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PARA LER FREUD

Organização de Nina Saroldi

2013
Para Iza e Biito
SUMÁRIO

Apresentação da coleção
Prefácio

I. O lugar do Projeto na história da psicanálise


Um percurso insólito
A psicologia como ciência natural
Por que Freud abandonou o Projeto?
O Projeto na história da psicanálise:
Ruptura ou continuidade?
Um texto caleidoscópico
A relevância atual

II. Freud e a neurologia: As relações entre cérebro e


mente
A teoria da localização cerebral
Raízes do antilocalizacionismo de Freud
Uma neurologia dinâmica
“Cérebro”
As afasias e o aparelho de linguagem

III. O Projeto: Um resumo da obra


Objetivo geral e os dois postulados principais
Os dois teoremas
Barreiras de contato e facilitação
Qualidade, consciência e o sistema ômega
A vivência de satisfação
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A vivência de dor
O Eu
Processos primário e secundário
O pensamento e a realidade
O pensamento e a linguagem
Os sonhos
O sintoma histérico
O legado do Projeto

IV. O Projeto hoje: A psicanálise em face das


neurociências
Psicanálise e biologia da mente: Um diálogo difícil
A plasticidade e suas implicações
A virada naturalista
Neurociências e psicanálise: A emergência do debate
O naturalismo nas neurociências
Os limites do eliminativismo
O problema do reducionismo
Psicanálise, natureza e cultura: Duas perspectivas sobre a
subjetividade
A emergência da subjetividade
A teoria do self em Damásio
Empatia, intersubjetividade e sujeito: O caso do autismo
A origem traumática do sujeito
O modelo do self fenomenológico de Metzinger

Conclusão

Bibliografia

Cronologia de Sigmund Freud


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Outros títulos da coleção


APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO

Em 1939, morria em Londres Sigmund Freud. Hoje,


passadas tantas décadas, cabe perguntar por que ler
Freud e, mais ainda, qual a importância de lançar uma
coleção cujo objetivo é despertar a curiosidade a re-
speito de sua obra.
Será que vale a pena ler Freud porque ele criou um
campo novo do saber, um ramo da psicologia situado
entre a filosofia e a medicina, batizado de psicanálise?
Será que o lemos porque ele criou, ou reinventou,
conceitos como os de inconsciente e recalque, que ul-
trapassaram as fronteiras do campo psicanalítico e in-
vadiram nosso imaginário, ao que tudo indica,
definitivamente?
Será que devemos ler o mestre de Viena porque,
apesar de todos os recursos farmacológicos e de toda a
ampla oferta de terapias no mercado atual, ainda há
muitos que acreditam na existência da alma (ou de
algo semelhante) e procuram o divã para tratar de suas
dores?
Será que vale ler Freud porque, como dizem os que
compartilham sua língua-mãe, ele é um dos grandes
estilistas da língua alemã, razão pela qual recebeu, in-
clusive, o Prêmio Goethe?
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Será que seus casos clínicos ainda são lidos por


curiosidade “histórico-mundana”, para conhecer as
“bizarrices” da burguesia austríaca do fim do século
XIX e do início do XX?
Será que, em tempos narcisistas, competitivos e ex-
ibicionistas como os nossos, é reconfortante ler um in-
vestigador que não tem medo de confessar seus fracas-
sos e que elabora suas teorias de modo sempre aberto à
crítica?
Será que Freud é lido porque é raro encontrar quem
escreva como se conversasse com o leitor, fazendo dele,
na verdade, um interlocutor?
É verdade que, tanto tempo depois da morte de
Freud, muita coisa mudou. Novas configurações famil-
iares e culturais e o progresso da tecnociência, por ex-
emplo, questionam suas teorias e põem em xeque, sob
alguns aspectos, sua relevância.
Todavia, chama a atenção o fato de, a despeito de
todos os anestésicos — químicos ou não — que nos pro-
tegem do contato com nossas mazelas físicas e
psíquicas, ainda haver gente que se disponha a deitar-
se num divã e simplesmente falar, falar, repetir e
elaborar, extraindo “a seco” um sentido de seu desejo
para além das fórmulas prontas e dos consolos que o
mundo consumista oferece — a partir de 1,99.
Cada um dos volumes desta coleção se dedica a ap-
resentar um dos textos de Freud, selecionado segundo
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o critério de importância no âmbito da obra e, ao


mesmo tempo, de seu interesse para a discussão de
temas contemporâneos na psicanálise e fora dela. Ex-
ceção à regra são os três volumes temáticos — histeria,
neurose obsessiva e complexo de Édipo —, que abor-
dam, cada um, um espectro de textos que seriam em-
pobrecidos se comentados em separado. No volume
sobre a histeria, por exemplo, vários casos clínicos e
artigos são abordados, procurando refazer o percurso
do tema na obra de Freud.
A cada autor foi solicitado que apresentasse de
maneira didática o texto que lhe coube,
contextualizando-o na obra, e que, num segundo mo-
mento, enveredasse pelas questões que ele suscita em
nossos dias. Não necessariamente psicanalistas, todos
têm grande envolvimento com a obra de Freud, para
além das orientações institucionais ou políticas que
dominam os meios psicanalíticos. Alguns já são bem
conhecidos do leitor que se interessa por psicanálise;
outros são professores de filosofia ou de áreas afins,
que fazem uso da obra de Freud em seus respectivos
campos do saber. Pediu-se, na contramão dos tempos
narcisistas, que valorizassem Freud por si mesmo e en-
corajassem a leitura de sua obra por meio da arte de
escrever para os não iniciados.
A editora Civilização Brasileira e eu pensamos em
tudo isso ao planejarmos a coleção, mas a resposta à
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pergunta “Por que ler Freud?” é, na verdade, bem mais


simples: porque é muito bom ler Freud.

NINA SAROLDI
Coordenadora da coleção
PREFÁCIO

Muitas divergências teórico-práticas se resolveriam,


ou pelo menos se encaminhariam na direção de um
discurso menos belicoso e mais consensual, se nos per-
mitíssemos gastar o tempo necessário para escutar o
oponente. Julgar, quando o outro diz sua primeira
frase, que já sabemos o que vamos ouvir é sempre a
melhor maneira de não ouvir nada e o que lamentavel-
mente costumamos fazer. Em tempos apressados como
os de hoje, muitas vezes o verdadeiro debate é sub-
stituído pela repetição de slogans científico-publi-
citários ou, na pior das hipóteses, pela mera desquali-
ficação dos oponentes e pelo ensimesmamento em um
discurso viciado. É também disso que trata o livro de
Benilton Bezerra Jr., que consegue entrar — e sair —
da querela entre psicanálise e neurociências com a
tranquilidade e a generosidade dialética fundamentais
para o estabelecimento de um diálogo entre aborda-
gens, à primeira vista, divergentes.
A tarefa de Benilton era, desde o princípio, dupla:
comentar o Projeto para uma psicologia científica e,
ao mesmo tempo, introduzir o leitor no debate con-
temporâneo entre psicanálise e neurociências, no qual
o escrito rejeitado por Freud possui um papel
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preponderante. Não fossem a visão e o empenho de


Wilhelm Fliess, Marie Bonaparte e Anna Freud, que
nele viram um documento fundamental sobre os
primórdios da psicanálise, o texto escrito por Freud em
1895 provavelmente teria se perdido para sempre. De-
pois de décadas (desde sua publicação em 1950) releg-
ado pela maior parte dos psicanalistas ao papel de
“achado arqueológico” na história da psicanálise, o
Projeto retorna à cena nos anos 90 do século XX como
um escrito-chave quando se trata de aproximar a biolo-
gia à psicologia, participando da tentativa atual de
elaborar uma teoria naturalista sobre a vida psíquica.
Benilton mostra como o Projeto se tornou estratégi-
co para a aproximação entre as neurociências e a psic-
análise. Essa aproximação, ela mesma controversa,
torna-se ao mesmo tempo inevitável diante das novas
técnicas de exame do sistema nervoso. Um exemplo do
cuidado de Benilton, ao analisar as diferentes posições
em jogo, é a apresentação que faz das várias nuances
abrigadas no conceito guarda-chuva do “naturalismo”,
frequentemente identificado, de forma errônea, às suas
versões positivistas ou reducionistas. O problema
dessa associação é que ela acaba por produzir um
efeito indesejado: o de identificar a recusa do redu-
cionismo com a recusa do naturalismo — afastando
muitos psicanalistas de uma aproximação frutífera
com as neurociências. Segundo o autor, o campo do
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naturalismo comporta várias versões, apoiadas em


bases epistemo-metodológicas muito distintas, que vão
do fisicalismo eliminativista — para o qual fenômenos
subjetivos como desejos, crenças, alegrias e sentimento
de identidade “nada mais são” do que o funcionamento
de neurônios e suas moléculas — até posições como o
monismo de duplo aspecto. Este último preconiza a ir-
redutibilidade dos fenômenos mentais às bases bioló-
gicas das quais eles se originam, e admite a causalidade
do mental sobre o cerebral. Para Freud, conforme sug-
ere o autor, o naturalismo não implicava reduzir a ex-
periência subjetiva a mecanismos físicos, mas simples-
mente buscar as bases naturais de tudo aquilo que con-
hecemos com a atividade do espírito humano; tarefa
que lhe parecia incontornável de qualquer teoria
abrangente sobre a vida subjetiva.
Para muitos intérpretes, o Projeto foi “o derradeiro
suspiro do Freud neurólogo” e não chegou a questionar
o lugar conferido ao livro VII de A interpretação dos
sonhos como escrito inaugural da psicanálise. No ent-
anto, Benilton considera o texto de 1895 um docu-
mento importante para que possamos apreender a pas-
sagem — não linear, cheia de idas e vindas e hesitações
— entre uma neurobiologia da mente e a construção
freudiana posterior, evidente em A interpretação dos
sonhos, de uma teoria original sobre o psiquismo, que
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abandona a segurança outrora oferecida pela anatomia


cerebral.
Embora tenha rejeitado o escrito, Freud não rejeit-
ou sua intenção inicial. Ele teria apenas reconhecido
que, em sua época, não havia condições suficientes
para realizá-la. Benilton lembra que, mesmo que Freud
tivesse tido acesso aos melhores laboratórios e téc-
nicas, com os recursos de investigação neurológica da
época, seu intento não poderia ter sido levado a termo.
É importante lembrar que a forma de transmissão de
estímulos por meio do sistema nervoso e a existência
das sinapses entre neurônios ainda não haviam sido
comprovadas em 1895.
Benilton apresenta didaticamente o contexto no
qual o Projeto foi escrito, aponta os impasses da ciên-
cia aos quais Freud estava tentando responder, e em
que medida esta tentativa se insere no contexto mais
amplo (e infinito) das discussões médico-filosóficas
acerca da relação corpo/mente. Para atingir este fim, o
autor examina dois textos que precederam a formu-
lação do Projeto: o pouco conhecido artigo intitulado
“Cérebro”, escrito em 1880 para um dicionário de
medicina geral, e a monografia sobre as afasias, pub-
licada em 1892, texto no qual Freud se refere ao
psiquismo como um “aparelho de linguagem”.
Freud, coerente com sua postura de que a ciência
significava mais um compromisso com a inquietação
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do que com as certezas advindas do conhecimento,


acabou construindo um modo próprio de pensar que
combinava as influências diversas que recebeu de seus
mestres. De Gustav Theodor Fechner e Theodor Her-
mann Meynert, por exemplo, guardou a ideia de que a
atividade da mente era indissociável do funcionamento
do cérebro, que não se podia conceber funções mentais
ou experiências subjetivas desligadas de algum tipo de
funcionamento neural. De Jean-Martin Charcot, reteve
o método clínico-descritivo, a noção de que era ne-
cessário, por conta de sua complexidade e interligação,
compreender os processos psíquicos em termos estrit-
amente psicológicos, mesmo sem poder contar com um
conhecimento preciso de sua base orgânica.
No capítulo em que resume o Projeto, Benilton
aponta as duas questões principais que o atravessam: o
estabelecimento de uma teoria do funcionamento
psíquico a partir de um ponto de vista quantitativo,
capaz de fornecer uma espécie de economia das forças
nervosas; e a tentativa de obter, a partir da psicopato-
logia, um entendimento da vida psicológica normal. O
autor também chama a atenção para o fato de que, no
intuito de fundamentar cientificamente suas descober-
tas clínicas, Freud precisava descrevê-las com base na
ciência natural. Isto implicava a referência a partículas
materiais, deslocamentos e suas leis, embora “a única
base empírica de que [Freud] dispunha para descrever
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os processos mentais eram as inferências obtidas a


partir da prática clínica”. A partir daí, Benilton guia o
leitor no labirinto dos neurônios phi, psi e ômega, da
quantidade (Q), dos estímulos externos e endógenos,
das excitações, das respostas motoras, da energia livre
(processo primário) e da energia ligada (processo
secundário), das barreiras de contato e das facilitações,
estas duas últimas fundamentais no que diz respeito à
explicação da memória.
Benilton mostra, ainda, como a articulação dinâm-
ica entre os princípios de inércia e de constância revela
a importância do sistema nervoso na promoção de um
equilíbrio homeostático entre o organismo e o ambi-
ente em que se encontra. Por fim, analisa outras ideias
que persistirão na obra posterior de Freud, tais como a
vivência de satisfação e a emergência do desejo.
Ao fim do livro, onde trata especificamente das re-
lações entre psicanálise e neurociências, Benilton re-
toma a história das relações entre as ciências da
natureza e as ciências do espírito. A separação radical
entre as duas foi estabelecida nas teorias da primeira
metade do século XX e se tornou canônica até recente-
mente, quando descobertas das ciências da vida
começaram a contrariar fortemente a visão da natureza
como uma totalidade autoconsistente e internamente
integrada, caracterizada pela necessidade e determin-
ismo de suas relações causais. Por incrível que pareça,
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as novas descobertas acerca do cérebro introduzem nas


ciências da vida a ideia de singularidade de cada or-
ganismo, outrora considerada uma prerrogativa da
psicanálise e de algumas correntes filosóficas.
Benilton chama a atenção para o fato de estarmos
vivendo em uma espécie de “neurocultura”, na qual o
naturalismo e o discurso neurocêntrico que o acom-
panha se tornaram a maneira hegemônica de ver o
mundo. Com a popularização das neurociências, a
ideia de que toda a atividade humana poderia ser ex-
plicada com base na estrutura organizacional do
cérebro e na dinâmica da atividade neural
transformou-se numa espécie de verdade banal. Mas é
preciso lembrar que essa “virada naturalista” na cul-
tura não decorre apenas das descobertas neuro-
científicas, e sim de sua adequação a uma série de
transformações políticas, sociais e econômicas de
nosso tempo. Por isso, para melhor apreciar o interesse
da aproximação entre psicanálise e ciências da vida é
preciso distinguir esse processo sócio-histórico das
questões epistemológicas e metodológicas que essa
aproximação traz à tona.
Tal debate está longe de chegar ao fim, pois, desde o
tempo do Projeto até agora, persiste o mistério de
saber exatamente como se ligam o somático e o
psíquico, “como do tecido vivo emerge a complexidade
da experiência psíquica”. Indo um pouco além, como é
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possível acessar, a partir das bases biológicas ne-


cessárias ao funcionamento psíquico, a dimensão pro-
priamente simbólica da vida subjetiva? Como explicar
o fato de que, apesar de apresentarem provavelmente o
mesmo comportamento em termos neuronais, um
grego do século V a.C. falasse da paixão vinculada às
flechas de Eros, que um leitor de Werther, do século
XVIII, a considerasse algo tão abissal que o conduziria
ao suicídio, e que Martinho da Vila em nossos dias
compusesse um samba triste em sua homenagem?
Nenhum exame de imagem do cérebro conseguiu, até
hoje, dar conta do domínio cultural e simbólico que
tanta importância têm na constituição de nossa vida
subjetiva. Diante desta afirmativa, podemos bem ima-
ginar um neurocientista que nos interrompe e diz:
“...ainda não conseguiu, mas vai conseguir um dia”.
Se o próprio Freud não raro registrou o desejo de
que os fenômenos psíquicos que descrevia em termos
metapsicológicos pudessem ser explicados em termos
fisiológicos,1 por que não avançar na construção de um
campo de interlocução entre psicanalistas e neuro-
cientistas na investigação acerca da subjetividade
humana?

Nina Saroldi
Organizadora da coleção
Nota

1Conferir “Introdução ao narcisismo”, de 1914, e “Além do


princípio do prazer”, de 1920, somente para citar os textos
mais conhecidos nos quais Freud faz menção ao assunto.
I. O LUGAR DO PROJETO NA HISTÓRIA DA
PSICANÁLISE

Um percurso insólito

O Projeto para uma psicologia científica ocupa um


lugar muito singular na história da psicanálise. Nen-
hum outro escrito despertou reações tão contrastantes,
a começar pelas do próprio autor. Concebido e escrito
por Freud numa atmosfera de entusiasmo febril entre
os meses de abril e outubro de 1895, o Projeto acabou
rejeitado e abandonado pouco depois de sua conclusão.
Oculto do resto do mundo, o escrito permaneceu por
longo tempo como um segredo entre o autor e seu en-
tão fiel amigo Wilhelm Fliess. Por muito pouco não de-
sapareceu completamente. Se a vontade de Freud
tivesse prevalecido, esse teria sido seu destino, o que só
não ocorreu por conta da intervenção decisiva de três
pessoas. A primeira foi o próprio Fliess, que o guardou
(junto com as cartas que havia recebido do amigo vien-
ense) por mais de trinta anos. A intensa amizade de
ambos entrou em colapso e terminou em 1904, mas
Fliess manteve os escritos em mãos até sua morte, em
1928.
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A segunda pessoa foi Marie Bonaparte, francesa,


princesa da Grécia e da Dinamarca, analisanda de
Freud que se tornou sua amiga e grande difusora da
psicanálise. Marie Bonaparte, uma das primeiras psic-
analistas na França, viria a ter participação decisiva,
financeira e política, na fuga da família Freud de Viena
para Londres em 1938, e durante anos cuidou para que
os manuscritos guardados por Fliess se mantivessem
intactos. A história de sua participação na trama que
resultaria anos depois na publicação dos escritos pode
ser lida nos relatos de Jones e de Masson,2 baseados na
correspondência entre ela e Freud. Depois da morte de
Fliess, sua viúva vendeu todos os escritos, notas e
cartas de Freud que estavam em seu poder a Reinhold
Stahl, um livreiro de Berlim, com a expressa condição
de que esse material jamais chegasse às mãos do autor.
A viúva tinha boas razões para supor que Freud o
destruiria tão logo tivesse acesso a ele. Suas suspeitas
tinham fundamento. Logo após a morte de seu marido,
em 1928, Ida Fliess escrevera a Freud solicitando-lhe o
envio, ou ao menos o empréstimo, das cartas remetidas
a Viena pelo marido. Em resposta a ela, Freud lhe disse
que se lembrava de ter destruído a “maioria delas”
ainda em 1904, e rogou-lhe que esperasse um pouco
para ver se encontrava mais alguma. O tempo passou e
nenhuma jamais apareceu. Ida firmou uma convicção:
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elas haviam desaparecido pelas mãos do próprio


Freud. Por isso a recomendação expressa a Stahl.
Com a ascensão do movimento nazista nos anos
1930, Stahl se viu instado a deixar a Alemanha, e
mudou-se para a França. Embora tivesse recebido
ofertas vindas da América para a aquisição do material,
Stahl primeiro o mostrou a Marie Bonaparte, que com-
prou tudo na mesma hora. Convencida do valor dos
documentos, ela escreveu a Freud contando da
aquisição. Freud se mostrou surpreso e incomodado
pelo achado. Embora tenha ficado aliviado em saber
que os papéis estavam em poder de uma amiga e dis-
cípula, a salvo da curiosidade pública, o temor de que o
material, sobretudo suas cartas, viesse a ser conhecido
“pela chamada posteridade” era tão grande que ele
imediatamente pediu para ficar com tudo, oferecendo
o pagamento de metade das despesas realizadas com a
compra como compensação. Ela resistiu à oferta,
preferindo arcar com todos os custos e permanecer
com o material em seu poder. Foi a maneira que en-
controu para poder “conversar mais livremente” com
Freud sobre os manuscritos.
Pouco depois, com eles em mãos, Marie Bonaparte
dirigiu-se a Viena. Uma vez lá, conseguiu vencer a res-
istência de Freud e obteve autorização para ler parte
dos escritos que até então ainda não havia examinado.
A leitura de alguns dos papéis mostrou que suas
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intuições iniciais estavam corretas. Era preciso encon-


trar uma maneira de preservá-los, apesar da má vont-
ade de seu autor. Bonaparte então procurou Anna
Freud e conseguiu convencê-la da importância de
guardar os documentos, imprescindíveis para estudos
futuros acerca dos primórdios da psicanálise. Com esse
apoio, ela mais uma vez tentou demover seu analista
da decisão de se desfazer deles. Sem sucesso: Freud in-
sistia em vê-los queimados.
Para sorte dos pósteros, mais uma vez ela resistiu à
pressão e, antes de partir de volta, depositou todos os
documentos no Banco Rothschild, com a intenção de
examiná-los com cuidado mais adiante, quando
pudesse voltar com calma a Viena. Os tempos, no ent-
anto, eram sombrios. Com a invasão da Áustria por
Hitler, e o risco quase imediato de uma intervenção no
banco, cujos proprietários eram judeus, os planos
tiveram que ser mudados. Marie Bonaparte regressou
a Viena e, graças à sua condição de princesa, con-
seguiu, sob o olhar da Gestapo, recuperar o que havia
depositado e levar tudo para Paris. Quando, em 1941,
precisou sair da França e se dirigir à Grécia, então
ameaçada pela iminente invasão das tropas nazistas,
ela deixou os documentos sob a guarda da Legação Di-
namarquesa, onde permaneceram a salvo durante a
ocupação alemã. Finalmente, de Paris, os documentos
acabaram sendo enviados por navio a Londres, aonde
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chegaram — driblando as minas flutuantes no canal —


sãos e salvos, embrulhados em material à prova d’água
e flutuante, para o caso de um naufrágio.
Antes que o Projeto viesse a público, inicialmente
em alemão (1950), e depois em inglês (1954), ainda
uma terceira pessoa precisou entrar em cena. Coube a
Anna Freud — num raro momento em que contrariou a
vontade expressa do pai — decidir por sua publicação.
Segundo Masson, Ana agiu movida pela convicção, in-
stilada por Marie Bonaparte anos antes, de que
naqueles escritos inéditos se encontrava boa parte da
pré-história da psicanálise. Trazer à tona os manuscri-
tos do Projeto e as cartas a Fliess permitiria aos
leitores atuais uma visão mais complexa do processo
de construção do edifício freudiano. Nos anos 1950, o
campo psicanalítico já se encontrava dividido em
grandes orientações teóricas, que buscavam enraizar
suas diferentes abordagens na interpretação dos fun-
damentos do texto freudiano. A leitura dos manuscri-
tos poderia jogar luz nesse debate. O Projeto e as
cartas, que haviam escapado várias vezes da destru-
ição, afinal encontravam seu destino.
Em 1895, o ano em que o Projeto foi escrito, Freud
tinha quase 40 anos. Àquela altura da existência, sua
vida pessoal e familiar era estável e promissora. A pub-
licação de conceituados estudos neurológicos realiza-
dos nas décadas anteriores já lhe havia garantido uma
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consistente reputação de pesquisador. Sua atividade


clínica era cada vez mais sólida, e os estudos sobre his-
teria, fobias, obsessões e neurose de angústia lhe
haviam granjeado uma crescente notoriedade no
campo da psicopatologia.
No espírito de Freud, porém, tudo isso ainda era
pouco. Ele jamais escondera de si que tinha grandes
ambições, objetivos que sentia não ter chegado nem
perto de realizar. Apesar do sucesso de sua clínica e da
fecunda vida intelectual, ele se ressentia do isolamento
e do silêncio, quando não da hostilidade, que percebia
em torno de si. A única pessoa por quem se sentia com-
preendido e em quem depositava uma confiança sem
limites era Wilhelm Fliess. Médico otorrinolaringolo-
gista de Berlim, Fliess tinha 29 anos quando viajou a
Viena em 1887, convidado por Joseph Breuer para as-
sistir a algumas aulas de Freud na universidade. Foi
um caso de amizade à primeira vista. Em pouco tempo
se tornaram amigos íntimos, estabelecendo uma lig-
ação cuja intensidade emocional jamais encontrou
paralelo em toda a vida posterior de Freud.
Embora dois anos mais moço que Freud, Fliess era
dono de forte personalidade e grandes convicções.
Freud tinha em Fliess um confidente, um interlocutor,
e uma fonte indispensável de encorajamento e de afeto.
Com ele dividia não apenas seus achados clínicos e es-
peculações teóricas, mas também os sentimentos
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íntimos de euforia e desânimo, de confiança e frus-


tração. As cartas que trocaram durante 17 anos
(1887-1904) formam um conjunto inestimável de doc-
umentos da história da psicanálise, justamente por
conterem não só o progresso das ideias, mas a história
emocional das idas e vindas, das certezas fulgurantes,
dúvidas e decepções que acompanharam na intimidade
o desenvolvimento das fundações da psicanálise. O col-
orido transferencial paterno da relação que Freud
manteve com Fliess durante o tempo que durou a
amizade de ambos é cristalino para quem as lê. Freud
tinha admiração quase reverencial em relação a Fliess,
a quem via como dotado de “genialidade” e “clareza
esplendorosa”, além de qualidades morais superiores
— numa carta à sua noiva Martha, chegou a descrevê-
lo como “a bondade em pessoa”.3
Assim, quando nos primeiros meses de 1895 Freud
decidiu aventurar-se no ambicioso projeto de articular
os conhecimentos adquiridos nas pesquisas neuroló-
gicas e os resultados de suas investigações na clínica
das psicopatologias para construir uma psicologia
científica — capaz de elucidar cientificamente a con-
exão entre o funcionamento biológico do sistema
nervoso e a vida anímica —, Fliess veio a ter papel de-
cisivo. Foi não apenas seu único interlocutor, que o es-
cutou e estimulou desde o início da empreitada, como
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o fiador da sobrevivência do escrito, a partir do mo-


mento em que Freud resolveu deixá-lo para trás.
A história do Projeto tem dois momentos distintos.
O primeiro, intenso e curto, vai da concepção inicial
até seu abandono por Freud, pouco depois de ter sido
concluído. O segundo se inicia com a publicação em
1950 e segue até hoje. Para os leitores dos anos 1950, o
Projeto surgiu como um capítulo imprevisto da
história do pensamento freudiano. Àquela altura,
achava-se que toda a obra de Freud era conhecida. De
repente, um escrito inédito punha em questão a genea-
logia estabelecida dos conceitos que haviam dado ori-
gem à psicanálise. Boa parte dos conceitos apresenta-
dos em A interpretação dos sonhos, tido até então
como um documento inteiramente original, já estavam
lá, no manuscrito recém-descoberto. Onde situar,
nessa trajetória, esse escrito inesperado? Que relação
haveria entre o Projeto e as obras psicanalíticas pos-
teriores? Boa parte dos primeiros leitores tendeu a ver
no Projeto o derradeiro suspiro do Freud neurólogo. O
Projeto foi “um último e desesperado esforço para
apegar-se à segurança da anatomia cerebral”, disse
Ernest Jones.4 O texto pertenceria a um campo epi-
stemológico que Freud teria deixado para trás em 1900
com a publicação de A interpretação dos sonhos, cujo
capítulo VII é uma espécie de certidão de nascimento
oficial da psicanálise. Muitos chegaram a negar-lhe
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alguma importância para a obra freudiana posterior,


devido à sua terminologia neurológica e fisicalista.
Chegou-se a dizer que a única coisa relevante a seu re-
speito era o fato de ter sido deserdado pelo próprio
autor.5
Com o tempo, porém, essa posição foi sendo con-
frontada por interpretações de vários matizes. O es-
crito de 1895 mostrou-se uma peça complexa,
testemunho de um ponto crucial da trajetória intelec-
tual de Freud, em que conviviam, de um lado, con-
vicções epistemológicas profundas acerca da im-
bricação do psíquico com o somático e, de outro, ob-
servações clínicas inovadoras que resistiam a uma ex-
plicação em termos fisiológicos, e que o fizeram ante-
cipar conceitos psicanalíticos. Em outras palavras, o
Projeto traria, em seu bojo, tanto a intenção não realiz-
ada do pesquisador de laboratório (encontrar uma lin-
guagem que pudesse dar conta ao mesmo tempo do
neural e do mental) quanto as intuições e descobertas
do clínico, que abriram caminho para a criação de um
novo campo de saber que abordava o psíquico em seus
próprios termos, dispensando a referência ao
biológico.
Por mais que se acentue o caráter decisivo de A in-
terpretação dos sonhos na formulação da teoria freu-
diana, a psicanálise não emergiu de uma vez no es-
pírito de seu autor. Ela foi sendo construída aos
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poucos, em resposta aos dilemas e impasses que a


prática clínica e a sua teorização lhe impunham. Além
disso, essa construção não se deu em progresso con-
tínuo, cada etapa sucedendo logicamente a anterior.
Seu desenvolvimento ocorreu em meio a idas e vindas,
revisões e acréscimos, avanços e hesitações, que
começam bem antes de 1900, e o Projeto retrata um
momento de grande fertilidade dessa trajetória. Seu
aparecimento permitiu conhecer melhor como Freud
passou da pesquisa sobre neurobiologia da mente para
a construção de uma teoria original sobre o psiquismo.
A leitura do Projeto nos dias de hoje, no entanto,
não se justifica apenas pela sua importância na história
das ideias freudianas. A renovação atual do interesse
pelo texto também tem a ver com a extrema atualidade
de seu objetivo central: a construção de um modelo
naturalista de entendimento da vida psíquica. Nas
décadas que se seguiram à sua descoberta, o Projeto
ocupou um lugar discreto quando comparado à im-
portância das obras psicológicas freudianas. Desde a
década de 1990, porém, o interesse pela obra ganhou
novo impulso, devido, em grande parte, ao surgimento
de um diálogo entre parcelas da comunidade psic-
analítica e do universo de neurocientistas. O diálogo foi
precipitado pela verdadeira explosão que as neurociên-
cias tiveram nesse período, lastreadas na emergência
de novas tecnologias e na exploração de alguns
32/301

conceitos-chave que vêm redesenhando o lugar da bio-


logia na sua relação com as demais ciências — como os
de plasticidade neuronal, emergência e epigenética — e
ressignificando termos como “natureza” e “naturaliza-
ção”. A investigação acerca das bases biológicas de
múltiplos aspectos da experiência humana vem tor-
nando porosa a fronteira que separava de forma in-
equívoca o campo das ciências naturais e o campo das
ciências humanas, fomentando o surgimento de cam-
pos de interseção entre a biologia e as ciências do
espírito.
Freud jamais abandonou a premissa de que a vida
anímica emerge da atividade do organismo, ou seja, de
que a dinâmica do sistema nervoso é a base da ativid-
ade psíquica. Ele nunca admitiu a ideia de “uma psico-
logia suspensa no ar, sem uma base orgânica”, como
disse certa vez a Fliess. Mas o estudo funcional apro-
fundado do sistema nervoso exigia técnicas inexist-
entes à sua época, e isso resultou, por muitos anos,
numa imensa dificuldade de aproximar, no campo
teórico e empírico, as disciplinas que Freud quis artic-
ular. Durante muito tempo, biologia e psicologia
tiveram muito pouco o que discutir em conjunto.
Esse cenário mudou drasticamente nas últimas
décadas. Com a introdução das novas tecnologias de
análise funcional da dinâmica cerebral, o diálogo das
ciências humanas com as ciências biológicas tornou-se
33/301

não apenas possível, mas inevitável. Na esteira desse


fenômeno, o distanciamento que na maior parte do
século passado havia prevalecido entre psicanálise e
neurobiologia começou a dar lugar a uma interlocução
— polêmica, já que nem todos os psicanalistas e neuro-
cientistas estão de acordo quanto à sua relevância ou
ao seu alcance —, mas que tem efetivamente estimu-
lado o debate entre os psicanalistas quanto à natureza
do seu campo e de suas relações com as ciências da
vida contemporâneas. Mais de cem anos depois de sua
elaboração, a ambição central de Freud no Projeto —
integrar a psicologia e a biologia na elucidação da vida
mental — voltou com enorme força.

A psicologia como ciência natural

A certidão de nascimento do Projeto pode ser


datada de 27 de abril de 1895. Foi nesse dia que, logo
após haver concluído o último capítulo dos “Estudos
sobre a histeria”, Freud escreveu a Fliess
mencionando-o pela primeira vez. Na carta, em meio a
comentários acerca de alguns casos clínicos e de rela-
tos sobre sua própria saúde, Freud fala da empolgação
e da enorme expectativa de que estava tomado por
conta de seu novo projeto:
34/301

[A] “Psicologia para neurologistas” (...) me consome


por completo, até que, verdadeiramente esgotado,
sou forçado a interromper. Nunca experimentei um
grau tão elevado de preocupação. E dará algum res-
ultado? Espero que sim, mas é difícil e a trajetória é
lenta.6

Nos meses que se seguiram, Freud mergulhou de


corpo e alma em sua aventura. A “Psicologia” ocupava
inteiramente seu espírito e o fazia fervilhar de ideias,
impressionando a quem convivia com ele. Em julho,
seu parceiro Joseph Breuer, admirado com o entusi-
asmo que testemunhava, escreveu, numa carta a Fliess:
“o intelecto de Freud está nas alturas”.7
O que tanto fascinava Freud nesse novo desafio in-
telectual? Numa carta enviada a Fliess em maio, ele
explica:

Um homem como eu não pode viver sem um cavalo


de batalha, sem uma paixão devoradora, sem — nas
palavras de Schiller — um tirano. Encontrei um. A
serviço dele não conheço limites. Trata-se da psicolo-
gia, que sempre foi minha meta distante a acenar-
me, e que, agora, desde que deparei com o problema
das neuroses, aproximou-se muito mais.
35/301

Logo em seguida ele anuncia seus dois propósitos


principais:

Estou obcecado com dois objetivos: examinar que


forma irá tomar a teoria do funcionamento mental se
introduzirmos considerações quantitativas, uma es-
pécie de economia das forças nervosas, e, em
seguida, extrairmos da psicopatologia tudo o que
puder ser útil para a psicologia normal. (...).

O tamanho do desafio não o perturba, ao contrário.


Freud mergulha num ritmo de trabalho febril:

Nessas últimas semanas tenho dedicado cada minuto


livre a esse trabalho; tenho gastado as horas
noturnas, das onze às duas, com fantasias, inter-
pretações e palpites e, invariavelmente, só me de-
tenho quando, em algum momento, esbarro num ab-
surdo ou sinto-me real e seriamente esgotado pelo
trabalho de modo que nenhum interesse me resta por
minhas atividades médicas diárias.8

Escrever uma psicologia científica, que ao mesmo


tempo trouxesse a investigação dos estados mentais
para o campo das ciências naturais e articulasse num
único universo os campos da psicologia normal e o da
psicopatologia, não era um intuito banal, embora fosse
36/301

comum a muitos pesquisadores contemporâneos de


Freud. Isolados, os dois objetivos já teriam uma di-
mensão hercúlea e exigiriam de Freud muito mais do
que havia alcançado até então. Juntos, beiravam a am-
bição utópica. Afinal, tratava-se simplesmente de elu-
cidar as relações entre cérebro e mente, de um lado, e
entre o normal e o patológico, de outro, compondo
uma teoria global da vida psíquica. Entretanto, se
tivesse êxito, Freud alcançaria afinal o reconhecimento
que tanto almejava. Seria protagonista de um aconteci-
mento de extraordinária importância, do tipo para o
qual sempre se sentira vocacionado. Mais ou menos
uma década antes, quando tinha em torno de 30 anos,
ele havia escrito à sua noiva Martha:

Sabe o que me disse Breuer certa noite? Que havia


descoberto, oculta atrás de minha máscara de tim-
idez, uma pessoa infinitamente audaz e destemida.
Sempre achei isso de mim mesmo, mas nunca ousei
afirmá-lo em presença de quem quer que fosse. Cos-
tumo me sentir como se tivesse herdado toda a atit-
ude desafiadora e todas as paixões com as quais nos-
sos ancestrais defenderam seu Templo, como se
pudesse oferecer alegremente minha vida por uma
grande causa.9
37/301

Era algo dessa ordem que o tour de force do Projeto


parecia lhe prometer.
Não foi por acaso, portanto, que o novo desafio
lançou Freud num estado de excitação sem igual. Não
que tudo fossem flores. A correspondência com Fliess
mostra a oscilação quase ciclotímica em seu estado de
ânimo, as dúvidas e reviravoltas que o assaltavam ao
longo da escrita. Ora Freud era tomado por sentimen-
tos de orgulho, alegria e a certeza do sucesso, ora era
abatido pelo desânimo, o descrédito e a percepção de
que não conseguiria chegar aonde queria. Em junho ele
escreve a Fliess dando conta de que sua “construção
psicológica” parecia em via de se tornar realidade. Pou-
co mais adiante, no início de agosto, seu ânimo con-
tinua o mesmo. Ele afirma acreditar “haver penetrado
na compreensão da defesa patológica e, com isso, na de
muitos processos psicológicos importantes”. Duas se-
manas depois, porém, seu estado de espírito é com-
pletamente diferente:

Vi-me confrontado com novas dificuldades, mas sem


que me restasse fôlego suficiente para novos trabal-
hos. Assim, recompondo-me rapidamente, deixei
toda a coisa de lado e venho-me convencendo de que
não estou nem um pouco interessado nela [a Psicolo-
gia] (...). A psicologia é mesmo uma cruz. Jogar
38/301

boliche ou catar cogumelos, pelo menos, são pas-


satempos muito mais agradáveis.10

Depois de alguns meses dedicados à empreitada,


Freud não estava satisfeito com seus resultados inici-
ais. Decide então deixar de lado o que havia feito até
aquele momento, e toma a resolução de encontrar-se
com Fliess, para conversar demoradamente sobre as
ideias que tinha em mente e as dúvidas que cercavam
seu desenvolvimento. No dia 4 de setembro, embarca
para Berlim. O efeito da conversa é imediato e poder-
oso. Fliess se entusiasma com o que ouve e incentiva
fortemente o amigo a ir adiante. Freud fica tão excit-
ado com o resultado da discussão que nem espera
chegar de volta a Viena. Tão logo entra no trem que o
levará para casa, começa a escrever a lápis num
pequeno bloco, e não se detém mais. Nas semanas que
se seguem, escreve sem parar. As ideias fluem como
num jato e são transpostas para o papel praticamente
sem correções, revisões ou acréscimos. Passado apenas
um mês, havia completado dois cadernos, que são en-
viados a Fliess em 8 de outubro. Um terceiro caderno,
sobre a “Psicopatologia do recalque”, que Freud con-
siderava ainda insuficientemente desenvolvido, não
chegou a ser enviado, e acabou se perdendo. São os
dois primeiros que compõem a obra tal como a con-
hecemos hoje.11
39/301

O esforço realizado na escrita dos cadernos foi


imenso. Freud o comparou a uma exaustiva escalada
de montanha na qual um pico atrás do outro lhe
tiravam o fôlego. Mas a dedicação e o empenho pare-
ciam valer a pena. O trabalho com os pacientes no dia a
dia só aumentava a sua confiança de que estava no
caminho certo: “Quase tudo é confirmado diariamente,
novas coisas são acrescentadas, e a certeza de ter nas
mãos o âmago da questão me faz bem.” Seu otimismo
em relação ao resultado a que havia chegado era tanto
que ele chega a experimentar um momento de ver-
dadeira epifania, que descreve numa carta endereçada
a Fliess em 20 de outubro:

Numa noite laboriosa da semana passada, quando eu


estava sofrendo aquele grau de dor que propicia as
condições ótimas para as minhas atividades mentais,
as barreiras ergueram-se subitamente, os véus
caíram e tudo se tornou transparente — desde os de-
talhes das neuroses até os determinantes da con-
sciência. Tudo pareceu encaixar-se, as engrenagens
se entrosaram e tive a impressão de que a coisa pas-
sara a ser de fato uma máquina que logo funcionaria
sozinha. Os três sistemas de n [neurônios]; os esta-
dos livres e ligados de Qn [quantidade]; os processos
primário e secundário; as duas regras biológicas de
atenção e defesa; as características de qualidade,
realidade e pensamento; o estado do grupo
40/301

psicossexual; a determinação sexual do recalque; e,


por fim, os fatores que determinam a consciência
como função da percepção — tudo ficou e continua
correto até hoje! Naturalmente, mal consigo conter
minha alegria.12

O período de encantamento e plena confiança, no


entanto, durou pouco. Duas semanas depois, esgotado
pelo esforço e incapaz de chegar a resultados que lhe
parecessem convincentes, Freud comunica ao amigo:
“Empacotei os manuscritos da psicologia e os atirei
numa gaveta, onde dormirão até 1896.”13 Mais três se-
manas, e todo o entusiasmo havia ficado para trás. Em
29 de novembro ele escreve: “Não entendo mais o es-
tado mental em que imaginei a Psicologia; não consigo
conceber como pude infligi-la a você. (...) para mim
parece ter sido uma espécie de loucura.”14 A partir
desse momento, a febre criativa rapidamente se esvai,
até que Freud entrega os pontos. A seção final do tra-
balho, que tratava da “Psicopatologia do recalque” e
que Freud havia considerado dificílima, ficou retida em
Viena, e tudo indica que jamais chegou a ser concluída.
Freud desistiu de completar esse terceiro caderno, e
nem sequer pediu de volta os dois primeiros. Na ver-
dade, jamais quis voltar a vê-los. No início de 1896,
uma última tentativa de revisão de seu modelo da
mente aparece numa carta a Fliess, e depois disso,
41/301

silêncio. Mesmo quando, em escritos posteriores, se


refere à elaboração teórica desse período como se pre-
nunciasse a metapsicologia explicitada em A inter-
pretação dos sonhos, ele não faz referência alguma ao
texto de 1895. Quando, muitos anos depois, veio saber
por Marie Bonaparte que o Projeto ainda existia, fez de
tudo para que fosse destruído.

Por que Freud abandonou o Projeto?

As razões por que Freud repudiou de maneira tão


radical um trabalho que tanto o havia entusiasmado
não são até hoje inteiramente claras e permitem todo
tipo de especulação. Para Ernest Jones, seu primeiro
biógrafo, Freud sentiu que sua elaboração em torno de
questões centrais do Projeto o havia levado a becos
sem saída teóricos. Assim como outros já haviam
tentado (e fracassado), Freud não havia chegado a uma
compreensão efetiva da natureza da consciência. Além
disso, mesmo durante a escrita do trabalho, a crescente
importância da noção de inconsciente advinda da ex-
perimentação clínica deslocava o centro de gravidade
de suas investigações dinâmicas para uma direção na
qual a linguagem dos neurônios tinha muito pouco a
oferecer. Impulsionado pelos desafios da clínica, Freud
42/301

enveredava cada vez mais pela investigação desses


temas, e a complexidade que apresentavam teria, na
opinião de Jones, tornado impossível a tarefa de
conjugá-los a descrições neurofisiológicas, fazendo do
Projeto — a união da fisicalidade dos neurônios e a in-
tencionalidade dos estados mentais num mesmo
quadro explicativo — uma intenção irrealizável. A
quase ausência, no texto, de referências a investigações
empíricas e a natureza especulativa das descrições
neurológicas do Projeto seriam uma indicação de que a
imaginação teórica e a intuição clínica eram, de fato, os
motores do pensamento de Freud. Segundo Jones,
esses teriam sido os fatores que acabaram por fazê-lo
se afastar da anatomia e dos neurônios para “navegar
pelos perigosos mares do mundo das emoções, onde
tudo era desconhecido e onde o que era invisível era de
muito maior consequência que o pouco que era
visível”.15 Num certo sentido, o Projeto documentaria
um momento de passagem na trajetória intelectual de
Freud, em que o pesquisador empírico e metódico do
laboratório cedia definitivamente lugar ao pensador
imaginativo e criador da clínica.
Para outros, como Mark Solms,16 não foi tanto a in-
fluência da imaginação clínica e os desafios da psicop-
atologia que o afastaram de sua intenção inicial, e sim
a limitação conceitual e tecnológica da neurologia de
sua época. O objetivo que ele perseguia — esclarecer a
43/301

ligação entre o físico e o mental articulando o conheci-


mento adquirido nas pesquisas neurológicas com o que
vinha acumulando por meio da prática clínica — foi se
mostrando utópico pelo simples fato de que suas intu-
ições eram impossíveis de serem testadas, permane-
cendo no nível da pura especulação. Uma psicologia
que se pretendia científica não poderia ser construída
nessas bases. Freud não tinha como assentar sua teoria
do funcionamento neurobiológico da mente em experi-
mentações empíricas. Não pelo fato de que, àquela
época de sua vida, já estivesse afastado dos centros
onde essas experimentações eram realizadas. Mesmo
que tivesse pleno acesso a laboratórios e técnicas, o
problema é que, com os recursos de investigação neur-
ológica à sua disposição, a tarefa teria sido impossível.
A neurologia do fim do século XIX oferecia muito pou-
co a quem se dedicava à construção de uma psicologia
dinâmica. Para se ter uma ideia do terreno conceitual
em que Freud se movia, basta lembrar que a forma de
transmissão de estímulos pelo sistema nervoso e a ex-
istência das sinapses entre neurônios nem sequer
haviam sido estabelecidas em 1895. Mesmo a teoria
neuronal — que estabelecia o neurônio como a estru-
tura anatômica e funcional fundamental do sistema
nervoso — ainda era matéria de disputa.
A ciência do cérebro no último quartel do século
XIX era ainda fortemente dominada pela perspectiva
44/301

localizacionista, que relacionava de maneira demasi-


ado simples e direta áreas cerebrais e funções mentais.
Freud, alinhado à Escola de Helmholtz, que privilegi-
ava a fisiologia sobre a anatomia nos estudos sobre o
funcionamento do sistema nervoso, já havia se oposto
fortemente a essa abordagem; em seu estudo anterior
sobre as afasias, posicionou-se em favor de uma abord-
agem funcional e dinâmica do sistema nervoso, o que
lhe permitiu revolucionar o entendimento dessa pato-
logia. Com isso, avançou muito na formulação de
hipóteses sobre a relação entre certos processos psíqui-
cos e suas possíveis bases fisiológicas, mas não pôde
seguir até o ponto de confirmá-las empiricamente.
Quando Freud se convenceu de que precisaria per-
manecer no terreno da especulação teórica e da obser-
vação clínica, e que para o estudo das formações incon-
scientes e da psicopatologia o recurso aos relatos
verbais dos pacientes e à linguagem da psicologia seria
mais promissor do que as descrições objetivas da neur-
ologia, a mudança de rumo teria se tornado inevitável.
Apesar de manter sua convicção de que um dia seria
possível estabelecer descrições do mental que articu-
lassem o psíquico e o neural, Freud resolveu deixar a
tarefa para futuras gerações e enveredar num caminho
sem volta, privilegiando de forma metódica as
descrições psicológicas da vida subjetiva. Numa carta a
Fliess datada de 22 de setembro de 1898, a meio
45/301

caminho entre o Projeto e A interpretação dos sonhos,


ele descreve, num tom que não chega a ser muito
entusiasmado, as razões de sua escolha:

Não tenho a menor inclinação a deixar a psicologia


suspensa no ar, sem uma base orgânica. No entanto,
à parte essa convicção, não sei como prosseguir nem
teórica, nem terapeuticamente, de modo que preciso
comportar-me como se apenas o psicológico estivesse
em exame. Por que não consigo encaixá-los [o or-
gânico e o psicológico] é algo que nem sequer come-
cei a imaginar.17

Para Solms, trechos como esse nos permitiriam con-


cluir que Freud não teria, afinal, rejeitado a intenção
central do Projeto, e sim reconhecido que, no horizonte
restrito de seu tempo, não existiam as condições para
que pudesse ser realizada. Como veremos mais à
frente, para alguns esse tempo chegou, e a tarefa da
psicanálise seria atuar de forma integrada às neuro-
ciências para enfim realizar o intento de Freud. Para
outros, a despeito do interesse que possam ter as
descobertas neurobiológicas sobre a vida mental, o que
a psicanálise veio a demonstrar é justamente a im-
possibilidade de elucidar a experiência psíquica recor-
rendo aos componentes anatômicos e fisiológicos, físi-
cos e químicos que a tornam possível.
46/301

Há ainda quem busque outras chaves de explicação


para a atitude de Freud. Karl Pribam,18 neurocientista
e admirador do texto de 1895, vê razões mais prosa-
icas. Ele lembra que, no momento em que escrevia o
Projeto, Freud acalentava a intenção de conseguir um
posto de docente na Universidade de Viena. Sigmund
Exner, ex-professor a quem Freud muito admirava e
com quem trabalhara no Laboratório de Fisiologia de
Brücke anos antes, teve a mesma ideia. Ambos tinham
interesses comuns e ideias muito próximas. Exner tra-
balhava então numa teoria da mente em muitos aspec-
tos similar à que Freud estava formulando, e acabou
tomando a dianteira ao publicar, em 1884, um livro in-
titulado Projeto de uma explicação fisiológica dos
fenômenos psíquicos, cuja intenção, como o próprio
nome indica, era a mesma de Freud. Os dois compartil-
havam uma série de ideias: um modelo neuronal da
mente regulado pelas expressões fisiológicas do princí-
pio do prazer-desprazer; a postulação de uma facilit-
ação da passagem de energia em trajetórias neurais
previamente utilizadas; a noção central de ocupação de
um neurônio por parte de uma quantidade de energia;
a hipótese de limiares de descarga operando na comu-
nicação entre neurônios; a ideia de instinto bastante
próxima à noção de pulsão freudiana etc.
Com a publicação do trabalho de Exner, restava a
Freud mostrar que seria capaz de ir mais longe com o
47/301

seu Projeto do que Exner tinha ido. Ao contrário de


Exner, porém, ele já estava afastado da vida de labor-
atório fazia tempo. Fora impelido a fazê-lo 13 anos
antes, aconselhado pelo próprio Brücke, que, apesar de
reconhecer o talento de Freud, não via grandes chances
de que ele fosse incorporado definitivamente como
pesquisador em seu laboratório. Premido pelas di-
ficuldades financeiras e dilacerado entre a paixão pela
investigação científica e o desejo de se casar com
Martha, Freud optou por tomar o rumo mais seguro da
clínica. Jamais voltaria à vida de laboratório, o que o
teria deixado, na opinião de Pribam, numa posição
desfavorável.
A conquista, por Exner, do posto pelo qual ambos
estavam competindo teria diluído ainda mais o ímpeto
inicial de Freud. Impossibilitado de retornar à
pesquisa empírica, atropelado pela publicação do livro
de Exner, pressionado pelo trabalho com os pacientes e
pelos problemas teóricos não resolvidos da psicopato-
logia, Freud teria feito uma opção pragmática:
restringir-se ao que podia ser feito no campo onde po-
deria perseguir uma construção própria, original — o
âmbito das descrições intencionais e do vocabulário
psicológico. A leitura que Pribam faz é curiosa porque
nela são questões contextuais, e não problemas de or-
dem teórica ou conceitual, que teriam afastado Freud
do seu escrito. Não por acaso, Pribam se destaca entre
48/301

os leitores do Projeto por ser um dos que sustentam a


validade das intuições neurológicas de Freud, contrari-
ando os que veem nelas pouco mais do que construtos
psicológicos projetados no sistema nervoso. Sua tese,
porém, é bastante discutível, já que o livro de Exner foi
publicado ainda em 1884, e a primeira menção que
temos de Freud sobre o Projeto é feita somente em ab-
ril do ano seguinte. Mais provável é que Ernest Jones
tenha razão quando afirma que Freud teria sido in-
spirado e estimulado pelo livro de Exner, e não desmo-
tivado por ele.
Na realidade, nem todos os leitores do Projeto con-
cordam com a tese de que Freud simplesmente o aban-
donou por completo. Contestando essa visão, Frank
Sulloway sugere que o problema está não na resposta,
e sim na própria questão, e que, em vez de nos pergun-
tarmos por que Freud teria abandonado o Projeto, ser-
ia mais útil investigar que parte do Projeto teria sido
deixado de lado e o que teria permanecido nas elabor-
ações teóricas e clínicas que se seguiram a ele. Para
Sulloway, a leitura que se faz do Projeto incorre em
pelo menos dois equívocos: primeiro, o de vê-lo como
um escrito fundamentalmente neurológico; segundo, o
de tomá-lo como um documento acabado, deixando de
lado o fato de que a última seção do escrito, o terceiro
caderno retido em Viena, jamais veio à luz.
49/301

Na verdade, Sulloway insiste, o Projeto é ao mesmo


tempo um documento neurológico e psicológico, es-
crito num estilo em que transparece uma inspiração
dualista fundamental, evidenciada pela natureza hi-
potética de muitos construtos neurofisiológicos.
Apesar da intenção fisicalista e do vocabulário neuroló-
gico explícito, e do acerto de Freud em muitas de suas
descrições neurológicas, boa parte das elaborações
contidas no texto se refere, na realidade, a uma dinâm-
ica psicológica, intencional, e não a processos pura-
mente físicos, quantitativos.19
Mas, para ele, a chave para o entendimento da de-
sistência de Freud é a seção inacabada. Sulloway cita
passagens da correspondência de Freud para sublinhar
a importância decisiva que a última seção, sobre a “Psi-
copatologia do recalque”, tinha para a obra como um
todo. Para Sulloway, ela era a peça fundamental de seu
esquema, a verdadeira razão de ser do seu empreendi-
mento. A dificuldade que Freud enfrentou na abord-
agem do tema teria sido a razão principal de sua de-
cepção final com o Projeto. Na realidade, esse em-
baraço teórico já o assombrava ainda em suas primeir-
as incursões no assunto, mesmo antes de começar a es-
crever os cadernos. Na mencionada carta de 16 de
agosto, bem antes portanto de ir a Berlim conversar
com o amigo Fliess, Freud já havia comentado sobre
suas incursões iniciais: “Tudo que eu estava tentando
50/301

explicar era a defesa, mas tive que abrir caminho


palmo a palmo através do problema da qualidade, do
sono e da memória — em suma, a psicologia inteira.
Agora, não quero mais ouvir falar nisso.”20
Estimulado pela conversa de setembro com o amigo
berlinense, Freud retomou o trabalho de maneira
entusiasmada e começou a escrever os capítulos que
conhecemos. Mas, no mesmo dia em que os enviou a
Fliess, deixou claro que a chave de todo o trabalho era
a seção inacabada:

Estou guardando um terceiro caderno, que trata da


psicopatologia do recalque (...). Tive que trabalhar
outra vez nos novos rascunhos e, nesse processo,
fiquei alternadamente orgulhoso e exultante e enver-
gonhado e abatido — até que agora, depois de um ex-
cesso de tortura mental, digo a mim mesmo com apa-
tia: ainda não está e talvez nunca fique coerente. O
que ainda não está coerente não é o mecanismo —
posso ser paciente quanto a isso —, mas a elucidação
[mecânica] do recalque — cujo conhecimento clínico
fez grandes progressos em outros aspectos (...) Não
tenho tido sucesso na elucidação mecânica; ao con-
trário, estou inclinado a ouvir a voz silenciosa que me
diz que minhas explicações não são suficientes.21

Para Sulloway, os motivos que levaram Freud a es-


crever o Projeto incluíam, além dos dois ambiciosos
51/301

propósitos anunciados a Fliess (descrever o funciona-


mento mental em termos mecânico-fisiológicos, e su-
perar o hiato conceitual entre o funcionamento mental
normal e o patológico), mais um objetivo fundamental:
encontrar uma solução neurofisiológica para o enigma
da defesa patológica, o recalque — um problema-chave
para a elaboração de sua teoria do psiquismo.22 Nos
dois primeiros casos ele teria tido sucesso, mesmo que
não do modo como previa inicialmente. Em vários mo-
mentos, ao esbarrar na dificuldade de reduzir a pro-
priedades mecânicas aspectos do funcionamento men-
tal como o pensamento antecipatório e a intencionalid-
ade, Freud acabou deslizando para outro tipo de abor-
dagem biológica, de natureza mais organísmica ou
evolutiva do que fisiológico-mecânica, tendo como
centro a relação do organismo com o ambiente em res-
posta às injunções da vida — movimento em direção a
uma concepção mais ecologicamente fundada que
marcou profundamente o desenvolvimento posterior
de seu pensamento. O terceiro objetivo, porém, per-
maneceu inalcançado, e isto é o que teria definido o
destino dos escritos.

O Projeto na história da psicanálise: Ruptura ou


continuidade?
52/301

Afinal, que lugar ocupa o Projeto na história da


psicanálise? O modelo do funcionamento mental ap-
resentado no Projeto deve ser visto como uma fantasia
neurológica, um último tributo à tradição fisicalista em
que Freud se formou, e que ficou para trás com A in-
terpretação dos sonhos? Ou, ao contrário, deve ser en-
carado como uma peça em que aparecem elementos da
abordagem metapsicológica que — despida do vocab-
ulário neurológico — iria reaparecer nas descrições
psicológicas do escrito de 1900 e de muitas outras
obras posteriores? À luz dos desenvolvimentos da teor-
ia psicanalítica pós-freudiana e das descobertas recen-
tes da biologia da mente, que relevância tem para o fu-
turo da psicanálise a pretensão contida no Projeto de
desvendar os mecanismos neurobiológicos subjacentes
aos estados e eventos psíquicos e articulá-los com
descrições intencionais e psicológicas?
O testemunho de Freud não ajuda muito. Primeiro,
porque a única pessoa com quem ele chegou a discutir
diretamente suas opiniões acerca do Projeto foi Fliess,
e, tirando o que ficou registrado nas cartas de Freud,
nada sabemos da conversa entre os dois. Segundo,
porque a sua própria avaliação era, como vimos,
bastante inconstante, oscilando entre o orgulho incon-
tido e a decepção fulminante com os resultados do tra-
balho, ora descrevendo o Projeto como uma de suas
maiores realizações intelectuais, ora o desprezando
53/301

como a expressão de uma loucura passageira. Referên-


cias indiretas ou alusivas feitas por Freud posterior-
mente, no entanto, deixam entrever que, apesar da
frustração com o ambicioso projeto que havia formu-
lado, ele reconhecia a importância duradoura dessa
empreitada na sua obra posterior. Não só porque algu-
mas das premissas permaneceram em seu espírito,
mas porque muitas das ideias nele formuladas foram
incorporadas à sua visão do psiquismo, e vieram a
fazer parte do edifício psicanalítico.
Como já dissemos, a publicação do manuscrito em
1950 pegou a comunidade psicanalítica de surpresa.
Repentinamente, um capítulo desconhecido da história
da psicanálise vinha à luz, 55 anos depois de escrito, 50
anos depois da publicação de A interpretação dos son-
hos. A obra não trazia grandes acréscimos à teoria
freudiana, mas sua natureza controversa revelava uma
aproximação inesperada entre o Freud neurólogo e o
Freud psicólogo. Em meio a neurônios, fluxos de ener-
gia, barreiras de contato etc., estavam presentes certos
conceitos e noções que viriam a aparecer nos escritos
psicanalíticos posteriores, como a diferença funda-
mental entre processos primário e secundário, os
princípios de prazer e de constância, o teste de realid-
ade, os mecanismos da regressão, o conceito de ocu-
pação, ou investimento (catexia), a diferença entre os
54/301

sistemas de percepção e de memória, a teoria do sonho


como realização de desejo.
De maneira geral, o lugar atribuído ao Projeto na
história da psicanálise depende da perspectiva de
leitura que se adote. Pode-se ler a obra acentuando
suas diferenças em relação à produção freudiana pos-
terior, ou examiná-la encontrando pontes e ligações
entre o que encontramos nela e o que Freud escreveu
depois. Os que adotam uma perspectiva descontinuísta
veem o Projeto como a derradeira tentativa de Freud
de formular uma teoria da vida psíquica fundada num
modelo biológico, em sintonia com a tradição neuroló-
gica e fisicalista na qual fora treinado por tantos anos.
Dessa perspectiva, A interpretação dos sonhos surge
como um corte em relação a ele e aos trabalhos anteri-
ores de Freud, inaugurando uma nova teoria do
aparelho psíquico, um novo modo de investigação da
vida mental e consolidando um dispositivo clínico ori-
ginal. Para esses, o abandono do Projeto por Freud é o
gesto que marca tal ruptura. Deixando de lado
neurônios, quantidades, investimentos e deslocamen-
tos de energia, que emprestavam uma aura de empir-
ismo biológico ao seu modelo de funcionamento men-
tal, Freud teria se voltado para a vida cotidiana, os son-
hos, a fantasia, a imaginação, cujos mistérios o de-
safiavam crescentemente na clínica, terreno onde o
conhecimento propriamente psicanalítico poderia
55/301

vicejar. Como disse Peter Gay, no fim do século Freud


“estava à beira, não de uma psicologia para neurologis-
tas, mas de uma psicologia para psicólogos”.23 Por esse
ângulo, é somente com A interpretação dos sonhos
que os conceitos fundamentais do novo campo de con-
hecimento se fundam e se articulam de maneira a
sustentar sua independência e autonomia. Ao Projeto
caberia apenas um modesto lugar entre os escritos pré-
psicanalíticos de Freud.
Uma leitura que busque ressaltar as linhas de con-
tinuidade em relação ao que o antecede e o sucede
joga, porém, outra luz sobre o escrito inacabado.
James Strachey, na introdução para a Standard Edi-
tion, a versão inglesa das obras completas de Freud,
escreve que, apesar de ele ser um documento manifest-
amente neurológico, contém em si o núcleo de grande
parte das teorias psicológicas que Freud desenvolveria
mais tarde. Para Strachey, o Projeto, ou, melhor, seu
espírito invisível, paira sobre toda a série de obras
teóricas de Freud até o fim.24 Alguns chegam a afirmar
que só na aparência o Projeto poderia ser compreen-
dido como um trabalho neurológico, porque, apesar do
vocabulário e da intenção de representar o mental em
termos neurais, vários elementos propostos no modelo
neuroanatômico apresentado por Freud são, na ver-
dade, estruturas hipotéticas, que tiveram sua origem
em especulações inspiradas pela experiência clínica, e
56/301

não em descobertas da neurobiologia de então. Octave


Manonni chegou a chamá-lo de “manual de neurologia
fantástica”.25 Por esse ângulo, o verdadeiro trabalho
em curso no escrito seria de natureza essencialmente
psicológica, o que o situa numa linha de continuidade
tanto com os escritos clínicos anteriores quanto com os
posteriores a ele.
Essa chave de leitura é reforçada por algumas in-
dicações históricas. Em 13 de fevereiro de 1896, numa
das últimas menções ao trabalho, Freud diz a Fliess
que havia revisado o Projeto e que teria passado a
chamá-lo de “metapsicologia”. Vinte anos depois,
quando em 1914 escreve o artigo “A história do movi-
mento psicanalítico”, o mesmo Freud afirma que A in-
terpretação dos sonhos, embora publicada em 1900,
“já estava concluída em sua essência no início de
1896”. Esses dados parecem dar razão aos que enten-
dem que em A interpretação dos sonhos se podem en-
contrar não só um modelo do psiquismo bastante sim-
ilar ao do Projeto, como um grande número de ideias
fundamentais nele apresentadas. Na realidade, podem-
se notar várias afinidades entre os dois trabalhos. Uma
delas está na convicção de que uma ciência do
psiquismo exigiria — para além de uma abordagem
psicológica que descreveria as manifestações vividas da
experiência subjetiva e buscaria compreender o sen-
tido que teriam para o sujeito — a construção de um
57/301

modelo descritivo fundado em entidades e processos


não observáveis postulados para explicar as causas
dessas manifestações. Dessa perspectiva, o que houve
entre 1895 e 1900, com o abandono da psicologia
fundada na fisiologia e a adoção do vocabulário metap-
sicológico, foi a passagem de uma abordagem causal
para outra, a primeira tentando explicar o funciona-
mento do psiquismo com base em conceitos infrap-
sicológicos, a segunda com base em conceitos suprap-
sicológicos, por assim dizer. Em ambos os cenários
vemos o desenvolvimento de descrições de mecanis-
mos, fluxos, investimentos, bloqueios, descargas tent-
ando encontrar um solo explicativo causal, fundado em
relações mecanísticas de força, mais poderoso que o
campo das razões e motivos descritos
psicologicamente.
Como se pode ver, a querela em torno do lugar do
Projeto na história da psicanálise depende do ângulo
sob o qual o manuscrito é examinado. Qual o seu signi-
ficado, e como se dá sua influência na obra posterior de
Freud? Para uns, Freud jamais abandonou a inspiração
naturalista inscrita no Projeto. O vocabulário psicoló-
gico que dominou sua teorização a partir de então rep-
resentaria, na verdade, um processo de metaforização
do projeto inicial. Incapaz de fundamentar suas
hipóteses naturalistas, Freud teria partido para a con-
strução de uma linguagem metafórica, psicológica,
58/301

para falar de processos de cuja origem e natureza bio-


lógica ele jamais teria duvidado. Para outros, é o con-
trário: em 1895, as noções de inconsciente, conflito,
resistência e defesa demonstram que os processos in-
tencionais e a busca de significação já dominavam o es-
pírito de Freud e o conduziam à elaboração de um
modelo psicológico da histeria e da vida psíquica. O
uso de termos e expressões fisicalistas e biológicas seri-
am, então, um tributo à atmosfera e aos ideais científi-
cos da época. O caráter especulativo de muitas de suas
formulações neurológicas seria, então, a evidência de
que Freud fazia um uso metafórico de termos fisicalis-
tas para tratar do que eram, na verdade, experiências
psicológicas cujo léxico ainda estava por ser con-
struído.26

Um texto caleidoscópico

Na verdade, pode-se dizer que o Projeto é uma es-


pécie de texto caleidoscópico, um mosaico móvel cuja
configuração se modifica conforme a leitura, que pode
acentuar certos aspectos em detrimento de outros. Ele
não é exatamente um trabalho de natureza neuroló-
gica, tampouco se trata apenas de uma projeção de
conceitos psicológicos travestidos numa linguagem dos
59/301

nervos. Ele mistura em seu interior uma linguagem in-


tencional e outra causal. A concepção geral que o ori-
enta se insere no amplo movimento que no fim do
século XIX havia tornado o mecanicismo a visão dom-
inante no mundo intelectual. Prolongamento da re-
volução promovida na ciência por Copérnico, Galileu e
Newton, o mecanicismo se baseava na ideia de que to-
dos os fenômenos no universo poderiam ser explicados
em termos de leis mecânicas, ou seja, em termos das
leis naturais que regem o movimento das partículas e
dos corpos — recusando por completo a visão aris-
totélica do universo como um cosmos, uma totalidade
orgânica fechada na qual cada ente se moveria na
direção de realizar sua finalidade.
O paradigma mecanicista se tornou a base de todo
conhecimento científico e logo foi incorporado aos
estudos sobre a vida psíquica. O entendimento de que
o cérebro era o órgão da mente e que estados mentais
resultavam de estados fisiológicos que poderiam ser
descritos em termos do movimento de suas partículas
componentes rapidamente ganhou a força de um ax-
ioma. O grande desafio da época era determinar o
modo como esses processos se articulavam. Freud não
tinha como evitá-lo, e já havia lidado com o problema
em vários trabalhos publicados antes de 1895 que li-
davam com a psicopatologia. Um exemplo pode ser en-
contrado num de seus primeiros escritos sobre
60/301

psicopatologia, o verbete sobre histeria, escrito em


1888. De um lado, a patologia é descrita em termos
fisiológicos:

A histeria baseia-se total e completamente em modi-


ficações fisiológicas do sistema nervoso e caberia ex-
pressar sua essência através de uma fórmula que
levasse em conta as relações de excitabilidade das
diferentes partes do sistema nervoso. Uma fórmula
fisiopatológica desse tipo, no entanto, ainda não foi
descoberta; por enquanto, devemo-nos contentar em
definir a neurose de um modo puramente noso-
gráfico, pela totalidade dos sintomas que ela ap-
resenta (...).27

De outro, ao falar do tratamento, Freud abandona o


vocabulário neurológico e fala das causas psíquicas
subjacentes aos sintomas: “O tratamento direto con-
siste na remoção das causas psíquicas que estimulam
os sintomas, e isto se torna compreensível se buscar-
mos as causas da histeria na vida ideativa incon-
sciente.” E mais adiante: “O efeito [do tratamento] se
torna ainda maior se (...) fizermos o paciente, sob
hipnose, remontar à pré-história psíquica da doença, e
o compelirmos a reconhecer a ocorrência psíquica em
que se originou o referido distúrbio.”28
61/301

Nos anos que se seguem, Freud começa a elaborar


sua teoria das neuroses de defesa. Ao mesmo tempo
que vai elaborando uma descrição da dinâmica psicoló-
gica presente no surgimento dos sintomas, vai se con-
solidando também em seu espírito a convicção de que
uma teoria ideogênica da histeria, da fobia, das ob-
sessões, das alucinações deveria ter em conta a
hipótese acerca da existência, nas funções mentais, de
algo como uma cota de afeto ou soma de excitação com
capacidade de aumento, deslocamento e descarga,
semelhante à eletricidade, para explicar o surgimento e
o desaparecimento dos sintomas. “Chegamos, assim,
também a uma definição de trauma psíquico, que pode
ser empregada na teoria da histeria: transforma-se em
trauma psíquico toda impressão que o sistema
nervoso tem dificuldades em abolir por meio do
pensar associativo ou da reação motora.”29
Avançar na descoberta das fórmulas que permitis-
sem a integração dessas duas dimensões (o físico e o
mental) era a intenção de Freud ao esboçar uma psico-
logia científica. Tarefa que se mostrou difícil na me-
dida em que, ao sair do laboratório e se embrenhar nos
labirintos da alma humana e da psicopatologia, se viu
cada vez mais instado a conceder um lugar de direito
ao plano da intencionalidade na descrição e explicação
dos fatos psíquicos. Sua psicologia científica precisava
dar conta de articular, numa mesma descrição,
62/301

explicações intencionais, que se ligam a motivos e


razões, e explicações mecânicas, com base em causas
físicas. Esse era seu objetivo principal, que afinal não
conseguiu realizar. O caráter controverso do Projeto se
deve em grande parte a isso. Freud aposta em mais de
uma direção com os elementos que tem em mãos, util-
izando o conhecimento e a especulação. Inevitavel-
mente se arrisca, com resultados desiguais. Se por um
lado avança na introdução de conceitos desconhecidos
pela psicologia de então, e que lhe servirão de base
para a construção da teoria psicanalítica, por outro
tateia na exploração de descrições neurológicas que
não tinha como aferir.
O próprio terreno biológico no qual Freud constrói
suas hipóteses é complexo. Segundo Sulloway,30 o sis-
tema psicobiológico vislumbrado no Projeto contém
não apenas um, mas dois modelos biológicos distintos
— um neurofisiológico ou “mecanístico”, como Freud
às vezes o chamava, e outro mais organísmico, evol-
utivo ou “biológico”. Sempre que encontra dificuldades
de explicar no texto certos fenômenos psicológicos em
termos puramente mecânicos, Freud recorre a uma ar-
gumentação orgânica, filogenética, oscilando assim
entre uma concepção fisicalista reducionista e outra
fundada na apreciação da dinâmica vital do organismo
biológico.
63/301

Desse modo podemos perceber a existência de dois


níveis de redução metodológica em ação no texto do
Projeto. Um diz respeito à redução dos fenômenos
psíquicos às suas bases orgânicas; outro se refere à re-
dução dessas bases biológicas aos componentes físicos
e químicos dos quais dependem para existir. Há uma
importantíssima diferença entre os dois. Freud escreve
que “os neurônios devem ser tomados como partículas
materiais”, e afirma também que “o que distingue a
atividade do repouso deve ser percebida como Q,
sujeita a leis gerais do movimento”. Ora, a linguagem
das partículas materiais permitiria, em tese, uma abor-
dagem quantitativa e “livre de contradições”, como
queria Freud em sua inspiração newtoniana, mas a an-
álise dos processos vitais realizados por células e te-
cidos de um organismo vivo exige abordagens qualit-
ativas que possam dar conta da relação dinâmica e
normativa do organismo com o meio, e que permitam
compreender as estratégias desenvolvidas por cada in-
divíduo para enfrentar “as exigências da vida”. Nesse
plano de análise, descrições mecânicas sempre revelam
os seus limites, e essa é uma das razões do embaraço
do Projeto em tratar das questões ligadas à psicopato-
logia nos termos de sua petição inicial.
Freud não deixa de perceber esse fato, mas não con-
segue resolver a equação. O Projeto, tentando dar con-
ta ao mesmo tempo da quantidade e da qualidade na
64/301

descrição dos processos psíquicos, ora se inclina para


um lado, ora para outro, sem alcançar de todo seu in-
tento: o de trazer o universo aparentemente obscuro e
insondável da subjetividade para o campo dos fenô-
menos naturais descritos “como estados quantitativa-
mente determinados de partículas especificáveis” — na
visão mecanicista da época, a única maneira de dar-
lhes uma explicação científica. Para um pesquisador
como Freud, adotar uma abordagem científica dos fa-
tos mentais era uma questão de princípio, a única
forma de produzir conhecimento efetivo.
Freud por certo se dava conta do caráter desigual
dos seus resultados, e isso se expressa na ambivalência
que desenvolve em relação ao Projeto. Apesar da re-
jeição explícita ao material escrito que chegou a
produzir, Freud continuou trabalhando em boa parte
das ideias ali contidas por um bom tempo e, apesar de
havê-lo deixado de lado, não deserdou seu objetivo
geral inicial. Na verdade, a pretensão de integrar a
psicologia ao campo da biologia e da neurologia jamais
abandonou o espírito de Freud. Para ele, a vida
psíquica emergia do corpo; era, por assim dizer, uma
forma de expressão do corpo agindo no mundo da
vida. A questão sempre foi, como é até hoje, como
compreender o que significa exatamente essa integ-
ração nos planos epistemológico, teórico e clínico.
65/301

Logo no início da Interpretação dos sonhos, encon-


tramos uma passagem muito conhecida em que Freud
afirma que deixará de lado o fato de que o aparelho
mental é também conhecido na sua versão anatômica
(o cérebro), para permanecer estritamente no campo
psicológico, “evitando cuidadosamente” a tentação de
determinar a localização cerebral de eventos e pro-
cessos psicológicos. Muitos tendem a ver nesse trecho
a intenção de afirmar a incompatibilidade entre
descrições psicanalíticas e biológicas da vida psíquica,
e um atestado de que as pretensões contidas na aber-
tura do Projeto foram abandonadas de vez em 1900.
Mas passagens como essa são, na verdade, de-
clarações de intenção que circunscrevem o âmbito no
qual a elaboração propriamente psicanalítica se desen-
volverá. Freud indica que operará uma espécie de re-
dução metodológica, utilizando o vocabulário psicoló-
gico para descrever e analisar a experiência subjetiva,
sem com isso negar suas bases biológicas — a serem
pesquisadas e descritas com instrumentos e linguagem
adequadas a esse fim, e que não estavam disponíveis à
época. Frases como essas indicam a perspectiva teórica
e a estratégia discursiva por meio das quais ele descre-
verá os fenômenos estudados. Mas não indicam uma
posição teórica em princípio refratária à elucidação do
imbricamento entre as esferas do psíquico e do
somático por meio de alguma articulação futura entre
66/301

descrições psicanalíticas e descrições neurobiológicas.


O problema, desde o Projeto até hoje, está em: a)
definir como esse imbricamento efetivamente se dá, ou
seja, como do tecido vivo emerge a complexidade da
experiência psíquica; b) determinar que força
heurística essa abordagem pode oferecer na elucidação
da experiência subjetiva humana — em outras palav-
ras, que importância a compreensão das bases bioló-
gicas necessárias à vida psíquica pode ter para a com-
preensão da sua dimensão propriamente simbólica.
Ao longo da vida, em muitas ocasiões Freud deixou
claras suas expectativas quanto à aproximação entre
biologia e psicologia mais profunda, que ele tentou
mas não logrou alcançar. Entre as citações que se torn-
aram amplamente conhecidas por tratarem desse
ponto, duas se destacam. A primeira se encontra no
texto “Sobre o narcisismo”, de 1914, em que ele diz:
“Devemos nos recordar que nossas ideias provisórias
na psicologia serão provavelmente um dia baseadas em
uma subestrutura orgânica.” A segunda está no texto
de 1920, Além do princípio do prazer, em que Freud
afirma: “As deficiências de nossa descrição provavel-
mente desapareceriam se já estivéssemos em con-
dições de substituir os termos psicológicos por outros
fisiológicos ou químicos.” Nesse trecho, parecendo dar
razão ao comentário de Strachey acerca da influência
do “espírito do Projeto” em toda a sua obra, ele chega a
67/301

conjecturar que a fisiologia ou a química poderiam um


dia simplesmente “varrer toda a nossa estrutura artifi-
cial de hipóteses”.
Note-se, porém, uma diferença importante entre
esses dois textos, que pode ser resumida no contraste
entre os termos usados nas frases: “baseadas em uma
subestrutura orgânica” e “substituir os termos psicoló-
gicos por outros fisiológicos ou químicos” (grifos
meus). A primeira contém uma premissa ontológica: o
psicológico não está “suspenso no ar”, e sim baseado
nas estruturas e no funcionamento dinâmico do organ-
ismo em seu ambiente vital. Trata-se de uma tese nat-
uralista básica, que insere o psiquismo e a vida do es-
pírito no âmbito da natureza, e não fora dela. A se-
gunda, porém, avança uma aposta epistemológica mais
radical: para “superarmos as deficiências de nossas
descrições”, e conhecermos efetivamente a vida sub-
jetiva, precisaremos algum dia abandonar “os termos
psicológicos” e as “hipóteses artificiais da psicanálise”
em prol de uma linguagem fundada na fisiologia e na
química. O naturalismo de Freud parece aí se direcion-
ar para sua vertente mais radical, o eliminativismo. Já
não se trata apenas de descrever estados mentais ou
experiências subjetivas em termos dos componentes
anatômicos e fisiológicos, físicos e químicos, em
presença durante sua ocorrência, mas de supor que o
conhecimento acerca da complexidade da experiência
68/301

subjetiva pode ser alcançado por meio de descrições


fisicalistas. A discussão que faremos sobre as relações
entre psicanálise e neurociências na atualidade retorn-
ará a esse ponto.

A relevância atual

Na biografia de Freud escrita por Peter Gay, este


autor observa que o Projeto foi, “com muita justiça”,
qualificado de newtoniano, no sentido de que Freud
pretendeu submeter o funcionamento da mente às leis
do movimento e da física, tal como outros haviam
tentado desde o século XVIII. Para isso procurou
elaborar uma teoria passível de comprovação empírica.
Assim como ocorrera com Newton, Freud não hesitou
diante da dificuldade de atingir esse objetivo. Newton
admitira francamente que a natureza da gravidade
continuava a ser um mistério, mesmo depois que se
tornou possível reconhecer sua existência e medir sua
ação sobre os objetos. Do mesmo modo, Freud não re-
cuou diante do desconhecimento acerca da natureza
complexa do cérebro e dos neurônios, e insistiu em for-
mular hipóteses que descrevessem a vida psíquica e
sua inscrição neural. O fato de finalmente admitir não
69/301

ter condições de comprová-las não o demoveu da con-


vicção de que um dia isso se tornaria possível.
Como quer que seja, a leitura do Projeto deixa claro
que muitas das ideias psicológicas ali contidas per-
maneceram no espírito de Freud e continuaram a ser
elaboradas ao longo de sua vasta obra, de modo que o
legado de suas incursões psicológicas é fácil de ser
demonstrado. O que dizer então do legado das
hipóteses neurológicas do Projeto? Podem ainda
conter algum interesse para o leitor atual? De novo as
opiniões divergem. Há os que consideram que as con-
jecturas do Projeto nada tinham de científico e que não
passavam de um exercício de pura imaginação. A única
contribuição do “modelo científico” para a psicologia
teria sido seu efeito estimulante sobre o espírito de
Freud. Outros consideram que o grande trabalho
neuropsicológico de Freud não é o Projeto, e sim o
artigo sobre afasias, escrito em 1891, no qual critica as
concepções localizacionistas do fenômeno e desenvolve
uma descrição funcional e dinâmica do psiquismo. A
maior parte dos leitores atuais reconhece que as teses
biológicas do Projeto derivam mais da especulação que
da observação empírica do funcionamento do sistema
nervoso. Freud teria avançado mais num programa de
investigação do que num relato de descobertas, e assim
devia ser lido em sua dimensão neurobiológica.
70/301

Na contramão das opiniões majoritárias, entretanto,


há quem sustente a relevância propriamente neurop-
sicológica do Projeto. Karl Pribam, por exemplo, além
de descrevê-lo como “a pedra de Roseta do vocabulário
da psicanálise”, insiste na importância de várias con-
cepções biológicas nele contidas, como a adoção da
“teoria neuronal”, ainda polêmica à época, a noção de
“barreira de contato”, que prenunciou a descoberta das
sinapses entre os neurônios (descrita por Sherrington
algum tempo depois), a formulação de mecanismos
neurais de regulação emocional na base do cérebro, o
conceito de Bahnung (o processo de facilitação entre
neurônios), o estabelecimento da relação entre geração
de desprazer e secreção na corrente sanguínea de uma
substância como a adrenalina (que só foi isolada em
1899), e assim por diante.
Seja como for, é impossível para o leitor atual ler o
Projeto sem ter em mente a reviravolta produzida nas
relações entre a biologia e as ciências humanas, nas
duas últimas décadas, provocadas pelo surgimento de
sofisticadas tecnologias de visualização cerebral, em
especial as técnicas de imageamento funcional, que
permitem o estudo do cérebro “em ação”. É preciso
lembrar que, de todos os órgãos corporais, o cérebro
foi o último a se tornar visível pelos instrumentos de
investigação clínica e empírica. Com o aparecimento
das imagens produzidas pela tomografia por emissão
71/301

de prótons e pela ressonância magnética funcional


(PET-scan e fMRI, nas siglas em inglês), abriu-se um
imenso campo de investigação acerca das bases bioló-
gicas da vida subjetiva. O impacto provocado pelas
novas tecnologias atingiu todo o campo das atividades
humanas. A biologia ultrapassou a fronteira que a
situava em um campo interno às ciências da natureza,
tomando a seu encargo o estudo de objetos e prob-
lemáticas anteriormente tidos como exclusivos das
ciências humanas. Indo muito além da exploração de
funções mentais como percepção, memória, atenção, a
pesquisa biológica tomou para si a investigação das
bases neurobiológicas de praticamente todo o espectro
de fenômenos e experiências da vida psicológica e so-
cial, incluindo experiências religiosas, livre-arbítrio,
decisões econômicas, modalidades de cognição, escol-
has estéticas, decisões morais, apaixonamento amor-
oso, comportamento violento, processos de aprendiza-
gem etc. Campos novos e complexos se constituem a
partir desse novo horizonte de investigação, como
neuroteologia, neurofilosofia, neuroeconomia, neur-
oeducação, neuroestética, neuropolítica, neuroética,
neurociência social e assim por diante. Se, de um lado,
são inegáveis os avanços no plano do conhecimento
acerca do cérebro e sua relação com a vida mental e o
ambiente cultural, por outro vêm se acumulando in-
úmeras questões de natureza epistemológica,
72/301

metodológica, política e cultural que é preciso levar em


conta quando se analisa o impacto desse amplo movi-
mento científico de naturalização da mente — que, por
sua vez, subjaz ao movimento social que resulta no que
vem sendo chamado de neurocultura, ou cultura do
sujeito cerebral31 — sobre o entendimento do que se-
jam o sujeito e sua experiência.
Como se esperava, esse fenômeno iria atingir a psic-
análise. Como dissemos, um dos acontecimentos mais
interessantes (e polêmicos) na virada do século é justa-
mente o ressurgimento do debate em torno da aprox-
imação entre psicanálise e a biologia da mente, em es-
pecial as neurociências. Esse debate, intensificado a
partir da criação da neuropsicanálise — movimento
que reúne psicanalistas clínicos, psicólogos do desen-
volvimento, neurobiólogos, neurocientistas cognitivos
e filósofos da mente —, tem dividido o campo psic-
analítico. A ambição inicial do Projeto, que Freud teria
abandonado por conta do conhecimento insuficiente e
das técnicas inadequadas de sua época, parece hoje, a
muitos, possível de ser retomada. A discussão em
torno dessa aposta põe em questão a própria natureza
do empreendimento psicanalítico e o lugar a ele desti-
nado na cultura atual e no futuro que se está desen-
hando. Assim, examinar o Projeto hoje não significa
apenas olhar para o passado da psicanálise. Significa
também perscrutar o seu futuro.
Notas

2E. Jones, A vida e obra de Sigmund Freud. vol. 1, pp.


292-3; J. M. Masson (org.), A correspondência completa de
Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904, p. 6-11.
3 J. M. Masson (org.), op. cit., p. 2.
4 E. Jones, op. cit., p. 383.
5E. H. Erikson, “Freud’s ‘The Origins of Psychoanalysis’”,
International Journal of Psycho-Analysis, p. 1-15.
6 J. Masson (org.), op. cit., p. 128.
7 F. J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, p. 114.
8 J. Masson, op. cit., p. 130.
9 E. Jones, op. cit., p. 204-5.
10 J. Masson, op. cit., p. 136-7.
11Chamada por Freud de “Projeto de psicologia” (“Entwurf
der Psychologie”) ou “Psicologia para neurologistas” (“Ent-
wurf für Neurologen”), a obra foi publicada inicialmente em
alemão como Projeto de uma psicologia (Entwurf einer
Psychologie), e depois rebatizada por James Strachey,
tradutor para o inglês e editor de suas Obras Completas,
como Projeto para uma psicologia científica (Project for a
Scientific Psychology).
12 J. Masson, op. cit., p. 147.
13 Ibidem, p. 151.
74/301

14 Ibidem, p. 153.
15 E. Jones, op. cit, p. 383.
16M. Solms, “Before and After Freud’s Project”, Annals of
the New York Academy of Science, p. 1-10.
17 J. Masson, op cit, p. 327.
18K. Pribam e M. Gill, O “Projeto” de Freud: Um exame
crítico.
19 F. Sulloway, Freud, the Biologist of the Mind, p. 130.
20 J. Masson, op. cit., p. 137.
21 Ibidem, p. 142.
22 Sulloway, op. cit., p. 123.
23 P. Gay, Freud: Uma vida para nosso tempo, p. 89.
24J. Strachey, “Introdução”, in Obras psicológicas com-
pletas, vol. 1, p. 390.
25 O. Manonni, Freud.
26 L. R. Monzani, Freud: o movimento de um pensamento.
27S. Freud (1977) “Histeria”, in Edição Standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(doravante, ESB), vol 1, p. 79. Apesar das pertinentes críticas
a essa tradução, decidimos adotá-la nas citações de Freud
pela maior facilidade de acesso por parte do leitor.
28 Ibidem, p. 98-9.
75/301

29S. Freud (1977) “Esboço para a ‘Comunicação Preliminar’


de 1893”, ESB, vol. 1, p. 216.
30 F. Sulloway, op. cit., p. 122-3.
31F. Vidal, “Brainhood: Anthopological figure of modernity”,
History of the Human Sciences, p. 6-35; F. Ortega e F. Vidal
(orgs.), Neuroculture: Glimpses into an Expanding
Universe.
II. FREUD E A NEUROLOGIA: AS RELAÇÕES ENTRE
CÉREBRO E MENTE

Nas últimas décadas do século XIX, o problema das


relações entre corpo e mente estava na ordem do dia, e
ocupava um lugar central no debate em torno da cien-
tificidade dos discursos sobre a experiência humana. A
distinção entre ciências naturais e ciências do espírito
ainda se encontrava em processo de consolidação,
graças, em grande parte, à influente obra de Wilhelm
Dilthey,32 que na década de 1880 argumentou forte-
mente em prol da independência metodológica entre
elas, defendendo a necessidade de uma ciência psicoló-
gica que fundasse uma elucidação do comportamento
humano e do mundo histórico-social com base na
“compreensão pelo interior”, privilegiando a per-
spectiva subjetiva da primeira pessoa — justamente o
ponto de vista ausente, por razões metodológicas, nas
descrições naturalistas. Considerar a psicologia como
uma ciência não significava, para Dilthey, sua subor-
dinação ao paradigma das ciências da natureza. Para
ele, o que garantiria seu estatuto científico era a con-
strução com base em princípios rigorosos e com valid-
ade universal, além da clareza em relação ao seu méto-
do específico de produção de conhecimento. As
77/301

ciências naturais operariam com categorias como sub-


stância e causalidade mecânica, para elaborar ex-
plicações para os fenômenos estudados, ao passo que a
psicologia, assim como as demais ciências do espírito,
deveria investigar conexões de sentido, relações entre
significados, apreensões experienciais, para conduzir a
uma compreensão dos fatos pesquisados. Essa per-
spectiva significava um contraponto ao fisicalismo
dominante no universo acadêmico alemão. Apesar, no
entanto, de já existir uma corrente de pensamento que
se opunha à atmosfera cientificista e positivista
hegemônica, foi no interior dessa atmosfera que Freud
fez sua formação.
Freud, porém, foi progressivamente se afastando de
suas influências iniciais, e acabou por desenvolver uma
posição bastante singular, que acabou por inovar a
maneira de pensar a experiência humana, inclusive a
maneira de formular o problema em torno da emer-
gência da vida subjetiva a partir da vida material e or-
gânica. Pesquisador por vocação, médico clínico por
circunstâncias, psicanalista em consequência das
descobertas que fez acerca de si mesmo e de seus pa-
cientes, Freud tinha um espírito ambicioso e incomum.
Era desses indivíduos cuja inquietação e destemor
transformam limites do conhecimento em obstáculos a
serem ultrapassados, e convicções estabelecidas em
itens a serem questionados. Não tinha muitos
78/301

problemas em mudar de ideia, contradizer a si mesmo.


Ciência para ele significava mais compromisso com a
inquietação do pensamento do que expectativa de cer-
teza do conhecimento. Por isso, mais que um pesquis-
ador do sistema nervoso, no início de sua carreira, e de
um investigador da vida psicológica e social, ao longo
da vida, Freud se tornou um pensador do humano, e é
dessa perspectiva que se pode compreender melhor os
passos que deu na reflexão acerca das relações corpo-
mente nos anos que precederam a realização do
Projeto.
Em 1895 Freud já tinha estabelecido uma longa tra-
jetória de pesquisador na neuroanatomia e na neurofi-
siologia do cérebro. Apesar de haver deixado a invest-
igação em laboratório no ano de 1882, quando iniciou
sua carreira de clínico, o interesse pela neurologia se
manteve em seu espírito por um longo tempo, cerca de
15 anos, até que seu caminho em direção à psicanálise
o tomasse por inteiro, no fim do século. Sabe-se, de sua
correspondência e de seus escritos autobiográficos, que
para ele havia sido dura a decisão de trocar a vida no
laboratório pelo consultório médico. A pesquisa, muito
mais do que a clínica, era a sua paixão.
Mas, ao deixar o laboratório de Brücke, Freud levou
sua vocação junto. Seu espírito ambicioso logo encon-
trou um novo terreno onde se expressar. Sua atividade
clínica, embora oscilante no início, não só garantia seu
79/301

sustento financeiro como se tornou uma fonte ininter-


rupta de novos desafios intelectuais. Na década que
antecedeu a escrita do Projeto, Freud produziu uma
quantidade enorme (mais de cem) de estudos neuroló-
gicos sobre anatomia cerebral, distúrbios da lin-
guagem, paralisias cerebrais infantis (Freud se tornou
um especialista nessa patologia) e outros tópicos. Em
paralelo à clínica propriamente neurológica, Freud foi
se envolvendo cada vez mais com a psicopatologia, o
que se intensificou com sua ida a Paris para estudar
com Charcot, em 1885-6. Entre os temas que atraíram
sua atenção no campo da clínica e da terapêutica
psicológica, e que motivaram publicações nesse per-
íodo, estão os usos terapêuticos da cocaína, a psicoter-
apia catártica, a hipnose e as neuroses, em especial a
histeria e a neurastenia.
Freud era, antes de tudo, um cientista. Por isso não
é de admirar que seu ingresso no terreno da psicopato-
logia o tenha feito estender ao campo da psicologia a
mesma orientação naturalista que o norteava em seus
estudos neurológicos. Com o início de suas experiên-
cias terapêuticas com base na fala, tornou-se para ele
urgente uma descrição científica dos processos em
curso, que pudesse dar conta tanto do aparecimento
dos sintomas quanto da sua remissão terapêutica. E
uma descrição científica da vida psíquica significava
em princípio, naquele momento de sua trajetória, uma
80/301

descrição mecanística, que articulasse os sintomas e os


fenômenos psíquicos que apareciam na clínica ao fun-
cionamento dos neurônios. A necessidade da formação
de uma psicologia científica dessa natureza foi cres-
cendo em seu espírito quanto mais se aprofundava no
estudo da psicopatologia — o que levantava imediata-
mente a questão da natureza das relações entre o
cérebro e a mente, entre o fisiológico e o psicológico.
Assim, para apreciar o contexto de criação do Projeto,
e compreender o movimento subsequente que o levou
a transitar em definitivo do universo dos nervos para o
universo do inconsciente psíquico, é importante obser-
var como suas concepções acerca das relações entre
funcionamento neuronal e vida psicológica evoluíram
no período que antecedeu sua escrita.
Com esse objetivo vamos retomar rapidamente o
contexto científico em que Freud se movia, e o modo
peculiar como ele próprio se inscreveu nesse cenário,
examinando dois escritos que marcam essa fase de
passagem da neurologia à psicologia que precedeu a
formulação do Projeto: o pouco conhecido artigo intit-
ulado “Cérebro”, escrito em 1880 para um dicionário
de medicina geral, e a monografia sobre as afasias,
publicada em 1892, texto em que Freud pela primeira
vez oferece um modelo do psiquismo, descrito como
um “aparelho de linguagem”.
81/301

A teoria da localização cerebral

A ideia de que o cérebro é o órgão da mente, e de


que as funções mentais estão ligadas ao funcionamento
de estruturas especializadas nele distribuídas, é bem
mais antiga do que pode parecer a um leitor desavis-
ado das neurociências atuais. Na verdade, essa ideia
remonta à medicina da Grécia antiga. Herófilo da
Calcedônia (335-280 a.C.), da escola de medicina de
Alexandria, considerado precursor da anatomia
científica, deixou escritos sobre a anatomia e a fisiolo-
gia das estruturas cerebrais e dos nervos, fruto de dis-
secações pioneiras realizadas em cadáveres — e, se-
gundo historiadores, também em vivissecções de crim-
inosos condenados. Nesses escritos o cérebro é ap-
resentado como o órgão da inteligência.33 Herófilo era
ligado, pela teoria dos humores, à escola hipocrática.
Em 400 a.C., Hipócrates (460-370 a.C.) — cuja medi-
cina dos “quatro humores” (o sangue, a bile amarela, a
bile negra e a fleuma) continha uma visão holística e
dinâmica do organismo em relação com a natureza —
escreveu que

Os homens devem saber que do cérebro e nada mais


que do cérebro vêm as alegrias e os prazeres, o riso e
o pesar, as aflições, o desânimo e o lamento. Por ele,
de uma maneira especial, adquirimos sabedoria e
82/301

conhecimento, vemos e ouvimos, e sabemos o que é


desleal e o que é justo, o que é mau e o que é bom, o
que é doce e o que é sem sabor (...) E pelo mesmo ór-
gão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e
terrores nos assaltam, alguns à noite, e alguns de dia,
e sonhos e devaneios.34

Na ciência e na filosofia gregas (àquela época não


tão distintas quanto depois da modernidade), a im-
portância primordial do cérebro para a vida do espírito
não era consensual, e opunha, por exemplo, platônicos
e neoplatônicos (que situavam a coordenação do
pensamento e dos sentidos no cérebro) contra aris-
totélicos (que definiam o coração como órgão respon-
sável pela vida psicológica, responsável pelas sensações
e movimentos). Aristóteles, que considerava a primazia
concedida ao cérebro pela medicina hipocrática uma
falácia, afirmava:

E, é claro, o cérebro não é responsável por absoluta-


mente nenhuma sensação. A visão correta [é] que a
sede e fonte da sensação é a região do coração. (...)
Os movimentos de prazer e dor e, de um modo geral,
todas as sensações, têm claramente sua fonte no cor-
ação.35
83/301

A convicção de que o cérebro era o órgão por meio


do qual os seres humanos eram dotados de sentimen-
tos, emoções, ideias, lembranças, pensamentos, alucin-
ações, delírios, obsessões, enfim todo o espectro da
vida psíquica normal e patológica, teve muitos adeptos
ao longo da história da medicina e da filosofia, mas,
como mostra Vidal,36 começou a ganhar força de
dogma incontestável a partir de meados do século
XVII, quando a teoria do equilíbrio humoral entre tem-
peramentos do corpo e faculdades da alma, criada por
Hipócrates e desenvolvida por Galeno (129-217), en-
trou em declínio. Ela aparece em cientistas e filósofos,
em materistas e dualistas. É uma ideia central nos
estudos do médico e anatomista inglês Thomas Willis,
um dos fundadores históricos da neurologia no século
XVII.37 Willis descrevia as faculdades da alma como
distribuídas ao longo das estruturas cerebrais: a ima-
ginação seria uma ondulação dos espíritos do centro do
cérebro para sua circunferência, a memória dependeria
dos espíritos impulsionados da periferia para o centro,
a coordenação dos sentidos seria realizada no corpo es-
triado, e assim por diante. Mais ou menos à mesma
época, o cérebro também ocupa um papel-chave no du-
alismo filosófico cartesiano. Descartes (1596-1650), ao
explicar como a res cogitans (substância imaterial da
mente) se relacionava com a res extensa (substância
material do corpo), aponta a glândula pineal como a
84/301

sede da alma — não o lugar onde ela está, posto que é


imaterial, mas o ponto no cérebro em que ela interfere
no corpo. Apesar das diferenças nos pontos de partida
e na maneira de descrever onde e como espírito e
corpo se relacionam, o papel do cérebro e dos nervos
como o lócus em que esse processo se dá é central em
ambos os modelos. A centralidade do cérebro aparece
ainda na teoria do indivíduo de John Locke, que argu-
menta em seu Ensaio sobre o entendimento humano
(1694): o que define uma pessoa, o seu eu, é a continu-
idade da consciência e a memória. Que parte do corpo
é indispensável para que isso ocorra? Após descartar
outras hipóteses (o dedo mínimo é uma delas), conclui
que o cérebro é a única parte do corpo de que uma
pessoa precisa para ser ela mesma.
No século seguinte, já encontramos nas obras do
médico-filósofo Julien Offray La Mettrie, como A
história natural da alma (1745) e O homem-máquina
(1750), uma concepção do espírito com base num mon-
ismo materialista radical, que recusava referências a
substâncias imateriais e explicava os fenômenos
psíquicos como resultado de processos naturais ocor-
ridos no corpo, no cérebro e no sistema nervoso. A
imensa repercussão e o escândalo que suas ideias pro-
vocaram fizeram dele um pensador maldito entre seus
contemporâneos, mas a perspectiva que suas ideias
propagavam deitou raízes, e elas foram intensamente
85/301

retomadas pelos pensadores do Iluminismo. Um dos


momentos mais relevantes desse processo foi a pub-
licação, em 1802, do livro de Cabanis Rapports du
physique et du moral de l’homme, que apresentava
uma visão inteiramente naturalizada do humano e uma
psicologia profundamente ligada à biologia. Nesse livro
Cabanis toma o modelo da digestão para compreender
a relação do cérebo com o pensamento, concluindo que
o cérebro “digere” as impressões e promove organica-
mente a “secreção” dos pensamentos, do mesmo modo
que o fígado secreta a bílis.
Quando a psiquiatria surgiu como uma área especial
do campo médico, ao fim do século XVIII, início do
XIX, concebendo a loucura como uma perturbação
físico-moral, a crença de que se deveria buscar nas
doenças do cérebro a explicação final das patologias da
mente já era de ampla circulação. Na França, Pinel e
Esquirol procuraram fundamentar a psiquiatria com a
constituição de uma nosologia que descrevesse, com
limites precisos, as patologias encontradas no asilo,
configurando as diversas modalidades de alienação
mental. A ênfase na clínica pôs num segundo plano a
pesquisa anatomofisiológica das perturbações mentais,
mas a noção de que elas eram expressão de alterações
do funcionamento cerebral era uma premissa. No
cenário alemão, a psiquiatria acabou se voltando para
os estudos de anatomia e fisiologia cerebral em busca
86/301

das causas biológicas da loucura, por conta da imensa


influência de Griesinger, considerado por Shorter “o
consolidador da primeira psiquiatria biológica”38 e
autor do primeiro compêndio geral de psiquiatria, o
Tratado sobre patologia e terapêutica das doenças
mentais, publicado em 1845, no qual os sintomas das
doenças mentais são descritos como a expressão clín-
ica de perturbações cerebrais.
É curioso observar como uma leitura menos preocu-
pada em estabelecer contrastes muito fortes entre ali-
enismo e organicismo pode evidenciar como o embate
entre essas duas correntes é mais complexo do que
pode parecer à primeira vista. Os alienistas franceses
como Pinel e Esquirol não duvidavam do papel de-
terminante da organicidade cerebral sobre a vida
psicológica. Mas a ênfase na clínica os levou a desen-
volver o “tratamento moral” como forma de intervir na
loucura — um dispositivo que na linguagem atual
chamaríamos de psicoterápico, ou psicossocial. Grie-
singer, cujo trabalho Freud leu com grande interesse,39
apesar de acreditar que só o corpo adoecia (e não a
alma), via o cérebro como um orgão relacional, que
constituía e operava a vida mental em constante inter-
ação com o ambiente — o que implicava necessaria-
mente que a vida psicológica não emergia exclusiva-
mente da atividade biológica do órgão. O que diferen-
ciava basicamente uma escola da outra era a ênfase dos
87/301

alemães na pesquisa biológica, ambiciosa em suas in-


tenções, mas pobre nos resultados, devido aos poucos
recursos da época, ensejando uma espécie de pessim-
ismo terapêutico, e o privilégio da aposta clínica entre
os franceses — a qual, centrada na dimensão psicoló-
gica e relacional da loucura, abria, apesar de tudo, es-
paço para algum otimismo na experimentação
terapêutica nos espaços asilares.
Na primeira metade do século XIX, a ideia de que o
cérebro era a sede e o fator determinante da vida
psíquica chegou a se tornar inclusive extremamente
popular nos Estados Unidos e na Europa, impulsion-
ada pela difusão da frenologia (do grego φρήν, frén,
“mente” e λόγος, logos, “conhecimento”), corrente de
pensamento criada pelo médico alemão Franz Joseph
Gall e popularizada por seu discípulo Johann
Spurzheim40 — que julgava ser possível examinar a
personalidade de um indivíduo e suas faculdades men-
tais por meio do exame das marcas que os “órgãos da
mente”, situados na superfície do cérebro, suposta-
mente imprimiam na calota craniana. Para os frenólo-
gos, o cérebro era composto de várias áreas ou módu-
los topograficamente distribuídos e relacionados a fun-
ções específicas, enquanto a mente era entendida como
um conjunto de faculdades mentais representadas nes-
sas áreas diferenciadas. O crescimento maior ou menor
de cada uma dessas áreas produziria como efeito a
88/301

personalidade singular de cada indivíduo. A popularid-


ade alcançada pela frenologia entre 1810 e 1840 diz
bastante da atmosfera de sua época, marcada pela
busca do conhecimento racional da natureza e pela
crença na superioridade do conhecimento científico
sobre outras formas de apreensão da experiência hu-
mana. Por volta dos anos 1840 havia, somente em Lon-
dres, mais de 28 sociedades frenológicas, com mais de
mil membros.41 Ao fim da segunda metade do século,
porém, a frenologia já havia sido completamente de-
sacreditada como pseudociência, por conta de seus
mais que duvidosos métodos de investigação, e do sur-
gimento paulatino de métodos fisiológicos que pro-
metiam resultados mais confiáveis nos estudos fun-
cionais do sistema nervoso central.
Na medicina da segunda metade do século XIX, o
diagnóstico de doenças internas era baseado no exame
de sinais e sintomas que indiretamente informavam
sobre o funcionamento do organismo. Por causa da
ausência de instrumentos que permitissem a inspeção
do interior do organismo, só se chegava a uma certeza
diagnóstica quando ela já não era mais necessária —
com o laudo post mortem do anatomopatologista. Ao
longo do tempo, no entanto, o estudo sistemático da
correlação entre observações clínicas, de um lado, e de
determinadas alterações somáticas flagradas nas nec-
ropsias, de outro, tornou possível estabelecer a
89/301

existência de certos sinais e sintomas patognomônicos


(que indicavam com alguma certeza a presença da
lesão ou da doença), oferecendo consistência ao dia-
gnóstico médico. Esse método de correlação anatomo-
clínica se tornou a base de quase toda investigação
médica, e conheceu um imenso desenvolvimento no
campo neurológico.
Quando, em 1882, a conselho de Brücke, Freud
abandonou o laboratório e se encaminhou para a
atividade clínica, a neurologia estava começando a se
destacar do campo geral da medicina interna. O avanço
permitido pelo método da correlação anatomoclínica
no diagnóstico das patologias do sistema nervoso havia
estimulado também o seu uso na exploração das fun-
ções mentais normais. Os neurologistas do fim do
século XIX, com métodos mais adequados, pareciam
enfim poder alcançar o objetivo dos frenólogos de
décadas anteriores: descobrir a localização cerebral das
diversas faculdades mentais, a sede dos sentimentos e
das emoções, do pensamento, da memória e da lin-
guagem. O estudo de certas patologias era especial-
mente favorável a isso, pois permitia não só associar
alterações mentais que apareciam na clínica com
lesões cerebrais posteriormente observadas nos laudos
de necropsia, como também inferir dados acerca da
base cerebral de diversas funções psicológicas.
90/301

Esse foi o caso das afasias. Em 1861, Pierre Broca,


ao fazer a necropsia de um paciente, descobriu uma
lesão de origem sifilítica num determinado ponto do
hemisfério cerebral esquerdo. O paciente, conhecido
pelo apelido de “Tan”, apresentava uma afasia que o
impedia de usar palavras, embora pudesse
compreendê-las. Tinha esse apelido porque havia per-
dido a capacidade de falar claramente qualquer outra
palavra que não esse som. A recorrência do achado em
outros pacientes fez Broca identificar uma pequena re-
gião do lobo frontal esquerdo como a responsável pela
capacidade de usar palavras, que ficou conhecida como
área de Broca, ou área motora da linguagem, cuja
destruição provoca a chamada afasia motora. Treze
anos mais tarde, Carl Wernicke mostrou que lesões em
outra parte do córtex cerebral, onde convergem os
lobos occipital, temporal e parietal, produziam outro
tipo de afasia, sensorial, que não impede o paciente de
proferir palavras, mas o impede de compreendê-las.
Junto com essas descobertas, outras se seguiram,
multiplicando as áreas identificadas com certas fun-
ções mentais. A correlação sistemática da anatomia
com a clínica ganhou, com esses achados, um impulso
enorme. Freud se tornou um pesquisador bastante ver-
sado nesse método, tendo-o utilizado em muitas de
suas pesquisas iniciais. Porém, embora dominasse o
método e o utilizasse com maestria, Freud desenvolveu
91/301

uma posição bastante crítica em relação a ele, sobre-


tudo quanto à pretensão de muitos em usá-lo de forma
generalizada para toda atividade mental. Logo ele con-
cluiu que uma coisa era o estudo de funções element-
ares, que podiam eventualmente ser localizadas em al-
guma região específica do cérebro; outra, a análise de
funções e atividades complexas, que deveriam exigir o
concurso de várias áreas diferentes, e que envolviam
um intrincado processo fisiológico de associações im-
possível de ser situado num único local do sistema
nervoso. O próprio Wernicke chegou a admitir essa
limitação, mas não tirou todas as consequências de sua
percepção. Anos mais tarde, quando Freud escreveu
sobre as afasias, Wernicke seria um dos alvos de sua
crítica.

Raízes do antilocalizacionismo de Freud

A posição antilocalizacionista de Freud reflete em


grande medida a forte influência que sofreu de duas
figuras importantes da neurologia do fim do século: o
francês Jean-Martin Charcot e o inglês John Hughlings
Jackson. Com o primeiro, Freud estudou nos anos
1885-6, no hospital Salpêtrière, em Paris. Lá, Freud se
aprofundou no estudo da histeria e da hipnose, com as
92/301

quais começaria a trabalhar em sua volta a Viena, e


travou intenso contato com o método clínico-descritivo
com o qual Charcot conduzia suas pesquisas em neuro-
patologia. Na Salpêtrière, Freud encontrou uma
tradição de pesquisa em muitos aspectos contrastante
com aquela na qual fora formado. O ambiente intelec-
tual no mundo germânico era marcado por uma at-
mosfera de cientificismo positivista centrada nos pos-
tulados naturalistas. Esse credo, no entanto, permitia
que o reducionismo operado na pesquisa em patologias
do sistema nervoso se desenvolvesse com base em duas
atitudes epistemológicas bastante distintas. A primeira
acreditava poder obter informações relevantes para a
clínica ao destacar sinais e sintomas e correlacioná-los
com estados e alterações orgânicas, abrindo espaço
para possíveis estratégias terapêuticas; a outra dava
um passo adiante, e imaginava explicar o fenômeno
clínico por meio de descrições dos processos anato-
mofisiológicos subjacentes a eles, estabelecendo, mais
do que uma correlação, uma causalidade direta entre
um nível e outro.
Os mestres de Freud eram todos adeptos do credo
naturalista: Helmholtz, e seu programa de pesquisa
biofísica; Fechner, que introduziu na psicologia o
princípio de conservação de energia que Freud acol-
heria mais tarde; Meynert, professor de neuropsiquiat-
ria em Viena com quem Freud aprendeu a pesquisar
93/301

ainda na faculdade, e a quem chegou a considerar o


homem mais inteligente que havia conhecido; Brücke,
que o acolheu em seu laboratório; e Exner, assistente
de Brücke, professor e colega de laboratório de Freud.
Menção especial pode ser feita a Herbart, cujo trabalho
Freud conheceu através de seus professores, especial-
mente Meynert. Herbart procurou, em trabalhos como
Psicologia como ciência, de 1821, estabelecer uma
abordagem quantitativa e matemática da psicologia,
num caminho semelhante ao que Broussais e Bichat
haviam feito na medicina.42
Freud reteve de todos esses mestres a convicção de
que os processos psíquicos não são de modo algum in-
dependentes dos processos fisiológicos do cérebro.
Herbart, segundo Ernest Jones, era de todos esses
mestres aquele que, apesar da adesão inequívoca ao
fisicalismo, tinha algumas ideias que certamente in-
spiraram Freud em direção à psicanálise — em especial
sua concepção dinâmica do psiquismo. Herbart ante-
cipou noções que vieram a se tornar axiais no
pensamento freudiano, como a noção de conflito in-
trapsíquico, que opunha uma ideia consciente e outra
reprimida; a proposição de que um dos princípios do
funcionamento psíquico é a busca de equilíbrio; a
noção de “ressonância fisiológica”, que se aproxima
muito da ideia de “facilitação” que Freud utilizará no
Projeto; a ideia de que a consciência cumpre uma
94/301

função seletiva em relação às ideias reprimidas, e as-


sim por diante.
Na França, a tradição clínica, embora partisse do
mesmo princípio naturalista, punha a ênfase no polo
da clínica e da terapêutica, e não no da pesquisa etioló-
gica e anatômica. Charcot supunha que as patologias
mentais estavam ligadas a alterações orgânicas, apesar
de muitas vezes, como ocorria com a histeria, ser im-
possível determinar em que consistiam essas alter-
ações. Para ele e seus alunos da Salpêtrière (assim
como havia sido para Pinel e Esquirol), o objetivo fun-
damental era a descrição mais minuciosa possível dos
sinais e sintomas apresentados pelo paciente, de modo
que se pudessem isolar e classificar entidades clínicas,
abrindo caminho para possíveis formas de tratamento.
Não por acaso, a histeria e a neurastenia foram as
figuras clínicas que mais evidenciaram as diferenças de
atitudes entre a maneira germânica e a francesa de
pensar a clínica: enquanto para a perspectiva de Char-
cot a questão girava em torno da definição da entidade
clínica, independentemente do conhecimento acerca
de seus correlatos neuronais, para os herdeiros da
escola de Helmoltz a inexistência de alguma lesão (in
vivo ou post mortem) que pudesse se apresentar como
causa para os sintomas tornava o quadro inexplicável,
quiçá inexistente, porque sem realidade material. Sem
95/301

base anatômica discernível, seria logicamente impos-


sível falar de um quadro clínico real.
Freud, acolhendo a influência dessas duas aborda-
gens tão diversas, acabou elaborando uma maneira de
pensar própria, que combinava algo de cada uma. De
seus primeiros mestres, acolheu a convicção de que a
atividade da mente era solidária com o funcionamento
do cérebro, que não se podiam conceber funções men-
tais ou experiências subjetivas sem que alguma forma
de funcionamento neural a tornasse possível. De Char-
cot, guardou a riqueza do método clínico-descritivo, a
percepção de que os processos psíquicos apresentavam
uma complexidade e uma articulação que precisavam
ser descritas e compreendidas em termos estritamente
psicológicos, a despeito do desconhecimento de suas
bases fisiológicas.
Freud aos poucos viria a se afastar de algumas das
ideias centrais do mestre parisiense. Charcot se pre-
ocupava basicamente com as descrições clínicas de
seus pacientes. Bastava-lhe admitir a etiologia orgânica
hereditária da histeria, e confiar que em algum mo-
mento do desenvolvimento das técnicas biológicas de
pesquisa as bases neurais dos achados clínicos viriam à
luz, estabelecendo a correlação entre sintoma psicoló-
gico e lesão anatomopatológica. Isso lhe permitia
dedicar-se à exploração dos sintomas psicológicos, sua
plasticidade, seu conteúdo subjetivo, ao mesmo tempo
96/301

que guardava a expectativa de uma futura demon-


stração de sua localização cerebral. Algum tempo de-
pois de seu período com Charcot, Freud se convenceria
de que essa era uma expectativa equivocada, e de que
jamais se chegaria a esses supostos correlatos que elu-
cidariam em definitivo a síndrome clínica. Não porque
tenha posteriormente desacreditado da base neural da
vida psíquica, mas porque o conhecimento crescente
acerca da complexidade do psiquismo o fez abandonar
a ideia de que pudesse explicá-lo com base no funcio-
namento de áreas localizadas do tecido nervoso.
Ao se aprofundar no estudo dos seus pacientes,
Freud, sem abandonar suas premissas naturalistas,
chegou à conclusão de que os distúrbios psíquicos por
eles apresentados tinham uma complexidade própria,
que exigia uma análise de natureza funcional que eluci-
dasse a lógica subjacente a eles. O caso das paralisias
histéricas, que, em vez de seguir a anatomia neural
real, seguiam uma anatomia imaginária, sustentada
nas fantasias dos pacientes, evidenciava isso. Os sinto-
mas mentais dos pacientes apresentavam uma organiz-
ação interna intrincada, que podia ser desvendada ao
se explorar a lógica subjetiva subjacente a ela, sem a
necessidade de correlação entre o sistema funcional
psicológico e a materialidade anatômica do cérebro.
Além disso, Freud percebeu que os sintomas
psicológicos, e os eventos mentais em geral, têm uma
97/301

natureza dinâmica própria. Em outras palavras, não


são eventos isolados, mas processos, que emergem do
funcionamento articulado de uma complexa rede de
funções elementares, que vai se reestruturando no
tempo, em resposta às injunções impostas pelo ambi-
ente, pelas circunstâncias, pelo jogo interpessoal.
Desse modo, não se deveria esperar que processos
complexos e dinâmicos como os psicológicos pudessem
ser localizados em áreas circunscritas do cérebro. Seria
mais plausível supor que seus correlatos neurais ap-
resentassem características semelhantes, e resultassem
da interação dinâmica de diversas áreas do sistema
nervoso. Freud se deu conta de que era inútil procurar
por lesões anatômicas no caso da histeria, pois ela lhe
parecia inteiramente baseada em modificações fisioló-
gicas do sistema nervoso. Portanto, qualquer modelo
de explicação dos seus sintomas deveria dar conta das
relações entre partes diversas do sistema, e não de uma
suposta alteração anatomicamente localizada.

Uma neurologia dinâmica

Essa convicção de Freud foi muito influenciada pela


leitura dos trabalhos de John Hughlings Jackson,
neurologista inglês, vinte anos mais velho que ele, e,
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assim como Freud, um grande admirador de Darwin,


que se tornou a segunda e mais profunda influência em
afastá-lo do localizacionismo. Jackson foi o primeiro
grande nome de uma linhagem de neurologistas que
consagrou a vertente da neurologia dinâmica — uma
nobre linhagem que exibe, entre outros nomes, os de
Kurt Goldstein, Alexander Luria e o contemporâneo
Oliver Sacks. Essa tradição se opôs desde o início às
teses centrais do localizacionismo cerebral — tanto à
hipótese de correlação ponto a ponto entre uma região
do cérebro e a sede de uma função específica como à
hipótese da independência dessas funções entre si. Es-
sas duas hipóteses combinadas é que sustentavam a
teoria atomística segundo a qual uma lesão específica
numa parte discreta do cérebro resultaria diretamente
na perda ou prejuízo de uma função correspondente
àquela área, sem que as demais fossem afetadas.
Na visão darwiniana de Jackson,43 o sistema
nervoso se apresenta como um sistema complexo e
hierarquizado de funções sensório-motoras cuja organ-
ização atual refletiria o resultado de um longo processo
evolutivo. Esse sistema é composto por três níveis de
organização (centros inferiores, intermediários e su-
periores) que teriam se desenvolvido progressivamente
— dos centros inferiores teriam emergido os inter-
mediários, e destes os superiores — por um processo
de complexificação crescente e aumento de autonomia.
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Assim, os centros inferiores, evolutivamente primeiros,


seriam mais simples, mais organizados e mais
automáticos, enquanto os superiores seriam mais com-
plexos, menos organizados e menos automáticos (ou
seja, mais voluntários). As funções nervosas se dis-
tribuiriam então por esses níveis hierárquicos, cada
um coordenando e controlando o nível imediatamente
inferior.
Essa arquitetura permitia que Jackson descrevesse
as patologias do sistema nervoso como expressões de
uma retroversão do processo evolutivo normal. Os pro-
cessos superiores, mais voluntários, mais complexos e
menos organizados, seriam os primeiros a ser at-
ingidos, os intermediários em seguida, e por último os
inferiores. A perturbação de determinado nível com-
prometeria sua função de controle dos processos in-
feriores, que, por conta disso, seriam liberados e ocu-
pariam o espaço deixado vago pelos processos que fo-
ram atingidos.
Para Jackson, portanto, a patologia apresenta
sempre uma dupla face, com o aparecimento de sinto-
mas negativos e positivos. Os negativos correspondem
às perdas ou prejuízos funcionais por conta da lesão ou
da alteração fisiológica. Os positivos consistem nos
processos inferiores preservados, que passariam então
a tentar compensar a ausência ou o prejuízo dos pro-
cessos superiores. A doença, dessa forma, não significa
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somente perda, mas também liberação; não só destru-


ição, mas também ativação. O processo de perda de um
funcionamento superior implica necessariamente a cri-
ação de novas normas de relação do organismo com o
meio, possibilitadas pela liberação de funções inferi-
ores que têm a seu encargo a tarefa de readaptar o or-
ganismo às exigências de sua relação dinâmica com o
meio. Essa concepção teve enorme influência em Freud
e se manteve presente ao longo da vida, estando evid-
ente, por exemplo, na importância concedida à di-
mensão do infantil, do originário, na vida mental do
adulto e na psicopatologia.
A formação de Freud como pesquisador em neuro-
logia, portanto, comportou duas referências teóricas
naturalistas bastante distintas: uma que precisou
abandonar para poder conceber o modelo psicod-
inâmico da mente, e outra que abriu caminho para essa
mesma concepção. Quando se olha em retrospecto
para a trajetória que levou Freud da neurologia para a
psicanálise, pode-se ver que, embora a maior parte
daqueles mestres com quem ele trabalhou diretamente
estivesse vinculada à tradição fisicalista e localiza-
cionista (incompatíveis com a descrição do psiquismo
inaugurado em A interpretação dos sonhos) há, nas
concepções dinâmicas da neurologia de Jackson, uma
abordagem das relações entre organismo e meio, entre
sistema nervoso e comportamento, e por fim entre a
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normalidade e a patologia, inteiramente compatíveis


com a perspectiva psicodinâmica que ele viria a criar.
Foi essa versão da neurologia que Freud adotou, como
poderemos ver a seguir no comentário a dois de seus
mais interessantes trabalhos da fase de transição entre
a neurologia e a psicanálise: o verbete intitulado
“Cérebro”, de 1888, e o artigo sobre as afasias, escrito
em 1891.

“Cérebro”

Em 1888, Freud escreveu três artigos (“Afasia”,


“Cérebro”, “Histeria”) para o Handwörterbuch der
gesamten Medizin (Dicionário de medicina geral), ed-
itado por Albert Villaret, dos quais apenas o último foi
publicado em suas obras completas. Nesse período,
como indicam os títulos, Freud ao mesmo tempo escre-
via sobre neurologia e sobre clínica psicopatológica, e
estava começando a elaborar suas primeiras teorias
psicológicas. Aos 32 anos, havia estudado com Charcot
dois anos antes, tinha iniciado seus experimentos com
o tratamento catártico da histeria junto com Breuer, e
amadurecia a visão sobre as relações entre o sistema
nervoso e a vida anímica, entre cérebro e pensamento,
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que surgiria de maneira mais efetiva com a publicação


de sua monografia sobre as afasias.
Em “Cérebro”, Freud retoma a teoria de Meynert
acerca da organização funcional do cérebro e da mente,
para logo em seguida distanciar-se dela. Inteiramente
baseada em considerações anatômicas, essa teoria con-
cebia o funcionamento do cérebro com base na ideia de
um arco reflexo sensório-motor. O córtex cerebral era
visto como a sede de toda atividade mental (entendida
como sinônimo de consciência), e os fenômenos
psíquicos eram apresentados como o resultado de
mecanismos fisiológicos postos em ação por algum es-
tímulo. Freud, apoiado numa perspectiva jacksoniana
do sistema nervoso, propõe um novo esquema
neuroanatômico, contraposto a este. Para Freud, o sis-
tema nervoso central deveria ser visto como uma
“união de massas cinzentas”, direta ou indiretamente
ligadas umas às outras por feixes de fibras. O papel ab-
soluto do córtex para a vida psíquica deveria ser
relativizado, levando-se em conta a complexidade das
relações entre os processos funcionais ligando o córtex,
as áreas subcorticais e a periferia do sistema. Esse de-
flacionamento da importância do córtex terá uma im-
portância especial para Freud, pois ele lhe abrirá, a
partir da segunda metade da década de 1890, a possib-
ilidade de criticar a dominância absoluta da consciên-
cia na vida psíquica. Se áreas subcorticais tinham
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relevância na integração de funções da qual emerge a


experiência subjetiva, então era possível e necessário
estudar o impacto dos fenômenos que se passam
abaixo do limiar de consciência. Freud havia se con-
vencido disso ao deparar com a força e a complexidade
das ideias inconscientes nos casos da histeria e da
hipnose.
Essa análise foi acompanhada de um posiciona-
mento de Freud acerca das relações entre o sistema
nervoso e a vida psíquica. Embora reconhecendo o
cérebro como “o órgão da vida anímica”, Freud resistia
à cartilha reducionista em voga no cenário neurológico
da época, recusando a existência de uma causalidade
mecânica entre as esferas fisiológica e psicológica, e es-
tabelecendo uma distinção de níveis entre as duas. Em-
bora admitisse a existência de uma conexão entre ele-
mentos cerebrais e estados da consciência, Freud re-
conhecia que a natureza dessa conexão era complexa,
já que — embora se pudesse supor que os estados men-
tais estivessem relacionados a “mudanças no estado
material do cérebro”, não se podia afirmar com certeza
de que elementos, exatamente, eles dependiam, como
mostra esta extensa, mas muito interessante, citação:

Além do mais, existe o fato, inacessível por meio da


compreensão mecânica, de que simultaneamente ao
estado de excitação, definível mecanicamente, de
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elementos cerebrais específicos, estados específicos


de consciência, só acessíveis através da introspecção,
podem ocorrer. O fato real da conexão entre
mudanças no estado material do cérebro e mudanças
no estado de consciência, embora seja incom-
preensível mecanicamente, faz do cérebro o órgão da
atividade anímica. Mesmo a natureza da conexão
sendo incompreensível para nós, ela não é sem leis e,
baseados na combinação entre experiência dos sen-
tidos externos, de um lado, e introspecção interna, de
outro, estamos aptos a afirmar algo sobre estas leis.
Se uma mudança específica no estado material de um
elemento cerebral específico se conecta com um es-
tado de nossa consciência, então esta também é in-
teiramente específica; entretanto, ela não é depend-
ente apenas da mudança no estado material, quer es-
ta conexão ocorra, quer não. Se o mesmo elemento
cerebral passa pela mesma mudança de estado em
momentos diferentes, então o processo anímico cor-
respondente pode estar ligado a ele numa ocasião
(pode ultrapassar o limiar da consciência) e não em
outra. No momento, não estamos aptos a formular
melhor as leis que regem isso. Não sabemos se a con-
exão depende, além da mudança de estado dos ele-
mentos considerados, de estados e mudanças simul-
tâneos em outros elementos cerebrais, ou, ademais,
se também depende de outra coisa.44
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Como se poderia definir nesse momento a posição


filosófica de Freud sobre a natureza das relações entre
cérebro e mente? Há várias repostas possíveis a essa
pergunta, sobretudo quando apresentada hoje, quando
o conhecimento da obra posterior de Freud influi no
modo como seus primeiros movimentos são apreen-
didos.45 É certo que Freud não concebia os estados
mentais como independentes dos processos físicos. Ele
não era um idealista. Era definitivamente um natur-
alista, um darwinista da mente, o que significava en-
tender o psiquismo como um efeito evolutivo da inter-
ação do organismo humano com o meio. O natural-
ismo de Freud por certo o colocava em oposição ao du-
alismo tradicional do tipo cartesiano, no qual mente e
corpo são apresentados como substâncias ontológicas
essencialmente diferentes, uma imaterial, existindo no
tempo, outra material, existindo no espaço. Para
Freud, a ideia de uma mente não encarnada simples-
mente não fazia sentido. Por outro lado, ele não poder-
ia ser descrito como um materialista no sentido mais
forte da palavra, um eliminativista, como dizemos ho-
je, para quem o mental não só depende de estados ma-
teriais, mas pode ser inteiramente reduzido a eles.
Aqui há uma observação crucial a ser feita, já que o
termo redução pode ser entendido em duas acepções
distintas. Freud acreditava ser possível reduzir metod-
ologicamente o psíquico ao neural, ou seja, descrever
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as bases neurais que condicionam a emergência de


fenômenos psicológicos. Essa convicção está presente
na formulação do Projeto, e Freud jamais a abandon-
ou. Mas a criação e o desenvolvimento da psicanálise é
a maior evidência de que ele sempre recusou a ideia de
que se pudesse reduzir ontologicamente o psíquico ao
neural. Em outras palavras, ele jamais aceitou a ideia
de que pensamentos, emoções, sentimentos, lem-
branças, fantasias etc. nada mais são do que processos
cerebrais.
Pela leitura da citação também fica claro que,
apesar da interpretação de Andersson,46 Freud tam-
pouco pode ser descrito como um epifenomenalista,
para quem os fenômenos psíquicos são apenas efeitos
secundários de processos físicos, assim como o vapor é
efeito da água em estado de ebulição. Da perspectiva
epifenomenalista, os fenômenos psíquicos são causad-
os por eventos físicos, mas não têm efeito sobre nen-
hum evento físico — algo comparável ao que acontece
com a fumaça em relação ao fogo, ou a sombra de al-
guém em relação à pessoa que anda na rua. Dessa per-
spectiva epifenomenalista, o vocabulário psicológico
seria apenas uma maneira de vestir discursivamente a
natureza essencialmente física dos processos mentais
com uma roupagem mais palatável — útil para a vida
prática cotidiana, mas de todo inadequada para uma
compreensão científica da vida mental, devendo algum
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dia ser substituída por um vocabulário oriundo, em ul-


tima instância, da física ou da química.
Nessas versões do materialismo, o monismo ontoló-
gico é incompatível com a ideia de uma ciência psicoló-
gica independente. Ora, como vimos, à época em que
escreveu “Cérebro”, Freud já estava se distanciando do
fisicalismo reducionista radical de seus primeiros
mestres, influenciado pelas descrições clínicas de
Charcot e inspirado pela neurologia dinâmica de Jack-
son. Embora fosse um naturalista, no sentido de acred-
itar que a vida anímica fazia parte dos fenômenos nat-
urais e se prestava à elucidação científica, Freud não
acreditava que se pudesse explicar a complexa estru-
tura interna dos processos mentais como uma du-
plicação mecânica ou uma derivação direta de pro-
cessos materiais do cérebro (como queria Meynert).
Freud entendia que a relação entre fenômenos psíqui-
cos e processos fisiológicos depende de elementos ex-
trabiológicos, como a incidência do fator temporal, em-
bora não soubesse explicar como isso ocorre. Isso
parece claro nesta passagem da citação: “Se o mesmo
elemento cerebral passa pela mesma mudança de es-
tado em momentos diferentes, então o processo an-
ímico correspondente pode estar ligado a ele numa
ocasião (pode ultrapassar o limiar da consciência) e
não em outra. No momento, não estamos aptos a for-
mular melhor as leis que regem isso.”
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Podemos concluir que, já na escrita de “Cérebro”,


Freud articula o credo naturalista com uma atitude an-
tirreducionista que veremos se confirmar nos escritos
posteriores. Essas duas ideias centrais — a da lógica in-
terna dos fenômenos psíquicos e a da natureza dinâm-
ica dos processos fisiológicos que formam o seu sub-
strato, que fizeram sua primeira aparição explícita
nesse escrito de 1888 — ganharam consistência e im-
portância na monografia dedicada ao estudo das afasi-
as, escrita em 1891. Esses princípios foram aplicados à
psicopatologia ao longo de toda a década de 1890,
quando a psicanálise se encontrava em gestação. O
Projeto foi a tentativa de articular essas duas premis-
sas numa teoria unificada do mental e do neural. Os
limites metodológicos e conceituais, porém, acabaram
por impelir Freud a deixar de lado sua ambição inicial
de construir uma “psicologia científica” e partir para a
criação da psicanálise.

As afasias e o aparelho de linguagem

O texto Contribuição à concepção das afasias (da-


qui por diante, Afasias), publicado em 1891, tem uma
importância especial na trajetória freudiana porque
representa ao mesmo tempo o ponto mais alto do
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desenvolvimento do Freud neurologista e o primeiro


passo decisivo na direção do Freud psicanalista de A
interpretação dos sonhos. Nele, Freud critica dura-
mente as premissas que fundavam a teoria da localiza-
ção cerebral das funções mentais dominante à época e,
apoiado numa concepção dinâmica do funcionamento
do sistema nervoso, elabora uma formulação original,
a do “aparelho de linguagem” — que vem a ser o
primeiro modelo freudiano de um “aparelho psíquico”.
Uma das principais motivações que levaram Freud a
escrever Afasias veio não da neurologia, mas da psi-
copatologia. Desde que retornara de seu estágio com
Charcot em Paris, Freud se via às voltas com o desafio
de encontrar uma descrição fisiopatológica adequada
da histeria. Ele estava convencido de que essa
descrição teria que se apoiar em outra coisa que não as
descrições anatômicas do sistema nervoso. As paralisi-
as histéricas simplesmente não seguiam os mapas
anatômicos das redes neurais, ao contrário das
paralisias de origem orgânica. Do ponto de vista estrit-
amente neurológico, os sintomas não faziam sentido,
pois as regiões atingidas na histeria não correspon-
diam a áreas de inervação real. A mão, o braço ou a
parte do rosto que eram afetados correspondiam a uma
representação mental, a uma imagem do corpo car-
regada de valor afetivo, mas sem nenhuma funda-
mentação anatômica. Como disse Freud, “a histeria se
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comporta como se a anatomia não existisse, ou como


se não tivesse conhecimento dela”.47
Era preciso explicar como sintomas tão esdrúxulos
podiam ocorrer, já que Freud refutava a ideia de que as
histéricas fossem simuladoras. E, se não era possível
uma explicação com base na anatomia, era preciso
outra abordagem. Por outro lado, a atividade clínica
mostrava a Freud que suas pacientes, resistentes a
múltiplas formas de tratamento, melhoravam dos sin-
tomas simplesmente falando deles. Esse fato também
precisava ser explicado e, por isso, uma compreensão
adequada da atividade linguística se tornava indis-
pensável. Apesar de usar uma linguagem intencional
para descrever os fenômenos da clínica, Freud conce-
bia a vida psíquica em termos naturalistas, ou seja,
como a expressão mental de eventos e estados do or-
ganismo e do sistema nervoso. Logo, a elucidação dos
fenômenos na histeria exigia uma descrição fisiop-
atológica. Mas o laboratório vivo do seu consultório o
convencia de que as teorias neurológicas disponíveis
não conseguiam dar conta da complexidade das re-
lações entre o funcionamento neuronal e a atividade
linguística que subjaziam aos sintomas histéricos. O
estudo das afasias lhe permitiria acertar contas com as
teses neurológicas reinantes no universo onde havia
feito sua formação, e ao mesmo tempo explorar um
modo de relacionar funcionamento neurofisiológico e
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atividade mental que elucidasse os fenômenos da psi-


copatologia da histeria. O primeiro passo a ser dado
nessa direção seria atacar a base das descrições domin-
antes da afasia, a teoria das localizações cerebrais.
Essa teoria, adotada por Wernicke, Meynert e out-
ros conhecidos de Freud, se fundava em duas premis-
sas básicas: a primeira afirmava a existência de certas
áreas corticais isoladas umas das outras, que seriam
responsáveis por funções envolvidas na atividade da
linguagem (motora, sensorial, e assim por diante); a
segunda, decorrente da primeira, preconizava que as
diferentes afasias corresponderiam a lesões encontra-
das nessas distintas localizações do sistema nervoso,
ou nas vias de associação entre elas, podendo ser in-
teiramente explicadas assim. O método usado pelos
localizacionistas consistia em estabelecer uma relação
entre o sintoma afásico e a lesão de alguma região
anatômica do cérebro. A teoria, embora criticada pela
neurologia dinâmica de Hughlings Jackson, dispunha
de enorme influência graças a alguns estudos, em espe-
cial as já mencionadas descobertas realizadas por
Broca, que estabeleceu uma relação entre afasia mo-
tora, que afeta a produção da fala, e lesões num ponto
do lobo frontal esquerdo, e Wernicke, que relacionou
outra forma de afasia, que atinge a compreensão das
palavras, mas não sua elocução, com lesões no lobo
temporal esquerdo. No debate sobre as afasias, Freud,
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embora admirasse a ambos, e nutrisse enorme respeito


pela figura de Meynert, toma francamente o partido de
Jackson.
Freud reconhecia a existência e a importância de
áreas específicas do cérebro necessárias para a ativid-
ade da fala, mas recusava a conclusão de que elas seri-
am suficientes para explicar a fala e os distúrbios afási-
cos. Essa conclusão era em grande parte o resultado de
inferências extraídas de exames post mortem do tecido
lesionado de pacientes afásicos. Mas exames desse tipo
só muito indiretamente podiam oferecer informações
sobre o funcionamento dessas áreas. Afinal, o cérebro
de um cadáver em nada se parece com o de um organ-
ismo vivo interagindo globalmente com outros em seu
ambiente. Com base nas formulações de Jackson,
Freud examinou de forma crítica os elementos da teor-
ia localizacionista das afasias e acabou descartando
essa concepção, em prol de outra, de natureza
dinâmico-funcional. Para ilustrar seus argumentos, po-
demos retomar brevemente, com um pouco mais de
detalhe, o modo como Wernicke e Freud entendem os
mecanismos subjacentes ao fenômeno da fala.
Wernicke acreditava haver uma relação direta entre
os estímulos do mundo externo e representações
desses estímulos em determinados pontos do córtex
cerebral. A excitação provocada pelo estímulo na
periferia do corpo seria transmitida ao córtex por uma
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rede de fibras nervosas que funcionariam como


simples dispositivos de condução, sem nenhuma inter-
ferência no processo. O córtex receberia, ponto por
ponto, uma projeção dos estímulos vindos da periferia.
Assim, para Wernicke, quando um som é apreendido,
uma imagem sonora é transmitida pelo nervo auditivo
até uma parte especializada do cérebro chamada
centro sensorial, que armazena as impressões sensori-
ais auditivas. Uma via associativa conduz o estímulo
para outra área especializada, o centro motor, onde o
estímulo é associado a uma imagem motora corres-
pondente. Os traços mnêmicos sonoros e motores per-
manecem armazenados em suas respectivas áreas, sem
nenhuma conexão entre eles até que, por ocasião da
fala, uma via condutiva os associaria.
Freud recusa as duas características principais
dessa descrição: a ideia de que a representação seria
mera duplicação cortical da impressão causada na
periferia, e a noção de que as associações entre as rep-
resentações seriam realizadas num momento posterior
à sua formação, e noutro lugar que não nas células re-
sponsáveis pela transmissão da excitação da periferia
ao centro. Para ele, as representações que atingem o
córtex cerebral estão, claro, ligadas à periferia do
corpo, mas de uma maneira muito diferente, porque
são entendidas não como um efeito direto de elemen-
tos perceptivos transmitidos por vias individuais, mas
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como produto de múltiplas associações entre essas vi-


as, que podem resultar na produção de representações
muito diversas a partir de um mesmo estímulo. A
transmissão das impressões da periferia não seria
simples e direta, realizada por vias condutoras neutras.
O processo inevitavelmente envolveria modificações e
associações, de modo que o que chega ao córtex não
seria um retrato das impressões da periferia, mas o
resultado de transformações e associações impostas a
elas. O processo associativo, diz Freud, é intrínseco à
própria representação.
Freud se vale de uma metáfora literária muito sug-
estiva para caracterizar a relação entre periferia e
centro, ou entre estímulo e representação,
comparando-a com a relação entre o alfabeto e o
poema. O poema contém o alfabeto, mas de um modo
sempre muito singular, associado de diversos modos
para fins diversos. Sem o alfabeto, não há poema, mas
para que este surja é necessária uma combinação
muito peculiar daquele, uma combinação que se
sustenta nas letras, mas não se reduz a elas, pois o
complexo processo de associação de letras na com-
posição do poema acaba criando, ao fim do processo,
um nível representacional com densidade ontológica
própria. O poema é o efeito produzido por um arranjo
singular das letras. A cada vez que se forma um certo
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tipo de associação de letras, molda-se um poema


diferente.
Duas consequências podem ser extraídas do ra-
ciocínio freudiano. A primeira diz respeito às afasias:
se para Wernicke e Meynert havia primeiro a repres-
entação, e depois a associação (daí uma tipologia
baseada em funções e suas áreas especificas), em
Freud esses processos são vistos como simultâneos, o
que significa que todo tipo de afasia resulta, no fim das
contas, de uma perturbação do fluxo associativo que
sustenta a atividade da fala. A segunda se refere ao
modo como Freud concebe a relação entre o anímico e
o corporal, ou seja, entre os processos psicológicos e os
processos fisiológicos que lhe dão origem, concepção
que está na base de sua análise da atividade da lin-
guagem e dos fenômenos afásicos.
Para ele, a fala consiste numa habilidade humana
complexa cujo exercício resulta de processos associat-
ivos em vários níveis da atividade cerebral. Se no
cadáver era possível isolar regiões danificadas e referi-
las a certos sintomas, no exercício da fala pelo indiví-
duo vivo encontraríamos uma rede dinâmica de inter-
ações entre várias áreas cerebrais. A fala não reproduz
a anatomia cerebral, ela expressa as associações entre
processos fisiológicos disseminados por todo o órgão.
Cada simples ato de fala implica a associação entre as
funções de vários pontos da superfície cortical, e é na
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perturbação dessa dinâmica que devemos situar as


afasias. Elas seriam distúrbios da associação entre as
áreas, e não reflexos diretos da lesão de uma delas. As
lesões em determinada área têm certamente um papel
na precipitação da patologia, mas não de forma direta,
e sim porque sua presença limita ou altera o funciona-
mento da totalidade do sistema. Com o aparecimento
da lesão, não é uma função específica que resulta pre-
judicada, mas o funcionamento geral do sistema, que é
obrigado a recuar para padrões normativos inferiores.
É a essa totalidade dinâmica, responsável pela integ-
ração das funções e processos envolvidos na fala, que
ele denomina aparelho de linguagem. Embora esteja
ancorado no funcionamento neuronal, ele não é local-
izável em algum lugar físico do sistema nervoso. A
realização dos atos linguísticos depende da atividade
dos neurônios, mas o aparelho de linguagem, em sua
atividade, escapa a essa dimensão neuroanatômica e
neurofisiológica.
Da perspectiva evolucionista preconizada por Jack-
son e adotada por Freud, na afasia ocorre não apenas
perda, mas um rearranjo compensatório das funções e
associações que intervêm da fala. A afasia denotaria
não um prejuízo localizado, mas uma eficiência fun-
cional reduzida do aparelho da linguagem como um to-
do. O que está em jogo na afasia não são elementos
parciais, mas a habilidade linguística geral. Esta é o
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resultado de um processo evolutivo que vai se organiz-


ando ao longo da trajetória vital de um individuo, em
níveis sucessivamente mais complexos e sofisticados.
Quando algo atropela o funcionamento sistêmico do
aparelho, ocorre uma perda progressiva desses níveis
no processo inverso de sua constituição, a retrogressão
incidindo do nível mais complexo para o mais simples.
Mas como o fenômeno ocorre em indivíduos que con-
tinuam às voltas com a necessidade de oferecer respos-
tas globais às injunções do meio em que vivem, o fenô-
meno patológico não é apenas negativo. O indivíduo é
instado a construir caminhos alternativos, fórmulas ad
hoc que se valem dos recursos que não foram usados
para atingir seu objetivo de comunicação. A patologia
não pode ser vista como a expressão de simples defi-
ciência ou dissolução, como queria Meynert, mas como
um realinhamento global da funcionalidade do
aparelho de linguagem.
Meynert, como outros localizacionistas, também fa-
lava de um aparelho de linguagem, mas a diferença
para com a versão freudiana é fundamental. Para os
localizacionistas, o aparelho consistia no conjunto de
estruturas anatômicas supostamente responsáveis por
funções executivas ou perceptuais presentes na fala. O
aparelho de Freud consiste, ao contrário, numa totalid-
ade funcional e dinâmica, solidária e indivisível,
fundada em processos fisiológicos globais e não em
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substratos anatômicos localizados. O aparelho de


Meynert é neuroanatômico, e por isso sua explicação
das afasias se apoia numa mecânica da atividade dos
centros da fala. O de Freud é um aparato virtual cuja
característica específica é a de estabelecer associações
entre processos que se desenvolvem por toda a super-
fície cortical. O aparelho de linguagem são os pro-
cessos de associação, como se pode ver nesta citação:

Rejeitamos, portanto, as hipóteses segundo as quais


o aparelho de linguagem é constituído de centros dis-
tintos, separados por regiões corticais isentas de fun-
ções, e além disso as hipóteses segundo as quais as
representações (imagens mnêmicas) que servem para
a linguagem estejam acumuladas em determinadas
áreas corticais denominadas centros, enquanto a as-
sociação dessas representações é assegurada exclu-
sivamente pelos feixes de fibras brancas subcorticais.
Só nos resta formular a concepção segundo a qual a
região cortical da linguagem é uma área contínua do
córtex, no interior da qual se efetuam, com uma com-
plexidade que desafia a compreensão, as associações
e as transferências sobre as quais repousam as fun-
ções da linguagem.48

Essa concepção está ligada a uma visão não redu-


cionista das relações entre cérebro e mente. O processo
psicológico da afasia tal como descrito por Freud em
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nada se parece com uma duplicação fantasmagórica da


mecânica do processo fisiológico. Não há lugar para
um reducionismo desse tipo na sua teoria. Ao con-
trário, há, para Freud, uma relação complexa de
natureza desconhecida entre as duas cadeias (fisioló-
gica e psicológica), sem uma relação de causalidade
mecânica entre uma e outra. Na parte V das Afasias,
Freud, na esteira das teses jacksonianas, afirma:

A cadeia dos processos fisiológicos no sistema


nervoso não se encontra, provavelmente, numa re-
lação de causalidade com os processos psíquicos. Os
processos fisiológicos não se interrompem ao se ini-
ciarem os processos psíquicos. Ao contrário, a cadeia
fisiológica prossegue, só que, a partir de certo mo-
mento, um fenômeno psíquico corresponde a um ou
mais de seus elos. O processo psíquico é, assim,
paralelo ao processo fisiológico (“um concomitante
dependente”).49

Freud adota aqui uma posição parecida com a de


Jackson, que defendia o paralelismo psicofísico como a
maneira mais econômica e simples de tratar as re-
lações entre o psíquico e o somático. No paralelismo
psicofísico, processos mentais ocorrem junto com pro-
cessos cerebrais, dos quais são dependentes. Eles estão
interligados, relacionam-se, mas são distintos. Freud
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recusava a ideia de que processos mentais e processos


cerebrais correspondessem à atividade de substâncias
distintas operando de forma independente, mas ao
mesmo tempo não aceitava reduzir o psiquismo à fisi-
ologia do cérebro. O importante para ele era resistir ao
fisicalismo reducionista de seus pares, preservando as
especificidades das esferas do mental e do neural.
Como lembra Oliver Sacks em seu artigo sobre o Freud
neurologista,50 a discussão propriamente epistemoló-
gica não interessava muito a Jackson, que pouco se
preocupava com o modo de conexão entre a mente e a
matéria: “Basta assumir um paralelismo”, dizia ele. É
bem possível que essa perspectiva tenha ajudado pos-
teriormente Freud a, por assim dizer, sentir-se autoriz-
ado a investigar com liberdade os processos psicológi-
cos em seus próprios termos, buscando encontrar reg-
ularidades, coerências, princípios que descrevessem
sua dinâmica sem a obrigação de correlacioná-los pre-
maturamente a processos fisiológicos. Além da influên-
cia jacksoniana, é também possível perceber a influên-
cia dos estudos que Freud havia feito com Franz
Brentano, justamente na época em que este publicou
seu mais famoso livro, A psicologia de um ponto de
vista empírico, de 1874, em que defende o caráter in-
tencional, irredutível a processos físicos, dos eventos e
estados mentais. Na visão de Freud, o psiquismo de-
pendia da realidade material do cérebro, mas
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apresentava propriedades autônomas, que não podiam


ser explicadas apenas com base em descrições materi-
ais. Ao desenvolver essa posição, Freud passará a adot-
ar, a partir do Projeto, uma posição diante das relações
mente-cérebro que pode ser mais bem definida como
um monismo de duplo aspecto.
A descrição do aparelho de linguagem feita por
Freud assinala uma adesão à perspectiva dinâmica da
atividade mental que ele jamais abandonará. E ilustra
a maneira como ele concebe, nas Afasias, a relação
entre o fisiológico e o psíquico. Tudo gira em torno do
conceito de representação, que se define no campo da
psicologia, apesar de ser ela mesma uma função dos
processos neurológicos corticais. Em outras palavras,
embora derivada de processos fisiológicos, a esfera
psíquica (que nas Afasias Freud identifica à consciên-
cia) apresenta complexidade própria, e uma lógica de
organização interna que não pode ser deduzida das leis
estruturais da anatomia cerebral, nem identificada de
modo simples aos fatos fisiológicos subjacentes a ela.
Essa maneira de ver as coisas torna possível aceitar
a ideia de que tanto fatores de natureza física quanto
processos de natureza psicológica possam interferir no
modo como se distribuem e se associam as excitações
no sistema nervoso — o que tem duas consequências
importantes. De um lado permitirá o estabelecimento
de uma teoria das afasias não ancorada na anatomia, e
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a afirmação da existência de distúrbios da linguagem


não decorrentes de uma lesão orgânica, mas de per-
turbações nos processos associativos entre as repres-
entações no interior do próprio aparelho de linguagem,
como no caso das parapraxias; de outro, fornecerá a
chave para a decifração do sintoma histérico, caracter-
izado como uma alteração funcional sem lesão orgân-
ica concomitante, decorrente de uma “lesão” no campo
representacional, ou seja, na concepção da ideia de
braço, por exemplo, graças à intensidade afetiva que
esta representação carrega.
Consolida-se, dessa maneira, em 1891, uma visão
das relações entre o corporal e o anímico que conjuga
as ideias de dependência e concomitância com as de
interação e reciprocidade entre o neural e o psíquico,
que Freud já havia enunciado um ano antes, num texto
chamado “Tratamento psíquico”:

É verdade que a medicina moderna teve ocasião sufi-


ciente de estudar os nexos entre o corporal e o an-
ímico, nexos cuja existência é inegável; mas em nen-
hum caso deixou de apresentar o anímico como
comandado pelo corporal e dependente dele. Desta-
cou, assim, que as operações anímicas supõem um
cérebro bem nutrido e de desenvolvimento normal,
de sorte que resultam perturbadas toda vez que esse
órgão se enferma; (...). A relação entre o corporal e o
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anímico (no animal, tanto como no homem) é de


ação recíproca; mas, no passado, o outro flanco desta
relação, a ação do anímico sobre o corpo, encontrou
pouca honra aos olhos dos médicos. Pareciam temer
que, se concedessem certa autonomia à vida anímica,
deixariam de pisar o terreno seguro da ciência.51

Vemos, portanto, que o Projeto de 1895 tem atrás


de si uma longa história. Ao concebê-lo, Freud tenta
costurar numa descrição coerente tudo o que havia cu-
mulado até então em sua carreira de pesquisador —
seus achados de pesquisa neurológica, suas descober-
tas clínicas, e uma longa meditação acerca das relações
entre a vida psíquica e sua base material. Essa tra-
jetória já o havia levado a posições que diferiam
daqueles que o haviam inspirado, e o afastavam das
teorias à sua disposição naquele momento. Sua crítica
contundente à ideia de centros cerebrais responsáveis
por funções específicas o pôs à frente de seu tempo no
campo da neurologia.52 Havia se afastado do mecani-
cismo reducionista, adotando uma posição in-
teracionista, na qual os processos psíquicos intencion-
ais, embora dependentes dos processos físicos, intera-
giam com esses causalmente. Havia percebido a pos-
sibilidade, se não a necessidade, de formular inter-
pretações funcionais em termos psicológicos, a des-
peito da impossibilidade de fornecer correlações
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neuroanatômicas ou neurofisiológicas precisas. Seu


naturalismo não reducionista e as complexidades da
psicopatologia o empurravam para uma concepção da
vida psíquica que não encontrava paralelo à época.
Freud julgava haver chegado a hora de sistematizar
suas concepções, e avançar numa direção própria. O
projeto de elaborar uma psicologia científica lhe pare-
ceu o desafio adequado.
Notas

32W. Dilthey, Introdução às ciências humanas; idem, A


construção do mundo histórico nas ciências humanas.
33F. Acar, S. Naderi, M. Guvencer, M. Türe e M. N. Arda,
“Herophilus of Chalcedon: A Pioneer in Neuroscience”,
Neurosurgery, p. 861-7.
34 Hipócrates, “On the Sacred Disease”, The Medical Works
of Hipocrates, p. 179-89. Acessível em: ht-
tp://classics.mit.edu/Hippocrates/sacred.html.
35 C. Gross, “Aristotle on the Brain”, The Neuroscientist.
36F. Vidal, “Le sujet cérébral: Une esquisse historique et
conceptuelle”, p. 37-48.
37Sobre a história do olhar sobre o cérebro no mundo
ocidental, ver o interessante livro de Carl Zimmer (2004) A
fantástica história do cérebro.
38E. Shorter, A History of Psychiatry: From the Era of the
Asylum to the Age of Prozac.
39 M. E. C. Pereira, “Griesinger e as bases da ‘Primeira
psiquiatria biológica”, Rev. Latinoam. Psicopatol. Fundam.,
p. 685-91.
40 S. J. Gould, A falsa medida do homem.
41Martin S. Staum, Labelling People: French Scholars on
Society, Race, and Empire, 1815-1848, p. 49.
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42 Sobre o uso da matemática e da abordagem quantitativ-


ista na patologia, conferir a análise minuciosa feita por Ge-
orges Canguilhem em seu clássico O normal e o patológico.
43 J. H. Jackson, “Evolution and Dissolution of the Nervous
System”, Selected Writings of John Hughlings Jackson, p.
45-75.
44S. Freud, “Brain”, in M. Solms e M. Saling, A Moment of
Transition: Two Neuroscientific Articles by Sigmund
Freud, p. 62-3. Para uma discussão sobre esse artigo de
Freud, ver também: M. Winograd, “Entre o corpo e o
psiquismo: a noção de concomitância dependente de Freud”,
Psychê, p. 95-108.
45 Para Anderson (1962), Freud é um epifenomenalista; para
Amacher (1965), um adepto da teoria da identidade; para
Silverstein (1985), um interacionista. Para uma análise des-
sas interpretações, ver o livro de Solms e Saling citado.
46O. Andersson, Studies in the Pre-History of
Psychoanalysis.
47 A frase de Freud, encontrada no artigo de 1893 “Alguns
pontos para um estudo comparativo das paralisias motoras
orgânicas e histéricas” (ESB, vol. I, p. 234), repete uma ideia
já presente no verbete “Histeria”, escrito em 1888 (ESB, p.
89).
48S. Freud, Contribuition à la conception des aphasies, p.
112.
49 Ibidem, p. 105 .
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50O. Sacks, “The Other Road: Freud as Neurologist”, in


Freud, Conflict and Culture: Essays on His Life, Work and
Legacy.
51 Apud M. Winograd, op. cit.
52 Mais de cem anos depois, em 1998, J. Panksepp, em seu
livro Affective Neuroscience, adota o mesmo ponto de vista
no que diz respeito às emoções: “(...) nenhum conceito
psicológico singular descreve completamente as funções de
qualquer área ou circuito do cérebro. Não existem ‘centros’
inequívocos ou loci de emoções discretas no cérebro que não
se interliguem com outras funções, apesar de certos
circuitos-chave serem essenciais para que determinadas
emoções sejam elaboradas. No fim das contas, tudo emerge
da interação de muitos sistemas. Por isso, neurocientistas
modernos falam de ‘circuitos’, ‘redes’ e ‘conjuntos de células’
que interagem, em vez de ‘centros’” (p. 147).
III. O PROJETO: UM RESUMO DA OBRA53

Freud tornou-se conhecido pela qualidade literária


de sua escrita, que torna a leitura da maioria de suas
obras uma experiência bastante prazerosa. O Projeto,
no entanto, pode ser descrito como uma exceção a essa
regra. O texto é árduo, denso e de difícil compreensão.
Na introdução ao Projeto para a edição inglesa das
obras completas de Freud, realizada sob sua coorde-
nação, James Strachey comenta o manuscrito. Como
foi escrito de uma só vez e enviado em seguida a Fliess,
o texto não sofreu revisão do autor. Há pouquíssimas
correções nos originais, pouco mais que 20 ao longo de
suas cerca de 40 mil palavras. As maiores dificuldades
de Strachey decorreram da rapidez com que o texto foi
escrito: a pontuação não é sistemática, as mudanças de
parágrafos são por vezes difíceis de determinar, e há
muitas abreviações ao longo de todo o texto. Além
disso, o hábito de Freud de não definir certos termos
obrigou o tradutor a fazer conjecturas acerca do sen-
tido atribuído a alguns deles. O escrito original tem
apenas uma introdução. O restante é um texto corrido
sem subdivisões. Apesar disso, o encadeamento das
ideias é claro o bastante para que Strachey tenha sido
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capaz de introduzir uma divisão em tópicos, que


ajudam muito a organizar a leitura.

Objetivo geral e os dois postulados principais

O que restou do Projeto inicialmente pensado por


Freud (os dois primeiros cadernos escritos, enviados a
Fliess; o terceiro jamais foi completado) está dividido
em três partes formais: 1) um “Esquema geral”, que ap-
resenta os princípios do funcionamento neural e algu-
mas das ideias que terão vida longa na obra posterior
de Freud, como a experiência de satisfação, a emergên-
cia do desejo, os princípios do funcionamento psíquico,
os sonhos etc; 2) uma seção sobre “Psicopatologia”,
que trata principalmente da histeria e das defesas
patológicas; e por fim: 3) Uma “Tentativa de represent-
ar os processos psíquicos normais”. Todo o texto gira
em torno de duas questões fundamentais: a) como con-
ceber uma teoria do funcionamento psíquico a partir
de um ponto de vista quantitativo, que forneça uma es-
pécie de economia das forças nervosas; e b) como ex-
trair da psicopatologia um entendimento da vida
psicológica normal.
O “Esquema geral” começa com a indicação do ob-
jetivo da obra:
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A finalidade deste projeto é estruturar uma psicolo-


gia que seja uma ciência natural: isto é, representar
os processos psíquicos como estados quantitativa-
mente determinados de partículas materiais espe-
cificáveis, dando assim a esses processos um caráter
concreto e inequívoco. Há duas ideias principais em
jogo: [1] Aquilo que distingue a atividade do repouso
deve ser considerado como Q,54 sujeita às leis gerais
do movimento. [2] Os neurônios devem ser encara-
dos como partículas materiais.55

Nesse primeiro parágrafo fica clara a intenção fun-


damental de Freud. Estruturar uma psicologia que seja
uma ciência natural significa para ele apresentar uma
versão do psiquismo que se aproxime da ideia de uma
“máquina”, regulada por leis e princípios naturais, no
modelo do arco reflexo, cujo funcionamento deve ser
explicado com base na descrição de seus componentes
materiais e dos mecanismos a eles relacionados (as
“engrenagens”, como ele diz, em cartas a Fliess).
Cabem aqui três primeiras observações.
Em primeiro lugar, vale notar que a noção de quan-
tidade sujeita às leis gerais do movimento remete à
física, enquanto os neurônios, por onde a quantidade
circula, são um conceito biológico. Há, portanto, dois
pontos de vista ordenando a exposição do Projeto: um
mecânico, o outro biológico. Pode-se vislumbrar de
131/301

saída uma das linhas de dificuldade que estará


presente em todo o Projeto, e que diz respeito às pas-
sagens de nível que Freud tem que operar — do físico-
químico para o biológico, e deste para o psicológico.
Em segundo lugar, é interessante observar que o ob-
jetivo inicial de Freud é descrever as bases neurofisi-
ológicas subjacentes à experiência psíquica, pois esta
lhe parecia o caminho para sustentar cientificamente
sua teoria das neuroses. Ele não afirma que pretende
reduzir integralmente o psíquico ao neural. Ainda as-
sim, é possível observar que no Projeto Freud pretende
dar um passo que havia evitado ao escrever o artigo
sobre afasias, cinco anos antes: o de tentar especificar
a natureza neuronal dos processos subjacentes aos
fenômenos psíquicos — mantendo a ênfase nas re-
lações funcionais dinâmicas entre os neurônios e a crít-
ica ao localizacionismo que caracterizam sua posição
teórica desde o texto de 1891. Essa tentativa é aban-
donada com o surgimento de A interpretação dos son-
hos em 1900. Não porque Freud tenha nesse texto
rompido com suas convicções naturalistas — ele jamais
negou a importância do fator econômico na vida
psíquica, e sempre admitiu a necessidade de algum dia
conhecer os processos fisiológicos relacionados à vida
psíquica —, mas porque os impasses enfrentados no
Projeto o convenceram de que essa era uma tarefa para
algum ponto no futuro.
132/301

Finalmente, é preciso lembrar que, por trás do


vocabulário declaradamente fisicalista de suas linhas
iniciais, o Projeto apresenta uma característica muito
peculiar, que o distingue de outras obras contem-
porâneas a ele assemelhadas: as teses que ele propõe,
os conceitos e noções que apresenta, têm como pano
de fundo não a pesquisa em laboratórios, mas a clínica.
É a tentativa de decifração de enigmas acerca da vida
mental, evidenciados pela análise de fatos patológicos,
que leva Freud a construir seus modelos neuronais hi-
potéticos. Apesar da enorme competência de Freud na
pesquisa em neurologia, a postulação do ponto de vista
econômico não deriva do seu estudo dos tecidos
nervosos, mas, antes, das observações dos pacientes,
que não deixavam margem de dúvida quanto ao papel
da intensidade na produção de sintomas psiconeuróti-
cos, especialmente no caso das ideias excessivamente
intensas na histeria e nas obsessões. Freud queria fun-
damentar cientificamente suas descobertas clínicas, e
em 1895 isso significava descrevê-las com base na ciên-
cia natural, ou seja, explicando-as em termos de
partículas materiais, excitações, fluxos, deslocamentos
e de suas leis. Mas a única base empírica de que dis-
punha para descrever os processos mentais eram as in-
ferências obtidas a partir da prática clínica. A partir
delas é que ele pode formular hipóteses sobre os
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mecanismos físicos (as “engrenagens”, como ele


chamou) produtoras dos fenômenos psíquicos.
Para alcançar o objetivo inicialmente declarado,
Freud lança mão de uma terminologia neurológica,
baseada, é certo, no conhecimento acumulado da ciên-
cia da época e no seu próprio passado de pesquisador,
mas de modo algum restrita aos limites do conheci-
mento anatomofisiológico de então. Na construção do
seu modelo de aparelho psíquico, Freud não hesitará
em elaborar hipóteses neurológicas formuladas a partir
da experiência clínica, como é o caso da facilitação das
barreiras de contato e as diferenças funcionais postula-
das entre os sistemas de neurônios, que não estavam
fundadas na observação experimental. Apesar do
caráter prenunciador de muitas das especulações neur-
ológicas elaboradas por Freud, seu valor no Projeto
reside menos na adequação à realidade empírica do
sistema nervoso do que no seu valor heurístico para a
elucidação da dinâmica funcional da vida psíquica. Por
esse motivo, pode-se dizer que, apesar da intenção ini-
cial, a descrição do cérebro no Projeto acaba por se
aproximar mais de um modelo do que seria um órgão
capaz de articular as dimensões da força e do sentido
(revelados na análise clínica da vida psíquica) que da
representação positiva, realista, estritamente mecani-
cista, a que se propõe.
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Os dois teoremas

A partir dessa introdução, Freud apresenta seus


dois teoremas, ou postulados de base: a) a concepção
quantitativa56 e b) a teoria do neurônio. De acordo com
o primeiro postulado, o sistema nervoso está sempre
exposto a excitações internas (vindas da interioridade
corporal) e externas (oriundas do ambiente) que acar-
retam o surgimento de excitações (um quantum de
tensão ou energia) capazes de aumento, diminuição e
deslocamento. Os neurônios podem estar mais ou
menos ocupados por essas excitações, que configuram
o que ele chama de quantidade (Q). O ponto de vista
econômico, que Freud menciona a Fliess ao se referir à
intenção do Projeto, corresponde justamente ao estudo
das variações pelas quais essa quantidade passa —
aumento e diminuição de sua presença nos neurônios,
passagem de um grupo de células para outro, con-
tenção ou ultrapassagem das barreiras intraneuronais,
escolha de caminhos entre vários possíveis etc. Na base
desse processo se encontram dois princípios funda-
mentais: o princípio de inércia e o princípio de con-
stância.57
Freud toma o cérebro como um órgão de homeo-
stase, em permanente atividade de regulação das re-
lações do organismo com o meio.58 O sistema nervoso
é responsável pelo balanceamento das excitações
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internas e externas, de modo a preservar o organismo,


e sua função primordial é se desfazer de toda a carga
de excitação recebida (Q), mantendo, tanto quanto
possível, o organismo em estado de repouso. Isso
porque, para Freud, o aumento da excitação, ou da
quantidade, está associado ao desprazer, e sua diminu-
ição, ao prazer. Haveria então uma tendência natural a
evitar o desprazer, por meio da eliminação das excit-
ações. Freud chamou a isso de princípio de inércia,
que seria responsável pela definição do desenvolvi-
mento e das funções dos neurônios. Freud sabia que os
neurônios se assemelhavam do ponto de vista
anatômico, por isso invoca um fator operatório ou fun-
cional para explicar suas diferenças. É ele que explica a
dicotomia inicialmente apresentada entre neurônios
sensoriais e motores. Os primeiros recebem as excit-
ações, os segundos se livram delas, descarregando-as
por meio de respostas motoras. Além dessa função
primordial, o sistema nervoso apresentaria outra: a de
conservar as vias de escoamento que permitam ao or-
ganismo evitar e se manter afastado das fontes de ex-
citação. Assim, na base do funcionamento do sistema
neural haveria um objetivo, o de manter o organismo
em estado de equilíbrio, realizado por meio de duas
funções principais: a primária, que consiste na
descarga ou eliminação da quantidade; e a secun-
dária, que Freud chama de fuga do estímulo.
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Até esse ponto da descrição do funcionamento do


sistema nervoso, é o impacto com algo externo que o
retira do estado de repouso. Mas vê-se logo que a per-
spectiva puramente mecanicista é incapaz de dar conta
dos fenômenos da vida, tornando necessária a in-
trodução do registro da função biológica. Afinal, o or-
ganismo humano lida não somente com estímulos ex-
ternos, mas também estímulos endógenos, proveni-
entes do próprio corpo e ligados às “exigências da vida”
(Not des Lebens), como a fome, a respiração e a sexual-
idade, das quais o organismo, evidentemente, não pode
fugir. Pelo princípio da inércia, todos esses estímulos
deveriam ser descarregados ou eliminados por meio de
movimentos reflexos. Mas, se o organismo descarre-
gasse toda a energia desses estímulos, não teria como
realizar as ações necessárias à satisfação dessas exigên-
cias. Desse modo, os estímulos externos podem ser
descarregados segundo o modelo do arco reflexo, mas
os estímulos endógenos não. Se tomarmos o exemplo
da fome, veremos que a excitação provocada por ela
não pode ser eliminada simplesmente da descarga da
tensão. Por outro lado, o organismo não pode
esquivar-se desses estímulos. Portanto, nem a descarga
nem a fuga funcionam no caso dos estímulos endó-
genos. Eles só cessam mediante certas ações, diz
Freud, que precisam realizar-se no mundo externo. O
desprazer provocado pelo aumento da tensão só é
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suprimido mediante uma “ação específica”, que per-


mitirá a obtenção do objeto capaz de aplacá-la (no caso
da fome, o alimento).
Para realizar essa ação específica, o sistema nervoso
se vê obrigado a abandonar sua tendência inicial à in-
ércia (reduzir Q a zero), e tolerar a permanência de
uma quantidade mínima de Q suficiente para que o or-
ganismo tenha condições de satisfazer as exigências
energéticas dessa ação, ao mesmo tempo que resiste ao
seu aumento. Por isso, a função primária do sistema
nervoso, a eliminação de Q, é insuficiente e precisa ser
acoplada a essa outra função, conservadora de um
montante de energia necessário à ação, representada
pelo chamado princípio de constância. A articulação
dinâmica entre o princípio de inércia e o princípio de
constância expressa a importância do sistema nervoso
na sustentação de um equilíbrio homeostático na re-
lação entre o organismo e o ambiente. O princípio de
constância, portanto, não se opõe ao princípio de inér-
cia, operando em sintonia com o mesmo objetivo, o de
viabilizar que Q (no caso, as excitações endógenas) seja
descarregada.
O segundo postulado (a teoria neuronal) apresenta
a estrutura orgânica pela qual passam os fluxos de en-
ergia (Q). Essa estrutura é composta por neurônios,
que podem ser ocupados por uma quantidade determ-
inada de Q, ou eventualmente vazios. Essa quantidade
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de energia que pode ocupar um ou vários neurônios


consiste na ocupação (Besetzung) — que na tradução
inglesa das obras de Freud ficou conhecida pelo nome
latino que Strachey infelizmente escolheu, catexia, e
que também foi traduzida como investimento.59 Para
que essa energia não se dissipe, não seja imediata-
mente descarregada (como o princípio de inércia tende
a fazer), é preciso que algo se oponha à sua descarga
total, e funcione como um anteparo, permitindo que a
ocupação se mantenha. Se assim não fosse, o aparelho
neuronal nada mais seria do que um espaço de mera
condução de estímulos, sem nenhuma capacidade de
regulação de suas respostas. Para compreender como
se dá essa regulação da passagem das excitações, Freud
postula a existência de barreiras de contato, responsá-
veis pela constituição de certas vias de facilitação
(Bahnung) entre neurônios, um elemento crucial para
a concepção freudiana de aparelho psíquico. São as
barreiras de contato que tornam possível que certos
conjuntos de neurônios permaneçam investidos, ou
ocupados por um determinado quantum de Q.60

Barreiras de contato e facilitação


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A hipótese das barreiras de contato é uma das mais


importantes do Projeto, não só porque ela antecipa em
dois anos a descrição das sinapses por Foster e Sher-
rington, como porque é base para a explicação da
memória, uma das principais funções do aparelho
neuronal (ao lado da percepção e da consciência).
Apesar de não extraídas de observação empírica — o
que só se tornaria possível muito anos depois, com a
microscopia eletrônica, as hipóteses das barreiras de
contato eram para Freud, como diz Simanke, “mecan-
icamente possíveis, biologicamente úteis, filogenetica-
mente prováveis e psicologicamente esclarecedoras”.61
No Projeto, Freud entende a representação como um
processo cortical dinâmico em que um grupo de
neurônios se encontra ocupado (por estarem suas bar-
reiras facilitadas, como veremos adiante) — o que o faz
pensar a memória (que implica conservação e ressurgi-
mento de uma representação) como a possibilidade de
que certo circuito neuronal, uma vez ativado, possa
num segundo momento ser o caminho percorrido pela
representação, em vez de outros. São as noções de bar-
reiras de contato e facilitação que permitem organizar
o esquema conceitual que explica a memória.
Freud postula inicialmente a distinção entre dois ti-
pos de neurônios: os neurônios permeáveis (que con-
duzem, mas não retêm Q), e neurônios impermeáveis
(que retêm Q). A diferença entre os dois decorre da
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resistência menor ou maior de suas barreiras de con-


tato. Para nomear de forma diferenciada cada um
desses sistemas de células neurais, Freud chamou de
neurônios phi os neurônios que recebem estímulos do
mundo externo, responsáveis pela percepção; e de
neurônios psi os neurônios receptores de estímulos en-
dógenos, que registram as informações que lhe chegam
do corpo. Não se trata, como vimos, de células com es-
truturas diferentes, mas com funções diversas. Ambos
os tipos de neurônios possuem barreiras de contato, e
o que determina a passagem ou a retenção da energia
circulante é uma relação de forças entre a excitação e a
resistência a ela. As barreiras de contato opõem uma
resistência à livre passagem da energia, mas essa res-
istência tem um limite, e pode ser superada, depend-
endo da intensidade do fluxo de estímulos.
Assim, enquanto os neurônios phi, que recebem es-
tímulos muito intensos vindos do exterior, muito su-
periores à capacidade de resistência de suas barreiras,
deixam os estímulos passarem sem oposição, os
neurônios psi, que são atingidos por estímulos inter-
nos, de intensidade mais fraca, conseguem fazer res-
istência a eles. Nos neurônios phi, por conta da não
resistência de suas barreiras à alta intensidade dos es-
tímulos externos, a energia escoa livremente e, após
sua passagem, a célula volta ao estado anterior. É in-
teressante notar que o princípio básico do sistema
141/301

nervoso, ou seja, a descarga de Q, resulta não de uma


propriedade intrínseca a certo tipo de neurônio. É a re-
lação com o ambiente que resulta na diferenciação que
dará origem ao tipo phi de neurônio.
Os neurônios psi, ao contrário dos neurônios phi,
ficam em um estado diferente após a passagem dos es-
tímulos que ultrapassam a barreira de contato. Isso
porque, após vencer o obstáculo interposto pela bar-
reira, a passagem da energia deixa um traço, uma
trilha, que se torna um caminho privilegiado para fu-
turos fluxos de Q. Quando neurônios psi se associam
para pressionar o movimento de descarga e a energia
consegue superar a resistência da barreira, cria-se
naquela barreira uma facilitação, uma permeabilidade
maior a estímulos posteriores. Quando ocorre nova-
mente uma soma de excitação naquele neurônio, ou
naquela rede neuronal, esse caminho estará facilitado e
tenderá a ser percorrido pelo fluxo de energia.
Estabelecem-se assim níveis diferenciados de facilit-
ação e caminhos preferenciais para a passagem dos es-
tímulos. Esses níveis diferenciais ficam registrados e
são ativados quando da existência de novos estímulos.
Freud sugere que esse mecanismo é a base mecânica
da memória — pensada aqui não enquanto conteúdos
psicológicos, mas fundamentalmente como o processo
de trilhamento que a passagem de Q produz. A
142/301

memória seria constituída pelas diferenças entre as fa-


cilitações que as trilhas deixadas por Q possibilitam.
Freud distingue ainda no sistema psi duas regiões,
ou dois complexos neuronais: o núcleo (composto por
neurônios em contato direto com os estímulos oriun-
dos do interior do corpo) e o pallium, ou manto,62 con-
stituído pela parte de psi em contato com os neurônios
phi, e com a consciência (que envolve os neurônios
ômega, apresentados mais adiante). Assim, no núcleo
são formadas as representações originadas de estímu-
los endógenos, e no pallium as representações deriva-
das de estímulos exógenos. Os estímulos que chegam a
phi vindos do mundo externo são em parte descar-
regados pela via dos mecanismos reflexos motores, e
em parte enviados ao pallium, onde a Q do estímulo dá
origem às representações.
Esses dois complexos neuronais se distinguem tam-
bém por outra característica: enquanto o núcleo está
constantemente ocupado, por estímulos endógenos in-
cessantes, na parte do pallium esses investimentos são
variáveis, ligados à experiência de contato com o
mundo exterior. Como veremos adiante, essa variabil-
idade dos investimentos no pallium tem papel funda-
mental na inibição, realizada pelo Eu, dos estímulos
vindos do núcleo. É esse processo inibitório que im-
pedirá que o sujeito seja inteiramente dominado pelos
estímulos internos (regidos pelo que Freud chamará de
143/301

processos primários). Sem a intervenção do mecan-


ismo de inibição representado pelo Eu, o sujeito cor-
reria o risco de ser constantemente levado a experiên-
cias alucinatórias pelo funcionamento sem freios dos
processos primários. O surgimento do Eu propicia o
aprendizado de respostas corretas que permitam ao
sujeito buscar no mundo objetos adequados à sua sat-
isfação. Em outras palavras, institui o aparecimento
dos processos secundários.
Os estímulos externos, embora possam ser muito
intensos, são intermitentes e enfrentam o anteparo e
regulação dos órgãos dos sentidos. É esse mecanismo
que impede que o sistema nervoso seja esmagado pelo
excesso de estimulação, apesar de os neurônios phi se
caracterizarem pela permeabilidade e não oferecerem
obstáculos à passagem dos estímulos. Como esses
neurônios se comunicam diretamente com os órgãos
de sentido, e não com a realidade exterior, contam com
a proteção oferecida por eles. Esses órgãos têm, assim,
dupla função: a de permitir a percepção de fenômenos
ocorridos no exterior, e também a de proteger o sis-
tema nervoso de um excesso de excitação.
A excitação advinda dos estímulos endógenos,
porém, é de natureza constante, e promove uma
exigência ininterrupta de trabalho para o sistema psi. É
essa excitação interna constante que Freud chamou de
“impulso motor [Triebfelder, mola pulsional] do
144/301

mecanismo psíquico”.63 Essa exigência de trabalho é


regulada pela dinâmica facilitação-inibição propiciada
pelas barreiras de contato e pela atividade reguladora
do Eu.
O conceito de facilitação (Bahnung) é um dos mais
importantes do Projeto, e um dos mais revisitados hoje
em dia, por conta das investigações neurocientíficas
atuais acerca dos vários tipos de memória. Ele é o
conceito-chave para o entendimento da memória que
se forma no sistema psi por meio das facilitações que
se estabelecem entre seus neurônios. O importante no
conceito é que ele não trata apenas da facilitação do es-
coamento da quantidade (isto é, da passagem da ener-
gia por um ou mais neurônios), mas de todo um sis-
tema de caminhos, dificuldades e facilitações que per-
mitem o estabelecimento de algumas rotas privilegia-
das e reforçadas (pelo uso repetido) e outras que,
apesar de abertas, vão se fechando por desuso. A
memória, diz Freud, se baseia na ativação diferencial
de células nervosas, e é constituída pelas diferenças
dentro das facilitações entre os neurônios. Essas difer-
enças formam uma rede complexa de diferenciais de
facilitação-resistência. Cada facilitação nas barreiras
de contato de determinado complexo neuronal diminui
a resistência posterior à passagem da energia por
aquele caminho, por aquela trilha. Desse modo, ele se
torna um caminho preferencial, privilegiado em
145/301

relação a outro possível. Isso significa, então, simul-


taneamente, o surgimento de uma resistência a que a
passagem se dê por outro caminho. Facilitação e res-
istência, portanto, são duas faces do mesmo fenômeno.
É exatamente essa produção de caminhos preferenciais
que ajuda a explicar a memória. Se as excitações circu-
lassem de maneira livre em todas as direções, ou seja,
se a facilitação fosse igual em todas as partes do sis-
tema, não se poderia explicar por que um caminho é
privilegiado, e não outro.
Mais importante ainda é o fato de que a organização
desse complexo de trilhas não é estática, e sim dinâm-
ica. Em função das exigências da vida presente, as
marcas mnêmicas, ou seja, as facilitações deixadas
pelos percursos anteriores, vão sofrendo um processo
de reordenamento, de modo que a rede de facilitações
nunca permanece igual por muito tempo. Isso signi-
fica, portanto, que a memória não é a reprodução
idêntica de um traço inalterado. O entrelaçamento e a
mobilidade das redes de facilitação fazem com que, na
realidade, a reprodução idêntica de um traço se torne
praticamente impossível.
Esse processo de constante consolidação e reconsol-
idação dinâmica dos traços ou trilhas deixados pela ex-
periência na rede neural está também relacionado ao
fenômeno (hoje imensamente estudado) da plasticid-
ade neuronal — a capacidade do cérebro de se
146/301

reorganizar em função da experiência formando novas


redes neurais ao longo da vida e forjando, no plano
neural, a singularidade de cada sujeito.

Qualidade, consciência e o sistema ômega

Os processos que se dão nos sistemas phi (per-


cepção) e psi (memória, associação) são incon-
scientes.64 Freud está ciente, porém, de que “toda teor-
ia psicológica, além de satisfazer os requisitos do ponto
de vista da ciência natural, deve cumprir ainda outro,
mais fundamental. Ela tem de nos explicar tudo o que
já conhecemos, da maneira mais enigmática, através
de nossa consciência”.65 Nesse ponto Freud esbarra
nos limites de sua petição quantitativista inicial. Os
sistemas phi e psi pretendem dar conta da quantidade,
mas a consciência é por definição o campo da qualid-
ade, essa é a sua característica fundamental. E qualid-
ade não pode ser simplesmente deduzida da quan-
tidade, não pode ser descrita em termos meramente
objetivos. Freud precisa encontrar outra origem para
ela. A maneira como o sistema phi é definido permite
descrever, por exemplo, como estímulos ligados às
cores de um morango maduro podem chegar ao sis-
tema nervoso, mas nada esclarece acerca da percepção
147/301

consciente de estar vendo o vermelho característico da


fruta, com sua tonalidade, brilho etc. Como com-
preender a passagem do funcionamento neural para a
experiência dos qualia (qualidades subjetivas da ex-
periência)? Freud reconhece que não é capaz de expli-
car como processos excitatórios nos neurônios
produzem a experiência consciente que os acompanha,
e se restringe a sugerir o que seriam os concomitantes
neuronais dos processos conscientes.
Como os sistemas phi e psi não são capazes de ex-
plicar a experiência subjetiva, Freud é levado a supor a
existência de um terceiro sistema, que denomina de
sistema ômega, ligado à produção de experiências con-
scientes, e assim define a consciência como “o lado
subjetivo de uma parte dos processos físicos do sistema
nervoso, isto é, dos processos ômega”.66 Mas a saída
engendrada para dar conta das qualidades da exper-
iência consciente não é simples, pois nem o modelo
físico-mecânico nem o modelo biológico (fundado em
termos evolutivos) aos quais Freud recorre são capazes
de dar conta do problema. Como o princípio funda-
mental do funcionamento do sistema nervoso é a dis-
sipação de energia (quantidade), com a proposição dos
neurônios ômega, Freud tenta enfrentar a questão dos
qualia da consciência sem abandonar a argumentação
inicial do Projeto, fundada nos quanta. Aos mecanis-
mos de descarga e fuga do estímulo, ele acrescenta
148/301

uma nova forma de supressão da quantidade, que é


justamente sua transformação em qualidade sensível.
O problema é entender como essa transformação se dá.
Sobre isso, muitos anos depois, Lacan dirá:

Encontramo-nos aqui, pela primeira vez, com essa


dificuldade que se reproduzirá ao longo de toda a
obra de Freud — o sistema consciente, não se sabe o
que fazer com ele. É preciso atribuir-lhe leis inteira-
mente especiais, colocá-lo fora das leis de equivalên-
cia energética que presidem as regulações quantit-
ativas.67

Depois de admitir que só com o recurso a “hipóteses


complicadas e pouco óbvias” ele consegue incluir os
fenômenos da consciência na estrutura de sua psicolo-
gia quantitativa, Freud deixa de lado a tarefa de expli-
car como se dá a transformação da quantidade em
qualidade, e procura se concentrar em esclarecer as
condições e processos materiais biológicos que a tor-
nam possível:

Naturalmente, não se pode tentar explicar por que os


processos excitatórios nos neurônios ômega trazem
consigo a consciência. Trata-se apenas de estabelecr
uma coincidência entre as características da con-
sciência que conhecemos e os processos nos
149/301

neurônios ômega. E isso, em certos pormenores, é


bastante possível.68

Freud parte da suposição de que a própria ar-


quitetura do sistema neuronal possua “alguns disposit-
ivos capazes de transformar a quantidade externa em
qualidade”. Como essa seria uma forma de afastar a
quantidade (tendência primordial do sistema), a qual-
idade seria uma resultante do próprio aparelho neur-
onal, ou seja, Freud continua em busca de uma
descrição naturalística dos fenômenos psíquicos. Mas a
questão permanece: como a quantidade poderia dar
origem à qualidade?
A solução encontrada é sugerir que os fenômenos
qualitativos da consciência resultam não do movi-
mento de partículas materiais quantificáveis (as leis
gerais do movimento aludidas logo no início do Pro-
jeto), mas de outro fator, de natureza não espacial, até
então ausente nas suas descrições: as diferenças nas
características temporais dos processos neuronais. Na
transmissão neuronal, postula Freud, haveria uma ca-
racterística que não se deixa reduzir a Q: um fator tem-
poral referido ao período de transmissão dos estímu-
los, cujas diferenças seriam responsabilidade dos ór-
gãos dos sentidos, que filtrariam os estímulos, deixan-
do passar estímulos de certos processos com períodos
de excitação determinados. Os neurônios ômega,
150/301

diferentemente dos phi e dos psi, não funcionariam


apenas como base na condução, facilitação ou resistên-
cia às passagens das excitações, mas seriam também
capazes de apreender essas diferenças temporais.
Desse modo, por suas características, o sistema
ômega se configura como um sistema diferente dos
sistemas phi e psi, embora mantenha com eles relações
necessárias. Os neurônios ômega não retêm Q, mas
são capazes de se apropriar do período de excitação. É
esse estado de “afecção pelo período” que o sistema
ômega transmite para o sistema psi sob a forma de si-
gnos de qualidade, ou signos de realidade, que Freud
indica como o fundamento da consciência. Vê-se que
Freud não diz como exatamente se dá o processo por
meio do qual o período de excitação faz emergir a qual-
idade. Ele se contenta em formular uma descrição hi-
potética que lhe permita manter a ideia básica de que
fenômenos psicológicos e fenômenos neurais ocorrem
em paralelo. Quando a neurologia da época não lhe
permite responder a questões levantadas por sua in-
vestigação, ele passa sem problemas do conhecimento
neurológico estabelecido para a especulação neuroló-
gica. Retomando sua argumentação, os neurônios
ômega respondem não a quantidades, mas à temporal-
idade, o que assinala um reparo, ou acréscimo, a uma
das postulações iniciais do Projeto. Agora temos, na
base da vida psíquica, não apenas Q e neurônios, mas a
151/301

consciência e a temporalidade. O funcionamento da


consciência — ou seja, a percepção e experimentação
das qualidades — sofre o impacto das vivências funda-
mentais: a satisfação e a dor.

A vivência de satisfação

A vivência de satisfação é uma das ideias mais fun-


damentais do Projeto e permanecerá como um dos pil-
ares da psicanálise. Ela é fundamental para com-
preender como o aparelho psíquico é estruturado e
como se dá a emergência do desejo. Desse modo, ela é
o ponto de partida para o entendimento do que carac-
teriza a subjetividade humana, e que a distingue de
outras formas de vida mental. É a partir dela que po-
demos compreender a origem dos afetos. É nela que
reconhecemos o papel crucial da alteridade na con-
stituição do sujeito. É dela que inferimos como o indi-
víduo é introduzido na ordem simbólica. Finalmente,
dela extraímos a fonte originária da moralidade
humana.
A fonte da experiência de satisfação é a prematurid-
ade que caracteriza a espécie humana e a lança numa
condição de desamparo original. No início da vida o ser
humano se encontra em um estado de dependência
152/301

total, incapaz de dar conta de sua sobrevivência. O be-


bê é exposto a estados de necessidade ou privação que
produzem tensões internas que precisam ser descar-
regadas para que o desprazer provocado por elas possa
ser controlado. Como os neurônios nucleares em psi
estão em permanente contato com as fontes internas
de excitação que atuam de forma contínua, o sistema
psi tem uma propensão à descarga, uma urgência em
se desfazer de Q pela via motora, aquilo que Freud
chama de “mola pulsional do psiquismo”. O objetivo da
descarga é sempre o de reduzir a tensão em psi, o que
só ocorrerá se a fonte do estímulo for eliminada.
Quando o bebê é tomado pelo desprazer provocado
por uma necessidade vital (a fome, por exemplo), o
aumento de tensão no sistema psi nuclear provoca o
ato reflexo de descarga, segundo o princípio funda-
mental de funcionamento do sistema. Essa descarga,
que se expressa no grito, no choro, na agitação, é, nesse
momento inicial, a única resposta que o bebê é capaz
de dar a seu mal-estar. Mas por si só ela é incapaz de
acabar com o desprazer da fome. O estímulo continu-
ará presente, causando a sensação de desprazer em
ômega. Para a obtenção do alívio, torna-se necessária
uma “ação específica” que elimine a fonte de tensão —
a provisão de alimento, no caso da fome. Algo deverá
ocorrer no ambiente para que o processo de soma de
excitações, e a correlata experiência de desprazer,
153/301

sejam interrompidos. Aqui se evidencia o papel funda-


mental da alteridade no acionamento dos processos
constituintes do psiquismo. Sem o acolhimento e o
cuidado de um outro humano, a própria sobrevivência
física do bebê não estaria assegurada.
Os gritos, a agitação e o choro do bebê são perce-
bidos pelo cuidador como uma demanda. O que era
apenas um organismo reagindo a estímulos passa a ser
visto como um sujeito em busca de comunicação. O
outro decifra, nomeia e atende à necessidade que ele
acolhe como uma demanda. O que era apenas descarga
de tensão pela via motora ganha sentido e é introduz-
ido como uma mensagem no universo simbólico in-
stanciado pela presença de outros humanos ao seu
redor. Desse modo, à função primeira de descarga se
acrescenta outra, secundária — a de comunicar um es-
tado de necessidade, e um apelo. A experiência de ago-
nia e vazio causada pela fome é transformada em ex-
periência de plenitude e satisfação pela provisão ad-
equada que ela recebe do ambiente, na oferta do leite
materno. Uma forma de comunicação se estabelece
naturalmente entre a subjetividade em formação do
bebê e a subjetividade formada da mãe. Freud resume:
“Esta via de descarga adquire, assim, a import-
antíssima função secundária da comunicação, e o des-
amparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial
de todos os motivos morais.”69
154/301

O atendimento à necessidade por meio do objeto


oferecido pelo outro produz a inscrição de um traço
mnésico (uma imagem mnêmica) do objeto que propi-
ciou a satisfação (o seio, a mamadeira ou algo que fun-
ciona como representação parcial da figura materna).
No estado de necessidade anterior, o montante de ex-
citação havia transposto as barreiras que separam psi
do interior do corpo, alcançando ômega e provocando
a sensação consciente de desprazer e a reação reflexa
de descarga. Após a ação específica destinada a atender
à exigência causadora da excitação, o montante de Q
volta a um nível mais baixo e, embora constante, per-
manece agora abaixo do limiar imposto pelas barreir-
as. Por um tempo, o sistema volta a um estado de
equilíbrio, e o desprazer da fome desaparece. Daí por
diante, cada vez que se repetir o estado de tensão,
haverá um impulso psíquico para ocupar as imagens
mnêmicas (representações) do objeto que propiciou a
vivência de satisfação original. É a esse impulso que
Freud chama de desejo, e a ocupação dessa repres-
entação, realização do desejo. A satisfação obtida na
experiência da primeira mamada e os traços por ela
deixados ficam inscritos no aparelho psíquico, que daí
por diante tenta revivê-la na sua plenitude, fracas-
sando inevitavelmente. A satisfação da primeira exper-
iência, e seu objeto, estão perdidos para sempre. Esse
objeto, marca da primeira perda, da falta que precipita
155/301

a emergência de um movimento incessante em busca


da reedição da satisfação originária, é o que Freud
chama de das Ding, a Coisa, que Lacan trará para o
centro de sua teoria do desejo.
Segundo Freud, como consequência da vivência de
satisfação, três coisas ocorrem no sistema psi: 1) a
eliminação do impulso que havia provocado desprazer
em ômega; 2) o surgimento no pallium (neurônios psi
em contato com phi e com a consciência) da ocupação
ou investimento de um conjunto de neurônios que cor-
respondem à percepção de um objeto (que propiciou a
satisfação); e 3) a chegada a outras regiões do pallium
de informações acerca da eliminação da tensão propor-
cionada pela ação específica. Entre esses investimentos
no pallium e os neurônios nucleares se forma então
uma facilitação, uma via privilegiada de descarga.
Freud explica essa facilitação pela “lei fundamental de
associação por simultaneidade”, segundo a qual, toda
vez que um conjunto de neurônios é investido ou ocu-
pado simultaneamente, se estabelece automaticamente
uma facilitação maior entre suas barreiras de contato.
Assim, quando ocorrer o “reaparecimento do estado
de urgência ou de desejo”, o sistema psi tenderá a repe-
tir o mesmo caminho bem-sucedido anteriormente, in-
vestindo as mesmas trilhas neuronais para alcançar o
mesmo objeto que antes resultou na eliminação da
fonte de desprazer. Tudo ocorre como na percepção
156/301

original, mas, se o objeto real não estiver presente, a


fonte de desprazer não é eliminada, não acontece a sat-
isfação esperada, e a tensão permanece. O que ocorre
então é uma ocupação intensa da representação desse
objeto (o traço mnésico), ativado pelo desejo. O res-
ultado é algo idêntico a uma percepção na ausência de
um objeto, ou seja, uma alucinação — o que resulta in-
evitavelmente em frustração, já que na inexistência do
objeto real não haverá satisfação, e o desprazer seguirá
crescendo. Para não ficar preso a esse circuito (que
Freud qualifica de processo primário), o bebê precisa
encontrar meios de diferenciar objeto e representação,
evitando a confusão entre percepção real e alucinação,
crucial para a sua sobrevivência. Freud chamará a es-
trutura interna capaz de fornecer esses meios de Eu.
Mas como se explica a emergência do desejo nos hu-
manos, já que o circuito privação-tensão-oferecimento
do objeto-satisfação também pode ser suposto em
qualquer mamífero? Aqui entra o papel crucial da lin-
guagem e da ordem simbólica na inauguração do
psiquismo humano. As manifestações corporais da cri-
ança na primeira experiência de satisfação estão despi-
das de qualquer intencionalidade comunicativa. O be-
bê não comunica nada, apenas reage ao mal-estar que
sente. Suas reações só ganham sentido na medida em
que o outro, a mãe, envolve aquela manifestação errát-
ica com uma significação, tomando-a como uma
157/301

demanda. Ao interpretar o grito como um apelo, a mãe


refere a experiência da criança ao campo semântico e
ao universo linguístico nos quais ela própria está
tomada, ao campo desejante do qual ela já faz parte.
Assim, desde o início a existência humana é regida pela
presença da linguagem, que medeia e modula a relação
entre seus impulsos e os objetos para os quais se desti-
nam. O universo infinito de sentidos propiciado pela
linguagem subverte a relação direta entre necessidade
e objeto, criando um campo em que o desejo se volta
para objetos que se multiplicam, se substituem, se des-
locam, jamais reeditando a experiência originária de
plena satisfação.
A vivência de satisfação é um dos pontos do Projeto
em que mais claramente se evidencia como, ao longo
de sua elaboração, a máquina fisicalista de início ima-
ginada vai sofrendo uma metamorfose. No momento
inaugural do psiquismo, os mecanismos da máquina
neurobiológica humana mostram sua imbricação ori-
ginária com o plano da intersubjetividade. A ordem
natural e a ordem simbólica precisam necessariamente
se entrecruzar para que a vida psíquica tenha lugar.

A vivência de dor
158/301

O sistema nervoso dispõe de dois mecanismos para


responder à invasão de quantidades excessivas Q ori-
undas quer das fontes endógenas, quer dos estímulos
externos: a descarga e a fuga. O que acontece quando
uma quantidade excessiva de Q penetra no sistema
nervoso e esses mecanismos falham? O sistema entra
em estado de sobrecarga, e do ponto de vista subjetivo
sobrevém a vivência da dor. A dor é o resultado de
quantidades desmesuradas de Q que ultrapassam os
dispositivos de proteção dos neurônios phi e atingem
os neurônios psi. O excesso de Q pode resultar no
rompimento da proteção oferecida pelos órgãos dos
sentidos e pelas barreiras de contato, provocando uma
permeabilidade sem reservas no sistema neural, po-
dendo levar ao desaparecimento ou à suspensão das fa-
cilitações existentes em psi. Quando as defesas são su-
peradas pela intensidade de Q, ocorre um processo de
desdiferenciação das trilhas de facilitação, um processo
disruptivo. A dor, no Projeto, é um dos processos mais
importantes do funcionamento do sistema nervoso, o
que se pode notar pelo fato de tanto a função primária
quanto a secundária terem como objetivo evitá-la.
Freud distingue a dor do desprazer, que é sucinta-
mente descrito como a qualidade peculiar, ou a exper-
iência qualitativa da dor. Ela implica, portanto, não
apenas quantidade (presença excessiva de excitação),
159/301

mas também qualidade (sentimento de desprazer em


ômega).
A dor, diz Freud, produz três coisas no sistema psi:
primeiro, um aumento de tensão que é experimentado
como desprazer pelo sistema ômega; segundo, uma
tendência à descarga ou eliminação da tensão pela via
reflexa; e terceiro, uma facilitação entre os caminhos
dessa descarga e a imagem mnêmica do objeto que
causou a dor, ou seja, uma tendência a desinvestir essa
imagem, uma propensão a negar a existência do objeto
hostil — uma tendência que Freud chama de defesa
primária, que ele identifica ao recalcamento. Desse
modo, enquanto a vivência de satisfação propicia,
quando o objeto inicial é reinvestido, o aparecimento
da alucinação positiva, a vivência de dor torna possível
a alucinação negativa.
Quando ocorre uma reocupação na representação
do objeto hostil, uma recordação, o que surge não é a
reprodução da dor original, mas um afeto, que se
assemelha à dor por incluir desprazer e inclinação à
descarga. Freud tem um problema para explicar como
isso pode se dar, já que uma recordação é somente
uma representação, sendo, portanto, muito menos in-
tensa do que a percepção efetiva de um estímulo exter-
no (origem da dor inicial). Assim como a ideia de
neurônios ômega é lançada para dar conta da con-
sciência, que não podia ser explicada pela ação dos
160/301

neurônios phi e psi, aqui também Freud lança mão de


um outro tipo de neurônio, os neurônios-chave. Esses
neurônios seriam ligados às representações dos objetos
hostis (a identificação do objeto como hostil dependerá
da atividade do Eu), e quando excitados liberariam
grandes quantidades de Q em psi (por isso são também
chamados de neurônios secretores). Para evitar que
esses estímulos cheguem ao sistema ômega, causando
desprazer, aciona-se o mecanismo de defesa, que evita
a manutenção da ocupação na representação do objeto
hostil por meio de uma descarga imediata, liberada
pelo afeto. Essa ideia, que no Projeto é descrita em ter-
mos neuronais, já estava presente em textos anteriores
nos quais Freud tenta elucidar a formação dos sinto-
mas neuróticos.
As duas vivências fundamentais formam então dois
tipos de circuito. Enquanto a vivência de satisfação
daria origem ao estado de desejo, que pode levar à alu-
cinação, à descarga motora ineficiente, a vivência de
dor teria como consequência o surgimento de afetos e
da defesa. Freud vai identificar nesses circuitos dois
mecanismos básicos do funcionamento psíquico: a at-
ração pelo objeto do desejo, e a repulsa, ou aversão,
pelo objeto hostil. Em outras palavras, a atração de
desejo e a defesa primária.
A hipótese da vivência de dor como um dos fatores
estruturantes do psiquismo e chave para a
161/301

compreensão das neuroses não teve o mesmo destino


da vivência de satisfação. Enquanto esta se encontra no
centro de A interpretação dos sonhos por sua ligação
com o desejo, a vivência de dor submergiu junto com a
teoria da sedução. Na época do Projeto, Freud procura
explicar a histeria como efeito de uma experiência real,
pensada a partir do modelo da dor, ocorrida na infân-
cia e percebida em seu caráter traumático a partir da
puberdade. Quando Freud é forçado a admitir que as
representações recalcadas não estão ligadas necessari-
amente a ocorrências reais, mas sim a fantasias sexuais
infantis (a ideia da sexualidade infantil que ainda não
está presente no Projeto), e conclui que o recalque in-
cide não sobre a lembrança de fatos, e sim sobre dese-
jos, o poder heurístico da vivência de dor para explicar
a neurose se esvai. Só a partir de Além do princípio do
prazer (1920), e depois em Inibição, sintoma e angús-
tia (1926), a vivência de dor reaparecerá com força na
teorização freudiana, inscrita na noção de trauma.

O Eu

O Eu descrito no Projeto não deve ser confundido


com a consciência, com uma projeção da totalidade do
aparelho psíquico, nem com o sujeito da percepção ou
162/301

do desejo. Ele não é uma instância psicológica, é uma


organização composta por uma rede de neurônios per-
manentemente ocupados por Q no interior do sistema
psi (estando, portanto, fora da consciência, atributo do
sistema ômega), capaz de interferir na livre circulação
de Q, e cuja principal função é inibir a ocupação nas
representações ligadas a objetos percebidos como
propiciadores de satisfação ou hostis.
O Eu é composto de uma parte constante e outra
variável. A parte constante é constituída pelos chama-
dos neurônios do núcleo, em contato direto com a in-
terioridade do corpo. A parte variável é composta pelos
neurônios do pallium (ou manto), em contato com o
sistema phi e com a consciência. Como o núcleo de psi
dispõe de um quantum constante proveniente do in-
terior do corpo, parte dessa energia é utilizada no dire-
cionamento dos processos associativos que regulam as
passagens de energia pelas facilitações estabelecidas,
inibindo ou franqueando o fluxo em direção a objetos
adequados (ou seja, inibindo o impulso do processo
primário e possibilitando os processos secundários).
É importante notar que o Eu do Projeto não é um
agente anterior ao conjunto de facilitações ativadas.
Embora descrito como o responsável pela regulação
dos processos de inibição sobre os processos primári-
os, ele é, antes, a expressão dessa regulação. Como
essa regulação está referida ao processo de
163/301

reorientação presente no sistema de facilitações nas


redes neuronais, o Eu tampouco pode ser pensado
como uma estrutura fixa, mas como uma organização
que se modifica em função da experiência, tendo con-
tornos provisórios. Ele não é uma organização uni-
ficada, mas uma síntese, ou uma sucessão de sínteses
de natureza parcial. Ele é o estado da arte dos pro-
cessos reguladores levados a cabo no sistema psi. Nas
palavras de Freud, o Eu é “a totalidade das ocupações
psi existentes num dado momento”.70
A função primordial do Eu é inibir o processo alu-
cinatório, impedindo que o objeto de desejo (no caso
da repetição da vivência de satisfação) ou o objeto hos-
til (no caso da vivência de dor) sejam percebidos como
presentes quando de fato estão ausentes no mundo ex-
terno. Para isso ele depende de uma diferenciação
clara entre representação e percepção que é propi-
ciada pelo sistema ômega, que envia “signos de realid-
ade” para psi. Essa diferenciação sustenta a diferen-
ciação entre processos primários e processos
secundários.

Processos primário e secundário


164/301

Entre as noções propostas no Projeto, as de pro-


cesso primário e processo secundário estão entre as
que mais tiveram importância para a teoria psicanalít-
ica. A oposição entre eles reverbera a distinção entre
princípio do prazer e princípio de realidade, e diz re-
speito a dois modos de circulação da energia psíquica:
a energia livre (processo primário) e a energia ligada
(processo secundário). A atuação do Eu na regulação
desses modos de circulação é determinante para o
equilíbrio interno do aparelho psíquico. Isso porque,
sem ele, o psiquismo tenderia a repetir compulsiva-
mente, a cada estado de necessidade, o mesmo circuito
que antes deu origem à satisfação. Como a experiência
de satisfação dá origem a uma facilitação que liga a im-
agem do objeto à imagem do movimento de descarga
que desfez o desprazer e produziu a satisfação, a
tendência do organismo é repetir o circuito: quando
ressurge o estado de necessidade, as duas imagens são
reativadas, e a imagem do objeto tende a levar à
descarga. Mas a reocupação do traço mnésico deixado
pela experiência de satisfação não significa que o ob-
jeto percebido seja real — pode se tratar apenas de sua
representação, de sua imagem mnêmica. Como o sis-
tema psi não tem como estabelecer uma distinção
entre uma coisa e outra, a tendência será sempre a de
precipitar a mesma descarga produzida quando da
presença de um objeto externo. Portanto, o circuito
165/301

tende sempre a ser acionado visando à descarga. Mas a


satisfação não será alcançada se a descarga visar a uma
alucinação (representação sem objeto), e não a um ob-
jeto real. O resultado inevitável será a frustração.
Para funcionar de maneira eficiente, o organismo
precisa de um critério que distinga a percepção do ob-
jeto e a lembrança (ou representação) deste, e é esse o
papel do princípio de realidade — operado por meio
dos signos de realidade que o sistema ômega (que
comporta a percepção-consciência) envia para o sis-
tema psi. Esses signos são produzidos tanto no caso de
estímulos externos quanto internos, mas de modo
diferente. No primeiro caso são produzidos de forma
constante, a despeito da intensidade do estímulo. No
caso das excitações endógenas, oriundas do sistema
psi, no entanto, esses signos só ocorrem quando a ocu-
pação for de grande intensidade. Nesse caso, cabe ao
Eu franquear a passagem do estímulo em direção à
descarga (quando houver um objeto para o qual possa
ser dirigido), ou inibir essa descarga (quando o objeto
estiver ausente), permitindo o reconhecimento de que
se trata de uma representação apenas, e não de um
objeto.
Os processos primário e secundário são, portanto,
internos ao sistema psi, e dizem respeito à regulação
da atividade neuronal desse sistema, passando-se fora
do âmbito da consciência (propiciada pelo sistema
166/301

ômega). Os processos primários são aqueles não ini-


bidos pelo Eu, e que acabam levando à experiência de
alucinação do objeto ou à defesa primária. À diferença
do que ocorre nos processos primários, nos processos
secundários a atividade inibitória do Eu permite que
sejam levados em conta não apenas o interno, mas
também o externo, por meio da utilização dos signos
de realidade.
Os processos primários, regidos pelo princípio do
prazer, operam mais próximos do princípio de inércia,
expressando a tendência fundamental da vida psíquica,
que é evitar o desprazer (causado pelo aumento da
tensão) por meio da descarga da excitação pelos cam-
inhos mais diretos e imediatos, usando para isso as im-
agens (representações) mnêmicas do objeto desejado
na vivência inicial, e as vias utilizadas anteriormente,
já facilitadas. Os processos secundários, regidos pelo
princípio da realidade, surgem a partir do momento
em que se torna possível lidar de maneira não
automática com o aumento das excitações, possibilit-
ando que a inibição da descarga imediata abra espaço
para que seu escoamento se dê na direção mais ad-
equada, evitando assim a frustração inevitavelmente
provocada na experiência alucinatória do objeto de
desejo. São, assim, essenciais à sobrevivência do indi-
víduo diante das exigências da vida. Entre os processos
167/301

secundários viabilizados pela atividade do Eu se en-


contra o pensamento.

O pensamento e a realidade

Para Freud, o pensamento surge a partir da exper-


iência primordial de satisfação, e é composto pelos
processos acionados entre o aparecimento do desejo e
a sua satisfação — processos que têm em sua origem
um objetivo prático (visam à realização do desejo), e,
assim como os demais fenômenos mentais, não podem
ser imaginados como independentes dos processos de
descarga. Como surge o pensamento? Freud afirma
que ele surge primeiramente para estabelecer um es-
tado de identidade entre uma representação mnêmica
ligada ao objeto de desejo e uma percepção, que é
seguida pela descarga. Em outras palavras, o
pensamento surge para possibilitar a efetiva satisfação
do desejo. Um pouco adiante detalharemos isso. A
partir dessa forma originária, surge uma modalidade
secundária de pensamento, cujo objetivo é o reconheci-
mento dos objetos. Embora tenha um objetivo imedi-
ato diferente da satisfação de desejo, essa modalidade
de pensamento também contribui para essa meta, na
168/301

medida em que o reconhecimento dos objetos está lig-


ado à realização de ações específicas.
Freud qualifica esses dois tipos de pensamento
como cognitivo ou judicativo (que envolve uma ativid-
ade de julgamento), e reprodutor (que compreende as
atividades de recordar, desejar e ter expectativas). Am-
bos são processos secundários. O estado de identidade
visado por eles, como veremos, é inteiramente difer-
ente da identidade alucinatória promovida pelo pro-
cesso primário. Para que o pensamento possa surgir,
diferenciando a identidade real (entre uma percepção e
seu objeto) da identidade alucinatória (de uma per-
cepção sem objeto), é necessária a mediação do Eu, a
organização neurobiológica inscrita em psi que é re-
sponsável por viabilizar a relação do organismo com os
objetos do mundo externo com base nos signos de real-
idade enviados por ômega.
O pensamento judicativo é anterior ao pensamento
reprodutivo, e prepara o seu caminho, oferecendo a
este trilhas facilitadoras da identidade procurada: “Se,
uma vez concluído o ato de pensamento, o signo de
realidade se soma à percepção, obtém-se um juízo de
realidade, uma crença, atingindo-se com isso o objet-
ivo de toda essa atividade.”71 Como salienta Garcia-
Roza,72 é interessante observar o uso, por Freud, da
palavra crença como equivalente ao juízo de realidade.
Isso contém uma premissa filosófica fundamental, a de
169/301

que um juízo de existência tem sempre o estatuto de


uma hipótese. A realidade sempre nos aparece na
forma de um juízo, de uma crença, de uma hipótese
que constituímos para dar uma forma ao real. Em out-
ras palavras, o que chega ao sistema psi não é a realid-
ade ela mesma, mas signos que a representam. O juízo
de realidade é fundado numa crença.
Isso implica que a relação com a realidade externa
nunca é direta e inequívoca, mas mediada e sempre
sujeita ao engano. Essa equivocidade não é o resultado
de uma aproximação inexata, ou uma relação compro-
metida, com a realidade. Ela é seu traço essencial, fun-
damental. A mente não espelha a realidade, ela con-
figura o real de forma a que seja apreensível, ela con-
stitui uma realidade, num processo que se desdobra no
tempo. O que os processos secundários nos permitem
não é um acesso direto ao real, mas um processo su-
cessivo de retificações, feitas em função das exigências
impostas pela vida. Há sempre um resto, algo não as-
similado, subtraído à apreciação judicativa, que per-
manece não representado, estranho, ao mesmo
presente como o elemento inapreensível em torno do
qual se organiza a cadeia de representações. Há
sempre algo impossível de ser assimilado pela repres-
entação. É importante sublinhar que Freud ainda está
descrevendo os processos básicos do pensamento, nos
quais a linguagem simbólica ainda não fez sua entrada
170/301

plena na vida psíquica. Com o surgimento da lin-


guagem simbólica, essa mediação entre o organismo e
o meio, inicialmente propiciada pelo Eu, sofre um salto
ontológico fundamental com a emergência do sujeito.
Como já foi dito, o pensamento judicativo, que pre-
para o caminho para o pensamento reprodutivo, opera
distinguindo a percepção da representação. Essa dis-
tinção é possível por conta dos signos de realidade que,
enviados por ômega, indicam ao Eu, integrante do sis-
tema psi, que se trata de uma percepção, ou seja, de
um objeto real. Essa distinção, que expressa uma
atividade de julgamento, mostra a atividade inicial do
pensamento. O mecanismo que possibilita essa dis-
tinção é o que Freud chama de atenção psíquica. Como
ele se dá? Surge um estado de excitação no núcleo do
sistema psi, que caracteriza um estado de desejo. Esse
estado tem sua origem na vivência originária de satis-
fação, da qual é uma repetição. No pallium do sistema
psi ficam armazenadas imagens mnêmicas dos objetos
externos já percebidos, assim como as imagens motor-
as das descargas propiciadas pela realização da ação
específica. A experiência de satisfação inicial produz
uma cadeia de associações (as trilhas de facilitação)
entre o estado de excitação do núcleo e essas imagens
do objeto e das vias motoras. Quando a tensão
aumenta novamente no núcleo por conta de estímulos
endógenos, o pallium reinveste as representações dos
171/301

objetos que antes propiciaram a satisfação. Uma regu-


lação dessa ocupação se torna necessária, porque, se a
ocupação nessa representação for idêntica à que ocor-
reu na primeira vez, será impossível discernir entre um
objeto real e a lembrança dele. Na ausência de um ob-
jeto real, ocorrerá uma alucinação. Para que isso não
aconteça, é preciso que o Eu iniba a descarga da quan-
tidade até que se estabeleça essa distinção. Quando os
signos de realidade chegam a psi, indicando que há
uma percepção, e que esta percepção é idêntica à rep-
resentação ativada, o Eu libera o circuito neural invest-
ido pelo desejo e a descarga ocorre, realizando o
desejo.
No pensamento reprodutor, que abarca funções
como lembrar, querer, desejar, esperar, o mecanismo
da atenção psíquica opera não apenas com repres-
entações que apresentam graus diferentes de semel-
hança. Pode ocorrer que o objeto da percepção não
corresponda em nada ao objeto da satisfação. Esses ob-
jetos, no entanto, também despertam interesse porque
o seu rastreamento pode eventualmente conduzir a al-
guma via em direção ao objeto original. Cria-se desse
modo um outro tipo de pensamento, não diretamente
ligado ao objetivo de descarga inerente à realização do
desejo, e que se mantém na exploração dos objetos, nas
recordações, na construção de expectativas,
realizando-se como “ato puro de pensamento”. O
172/301

pensamento reprodutor é desinteressado, no sentido


de não estar ligado a fins práticos imediatos. Ele visa a
explorar as possibilidades que se abrem por meio das
associações que ele próprio vai criando.

O pensamento e a linguagem

Como vimos, a função da linguagem na vida


psíquica já havia sido um tópico essencial no trabalho
de Freud sobre as afasias, em 1891. Contrariando o loc-
alizacionismo cerebral então vigente no estudo dos
fenômenos patológicos ligados à fala, Freud descreveu
o aparelho de linguagem como uma trama não localiz-
ada em pontos isolados, uma rede de associações e rep-
resentações operando ao longo do tecido cortical, com-
posta de representações e associações entre elas. Na
base dessa rede está a palavra, ou a representação de
palavra. Do ponto de vista da psicologia, escreve
Freud, a palavra é a unidade funcional da linguagem.
Mas ela não deve ser tomada como uma unidade
simples. A representação de palavra é, na verdade, um
complexo composto pela associação entre elementos
acústicos, visuais e cinestésicos: a imagem acústica, a
imagem visual de letras, a imagem motora da fala e a
imagem motora da escrita.73 Para Freud, a
173/301

aprendizagem da linguagem se faz pela associação


entre uma imagem acústica (a palavra ouvida de outr-
em) e uma imagem cinestésica (resultante da fala do
próprio sujeito). Ao pronunciar a palavra, surge uma
outra imagem acústica, referida ao som pronunciado,
que se liga às associações iniciais. O domínio progress-
ivo das palavras decorreria do processo em que essas
imagens vão se aproximando. Com o aprendizado da
leitura e da escrita, a imagem da escrita e a imagem
motora da escrita vão se acrescentando ao complexo
associativo. Na verdade, cada elemento que se agrega
ao complexo associativo interfere em sua composição,
de modo que uma palavra nunca é uma unidade fixa,
estável. É antes uma unidade em processo, em con-
stante reorganização funcional das associações que a
constituem — processo que Freud chamou de
“sobreassociação”.
Mas o significado que a representação de palavra
veicula não decorre apenas do processo de associação
entre os elementos que a compõem, mas também de
outra associação, aquela que ela estabelece com a rep-
resentação de objeto — mais precisamente, entre a im-
agem acústica da representação de palavra e a imagem
visual da representação de coisa. É preciso lembrar
que, para Freud, a representação de objeto não é a du-
plicação inequívoca do objeto na mente, como numa
imagem especular. Ela também é um complexo
174/301

associativo, composto por elementos sensoriais, como


imagens visuais, acústicas, táteis e cinestésicas. Mas a
representação de objeto tem um traço que a distingue
da representação de palavra. Enquanto a repres-
entação de palavra, uma vez constituída, não modifica
as imagens acústicas, visuais e cinestésicas que a com-
põem, na representação de objeto sempre há a possib-
ilidade de novos elementos sensoriais e perceptivos
serem acrescentados à representação.
A representação de objeto é uma inscrição no
aparelho psíquico de certos aspectos do objeto, que
mudam de acordo com as ocupações em presença.
Novas representações de palavras podem se associar às
anteriores, modificando a percepção de uma palavra
num contexto moldado por essas novas associações,
mas a estrutura da representação não é alterada. Já no
caso da representação de objeto, novos elementos sen-
soriais, novas formas de perceber o objeto em questão,
resultantes de novos ângulos de aproximação etc., po-
dem ser acrescentados à sua representação,
modificando-a. Embora Freud afirme que, ao menos
no caso dos substantivos, o sentido de uma repres-
entação de palavra é dado pela representação de objeto
a que está associado, ele deixa claro que essa asso-
ciação é tudo menos fixa ou definitiva, justamente
devido ao fato de que a relação é com a representação
de objeto, e não com o objeto em si. Como essa
175/301

representação é cambiante, o sentido derivado da asso-


ciação entre as duas representações é marcada pelo
deslizamento e pela não fixação.
Freud desenvolve a ideia de que, quando a Q invest-
ida numa representação de objeto passa para a imagem
acústica da palavra, e em seguida para sua imagem
cinestésica, produz-se uma percepção. Essa percepção
faria surgir um signo de qualidade, e nesse ponto a
representação de objeto se tornaria consciente. Assim,
com o aparecimento das representações de palavra,
processos ocorridos em psi por conta da ação do Eu
podem se apresentar à consciência, e podem, portanto,
ser rememorados. Até então, antes do surgimento da
linguagem, quando apenas as representações de objeto
seriam existentes em psi, os processos ocorridos nesse
sistema seriam inconscientes, com a exceção da alucin-
ação e das descargas motoras. Mas, mesmo nessas
duas modalidades, a consciência seria imediata, de-
rivada unicamente das propriedades das percepções.
Com as representações de palavra, surge um outro tipo
de consciência, mediata, viabilizada pela linguagem.
No esquema freudiano do Projeto, portanto, antes de
essa modalidade mediata de consciência emergir,
pensamento e ação não se distinguem claramente. É a
linguagem que estabelecerá esta distinção, permitindo
que ações passadas sejam relembradas, e que aos pou-
cos se possa pensar sem necessariamente agir. As
176/301

ações podem ser imaginadas, e o pensamento pode


acontecer sem que haja uma necessidade real a ser
atendida. O sujeito pode assim antecipar possíveis
caminhos condutores à satisfação, que poderão ser
acionados quando o desejo surgir.

Os sonhos

O sonho é um dos exemplos fundamentais de pro-


cesso primário, e sua importância se deve, entre outras
coisas, ao fato de que, para Freud, além de elucidarem
muito do que se passa nos processos psíquicos nor-
mais, os processos oníricos ajudam a compreender os
mecanismos patológicos revelados pela análise cuida-
dosa das psiconeuroses.74
Diz Freud:

A precondição essencial do sono é facilmente recon-


hecida na criança. Ela adormece quando não está
atormentada por nenhuma necessidade [física] ou
estímulo externo (pela fome ou pela sensação de frio
causada pela urina). Ela adormece depois de satis-
feita (no seio). O adulto também adormece com facil-
idade post coenam et coitum [depois da refeição e da
cópula].75
177/301

O sonho depende, portanto, de uma redução das ex-


citações endógenas no núcleo do sistema psi, e de um
desligamento em relação aos estímulos exógenos
provenientes de phi. Somente nessas condições o sono
e o sonho podem ocorrer. “No sono, o indivíduo se en-
contra no estado ideal de inércia, livre do aumento Q.”
Essa redução de estímulos no núcleo de psi torna des-
necessária a função secundária reguladora do Eu, que
descarrega a sua reserva acumulada de Q. Com a ces-
sação de sua atividade, os processos primários têm
livre curso.
Durante o sono, os estímulos externos provenientes
do sistema phi não chegam ao sistema psi. Assim, a
ocupação de psi a partir de phi fica, durante o sono, ex-
tremamente reduzida. Por outro lado, as excitações en-
dógenas provenientes de psi estão impedidas de per-
correr a trajetória da descarga motora, que está bar-
rada, ficando livres para o que Freud chama de com-
pulsão associativa, que se expressa com exuberância
na atividade onírica.
Freud apresenta no Projeto seis características que
distinguem os sonhos, e que serão posteriormente re-
tomadas no livro de 1900 dedicado a eles. São elas:
1) Os sonhos são desprovidos de descarga motora.
No sonho estamos paralisados.
2) As conexões que surgem nos sonhos nos parecem
“contraditórias, em parte imbecis, ou até absurdas ou
178/301

estranhamente loucas”. Isso se deve à mencionada


compulsão associativa, e também à ausência da ativid-
ade do Eu, que é responsável pela inibição dos pro-
cessos primários. Na falta dessa inibição, todos as ocu-
pações presentes no sonho se associam das formas
mais diversas, resultando no aspecto intrigante carac-
terístico da atividade onírica.
3) As representações presentes no sonho são de
caráter alucinatório, ou seja, despertam a consciência e
têm característica de autenticidade, são acompanhadas
de crença. Essa, para Freud, é a característica mais im-
portante do sono: “Fechamos os olhos, e alucinamos;
abrimos os olhos, e pensamos em palavras.”76 Não é
simples a explicação para esse fenômeno. A primeira
possibilidade seria que durante o sonho ocorreria uma
inversão da direção das excitações: na vida desperta ela
vai de phi para psi; no sonho, ela iria de psi para phi, e
acabam por produzir signos de realidade. Mas a
hipótese esbarra no fato de que os neurônios aferentes
de phi, responsáveis pela percepção, estão esvaziados
no sono e, portanto, inertes. A solução é postular o in-
vestimento alucinatório como fazendo parte da
natureza dos processos primários, como decorrência
da inibição da atividade do Eu.
4) Os sonhos são realizações de desejos, ou seja,
processos primários que reproduzem a experiência de
satisfação. Esta é uma das proposições mais
179/301

importantes do Projeto, que será o centro de gravidade


de sua teoria dos sonhos, e que lhe foi sugerida por um
sonho que ele mesmo teve, o sonho da “injeção de
Irma”, tão importante que se sabe a data em que ele
ocorreu: a noite de 23-24 de julho de 1895.
5) A lembrança dos sonhos é fraca e o dano eventu-
almente causado por eles, comparado ao de outros pro-
cessos primários, é pequeno. Freud explica esse fenô-
meno sugerindo que os sonhos não alteram nada no
sistema psi. Eles seguem facilitações já adquiridas e,
por causa da imobilidade, não deixam atrás de si nen-
hum rastro de descarga.;
6) No sonho, a consciência das qualidades não se
distingue do que ocorre na vida desperta. Freud retira
dessa observação “dois conselhos preciosos para o fu-
turo”: primeiro, que a consciência não se restringe ao
Eu, podendo qualquer processo psi tornar-se con-
sciente; segundo, que processos primários não podem
ser identificados aos processos inconscientes.
A retomada, em A Interpretação dos sonhos, dessas
ideias acerca do processo onírico é um ponto utilizado
hoje tanto pelos que defendem a continuidade entre o
Projeto e a obra psicanalítica posterior quanto pelos
que preferem ver na passagem entre 1895 e 1900 uma
grande ruptura. Cada grupo interpreta esse fato da sua
perspectiva. Para os primeiros, a seção dos sonhos é
apenas uma entre as partes do Projeto que, longe de
180/301

terem sido abandonadas, foram integralmente in-


scritas na metapsicologia posterior. Para os segundos,
o importante é assinalar a diferença na abordagem dos
sonhos a partir do momento em que a explicitação das
bases neurológicas da atividade onírica cede inteira-
mente lugar à investigação sobre o sentido da exper-
iência onírica para o sonhador.

O sintoma histérico

Como assinala Garcia-Roza, existe uma diferença


importante entre a primeira e a terceira parte do Pro-
jeto, de um lado, e a sua segunda parte, de outro.
Nesta, ao contrário do que acontece nas demais (nas
quais o procedimento hipotético dedutivo é preponder-
ante), Freud suspende a elaboração metapsicológica
para analisar os processos patológicos por meio do ref-
erencial clínico. Além disso, é de se notar que nessa
seção comparece um tema ausente nas demais partes:
a sexualidade. Isso torna a segunda parte do Projeto
relativamente independente das demais.77
Nela Freud afirma que os sintomas histéricos devem
ser compreendidos como manifestação de um desar-
ranjo energético que faz com que certas representações
“excessivamente intensas” se imponham como corpo
181/301

estranho na vida psíquica dos pacientes, produzindo


afetos, inibições, alterações sensoriais e motoras que
não podem ser compreendidas nem controladas pelo
pensamento. O sintoma parece, aos olhos da consciên-
cia, injustificado e absurdo. Mesmo assim se impõe: “A
compulsão histérica é, portanto, (1) ininteligível, (2)
refratária a qualquer atividade do pensamento, (3)
incongruente em sua estrutura.”78
Ao designar as ideias histéricas como “excessiva-
mente intensas”, Freud quer indicar o caráter quantit-
ativo que as distingue das ideias normais. Freud faz o
processo psíquico de formação do símbolo correspon-
der, em termos econômicos, a um deslocamento de Q
de uma representação para outra. O recalque é, port-
anto, um fenômeno material, uma distribuição modi-
ficada de Q, cujo equivalente psíquico é a formação do
símbolo.
O trabalho com Breuer junto às pacientes mostrara
que era possível estabelecer uma associação entre a
representação consciente vinculada de forma incon-
gruente ao sintoma e outra representação, incon-
sciente, cuja relação com o sintoma é clara. Quando
essa representação inconsciente era trazida à consciên-
cia, a origem e o sentido do sintoma eram elucidados, a
representação perdia seu efeito agressor e os sintomas
deixavam de existir. O paciente se tornava capaz de
182/301

lidar de maneira mais adequada com os afetos dela de-


rivados, dispensando o recurso à defesa patológica.
Freud fornece um exemplo para descrever a regra
de formação do sintoma histérico. Um sujeito chora
cada vez que uma representação (A) se apresenta à
consciência. Ele não sabe dizer por que isso acontece,
por que o aparecimento de A o faz chorar. Pode mesmo
considerar a situação absurda, mas não consegue se
livrar dela. A análise faz com que apareça uma outra
representação (B), até então inconsciente, que poderia
explicar a razão das lágrimas. Percebe-se um laço asso-
ciativo entre a primeira representação e a segunda. Por
exemplo, ambas estão ligadas a um mesmo evento.
Mas enquanto a primeira representação (A, con-
sciente) diz respeito a alguma circunstância secun-
dária, a segunda (B, inconsciente) é central ao evento,
e carregada de afeto intolerável, razão pela qual é re-
calcada, tendo seu acesso à consciência interditado.
Cada vez que a memória reproduz o evento na con-
sciência, A aparece no lugar de B. Em outras palavras,
A se tornou um símbolo de B. Na defesa normal, a rep-
resentação ligada à vivência traumática, apesar de
evitada pelos mecanismos de defesa do Eu, pode
aceder à consciência. Na defesa patológica, a repres-
entação é completamente impedida de tornar-se con-
sciente. Outra representação toma o seu lugar,
183/301

carregando consigo o afeto associado à representação


recalcada.
A formação de símbolos faz parte da vida psíquica.
O que torna o símbolo neurótico diferente do símbolo
normal é um traço peculiar. Freud o ilustra com o
seguinte exemplo: o cavaleiro que luta pela luva de sua
dama sabe que o acessório é um símbolo, que seu sen-
tido está ligado à relação que o acessório tem com a
mulher de sua devoção. O fato de lutar pela luva não o
impede de se dirigir à sua dona e de exprimir direta-
mente a ela seus sentimentos. O histérico, ao contrário,
não sabe por que chora. Ele não tem a menor consciên-
cia da relação entre o símbolo e a coisa representada,
entre a representação A e a representação B. O que
diferencia o processo na vida normal e na histeria é o
caráter de fixidez que o símbolo tem nesta última. Na
histeria, “a coisa foi completamente substituída pelo
símbolo”.79
Como o recalcamento não significa a eliminação de
uma ideia, mas apenas seu afastamento da consciência
e do pensamento, e como a associação entre essa ideia
e outras que a ela estão ligadas permanece, é quase im-
possível evitar que a representação recalcada seja
reativada e tente se dirigir à consciência. Dessa forma,
o recalcamento de B explica o caráter compulsivo de A.
Freud retira dessa observação uma conclusão geral:
toda compulsão corresponde a um recalcamento, que
184/301

incide sobre representações que são penosas para o Eu.


Vemos aqui a presença de uma noção crucial na teoria
freudiana: a ideia de causalidade psíquica. Apesar de o
conceito de inconsciente como um sistema ainda não
aparecer de maneira clara no Projeto, é visível a per-
cepção de Freud acerca do poder causal das ideias in-
conscientes sobre a vida consciente.
Mas nem todas as ideias desprazerosas ou angusti-
antes são recalcadas, o que exige uma explicação para
o que se passa no caso das ideias recalcadas na defesa
patológica. Freud introduz então outro elemento, ori-
undo de sua experiência clínica: somente as repres-
entações sexuais são sujeitas ao recalcamento, e isso,
diz Freud, devido a um traço específico que define a
sexualidade humana: o fato de ela só emergir de forma
plena na puberdade. Somente na puberdade a excit-
ação sexual, ao se fazer presente no campo da proprio-
cepção do sujeito, pode ser compreendida como tal.
Recordações de natureza sexual radicadas na infância,
que na ocasião de sua realização não produziram excit-
ação nem compreensão de seu caráter sexual, na pu-
berdade são em retrospecto percebidas como de
natureza efetivamente sexual, e podem assim se tornar
traumáticas por ação retardada. É esse mecanismo que
levará Freud a afirmar que “os histéricos sofrem prin-
cipalmente de reminiscências”80. A lembrança produz
185/301

um efeito que a experiência mesmo não havia


produzido.
Freud apresenta o caso Emma para ilustrar essa
tese. Emma é uma mulher que não consegue entrar
sozinha em lojas. Ela explica essa impossibilidade por
uma recordação que data de quando tinha 12 anos. Ao
entrar em uma loja, ela viu dois vendedores que riam
entre si e, tomada por susto, saiu correndo. Ela se lem-
bra de haver pensado que riam de suas roupas, e se re-
corda também de haver sentido atração sexual por um
deles. Emma não consegue compreender a relação
desses fragmentos entre si, o porquê de sua atração em
relação a um dos vendedores, nem a ligação desses fa-
tos com a impossibilidade atual de entrar em lojas.
Com o decorrer da análise, Emma se lembra de
outra cena, mais antiga, e da qual não havia se dado
conta por ocasião da cena aos 12 anos. Aos 8 anos, ela
fora duas vezes comprar doces numa confeitaria, sendo
que na primeira vez o proprietário havia agarrado suas
partes genitais por cima da roupa. Apesar disso, Emma
voltou lá. Agora, ao recordar esse fato, ela se recrimina
por essa segunda vez, como se a culpa pelo ocorrido
tivesse sido sua — o que explica o sentimento de con-
sciência pesada relacionado a essa lembrança.
Freud conclui que a primeira cena (com os ven-
dedores) pode ser compreendida à luz da segunda
(com o dono da confeitaria). Pelo menos dois pontos
186/301

ligam uma cena à outra: o riso dos vendedores evocou


(inconscientemente) o sorriso do dono da confeitaria
durante sua investida; em ambas as cenas Emma es-
tava sozinha em uma loja; nas duas, as roupas têm pa-
pel relevante: na primeira, elas provocam o riso dos
vendedores; na segunda, elas lhe lembram como o
dono da confeitaria a agarrou. O que provoca a excit-
ação sexual e sua consequente transformação em an-
gústia não é a cena da confeitaria, mas a sua re-
cordação. Agora, após a puberdade, ela pode sentir o
que aos 8 anos não poderia. Por conta dessa angústia,
ela teve medo de que os vendedores repetissem a in-
vestida e saiu correndo. A análise permitiu mostrar
como a cena com os vendedores encobria a verdade in-
consciente associada à cena da confeitaria, verdade
cujo sentido é ativado pela ação retardada. A ausência
de efeitos traumáticos na cena ocorrida aos 8 anos de-
corre do fato de que nessa época o conteúdo sexual da
cena não fora percebido pelo sujeito (em 1895 Freud
ainda não havia elaborado a tese da sexualidade infant-
il). Só depois da entrada da puberdade a lembrança ad-
quire sentido traumático. Freud qualifica esse mecan-
ismo de ação retardada como típico da histeria, explic-
ado pelo retardamento da puberdade em relação com o
resto do desenvolvimento da pessoa.
187/301

O legado do Projeto

O Projeto, ao contrário das demais obras freudi-


anas, é, na verdade, um grande rascunho nunca rev-
isto. Na tentativa de “estruturar uma psicologia que
seja uma ciência natural”, Freud partiu da postulação
de elementos e leis naturais para modelar sua máquina
do psiquismo. Ao longo do texto, porém, foram sur-
gindo os limites e impasses desse projeto inicial.
Nesses momentos, Freud não hesitou em rever princí-
pios, acrescentar outros, multiplicar hipóteses sobre
possíveis estruturas, mecanismos e princípios de fun-
cionamento. O resultado final é um conjunto com
peças desiguais.
A despeito do caráter provisório e especulativo do
seu “aparelho”, o fato é que muitas de suas “en-
grenagens” permaneceram como elementos funda-
mentais do pensamento freudiano posterior. Uma lista
delas inclui os princípios de inércia e de constância, os
processos primários e secundários, a experiência de
satisfação, satisfação alucinatória e real do desejo, a
função inibitória do Eu, os signos de realidade, as
noções de energia livre e energia ligada, a separação
entre percepção e memória, o pensamento como ação,
a ideia do trauma e da dor como excesso de estímulo,
os sonhos como realização de desejo, o caráter regress-
ivo e distorcido dos sonhos e dos sintomas neuróticos,
188/301

as noções de ocupação e desocupação, defesas primári-


as e secundárias, defesas normais e patológicas, princí-
pio de prazer e princípio de realidade, e assim por
diante.
O que dizer então do legado dessa obra singular?
Para alguns, as “metáforas neurológicas” do Projeto
são a evidência de que ele constitui, na realidade, um
desvio momentâneo em relação ao movimento que,
iniciado no trabalho de 1891 dedicado às afasias, cul-
mina em 1900 com a publicação de A interpretação
dos sonhos. O Projeto teria sido uma espécie de tributo
de Freud ao ideal científico da época, deixado de lado
no momento em que se decidiu pela elaboração da
psicanálise. Para esses, a não conclusão do trabalho e o
abandono do vocabulário neurológico nos seus escritos
posteriores seriam a prova de que a maior herança da
obra fora a demonstração do equívoco de sua petição
inicial. De modo paradoxal, seu fracasso teria resultado
em seu maior sucesso, na medida em que teria fran-
queado o caminho para o surgimento de uma teoria do
psiquismo original, voltada para a interrogação e elu-
cidação do sentido da experiência subjetiva.81
Para outros, o que ocorre é o inverso. Freud jamais
teria abandonado suas referências neurológicas. Impe-
dido, pelos limites da ciência de então, de levar adiante
de forma plena seu programa naturalista, mas convicto
de suas intuições iniciais, Freud teria transposto todo o
189/301

aparato conceitual engendrado no Projeto para A in-


terpretação dos sonhos e para a elaboração continuada
de sua metapsicologia, deixando pragmaticamente de
lado o vocabulário neuronal e fazendo uso de “metáfor-
as psicológicas” para dar conta do que o conhecimento
neurobiológico ainda não tinha como descrever. O
próprio Freud teria deixado isso claro nas diversas
vezes em que afirmou sua esperança de um dia poder
finalmente ancorar a estrutura teórica da psicanálise
em sua fundação orgânica.
Num certo sentido, o debate em torno do Projeto
expressa uma problemática que o abarca, mas vai
muito além dele, englobando a totalidade do percurso
freudiano. Como afirma Monzani,82 é possível ler a
obra de Freud em busca do que seria o eixo funda-
mental de sua estrutura teórica. Dessa perspectiva, o
dilema entre continuidade versus ruptura se desdobra
na análise de temas como neuronal e psíquico, sedução
e fantasia, força e sentido, economia e hermenêutica,
explicação mecânica e interpretação, que podem ser
entendidos como polos expressando posições em luta
no interior da teoria, uma luta cujo vencedor deveria
ser apontado após uma análise rigorosa da evolução do
pensamento do autor. Contrariando essa perspectiva,
Monzani aponta em outra direção, assinalando a ori-
ginalidade de Freud no fato de sua obra se situar
aquém ou além dessa aparente oposição, contornando
190/301

a aparentemente inelutável opção entre naturalismo e


antinaturalismo.
O fato é que o objetivo do Projeto de integrar ou
conciliar descrições psicológicas e neurobiológicas do
psiquismo se encontra hoje mais atual do que nunca.
Como veremos no próximo capítulo, esse tema está no
centro de gravidade do debate em torno das relações
entre cérebro e mente, entre psiquismo e corporeidade,
que envolve as diversas orientações da psicanálise, do
cognitivismo, das neurociências, da neurofenomenolo-
gia e da filosofia da mente atuais. Uma análise desse
campo de debates talvez seja a melhor maneira de situ-
ar o Projeto em sua posteridade.
Notas

53 Um resumo completo das intrincadas ideias do Projeto


exigiria um espaço muito maior do que este capítulo pode
conter. Apresentaremos aqui algumas de suas principais
proposições, de suas ideias-chave. Para uma apresentação
mais rica e sistemática da obra, há ótimos escritos disponí-
veis. Para ficar apenas entre os livros publicados no Brasil,
cito: O. Gabbi Jr., Notas a Projeto de uma psicologia: As
origens utilitaristas da psicanálise; L. A. Garcia-Roza, In-
trodução à metapsicologia freudiana; R. Mezan, Freud: A
trama dos conceitos; F. E. Caropreso e R. Simanke, Entre o
corpo e a consciência. Ensaios de interpretação da metap-
sicologia freudiana; R T. Simanke, Mente, cérebro e con-
sciência nos primórdios da metapsicologia freudiana: Uma
análise do Projeto de uma psicologia (1895); L. R. Monzani,
Freud: O movimento de um pensamento.
54 Freud usa dois sinais alfabéticos para designar “quan-
tidade”: Q e Qn. Segundo Strachey, embora Freud não o diga
explicitamente, Q, ao que tudo indica, se refere à “quan-
tidade externa”, e Qn, à “quantidade psíquica”. Como o
próprio Freud oscila no uso dos sinais, preferimos adotar
apenas uma notação, Q, para todas as referências à
quantidade.
55 S. Freud, ESB, vol. I, p. 395.
56A ideia de uma quantidade (Q), um montante de energia
que circula pelo sistema nervoso produzindo alterações fisi-
ológicas subjacentes aos fenômenos psíquicos, já havia
192/301

aparecido em vários trabalhos de Freud anteriores ao Pro-


jeto. Um ano antes, no artigo “As neuropsicoses de defesa”,
ele distingue, nas funções psíquicas, “algo — uma cota de
afeto ou soma de excitação — que tem todas as característic-
as de uma quantidade (embora não disponhamos de meios
para medi-la) que é capaz de crescimento, diminuição, des-
locamento e descarga, e que se espalha sobre os traços de
memória das ideias, tal como uma carga elétrica se expande
na superfície de um corpo”. S. Freud, ESB, vol. 3, 73. Apesar
da referência explícita, nesta passagem, à eletricidade como
indicador da natureza dessa quantidade, ela parece ser
metafórica. Os fenômenos que Freud descreve ao falar de
quantidade, na verdade, indicam mudança de estado, de re-
pouso para movimento. Freud usa a noção de quantidade
para aludir mais à intensidade dos estados descritos do que
a uma economia mensurável. Há quem considere, porém,
como Pribam e Gill, que essa noção representa uma ante-
cipação dos processos físico-químicos descritos pela neuro-
ciência atual.
57Em Notas a Projeto de uma psicologia, Gabbi Jr. afirma
que a “lei geral do movimento” a que Freud alude ao falar
das mudanças na quantidade é uma referência às leis da
dinâmica newtoniana, como a lei da inércia, que determina
que todo corpo se mantém em seu estado (repouso ou movi-
mento) a não ser que uma força atue sobre ele.
58A ideia de homeostase, embora popularizada com esse
nome por Cannon, no fim dos anos 1920, no seu livro The
Wisdom of the Body, foi elaborada e difundida a partir das
193/301

elaborações em torno da noção de meio interno realizadas


nos anos 1860 por Claude Bernard, para quem “a constância
do ambiente interno era a condição para a vida independ-
ente do organismo”.
59Apesar de a tradução na ESB usar a palavra catexia, opt-
amos por usar ocupação, pelas razões apresentadas, entre
outros, por Gabbi Jr. (op. cit.).
60 Quando Freud escreveu o Projeto, a teoria neuronal, se-
gundo a qual o sistema nervoso era formado por unidades
discretas, já havia sido estabelecida (em 1891, por Waldey-
er), embora ainda encontrasse a resistência dos “reticularis-
tas”, para quem havia finos processos nervosos conectando
os neurônios nas suas junções. A questão da passagem do
impulso nervoso de uma célula para outra, portanto, não se
apresentava para a teoria reticularista.
61R. Simanke, Mente, cérebro e consciência nos primórdios
da metapsicologia freudiana: Uma análise do Projeto de
uma psicologia (1895).
62 Usaremos pallium por conta da opção pela referência à
tradução contida na ESB (Edição Standard Brasileira das
obras psicológicas completas de Freud), em que esta no-
menclatura é usada.
63 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 419.
64 No texto sobre as afasias, Freud ainda identifica o
psíquico à consciência. No Projeto aparece pela primeira vez
a possibilidade de processos psíquicos inconscientes, mas
eles são ainda pensados como processos neuronais. Essa
194/301

perspectiva também está presente no artigo sobre “Psicon-


euroses de defesa”, de 1894. Nele Freud fala em substituição,
conversão ou compulsão psíquica, mas esses processos são
referidos a processos neurofisiológicos. Em 1895 Freud
ainda não tem claras as noções sistemática e dinâmica do in-
consciente psíquico, que só serão formuladas plenamente a
partir de 1900.
65 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 409-10.
66 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 414.
67 J. Lacan, O Seminário II: O eu na teoria de Freud e na
técnica da psicanálise, p. 131. De todo modo, mais de um
século depois, essa questão permanece aberta, tanto para a
psicanálise como para a filosofia da mente e as neurociên-
cias. De que modo processos físicos dão origem à consciên-
cia e às qualidades subjetivas da experiência? Como exata-
mente organismos se tornam sujeitos de sua própria exper-
iência? Por que, afinal, existe a consciência? Questões como
essas permanecem desafiando a imaginação teórica e a in-
vestigação empírica. A relação entre funcionamento neural e
experiência subjetiva constitui-se ainda hoje no que David
Chalmers classicamente descreveu como responsável por
uma ainda insuperada lacuna explicativa (“explanatory
gap”) entre processos objetivos do cérebro e experiência
subjetiva na primeira pessoa. Cf. D. Chalmers, “Facing Up
the Problem of Consciousness”, Journal of Consciousness
Studies, 2(3):200-19.
68 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 413-4.
195/301

69 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 422.


70 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 428.
71 S. Freud. ESB, vol. 1, p. 440.
72L. A. Garcia-Roza, Introdução à metapsicologia freudi-
ana, p. 165-8, vol. 1.
73S. Freud, Contribuition à la conception des aphasies, p.
105.
74 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 443.
75 Ibidem, p. 444.
76 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 447.
77 L. A. Garcia-Roza, op. cit., p. 187.
78 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 459.
79 S. Freud, ESB, vol. 1, p. 460.
80 S. Freud, ESB, vol. 2, p. 48.
81No ano seguinte ao abandono do Projeto, 1896, dois
acontecimentos isolados podem ser destacados como decis-
ivos para que Freud tomasse de vez esse caminho. O
primeiro foi a insistência de sua paciente Emmy von N. em
pedir que Freud parasse de falar e a deixasse discorrer livre-
mente sobre o que lhe vinha à mente. O segundo foi a morte
de Jacob, seu pai, “o acontecimento mais importante na vida
de um homem”, que precipitou o início de sua autoanálise.
82 L. R. Monzani, Freud: O movimento de um pensamento.
IV. O PROJETO HOJE: A PSICANÁLISE EM FACE DAS
NEUROCIÊNCIAS

Psicanálise e biologia da mente: Um diálogo difícil

A partir do momento em que desistiu de completar


o Projeto, Freud contentou-se em admitir a biologia
como alicerce ou fundamento para o psiquismo, pas-
sando a utilizar-se do “biológico” como elemento es-
peculativo, metafórico ou analógico em suas narrativas
teóricas. Se uma característica peculiar de sua visão foi
a insistência em descrever o humano como um ser em
que natureza e cultura se amalgamam de forma inex-
tricável, o fato é que a teorização psicanalítica a partir
do Projeto se desenvolveu sem uma interlocução com
as investigações biológicas. Por muito tempo, psicanál-
ise e ciências da natureza se mantiveram em campos
apartados, quando não antagônicos.
Esse quadro não mudou de modo significativo até o
fim da década de 1980. Houve sempre, claro, exceções.
Os trabalhos do austríaco René Spitz sobre o hospital-
ismo,83 nos anos 1940, e do britânico John Bowlby,84
com base na teoria do apego, procuraram articular
teorias psicanalíticas com dados da psicologia do
desenvolvimento e da etologia para compreender como
197/301

sistemas de comportamento inatos interagem com


fatores relacionais ligados ao ambiente na primeira in-
fância. Seus estudos sobre a relevância da reciprocid-
ade emocional não verbal entre mãe e filho e sobre o
impacto da privação materna e da angústia de sep-
aração no corpo e o psiquismo infantil aproximavam a
sensibilidade clínica da psicanálise da pesquisa em-
pírica de inspiração naturalista das fases de desenvol-
vimento infantil.
Há também, claro, todo o desenvolvimento da obra
winnicottiana, uma das poucas matrizes do
pensamento psicanalítico a desenvolver uma teoriza-
ção e uma ontologia explicitamente atentas às fontes
biológicas da vida psíquica. Winnicott foi um dos pou-
cos psicanalistas a utilizar sem constrangimento ex-
pressões como natureza humana, e a insistir na im-
portância da ordem vital não apenas como fonte do
psiquismo, mas como dimensão permanentemente
presente na experiência subjetiva humana, articulada à
ordem simbólica, mas irredutível a esta. Em sua teoria
do amadurecimento, a subjetividade não surge por
meio de uma inscrição traumática da ordem simbólica
no corpo natural, que situaria o surgimento do sujeito
como expressão de uma ruptura em relação à natureza.
À premissa da descontinuidade radical entre natureza
e cultura, as descrições winnicottianas operam em fa-
vor de uma visão em que esses polos se entrelaçam e se
198/301

interferem reciprocamente, moldando a subjetividade


propriamente humana como o efeito emergente e con-
tínuo da dinâmica de interação entre processos inatos
de amadurecimento e os padrões de organização do
ambiente.
No universo de língua francesa, a poderosa influên-
cia do ensino de Lacan referido ao estruturalismo de
Lévi-Strauss e Saussure na antropologia e na lin-
guística dominou progressivamente o campo e con-
tribuiu de modo decisivo para deslocar de vez o centro
de gravidade da reflexão psicanalítica para longe de in-
fluências naturalistas, situando no campo das human-
idades as disciplinas para as quais a psicanálise deveria
se voltar na formação de um espaço epistemológico
próprio. É verdade que Lacan se ocupou bastante da
biologia do comportamento nos anos 1950. Mas seu in-
teresse ia na direção contrária à do naturalismo holista
e dinâmico presente nas concepções dos psicanalistas
britânicos. Lacan se utilizou dos estudos etológicos de
Jakob von Uexküll e Kurt Lorenz85 para mostrar como,
no próprio modelo biológico de emissão do comporta-
mento instintivo, há algo externo aos mecanismos in-
atos — o plano imaginário — que é decisivo na con-
stituição da subjetividade animal. Lacan usa a biologia
para mostrar que o desencadeamento do comporta-
mento instintivo já comporta a possibilidade de equí-
voco, erro, desvirtuamento, não podendo ser
199/301

explicado, portanto, somente por mecanismos


automáticos.86 Lacan situa então a subjetividade em
geral como efeito de uma ruptura em relação ao plano
imediato da natureza, o que o leva a recusar qualquer
tentativa de entendimento da subjetividade propria-
mente humana em termos “genéticos” — algo que ele
identifica e critica em Abraham e Ferenczi, e também
na psicologia do ego de Hartmann, Kris e Loewenstein.
Assim, quando Lacan se aproxima da biologia, é para
insistir no antinaturalismo como o solo próprio da
psicanálise.
Essa rarefeita relação da psicanálise com a biologia
expressa o fato mais amplo de que na maior parte do
século o horizonte epistemológico esteve fortemente
marcado por um sólido dualismo metodológico e on-
tológico opondo as ciências da natureza e as ciências
do homem. Embora essa divisão tenha sido urdida ao
longo de complexos embates históricos, o quadro se
consolidou de tal maneira no imaginário teórico do
século XX que se tornou difícil pensar criticamente
sobre a constituição dos seus próprios termos. Como
afirma Simanke,87 a oposição entre ciências humanas e
naturais, que havia nascido como estratégia defensiva
contra a extrapolação progressiva do modelo da física
galilaico-newtoniana para outros tipos de conheci-
mento, acabou acirrando de tal maneira seus polos que
terminou por firmar a visão do ser humano e os
200/301

produtos de sua ação como exceções absolutas à ordem


da natureza. A antinomia tradicional entre natureza e
liberdade, entre o mundo determinístico dos estados
físicos e o universo autônomo da subjetividade, antino-
mia que seria reduplicada na distinção dos métodos
adequados para a exploração dos dois reinos, a ex-
plicação e a compreensão, se enraizou de maneira
quase não ultrapassável:

Muito frequentemente, o debate entre naturalismo e


antinaturalismo — nas suas variedades metodoló-
gicas, epistemológicas e ontológicas — transcorreu,
da parte das ciências humanas, como se a versão pos-
itivista do naturalismo científico fosse a única conce-
bível, de tal modo que a “resistência” ao positivismo
implicasse, por si só, a recusa do naturalismo.88

Ao tecer comentários nessa mesma direção, John-


ston89 toma o existencialismo sartriano como exemplo:
em seu manifesto “O existencialismo é um human-
ismo”, de 1946, Sartre condena o naturalismo
científico na medida em que vê nele uma descrição da
natureza como potência heterônoma sobredetermin-
ando o ser do sujeito. Se os sujeitos são necessaria-
mente livres, “condenados à liberdade”, como afirma o
existencialismo sartriano, então não é possível admitir
a presença, na experiência subjetiva, de uma natureza
201/301

no sentido forte do termo — uma dimensão biofísica


material capaz de interferir e se impor à existência do
sujeito. Defender que “a existência precede a essência”
implicaria automaticamente, para Sartre, uma atitude
antinaturalista como resistência às hipóteses suposta-
mente essencialistas, deterministas e a-históricas sobre
a natureza humana contidas no materialismo das ciên-
cias naturais. Sustentar a autonomia do sujeito
significaria pensá-la em oposição à dimensão natural
do homem. A percepção da natureza como uma total-
idade autoconsistente e internamente integrada, carac-
terizada pela necessidade e determinismo de suas re-
lações causais, a tornava logicamente incompatível
com as características de contingência e historicidade
do sujeito.
Nesse ambiente intelectual, a análise de todo proto-
colo de investigação sobre a experiência humana pare-
cia requerer automaticamente sua alocação a um
campo ou outro. Foi o que ocorreu quando o Projeto
começou a circular nos anos 1950, relançando a dis-
cussão sobre o lugar do naturalismo inicial de Freud na
antessala de parto da psicanálise. Como vimos no
primeiro capítulo, a discussão que determinaria o
caráter de ruptura ou continuidade exibido pelo ines-
perado escrito tinha como eixo exatamente esta altern-
ativa: o Projeto era o testemunho da vocação natur-
alista que acompanharia Freud ao longo de sua vida
202/301

ou, ao contrário, o início de processo em que esse nat-


uralismo foi deixado para trás para abrir caminho para
a psicanálise?
Esse quadro de oposição frontal, porém, sofreu
mudanças profundas nas últimas décadas. Os estudos
sobre plasticidade, epigenética e emergência possibilit-
ados por novas tecnologias de investigação pro-
moveram uma verdadeira transição paradigmática nas
ciências da vida contemporâneas, e tornaram a
oposição sartriana uma visão em certo sentido datada.
A oposição abstrata e binária entre natural e não nat-
ural (percebidos como termos externos um ao outro)
foi sendo substituída por outra visão do processo de in-
teração entre o ambiente natural e o histórico-social
contendo pelo menos dois aspectos importantes, que
modificam a maneira de entender a tensão entre esses
polos.
Primeiro, para usar o vocabulário sartriano, da per-
spectiva das ciências da vida contemporâneas a essên-
cia é inteiramente influenciada, perturbada e, em
grande parte, constituída pela existência. O princípio
fundamental de indeterminação da substância natural,
evidenciado pela plasticidade e pelos estudos epi-
genéticos, faz com que a distinção muito clara entre
natural e não natural perca muito do seu sentido ori-
ginal. Experiências sociais e fenômenos mentais
moldam e transformam a materialidade anatômica e
203/301

funcional do cérebro, de tal modo que se torna possível


até mesmo falar atualmente de um “materialismo ex-
istencial”.90 A natureza tal como pensada pelas ciên-
cias atuais já não se deixa capturar nos termos formu-
lados na crítica sartriana. Ao contrário, comporta
muito do que Sartre supunha estar fora dela: histori-
cidade, imprevisibilidade, incerteza.
Em segundo lugar, essa visão da natureza não a vê
apenas podendo ser afetada e transformada em con-
tato com a cultura, a linguagem e os acontecimentos
sociais. Ela desmonta a ideia de Natureza como uma
realidade una e consistente, composta de elementos e
acontecimentos exteriores uns aos outros e controlados
por leis causais determinísticas. De certa forma, são as
próprias ciências da vida que afirmam: a ideia da
Natureza como totalidade homogênea, determinada, e
em permanente equilíbrio, é fruto do imaginário hu-
mano, uma fantasia, e não uma descrição acurada do
universo natural. A visão da natureza que surge nas ex-
plorações das ciências atuais é, ao contrário, antissub-
stancialista e anticausalista: uma natureza aberta, em
permanente mudança, permeada por rupturas e incon-
sistências, sempre se desequilibrando e se reequi-
librando; uma natureza que incorpora a produtividade,
a negação e o devir como atributos imanentes.
Certamente ainda há regiões do naturalismo atual
para as quais a crítica sartriana permanece fazendo
204/301

sentido, e vamos adiante examinar uma que tem im-


portância especial para o campo da subjetividade — o
materialismo eliminativista. Mas é importante assin-
alar que aquilo que o antinaturalismo de Sartre queria
preservar contra o determinismo e o cientificismo das
ciências da natureza de sua época — a ideia de auto-
nomia e liberdade como características fundadoras da
existência humana — é inteiramente compatível com
os postulados e descobertas das ciências da vida
contemporâneas.

A plasticidade e suas implicações

O fenômeno da plasticidade, trazido à luz por


estudos da biologia experimental a partir dos anos
1970, vem sendo o centro de gravidade da nova biolo-
gia da mente, tendo se tornado um possível ponto de
interseção importante entre as neurociências e as ciên-
cias humanas, em especial a psicanálise, na medida em
que permite abordar uma questão comum aos dois
campos, a emergência da singularidade. Com a plasti-
cidade, o cérebro deixa de ser percebido como organiz-
ação definida e fixa, e passa a ser visto como estrutura
em que a natureza e a cultura, determinismo e liber-
dade, necessidade e acaso se interpenetram,
205/301

produzindo uma historicidade constitutiva do órgão. A


metáfora da máquina universal de processamento de
informações deixa de fazer sentido. No interior das
próprias normas biológicas universais da espécie hu-
mana se engendra o processo em que a trajetória única
do indivíduo é refletida no caráter singular do seu
cérebro.91 Como sublinham Ansermet e Magistretti,

As leis universais definidas na neurobiologia con-


duzem assim, inevitavelmente, a produzir o singular.
A questão do sujeito, como exceção ao universal, se
torna portanto central tanto para as neurociências
quanto para a psicanálise, trazendo a um ponto de
reencontro inesperado esses dois protagonistas, tão
habituados a serem antagonistas.92

Os fenômenos da plasticidade se manifestam em


três níveis: na modelagem das conexões neuronais, que
começa no embrião e segue ao longo da vida (plasticid-
ade de desenvolvimento), na modificação das conexões
neuronais em função da experiência (plasticidade de
modulação) e na capacidade de regeneração em res-
posta a lesões (plasticidade de reparação). Esse re-
manejamento contínuo se expressa tanto em fenô-
menos de criação (na ontogênese individual) quanto de
destruição, como ocorre nas fases de poda sináptica —
a eliminação seletiva de redes sinápticas, que se
206/301

intensifica do início da adolescência até por volta dos


vinte anos.93
A experiência deixa um traço, anatômico e funcion-
al, nas redes neurais. Na verdade, “traço” é um termo
genérico para aludir a uma série de processos nos ní-
veis molecular e celular que regulam mudanças mi-
croestruturais nas sinapses, assim como na atividade
de proteínas que determinam a liberação e a recepção
de neurotransmissores, além da expressão genética —
a complexidade desses processos ainda está
começando a ser desvendada. Esses processos estão,
por sua vez, influenciados por outro fenômeno biológi-
co importante, a chamada reconsolidação, que consiste
no fato de que, cada vez que um traço é lembrado na
consciência, ele se torna lábil e suscetível à formação
de novas associações.94 Assim, os traços deixados pela
experiência têm dois destinos. Um é a sua consolid-
ação, que garante certa continuidade diacrônica. Mas a
possibilidade de a cada ressurgimento se associarem
com outros introduz uma descontinuidade, um poten-
cial de mudança sempre presente, levando a um pro-
cesso de sucessivas inscrições, transcrições e retran-
scrições da experiência.
Isso conduz ao que Ansermet e Magistretti chamam
de “paradoxo da plasticidade”:
207/301

Por meio da plasticidade, a experiência se inscreve


sob a forma de traços. Mas esses traços, se asso-
ciando uns aos outros, resultam na formação de out-
ros traços, que perderam sua ligação com a experiên-
cia que lhe deu origem. Assim chegamos ao paradoxo
de que a inscrição da experiência sob a forma de
traços e a reassociação dos traços entre si acabam por
separar a experiência.95

A articulação da plasticidade e da epigenética96


permite então aos autores dizerem (contrariando a
perspectiva sartriana) que o indivíduo humano é “ge-
neticamente determinado a não ser geneticamente de-
terminado”, ou “biologicamente determinado a ser
livre”.97 Essa “determinação à indeterminação” decorre
de uma certa inconsistência inerente aos mecanismos
naturais determinísticos e do fato de que, nos hu-
manos, eles sofrem desde o início a incidência do
Outro, da linguagem, da história. Na verdade, o que a
plasticidade mostra é uma interseção entre determin-
ismo biológico e o determinismo ambiental inerente à
experiência humana, cujo resultado é a presença de um
grau de abertura e incerteza que, junto com o acaso, in-
troduz um espectro de imprevisibilidade e a singularid-
ade no interior do funcionamento biológico. Esse giro
na concepção das relações entre natureza e cultura teve
consequências surpreendentes.
208/301

A virada naturalista

Alavancado por essas descobertas e pelo impacto


das novas tecnologias de visualização cerebral, ao
longo da segunda metade do século XX — primeiro
num ritmo lento, e depois, sobretudo a partir da met-
ade dos anos 1990, numa velocidade crescente —, o
paradigma naturalista atravessou definitivamente o
Rubicão que o separava dos campos dominados pelas
humanidades, passando a dialogar com elas não de
fora, mas no interior do seu próprio campo. A biologia
da mente e as neurociências avançaram resolutamente
sobre outras áreas da ciência, tomando para si objetos
tradicionalmente pertencentes a outras modalidades
de conhecimento — a consciência, a decisão moral, as
preferências estéticas, escolhas econômicas, experiên-
cias místicas, a empatia, as emoções. Em muito pouco
tempo, campos até há pouco inimagináveis se torn-
aram de conhecimento comum: neuroética, neuroarte,
neuroeconomia, neuroteologia, neurofilosofia, neuro-
política, neuroeducação e, claro, neuropsicanálise.
Em pouco tempo, tornou-se possível falar em uma
“virada naturalista”.98 A biologia passou a ser vista por
muitos não como uma ciência parcial do homem, mas
como a ciência do homem total. Esse movimento rapi-
damente ultrapassou as fronteiras do conhecimento
científico, e, com a popularização das neurociências, a
209/301

ideia de que toda a atividade humana poderia ser ex-


plicada com base na estrutura organizacional do
cérebro e na dinâmica da atividade neural alcançou na
cultura o estatuto de uma verdade banal. Os discursos
biológicos e neurocêntricos foram progressivamente
ocupando, no imaginário social e no vocabulário da ex-
pressão pessoal, o lugar ocupado nas décadas anteri-
ores pelos discursos da intimidade psicológica e da
ação, passando a disputar o lugar de primazia na elu-
cidação de aspectos fundamentais da experiência hu-
mana, da vida social e do sujeito. Descrições fenomen-
ológicas, psicodinâmicas e culturalistas do sofrimento
psíquico foram sendo deslocadas em prol do uso dis-
seminado de visões fisicalistas da vida subjetiva e da
patologia mental. Não há praticamente nenhum campo
do mundo contemporâneo que não tenha sido afetado
pela maré montante naturalista. Alguém imaginaria
nos anos 1960 o dalai lama se encontrando com neuro-
cientistas como Patricia Churchland, António Damásio
e Allan Hobson, para discutir a natureza da consciên-
cia?99 Ocorreria a alguém nos anos 1970 que pro-
priedades do cérebro seriam usadas no âmbito político,
quer como fundamento para proposições políticas
emancipatórias, quer como instrumento ideológico de
práticas de controle biopolítico — como acontece hoje
com a noção de neurocapital?100 O naturalismo se
tornou, mais do que uma premissa epistemológica ou
210/301

ontológica, uma maneira progressivamente hegemôn-


ica de ver o mundo.
Mas, e este é o ponto que queremos ressaltar, com
as mudanças ocorridas nas ciências da vida no século
XX, o naturalismo se tornou ele mesmo heterogêneo,
comportando interpretações reducionistas e antirredu-
cionistas e ensejando uma retomada do debate entre
naturalismo e antinaturalismo. Esse quadro resultou
na inevitável reabertura de um diálogo da psicanálise
com as ciências da vida, em especial com as neurociên-
cias cognitivas, suscitado em grande parte pelo surgi-
mento da neuropsicanálise — uma das formas, mas
não a única, que a aproximação entre os dois campos
ganhou —, processo no qual o Projeto teve papel de
destaque. O debate em torno do estabelecimento desse
diálogo é bastante complexo e está longe de ser con-
sensual. Provocando da adesão entusiasmada à recusa
feroz, com posições intermediárias buscando um posi-
cionamento mais sensato e produtivo, ele tem a seu fa-
vor o fato de ter precipitado uma interessante e opor-
tuna rediscussão acerca da natureza do empreendi-
mento psicanalítico e de seu lugar na cultura atual.

Neurociências e psicanálise: A emergência do debate


211/301

Ao fim do século XX a psicanálise encontrava-se em


crise nos Estados Unidos, assaltada pela hegemonia
crescente da psiquiatria biológica no campo da as-
sistência e por uma crescente atitude antifreudiana na
cultura, que se intensificou com as chamadas Freud
wars, em 1993.101 Havia se tornado recorrente o dis-
curso dos que queriam encerrar a “fraude freudiana”
no museu dos equívocos pseudocientíficos.102 De modo
surpreendente, no entanto, em meio à década do
cérebro, algo muito diferente disso aconteceu. Ao
enveredarem, com os novos métodos de investigação
dinâmica do cérebro, pelo estudo da consciência (um
dos objetos anteriormente monopolizados pela filo-
sofia e pela psicologia), neurobiólogos como Gerald
Edelman, V. S. Ramachandran, António Damásio e
outros começaram a expressar seu interesse pela obra
de Freud. Em 1994, Ramachandran, eminente neuro-
cientista indiano radicado nos Estados Unidos, pub-
licou estudos relatando pesquisas realizadas com pa-
cientes acometidos de anosognosia.103 Nessa patologia,
que acomete pessoas que têm um membro paralisado
por alguma lesão cerebral, o paciente é levado a negar
a paralisia, afirmando que o membro funciona perfeit-
amente. Certa vez, ao estimular artificialmente o
hemisfério direito de uma paciente, Ramachandran
percebeu que ela havia tomado consciência de que um
de seus membros havia estado paralisado desde o
212/301

acidente que sofrera, apesar de haver denegado o fato


até aquele momento. Depois que a estimulação cessou,
porém, ela voltou a negar a paralisia. Ela conseguia se
lembrar com detalhes da conversa ocorrida durante a
estimulação, exceto o fato de que havia reconhecido a
paralisia.
A conclusão a que Ramachandran, que não tinha
maiores afinidades prévias com a psicanálise, chegou
foi a de que havia lembranças que eram expulsas da
consciência de maneira seletiva, o que o convenceu de
que havia demonstrado clínica e cientificamente a ex-
istência do processo de recalcamento e, portanto, do
inconsciente freudiano. Apressadas e simplistas como
possam ter sido conclusões como essa, e apesar de res-
salvas levantadas à época tanto por psicanalistas como
por neurologistas afeitos à psicanálise,104 estudos como
esse impulsionaram a constituição do movimento lid-
erado por Mark Solms, psicanalista sul-africano radic-
ado em Londres, que veio a se chamar, em 1999, de
neuropsicanálise, reunindo psicanalistas e neuro-
cientistas com o objetivo de estabelecer ligações entre
os dois campos.
Em 1986 Solms já dera um primeiro passo na
direção dessa aproximação ao publicar um artigo sobre
a posição de Freud em relação à tradição localiza-
cionista de sua época.105 Nesse artigo Solms afirmava
que não era o Projeto o melhor ponto de partida para o
213/301

estabelecimento de uma ponte entre psicanálise e


neurociências, e sim a Contribuição à concepção das
afasias, de 1891, na qual ele enxergava uma concepção
do aparelho psíquico menos comprometida com a am-
bição fisicalista presente no trabalho de 1895. Apesar
dessa preferência de Solms, no entanto, foi o Projeto
que desempenhou um papel-chave na consolidação do
movimento da neuropsicanálise. Em 1995, estrategica-
mente situado em Nova York, ocorreu o primeiro
grande encontro de psicanalistas e neurocientistas
voltado para a discussão de possíveis pontes entre os
dois universos. O evento, organizado justamente para
celebrar os cem anos de existência do Projeto,106
tornou-se uma espécie de momento inaugural do mo-
vimento, que organizaria seu primeiro congresso form-
al cinco anos depois, em 2000.
Em 1998, Eric Kandel, outro neurocientista que
daria forte impulso à discussão do projeto de Solms,
publicou um artigo no American Journal of Psychi-
atry107 em que afirmava que o futuro da psicanálise e
da psiquiatria dependia de uma unificação desses cam-
pos com a biologia. A tese precipitou o maior número
de respostas e comentários já recebidos dirigidos a um
artigo em toda a história da publicação, provocando
uma retomada do tema pelo autor um ano depois, em
outro artigo que também se tornou referência nesse
debate.108 O argumento principal de Kandel é que na
214/301

primeira metade do século XX a psicanálise havia re-


volucionado a compreensão da vida mental, com suas
descobertas acerca dos processos mentais incon-
scientes, do determinismo psíquico, da sexualidade in-
fantil e do papel da irracionalidade na motivação hu-
mana, mas que na segunda metade do século esse
fôlego inovador havia se enfraquecido, sobretudo
devido à recusa em submeter suas proposições a exper-
iências testáveis.
Para Kandel, o trabalho em conjunto com a biologia
poderia revigorar a exploração psicanalítica da vida
psíquica em três pontos-chave: o delineamento das
bases biológicas dos processos mentais inconscientes
na vida normal e na psicopatologia, a elucidação da
natureza da causalidade psíquica e a compreensão das
mudanças estruturais precipitadas pela terapia. No
campo da psicanálise, a reação a essa proposta ficou
longe de ser unânime, e tanto o entusiasmo de uns
quanto a reserva de outros foram alimentados por
certa ambiguidade presente nas proposições kandeli-
anas. Nesses artigos, Kandel fala ora de uma psicanál-
ise “biologicamente orientada”, dotada dos requisitos
de cientificidade hoje exigidos, ora de “uma ciência
neural psicanaliticamente orientada”, na qual caberia à
psicanálise (nesse caso, “psicanaliticamente
orientada”, supõe-se) “iluminar e definir para a biolo-
gia as funções mentais que precisam ser estudadas se
215/301

quisermos construir uma compreensão sofisticada e


significativa da biologia da mente humana”.109 O fato é
que num espaço de tempo relativamente curto Solms
conseguiu reunir em torno de sua ideia a simpatia de
neurocientistas destacados como Jaak Pansepp, Oliver
Sacks, Karl Pribam, António Damásio, V. S.
Ramachandran, Joseph Ledoux. No campo psic-
analítico, ganhou inicialmente adesões no campo
americano-inglês (Arnold Pfeffer, Peter Fonagy, Otto
Kernberg, Howard Shevrin), mas logo em seguida elas
se espalharam pelo universo de língua francesa (Bern-
ard Golse, Nicolas Georgieff, Daniel Widlöcher,
François Ansermet, André Green), fazendo a ideia do
diálogo alcançar projeção internacional.
A estratégia retórica de Solms foi, desde o início, ap-
resentar a busca de integração entre psicanálise e
neurociências como um movimento lógico, já que am-
bos os campos investigariam a “arquitetura funcional
da mente”, apesar de fazê-lo com perspectivas e meto-
dologias distintas:

Se for uma verdade óbvia que ambos os grupos es-


tejam estudando e tentando entender a mesma coisa,
o mesmo aspecto da natureza, embora a partir de
diferentes pontos de vista e usando diferentes méto-
dos, então é absurdo que tenhamos tão pouca afinid-
ade entre nós. Certamente, deveríamos estar
216/301

colaborando uns com os outros, comparando notas e


compartilhando nossas descobertas.110

O problema é que nem todos os psicanalistas se


puseram de acordo com a sugestão de que essa era
“uma verdade óbvia”. Rapidamente, a tentativa de
fazer a psicanálise interagir com as descobertas das
neurociências tornou-se o centro de uma enorme
querela no campo psicanalítico, opondo, de um lado,
os que viam o avanço das neurociências como opor-
tunidade de renovação ou aprofundamento da teoriza-
ção psicanalítica e, de outro, os que recebiam com
enorme desconfiança os esforços de aproximação entre
as disciplinas, enxergando nessa aproximação o risco
de subordinação da psicanálise a estratégias redu-
cionistas e cientificistas características da biologia e
das neurociências cognitivas. O que para uns era a
oportunidade de situar a psicanálise diante de um novo
horizonte, para outros constituía uma ameaça à sua
própria existência.
A maior parte das resistências foram dirigidas ao
que muitos perceberam como um projeto de assimil-
ação da psicanálise ao quadro das neurociências, evid-
enciada no desejo de transformar a psicanálise em uma
ciência empírica, nas expectativas de traduzir pro-
cessos psíquicos em mecanismos neurobiológicos, no
empenho de localizar conceitos metapsicológicos em
217/301

estruturas cerebrais.111 Uma das críticas mais recor-


rentes tem sido a de que todas essas expectativas es-
tavam fundadas num equívoco de base: a recusa em
admitir a incomensurabilidade entre os discursos do
neural e do psíquico, o que faz proliferar descrições em
que vocabulários psicológicos são erroneamente utiliz-
ados fora de seu campo próprio de aplicação. Ao não
levar isso em conta, o projeto de utilização de teorias
neurobiológicas para o estudo da vida psíquica estaria
condenado de saída, pelo fato de incidir em dois vícios
fundamentais.
O primeiro é a chamada falácia mereológica (at-
ribuição a uma parte de uma entidade [o cérebro] de
propriedades que dizem respeito à sua totalidade [o ser
vivo]). Essa crítica tem sido lastreada na discussão
realizada por Backer (filósofo wittgensteiniano) e
Hacker (neurocientista) sobre os fundamentos filosófi-
cos das neurociências, na qual a denúncia da falácia
mereológica ocupa lugar de destaque. Vale a pena ler
esta extensa citação, que condensa o seu argumento:

Nossa objeção é que a aplicação de predicados


psicológicos ao cérebro não faz sentido. Não é que na
verdade cérebros não pensem, façam hipóteses e de-
cidam, vejam e ouçam, perguntem e respondam a
perguntas, e sim que não faz sentido atribuir tais pre-
dicados ou sua negação ao cérebro. O cérebro nem
218/301

vê nem é cego — assim como paus e pedras não estão


acordados, mas tampouco estão dormindo. Do
mesmo modo, o cérebro não pode ser consciente ou
inconsciente. O cérebro não é um sujeito logica-
mente apropriado para predicados subjetivos. (…)
Predicados psicológicos são aplicáveis essencial-
mente à totalidade do animal vivo, não a partes dele.
Não é o olho (muito menos o cérebro) que vê, somos
nós que vemos com nossos olhos. (…) Assim tam-
bém, não é o ouvido que escuta, mas o animal a que
pertence o ouvido. Os órgãos de um animal são
partes do animal, e predicados psicológicos são at-
ribuíveis ao animal total, não a suas partes constitu-
intes.112

O segundo equívoco a assombrar aproximações


apressadas com as neurociências seria o erro categori-
al — a atribuição de conceitos próprios de uma cat-
egoria (mental) a uma entidade, o cérebro, pertencente
a outra categoria (física). Na verdade, apesar de muitas
vezes alertar para o perigo desse erro nas tentativas
apressadas de localizar em estruturas cerebrais instân-
cias e processos descritos psicologicamente, o próprio
Solms contribuiu para alimentá-lo com afirmações
como essa, de 2004:

As cartografias neurológicas recentes estão em ad-


equação com a descrição feita por Freud. A região
219/301

central do tronco cerebral e o sistema límbico — re-


sponsável pelos instintos e as pulsões — correspon-
dem ao Id de Freud. A região frontal dorsal que con-
trola os pensamentos e o córtex posterior que per-
cebe o mundo externo correspondem ao Ego e ao
Superego.113

Esse tipo de mapeamento ponto a ponto entre in-


stâncias metapsicológicas e áreas cerebrais dificil-
mente encontra adesão até mesmo entre neurocientis-
tas simpáticos a seu projeto, e ilustra a dificuldade com
que ainda se debate a neuropsicanálise na definição
mais precisa dos termos de aproximação entre os
campos.
A despeito das inúmeras objeções, desconfianças e
ressalvas iniciais, porém, o diálogo entre psicanalistas
e neurocientistas veio para ficar. Apesar de haver, nos
dois domínios, quem nem sequer se dê ao trabalho de
pensar nessa direção, para uma parcela crescente de
psicanalistas já não se deve discutir se, mas como, em
que termos, com que cuidados, em torno de que
questões, com bases em quais premissas, e com quais
objetivos, a aproximação com as neurociências pode se
mostrar fértil. A literatura sobre o tema, antes circun-
scrita a um pequeno círculo de adeptos e detratores da
proposta, hoje não para de crescer, cobrindo uma
quantidade imensa de temas e abordagens. Os tópicos
220/301

de interesse mútuo incluem: a importância da epi-


gênese interacional na modulação das bases neurais do
desenvolvimento psíquico e da intersubjetividade; o
papel da memória na produção de transtornos psicop-
atológicos; o impacto de procedimentos terapêuticos
precoces e ecléticos na ativação/desativação de predi-
posições geneticamente organizadas; a importância da
comunicação infraverbal no desenvolvimento psíquico
e na comunicação terapêutica, e assim por diante.114 A
premissa básica que norteia os movimentos de aber-
tura e aproximação entre psicanálise e neurociências é
o reconhecimento de que o corpo vivo é o terreno do
qual emerge a vida subjetiva, e a percepção da existên-
cia de fatores causais de mão dupla, tanto bottom-up
(alterações em processos cerebrais afetando estados
mentais, afetando o sujeito) quanto top-down (estados
e eventos mentais afetando processos cerebrais).
Na literatura sobre o assunto são inúmeras as palav-
ras utilizadas para definir o objetivo e a forma da
aproximação entre os dois campos: tradução, fusão, in-
tegração, convergência, conciliação, compatibilização,
colaboração, confrontação, interpelação mútua, com-
plementação, interseção, e assim por diante. Essa pro-
fusão de termos parece indicar expectativas muito di-
versas quanto aos resultados do diálogo entre os dois
campos. E talvez também reflita certa indefinição no
campo, oriunda, em grande medida, de uma hesitação
221/301

em relação a como se posicionar, entre outras coisas,


diante do naturalismo invocado pelas neurociências no
estudo da subjetividade. Por isso, é importante nos de-
termos um pouco nesse tema.

O naturalismo nas neurociências

Muito frequentemente, o naturalismo é pensado


como uma concepção unificada, com uma mesma per-
spectiva substantiva e metodológica subjacente a todas
as suas versões. Como todo conceito geral, no entanto,
o naturalismo é semanticamente polissêmico, e com-
porta várias definições. O tema é demasiadamente
complexo para que nos aprofundemos nele aqui, mas
vale a pena destacar pelo menos duas maneiras muito
distintas de entender o que o naturalismo implica. A
forma mais simplista de definir o naturalismo é
descrevê-lo como a tese de que “a natureza é tudo o
que existe”.115 Dito de outra maneira, não existem dois
mundos, um natural e outro não natural, mas apenas
um. Essa definição é, na verdade, uma formulação neg-
ativa, pois define naturalismo a partir daquilo a que ele
se opõe: a ideia de um mundo sobrenatural. Como
tudo o que existe pertence ao mundo natural, não faz
sentido postular a existência de instâncias ou
222/301

entidades fora dele. É uma maneira simples, mas forte,


de definir naturalismo pondo o acento na dimensão
ontológica, identificando o mundo natural à realidade.
Esse recorte do naturalismo pode ser vislumbrado no
eliminativismo materialista, uma das orientações mais
discutidas no cenário da filosofia da mente atual. Boa
parte da resistência de psicanalistas à aproximação
com as neurociências decorre da identificação apres-
sada dessa posição com o naturalismo como um todo.
É interessante, porém, lembrar que é possível for-
mular a tese naturalista de uma maneira que pode ser
mais palatável à psicanálise. Essa formulação propõe
uma versão mais contida do naturalismo, que implica a
afirmação da natureza como um sistema fechado con-
tendo apenas causas naturais e seus efeitos: todo
evento causado no mundo natural possui uma causa
natural. Por que essa definição é mais contida do que a
anterior, que afirma que tudo o que existe é natural?
Porque ao definirmos o mundo natural como aquele
composto pelos estados e eventos naturalmente causa-
dos, como aquilo que podemos conhecer pelos méto-
dos científicos, não identificamos, em princípio, o
mundo natural à realidade. Com isso, deixa-se espaço
para a possível existência de aspectos da realidade situ-
ados fora do âmbito dos fatos descritíveis como integ-
ralmente determinados por causas naturais. Essa ver-
são do naturalismo tem, por assim dizer, uma
223/301

inspiração mais epistemológica e metodológica que on-


tológica. Em vez de dizer que a natureza é tudo o que
existe, ela afirma que a natureza é tudo o que podemos
conhecer por meio da ciência, porque os cientistas nat-
urais não dispõem de acesso empírico a quaisquer cau-
sas eventualmente situadas fora do mundo natural.
Isso permite pensar que o mundo natural não es-
gota a realidade, que os limites do que a ciência explica
não são os limites do que existe, e que podemos even-
tualmente ter acesso a aspectos não naturais da realid-
ade (ou seja, aspectos que não se caracterizam por ser-
em físicos) que incidam sobre a ordem natural, desde
que consigamos perceber os efeitos dessa incidência.
Como afirma Arthur Danto,

Ademais, o universo pode conter um ou outro tipo de


objeto não natural, mas não temos nenhuma razão
para permitir a existência de objetos não naturais a
menos que eles tenham impacto sobre o comporta-
mento observável de objetos naturais, pois objetos
naturais são os únicos objetos que conhecemos
diretamente, e somente em referência a suas perturb-
ações poderíamos garantir o conhecimento indireto
dos objetos não naturais, existindo algum.116

Essa versão do naturalismo não implica nenhum


compromisso com o reducionismo extremo e o
224/301

cientificismo encontrado na versão anterior. É carac-


terístico de todo naturalismo uma atitude contrária a
dualismos substancialistas, do tipo cartesiano — corpo
e mente como substâncias diversas, e uma defesa do
monismo. Mas a crítica a esse dualismo pode dar ori-
gem a monismos de características bastante diversas.
O monismo fisicalista reducionista, cuja versão mais
radical se expressa no eliminativismo, se contrapõe ao
dualismo de substância simplesmente negando a ex-
istência real de coisas como crenças e desejos — ou
seja, eliminando a existência real da mente. Há formu-
lações do monismo, entretanto, que vão noutra
direção. O monismo de duplo aspecto, por exemplo, re-
cusa o dualismo afirmando a existência de apenas uma
substância, mas mantém a existência do mental, na
medida em que a substância única que compõe o que
existe é percebida como podendo apresentar dois tipos
de propriedades: propriedades físicas e propriedades
mentais. Em outras palavras, o monismo de duplo as-
pecto preconiza que propriedades não físicas (crenças,
desejos, sentimentos) emergem da substância física (o
cérebro), mas adquirem características próprias.117 Ao
contrário do epifenomenalismo (que reconhece a ex-
istência real de propriedades mentais mas lhe negam
qualquer causalidade sobre o físico), o monismo de du-
plo aspecto admite a irredutibilidade do mental e a
causalidade do mental sobre o físico. Essa foi a posição
225/301

adotada por Freud a partir do Projeto, momento em


que deixou de lado o paralelismo psicofísico jacksoni-
ano que abraçava quando escreveu o estudo sobre as
afasias.
Não é nosso propósito enveredar numa discussão
cerrada sobre as variedades do naturalismo hoje. Essas
brevíssimas considerações procuraram apenas mostrar
que o naturalismo não é uma concepção unificada e
homogênea, e sugerir que há espaço para um diálogo
interessante dos psicanalistas com algumas de suas
versões. O interlocutor mais difícil é, de fato, repres-
entado pelo materialismo eliminativista.

Os limites do eliminativismo

O materialismo eliminativista, formulado a partir


dos anos 1970 e tornado conhecido pelo casal Church-
land nos anos 1980, é a forma mais radical do natural-
ismo contemporâneo. Seu objetivo é não apenas re-
duzir fenômenos mentais complexos às suas bases
neurobiológicas, mas pura e simplesmente tornar ob-
soletas descrições psicológicas, descrições da vida
mental, fazendo-as desaparecer por ilusórias e inúteis.
Para compreender melhor o seu projeto, vejamos a
definição que lhe é dada por Paul Churchland:
226/301

O materialismo eliminativista é a tese de que a con-


cepção de senso comum acerca dos fenômenos
psicológicos constitui uma teoria radicalmente falsa,
uma teoria tão fundamentalmente deficiente que
tanto seus princípios quanto a sua ontologia serão,
com o tempo, colocadas de lado, em vez de serem
suavemente reduzidas, por uma neurociência com-
pleta.118

Para ajudar no exame dessa posição, vale a pena


citar ainda dois trechos que já se tornaram famosos
como ilustrações do eliminativismo. O primeiro é de
Paula Churchland:

A cada pequeno experimento, a neurociência está


moldando nossa concepção acerca do que somos. O
peso das evidências mostra agora que é o cérebro, e
não alguma coisa não física, que sente, pensa e de-
cide. Isso significa que não há nenhuma alma que se
apaixone. Nós continuamos nos apaixonando, é ver-
dade, e a paixão é tão real como sempre foi. A difer-
ença é que agora nós compreendemos que esses im-
portantes sentimentos são eventos acontecendo em
nosso cérebro físico [itálico da autora]. (...) A con-
sciência, quase certamente, não é algo como uma luz
meio mágica emanando da alma, ou permeando al-
guma coisa fantasmagórica. Ela é muito
227/301

provavelmente um padrão coordenado de atividade


neural servindo a várias funções biológicas.119

O segundo é de Francis Crick, ganhador, junto com


James Watson, do prêmio Nobel pela descoberta do
DNA:

Você, suas alegrias e tristezas, suas memórias e suas


ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-ar-
bítrio nada mais são de fato que o comportamento de
um vasto conjunto de células nervosas e suas
moléculas associadas. Como a Alice de Lewis Carrol
poderia ter dito: você não passa de um pacote de
neurônios.120

É preciso reconhecer inicialmente que Churchland e


Crick têm razão num ponto: a vida subjetiva não surge
fora do mundo natural, nem se dá independentemente
de processos biológicos. Por isso, sua emergência, seu
desenvolvimento e seu funcionamento podem e devem
ser legitimamente objeto de investigação das ciências
naturais, e não apenas da pesquisa filosófica, psicoló-
gica ou teológica. O problema com o eliminativismo es-
tá em outro lugar.
Para começar, o objetivo declarado dos eliminativis-
tas é substituir os princípios e a ontologia “radic-
almente falsos” da psicologia do senso comum (a
228/301

psicologia do cotidiano, também chamada de folk psy-


chology), por uma linguagem estritamente científica
para descrever os fenômenos mentais. Mas, a rigor,
não há, na psicologia do senso comum, uma teoria e
uma ontologia radicalmente falsas, pelo simples fato
de que ela não é um discurso formal sobre a mente que
pretenda ser cientificamente verdadeiro. O que nela há
são jogos de linguagem usados na vida cotidiana para
explicar e prever o comportamento e os estados subjet-
ivos de outras pessoas, com base em noções como
crenças, desejos, sentimentos e razões, para fazer face
às exigências normativas da vida cotidiana, e não
questões de natureza teórica sobre a mente, a iden-
tidade pessoal, a liberdade. Suas teorias e ontologias
espontâneas indicam a capacidade natural dos seres
falantes de produzir sentido para sua experiência do
mundo, e exprimem as marcas das formas de vida, do
universo histórico e cultural em que são produzidas.
Elas não têm a mesma pretensão de verdade que as
teorias científicas, não concorrem com elas, não dis-
putam o mesmo espaço lógico, o mesmo nível
epistêmico.
Na verdade, ao aludir à psicologia do senso comum,
eles estão mirando numa teoria que consideram implí-
cita nela: o dualismo de substância cartesiano — que
situa a mente no indivíduo, mas fora do mundo natur-
al. Ora, com a exceção de Popper e John Eccles,121 é
229/301

muito difícil hoje encontrar teorias que descrevam a


mente, o sujeito ou o self como uma substância imater-
ial independente, uma entidade ontologicamente auto-
ssuficiente, capaz de emergir e subsistir na ausência de
um corpo. Mesmo antirreducionistas radicais como
Colin McGinn,122 que considera a consciência um mis-
tério insolúvel para a cognição humana, ou Lacan, para
quem o sujeito se define como radicalmente heterôn-
imo em relação à ordem natural, admitem que a emer-
gência da consciência e o advento do sujeito dependem
de processos naturais. Não há consciência nem sujeito
na ausência de um corpo e seu cérebro. Fenomenólo-
gos, budistas, psicólogos cognitivos e psicanalistas em
geral tampouco aceitam a ideia da consciência ou do eu
como algo “fantasmagórico”, mas nem por isso são im-
pelidos a concluir que, se você não é uma alma imateri-
al, então “você não passa de um pacote de neurônios”.
Os eliminativistas simplificam o rico e complexo de-
bate sobre a consciência e a vida mental, configurando-
o como um embate simplório entre sua versão fisic-
alista reducionista e os adeptos de “luzes mágicas em-
anando da alma”.
Churchland afirma que sua tese é demonstrada pelo
“peso das evidências”, mas na verdade o resultado de
sua investigação já está presente desde a formulação de
sua petição materialista inicial: não há alma, só
cérebro. Como o materialismo eliminativista contém
230/301

uma postulação metafísica que define de antemão o


que é a realidade, ele define ao mesmo tempo o que é
uma ontologia verdadeira e, por derivação, o que são
falsas ontologias. A pesquisa empírica baseada nessa
postulação só poderá acumular evidências que a rati-
fiquem. Em princípio, não há problema no uso de pos-
tulações metafísicas. Todos nós o fazemos, de forma
consciente ou não. Essa postulação é indispensável
porque só tendo uma ideia do que significa a realidade,
só a definindo de antemão, somos capazes de recon-
hecê-la. Mas isso implica que posições metafísicas não
são sustentadas nem podem ser refutadas por evidên-
cias empíricas. Ao contrário, são elas que criam o
campo de possibilidade em que as evidências podem
ser construídas. O eliminativismo escamoteia esse fato,
apresentando a sua ontologia como verdadeira porque
supostamente comprovada pelo método científico.

O problema do reducionismo

Crick afirma que alegrias, tristezas, memórias e suas


ambições e o senso de identidade pessoal nada mais
são de fato que o comportamento de um vasto con-
junto de células nervosas e suas moléculas associadas.
Ele tem razão ao dizer que nada disso existiria sem a
231/301

atividade de neurônios e suas moléculas. De novo, pou-


cos discordariam disso hoje. Mas que sentido faz dizer
que alegria é de fato aquilo que se passa nos
neurônios? Por mais exaustiva que seja a descrição ob-
tida no fim da análise reducionista de um fenômeno
subjetivo, sempre restará algo que resiste à redução,
que o método não consegue reduzir de forma exaustiva
(explain away), e esse algo é a experiência na primeira
pessoa, a consciência subjetiva, o modo como os fenô-
menos aparecem ao sujeito. Um naturalista não elim-
inativista não tem problema em admitir esse limite. O
eliminativista, ao contrário, supõe que, ao fim da re-
dução, o que não pode ser reduzido simplesmente não
existe. A pesquisa naturalista (investigação do que
causa, no sentido de que torna possível, a experiência
subjetiva) não é incompatível com o reconhecimento
da especificidade do nível fenomenal ou mental. Por
acaso a experiência do calor ou da água foi dissolvida
quando o calor foi reduzido a movimento de moléculas,
e a água à combinação de dois átomos de hidrogênio e
um de oxigênio?
A rigor, a prática do reducionismo é comum a
qualquer método de investigação de fenômenos com-
plexos, não só na ciência, mas não implica necessaria-
mente a decretação de inexistência daquilo que foi re-
duzido. Vamos tomar o caso do budismo como exem-
plo. Uma das ideias centrais de sua psicologia é
232/301

também a afirmação de que o eu não é uma entidade


independente, não existe como substância idêntica a si
mesmo, estável no tempo. É claro que, apesar disso, to-
dos nós nos experimentamos como sendo um eu, o
mesmo ao longo de nossa vida — e nisso está sua real-
idade: o eu é uma experiência de eu, que surge como
efeito emergente da articulação dos cinco agregados
(skandhas).123 O eu é uma aparência, não uma en-
tidade sólida, mas isso não quer dizer que ele não
exista. Quer dizer que sua existência é de outra ordem
que não a dos elementos que lhe dão origem e dos
quais depende. Reduzir a experiência aos agregados
não elimina a experiência do eu. Ao contrário, torna
possível compreender melhor a particularidade de sua
natureza. O reducionismo fisicalista e o plano fenom-
enal da experiência são perfeitamente compatíveis —
desde que o primeiro não queira varrer o segundo,
acusando-o de ser mera aparência e não um processo
físico real. A experiência fenomenal diz justamente do
modo como as coisas aparecem para o sujeito, e não da
realidade física dos mecanismos naturais que causam
— no sentido de que tornam possível — sua existência.
O arco-íris é um fenômeno provocado pela dispersão
da luz solar que sofre refração pelas gotas de chuva.
Não tem substância material, não está localizado num
ponto determinado no espaço, e sua visualização
233/301

depende do ponto de vista do observador. Mas faz sen-


tido, por isso, dizer que ele não existe?
Num momento do trecho citado, Patricia Church-
land afirma que “a paixão é tão real quanto sempre foi.
A diferença é que agora compreendemos que esses im-
portantes sentimentos são eventos acontecendo em
nosso cérebro físico”. Mais adiante, no mesmo livro,
ela repete a ideia: “O cérebro nos faz pensar que temos
um eu (self). Isso quer dizer que o eu que penso que
sou não é real? Não, ele é tão real quanto qualquer
atividade do cérebro. Mas significa, no entanto, que o
eu não é pedaço etéreo de algo como a alma (soul
stuff).124 Em frases como essas, assim como em outras
ocasiões, os Churchland parecem admitir a importân-
cia própria do nível fenomenal da experiência sub-
jetiva, contrariando a pretensão contida na definição
de seu eliminativismo. Se esse fosse de fato o caso,
porém, poderíamos ser autorizados a inverter seu ar-
gumento sobre a paixão, e dizer que o peso da exper-
iência nos mostra que, apesar de não existir uma alma
que se apaixone, e de sabermos que estados afetivos
estão correlacionados, e dependem para existir de cer-
tos padrões coordenados de atividade neural, a paixão
é tão real quanto sempre foi. A diferença é que agora
sabemos que ela se situa no plano fenomenal, e não
fora do mundo ou nos processos físicos entre molécu-
las e neurônios. Essa é uma formulação, no entanto,
234/301

inaceitável para quem acredita que conceitos como


“paixão” serão aposentados por uma futura neurociên-
cia “completa”. O problema é que o eliminativismo
procede da seguinte maneira: primeiro, reconhece a
existência do reino fenomenal, da experiência sub-
jetiva; em seguida, afirma que esse nível é criado a
partir de processos físicos dinâmicos inacessíveis ao
sujeito — não sendo, portanto, algo sobrenatural. Até
aqui, tudo bem. Mas o raciocínio segue baseado na
premissa de que, se algo tem antecedentes causais, en-
tão somente esses antecedentes têm uma realidade in-
dependente. Assim, se a esfera subjetiva é criada por
processos físicos, então ela deve ser apenas uma re-
ificação ilusória, uma mera aparência que não deve ser
confundida com a realidade dos processos físicos sub-
jacentes. A despeito da eventual ambiguidade de certas
afirmações, os eliminativistas não enxergam valor na
exploração do nível fenomenal da vida psíquica.
Um último comentário sobre esse tópico: na ver-
dade, dizer que a paixão é tão real quanto sempre foi
não é errado, mas é ainda impreciso, por uma razão
evidente para os psicanalistas: o estado de paixão, ao
contrário do que ocorre com neurônios, varia
imensamente no tempo e no espaço. A paixão não é a
mesma antes e depois de Goethe e os românticos. Um
grego apaixonado do século V a.C. se sentiria atraves-
sado pela flecha de Eros, tomado por uma força
235/301

supraindividual que o arrancava de si. Depois do Wer-


ther, os apaixonados passaram a sentir a paixão como
o efeito tempestuoso e arrebatador de vulcão escon-
dido nas profundezas abissais do seu mundo interior.
Mais uma vez tocamos no limite do eliminativismo.
Nenhum exame comparativo do comportamento das
redes neuronais no século V a.C e no século XVIII
ajudaria a entender o porquê de diferenças como essa.
O problema do eliminativismo, na verdade, não está
no reducionismo. Está naquilo que ele inerentemente
não pode explicar e que, em vez de ceder a outras
formas de investigação, pretende simplesmente varrer
como ilusório ou inexistente. O problema está na in-
sistência em definir como pertinente apenas um plano
da realidade, o físico. Quando se trata de elucidar a
qualidade da experiência do sujeito, o eliminativista
mira no nível errado, e perde o essencial. Não é porque
ainda não temos um conhecimento exaustivo das redes
neurais, trocas moleculares, disparos elétricos etc., en-
volvidos na produção de eventos e estados mentais,
que continuamos falando de alegrias e tristezas, e não
de velocidades de recaptação de neurotransmissores
em determinadas redes sinápticas, por exemplo. O
problema é que se trata de níveis diferentes, que soli-
citam vocabulários e estratégias descritivas pragmat-
icamente diversas. O problema do eliminativismo diz
respeito à sua incapacidade de pensar de maneira
236/301

adequada a problemática das relações entre a base


neuronal, a totalidade do organismo e o domínio
histórico e simbólico da cultura na constituição da vida
psíquica. Como ressalta Jurandir F. Costa,

O cérebro é um elo na cadeia que liga o corpo ao am-


biente/mundo. Sua higidez obviamente é uma con-
dição necessária à gênese e ao equilíbrio das ativid-
ades mentais. Mas o mesmo poderia ser dito do rest-
ante da matéria corporal e do ambiente. O corpo do
sujeito não é um apêndice diluído do cérebro, assim
como o ambiente não é uma contração gramatical de
estímulos atomizados por aparatos teóricos e instru-
mentais. Não conhecemos sujeitos nascidos de
cérebros em cuba, assim como não conhecemos
sujeitos com corpo e mundo, mas desprovidos de
cérebro.125

O cerebrocentrismo da perspectiva eliminativista


põe tanto o corpo quanto o ambiente fora de seu
quadro explicativo, o que prejudica inapelavelmente o
poder heurístico de sua explicação do fato subjetivo.
Como lembra Zizek, o problema a ser ultrapassado
na elucidação da vida subjetiva não está em ir da
“aparência” da consciência fenomenal para a material-
idade “real” dos mecanismos neuronais a subjetivos. O
reducionismo metodológico das neurociências tem
237/301

feito isso, e avançado muito nesse tipo de conheci-


mento. O verdadeiro enigma está na outra direção, e
ainda é o mesmo que Freud quis resolver ao escrever o
Projeto: compreender como, da intrincada e complexa
articulação de mecanismos e processos materiais
presentes no cérebro, emerge uma subjetividade ao
mesmo tempo originada do plano imanente da corpor-
eidade e da atividade cerebral, e autônoma em relação
a ele. Como da matéria viva dos organismos humanos
emerge a experiência subjetiva.

Psicanálise, natureza e cultura: Duas perspectivas


sobre a subjetividade

No livro A visão em paralaxe, Zizek, um dos poucos


lacanianos firmemente engajados num diálogo com as
neurociências, afirma que a fórmula com que mais fre-
quentemente se apresenta essa questão no debate
entre as humanidades e o cognitivismo é a alusão à
construção de uma “ponte sobre a lacuna” entre
natureza e cultura, entre os processos biológicos
“cegos” (químicos, neuronais) e a experiência subjetiva
da consciência. Mas, de maneira contraintuitiva, ele
pergunta: “E se essa for a tarefa errada? E se o ver-
dadeiro problema não for fazer a ponte sobre a lacuna,
mas antes formulá-lo [o problema] como tal, concebê-
238/301

lo adequadamente?”126 Vale a pena seguir essa sug-


estão. Em vez de obturar apressadamente o espaço de
interrogação acerca das relações entre a dimensão
neurobiológica e a dimensão experiencial da vida sub-
jetiva, talvez seja mais proveitoso explorar maneiras de
configurar o problema dessas relações, para então pro-
curar discernir os caminhos mais interessantes para as
conversações entre psicanalistas e neurocientistas. A
verdadeira questão que se apresenta para a psicanálise
nesse cenário é como ela pode se inserir no debate con-
temporâneo promovido pelas ciências do cérebro e, a
partir da perspectiva que lhe é própria, tornar mais
complexo o debate acerca da emergência da vida
psíquica, do advento do sujeito, das atipias e patologias
psíquicas etc. Para isso, como diz Zizek, a maneira de
formular o problema das relações entre fisicalidade e a
subjetividade, ou entre cérebro e a mente,127 é o
primeiro passo a ser dado. Para efeito de nossa dis-
cussão, poderíamos sintetizar a diversidade de posicio-
namentos dos psicanalistas agrupando-os em duas es-
tratégias básicas em face do naturalismo que, grosso
modo, se dividem da seguinte maneira.

A emergência da subjetividade
239/301

A primeira estratégia, que chamaremos de emer-


gentista, parte da compreensão de que a constituição
da subjetividade humana se caracteriza por mesclar,
num mesmo espectro diacrônico, processos naturais
do funcionamento corporal (que constituem o terreno
a partir do qual os primórdios da vida psíquica têm
lugar), o surgimento de uma subjetividade que já im-
plica uma consciência de si, ainda pré-verbal e pré-re-
flexiva, e finalmente o aparecimento da subjetividade
autorreflexiva, ordenada linguisticamente. Trata-se,
portanto, da análise de um longo e complicado pro-
cesso que começa na constituição dos mais element-
ares mecanismos vitais de regulação homeostáticos da
relação do organismo com o ambiente, e segue até o
surgimento de uma subjetividade autônoma — consub-
stanciada no advento do sujeito, inscrito na ordem
simbólica. Dessa perspectiva, a passagem do animal
humano como ser natural para o sujeito enquanto ser
de linguagem é pensada menos como ruptura em re-
lação à ordem natural do que como o resultado de pro-
cessos de interação, progressivamente complexos, do
organismo com o ambiente, que tornam possível o sur-
gimento da esfera autônoma do sujeito como fenô-
meno emergente. O movimento de desnaturalização
(ou de transcendentalização em relação à ordem natur-
al) que daria origem ao sujeito seria, nesse sentido,
imanente à própria natureza — não, evidentemente,
240/301

como um movimento solipsista do organismo individu-


al, mas como virtualidade ontológica ativada pela
presença do outro com o qual o indivíduo, desde os
primórdios da vida, se põe em relação. Definida não
mais como uma totalidade consistente e fechada em si
mesma, a natureza, instanciada no organismo hu-
mano, conteria, em seu próprio funcionamento, um
princípio de indeterminação e abertura que con-
stituiria a fonte de sua autossuperação. Graças à plasti-
cidade, à epigenética e à incidência do Outro, o espaço
da autonomia do sujeito em relação à natureza e às ca-
deias de causalidade naturais estaria previsto como
possibilidade inscrita no horizonte de abertura ontoló-
gica de seu próprio funcionamento.
Essa maneira de ver permite então derivar duas
percepções importantes. A primeira é a noção do
sujeito como resultante do encontro de duas ordens
igualmente despidas de substância ou consistência úl-
tima, a ordem simbólica e a ordem natural — e não
apenas da incidência da primeira sobre a segunda. A
dimensão da falta ou da negatividade, fonte de aber-
tura fundamental da experiência humana, deixa de ser
percebida como inerente apenas à transcendência da
dimensão simbólica e à linguagem para ser inscrita
também no funcionamento do próprio animal hu-
mano. A outra, consequência da anterior, é a percepção
da importância crucial dos primórdios da atividade
241/301

psíquica para a vida posterior do sujeito. Em outras


palavras, torna-se crucial a investigação dos processos
de subjetivação iniciais, momento em que o espectro
das relações intersubjetivas pré-verbais e pré-re-
flexivas está fortemente ancorado no funcionamento
corporal. A articulação de perspectivas psicodinâmicas
e neurobiológicas no estudo de vicissitudes desse fun-
cionamento se torna então um instrumento funda-
mental para explicar a particularidade e a atipia de cer-
tas constituições subjetivas, e a gênese de várias organ-
izações patológicas cuja expressão clínica só se dará
muito depois.
No cenário psicanalítico atual, podemos dizer que a
estratégia emergentista pode ser vislumbrada numa de
suas orientações teórico-clínicas mais influentes, a
matriz winnicottiana, que se situa, dentro do campo
mais amplo dos teóricos das relações objetais, numa
linhagem que encontra raízes em Ferenczi e passa por
Balint. No espectro do universo psicanalítico, essa per-
spectiva se coloca em tensão com outra grande ori-
entação teórica, a lacaniana. Ao comentar os encontros
e desencontros entre as duas vertentes, Octávio Souza
chama atenção para elementos que ajudam a esclare-
cer os pontos de divergência entre ambas.128 Um deles
está na maneira como tematizam a noção de trauma e
sua incidência na constituição da subjetividade. Na
teoria lacaniana, em que o acontecimento traumático
242/301

delimita claramente um antes e um depois, a experiên-


cia subjetiva só surge depois dele, como efeito do
trauma. A perspectiva winnicottiana preconiza a ex-
istência de um início pré-subjetivo da experiência hu-
mana na qual sujeito e outro são coparticipantes in-
diferenciados de uma experiência em contínuo pro-
cesso de desdobramento e diferenciação — uma exper-
iência mais próxima do encantamento e do êxtase —, e
é dessa experiência processual que resultará a
produção de um sujeito. Se na perspectiva lacaniana a
entrada em cena de um Outro traumático é condição
para o ato inaugural do psiquismo, na vertente win-
nicottiana é a presença de um Outro benevolente que
assegura as condições de sua emergência. Na vertente
winnicottiana, o trauma é pensado não como ori-
ginário e fundador do processo de subjetivação, mas
como elemento secundário e perturbador desse mesmo
processo.
Souza lembra que a crítica central feita à concepção
winnicottiana do início da experiência psíquica como
experiência de continuidade do ser, possibilitada pela
presença de uma mãe suficientemente boa, é que esse
modelo excluiria qualquer referência à alteridade,
pressupondo uma experiência homogênea e equilib-
rada que conteria uma complementaridade absoluta
entre sujeito e meio ambiente, desconhecendo a in-
cidência da castração e, no limite, reduzindo o desejo
243/301

ao funcionamento do ser vivo. No modelo winnicot-


tiano, porém, a alteridade está presente e tem papel
crucial, mas não como elemento transcendente à ex-
periência, e sim como aspecto estruturalmente iman-
ente a ela. Seu papel é amparar os processos de
amadurecimento que, ao longo do tempo, engendram o
processo de diferenciação constituinte do sujeito, que
se funda no exercício da criatividade primária e na
apercepção criativa. De um modo somente em aparên-
cia paradoxal, para cumprir essa função, o ambiente
não pode ter uma relação de complementaridade abso-
luta com o sujeito. Ao contrário, o sentido do advérbio
suficientemente, na expressão que designa a função ex-
ercida pela mãe-ambiente, indica que esse relaciona-
mento implica necessariamente a presença da falta, da
falha, da frustração, e de seus efeitos no engendra-
mento do processo de diferenciação que resultará na
emergência do sujeito. No limite, a diferença entre as
duas perspectivas reflete um entendimento divergente
do quadro oferecido na segunda teoria pulsional de
Freud. Como diz Souza,

para Lacan, há apenas pulsão de morte, e para Win-


nicott, há apenas pulsão de vida. Nesta medida, para
Winnicott, a diferença [instituinte da subjetividade]
não se dá no corte abrupto que a pulsão de morte
efetua na ordem vital, mas sim na emergência do
244/301

psíquico a partir da ordem vital. Winnicott, ao con-


trário de Lacan, não possui uma antropologia que
busca uma definição precisa do humano, mas uma
teoria da natureza que não exclui o animal hu-
mano.129

A teoria do self em Damásio

Vários neurocientistas estão alinhados com a per-


spectiva emergentista. Um dos mais conhecidos é
António Damásio,130 razão pela qual nos deteremos
brevemente em algumas de suas ideias sobre a con-
stituição da vida subjetiva. Em vários livros,131
Damásio tem procurado apresentar uma teoria da sub-
jetivade que descreva a emergência da experiência sub-
jetiva e do eu, ou do self, baseada na interação entre
organismo e ambiente, na qual a atividade neuronal do
cérebro atue como mediadora. A elaboração teórica de
Damásio, como lembra Serpa Jr., parte de certas
premissas que valem ser destacadas na medida em que
salientam sua diferença em relação à perspectiva elim-
inativista. Em primeiro lugar, Damásio adota uma per-
spectiva organísmica e não neurocêntrica. A mente é
apresentada como uma propriedade emergente do
corpo e não do cérebro tomado isoladamente. Em se-
gundo lugar, ele incorpora em sua descrição aspectos
245/301

valorativos e contextuais (ou aspectos páticos) —


razão pela qual as emoções e os sentimentos ocupam
lugar tão importante na sua teoria da mente (assim
como ocorre com outros neurocientistas, como Joseph
Ledoux e Jaak Panksepp). E finalmente ele recusa ex-
plicitamente o monismo eliminativista, optando pelo
monismo de duplo aspecto. Nessa versão não redu-
cionista de fisicalismo, considera-se que os estados
mentais são causados por (no sentido de que não po-
dem existir sem a presença de) estados físicos, mas não
inteiramente redutíveis a esses, devido a diferenças de
propriedades entre os dois níveis.132
Para Damásio, a emergência da consciência e do self
deve ser vista como dois lados de um mesmo fenô-
meno, já que ambos expressam modalidades de relação
do organismo com o ambiente que, na ontogênese, se
desenvolvem em padrões de organização progressiva-
mente ampliados. Damásio distingue três tipos de or-
ganização do self, que se sucedem como estágios emer-
gentes de complexidade crescente.133 O primeiro é o
proto-self, que expressa uma agência reguladora da
homeostase do corpo, constituída por um conjunto co-
erente de padrões neuronais interconectados e tempor-
ariamente coerente que mapeia, a cada momento, o es-
tado físico do organismo em diversos níveis. O proto-
self é um padrão de atividade neural inteiramente in-
consciente, ainda sem propriedades mentais — uma
246/301

noção que tem visíveis afinidades com a concepção de


eu elaborada no Projeto de 1895 — e que servirá de
base para o aparecimento da experiência subjetiva de
si.
Essa experiência entra em cena quando ocorre uma
perturbação no estado de homeostase regulado pelo
proto-self, como consequência da afetação provocada
pela presença de algum objeto ou acidente externo com
o qual o organismo entra em contato. Nesse ponto algo
fundamental acontece: a emergência da
autoconsciência pré-reflexiva, que ele chama de con-
sciência central, relacionada a uma organização do self
que ele chama de self central, ou nuclear (core self).
Nesse momento ocorre uma espécie de “explosão on-
tológica”, que marca o momento em que o mental
eclode a partir do funcionamento neuronal. Assim
descrita, a consciência aparece como um fenômeno
relacional, como uma modalidade de interação do or-
ganismo com o ambiente, que surge como resposta a
um desequilíbrio na homeostase orgânica. A consciên-
cia central, ou autoconsciência, é a modalidade mais
elementar da experiência de si, que antecede a con-
sciência reflexiva que virá com a aquisição da lin-
guagem. Seu aparecimento significa a possibilidade de
o indivíduo possuir acesso imediato, na primeira pess-
oa, à sua realidade experiencial de ser um self imerso
no mundo. O self nuclear que emerge da consciência
247/301

central é uma entidade transiente, reativada incess-


antemente a cada contato com os objetos com os quais
o cérebro interage e que desestabiliza momentanea-
mente o equilíbrio homeostático do organismo.
A noção do self com a qual lidamos normalmente,
porém, está ligada à ideia de identidade e continuid-
ade, e essa modalidade corresponde ao terceiro nível
de organização da consciência, a consciência ampliada,
ou estendida. É ela que dá origem ao self autobio-
gráfico, que surge do self nuclear e corresponde ao
conjunto de modos de ser, características e narrativas
que definem o sujeito em sua singularidade, com base
nos elementos acumulados na memória autobiográfica.
Esses três elementos (memória autobiográfica, self
autobiográfico e memória ampliada) se articulam para
garantir um sentido de self complexo e duradouro, que
molda a identidade pessoal à qual cada sujeito se iden-
tifica. Assim, haveria na vida um jogo permanente em
que estados homeostáticos são perturbados, gerando
outras formas de homeostase, dos quais os relatos
autobiográficos constituem a forma mais complexa.

Empatia, intersubjetividade, sujeito: O caso do


autismo
248/301

O privilégio dado a uma perspectiva relacional na


descrição biológica da emergência da vida subjetiva
tem feito com que essa abordagem encontre bastante
eco nos psicanalistas que têm em seu centro de in-
teresses a teorização das relações objetais e o conceito
de intersubjetividade, na vertente da matriz kleiniano-
winnicottiana. Há, claro, muitos pontos de difícil aco-
modação na cooperação entre psicanalistas e neuro-
cientistas, a começar pelo uso comum de certos ter-
mos, como “inconsciente” e “objeto”, que não encon-
tram equivalência semântica nos dois campos. O in-
consciente freudiano não é o inconsciente cognitivo
das neurociências, que poderia no máximo se aproxim-
ar do pré-consciente. Quanto à noção de objeto, não há
nenhuma descrição neurobiológica do objeto transi-
cional winnicottiano ou do “objeto a” lacaniano, que
ocupam lugar central na teorização psicanalítica.134
Mas a ênfase nos processos de maturação e desenvolvi-
mento tem favorecido o encontro de pontos de in-
teresse convergente em torno de temas como: a) o
estudo das emoções e seu papel no desenvolvimento do
psiquismo infantil; b) estudos, com tecnologias de
visualização, de aspectos relacionais do desenvolvi-
mento fetal e sua relação com o desenvolvimento neur-
onal e psíquico; c) pesquisa da comunicação primária
do neonato com a mãe e o ambiente; d) investigações
sobre a aquisição da linguagem e o efeito da voz
249/301

materna no período pré e pós-natal; e) estudo da mat-


uração neurobiológica e do desenvolvimento psíquico
em relação às funções da consciência e do incon-
sciente; f) estudo da empatia e suas consequências
para o desenvolvimento das relações intersubjetivas, e
assim por diante.135
A maior parte desses temas gira em torno das
formas primitivas da experiência de si, e dos processos
inaugurais de diferenciação, que permitem ao
indivíduo experimentar-se como separado do outro, ao
mesmo tempo que estabelece relações com ele. Assim,
os processos primários de subjetivação, a constituição
das relações intersubjetivas e as patologias da inter-
subjetividade ou da empatia, como o autismo, a es-
quizofrenia e os quadros borderline, se tornam possí-
veis objetos de interesse comum para psicanalistas e
neurocientistas.
A descoberta dos neurônios-espelho criou uma ver-
tente interessante de estudos cooperativos entre psic-
analistas, neurocientistas e psicólogos do desenvolvi-
mento. O estudo do sistema de neurônios-espelho
mostra como, a partir de índices de atividade psíquica
(ação motora, expressão emocional, indicadores de in-
tencionalidade) do outro, o cérebro reproduz, de modo
pré-reflexivo e automático, configurações cerebrais, e
portanto mentais, análogas às percebidas no outro.
Esses processos dariam sustentação à capacidade de
250/301

compartilhar estados mentais do outro, colocar-se no


seu lugar, criando um espaço psíquico comum aos
dois.136 Formula-se, assim, a postulação de uma capa-
cidade inata de representação do outro, que assegura,
desde o nascimento, a intersubjetividade e os com-
portamentos de interação, pela antecipação perman-
ente das respostas do outro aos comportamentos do
sujeito. Com a elaboração de uma teoria neurobioló-
gica e cognitiva dos processos empáticos, também as
neurociências passaram a estudar mecanismos de in-
fluência e indução mútuas entre as atividades
psíquicas de dois sujeitos em situação interativa e seu
impacto na constituição de uma realidade psíquica
compartilhada.137
Investigações nessa direção, assim como outras
pesquisas empíricas, voltadas para o estudo da comod-
alidade perceptiva e do reconhecimento da voz mater-
na em crianças pequenas,138 têm tido um impacto rel-
evante nas pesquisas sobre o autismo realizadas por
psicanalistas. A partir delas, Simas e Golse,139 por ex-
emplo, puderam sugerir duas hipóteses sobre possíveis
associações entre perturbações do funcionamento do
sistema de neurônios-espelho e a constituição de uma
subjetividade autística: uma supõe que anomalias
desse sistema junto com alterações no funcionamento
da amígdala — uma das estruturas-chave que desen-
cadeiam o interesse do bebê pelo rosto humano —
251/301

possam estar presentes desde o nascimento, tornando


difícil o estabelecimento de trocas empáticas entre a
mãe, ou o agente cuidador, e o bebê, conduzindo este a
uma situação de extrema vulnerabilidade. A segunda
hipótese supõe que, em situações nas quais as capacid-
ades empáticas primárias estejam presentes no nasci-
mento, o não desenvolvimento para estágios mais
avançados da vida intersubjetiva poderia se dever a
uma hipersensitividade ou hiperpermeabilidade do sis-
tema de neurônios-espelho ao que emana do parceiro
interativo, o que poderia levar o bebê a bloquear defen-
sivamente sua percepção dos estímulos humanos, sen-
tidos como imprevisíveis ou dolorosos em excesso —
trazendo como consequência um sério entrave no
acesso à intersubjetividade. Estudos como esse podem
não só trazer luz para os mecanismos patológicos en-
contrados nas formas graves de autismo, mas também
fornecer subsídios para o debate em torno de aspectos
somáticos decisivos na produção de constituições sub-
jetivas atípicas, como é o caso do autismo leve que
reivindica o status de neurodiversidade (e não de pato-
logia).140
Vale notar que a colaboração com neurobiólogos,
geneticistas e cognitivistas no estudo do autismo tam-
bém tem atraído psicanalistas de orientação lacani-
ana.141 Os resultados dos estudos realizados por
Laznik, junto a pais e crianças com comportamento
252/301

autista ou com sinais de risco para o autismo, levaram


à formulação de hipóteses quanto aos fatores que
levam à gênese da situação autística bastante difer-
entes das formuladas há tempos por Bruno Bettelheim.
Enquanto Bettelheim via nos pais uma ausência de
desejo pelo filho, ou a inexistência de suposição de um
sujeito no bebê, os dados empíricos retirados de exten-
sas filmagens familiares permitiram a Laznik mostrar
que “de maneira quase sistemática” são as dificuldades
de interação do bebê que destroem, em poucos meses,
as competências dos pais, ou pelo menos a confiança
que eles têm neles mesmos”.142 Essas dificuldades do
bebê, que provavelmente expressam uma predis-
posição ou fragilidade genética, não excluem a re-
sponsabilidade do psicanalista nesses quadros, já que
uma intervenção precoce pode mudar o curso do
desenvolvimento da criança e, lastreada nos fenô-
menos da neuroplasticidade e da epigenética, con-
tribuir para a emergência da vida pulsional e fantas-
mática. Entre os instrumentos dessa aposta está a ex-
ploração de dimensões prosódicas e rítmicas da voz
parental que ativam zonas cerebrais que, no desenvol-
vimento do autista, não são ativadas ou se encontram
prejudicadas.
A intervenção precoce de orientação psicodinâmica
pode também ser decisiva nos casos de reações e con-
dutas que, de forma precipitada, são consideradas
253/301

suficientes para a inclusão da criança no espectro


autístico (com as inevitáveis consequências perform-
ativas desse diagnóstico) e que revelam, ao longo do
atendimento, serem expressão de dificuldades diversas
no processo global de desenvolvimento da criança —
situação clínica que requer cuidado imediato, mas que
não indica, necessariamente, o desencadeamento de
um percurso autista.143 Desse modo, o trabalho con-
junto de neurocientistas e psicanalistas tem con-
tribuído para uma compreensão mais profunda dos
fatores neurobiológicos e intersubjetivos responsáveis
pelo desenvolvimento inicial do sujeito, e das patologi-
as que incidem nesse processo.

A origem traumática do sujeito

A segunda estratégia descritiva sobre o surgimento


da vida subjetiva sublinha a descontinuidade existente
entre o plano da organização fisiológica da totalidade
orgânica e o advento da autoconsciência e do sujeito,
recusando a continuidade entre esses planos proposta
pela perspectiva emergentista. A recusa da continuid-
ade corresponde à percepção do advento da subjetivid-
ade como efeito de uma ruptura radical imposta pela
ordem simbólica à dimensão natural do indivíduo
254/301

humano. Essa posição, de extração fundamentalmente


lacaniana, concede uma primazia ontológica à negat-
ividade, ao vazio e à reflexividade na produção do
sujeito, pensado como fundamentalmente heterônomo
em relação à natureza. Esse sujeito, embora dependa
da existência da atividade psíquica promovida pelo
funcionamento neuronal (sem cérebro não há sujeito),
não é pensado como uma propriedade naturalmente
emergente dos mecanismos biológicos que regulam a
vida relacional. Ao contrário, essa ontologia negativa
do sujeito autorreflexivo tem, no seu centro, a noção de
trauma como o elemento precipitador da ordem pro-
priamente humana.
Dessa perspectiva, à diferença do que preconiza o
emergentismo, não é possível ver nos processos de in-
teração entre organismo e meio a explicação para o
surgimento da subjetividade autonôma, pois esta justa-
mente só aparece como efeito de um desvio em relação
a esse processo interativo natural. Entregue à imedi-
aticidade das trocas homeostáticas com o meio, o an-
imal humano não teria como tornar-se um sujeito. Isso
só ocorre como consequência da intrusão de algo de
fora que desequilibra, disfuncionaliza, esse processo
interativo e precipita o aparecimento dessa instância
ao mesmo tempo transcendente à biologia humana e
derivada dela.
255/301

Zizek, ao criticar o que considera o limite da noção


de auto-organização em Varela e defender a origem
traumática da experiência humana, afirma:

Para os seres humanos, ao contrário [dos demais


seres vivos], o encontro traumático é uma condição
universal, a intrusão que põe em movimento o pro-
cesso de “tornar-se humano”. O homem não é
simplesmente perturbado pelo impacto do encontro
traumático, como afirmou Hegel, mas é capaz de
“lidar com o negativo”, de contrabalançar seu im-
pacto desestabilizador tecendo intricadas teias sim-
bólicas. Esta é a lição da psicanálise e da tradição
judaico-cristã: a vocação humana específica não re-
pousa no desenvolvimento de potências inerentes do
homem (no despertar de forças espirituais adormeci-
das ou em algum programa genético); ela é disparada
por um encontro exterior traumático; pelo encontro
com o desejo do Outro em sua impenetrabilidade.144

Em outro momento ele diz:

Não devemos esquecer a lição antidarwiniana básica


da psicanálise tantas vezes enfatizada por Lacan: a
des-adaptação, a má adaptação radical e fundament-
al do homem ao seu ambiente. No aspecto mais rad-
ical, “ser humano” consiste no “desacoplamento” da
imersão no entorno, seguindo um automatismo que
256/301

ignora as demandas de adaptação — eis a que se re-


sume, em última instância, a “pulsão de morte”.145

Vale observar que a adesão ao valor da negatividade


na vida subjetiva não implica necessariamente uma
perspectiva antinaturalista como a defendida nesse
trecho por Zizek. Um de seus maiores comentadores, o
também filósofo hegeliano-lacaniano Adrian Johnston,
por exemplo, defende um ponto de vista um pouco dis-
tinto. Assim como Zizek, ele sustenta o lugar central da
negatividade como um movimento de desnaturalização
que está na origem do sujeito que escapa e rompe o
controle exercido pelas leis e mecanismos das materi-
alidades naturais. Mas ao mesmo tempo postula —
num movimento que o aproxima da posição emergen-
tista de Damásio — esse processo como imanente à
própria natureza.146 Com isso, Johnston advoga por
um naturalismo não reducionista que descreve a
natureza como autodesnaturalizadora — uma posição
que borra a nitidez da oposição entre um naturalismo e
um antinaturalismo estritos.
De todo modo, pelas razões apresentadas acima,
apesar de apreciar muito do trabalho realizado por
Damásio, Zizek vê no coração de sua teoria um ponto
crucialmente falho, o de excluir aspectos centrais do
inconsciente freudo-lacaniano: a pulsão de morte e a
ordem simbólica. Para Zizek, em primeiro lugar,
257/301

Damásio reduz a subjetividade a duas dimensões, a do


ser incorporado, embodied, do proto-self e do self nuc-
lear, e a da identidade linguístico-representacional, do
self autobiográfico. No seu esquema não há lugar
teórico para a terceira dimensão precipitada pela
potência traumática da negatividade (que ele associa à
pulsão de morte) — a do sujeito vazio, o sujeito da
enunciação, o sujeito do desejo, cerne da subjetividade
humana. Em segundo lugar, Zizek insiste que a in-
cidência da matriz simbólico-linguística “transubstan-
cializa” ou “dessubstancializa” a dimensão dura da ex-
istência corporal, e funda o sujeito que, a partir daí,
como uma instância vazia, escapa à sua redução tanto
à natureza corporal quanto às representações e predic-
ados culturalmente atribuídos a ele. Damásio não con-
seguiria compreender que o organismo, como diz
Lacan, é aspirado pelos efeitos da linguagem, num mo-
vimento de desnaturalização que implica um corte rad-
ical com o plano vital. Assim também ele não consegue
distinguir o sujeito da enunciação e o sujeito do enun-
ciado por não operar com a noção de ordem simbólica,
e com isso detém a sua elaboração da vida subjetiva
num ponto teórico aquém da noção forte de sujeito.
Em grande parte por essas razões, as simpatias de
Zizek estão mais nitidamente voltadas para outros
autores, curiosamente mais próximos do reducion-
ismo, um dos quais é Thomas Metzinger, com cuja
258/301

teoria do modelo do self fenomenológico (phenomenal


self-model) Zizek encontra grandes afinidades, por
tentar conciliar, num mesmo modelo da consciência e
da subjetividade, fisicalismo e fenomenologia. Para
isso, Metzinger envereda por caminhos insólitos para a
maioria de seus colegas, como a investigação de pato-
logias, estados meditativos, sonhos lúcidos, experiên-
cias fora do corpo e pesquisas sobre inteligência artifi-
cial.147

O modelo do self fenomenológico de Metzinger

Na visão de Metzinger, o self é um módulo na con-


sciência ativado pelo processamento neural do cérebro.
Ele não tem substância, não é uma entidade ontolo-
gicamente autossubsistente. Assim como Patricia
Churchland e Francis Crick, Metzinger afirma
categórica e provocativamente no início de seu livro
Being No One, que não existe nenhum self no mundo,
que ninguém nunca foi ou teve um self:

O que existe é um processo intermitente, a experiên-


cia de ser um self, assim como os diferentes e con-
stantemente variáveis conteúdos da autoconsciência.
É a isto que os filósofos se referem quando falam do
259/301

self fenomenológico: o modo como você aparece para


si mesmo, subjetivamente, na consciência.148

Mas, diferentemente dos outros dois autores, Met-


zinger procura explorar a experiência fenomenal para
compreender como o cérebro a produz.
O modelo do self fenomenológico é apenas episodic-
amente ativo. É desligado no sono sem sonho, é
reativado de forma atenuada no sonho (ou em estados
de meditação profunda ou experiências místicas) e
reaparece completamente ativo no despertar. O
cérebro cria esse modelo fenomenológico do self ao
mesmo tempo que cria um modelo fenomenológico da
realidade. Na verdade, não vemos o que existe, e sim o
que o cérebro nos permite capturar de nosso entorno.
O que percebemos com nossos sentidos limitados é
apenas uma pequeníssima fração do que existe. Diante
de nossos olhos, o que há é um “ambiente físico incon-
cebivelmente rico”, “um oceano de radiação eletromag-
nética, uma feroz e selvagem mistura de diferentes
comprimentos de onda” no qual o cérebro, apoiado em
nosso aparato sensório-motor, perfura um “túnel” para
criar aquilo que percebemos como sendo a realid-
ade.149 O “túnel do ego” é uma metáfora que alude a
esse processo de criação, em meio à vastidão infinita
do que nos cerca, de um modelo de realidade e um
modelo de self que nos dá um ponto de vista e nos
260/301

permite agir — o túnel cria, por simulação, ao mesmo


tempo um mundo e um sujeito dentro dele. O self é
uma aparência, uma realidade virtual, uma invenção
da natureza criada para permitir que um organismo
biológico possa representar-se como um eu no ato de
conhecer o objeto (como diria Damásio), como o
sujeito de suas próprias experiências. O modelo do self
fenomenológico é parte do modelo mental do self que
está inscrita numa estrutura integrada maior, o modelo
do mundo. Em outras palavras, certas partes do mode-
lo do self podem ser inconscientes e ativas ao mesmo
tempo.
A experiência fenomenológica contém três pro-
priedades centrais: o senso de mineness, a percepção
do corpo e dos pensamentos, atos etc. como sendo
próprios; a intimidade pré-reflexiva consigo próprio
(selfhood), a sensação de ser uma totalidade coerente e
estável no tempo; e um ponto de vista
(perspectivalness) em relação ao mundo e a si mesmo.
Como o self é um modelo virtual, falhas ou mudanças
na integração dos processos que sustentam produzem
alterações na experiência fenomenal, e o estudo de
patologias neurológicas e mentais ilustra esse fenô-
meno. Metzinger dá numerosos exemplos, dos quais
destacamos apenas um: na esquizofrenia, a experiência
de estar invadido por pensamentos que lhe parecem
externos pode ser compreendida como o resultado de
261/301

uma dificuldade do organismo em integrar seus pro-


cessos cognitivos em seu self-model.
Um aspecto fundamental do modelo é que, ao
mesmo tempo que torna possível a experiência do
mundo e do eu primeira pessoa, ele é inapreensível in-
trospectivamente enquanto modelo, daí sua caracter-
ística de transparência. Nós não o vemos, mas vemos
por meio dele. O modelo do self fenomenológico é
transparente porque nós não somos capazes de perce-
ber o meio através do qual a informação chega até nós.
Nós não vemos os neurônios disparando, mas apenas
aquilo que eles representam, tornam visíveis para nós.
O processo de construção é invisível. No fim, nós só
vemos o que o túnel nos permite ver. O que perce-
bemos como sendo a realidade ou o self é exatamente a
aparência. Os mecanismos que a produzem, nós não
conseguimos experimentar. Nós nunca nos perce-
bemos como “um pacote de neurônios” em atividade. O
eu é o conteúdo do modelo do self fenomenológico a
cada momento (sensações corporais, estado emocional,
percepções, memórias, atos de vontade, desejos). Não
é uma realidade substancial, mas uma imagem da real-
idade, imagem mental transparente, fundamental para
ação no mundo, um instrumento para controlar e
planejar nosso comportamento no mundo, e com-
preender o comportamento dos outros.
262/301

Zizek se utiliza da descrição metzingeriana para re-


forçar um argumento que lhe é caro: o da inutilidade
de buscar na materialidade imanente do corpo a essên-
cia ou uma dimensão fundante da subjetividade:

Em certo sentido, o “verdadeiro” self humano fun-


ciona como uma tela de computador: o que está “at-
rás” não é senão uma rede de mecanismo neuronal
“sem si” (...) o sujeito é ele mesmo aparência (...) É
por isso que está errado buscar atrás da aparência o
“âmago verdadeiro” da subjetividade: por trás dela,
precisamente, não há nada, somente um mecanismo
natural sem sentido e sem nenhuma
“profundidade”.150

Essa descrição da subjetividade, portanto, apesar de


sua inspiração fisicalista, se mostra compatível com a
autonomia do sujeito na medida em que este é contem-
plado com a possibilidade de livre exploração de seu
próprio horizonte experiencial.
Apesar de Metzinger tecer sérias críticas à psicanál-
ise tal como ele a entende,151 a maneira como descreve
sua perspectiva naturalista deixa a porta aberta à inter-
locução — e é por ela que Zizek entra. Metzinger insiste
em dizer que seu naturalismo corresponde a uma es-
tratégia racional, e não deve ser confundida com ideo-
logia cientificista. Para ele, se ficar demonstrado que
263/301

há algo na experiência subjetiva que em princípio não


possa ser explicado pelos métodos da ciência natural,
haverá um progresso epistemológico importante, que
pode resultar na construção de maneiras mais precisas
e sofisticadas conceitualmente de descrever por que
exatamente a ciência é incapaz de prover respostas sat-
isfatórias para certas questões. Desse modo, ele diz, os
antinaturalistas mais radicais são tipicamente os que
podem ter mais interesse nos achados empíricos recen-
tes.152
É exatamente essa a razão do interesse de Zizek por
sua teoria da subjetividade. Zizek a vê como uma abor-
dagem neurobiológica não reducionista que não se in-
timida em deixar transparecer seus possíveis limites, o
que abre espaço onde uma interpelação mútua com a
psicanálise possa encontrar lugar.
Notas

83R. Spitz, “Hospitalism: An Inquiry Into the Genesis of


Psychiatric Conditions”, in Early Childhood. Psychoanalytic
Study of the Child, p. 53-74.
84J. Bowlby, Attachment and Loss I: Attachment; Attach-
ment and Loss II: Separation; Attachment and Loss III:
Loss, Sadness and Depression.
85Uexküll e Lorenz inovaram os estudos biológicos criando
uma biologia semântica que descreve a experiência que os
animais têm do mundo (Umwelt) como o resultado do pro-
cesso de interação entre o aparato sensório-percepto-motor
de cada espécie e os estímulos do ambiente, que varia a cada
espécie. Como todos os organismos reagem a estímulos
como sendo signos, a vida biológica só pode ser entendida
como entrelaçada a um sistema de signos em que o organ-
ismo atua como sujeito.
86B. Prado Junior, “Lacan: biologia e narcisismo ou A cos-
tura entre o real e o imaginário”, in Um limite tenso: Lacan
entre a filosofia e a psicanálise, p. 235-54.
87 R. T. Simanke, Scientiæ Studia, p. 221-35.
88 Ibidem, p. 224.
89A. Johnston, “What Matter(s) in Ontology: Alain Badiou,
the Hebb-Event and Materialism Split from Within”, An-
gelaki — Journal of the Theoretical Humanities, p. 27-49.
90 A. Johnston, op. cit., p. 40.
265/301

91 A. Prochianz, La construction du cerveau.


92F. Ansermet e P. Magistretti, A chacun son cerveau:
Plasticité neuronale et inconscient, p. 20-1.
93 C. Malabou, Que faire de notre cerveau?, p. 18.
94 F. Ansermet e P. Magistretti, Neurosciences et psychana-
lyse: Une rencontre autour de la singularité, p. 10.
95Idem. A chacun son cerveau: Plasticité neuronale et in-
conscient, p. 22.
96 Epigenética (epi = acima, exterior) é o estudo de
mudanças na expressão genética ou no fenótipo celular cau-
sados não por mudanças na sequência do DNA, mas por
fatores ambientais, externos.
97F. Ansermet e P. Magistretti, À chacun son cerveau.
Plasticité neuronale et inconscient, p. 22.
98 É preciso ressaltar que os fatores que levaram à ascensão
do naturalismo na segunda metade do século passado são
complexos e, é claro, não se devem apenas às transform-
ações ocorridas no interior das ciências naturais. Envolvem
mudanças e determinações políticas, econômicas, antropoló-
gicas, sociais e econômicas que respondem pelos aspectos
biopolíticos e ideológicos do mesmo processo. O conceito de
plasticidade, por exemplo, entendido como flexibilidade ad-
aptativa, cumpre um papel ideológico central na cultura atu-
al. Não abordaremos a ascensão do naturalismo por esse ân-
gulo, mas ele é certamente necessário para uma com-
preensão mais integral do fenômeno. Para uma discussão
266/301

dessa questão, ver os artigos encontrados em F. Ortega e F.


Vidal (orgs) Neurocultures: Glimpses into an Expanding
Universe, e o livro de Malabou já citado.
99Z. Houshmand, R. Livingston e A. Wallace, Consciousness
at the Crossroads: Conversations with the Dalai Lama on
Brain Science and Buddhism.
100C. Malabou, op. cit. Cabe lembrar que não é a primeira
vez que o cérebro é disputado na cena política. No século
XIX, a frenologia também foi acionada por discursos pro-
gressistas e conservadores. Nada comparável, porém, em ex-
tensão e profundidade social, ao fenômeno atual.
101F. Crews, “The Unknown Freud”, The New York Review
of Books.
102E. F. Torrey, Freudian Fraud: The Malignant Effect of
Freud’s Theory on American Thought and Culture.
103V. S. Ramachandran, “Phantom Limbs, Neglect Syn-
dromes, Repressed Memories, and Freudian Psychology”,
International Review of Neurobiology, p. 291-333.
104E. Stremler e P.-H. Castel, “Les débuts de la neuro-
psychanalyse”, in Vers une neuropsychanalyse?, p. 27-8.
105M. Solms, e M. Saling, “On Psychoanalysis and Neuros-
cience: Freud’s Attitude to the Localizationist Tradition”, In-
ternational Journal of Psychoanalysis, p. 397-416.
106R. Bilder, e F. LeFever, (orgs.), Neuroscience of the Mind
on the Centennial of Freud’s Project of Scientific
Psychology.
267/301

107E. Kandel, “A New Intelectual Framework for Psychi-


atry”, American Journal of Psychiatry, p. 457-69.
E. Kandel, “Biology an the Future of Psychoanalysis: A
108

New Intellectual Framework for Psychiatry Revisited”, The


American Journal of Psychiatry, p. 505-624.
109E. Kandel, Psychiatry, Psychoanalysis and the New Bi-
ology of the Mind, p. xxi.
K. Kaplan-Solms e M. Solms, O que é a neuropsicanálise:
110

A real e difícil articulação entre a neurociência e a psic-


análise, p. 103-4.
111R. Blass e Z. Carmeli, “The Case Against Neuropsycho-
analysis. On Fallacies Underlying Psychoanalysis Latest
Scientific Trend and Its Negative Impact on Psychoanalytic
Discourse”, The International Journal of Psychoanalysis, p.
19-40. E. Laurent, “Usage des neurosciences pour la
psychanalyse”, in Neurosciences et psychanalyse, p. 283-98.
112M. Bennett, D. Dennett, P. Hacker e J. Searle, Neuros-
cience and Philosophy: Mind, Brain, Language, p. 21-2.
113 M. Solms, “Psychanalyse et neurosciences”, Pour la
Science, p. 78.
114L. Ouss-Ryngaert e B. Golse, “Linking Neuroscience and
Psychoanalysis from a Developmental Perspective: Why and
How?”, Journal of Physiology, p. 303-8.
115R. Audi, “Naturalism”. The Encyclopedia of Philosophy
Supplement; idem “Philosophical Naturalism at the Turn of
the Century”, Journal of Philosophical Research, p. 27-45.
268/301

116 Arthur C. Danto, “Naturalism”, The Encyclopedia of


Philosophy, p. 448.
117O monismo de duplo aspecto é também chamado de du-
alismo de propriedades e aparece em variadas versões e de-
nominações, das quais o fisicalismo não reducionista, ou
monismo anômalo, de Donald Davidson, é um dos mais
conhecidos. Para uma análise da relevância das teorias dav-
idsonianas para a psicanálise, ver J. F. Costa, “Pragmática e
processo analítico”, in Redescrições da psicanálise, p. 9-60.
118 P. Churchland, “Eliminative Materialism and the Propos-
itional Atitudes”, in Philosophy of Mind: A Guide and
Anthology, p. 382.
119P. Churchland, Brain Wise: Studies on Neurophilosophy,
p. 1-2.
120F. Crick, The Astonishing hypothesis: The Scientific
Search for the Soul, p. 3.
121 K. Popper e J. Eccles, The Brain and Its Self.
122 C. McGinn, The Problem of Consciousness.
123 Os cinco agregados são a forma (corporeidade física), a
sensação (sentimentos, emoções, sentidos), percepção (cog-
nição, conceitualização), as formações mentais (hábitos,
predisposições volitivas) e consciência (awareness, ou sens-
ibilidade a ser afetado). Os agregados também podem ser re-
duzidos a elementos que os moldam, e não há um fim nesse
processo, já que no âmago do que percebemos como realid-
ade se encontra o vazio, a inessencialidade, a ausência, em
269/301

todas as coisas, de uma natureza própria independente. P.


Harvey, Buddhism, p. 76-81.
124 P. Churchland, op. cit., p. 124.
125J. F. Costa, “A psicanálise e o sujeito cerebral”, in O risco
de cada um, p. 20.
126 S. Zizek, A visão em paralaxe, p. 288.
127A rigor, um exame mais abrangente das relações entre
processos naturais e linguístico-sociais na produção da vida
subjetiva deve incluir, para além do cérebro, o corpo em sua
totalidade dinâmica. Essa perspectiva, privilegiada por todas
as teorias que partem da noção da mente incorporada
(embodied mind) e pelas teorias de inspiração fenomenoló-
gica, não será desenvolvida aqui, já que nosso fio condutor, a
elaboração freudiana do Projeto, tem nas relações entre
cérebro e psiquismo seu centro de gravidade. Para uma dis-
cussão sobre o tema: J. F. Costa, “Considerações sobre o
corpo em psicanálise”, in O vestígio e a aura.
128O. Souza, in “Criatividade e defesa em Klein, Winnicott e
Lacan”, in Winnicott e seus interlocutores, p. 315-44.
129 O. Souza, op. cit., p. 344.
130 Além de Damásio, Francisco Varela e Gerald Edelman
podem ser descritos como emergentistas. Por razões de es-
paço, não abordaremos suas teorias. Para uma aproximação
entre os três, ver O. Serpa Jr., “Psicopatologia: Campo de in-
terlocução para psicanálise, psiquiatria e neurociências?”, in
Psicanálise e saúde mental: Uma aposta.
270/301

131A. Damásio, O erro de Descartes: emoção, razão e o


cérebro humano; idem, O mistério da consciência: do corpo
e das emoções ao conhecimento de si; idem Em busca de
Spinoza: Prazer e dor na ciência dos sentimentos.
132 O. Serpa Jr., op. cit.
133Todo esse processo está descrito nos capítulos 5 e 6 de O
mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhe-
cimento de si.
P. Klautau, Encontros e desencontros em Winnicott e
134

Lacan.
135Ver os artigos de M. Mancia, Psychoanalysis and Neur-
oscience, p. 2-3.
136V. Gallese e A. Golman, “Mirror Neurons and the Simula-
tion Theory of Mind Reading”, in Trends in Cognitive
Science, p. 493-501.
137N. Georgieff, “Psychanalyse, neurosciences, subjectiv-
ités”, Neurospsychiatrie de l’enfance et de l’adolescence, p.
343-50.
138 D. Meltzer, et al., Explorations dans le monde de
l’autisme; H. Gervais, et al. “Abnormal Cortical Voice Pro-
cessing in Autism: A fMRI study”, in Nature Neuroscience,
p. 801-2.
R. Simas e B. Golse, “Empathie(s) et intersubjectivité(s):
139

Un dialogue entre neurosicences et psychanalyse”, in Vers


une neursopsychanalyse?.
271/301

140F. Ortega, “O sujeito cerebral e o movimento da neurodi-


versidade”, Mana, p. 477-509.
141M-C. Laznik, A voz da sereia: O autismo e os impasses
na constituição do sujeito; A. N. Jerusalinsky, “Psicopatolo-
gia dos bebês: Entre as neurociências e a psicanálise”, in
Psicanálise e clínica com bebês: Sintoma, tratamento e in-
terdisciplina na primeira infância, p. 23-32.
142M-C. Laznik, Rumo à fala. Três crianças autistas em
psicanálise, p. 12-3.
143A. E. Cavalcanti e P. Rocha, Autismo: construções e
desconstruções.
144 S. Zizek, On Belief: Thinking in action, p. 47.
145 Idem, A visão em paralaxe, p. 310-1.
146A. Johnston, “The Misfeeling of What Happens: Slovj
Zizek, António Damásio and a Materialistic Account of Af-
fects”, Subjectivity, p. 76-100.
147T. Metzinger, Being No One; idem, The Ego Tunnel. The
Science of the Mind and the Myth of the Self.
Idem, “The Self-Model Theory of Subjectivity: A Brief
148

Summary with Examples”, Humana.Mente, p. 26.


149 T. Metzinger, The Ego Tunnel, p. 20.
150 S. Zizek, A visão em paralaxe, p. 278.
151H. Graham, “The Problem with Metzinger”, Cosmos and
History: The Journal of Natural and Social Philosophy, p.
7-36.
272/301

152T. Metzinger, “The Self-Model Theory of Subjectivity: A


Brief Summary with Examples”, Humana.Mente, p. 27.
CONCLUSÃO

Como vimos, os últimos cinquenta anos transform-


aram de maneira radical o quadro inicial de recepção
do Projeto. A questão que orientou sua apreciação ini-
cial — a discussão sobre sua natureza essencial, se
neurológica ou psicológica — tornou-se datada, assim
como a nitidez da alternativa natureza-cultura que lhe
dava o pano de fundo. As ciências e as humanidades
deixaram de se contrapor em princípio, e vêm pas-
sando a explorar várias áreas potenciais de integração,
colaboração ou interpelação mútua entre suas discipli-
nas, com a ultrapassagem de várias fronteiras tradi-
cionais do conhecimento, em função de novos hori-
zontes de possibilidade abertos por novas tecnologias
de investigação e novas elaborações conceituais.
Freud sempre se considerou um cientista des-
bravador, e o Projeto foi fruto dessa ambição. Fazer
ciência, para ele, significava formular perguntas com a
mente aberta, e seguir fazendo isso ininterruptamente,
por mais satisfatórias que as respostas já obtidas
pudessem, à primeira vista, parecer. Ele jamais deixou
de surpreender pelo aparecimento de questões que
punham em xeque o alcance dos conceitos e esquemas
até então consolidados. Ao contrário de boa parte de
274/301

seus seguidores, jamais sacrificou a imaginação à coer-


ência, e nunca hesitou em dialogar com qualquer con-
hecimento que lhe permitisse pensar de um modo mais
fértil seus próprios objetos de interesse.
Sua concepção de ciência foi mudando à medida
que sua investigação avançava. Sua concepção da vida
psíquica e da natureza também, o que lhe permitiu ao
fim da vida consolidar um caminho muito peculiar na
descrição da experiência humana, que situou a psic-
análise numa posição excêntrica em relação aos dis-
cursos naturalistas e antinaturalistas de sua época.
Olhando em retrospecto, aquilo que é visto como
fracasso da intenção inicial do Projeto é, de certa
forma, o índice de seu acerto e a razão de sua atualid-
ade. Não pelas razões frequentemente levantadas — o
abandono da neurologia em prol de uma psicanálise
inteiramente apartada em relação às ciências da
natureza, ou o inverso, um desvio provisório para a
metapsicologia, à espera de uma neurobiologia futura
que hoje veria chegada a sua hora. O que há de atual no
Projeto é a percepção de que, para aprofundarmos
nosso conhecimento sobre a natureza do sujeito e a in-
esgotável complexidade da experiência subjetiva, é
preciso não hesitar em romper as fronteiras impostas à
nossa imaginação teórica pelo estado da arte dos con-
hecimentos à nossa disposição.
275/301

Essa percepção não era tão clara para Freud quando


iniciou os seus rascunhos. O que há de admirável no
processo de sua construção é como Freud foi se dando
conta disso no tormentoso processo de sua escrita, à
medida que a “máquina”, que o levou à euforia nos mo-
mentos em que parecia “funcionar sozinha”, foi exi-
gindo a presença de elementos não mecanísticos para
continuar fazendo sentido: intencionalidade, regras
biológicas, a presença do simbólico mediado pela
presença de um outro, e assim por diante. Quando re-
solveu deixar o Projeto descansar em paz, Freud havia
tirado todas as consequências da percepção dos limites
a que se viu atado em sua elaboração. Coletou os con-
hecimentos que havia acumulado, apostou no terreno
experimental de que dispunha — a clínica —, iniciou o
processo de autoanálise e lançou-se à criação de uma
teoria do psiquismo radicalmente nova. A estratégia
deu certo. Publicado em 1900, A interpretação dos
sonhos foi inicialmente saudado como um “conto de
fadas científico”. O século que se seguiu ficará con-
hecido como o século freudiano, tamanha a sua in-
fluência na cultura.
No início do século XXI, essa influência retrocedeu.
As razões para isso são muitas. Entre elas está o im-
pacto avassalador da virada naturalista na ciência e na
cultura, diante da qual a psicanálise muitas vezes opta
por estabelecer uma estratégia de denúncia defensiva.
276/301

Mas esse não parece ser um bom caminho. No que diz


respeito às neurociências, há muito mais a ganhar no
engajamento na direção contrária. A promoção de um
diálogo desassombrado, aberto e rigoroso com as di-
versas maneiras de entender a consciência, a experiên-
cia subjetiva e o sujeito, que vêm sendo produzidas nos
diversos âmbitos das neurociências, é certamente um
passo decisivo, como vem mostrando o trabalho de
psicanalistas de diversas orientações teóricas, com di-
versas formas de aproximação com as neurociências.
Ele permite não só que a teorização interna à psicanál-
ise seja exposta aos desafios oferecidos por outras per-
spectivas teóricas, metodológicas e clínicas, como abre
caminho para a contribuição específica que o aparato
conceitual psicanalítico pode oferecer à investigação
neurocientífica sobre a subjetividade que não exclua a
dimensão própria do sujeito, renovando com isso a
elaboração do lugar a ser ocupado pela herança freudi-
ana no novo século. Em face das neurociências, é pre-
ciso avançar, e não recuar. Usar o diálogo com outras
teorias e outros saberes sempre foi um modo de fazer
progredir o conhecimento produzido pela psicanálise.
É um erro julgar que a psicanálise deveria permanecer
distante ou indiferente às descobertas e questões in-
troduzidas pela biologia da mente atual. Zizek tem
razão em dizer: “Se a psicanálise pretende sobreviver e
manter seu importante status, temos que encontrar um
277/301

lugar para ela dentro das próprias ciências do cérebro,


partindo de seus silêncios e impossibilidades iner-
entes.”153 Talvez esse seja o legado menos óbvio e mais
interessante do Projeto: o espírito com que Freud se
lançou a ele, que o acabou levando a mares nunca
dantes navegados.
Nota

153 S. Zizek, A visão em paralaxe, p. 240.


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CRONOLOGIA DE SIGMUND FREUD154

1856: Sigmund Freud nasce em Freiberg, antiga


Morávia (hoje na República Tcheca), em 6
de maio.
1860: A família Freud se estabelece em Viena.
1865: Ingressa no Leopoldstädter Gymnasium.
1873: Ingressa na faculdade de medicina em
Viena.
1877: Inicia pesquisas em neurologia e fisiologia.
Primeiras publicações (sobre os caracteres
sexuais das enguias).
1881: Recebe o título de Doutor em medicina.
1882: Noivado com Martha Bernays.
1882-5: Residência médica no Hospital Geral de
Viena.
1885-6: De outubro de 85 a março de 86, passa uma
temporada em Paris, estagiando com Char-
cot no hospital Salpêtrière, período em que
começa a se interessar pelas neuroses.
1884-7: Dedica-se a estudos sobre as propriedades
clínicas da cocaína, envolve-se em polêm-
icas a respeito dos efeitos da droga.
1886: Casa-se com Martha Bernays, que se torn-
ará mãe de seus seis filhos.
1886-90: Exerce a medicina como especialista em
“doenças nervosas”.
291/301

1892-5: Realiza as primeiras pesquisas sobre a sexu-


alidade e as neuroses; mantém intensa cor-
respondência com o otorrinolaringologista
Wilhelm Fliess.Realiza as primeiras
pesquisas sobre a sexualidade e as neuroses;
mantém intensa correspondência com o
otorrinolaringologista Wilhelm Fliess.
1895: Publica os Estudos sobre a histeria e redige
Projeto de psicologia para neurólo-
gos, que só será publicado cerca de cin-
quenta anos depois.
1896: Em 23 de outubro, falece seu pai, Jakob
Freud, aos 80 anos.
1897-9: Autoanálise sistemática; redação de A in-
terpretação dos sonhos.
1899: Em 15 de novembro, publicação de A inter-
pretação dos sonhos, com data de 1900.
1901: Em setembro, primeira viagem a Roma.
1902: Fundação da “Sociedade Psicológica das
Quartas-feiras” (que em 1908 será rebatiz-
ada de Sociedade Psicanalítica de Viena).
Nomeado Professor Titular em caráter ex-
traordinário da Universidade de Viena;
rompimento com W. Fliess.
1903: Paul Federn e Wilhelm Stekel começam a
praticar a psicanálise.
1904: Psicopatologia da vida cotidiana é pub-
licada em forma de livro.
292/301

1905: Publica Três Ensaios sobre a Teoria da


Sexualidade, O Caso Dora, O Chiste e sua
relação com o Inconsciente. Edward
Hitschmann, Ernest Jones e August Stärcke
começam a praticar a psicanálise.
1906: C. G. Jung inicia a correspondência com
Freud.
1907-8: Conhece Max Eitingon, Jung, Karl Abra-
ham, Sándor Ferenczi, Ernest Jones e Otto
Rank.
1907: Jung funda a Sociedade Freud em Zurique.
1908: Primeiro Congresso Psicanalítico Inter-
nacional (Salzburgo). Freud destrói sua cor-
respondência. Karl Abraham funda a So-
ciedade de Berlim.
1909: Viagem aos Estados Unidos, para a realiza-
ção de conferências na Clark University. Lá
encontra Stanley Hall, William James e J. J.
Putman. Publica os casos clínicos O homem
dos ratos e O pequeno Hans.
1910: Congresso de Nuremberg. Fundação da As-
sociação Psicanalítica Internacional. Em
maio, Freud é designado Membro
Honorário da Associação Psicopatológica
Americana. Em outubro, funda o Zentral-
blatt für Psychoanalyse.
1911: Em fevereiro, A. A. Brill funda a Sociedade
de Nova York. Em maio, Ernest Jones funda
a Associação Psicanalítica Americana. Em
293/301

junho, Alfred Adler afasta-se da Sociedade


de Viena. Em setembro, realização do Con-
gresso de Weimar.
1912: Em janeiro, Freud funda a revista Imago.
Em outubro, Wilhelm Stekel se afasta da
Sociedade de Viena.
1912-14: Redige e publica vários artigos sobre técnica
psicanalítica.
1913: Publica Totem e Tabu.
1913: Em janeiro, Freud funda a Zeitschrift für
Psychoanalyse. Em maio, Sándor Ferenczi
funda a Sociedade de Budapeste. Em setem-
bro, Congresso de Munique. Em outubro,
Jung corta relações com Freud. Ernest
Jones funda a Sociedade de Londres.
1914: Publica Introdução ao narcisismo,
História do Movimento Psicanalítico e
redige o caso clínico O Homem dos Lobos.
Em abril, Jung renuncia à presidência da
Associação Internacional. Em agosto, Jung
deixa de ser membro da Associação
Internacional.
1915: Escreve o conjunto de artigos da chamada
Metapsicologia, nos quais se inclui As
pulsões e seus destinos, Luto e melan-
colia (publicado em 1917) e O
inconsciente.
294/301

1916-17: Publicação de Conferências de Introdução à


Psicanálise, últimas pronunciadas na
Universidade de Viena.
1917: Georg Grodeck ingressa no movimento
psicanalítico.
1918: Em setembro, Congresso de Budapeste.
1920: Publica Além do princípio do prazer,
onde introduz os conceitos de “pulsão de
morte” e “compulsão à repetição”; início do
reconhecimento mundial.
1921: Publica Psicologia das Massas e Análise do
Ego.
1922: Congresso em Berlim.
1923: Publica O Ego e o Id; descoberta de um cân-
cer na mandíbula e primeira das inúmeras
operações que sofreu até 1939.
1924: Rank e Ferenczi manifestam divergências
em relação à técnica analítica.
1925: Publica Autobiografia e Algumas con-
sequências psíquicas da diferença anatôm-
ica entre os sexos.
1926: Publica Inibição, sintoma e angústia e A
questão da análise leiga.
1927: Publica Fetichismo e O Futuro de uma
Ilusão.
1930: Publica O mal-estar na civilização; en-
trega do único prêmio recebido por Freud, o
prêmio Goethe de Literatura, pelas qualid-
ades estilísticas de sua obra. Morre sua mãe.
295/301

1933: Publica Novas Conferências de Introdução


à Psicanálise. Correspondência com Ein-
stein publicada sob o título de Por que a
guerra?. Os livros de Freud são queimados
publicamente pelos nazistas em Berlim.
1934: Em fevereiro, instalação do regime fascista
na Áustria, inicia o texto Moisés e o
monoteísmo, cuja redação e publicação con-
tinuam até 1938/39.
1935: Freud é eleito membro honorário da British
Royal Society of Medicine.
1937: Publica Construções em análise e Análise
terminável ou interminável.
1938: Invasão da Áustria pelas tropas de Hitler.
Sua filha Anna é detida e interrogada pela
Gestapo. Partida para Londres, onde Freud
é recebido com grandes honras.
1939: Em 23 de setembro, morte de Freud, que
deixa inacabado o Esboço de Psicanálise;
seu corpo é cremado e as cinzas colocadas
numa urna conservada no cemitério judaico
de Golders Green.
Nota

154Os títulos assinalados em negrito marcam os livros que


integram a coleção Para ler Freud.
OUTROS TÍTULOS DA COLEÇÃO PARA LER FREUD

A interpretação dos sonhos — A caixa-preta dos desejos,


por John Forrester
A psicopatologia da vida cotidiana — Como Freud explica,
por Silvia Alexim Nunes
Além do princípio do prazer — Um dualismo incontornável,
por Oswaldo Giacoia Junior
As duas análises de uma fobia em um menino de cinco anos
— O pequeno Hans — a psicanálise da criança ontem e
hoje, por Celso Gutfreind
As pulsões e seus destinos — Do corporal ao psíquico, por
Joel Birman
Compulsões e obsessões — Uma neurose de futuro, por
Romildo do Rêgo Barros
Fetichismo — colonizar o outro, por Vladimir Safatle
Histeria — O princípio de tudo, por Denise Maurano
Luto e melancolia — À sombra do espetáculo, por Sandra
Edler
O complexo de Édipo — Freud e a multiplicidade edípica,
por Chaim Samuel Katz
O Inconsciente — Onde mora o desejo, por Daniel Omar
Perez
O mal-estar na civilização — As obrigações do desejo na
era da globalização, por Nina Saroldi
298/301

Totem e tabu — Um mito freudiano, por Caterina Koltai


Projeto para um psicologia cientifica:
Freud e as neurociências

Wikipédia de Freud
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud

As frases mais marcantes de Freud


http://pensador.uol.com.br/autor/freud/

Palestra do autor Benilton Bezerra


http://vimeo.com/64902343

Artigo publicado pelo autor


http://www.leiabrasil.org.br/old/simposio/
comunidadesinterpretativas.htm