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“A classe média é

sadomasoquista”, afirma o
sociólogo Jessé Souza
Disponível em http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/a-
classe-media-e-sadomasoquista-afirma-o-sociologo-jesse-souza-
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Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar


Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos
acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles
que procuram uma explicação para o caos econômico e político em
que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas
polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais,
acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas
apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me
xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor
de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e deOs batalhadores
brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que
o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam
multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a
desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre
ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos
e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo,
não fosse o desdobramento de sua afirmação.
Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo
de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias
entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com
Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao
discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos
donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais
estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um
Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade,
entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos
das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e
ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume.
Jessé Souza – atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) – esteve em Curitiba há duas semanas, para uma aula
magna do curso de Direito da UFPR. As 200 cadeiras do auditório do
Prédio Histórico foram insuficientes para as fileiras de interessados em
ouvi-lo. A maioria teve de se contentar com telões. É tudo novo para o
pesquisador, mas não inesperado. Ao longo de 20 anos, ele se
entregou a uma tarefa quase insana– desmontar o olhar sobre o Brasil
e os brasileiros cunhado por papas como Gilberto Freyre, Sérgio
Buarque e Raymundo Faoro, autores que a seu ver se prestam a
reforçar, sem bases científicas, o sentimento de inferioridade nacional.
Joga água fervendo em máximas como a do brasileiro cordial, dado a
dar jeitinho em tudo e a levantar vantagem. “Essas ideias são
construções que só servem para desencadear nosso complexo de
vira-lata”.
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Confira trechos de entrevista dada à Gazeta do Povo:


Como o senhor lida com as oposições raivosas a suas teses?
Foi difícil para mim no campo universitário, mas a rejeição, de algum
modo, me deu força para continuar. Ainda não recebi nenhuma crítica
argumentativa. Não houve debate. Ganhei foi xingamentos. Aguardo
algo que seja de alto nível, o que o Brasil precisa muito nessa hora.
Estamos diante de um ponto importante – saber como a questão da
corrupção foi construída. Houve uma naturalização de que esse é o
grande impasse do Brasil. Nosso complexo de vira-lata foi despertado.
Onde quer chegar?
Quero mostrar que é uma mentira o que os intelectuais e as ciências
sociais dizem sobre o Brasil. Com raras exceções, o que afirmam é
que o grande problema é a corrupção. Isso é uma manipulação. Nada
prova que nosso país seja mais corrupto que os EUA. Minha tese: os
intelectuais montaram uma tropa de choque para justificar a existência
de menos de 1% de endinheirados, que mandam e desmandam na
Nação. A corrupção existe em todo lugar, não é uma jabuticaba. O
interesse em dramatizar o tema é um mecanismo dos mais ricos para
imbecilizar a sociedade. Só as elites ganham nessa luta de classes
invisível.

A Lava Jato seria a dramatização da corrupção...


A dramatização mais perfeita. Chamo de Nova República do Galeão,
numa alusão à república montada no aeroporto [por oficiais da FAB,
em 1954], acima da lei, acima da Constituição, criada em nome da
limpeza do país, de conter o “Mar de Lama”...
No Brasil, existe um esquema do golpe, montado. Os componentes
são os mesmos. A diferença do golpe que matou Getúlio Vargas e o
que desencadeou o Golpe de 64 é que agora deixa de ser militar e se
torna civil e jurídico. A função é a mesma – retirar o poder de qualquer
partido que tenha alguma preocupação popular. Era o caso do Getúlio,
do Jango, da Dilma.

O termo “golpe de direita” envelheceu?


Não usaria nesse caso categorias como direita ou esquerda. Diria que
é um país em que meia dúzia de endinheirados mandam, compram
parte do Congresso, põem a imprensa no bolso, fazem o que querem,
como os grandes senhores de escravos. São espertos. Montaram uma
tradição intelectual para legitimar esse modelo.
O tema da corrupção só entra em pauta no momento em que a elite
econômica perde o controle do Estado. A classe média é a que mais
se torna imbecil. É explorada por esse grupo e depois vai defendê-lo.
Que diabos ganha? A classe média faz papel de tola. É explorada por
juros, impostos, sai às ruas. Tem a ilusão de estar lutando pela
moralidade, de ser mais decente.
É uma relação sadomasoquista, uma “gratificação substitutiva”, como
diria Freud. Infantil, esse grupo imita os ricos, pelos quais tem
ressentimento e admiração. É uma classe que se julga da Noruega.
Preocupa-se com a morte das baleias, mas não se sensibiliza com a
miséria a sua volta.

Se não é a corrupção, qual o nosso problema?


Nosso problema tem a ver com a classe de excluídos, que estudei
em A ralé brasileira: quem é e como vive (2009). Uso o termo “ralé” para
provocar e mostrar que a classe média que se diz guardiã da
moralidade explora os excluídos. Usa-os para cuidar dos filhos, para
comer pizza quentinha, matando dois motoboys por dia. Quero pôr a
classe média no espelho: “Olhe o que você constrói, quem você
abandona, bem você, que tira onda de campeão da moralidade”. A
classe média vampiriza esses trabalhadores. É farisaica. E a imprensa
é o braço principal dessa elite que nos dá sua dose de veneno
midiático a cada dia. Dizemos que o problema é a corrupção, mas ao
mesmo tempo mantemos uma das sociedades mais perversas e
desiguais do planeta.
O senhor foi formado nas ideias de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de
Hollanda, Raymundo Faoro. Por que se estranhou com seus mestres?
Estudei esses autores com obsessão, dois-três anos cada um, quando
estava na Alemanha, na década de 1990. Em especial o Gilberto
Freyre. É o mais inteligente e o que mais me intrigou, por ser uma
espécie de criador do Brasil moderno. Queria ter uma visão pessoal
sobre o mundo e a sociedade brasileira. Até que me dei conta de que
estava entrando na esparrela que o Freyre havia criado. Fiquei quase
um mês paralisado. Meu projeto acabou ali. Só me restava fazer a
crítica desse pessoal. Como os demais brasileiros, eu tinha sido
educado para me ver como um povo vira-lata, emocional, que age
pelo coração. Estava diante da chance de renovar e reinterpretar o
Brasil.

Não somos tão filhos de Portugal quanto imaginamos...


Dizer isso faz parte do engodo. Virou senso comum. Algumas
afirmações são ridículas, não existe outra palavra. Raymundo Faoro
diz que a corrupção vem desde Portugal, mas não havia corrupção lá.
Como o rei poderia roubar o que era dele? A noção de soberania
popular, que nos permite falar em corrupção, começa dois séculos
depois. A questão é que se acredita nisso. O que molda as pessoas
são as instituições e a instituição principal do Brasil, a partir 1532, é a
Escravidão – que não existia em Portugal. Os modelos de família, de
Justiça, de política, de economia são montados pela Escravidão, aqui
de maneira distinta de Portugal. Lá a Igreja era mais importante do
que os senhores e limitava o poder senhorial. Já entre nós os
senhores podiam tudo, o que se mantém até hoje, de alguma maneira.
Permita lembrar algo curioso – o que os operadores de telemarketing,
uma das categorias que aparecem em suas pesquisas – têm a dizer sobre o
Brasil?
Tratei desse grupo num livro específico [ Os batalhadores brasileiros,
2012], ao estudar os que foram alçados de modo errôneo à chamada
“nova classe média”. Queria compreendê-los. Percebi que estávamos
diante de um fenômeno – o surgimento de uma nova classe
trabalhadora, precária, a céu aberto, sem privilégio. O telemarketing
tem a ver com as mudanças tecnológicas, com o desaparecimento de
postos de emprego e com a exploração total do trabalhador. Os
atendentes atuam em condições exaustivas. Retira-se tudo deles.
Como definiria o que chama de “nova classe trabalhadora”?
É pobre. A humilhação para essa gente é tão presente quanto a falta
de dinheiro. É humilhada nos serviços públicos, mas também por nós.
Mudamos de lado na rua quando os vemos. É um ser humano sem
dignidade, esquecido, sem chances digna de enfrentar competição. O
novo trabalhador foi montado para estar nessa situação. De positivo, a
admirável resiliência. Com o pouco que lhe foi dado, dinamizou a
economia, deu impulso ao desenvolvimento, como não acontecia
havia 60 anos. Fico muito impressionado com a resposta que a
população deu diante do pequeno estímulo que recebeu.

Nesse cenário, qual o papel das religiões evangélicas?


Importante. Esse povo não é só pobre, humilhado, visto de cima para
baixo, sem chances... Tem a religião, que se confunde com a política
e com a economia. As igrejas deram a esses pobres a autoestima.
Fez deles irmãos de Jesus, filhos de Deus. O projeto lulista deu uma
oportunidade a essas pessoas, mas a pregação evangélica também.
Não se move a sociedade só por transferência de renda. A autoestima
dada pelas religiões ajuda a reagir, a acreditar probabilidade de mudar
no futuro. Nosso debate é limitado, muito centrado na renda e pouco
na dimensão simbólica, justo a que determina como a gente reage.

Diz-se que na última década o desenvolvimento se deu à custa do


consumo de carros pelos mais pobres, por exemplo, mas não da cultura.
Concorda?
Diria duas coisas. Qual é o problema de os pobres começarem a
consumir? Para pobres ou não, o consumo é parte importante da
cidadania. Tem a ver com direitos. O acesso a bens de consumo torna
a vida boa, agradável. Em segundo lugar, estudos do Ipea mostram
que nos últimos dez anos modificou a maneira como as pessoas
imaginam a vida. Vivemos uma pequena revolução, porque também
aumentou o capital cultural, antes concentrado na classe média. Com
mais consumo em geral, as famílias pobres expandiram seus
horizontes. Investem mais em educação, passam a perceber o futuro,
a pensar em como sair de onde estão.