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30/11/2017 Por que o Fundeb é essencial para combater a desigualdade na educação no Brasil | Brasil | EL PAÍS Brasil

BRASIL

TRIBUNA

Por que o Fundeb é essencial para combater a desigualdade na


educação no Brasil
O nosso sistema amplia o abismo social e temos garantir o investimento no ensino básico para
reverter o quadro
PRISCILA CRUZ E CAIO CALLEGARI

29 NOV 2017 - 22:02 BRST

Crianças da Escola Municipal São José dos Índios, em São José do Ribamar, no Maranhão. JULYANE GALVÃO/GOVERNO DO MARANHÃO

Embora seja a solução de que tanto precisamos, a educação tem sido, na realidade, o berço da
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desigualdade social e econômica no nosso país. Deixamos de alfabetizar metade das nossas
Vaquinha sem
fronteiras crianças entre 8 e 9 anos de idade e, se continuarmos no lento ritmo de avanço atual,
levaremos ainda 76 anos para garantir a alfabetização de todas elas. O retrato é muito mais
Volta ao mundo em
50 escolas grave quando olhamos para os estudantes de nível socioeconômico mais baixo: apenas 14%
inovadoras deles atingem nível suficiente de alfabetização nessa faixa etária.
Linguagem de
programação: o novo
Isso representa uma exclusão de partida da parcela mais vulnerável da população, sendo o
curso de idioma das
escolas início de um roteiro de baixo desempenho escolar, repetência e evasão que é comum para
muitas das nossas crianças e jovens. Já entre as crianças de nível socioeconômico mais alto
da rede pública, ocorre precisamente o inverso, estando 85% alfabetizadas e 15% não
alfabetizadas.

As desigualdades vão se acumulando ao longo da trajetória escolar, e de forma assustadora. Mais adiante, aos 10-
12 anos de idade, o diferencial entre os alunos mais ricos e mais pobres na rede pública é ampliado para a ordem
de dez vezes (80% contra 8%) e, ao final do Ensino Fundamental, a distância chega a 22 vezes (58% contra
2,5%). Ou seja, o nosso sistema educacional amplia o abismo social, tornando cada vez mais distante uma maior
igualdade de oportunidades.

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A razão para isso é que tratamos desigualmente os desiguais, beneficiando os mais favorecidos e investindo
menos nos mais excluídos. O nível socioeconômico não pode sentenciar o resultado educacional de uma criança –
embora saibamos que há uma forte correlação entre as duas variáveis. Ou nós investimos em uma política forte
para enfrentar essa situação de altíssima desigualdade educacional ou continuaremos inertes, ampliando as
diferenças de resultados entre os grupos socioeconômicos.

Diminuir esse abismo é um caminho imenso, mas não é impossível. O Brasil está repleto de experiências exitosas
de Educação de qualidade em situações de maior vulnerabilidade. Não por acaso, as escolas que realizam esses
trabalhos contam com algumas características comuns: professores mais preparados e com as devidas
condições de trabalho, diretores mais experientes e infraestrutura escolar adequada.

Estamos diante, portanto, de um desafio ético que demanda coragem. É preciso um compromisso de toda a
sociedade para invertermos a balança, aumentando a nossa atenção (e recursos) para aqueles que têm menos
oportunidades.

Em palestra recente no Brasil, o economista francês Thomas Piketty – referência internacional em estudos sobre
desigualdade econômica – defendeu o acesso democrático à Educação de qualidade como chave para o combate
às iniquidades da sociedade brasileira. O desenvolvimento educacional, um direito cidadão, é o caminho de
transformação das vidas de crianças e jovens em situações mais vulneráveis, no sentido de garantir a plena
cidadania e romper o círculo vicioso da exclusão e da pobreza.

A pergunta essencial é como fazer isso de forma sistêmica na rede pública brasileira. Um dos instrumentos
capazes de promover a transformação necessária é o nosso sistema de financiamento educacional da educação
básica pública. Precisamos que o seu funcionamento esteja ancorado em um princípio de qualidade com
equidade, de justiça social por meio da Educação. Trata-se, vale reforçar, não apenas de elevar a média de
desempenho dos alunos, mas também de reduzir as desigualdades. Para isso, o financiamento deve garantir um
mínimo de qualidade das oportunidades educacionais em todas as escolas brasileiras – como está previsto no
Plano Nacional de Educação (PNE).

No Brasil, cerca de 60% dos recursos investidos na educação básica pública – um montante de R$ 141,4 bilhões –
são distribuídos por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação (Fundeb). O Fundeb é uma política redistributiva reconhecida internacionalmente que
permitiu grande redução da desigualdade de investimento na Educação Básica entre os entes federados, além de
contribuir para o salto da última década em matéria de cobertura da Educação Infantil.

Em operação desde 2007 e com vigência até 2020, o Fundeb amplia em 413% o menor valor investido por aluno
entre as redes educacionais brasileiras; permite ainda que a amplitude da desigualdade de investimento seja
reduzida em 71%, como mostra o Estudo Técnico nº 24/2017 da Consultoria de Orçamento e Fiscalização
Financeira da Câmara dos Deputados.

Há ainda muito espaço para avançar na redistribuição, contudo. Mesmo após o Fundeb, há um número
significativo de redes públicas de ensino no Brasil com menos R$ 3,6 mil para investir por aluno ao ano (R$ 300
por mês), enquanto há redes que investem valores superiores a R$ 15 mil por aluno/ano. Parte importante da
equalização no Fundeb é realizada por uma complementação de orçamento pela União, sendo destinados R$ 11,7
bilhões aos estados mais pobres do país; entretanto, 31% dessa complementação pode ser considerada uma
ineficiência alocativa, por não atingir com o montante adequado os municípios que mais necessitam. Isso não
significa que a complementação deveria ser reduzida, muito pelo contrário. Precisamos ampliar o efeito
redistributivo oriundo da complementação da União.

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Temos a oportunidade de aprimorar essa política e dar um exemplo de como construir um sistema realmente
equitativo. Em avançada tramitação na Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº
15/2015 tem o louvável objetivo de tornar o Fundeb uma política de Estado perene, sem prazo para acabar. Atores
comprometidos com o desenvolvimento educacional têm estabelecido debates de alto nível nas audiências
públicas sobre a proposta e têm convergido na defesa de uma redistribuição mais pujante e eficaz. Estamos
diante da oportunidade de criar um padrão melhor e mais potente, pactuado através do diálogo e com amplo
apoio da sociedade.

A nossa ambição deve ser um modelo de financiamento cujo ponto central seja a equidade com qualidade das
condições educacionais, que siga induzindo o avanço na universalização da educação básica obrigatória, a
efetividade das políticas e as melhorias na governança do sistema.

Ao potencializar o Fundeb, uma política de sucesso, avançaremos com o objetivo de que a educação seja uma
solução – e não a causa – das nossas assimetrias de oportunidades. Que fique claro: não se trata de um remédio
mágico, mas de uma política redistributiva mais intensa, eficiente e justa, capaz de transformar as perspectivas
de vida de crianças e jovens em situações mais vulneráveis. Com o impacto do Fundeb na melhoria da qualidade
da educação básica nos municípios brasileiros, daremos força às braçadas dos nossos estudantes para saírem do
redemoinho da exclusão.

Priscila Cruz, mestre em Administração Pública pela Harvard Kennedy School, é uma das fundadoras e presidente-executiva da ONG
Todos Pela Educação. Caio Callegari, economista e coordenador de projetos da Todos Pela Educação

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· Educação · América · Política · Economia · Sociedade

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