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CAPÍTULO 1 - ESTUDO BIBLIOGRÁFICO

1.1 – BREVE HISTÓRIA DO VIDRO

O vidro, do latim vitrum, refere-se a um material dos mais antigos conhecidos da


humanidade. Sua descoberta tem sido objeto de muitas controvérsias, pois os
historiadores não dispõem de dados precisos sobre a sua origem. Dos poucos que a
história registrou existe uma receita pertencente à antiga biblioteca do Rei assírio
Assurbanipal (669-626 a.C.), escrita em caracteres cuneiformes: “Tome 60 partes de
areia, 180 partes de cinzas de algas marinhas e cinco partes de cal. Assim você obterá
o vidro” [ARMIM, 1998]. Nos tempos pré-históricos, a obsidiana, um vidro natural de
origem vulcânica, era usada para a fabricação de facas e pontas de lança. No entanto,
após a descoberta de objetos de vidro nas necrópoles egípcias, pode-se concluir que o
vidro já era conhecido há pelo menos 3000 a.C. Produtos manufaturados vítreos foram
descobertos na Mesopotâmia por volta de 4500 a. C (Figura 1.1). Esses tipos de vidro
consistiam essencialmente de Na2O-CaO-SiO2, uma composição bastante próxima às
elaboradas pelas modernas indústrias atuais.

(a) (b)

Figura 1.1 - (a) Vaso de vidro encontrado na tumba do Faraó Egípcio Tutmés II (cerca
de 1450 a. C); (b) Vasilhame de vidro produzido em Colônia Agrippina – Colônia -
cerca de 400 d.C. [ARMIM, 1998].
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A descoberta do vidro pelo homem está relacionada a uma lenda. Mercadores


fenícios precisavam executar reparos no navio em que viajavam e aportaram na praia de
uma ilha do Mar Mediterrâneo. Ao cair da noite, acenderam uma fogueira na areia da
praia e para que protegessem o fogo do vento e apoiassem os potes para cozinhar os
alimentos teriam usado blocos de natrão, fonte natural de carbonato de sódio, Na2CO2,
uma das matérias-primas utilizadas na fabricação de vidros. Na manhã seguinte, com a
fogueira quase apagada, os mercadores haviam observado pedaços irregulares brilhantes
e levemente opacos sobre a areia, junto à fogueira. Esses teriam sido os primeiros
pedaços de vidro obtidos acidentalmente pelo homem (Figura 1.2). O fato teria
ocorrido por volta de 5000 a.C. Em princípio, a lenda parece ter algum fundamento: o
calor do fogo teria favorecido a mistura do natrão com a areia da praia, rica em SiO2 e
em óxido de cálcio das conchas. Os óxidos de cálcio e de sódio teriam se misturado aos
grãos de areia e formado os pedaços de vidro enquanto a fogueira esfriava. Alguns
argumentos reforçam que essa “descoberta” acidental é mesmo uma lenda. Uma delas é
que ela foi registrada pelo historiador e naturalista latino Plínio, o Velho (23-79 a.C.),
muito tempo depois dos mercadores fenícios terem acendido aquela fogueira e numa
época em que peças de decoração de vidro já eram confeccionadas para ornar casas de
nobres. É bastante provável que o vidro tenha realmente sido descoberto
acidentalmente, mas é mais provável que essa descoberta esteja relacionada com a
queima de peças cerâmicas, ou com a fusão das primeiras peças metálicas pouco antes
da Idade do Bronze (5000-4000 a.C.). A queima de peças cerâmicas aumenta sua
resistência mecânica e esse processo simples é conhecido desde a Idade da Pedra Polida
(período Neolítico, de 10.000 a 5.000 a.C.). As mais antigas peças cerâmicas com
revestimento vítreo, ou esmaltadas, datam de aproximadamente 12.000 a.C., enquanto
que as mais antigas peças de vidro confeccionadas pelo homem datam de 7.000 a.C.,
todas encontradas na Mesopotâmia (atual Iraque) [SMITH, 1964].
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Figura 1.2 - Mercadores fenícios analisando os pedaços de vidro formados junto à


fogueira acesa na areia da praia [SMITH, 1964].

Datas exatas são difíceis de serem estipuladas em função da imprecisão das


atuais técnicas de datação, em alguns casos. Assim sendo, algumas datações são
estimadas por arqueólogos com base na idade do sítio arqueológico que exploram e
onde encontram as peças e utensílios. Alguns autores, por exemplo, afirmam que o
vidro começou a ser produzido por volta de 3.000 a.C., no Egito (de acordo com livros
de História Geral, do Ensino Fundamental e Médio, a civilização egípcia passou a
existir efetivamente aproximadamente a partir de 3.500 a.C.). Naquela época já eram
produzidos jarros de vidro, mas possuíam um formato relativamente irregular, eram
opacos e tinham uma coloração escura. Como eram produzidos esses jarros? Em torno
de uma haste de madeira fixava-se areia com argila, o que definiria o formato da parte
interna do jarro. Sobre essa argila, que era rotacionada horizontalmente, ia sendo
enrolado o vidro líquido, pastoso (Figura 1.3). Depois de resfriada a peça, a haste de
madeira e a argila eram cuidadosamente removidas e o jarro estava pronto para ser
utilizado para decoração ou armazenar líquidos [SMITH, 1964].
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Figura 1.3 - Vidro líquido sendo enrolado sobre a argila para preparar um frasco
[SMITH, 1964].

Nos séculos seguintes a indústria vidreira não teve um desenvolvimento muito


expressivo até por volta de 30 a.C., quando foi inventada a vara de sopro. Esta era um
tubo de ferro oco, com 1,5 a 2,0 metros de comprimento, que permitia soprar o vidro
ainda quente. A descoberta teria supostamente ocorrido na Fenícia (atual Síria e
Líbano). Era possível então usar moldes ou outras ferramentas para moldar as peças
confeccionadas. Com isso intensificou-se a fabricação e o comércio de artefatos de
vidro. A técnica de soprar o vidro chegou rapidamente a Roma onde, no ano 100 da era
cristã, os arquitetos romanos começaram a usar vidro relativamente plano para
confeccionar janelas que, apesar de opacas, deixavam passar luz suficiente para
iluminar os ambientes das villas de famílias mais afastadas (Figura 1.4). Essa vara de
sopro ainda é utilizada nos dias atuais, principalmente para fazer peças decorativas e
com formas complicadas [SMITH, 1964].
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Figura 1.4 - Vidro sendo soprado [ENCYCLOPAEDIA, 1974].

Foi na ilha de Murano, nas proximidades de Veneza, na Itália, que houve um


acentuado crescimento do número de indústrias de vidro, em virtude de aquela cidade
ter se tornado, a partir do século X, um importante centro comercial no Mar
Mediterrâneo. Os artesãos que eram levados para trabalhar nas indústrias de vidro de
Murano permaneciam confinados na ilha até o fim de suas vidas, de modo a assegurar
que os segredos da indústria vidreira não fossem divulgados a outros países, mantendo
Veneza com o monopólio vidreiro. Os vidros de Murano ficaram famosos,
principalmente pelo elevado grau de transparência dos vidros incolores, e das
colorações magníficas de muitas peças confeccionadas. Atualmente existem no Brasil
umas poucas, mas importantes indústrias de vidro Murano, e em algumas delas é
possível acompanhar os trabalhos dos artesãos [DOREMUS, 1973].
O livro Arte Vetraria, de Antonio Neri (1576-1614), publicado em 1612 na
cidade de Pisa, também na Itália, fornece um resumo do conhecimento sobre vidros até
aquela época e foi traduzido em muitas línguas. Na Boêmia, “Vidros de Cristal” eram
desenvolvidos com um brilho particular, devido ao alto nível de óxido de chumbo. O
desenvolvimento desse material é atribuído ao inglês George Ravenscroft (1618-1681)
que o patenteou em 1674 [DOREMUS, 1973].
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O primeiro espelho feito de vidro teria sido confeccionado na França, por volta
de 1685, apesar do vidro laminado, ou vidro plano, ser até então um monopólio
veneziano. Com o aumento das encomendas para a indústria francesa, Veneza perderia
gradualmente esse monopólio [DOREMUS, 1973].
Mais recentemente, com a melhor compreensão de vários processos químicos foi
possível produzir matérias-primas mais puras para a indústria vidreira e a introdução de
processos mecânicos nas indústrias, ao final do século XIX, aumentou ainda mais a
produção de artefatos de vidro. Os seus preços reduziram acentuadamente e deixaram
de ser exclusivamente artigos de luxo. Obviamente, sempre foram e continuarão sendo
confeccionadas peças de vidro por artesãos que são verdadeiras obras de arte, cujos
preços são acessíveis a um número limitado de pessoas aficionadas [DOREMUS, 1973].
O entendimento das propriedades do vidro recebeu grande impulso com a teoria
de Griffith, na qual uma pequena trinca resulta na fratura de toda a superfície. A
primeira idéia defendida por essa teoria foi considerada como uma curiosidade da
Matemática sem nenhuma aplicação para materiais reais, mas mais recentemente serviu
de base para muitos trabalhos e melhorou o entendimento da fratura de vidro
[DOREMUS, 1973].
Em 1930 o entendimento do porque da formação da estrutura do vidro, foi
melhorada com o trabalho de Zachariasen e Warren. Desde a segunda guerra mundial,
as atividades da ciência em vidro cresceram muito em função da evolução tecnológica.
O ano de 1960 foi caracterizado como a época de ouro para a ciência do vidro porque
todo o lucro da aplicação durante esse período, de base científica, foi para entender o
vidro em termos de estrutura e composição. O curioso é que o vidro, que era comum
antes de outros metais, polímeros, colóides, soluções, solventes e outros, será um dos
últimos campos com mistérios para a exploração da ciência. Talvez pela grande
variação de composição e propriedades do vidro, longa estrutura como material rígido,
sistematicamente detido caracterização do vidro [DOREMUS, 1973].
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1.2 - DEFINIÇÃO DE VIDRO

Os vidros pertencem ao grupo de materiais cerâmicos amorfoe são amplamente


usados em indústrias de diversos setores como de: recipientes, janelas, lentes, prisma,
fibra de vidro, fibra ótica etc. Existem vários tipos de vidros dos quais os mais
comumente utilizados são vidros de silicatos, que consistem predominante de óxidos
silício e de outros óxidos em menor quantidade como: CaO, Na2O, K2O e Al2O3, os
quais influenciam em suas propriedades. As duas principais características desses
materiais são a sua transparência ótica e a relativa facilidade com a qual podem ser
fabricados [CALLISTER, 2002].
Segundo definição aceita internacionalmente, segundo o autor Navarro, “ASTM
(1037) Standards for Glass”. O vidro é um produto inorgânico de fusão que tem sido
esfriado numa condição rígida sem cristalização [NAVARRO, 1991].
Atualmente a definição de vidro mais completa foi a de Shelby: Vidro é um
sólido amorfo com ausência completa de ordem a longo alcance e periodicidade,
exibindo uma região de transição vítrea. Qualquer material inorgânico, orgânico ou
metal, formado por qualquer técnica, que exibe um fenômeno de transição vítrea é o
vidro [SHELBY, 1997].
O vidro é um dos materiais mais importantes servindo a humanidade. Por ter
como propriedades a transparência, bem como a resistência e a durabilidade, tornam-se
preferencialmente adequado a um ramo vasto de produtos que requerem transmissão de
luz como maior função. As propriedades inertes aos vidros o fazem ser aplicado para
armazenamento e servir de comidas e bebidas. Isso fez também com que fizesse parte
de um vasto campo científico para os laboratórios do mundo em função de sua alta
durabilidade química. Os produtos e componentes de vidro têm achado seu caminho em
quase todas as empresas de grande porte como: transporte, construção, embalagens,
iluminação, embalagens de alimentos, sendo usados também em produtos ópticos,
oftalmológicos, eletrônicos e nas telecomunicações, com a vinda da fibra óptica
[MCLELLAN, 1984].
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1.2.1 - Transição vítrea

Supondo-se que existe um único parâmetro ou propriedade, a temperatura de


transição vítrea é a pedra angular dos estudos do estado Vítreo [VARSHNEYA, 1994].
A temperatura de transição vítrea, Tg, é uma temperatura característica para os
vidros, definindo a passagem do estado vítreo para o estado viscoelástico, através da
chamada relaxação estrutural. Os conceitos de estado vítreo e viscoelástico são
emprestados da Reologia (estudo das propriedades associadas à fluidez) [ALVES,
2001].
O termo viscoelástico descreve o comportamento de um corpo que responde
elasticamente a uma força aplicada, portanto, sem apresentar uma deformação
permanente. Adicionalmente, tal resposta elástica não é instantânea, devido a um
componente significativo de viscosidade. Em contrapartida, o comportamento vítreo
está associado a um corpo que não pode ser deformado nem permanentemente nem
elasticamente, sendo mais propenso a absorver a energia e dissipá-la, fraturando-se.
Quando se aquece um vidro acima da Tg, o comportamento viscoelástico tem início,
devido à possibilidade das cadeias escoarem umas em relação às outras, dentro do vidro.
Sendo assim, quando uma força é aplicada, as cadeias se movimentam, mas a atração
que existe entre as mesmas as faz retornar elasticamente à situação inicial, com uma
velocidade relativamente baixa, devido à elevada viscosidade. Diz-se, nesse caso, que
ocorre um aumento na chamada entropia configuracional do sistema, o que significa
que, na medida em que as unidades formadoras do vidro adquirem a capacidade de
escoamento, estas podem ser encontradas em um número cada vez maior de diferentes
arranjos relativos [ALVES, 2001].

1.3 – TAXA DE RESFRIAMENTO

A temperatura de transição (Tg) na verdade não é um ponto fixo, mas sim uma
faixa, e dentro dessa faixa Tg pode assumir diversos valores de temperatura de acordo
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com a velocidade de resfriamento do material. Como Tg depende da taxa de


resfriamento, ou seja, resfriamentos rápidos fazem o vidro passar pela transição vítrea
em temperaturas mais altas e resfriamentos lentos levam a transição vítrea para
temperaturas mais baixas, os vidros que passam por resfriamentos forçados possuem
volume específico maior que aqueles deixados resfriar lentamente. Como mostra a
Figura 1.5.

A
Liquido

Transição B
Vítrea
Aquecimento Lento
Volume Específico

Esfriamento E
Rápido
vidro Aquecimento
Rápido
vidro C
Esfriamento
Lento

cristal
D

Tg1 Tg1 Tf
Temperatura (0C)

Figura 1.5 - Variação do volume e Tg em função da temperatura [Figura modificada do


PAUL, 1990 e HOLLOWAY, 1973].

A relação entre cristal, líquido e vidro pode ser explicada pelo diagrama de
volume versus temperatura como mostra a Figura 1.5. No ponto A o material é um
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líquido estável. O volume diminui ao longo de AB, à medida que se esfria até chegar a
sua temperatura de fusão, se contrai, pois com menor temperatura, menor será sua
agitação das moléculas. Na temperatura de fusão há uma enorme redução do volume,
pois as moléculas passam a se ordenar na forma de cristais. O volume irá diminuir de B
para C, no qual o sólido será contraído com a diminuição da temperatura ao longo de
CD.
Se o resfriamento for suficientemente rápido, a cristalização não irá ocorrer em Tf
(Temperatura de Fusão), e a diminuição do volume só continua devido ao agitamento
térmico, ponto E. Em certa temperatura Tg (transição vítrea), o material embora
continue com características de um líquido, passa a se comportar semelhantemente a um
sólido cristalino. Se a temperatura é mantida constante, um pouco abaixo de Tg, o
volume G continuará diminuindo devagar.
A temperatura de transição vítrea é justamente o ponto E. Abaixo dele o
comportamento do material é de um sólido amorfo e é o vidro que conhecemos [PAUL,
1990].

1.4 - VITRIFICAÇÃO

Na linguagem do dia-a-dia a palavra vidro designa um material bem conhecido


desde a Antigüidade, sinônimo de transparência, brilho e fragilidade. Em nossos dias
uma boa parcela da indústria e do comércio depende desse material, em esmagadora
maioria baseado em sílica. Em linguagem científica o alcance de seu significado é muito
maior.
A aparência do vidro é essencialmente a de um sólido. Densidade, propriedades
mecânicas e térmicas são similares às de suas contrapartes cristalinas. Entretanto,
diferentemente dos cristais, os vidros não possuem um nítido ou bem definido ponto de
fusão. Não clivam em direções preferenciais. Na ausência de estrias os vidros são
praticamente isotrópicos; esta propriedade é que os torna mais assemelhados aos
líquidos, pois sua disposição molecular demonstra a desordem típica de um líquido na
ordem de longo alcance [VARSHNEYA, 1994].
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Turnbull tem discutido a questão de o vidro ser um dos mais estáveis no estado
sólido abaixo do ponto de fusão. Ele concluiu que não tem uma rigorosa comprovação
de que o estado mais estável está abaixo da temperatura de cristalização mais que o
vítreo [DOREMUS, 1973; TURNBULL, 1969].
A razão crítica do resfriamento depende do volume a ser fundido, o problema de
preparar a composição é manter esta massa homogênea, por isso quanto maior for o
volume mais complicado pode ser atingir esta homogeneidade. Outros autores como
Jackson K. A. ainda definem a fusão de produtos como o vidro homogêneo se eles
contêm um cristal com núcleo de cúbico centrado [FELTZ, 1993; JACSON, 1966].
A dificuldade para se enquadrar adequadamente os corpos vítreos dentro de um
dos três estados de agregação da matéria, deu lugar a se pensar em integrá-los em um
quarto estado de agregação: o estado vítreo. Essa sugestão, entretanto, nunca chegou a
ter uma aceitação generalizada [AKERMAN, 2000].

1.5 – CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE VIDROS

Em função da aplicação, processo de produção e disponibilidade de matérias-


primas há infinitas formulações e classificações de vidros. Podemos dividir, no entanto,
os vidros em famílias principais: Sílica vítrea, silicatos alcalinos, vidros soda-cálcicos,
vidros ao chumbo, vidros borossilicatos e vidros alumino-borossilicato [NAVARRO,
1991].
No Brasil o mercado consumidor de vidros pode ser assim esquematizado:
• 60 % na construção civil;
• 39 % na indústria automotiva;
• 1 % na indústria do mobiliário (doméstico).
Metade da produção do mobiliário é consumida pela indústria de bebidas; 38,5
% pela indústria farmacêutica; 5 % pela indústria cosmética e 6,5 % por outros setores
[SÃO MATEUS, 2007].
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1.5.1 - Sílica vítrea

Este vidro pode ser empregado, aquecendo-se areia de sílica ou cristais de


quartzo até uma temperatura acima do ponto de fusão da sílica, 1750 ºC. Por causa da
sua natureza de rede tridimensional, tanto para sílica cristalina como a vítrea, o processo
de fusão é muito lento. O vidro resultante é tão viscoso que qualquer bolha de gás
formada durante o processo de fusão não se liberta, por si só, do banho [NAVARRO,
1991; MCLELLAN, 1984].
Sílica vítrea tem o coeficiente de expansão térmico muito baixo, sendo ideal para
janelas de veículos espaciais, espelhos astronômicos e outras aplicações em que são
exigidas baixa expansão térmica a fim de se ter resistência a choque térmicos ou
estabilidade dimensional [NAVARRO, 1991].
A distribuição da impureza dos íons não é necessariamente uniforme. As
desuniformidades ópticas são às vezes visíveis ao longo do limite entre as regiões dos
grãos cristalinos. Por causa da alta viscosidade da sílica, a temperatura de amolecimento
dessas regiões não são misturadas, embora a fusão esteja completa [DOREMUS, 1973].

1.5.2 - Silicatos alcalinos

A fim de reduzir a viscosidade do vidro fundido de sílica, é necessário adicionar


um fluxo ou modificador de rede. Os óxidos alcalinos são excelentes fluxos. Como eles
são modificadores de rede, “amolecem” a estrutura do vidro pela geração de oxigênio
não-pontantes, quer dizer, o oxigênio é ligado somente a um átomo de silício
[AKERMAN, 2000].
Os óxidos alcalinos são normalmente incorporados nas composições dos vidros
como carbonatos. Acima de 550 ºC os carbonatos reagem com sílica formando um
líquido silicoso e, se a proporção de carbono alcalino e sílica forem adequadas, formará
o vidro por meio do resfriamento; ainda que essas reações aconteçam abaixo do ponto
de fusão da sílica [MCLELLAN, 1984].
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A adição de alcalinos diminui a resistência química do vidro. Com altas


concentrações de álcalis, o vidro será solúvel em água, formando a base da indústria de
silicatos solúveis utilizados em adesivos, produtos de limpeza e películas protetoras
[AKERMAN, 2000].

1.5.3 - Vidros soda-cálcicos

Para reduzir a solubilidade dos vidros de silicatos alcalinos mantendo-se a


facilidade de fusão, são incluídos na composição, fluxos estabilizantes no lugar de
fluxos alcalinos. O óxido estabilizante mais utilizado é o de cálcio, muitas vezes junto
com óxido de magnésio. Esses vidros são comumente chamados de soda-cálcicos e
pertencem à família de vidros mais antiga e largamente utilizada. Vidros soda-cálcicos
foram utilizados pelos antigos egípcios e ainda hoje são usados na fabricação da maior
parte de garrafas, frascos, potes, janelas, bulbos e tubos de lâmpadas [AKERMAN,
2000].
As composições da maioria dos vidros soda-cálcicos estão dentro de uma faixa
estreita de composição. Eles contêm, normalmente, entre 8 e 12 por cento em peso de
óxido de cálcio e de 12 a 17 por cento de óxido alcalino (principalmente óxido de
sódio). Muito cálcio faz com que o vidro tenha tendência a devitrificar (cristalizar)
durante o processo de produção. Muito pouco cálcio ou alto teor em alcalinos resulta
num vidro com baixa estabilidade química. Usualmente, uma pequena quantidade de
alumina (0,6 a 2,5 %) é incluída na formulação para incrementar a durabilidade química
[AKERMAN, 2000; MCLELLAN, 1984].

1.5.4 - Vidros ao chumbo

O óxido de chumbo é normalmente um modificador de rede, mas em algumas


composições pode atuar como um formador de rede. Vidros alcalinos ao chumbo têm
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uma longa faixa de trabalho (pequena alteração de viscosidade com diminuição de


temperatura) e, dessa maneira têm sido usados por séculos para produção de artigos
finos de mesa e peças de arte [AKERMAN, 2000].
O chumbo também confere ao vidro um maior índice de refração, incrementando
seu brilho. Aplicação: copos, taças, cálices, tubos de TV, ornamentos e peças artesanais
(o chumbo confere mais brilho ao vidro) [AKERMAN, 2000; ALVES 2001].

1.5.5 - Vidros borossilicatos

Os vidros borossilicatos apresentam alta resistência ao choque térmico e por isso


são empregados em produtos de mesa que podem ser levados ao forno. É o caso do
Pyrex e do Marinex. Devido à menor quantidade de óxidos modificadores, além da
resistência aos choques térmicos, vidros borossilicatos são também muito resistentes ao
ataque químico e por isso são utilizados em vários equipamentos de laboratório
[AKERMAN, 2000; MCLELLAN, 1984].

1.5.6 - Vidros alumino-borossilicatos

Quando se adiciona alumina (óxido de alumínio) em uma formulação de vidro


silicato alcalino, o vidro se torna mais viscoso em temperaturas elevadas. Em vidros ao
silicato, a alumina é um formador de rede (embora sozinha não forme vidro em
condições normais) e assume uma coordenação tetraédrica similar à sílica. Sendo o
alumínio trivalente, em contraste com o silício que é tetra-valente, a coordenação
tetraédrica da alumina diminui o número de oxigênios não-pontantes, o que aumenta a
coesão da estrutura do vidro. Como conseqüência, vidros alumino-silicatos comerciais
podem ser aquecidos a temperaturas superiores sem deformação, comparando-se a
vidros soda-cálcicos ou à maioria dos borosilicatos [AKERMAN, 2000].
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Vidros alumino-silicatos são utilizados em tubos de combustão, fibras de


reforço, vidros com alta resistência química e vitro-cerâmicos [AKERMAN, 2000].

1.6 - FORMAÇÃO DE VIDROS ÓXIDOS

Considerando-se que os vidros de maior importância comercial são baseados em


óxidos, as teorias estruturais mais difundidas são aquelas que conseguem explicar e
prever, com maior sucesso, a formação desses vidros. A mais simples e mais antiga
teoria de formação de vidros baseou-se na observação de Goldschmidt, de que vidros
com fórmula geral RnOm formam-se mais facilmente quando a razão dos raios iônicos
do cátion R e do oxigênio se encontram na faixa entre 0,2 e 0,4. Uma vez que as razões
nessa faixa tendem a produzir cátions circundados por quatro átomos de oxigênio, em
uma configuração tetraédrica. As idéias desse autor foram estendidas por Zachariasen
(1932), em uma tentativa de explicar por que certas coordenações (número de oxigênios
ao redor do cátion R) favorecem a formação vítrea [ALVES, 2001].
Essencialmente, Zachariasen notou que aqueles silicatos que formavam mais
prontamente um vidro, ao invés de se cristalizarem, exibiam a capacidade de formar
cadeias, na forma de conjuntos de tetraedros, conectados entre si pelos vértices. Sendo
assim, Zachariasen estabeleceu que a formação de cadeias fosse uma condição
fundamental para a existência de um vidro. Em primeiro lugar, nenhum átomo de
oxigênio deveria estar ligado a mais do que dois cátions da rede, posto que as
coordenações de mais alta ordem impediriam as variações nos ângulos das ligações
cátion-oxigênio, necessárias à formação de uma rede não-cristalina. Nota-se, entre os
vidros conhecidos até então, que sua estrutura era formada apenas por cátions de rede
em coordenação triangular (B2O3) ou tetraédrica (SiO2, P2O5, GeO2), e que havia uma
tendência dessas estruturas a que os cátions se localizassem tão afastados uns dos outros
quanto possível [ALVES, 2001].
Finalmente, Stanworth procurou justificar o papel de diferentes tipos de cátions
em um vidro misto, com base na eletronegatividade dos mesmos. Os cátions, cuja
ligação com o oxigênio fosse algo em torno de 50 % iônica e 50 % covalente, atuariam
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como formadores de rede. Outros cátions, com eletronegatividades muito baixas, e cuja
ligação com o oxigênio apresentasse um caráter fortemente iônico, causariam uma
descontinuidade da rede, ou seja, sua quebra, sendo batizados de modificadores de rede.
E os cátions que, por si só, não formam vidros com facilidade, mas que, misturados aos
formadores típicos, podem substituí-los na rede, foram classificados por Stanworth
como intermediários [ALVES, 2001].

1.7 – PROPRIEDADES DOS VIDROS

As propriedades dos vidros, assim como todos os outros materiais, dependem de


suas características estruturais.
A variação das propriedades com a composição pode ser avaliada, com certa
aproximação, em função da concentração dos componentes, mediante expressões
lineares nas quais intervêm fatores de proporcionalidade obtidos experimentalmente
para cada óxido e para cada propriedade. Deve-se, entretanto advertir que as faixas de
aplicação dessas fórmulas aditivas são mais ou menos restritas, já que perdem sua
validade quando as mudanças de composição provocam mudanças estruturais no vidro
ou dão lugar à interação entre seus componentes.
Com relação à história térmica, a velocidade com o qual é efetuado o
resfriamento do vidro dentro do intervalo de transformação, ou seja, o tempo que o
vidro teve para a dissipação de calor determina o seu grau de relação estrutural que
influencia em suas características finais.
O esquema da Figura 1.6 abaixo mostra de forma quantitativa como variam as
propriedades dos vidros em relação a um aumento de um dos óxidos constituintes.A
soma de todos os óxidos presentes na composição do vidro deve fechar 100%, quando
diminui ou aumenta um determinado óxido, outro ou outros devem aumentar ou
diminuir sua participação, pois, o total sempre deve ser 100%, e na estimativa dos
efeitos sobre as propriedades, todos devem ser considerados. [NAVARRO, 1991].
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Figura 1.6 - Funções relativas dos óxidos nos vidros [NAVARRO, 1991].

1.7.1 – Viscosidade

As características da viscosidade para os vidros são importantes para estudar o


estado vítreo.
A viscosidade do vidro depende da temperatura e da composição do vidro. A
rápida mudança de viscosidade com temperatura usada na fabricação do vidro requer o
uso de diferentes métodos de medição. A temperatura líquida do vidro depende só da
composição. A viscosidade controla a influência de todos os estágios na fabricação do
vidro, e o valor da temperatura líquida é um dos fatores que determina o processo a ser
utilizado [BABCOCK, 1977].
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A Figura 1.7 mostra a curva de viscosidade para oito principais vidros


comerciais, a composição estudada está na faixa de 620 ºC a 690 ºC [MCLELLAN,
1984].

Figura 1.7 - Viscosidade de 8 vidros comerciais. Os números indicam a composição de


trabalho do vidro: nº 8363, alto chumbo colocado; nº 0010, potássio de soda, nº 7070,
baixo boro-silicato; nº 0080, soda-line; nº 7740, baixa expansão boro-silicato; nº1720,
alumino-silicato; nº 7900, 96% de sílica; nº 7940, sílica fundida [Figura modificada do
MCLELLAN, 1984].

1.7.2 - Dilatação térmica

O coeficiente de dilatação é uma das características de maior importância


tecnológica dos vidros, o qual influencia algumas de suas propriedades (resistência ao
choque térmico), limita sua utilização em certas aplicações (fabricação de termômetros,
sistemas ópticos, união de vidro-vidro e vidro com outros materiais) condiciona um
21

desenvolvimento de certas etapas do processo de fabricação [NAVARRO, 1991;


BABCOCK, 1977; MCLELLAN, 1984].
O comportamento dilatométrico dos vidros depende fundamentalmente de sua
composição e de sua história térmica [NAVARRO, 1991].
O coeficiente de expansão térmica para o vidro cerâmico é bem diferente do
vidro original. Isto depende do tipo da fase cristalina e da substancia presente, que pode
ser controlada por um programa de tratamento térmico. É difícil obter os mesmos
valores para o coeficiente térmico de expansão pela cristalinidade e vidro residual fase
materiais de vidro cerâmicos [STRNAD, 1986].

1.7.3 - Resistência ao choque térmico

Quanto maior for à dilatação térmica, menor será a resistência do vidro a


mudanças bruscas de temperatura. Quanto mais fina for à peça, ainda que produzida
com o mesmo vidro, menores serão as diferenças de temperatura entre os pontos frios e
quentes, e portanto maior a resistência ao choque térmico [NAVARRO, 1991].
A quebra sempre se dá na região mais fria da peça, onde ocorre à tração, e
comumente o risco maior de quebra é quando o vidro está quente e sofre um
esfriamento rápido [NAVARRO, 1991].
Quando a superfície do vidro é rapidamente aquecida, a tensão inicial
desenvolvida é de compressão tal que, fratura é relativamente pequena. Mas quando o
vidro é rapidamente resfriado, a tensão passa a ser tração de forma que a fratura
aumente [MCLELLAN, 1984].

1.7.4 - Propriedades mecânicas

O comportamento do vidro nos distintos esforços mecânicos aos quais pode ser
submetido durante o uso, constitui em geral uma importante limitação para algumas de
22

suas aplicações [NAVARRO, 1991]. Principais propriedades Mecânicas encontram-se


abaixo na Tabela 1.1.
• Elasticidade - É o coeficiente E que relaciona o alongamento L, sofrido por uma
barra de vidro de comprimento L e de secção S, submetida a um esforço de tração de F.
E = 72 GPa.
• Coeficiente de Poisson (Coeficiente de Contração Lateral) - É a relação por unidade
de comprimento entre a contração transversal e o alongamento de uma barra de vidro
submetida a um esforço de tração. V=0,22.

Tabela 1.1 - Propriedade Mecânica [NAVARRO, 1991 – MCLELLAN, 1984]:


Método Freqüência Método Ultrasônico
Tipos de Vidros Ressonante
E G ν E G ν
[GPa] [GPa] [GPa] [GPa]
Sílica Fundida 72,4 31,0 0,17 72,4 31,0 0,17
96% de Sílica 65,5 28,3 0,16 66,2 28,3 0,18
Soda Lime Placa 72,4 29,6 0,21 72,4 30,3 0,21
Soda Lime Bulbo 70,3 29,0 0,24
Chumbo-Alcalino 53,8 22,1 0,20 57,2 23,4 0,23
Borosilicato 62,0 25,5 0,22 63,4 26,9 0,20
Baixa expansão
Borosilicato 50,3 21,4 0,22
Baixa perda elétrica
Borosilicato 80,0 33,1 0,20 82,7 29,4 0,22
Óptico - crown
E = modulo de Young´s, G=modulo de rigidez e ν = Coeficiente de Poisosn.

1.7.5 - Propriedades ópticas

O vidro por não apresentar estrutura cristalina, e sim randômica em todas as


direções, tem a característica de ser isotrópico, isto é, suas propriedades independem da
23

posição na qual são analisadas. Portanto, quando uma massa de vidro é homogênea e
não sujeita às tensões, ela é opticamente isotrópica [NAVARRO, 1991].
A matéria condensada exibe uma rica variedade de fases. Em um dos extremos
encontramos o Estado Cristalino, que até recentemente recebeu maior atenção. No outro
extremo encontra-se o Estado Vítreo. O conhecimento da estrutura atômica de outras
propriedades físicas e químicas. Isso é valido tanto para os materiais amorfos quanto
para os cristalinos [BOLCH, 1976].
Um cristal representa um arranjo regular de átomos que pode ser gerado por
translações periódicas de uma unidade de construção, a célula unitária. Infelizmente tal
procedimento, elaborado por Felix Bloch, é impossível de ser realizado em um sólido
amorfo, não periódico, pois sua célula unitária pode ser considerada como sendo de
extensão infinita [BOLCH, 1976].
A definição operacional de um sólido amorfo, contudo, significa apenas que a
estrutura é não-periódica (ou seja, não-cristalina) caso diferente de uma estrutura dita
aleatória. No caso do vidro mais comum, a sílica vítrea é composta basicamente de
tetraedros de SiO4 conectados de uma forma não-aleatória, demonstrando ainda uma
ordem local [BOLCH, 1976].

1.8 - OBTENÇÃO DO VIDRO PLANO

O processo de produção do vidro plano pode ser dividido em três fases


principais [CEBRACE, 2005]:
- A preparação da composição.
- A fusão da composição produzindo a massa de vidro fundido.
- A conformação dessa massa nos diversos produtos que existem.
24

1.8.1 - Preparação da composição

As matérias-primas, que são granuladas em sua maioria, são armazenadas em


silos. Esses silos alimentam balanças que têm a finalidade de dosar a quantidade
adequada de cada uma delas. Após a pesagem, todas as matérias-primas são conduzidas
a um misturador, que tem a finalidade de produzir uma mistura homogênea de todas
elas, a qual passa a ser chamada de composição ou mistura vitrificável. A composição é
conduzida ao forno de fusão, onde, sob o efeito da temperatura, se transformará em
vidro por meio do resfriamento. A Figura 1.8 mostra a composição do vidro plano
estudado:

Figura 1.8 - Composição da amostra estudada [SCHOTT, 2005].

• Sílica (SiO2): Matéria-prima básica (areia) com função


vitrificante;
• Óxido de Potássio (K2O): Melhora o processo de fundição, baixa
o risco de cristalização e obtêm-se cores mais brilhantes;
25

• Alumina (Al2O3): Aumenta a resistência química do vidro e eleva


sua viscosidade em baixas temperaturas;
• Óxido de Sódio (Na2O): Modificadores de rede;
• Óxido de Magnésio (MgO): Garante resistência ao vidro para
suportar mudanças bruscas de temperatura e aumenta a resistência mecânica;
• Óxido de Cálcio (CaO): Proporciona estabilidade ao vidro contra
ataques de agentes atmosféricos.
Alguns elementos, como o sódio, quando presentes no vidro, ligam-se
ionicamente ao oxigênio. Isso interrompe a continuidade da rede, já que alguns átomos
de oxigênio não são mais compartilhados entre dois tetraedros, mas ligados somente a
um átomo de silício (Figura 1.9). Esse tipo de átomo de oxigênio é chamado de
oxigênio não-pontante. Por essa razão os óxidos alcalinos são utilizados como fundentes
que diminuem a viscosidade do vidro, pois quebram algumas ligações.

Figura 1.9 - Vidro soda-cálcico - composição estudada [Figura modificada do


NAVARRO, 1991].
26

A deformação dos materiais cristalinos pode variar entre extrema fragilidade a


extrema ductilidade. A quantidade de deformação ocorre em função do tipo de ligação
atômica (metálica, iônica ou covalente) da estrutura cristalina (cúbica, hexagonal
romboédrica) da microestrutura presente (tamanho de grão, precipitação, densidade de
discordâncias móveis) das condições de ensaio (tipo de taxa de carregamento,
temperatura, meio ambiente) e do estado de tensão presente. De forma geral, os
materiais metálicos apresentam melhor ductilidade, enquanto os cerâmicos são
inerentemente frágeis. No entanto, em ambos os materiais a morfologia de fratura é em
função da integração da trinca com a microestrutura presente [COELHO, 2000].
Os vidros, típicos materiais amorfos, não possuem ordenação de longo alcance,
portanto não são formados por cristais. A conseqüência imediata dessa ausência de
cristalinidade é que não há mecanismos de deformação plástica que gerem ductilidade
macroscópica abaixo da temperatura de transição vítrea (Tg), tornando esses materiais
frágeis. Conseqüentemente, o alívio de tensões desses materiais é feito através de
fraturas, onde a mesma se propaga na direção normal à tensão principal, segunda a lei
da tensão normal. Falha é a situação na qual um componente não pode mais
desempenhar a função para a qual foi projetada. As falhas podem ocorrer devido a um
projeto deficiente, à má utilização do componente, o defeito no material utilizado, a
falta de conhecimento das condições de serviço e outros mais [COELHO, 2000].

1.8.2 - A fusão da matéria-prima

O ponto de fusão corresponde à temperatura na qual a viscosidade considerada é


de 10 PA-s; o vidro é fluído o suficiente para ser considerado um líquido [CALLISTER,
2002].
O local onde a composição é fundida e transformada em vidro fundido é
chamado de forno de fusão ou simplesmente forno. Os fornos contínuos (algumas
empresas trabalham com fornos oscilantes), constituídos de uma grande piscina de vidro
fundido, sendo alimentados continuamente em um lado pela composição que, por efeito
27

do calor vai se fundir e se incorporar ao banho, sendo que, no lado oposto, o vidro já
elaborado é conduzido às máquinas de conformação.

1.8.3 - Conformação

Nessa fase, a massa fundida e viscosa de vidro é transformada em um produto


final. Existem inúmeras formas de realizá-la, dependendo do produto e da quantidade
que se pretende e dos recursos disponíveis.
Porém, o que acontece é o seguinte: na medida em que o vidro fundido vai
esfriando, vai ficando cada vez mais viscoso. Existe um intervalo de tempo certo para se
conseguir dar a forma ao produto. No início, a massa deve estar plástica o suficiente
para poder ser conformada, mas não mole em excesso, pois é impossível conformar um
líquido. Se demorar muito, o vidro fica rígido e não dá mais para mudar sua forma. Por
outro lado, se a forma é dada muito rapidamente, o vidro ainda vai estar mole depois de
pronto e vai fluir ou se esparramar, como um sorvete que esquentou, perdendo a forma.
Esse tempo que o vidro leva para tomar forma depende da velocidade de
esfriamento e também da sua composição, ou seja, da formulação da composição que
foi levada ao forno para ser fundida. A fase de conformação ocorre no mesmo edifício
onde se encontra o forno, sendo que o vidro é conduzido ainda fundido até as máquinas
através de canais chamados de feeder ou simplesmente canal. A fase de conformação do
vidro é diferente, conforme o tipo de produto a ser fabricado.

1.8.4 - Vidro plano liso - processo “float”

Os vidros planos atuais têm um elevado grau de planicidade como conseqüência


do processo de produção. Esse processo consiste em fazer a chapa de vidro laminado,
ainda muito quente, próximo a faixa de temperatura de amolecimento, mas com uma
viscosidade maior, passar flutuando sobre a superfície de estanho fundido, num formo
28

intermediário. Depois de resfriado, ao final da linha de produção, as chapas de vidro são


cortadas e acondicionadas para transporte (Figura 1.10). Esse processo é denominado
flotagem. O vidro obtido por esse processo é denominado “vidro float”, ou “vidro
flotado” O termo “float” vem do inglês, e significa flutuar, boiar.

Figura 1.10 - Imagens da fabricação do vidro float [Figura modificada do


PILKINGTON, 1968].

O processo float foi inventado por Alastair Pilkington [1959]. Pesquisando os


elementos existentes, ele chegou ao estanho, pois este é bem mais denso que o vidro e
continua líquido, não se misturando com ele, nas temperaturas em que se dá o
29

enrijecimento do vidro (de 1100 ºC a 600 ºC). Quando se despeja o vidro fundido sobre
o estanho, a tendência é de se formar uma lâmina de 5 a 6 mm de espessura. O banho de
estanho deve ser longo o suficiente para que dê tempo para o vidro esfriar, dos 1100 ºC
na sua entrada, até 600 ºC, na saída, quando estará rígido. A vazão de vidro é
determinada, na saída do forno de fusão, por um registro que regula o fluxo. A
espessura do vidro é determinada pelo balanço entre as tensões superficiais, a força de
gravidade e a velocidade de extração. Há cerca de 280 plantas de vidro float em
operação (Figura 1.11), construção ou projeto em todo o mundo [BLINDEX, 2007].

Figura 1.11 - Ilustra a forma do processo de fabricação do vidro float [Figura


modificada do BLINDEX, 2007].

O controle da temperatura de saída do vidro do forno é muito importante, pois,


se estiver muito quente, em temperatura acima de 100 ºC, o vidro ficará marcado pelos
rolos que o conduzem pelo forno de recozimento (chamado de estenderia); e se estiver
muito frio, poderá se romper. A velocidade de extração do vidro é justamente
proporcionada pela tração desses rolos na fita contínua de vidro saindo do float e
entrando na estenderia Figura 1.11. Além dos parâmetros acima, a espessura é
controlada pelo uso de até 8 máquinas chamadas de top-roll (rodas dentadas que pinçam
o vidro pelas bordas e que têm rotação e ângulos variáveis e regulados por motores).
Para a produção de vidros de 5 a 6 mm de espessura, os top-rolls ficam paralelos ao
fluxo de vidro e o controle da espessura se faz pela velocidade de extração. Para vidros
30

mais finos que a espessura de equilíbrio, eles são dispostos para formar ângulos
divergentes, tendendo a esticar a lâmina, em conjunto com uma maior velocidade de
extração. Para vidros mais grossos, eles são dispostos em ângulos convergentes,
tendendo a empurrar o vidro da borda para o centro, em combinação com uma menor
velocidade de extração. O estanho, embora sendo o melhor elemento para se utilizar no
processo, tem um sério inconveniente: ele se oxida em contato com o oxigênio, nas
temperaturas exigidas pelo vidro. Então, é necessário que todo o banho de estanho fique
enclausurado dentro de uma grande caixa, onde se injeta nitrogênio. Dentro dessa caixa
há também uma série de resistências elétricas que garantem um perfil térmico
conveniente desde a entrada até a saída do vidro [AKERMAN, 2000; CEBRACE,
2005].

1.9 – VIDRO TEMPERADO

O processo térmico de têmpera melhora consideravelmente as propriedades do


produto, conferindo ao vidro temperado uma resistência superior do que a do vidro
comum.
Vidro temperado é o vidro constituído de uma chapa, cuja resistência a esforços
mecânicos é aumentada em decorrência do tratamento que é submetido e que no
instante de quebra se desintegra em pequenos fragmentos [NBR 13866, 2004].
Esse vidro pode ter qualquer formato desde que submetido a um processo de
tratamento térmico caracterizado por um aquecimento uniforme seguido de um rápido
resfriamento produzindo tensões de compressão na superfície [ANSI Z97. 1, 2004].
É um vidro sujeito a um tratamento térmico, que aumenta consideravelmente a
resistência ao choque mecânico, choque térmico e flexão, sendo assim considerado
vidro de segurança, pois durante o processo de fabricação reduz o risco de ferimentos
em caso de quebra, podendo ser utilizado em todo o tipo de construção civil, decoração,
móveis, eletrodomésticos e veículos automóveis [AKERMAN, 2000; NBR 14698,
2001].
31

Na Figura 1.12, mostra um exemplo de vidro temperado que sofreu uma tensão
de ruptura, em que se observam pequenos fragmentos, todos com tamanho similar, estes
evitam possíveis cortes.

Figura 1.12 - Vidro temperado quebrado, vários fragmentos.

A finalidade da têmpera é estabelecer tensões elevadas de compressão nas zonas


superficiais do vidro, e correspondentes altas tensões no centro do mesmo, que é
desejável para o vidro temperado.

1.10 – PROCESSO DE TÊMPERA QUÍMICA

Vidro float cuja superfície é reforçada quimicamente por troca de íons a altas
temperaturas para lhe conferir uma maior resistência mecânica. É um produto de alta
tecnologia [SAINT-GOBAIN, 2005].
O processo consiste na troca iônica dos sais de sódio presentes no vidro por sais
de potássio encontrados em solução pré misturada. Uma vez que o raio atômico dos íons
de potássio é bastante superior ao dos íons de sódio (1,33 e 0,95, respectivamente), e o
volume ocupado é o mesmo, ocorre uma compressão na superfície onde ocorreu a troca,
causando o efeito similar ao da tempera térmica. Possui a vantagem de permitir
temperar espessuras de vidro de até 1mm, ao contrário dos 3mm mínimos exigidos na
32

tempera térmica, além de uma grande uniformidade, apresentando, por outro lado, alto
custo. Este processo não é utilizado no Brasil [SILVA, 2004].

1.11 – PROCESSO DE TÊMPERA TÉRMICA

O vidro é cortado na forma e tamanhos desejados. Em seguida vem a lapidação,


depois os recortes e furos necessários. Feitas essas operações a peça é submetida ao
controle de quantidade inicial, sendo então levada ao processo de têmpera. O vidro é
colocado no forno, submetido a uma temperatura de aproximadamente 600 ºC até atingir
seu ponto ideal. Nesse momento recebe um resfriamento brusco, através da injeção de
gases de alta pressão sobre a superfície de vidro.
Com o objetivo de amenizar o efeito dos defeitos superficiais nos vidros e,
conseqüentemente, aumentar sua resistência mecânica, freqüentemente utiliza-se o
processo de têmpera térmica. Esse processo utiliza a propriedade dos vidros em que
tenha continuamente o seu volume específico diminuído com o resfriamento, a partir de
temperaturas acima de Tg (a temperatura de transição vítrea).
Na têmpera térmica, placas de vidros são aquecidas acima de Tg, mais abaixo do
ponto de amolecimento e são resfriadas rapidamente a partir da superfície, geralmente
com o auxílio de jatos de ar devidamente localizados ao longo de toda sua área. Isso faz
com que a superfície da peça solidifique-se com um volume específico (Vs), que muda
pouco com o posterior resfriamento até a temperatura ambiente. Como o volume da
peça resfria mais lentamente, ele passará por Tg em uma temperatura mais baixa e
quando solidificar-se, terá um volume específico (Vv < Vs). Com o posterior
resfriamento até a temperatura ambiente, a retração do volume deixará a superfície sob
tensões residuais de compressão e, para manter o equilíbrio estático das forças, o
volume fica sob tração, como indicado na Figura 1.13.
A compressão na superfície, decorrente do processo é da ordem de 130 MPa e
atua em uma profundidade de aproximadamente 1/5 da espessura da placa. A tração no
volume é aproximadamente metade desse valor. Soma-se, então, à resistência mecânica
do material, a tensão de compressão superficial, que deve ser sobreposta para o material
33

fraturar. Isso pode aumentar a resistência mecânica média das placas em até 4 vezes.
Mas, na prática, devido à presença de defeitos superficiais, o valor médio de resistência
a fratura pode ser menor [LEITE, 2004]. As duas linhas paralelas na figura 1.13, tanto
para o vidro temperado quimicamente como para o temperado termicamente é a
espessura do vidro, mostrando q o centro sempre esta sobre tração e a superfície sobre
compressão.

Figura 1.13 - Perfil de tensões residuais, aplicadas e resultantes de uma barra de vidro
temperado sob carregamento transversal [Figura modificada do NAVARRO, 1991].

Vidros com espessuras menores necessitam de um maior coeficiente de


transferência de calor. Isso é decorrente do fato de ser mais difícil formar um gradiente
de temperatura entre superfícies e o centro da espessura para que ocorra a formação de
tensões residuais. Existe, contudo um limite de velocidade de resfriamento para que as
tensões temporárias desenvolvidas não venham a provocar um choque térmico no vidro.
Por outro lado, quanto maior a espessura, menor o coeficiente de calor necessário para a
têmpera, embora também exista um limite de temperatura que deve ser evitado para não
ocasionar distorções no vidro por um amolecimento excessivo [NASCIMENTO, 1999].
34

Na linha branca, fogões, trabalha-se com espessura de até 3 mm, a qual é


considerada mínima para os fabricantes de vidro temperado.
Com relação ao aquecimento existem dois tipos de fornos de têmpera (contínuos
e oscilantes), porém em ambos o vidro “permanece” na câmara de aquecimento até
atingir a temperatura necessária. No contínuo (maior comprimento da câmara de
aquecimento) o vidro vai se movimentando e se aquecendo, ao passo que o oscilante
(menor comprimento de câmara) o vidro “oscila” até atingir a temperatura, em ambos a
temperatura atingida é a mesma. Para cada espessura de vidro ou característica de
decoração existem parâmetros específicos.
A serigrafia do vidro deve ser aplicada antes da tempera, sendo assim, pode
influenciar nos resultados da amostra tempera. A serigrafia é um processo de esmalte
cerâmico que é depositado sobre a superfície do vidro através de telas pré-determinadas
pelo cliente. Após essa aplicação o vidro passa pela têmpera, onde o esmalte cerâmico
funde no vidro tornando impossível a remoção do mesmo [SAINT-GOBAIN, 2005].

1.12 – PARÂMETROS QUE INTERFEREM NA TÊMPERA DO VIDRO

Os parâmetros que interferem na têmpera do vidro são [SCHOTT, 2005]:


a) Controláveis
• Velocidade de transporte do vidro;
• Potência de aquecimento;
• Temperatura de aquecimento;
• Ciclo total;
• Pressão do ventilador.
b) Não-Controláveis
• Temperatura do ar (captação externa);
• Pressão atmosférica;
• Umidade relativa;
• Circulação interna do ar dentro da câmara de aquecimento.
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Cabe ressaltar que a própria decoração ou variação de cor em um mesmo vidro


(por exemplo: visor incolor mais chapado preto) acarreta uma variação considerável de
fragmentos em áreas distintas na mesma peça. Isso porque ocorrem diferenças no índice
de absorção de calor.