ler e compreender o que
lemos e ouvimos”6.

Cenário de representação política

Venício A. de Lima considera que as democracias ocidentais são sociedades


“media-centered nas quais a TV é o meio de comunicação dominante”. Essa media-
centrality ocorre nas sociedades que possuem um sistema nacional de comunicações

5
Idem ibidem.
6
Roger Silverstone, Por que estudar a mídia?, p. 283.

6
constituído. Há uma centralidade da mídia na política. Os meios de comunicação
desempenham um papel muito parecido aos dos partidos políticos, chegando até mesmo a
substituí-los. Realizam “funções que, tradicionalmente, eram atribuídas aos partidos
políticos, tais como: (a) definir a agenda dos temas relevantes para a discussão na esfera
pública, (b) gerar e transmitir informações políticas, (c) fiscalizar a ação das administrações
públicas, (d) exercer a crítica das políticas públicas, (e) canalizar as demandas da população
junto ao governo”. Esse autor trabalha com o conceito de cenário de representação política
(CR-P), para o qual lança mão do conceito gramsciano de hegemonia/contra-hegemonia. O
cenário de representação política “se refere à construção pública das significações relativas
à política [...]. Dessa forma, o CR-P é o espaço específico de representação da política nas
´democracias representativas` contemporâneas, constituído e constituidor, lugar e objeto
da articulação hegemômica total, construído em processos de longo prazo, na mídia e pela
mídia, sobretudo na e pela televisão. Como a hegemonia, o CR-P não pode nunca ser
singular. Temos, portanto, de acrescentar ao conceito de CR-P o conceito de contra-CR-P
ou de CR-P alternativo”7. Ou seja, uma das conclusões possíveis que se pode tirar disso é
que a grande mídia é um instrumento da hegemonia burguesa, mas o acesso dos dominados
a meios de comunicação democráticos e à crítica dos mass media também pode gerar
contra-hegemonia.
O problema da influência da mídia sobre a opinião pública será tanto mais
sério quanto mais oligopolista for a estrutura dos veículos de comunicação de massa. A
globalização tem acentuado fortemente a concentração da mídia em grandes organizações
corporativas, poderosas empresas capitalistas. “Há 20 anos, 50 corporações dominavam o
mercado de mídia nos EUA. Eram 23 no início da década passada. Hoje são cinco”8. No
Brasil, a mídia também possui uma estrutura oligopolista, contrariando a própria
Constituição de 1988, em vigor.
É aí que entra a questão do Quarto Poder. Ele surge como uma espécie de
contrapeso aos três poderes dos Estados liberais, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
A idéia de Quarto Poder vem à tona como a de um poder fiscalizador dos outros três
poderes e, ao mesmo tempo, como um poder que influencia os demais poderes, de modo a

7
Venício A de Lima, Mídia: teoria e política, pp. 181-91. Essa identificação da grande mídia aos partidos
políticos aparece também em outros autores.
8
Folha de S. Paulo, 27/07/2003, p. A2.

7
veicular aspirações da sociedade civil. O Quarto Poder surge como uma instância de
debates dos setores articulados da cidadania, de expressão de sua opinião. Nesse sentido,
tinha uma clara dimensão política. Segundo o sociólogo português Nelson Traquina, o
termo Quarto Poder foi criado pelo inglês Lord Macaulay, em 1828. A imprensa
desempenharia um papel dual. Em primeiro lugar, seria uma guardiã dos cidadãos,
"protegendo-os do abuso de poder por governantes que até então tinham mostrado apenas a
face da tirania". Ao mesmo tempo, a imprensa deveria ser "um veículo de informação para
equipar os cidadãos com ferramentas vitais ao exercício dos seus direitos, e uma voz dos
cidadãos na expressão das suas preocupações, da sua ira, e, se for preciso, da sua revolta"9.

Esfera pública

Habermas abordou a gênese da esfera pública burguesa e as transformações


operadas na imprensa. Em linhas gerais, esfera pública diz respeito ao espaço social em que
ocorrem os debates e a produção de idéias de interesse público. Na sua luta contra o
absolutismo e o mercantilismo, a burguesia logrou criar uma esfera pública que atendia aos
seus interesses de classe, na qual pôde desenvolver seu pensamento liberal nos campos
político, econômico e filosófico e, depois, com a consagração da sociedade de classes e do
Estado Liberal, torná-lo ideologia dominante. Essa esfera pública liberal era marcada pelo
debate de idéias, pela livre-concorrência de opiniões. Formava-se, assim, uma opinião
pública, cozida nesse caldo social. Tal esfera pública, que se torna parte do setor privado,
assentava-se sobre uma relativa separação entre Estado e sociedade. No entanto, já no
século XIX inicia-se o processo de rompimento da barreira relativa que separava Estado e
sociedade. O Estado passa a adquirir novas funções, ele se socializa, e isso “pouco a pouco
destrói a base da esfera pública burguesa: - a separação entre Estado e sociedade”10. É aí
que, segundo Habermas, ocorre o movimento de decomposição da esfera pública burguesa,
que levará à sua mudança estrutural. Na verdade, essa socialização do Estado tem a ver
com o aumento do intervencionismo estatal sobre o conjunto da esfera social, o que está

9
www.acessocom.com.br, 5/12/2002.
10
Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública, p. 170.

8
relacionado ao processo de concentração do capital que dará fim à chamada era liberal. A
concentração do capital amplia e multidireciona as funções do Estado.
No entanto, para o objeto deste texto o relevante é observar as mudanças
naquela instituição que Habermas considera ser uma expressão privilegiada para a
apreensão da esfera pública: a imprensa. O desenvolvimento econômico ocorrido no setor
da imprensa implicou importantes mudanças em seu papel. “Desde que a venda da parte
redacional está em correlação com a venda da parte dos anúncios, a imprensa, que até então
fora instituição de pessoas privadas enquanto público, torna-se instituição de determinados
membros do público enquanto pessoas privadas – ou seja, pórtico de entrada de
privilegiados interesses privados na esfera pública”11. Em outra passagem, Habermas diz:
“Em comparação com a imprensa da era liberal, os meios de comunicação de massa
alcançaram, por um lado, uma extensão e uma eficácia incomparavelmente superiores e,
com isso, a própria esfera pública se expandiu. Por outro lado, também foram cada vez
mais desalojados dessa esfera e reinseridos na esfera, outrora privada, do intercâmbio de
mercadorias; quanto maior se tornou a sua eficácia jornalístico-publicitária, tanto mais
vulneráveis se tornaram à pressão de determinados interesses privados, seja individuais,
seja coletivos. Enquanto antigamente a imprensa só podia intermediar e reforçar o
raciocínio das pessoas privadas reunidas em um público, este passa agora, pelo contrário, a
ser cunhado primeiro através dos meios de comunicação de massa”12. Assim, os meios de
comunicação de massa e as relações públicas passam a fabricar o consenso e um arremedo
de opinião pública.
Não é nenhuma novidade dizer, por exemplo, que o grande jornalismo,
nacional e internacional, virou espetáculo, freqüentemente manipula a informação, falta
com a ética, estabelece relações perigosas com anunciantes e com o poder econômico em
geral, assim como com os mais variados e fortes interesses políticos. A bibliografia sobre
esses aspectos negativos da imprensa é ampla. A adesão dos meios de comunicação de
massa ao neoliberalismo, o chamado “pensamento único”, é um exemplo importante da
vinculação da mídia a poderosos interesses políticos e econômicos.

11
Op. cit. pp. 217-18.
12
Op. cit. p. 221.

9
Quinto Poder

Hoje se coloca uma outra questão: como vigiar o Quarto Poder ou, em outras
palavras, como proteger os cidadãos do Quarto Poder? A comunicação é um direito do
homem. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas em
1948, estabelece, em seu artigo 19, o seguinte princípio: “Toda pessoa tem direito à
liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter
opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e
independentemente de fronteiras”. Ou seja, formalmente, temos o direito à liberdade de
expressão e o direito de ser bem informados. Porém, não é nenhum exagero dizer que o
direito à comunicação está muito longe de prevalecer em vários cantos do mundo. A
informação se tornou mercadoria e propriedade de poderosíssimas organizações
corporativas que operam dentro da lógica da lucratividade. São organizações
profundamente articuladas aos interesses do grande capital financeiro, industrial e de
serviços. Pode-se dizer que o jornalismo como negócio evoluiu em detrimento do
jornalismo enquanto serviço público. Vários fundos de investimento possuem participação
no capital dos grandes conglomerados das comunicações. Empresas de telefonia controlam
também grandes jornais e TVs. Na verdade, um processo impressionante e decisivo tem
sido as próprias fusões, aquisições e joint ventures, e conseqüente concentração operada
entre as empresas de mídia. Tem se aprofundado também o fenômeno da propriedade
cruzada, que ocorre quando um grupo de mídia detém diferentes tipos de mídia do setor de
comunicação.
No plano das relações entre mídia e indústria, pode-se citar o caso francês.
Na França, os grupos Dassault e Lagardère, que atualmente dominam as comunicações
naquele país, “apresentam em comum a inquietante particularidade de se terem constituído
em torno de uma empresa-mãe cuja principal atividade é militar (aviões de combate,
helicópteros, mísseis, foguetes, satélites...)”13. Nos EUA, a rede NBC é subsidiária da
General Eletric (GE), que também possui “subsidiárias na área da defesa (como a GE
Aircraft Engines, uma das maiores fábricas de motores a jato do mundo) que lucram com a

13
Ignacio Ramonet, in www.novomilenio.inf.br

10
guerra”14. Essa realidade compromete a pluralidade da informação, a própria preservação
da cultura e a democracia. Como diz um autor, a “democratização dos meios de
comunicação é indispensável para a democratização da sociedade, pois hoje não é
suficiente falar em liberdade de expressão e manifestação, se isto não for acompanhado do
direito de expressar opiniões através dos meios de massa”15.
Trata-se de um problema internacional absolutamente atual e que tem sido
objeto de discussão governamental em vários países, sobre a regulamentação da atividade
dos meios de comunicação de massa no mercado global. Essa discussão ocorre até mesmo
em uma democracia possuidora de uma sociedade civil bem organizada, como a dos EUA,
o que revela o quanto ela é importante no Brasil, que sequer consolidou seu regime
democrático, mas possui uma mídia estruturada em oligopólio. Em vários países, inclusive
no Brasil, os anos 90 e este início de século XXI têm assistido a criação de inúmeros novos
institutos legais para legislar sobre a atuação da mídia no contexto de globalização. Nos
EUA, a Câmara dos Deputados acaba de derrubar a desregulamentação da propriedade dos
grandes grupos de mídia, aprovada em junho deste ano (2003) pela FCC (Federal
Communications Commission). O presidente George Bush e o lobby dos grandes
conglomerados das comunicações estão unidos para tentar reverter essa decisão contra seus
interesses de concentração da propriedade midiática. É por isso que alguns críticos dizem
que a liberdade de imprensa virou liberdade de empresa.
Não se trata apenas de um trocadilho, mas algo que tem a ver com aquilo
que se pode pensar como contradições entre o liberalismo político e o liberalismo
econômico. A liberdade de imprensa é um princípio liberal - que se insere no Estado de
Direito, erguido sobre uma ordem constituinte legítima -, vale dizer, é um direito liberal
que se circunscreve no rol de direitos civis e políticos conferidos pelo governo da lei. O
Estado de Direito algumas vezes é, e outras deveria ser, um protetor das liberdades e
direitos fundamentais do cidadão, inclusive perante eventuais abusos e distorções
verificadas nos meios de comunicação. Entre pensadores do Estado Liberal, ele é concebido
de tal forma que não admite, em tese, uma estrutura de comunicações, em termos
14
Matéria de autoria de Argemiro Ferreira, publicada no site Observatório da Imprensa, 30/4/2003.
15
Jorge Almeida. “Mídia, Estado e Estratégias de Contra-hegemonia”, texto extraído do site do autor na
Internet.

11
institucionais e de mercado, tal qual efetivamente possuímos, controlada por poderosos
grupos privados, de tal forma que o pluralismo fica comprometido. É aí que entra a
contradição entre liberalismo político e liberalismo econômico. As idéias de primazia do
mercado e de estado mínimo, colocadas em prática, têm resultado em uma mídia que trata o
público como consumidor. A diferença é que, como público-cidadão, temos direitos e
liberdades, mas, como consumidores, somos inseridos em um padrão restrito de
sociabilidade, somos apenas agentes econômicos integrados ao processo de realização do
capital da indústria da mídia. Além disso, a voracidade e formas oligopolistas e
concentradas assumidas pelos meios de comunicação, nos marcos do liberalismo
econômico e da desregulamentação promovida pelo Estado em tempos de globalização,
ameaçam a integridade das prerrogativas que o liberalismo político atribui aos cidadãos,
particularmente os pluralismos político, cultural e ideológico, enfim, a própria liberdade de
expressão.
Com base em Habermas, pode-se admitir que, nos áureos tempos de
afirmação da esfera pública burguesa, os direitos do liberalismo não eram violados pela
mídia, pelo contrário, ela ajudava a assegurá-los. Havia pluralidade, liberdade de expressão
etc. Porém, na atualidade, o movimento de liberalização econômica que acompanha a
globalização aprofundou a condição das comunicações como universo das mercadorias,
aliás cada vez mais lucrativas, vendidas para consumidores racionalmente disputados. Está
aí o desenvolvimento do processo em que o Quarto Poder entra em crise, que coincide com
a própria mudança estrutural da esfera pública de que fala Habermas. Na verdade, o que
está em questão não é apenas o liberalismo político, mas também a democracia.
Quando se diz que a comunicação é um direito do homem não significa
pensá-la apenas como um direito individual, mas também como um direito social ou
coletivo, ou seja, de grupos sociais. A televisão, por exemplo, age no espaço público, um
espaço pertencente ao povo, e possui forte poder político, econômico, social e ideológico.
Cabe, portanto, ao povo, estabelecer um controle social dos meios de comunicação de
massa, tendo em vista a íntima relação deles com a democracia. Assim como cabe ao povo,
por meio dos seus diversos grupos sociais, ampliar os mecanismos de participação no
espaço público das comunicações, por intermédio, por exemplo, do exercício do direito de
antena. “De que trata o direito de antena, já existente em vários países, mas ainda em

12
discussão incipiente no Brasil? Trata-se, inicialmente, do direito à comunicação como um
direito coletivo que supõe, necessariamente, uma atividade interativa. Exige,
conseqüentemente, a abertura dos meios de comunicação para grupos legitimamente
representativos na sociedade. No Brasil, esse direito de antena existe apenas para os
partidos políticos. [...] Além disso, também pode ser reivindicado o direito de antena para
associações vinculadas a direitos fundamentais”16. O direito de antena existe, entre outros,
na Espanha, Canadá, França, Alemanha, Itália, Inglaterra e Portugal. Nesse sentido, é
urgente no Brasil a agilização dos processos de reconhecimento legal das rádios
comunitárias, que, apesar de prestarem inúmeros serviços importantes às comunidades
locais, são ainda perseguidas e fechadas pela Polícia Federal. Na verdade, o direito de
antena se fundamenta na idéia de que o espectro magnético é um bem difuso. Nesse
sentido, também é importante a agilização das TVs comunitárias.
Além do direito de antena, Maria Victoria Benevides argumenta
favoravelmente à ampliação da teledemocracia. “Trata-se de colocar em prática o princípio
da comunicação interativa por meio da TV, que atuará contra o confisco da soberania
popular pelos representantes tradicionais”17. Tal idéia busca ampliar a participação popular,
expandi-la do mero sufrágio universal e do simples acompanhamento do debate
parlamentar para o debate popular direto, na TV, de questões públicas relevantes.
Experiências de teledemocracia existem, entre outros, na Inglaterra, Estados Unidos,
Canadá, Suíça e França.
A idéia de Quinto Poder se nutre de iniciativas como a luta pelo direito de
antena, pela legalização das rádios comunitárias e TVs comunitárias, pela teledemocracia,
além de outras. Trata-se de combinar iniciativas que, por dentro ou por fora do sistema de
comunicação dominante e por dentro ou por fora do marco político-institucional em que
opera a mídia, caminhem no sentido da ampliação da democracia e do desenvolvimento de
contra-hegemonia e caminhos alternativos de atuação comunicacional. Nesse sentido, é
fundamental uma referência, oriunda da ciência política, sobre o papel dos profissionais de
comunicação nesse processo democrático. “Retomando uma tese inicialmente apresentada
por Mannheim sobre o papel dos intelectuais, e aproximando-se das mais recentes

16
Maria Victória Benevides, p. 91.
17
Op. cit., p..92.

13
teorizações sobre a ‘nova classe’ (Daniel Bell; Alvin Gouldner), Mueller crê que, enquanto
se assiste hoje à integração política das classes inferiores, particularmente do proletariado,
já conquistadas para a causa do status quo, a oposição a um sistema distorcido de
Comunicação política, sobre o qual se apoiaria inteiramente a estrutura de domínio, só pode
surgir, nos países de capitalismo maduro, do ‘estrato cultural’, da área de profissionais da
comunicação cujo papel político é hoje ampliado, quer pelo desenvolvimento da instrução,
quer pela expansão dos mass media. É à atitude deste estrato cultural, que se recusa a
legitimar ideologicamente as novas formas de domínio, que se deveria atribuir, segundo
Mueller, a crise de autoridade de que sofrem os regimes políticos ocidentais e a sua
incapacidade de tirar total proveito do uso da moderna tecnologia das Comunicações
políticas na defesa do status quo”18.
Deixando de lado as considerações sobre essa idéia de que o proletariado
está integrado ao status quo e de que elas cabem apenas ao capitalismo maduro, penso que
podemos aplicá-la também à realidade brasileira. Se ainda não somos um capitalismo
maduro, mas um capitalismo tardio em processo, somos uma sociedade democrática
ocidental, na qual os mass media estão desenvolvidos e plenamente atuantes na estrutura de
domínio. No Brasil, esse processo de engajamento da intelectualidade e de profissionais
ligados às comunicações não é novo, como se pode verificar em um exame da nossa
história, desde o século XIX, passando pela Primeira República, Revolução de 1930 etc. No
entanto, pode-se considerar que, nas condições atuais, esse engajamento ganha outra
dimensão, propiciada por vários aspectos, como o avanço da democratização do país, a
ampliação dos cursos de ensino superior de Comunicação Social, a revolução tecnológica e
sua influência sobre as comunicações, as relações internacionais entre as organizações de
luta popular por vários objetivos (questão ambiental, pacifismo, movimentos contra a
globalização, a exclusão social, a exclusão digital, a discriminação de mulheres e negros,
movimentos anti-racistas em geral, movimentos pela saúde, pela defesa da liberdade sexual,
ONGs dos mais variados tipos etc), entre outros. Umberto Eco também se aproxima da
idéia de valorizar a importância dos profissionais de comunicação. Ao discutir os
posicionamentos de apocalípticos e integrados, esse autor salienta o papel da comunidade
cultural na crítica da cultura de massa, que, todos sabemos, passa pela mídia.

18
Ângelo Panebianco, in op. cit., p. 204.

14
De fato, desde os anos 80, o processo de luta democrática ligada às
comunicações tem originado vários grupos, sobretudo formados por jornalistas, radialistas,
profissionais de TV, cinema e vídeo, artistas, comunicólogos em geral, professores e
estudantes dos cursos de Comunicação Social, enfim. Algumas entidades são mais antigas,
mas a conjugação atual de todas essas forças sociopolíticas configura um quadro novo e
peculiar. Para ficar em apenas alguns poucos exemplos, podemos mencionar o Fórum
Nacional pela Democratização das Comunicações (FNDC), criado em 1991, que reúne
várias entidades representativas da sociedade civil ligadas à luta pela democratização da
mídia; a Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908; a Federação Nacional dos
Jornalistas (FENAJ), de 1946; a Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
(ENECOS), também de 1991; a Associação Mundial de Rádios Comunitárias – Brasil
(AMARC); o Observatório da Imprensa, além de inúmeros sites e entidades, dentre os
quais destaco, a título de exemplo, como uma experiência de ponta, a Ciranda Brasil – uma
agência de notícias independente do poder econômico. Outros exemplos podem ser
mencionados também, como o Correio da Cidadania, Caros Amigos, Carta Capital, Carta
Maior, Brasil de Fato, Revista Reportagem, Ciranda da Informação, o portal Porto Alegre
2003, Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, o Centro de Mídia
Independente, o Repórter Brasil, Em Crise, Intervalo e Oboré. Como não poderia deixar de
ser, em se tratando de uma economia de mercado, há também várias entidades
representativas do setor privado, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), de 1979, a
Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER), de 1986, e a Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), de 196219. Todas essas e inúmeras outras
organizações interagem no processo de discussão e ação ligado ao universo das
comunicações, entendendo por isso telecomunicações, mass media e informática. Há que se
mencionar que o empresariado das comunicações possui bastante força no Congresso
Nacional, sendo vários parlamentares ligados a esse setor da economia.
Esse processo democrático alcança o plano político-institucional. Há várias
instituições do Estado brasileiro ligadas à questão das comunicações, como o Ministério
das Comunicações (1967), a Telecomunicações Brasileiras S/A (Telebrás) (1972), cujo

19
Alguns dados desta seção foram obtidos em entrevista com Antonio Martins, editor do Ciranda Brasil,
realizada em junho de 2003.

15
sistema foi privatizado em 1998, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL)
(1997) etc. Na palavras de José Paulo Cavalcanti Filho, presidente do Conselho de
Comunicação Social, as normas legais que balizam a atuação dos meios de comunicação no
Brasil são caóticas. “Fugindo ao modelo mundial que concentra atribuições em órgãos
específicos, aqui o controle dos meios de comunicação está pulverizado entre Ministério
das Comunicações, Anatel, Ministério da Justiça, CADE, Ministério da Educação,
Ministério da Cultura, Casa Civil (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação),
Congresso Nacional, Conselho de Comunicação Social, Secretaria de Comunicação. O
resultado dessa dispersão de normas é uma evidente descoordenação entre atores, com
superposição de competências, conflitos localizados, ausência de responsabilidades
específicas em relação ao futuro, dificultando uma política uniforme e coerente para o setor
das comunicações no Brasil”20. O entrevistado Gustavo Gindre, ativista da democratização
das comunicações, também criticou a formatação legal dessa área no Brasil. Considera que
“o governo FHC resolveu separar esdruxulamente comunicação social de
telecomunicações, a fim de privatizar o Sistema Telebrás antes das eleições de 1998, sem
precisar tocar no vespeiro da radiodifusão. Assim, ficamos com uma lei geral de
telecomunicações, de um lado, e nada do outro lado”21. Ou seja, moderados e esquerdistas,
entre outros, têm críticas ao marco regulatório das comunicações no Brasil.
É importante destacar a instalação, em 2002, do Conselho de Comunicação
Social (CCS), órgão de assessoria do Congresso Nacional. Previsto na Constituição de
1988 e criado pela Lei nº 8.389, de 30 de dezembro de 1991, foi finalmente instalado no
ano passado, após inúmeras tentativas fracassadas de constituí-lo. As entidades da
sociedade civil independentes do poder econômico jogaram um papel fundamental para a
instalação do CCS, como foi o caso do FNDC. O CCS constitui uma experiência de
democracia participativa, uma vez que, em sua composição, estão presentes representantes
da sociedade civil relacionados aos problemas das comunicações, particularmente
interessados na elaboração de políticas públicas nessa área. A idéia de constituição do CCS
e a demanda pela sua efetiva implantação foi objeto de uma longa jornada de ações das
entidades e movimentos interessados na democratização das comunicações no Brasil, desde

20
Dados obtidos em entrevista com José Paulo de Cavalcanti Filho, realizada em junho de 2003.
21
A entrevista com Gustavo Gindre, do INDECS – Instituto Nacional de Democratização da Comunicação
Social, foi realizada em junho de 2003.

16
o Congresso Constituinte de 1987-88, e tem a ver com a importantíssima questão do
controle social dos meios de comunicação. No plano internacional, as questões relacionadas
às comunicações têm sido também muito abordadas em fóruns importantes no atual cenário
de globalização, como a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a Organização
Mundial de Comércio (OMC).
Os últimos anos têm assistido a uma nova rodada de regulamentação do
setor de comunicações no Brasil. Surgiram importantes novas leis e normas. Entre elas,
podemos mencionar a Lei do Cabo (1995), que permite a participação do capital estrangeiro
em até 49% do capital das concessionárias; a Emenda Constitucional nº 8 (1996), que
quebra o monopólio estatal das telecomunicações; a Lei Mínima (1996), que permitiu a
entrada de capital estrangeiro nas áreas de telefonia celular e telecomunicações via satélite,
em até 49%; a Lei Geral de Telecomunicações (1997), que autoriza o poder executivo a
estabelecer quaisquer limites à participação estrangeira no capital de prestadoras de
serviços de telecomunicações; em 2002, o Congresso Nacional aprovou a emenda
constitucional que permite a participação de 30% do controle acionário das empresas de
comunicação (radiodifusão e jornalismo) ao capital estrangeiro.
Inúmeros outros temas de interesse público continuam em debate no
Executivo e no Legislativo, como a questão da TV digital, o uso de software livre, uma
nova regulamentação da radiodifusão comunitária, a introdução de um Código de Ética da
programação televisiva, o problema da concentração da propriedade nos meios de
comunicação social no Brasil, as dificuldades financeiras enfrentadas pela TV a cabo, a
valorização das culturas regionais pela radiodifusão, mais que isso, a própria necessidade
de se reorganizar e racionalizar todo o sistema institucional das comunicações.
Diante da importância dos meios de comunicação de massa e do papel no
mínimo controverso, para não dizer “antidemocrático-popular”, que eles têm
desempenhado no atual cenário de globalização, entidades da sociedade civil de vários
países, reunidas no III Fórum Social Mundial (ocorrido em Porto Alegre, em janeiro de
2003), decidiram criar um Observatório Global da Mídia. Essa iniciativa materializa a idéia
de criação de um Quinto Poder e a comunidade das comunicações é quem a está bancando
politicamente. E tal iniciativa tem a ver com a produção de contra-hegemonia pelos grupos
sociais que questionam o domínio exercido pelos mass media. A sociedade precisa ter

17
instrumentos para enxergar, criticar e pressionar os meios de comunicação. Inúmeros
profissionais das comunicações estão interessados em buscar formas alternativas de atuação
que sejam independentes da grande imprensa corporativa, e essas novas experiências já
estão existindo no Brasil e em vários outros cantos do mundo.
Em 2002, houve uma tentativa de golpe contra o Presidente da Venezuela,
Hugo Chaves, legitimamente eleito pelo sufrágio universal. Tal fato foi chamado de um
golpe midiático, dado o papel central, em sua articulação, jogado pela mídia monopólica
daquele país, especialmente controlada pelo empresário das comunicações Gustavo
Cisneros. O III Fórum Social Mundial promoveu um julgamento simbólico dos meios de
comunicação venezuelanos e os condenou pela sua postura golpista e manipuladora. Um
jornalista importante que tem se destacado nessas iniciativas de constituição de um Quinto
Poder, entre as quais o julgamento simbólico do caso venezuelano e a formação de um
Observatório Global da Mídia são dois exemplos, é, como já referido, o espanhol Ignácio
Ramonet, diretor-presidente do jornal francês Le Monde Diplomatique, uma referência
internacional muito importante da mídia independente, veículo cuja propriedade acionária
é, em boa medida, compartilhada entre a redação e os leitores, que inclusive formaram uma
associação dos amigos da publicação. Ou seja, uma fatia ainda pequena, mas representativa
e crítica, da comunidade das comunicações (essa nova força sociopolítica), internacional e
nacional, está concretamente engajada na idéia democrática de Quinto Poder, um poder
fiscalizador do Quarto Poder e a ele alternativo. Não se trata de superestimar essa iniciativa.
Subestimá-la também seria um erro político. Trata-se de constatar que ela está em curso,
ainda que modo incipiente, e coloca em movimentos vários sujeitos críticos do papel atual
da mídia, dispostos a atuar no sentido de se contrapor à hegemonia das grandes corporações
que dominam os meios de comunicação. Ademais, a atual conjuntura brasileira favorece o
movimento por um Quinto Poder, devido à existência de um governo originário da
esquerda, realidade que fomenta a eclosão de iniciativas democráticas e a disposição de
unificação das forças dispersas que militam contra os rumos seguidos pelo Quarto Poder.
Como dizia a palavra-de-ordem central do III Fórum Social Mundial, “um
outro mundo é possível”. Da mesma forma, uma nova comunicação é possível...e
necessária.
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18
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Entrevistas

Antonio Martins – editor do portal Ciranda Brasil


Gustavo Gindre – do INDECS (Instituto Nacional de Democratização da Comunicação
Social)
José Paulo Cavalcanti Filho – Presidente do Conselho de Comunicação Social

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