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> Panorama

Paulo Roberto Ceccarelli


Configurações edípicas da contemporaneidade:
reflexões sobre as novas formas de filiação*

Partindo da análise das mudanças de valores da contemporaneidade, o autor tece


reflexões sobre o que é chamado de “novas formas de filiação”. Entre estas, o debate é
centrado naquela que, sem dúvida, tem sido a mais polêmica: na homopaternidade.
Inicialmente, o autor adverte contra o perigo de se estar usando, em alguns casos, a
psicanálise como guardiã da ordem social, o que seria uma profunda deturpação da teoria
analítica. Em seguida, discute-se o que é, de fato, essencial para a constituição do sujeito.
Conclui-se, baseando-se em trabalhos que vêm sendo realizados com crianças criadas por
um casal do mesmo sexo e a partir da discussão dos pressupostos psicanalíticos
fundamentais que, do ponto de vista da subjetivação, não há nada que desabone este
arranjo familiar.
> Palavras-chave
Palavras-chave: Homopaternidade, subjetivação, castração

This article starts by pointing out the changing of values in contemporaneity. Amongst
pulsional > revista de psicanálise > panorama > p. 88-98

these changes, the author focus his reflections on what he calls “the new forms of
parenting and particularly on the one which, no doubts, rises big polemics: the same
sex parenting. First of all, the author calls one’s attention to the danger of using
psychoanalysis as a “guardian” of a social order, in which case, it would be a profound
misuse of psychoanalytic theory. Then, the author discusses what is, in fact, essential
for the constitution of the subject as such. Based on what is so far known about
children who were brought up by parents of the same sex and supported by the
fundamental psychoanalytical notions, the author shows that from the psychological
point of view nothing can be said against this form of parenting.
> Key words
words: Same sex parenting; subjectivation, castration
ano XV, n. 161, set./2002

* > Trabalho apresentado na 1a Semana de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental UFPA/UEPA, Be-


lém, PA, de 8 a 12 de abril de 2002.

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Introdução dou esta situação, acirrando ainda mais o
As últimas décadas têm sido marcadas, debate, já iniciado no séc. XIX, sobre o lu-
sobretudo no Ocidente, por profundas gar dos homens e o das mulheres nas re-
mudanças de valores, comportamentos e lações sociais, no trabalho, na reprodu-
identidades. Como exemplo, podemos ci- ção, nas questões demográficas e outras
tar: as modificações nas condições de tantas. Tais movimentos resultaram em
procriação (procriação artificial, doador uma nova organização sociopolítico-eco-
de esperma anônimo, barriga de aluguel, nômica que levou, dentre outras coisas, a
embriões congelados);1 as mudanças nas uma discussão completamente nova a
formas de filiação e de criação dos filhos respeito da sexualidade, particularmente
(alterações no sistema de atribuição do em torno dos “perigos” de separar sexua-
sobrenome, pais adotivos, pais artificiais, lidade e procriação. Surge, a partir daí,
monopaternidade, homopaternidade); as um discurso revolucionário a respeito do
demandas de modificação de identidade sexual cujo expoente máximo é, sem dú-
sexual (transexualismo); as novas práticas vida, a psicanálise: um dos seus textos-
sexuais (sexo pela internet) e os limites pivô, os “Três ensaios...”, constitui, justa-
impostos à sexualidade (o surgimento da mente, a primeira formulação sistemática
Aids). Entretanto, tais transformações sobre o tema.
não são, em sua essência, um fenômeno Os avanços da tecnologia e das ciências
completamente novo devendo, talvez, ser que seguiram a Segunda Guerra Mundial
consideradas como “reorganizações” co- trouxeram importantes descobertas, em
letivas. particular no campo da medicina, além de
O que assistimos dá continuidade a um criarem e popularizarem utensílios do-
processo de mudanças cujas origens re- mésticos, o que possibilitou mais tempo
montam ao século XVIII com a Revolução livre. Concomitantemente, a fim de fazer
Industrial. Este processo foi acentuado circular o capital, foi necessário incre-
após a Primeira Guerra Mundial: quando mentar o consumo, o que exigia um au-
os combatentes voltaram dos campos de mento da renda familiar. Este aumento só
panorama

batalha, encontraram suas esposas per- foi possível com a participação das mu-
feitamente adaptadas ao trabalho fora de lheres que passaram a ser cada vez mais
casa e decididas a não renunciarem a convocadas a juntarem-se às fileiras da
esta conquista. A década que se seguiu, força de trabalho.
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conhecida como “os anos loucos”, apoia- Estes reposicionamentos sociais e redefi-
da pelos movimentos feministas, consoli- nições de papéis, juntamente com o apa-
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1> Sobre esta questão, dois acontecimentos ganharam as primeiras páginas da mídia no ano passado: o
primeiro foi uma matéria sobre uma francesa de 62 anos que gestou um filho com óvulo doado e
inseminado com esperma de seu próprio irmão. Os debates ético-jurídicos que se seguiram foram acalo-
rados (VEJA, 27/6/01). O segundo diz respeito a uma nova técnica desenvolvida na Austrália que permite
a fecundação por meio de uma célula não sendo mais necessário o esperma. As perspectivas que se se-
guem são inúmeras: um homem que não produz esperma pode fecundar; uma mulher pode fecundar
outra mulher, etc.

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recimento da pílula anticoncepcional, ti- bastante – hoje há, sem dúvida, menos
veram participação decisiva na chamada repressão à sexualidade –, o acesso ao
“revolução sexual” dos anos 1970. As re- sexual, ao recalcado, continua, como
percussões destes movimentos nas rela- sempre, um enigma (cf. Ceccarelli, 1998,
ções homem/mulher, sobretudo nos jo- p. 78-81) por vezes problemático: a inefi-
vens que começaram a ver e a viver a se- cácia das campanhas tanto de prevenção
xualidade de forma totalmente diversa, da gravidez na adolescência quanto da
foram profundas. A liberação, em alguns importância do uso do preservativo são
países, do aborto, o morar juntos, ter re- os exemplos dramáticos de como o se-
lações sexuais sem que as pessoas envol- xual, irrompendo em lugares mais inespe-
vidas fossem casadas, as separações – rados, foge a qualquer apreensão direta.
desquites e divórcios – que tornaram-se Todas estas mudanças, e suas conseqüên-
mais freqüentes; as relações envolvendo cias particulares, sugerem que a espécie
pessoas do mesmo sexo aparecendo a humana atravessa, com intensidade variá-
céu aberto, tudo isso passou a integrar a vel no tempo e no espaço, aquilo que po-
paisagem social. demos chamar de “crise das referências
As reações a esta “nova ordem” foram simbólicas”. Ao mesmo tempo, o fato des-
imediatas: falou-se do fim da família, da tas “crises” não levarem a uma ruptura, a
decadência dos costumes e da moral. A uma desestruturação da civilização per-
mulher que trabalhava fora, e que tinha mite supor, e temos aqui um ponto central
acesso à pílula, estaria mais exposta às deste texto, que não existe uma maneira,
tentações de relações extraconjugais; um caminho, que defina, de forma única e
previam-se problemas psíquicos terríveis definitiva, e muito menos normativa, o aces-
para os filhos de pais separados; a presen- so à Ordem Simbólica e às relações entre
ça menos efetiva da figura paterna levaria sujeitos próprias do humano. Ou seja, não
indubitavelmente a dificuldades particula- há um modo único de subjetivação.
res de subjetivação, e assim por diante. Na atualidade, a “crise” parece afetar mais
panorama

Entretanto, quando, no início do século abertamente o sexo masculino. Segundo


XXI, olhamos para trás e reavaliamos os alguns autores, esta “crise” seria a respon-
temores das décadas precedentes consta- sável pela chamada “crise da masculinida-
tamos que nada de dramático aconteceu: de” ou ainda pelo “declínio do poder pa-
as famílias continuam compondo-se e de- terno”. Tais conclusões, entretanto, mere-
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compondo-se; os filhos e filhas de casais cem uma reflexão mais detida: se declínio
separados estão bem, em alguns casos existe, é um declínio do patriarcado devi-
melhores do que aqueles cujos pais não do às transformações, sobretudo econô-
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se separam; às manifestações da sexuali- micas, que produziram o homem moder-


dade que fogem às regras ainda são tra- no. O que está, de fato, em crise, o que
tadas de forma preconceituosa; a questão vem sendo reavaliado, é aquilo que des-
do aborto continua problemática... de tempos imemoriais tem sido aceito
Uma primeira conclusão que podemos ti- como única possibilidade de subjetivação:
rar de tudo isso é que embora os limites a referência ao pai. Isto significa que a
às praticas sexuais tenham se modificado “crise da masculinidade” é um reflexo de
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uma “crise” ainda mais profunda: a da atri- de filiação” estão no rol das mais polêmi-
buição fálica como organizador social cas. Por exemplo, haveria uma diferença
(Tort, 1999, p. 57-73). As mudanças socio- significativa entre o investimento mater-
político-econômicas das últimas décadas no e/ou paterno no caso de uma gravidez
relevaram o caráter imaginário de uma tradicional e no caso de uma fecundação
forma de organização social onde o ho- in vitro? Em que os processos de subjeti-
mem ocupa o lugar central. Isso fez com que vação de uma criança adotada onde, de
estes últimos passassem a ser questionados; alguma forma, as duas famílias existem, se
coisa nova e, para alguns, insuportável. diferenciariam dos de uma criança gera-
A função fálica, ou se preferirmos “o ou- da por um processo biotécnico de inse-
tro da mãe”, é cada vez menos exercida minação artificial com doador anônimo?
pelo homem, o que pode provocar pro- As crianças criadas por apenas um dos
fundas crises de angústia. Que haja algo genitores (às vezes o outro é totalmente
que organize, que separe a célula narcísi- desconhecido), ou aquelas criadas por um
ca mãe-filho, é condição fundamental casal do mesmo sexo terão necessaria-
para que o sujeito se constitua. Entretan- mente problemas de subjetivação? Ou
to, dar a isto o nome de “Nome-do-Pai”, seja, a falta de um dos genitores – mono-
ou “Função paterna”, é um reflexo do pa- paternidade – ou a presença de duas
triarcado. O que vem ocorrendo é que a pessoas do mesmo sexo – homopaterni-
necessidade – imaginária – que este lugar dade – terá repercussões particulares nos
tenha que passar pelo homem (por aque- processos identificatórios e, por conseguin-
le que tem o órgão) vem mudando. Nes- te, na organização psíquica do sujeito?
ta perspectiva, a “crise da masculinidade” Sem dúvida, as questões colocadas por
é, no fundo, uma “crise dos homens” na estas novas configurações familiares sub-
medida em que estes últimos são cada metem alguns dos pressupostos psicana-
vez menos convocados para ocupar o se- líticos a dura prova. Com efeito, estamos
gundo tempo do Édipo. O homem que, lidando com perguntas que nos permiti-
panorama

tradicionalmente, acreditava ter o poder, rão separar aquilo que, de fato, revela do
sobretudo econômico, sempre confundiu domínio da psicanálise, daquilo que per-
este poder com o ter, e até com o ser, o tence ao fantasma. Uma coisa é a psicaná-
falo. Este lugar, entretanto, vem mostran- lise pronunciar-se sobre a dinâmica da fi-
do sua dimensão imaginária na economia liação; outra coisa é ela apresentar-se
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de mercado. como aquela que sabe exatamente como


Cabe, então, discutir como o processo ci- esta dinâmica deve ocorrer. De duas,
vilizatório reage aos novos modos de sub- uma: ou a psicanálise se coloca como
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jetivação. guardiã de uma ordem simbólica supos-


ta imutável, reflexo de uma forma única
Os novos modos de procriação e idealizada de subjetivação baseada nas
Dentre todas as transformações da con- normas vigentes – neste caso a psicaná-
temporaneidade, aquelas que tratam das lise teria o poder de deliberar sobre o nor-
posições médico-jurídicas referentes aos mal e o patológico – ou, seguindo o exem-
chamados “novos modos de procriação e plo de Freud que sempre soube revisitar
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a teoria a partir daquilo que a clínica e as estaria preso em uma relação especular
mudanças sociais lhe apresentavam, de- pautada pelo narcisismo, não ocorreria.
vemos verificar como alguns pressupos- Partindo da premissa de que o casal ho-
tos psicanalíticos reagem às novas confi- mossexual não refletiria para a criança a
gurações da contemporaneidade. imagem dos dois sexos, sustenta-se o im-
Partidário da segunda opçã, gostaria, nes- perativo da presença de pais de sexos di-
te trabalho, de centrar o debate sobre ferentes para que a situação edipiana pos-
um destes modos de filiação, a homopa- sa acontecer. Há ainda aqueles que argu-
ternidade, e os processos de subjetivação. mentam que a família se desintegraria e
Ou seja, as repercussões que esta nova que, mais cedo ou mais tarde, isto traria
forma de filiação terá na construção do conseqüências catastróficas para a orga-
mito individual e na produção da verda- nização social. Outros afirmam que a ado-
de singular do sujeito. ção por um casal do mesmo sexo é uma
forma de afirmar a normalidade da rela-
A homopaternidade ção, o que colocaria a criança na posição
Sobre esta questão, a psicanálise tem sido de objeto fetiche.3 Juntam-se a isso, posi-
freqüentemente convocada a posicionar- ções religiosas que vêem na homopater-
se. Os que são contra a homopaternida- nidade uma ratificação de uma relação
de 2 alertam sobre os perigos psíquicos considerada contranatureza.4
que a criança estaria sujeita frente à não- Na maioria dos debates sobre a homopa-
diferença sexual dos pais. Os mais radi- ternidade deparamo-nos com as posições
cais alegam que a criança exposta a dois normativas descritas acima. No entanto,
sujeitos do mesmo sexo e aos fantasmas as argumentações não procedem. Vemos
delirantes destes últimos sobre a não di- repetir a mesma ortopedia visual simplis-
ferença dos sexos teria seus processos ta que, outrora, aplicou-se às situações
psíquicos fundamentais entravados e, monoparentais: por ter apenas uma ima-
conseqüentemente, sua subjetivação – o gem, a organização psíquica infantil fica-
acesso ao simbólico, à lei – comprometi- ria deficitária. Como se a diferenciação
panorama

da. Sem a função paterna, que aparente- sexual passasse pela anatomia dos pais!
mente o casal homossexual não saberia Quanto à relação especular, ela pode es-
sustentar, a diferença entre os sexos, au- tar presente tanto na solução heterosse-
sente no próprio casal pois este último xual quanto na homosssexual.5
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2> Uma ampla discussão sobre o simplismo de algumas posições foi feita por Michel Tort, em “Quelques
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conséquences de la différence ‘psichanalytique’ des sexes”, p. 176-215.


3> Para uma discussão atual sobre as posições de estudiosos do assunto de diferentes horizontes ver:
Langouet, G. (org.), “Les ‘nouvelles familles’ en France”. E também: Gross, M. (org.) “Homoparentalités,
état des lieux”.
4> Sobre as origens da sexualidade “contra a natureza” ver o artigo de P. R. Ceccarelli “Sexualidade de
preconceito”.
5> “... ambos os tipos de escolha objetal [anaclítico e narcísico] estão abertos a cada indivíduo”. Conf.
Freud, S. (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução”.

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Contudo, mais importante do que deba- te, uma indefinição do lugar da criança
ter sobre a pertinência ou não destas po- como filho, ou filha. Temos ainda situa-
sições extremas, o relevante é alertar ções onde um dos pais, senão os dois,
contra uma forma de arrogância psicana- não participa, às vezes nem mesmo exis-
lítica que se vê detentora de uma verda- te, na vida da criança. E, nem por isso,
de que lhe autorizaria determinar as con- esta última apresenta um problema par-
dições ideais para um desenvolvimento ticularmente dramático.
psíquico normal. Uma leitura atenta do Ainda que os primeiros significantes que
que vem sendo publicado e discutido so- nos designam sejam “homem” ou “mu-
bre a homopaternidade revela, na grande lher”, tal designação não implica a ques-
maioria dos casos, que os pressupostos tão da erogenização do corpo – que pas-
teóricos psicanalíticos vêm sendo utiliza- sa pelo afeto. Ou seja, não basta o signifi-
dos para sustentar um discurso ideológi- cante para que, na ordem simbólica, o
co secular sobre as estruturas familiares. sujeito se posicione como homem ou mu-
Passou-se da análise da dinâmica dos ele- lher. Este posicionamento não é indife-
mentos presentes no funcionamento psí- rente ao lugar que a criança – que tem
quico a uma prescrição normativa das chances de tornar-se sujeito – ocupa no
condições de subjetivação. Tomando a inconsciente dos pais bem antes mesmo
família tradicional baseada no “poder pa-
do seu nascimento e da dimensão narcí-
terno” como referência de normalidade e
sica destes últimos, enfim, da dinâmica da
detentora das condições ideais de organi-
economia libidinal da família. O essencial
zação psíquica, todo modo de filiação que
para que o sujeito se constitua é que ele
escape a este modelo traria perturbações
psicossexuais.6 seja simbolicamente reconhecido pela
Entretanto, não foi preciso esperar a psica- palavra do Outro, encarnado, na maioria
nálise para saber o quanto a família tradi- das vezes, pelos pais. É este reconheci-
cional está longe de ser um modelo ideal. mento, responsável pela inscrição do su-
O argumento psicológico, que defende a jeito na função fálica, que transformará a
panorama

importância do par homem/mulher para criança – a partir do real de sua anato-


a saúde psíquica da criança, dificilmente mia (sexo) – em ser falante, homem ou
se sustenta. A prática clínica é a maior mulher.
testemunha das derrapagens nas relações A partir do que foi dito, acreditamos que
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familiares. Na clínica infantil, exemplos a questão que, de fato, releva da psicaná-


não faltam onde o problema apresentado lise é a seguinte: o que permanece, o que
pela criança traduz a grande confusão há de fundamental, para que a subjetiva-
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dos pais quanto a seus respectivos pa- ção ocorra e isso independentemente do
péis, o que pode gerar, conseqüentemen- modo de filiação?

6> Um debate sobre este tema intitulado “Homophbies psychanalytiques” foi publicado no periódico Le
Monde em sua edição de 15 de outubro de 1999.

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Reorganizações edípicas em suas fantasias, simplesmente preen-
Como sabemos, o complexo de Édipo en- chem os claros da verdade individual com
volve investimentos eróticos e agressivos a verdade pré-histórica” (Freud, 1917, p.
da criança em relação às figuras parentais; 433). A força deste fantasma é tão grande
a persistência destas ligações estaria no que ele é capaz de remodelar, na imagi-
centro das neuroses. Além destes elemen- nação, as experiências vividas quando es-
tos encontram-se, também, aqueles rela- tas últimas não se adaptam ao esquema
tivos aos investimentos libidinais dos pais herdado filogeneticamente (Freud, 1918,
em relação à criança. “Resolver” o Édipo, p. 148). Como nos mitos coletivos, os fan-
ou seja, constituir-se com o sujeito dese- tasmas originários oferecem à criança
jante, significa não ocupar o lugar de ob- uma explicação, uma solução, aos enig-
jeto de gozo dos pais, ou de seus substi- mas com os quais ela se depara.
tutos, o que equivale a separar-se das Lacan, como sabemos, ainda que fiel às
formações inconscientes do desejo dos posições freudianas, propõe uma visão
pais. A interdição do incesto que se segue bastante diferente do complexo de Édipo.
estabelece limites tanto para a criança Ele teoriza a existência de um pai separa-
quanto para os pais. dor – separação que visa diretamente a
Se, por um lado, não existe dúvida quan- mãe – por trás do pai imaginário propos-
to ao papel central do complexo de Édi- to por Freud e transforma o Nome-do-Pai
po na dialética de subjetivação, caso con- em um conceito psicanalítico (cf. Lacan,
trário o edifício teórico da psicanálise vi- 1994). Este pai toma contornos dramáticos
ria abaixo, por outro lado, o elemento quando Lacan trata da père-version do
central na dissolução do Édipo é o com- pai real. O Édipo, na perspectiva lacaniana,
plexo de castração. A ameaça de castra- corre o risco de transformar-se em uma
ção, presente neste complexo, é geral- etapa normalizante, termo, aliás, recor-
mente proferida por mulheres que, para rente em Lacan. A partir daí, foi possível
reforçarem sua autoridade e aumentar a formular as condições estruturais “ideais”
eficácia da ameaça, referem-se ao pai, ou para uma travessia satisfatória do Édipo,
pulsional > revista de psicanálise > panorama

a uma figura de peso na vida da criança. e tratar as categorias de neurose, psicose e


Na menina, ainda que vivenciado de ou- perversão como estruturas fixas e imutáveis.
tra forma, o complexo de castração tam- O risco é que, em Nome-do-Pai, e como
bém existe (Freud, 1924). que para preservar o culto milenar da fi-
Assim, embora na situação edípica o gura paterna, a psicanálise erija-se como
agente castrador seja, na maioria das ve- defensora da autoridade paterna ou, se
zes, atribuído à figura do pai, este último preferirmos, da função paterna, vendo na
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é apenas o porta-voz de algo que lhe an- sua ausência a explicação de todos os
tecede: o complexo de castração. Entre- males. (Isso nos aproximaria bastante das
tanto, o referido complexo tem, em preocupações do clero católico quanto
Freud, o estatuto de um fantasma originá- ao declínio da autoridade paterna, repre-
rio (Urphantasien) herança filogenética sentante de Deus.) Além disso, há um “de-
de “ocorrências reais dos tempos primiti- talhe” que tem passado despercebido:
vos da família humana, e que as crianças, designar o significante organizador da
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ordem social de “Nome-do-Pai”, e/ou narcisismo primário. O bebê humano que
“função paterna”, não é sem conseqüên- recusasse esta necessidade seria impensá-
cias ideológicas. Por outro lado, a chama- vel como humano, excluindo-se da cultu-
da “segunda clínica” de Lacan, que pode ra”. Não é a morte biológica que a falta do
ser pensada como uma tentativa de com- Outro traz mas, antes, a morte ontológi-
preensão das novas formas de sintoma, ca que tem sua expressão máxima em al-
mostra o quanto ele estava atento às mu- gumas formas de psicose. Resumindo: o
danças nos laços sociais e às novas con- complexo de castração traduz as restri-
figurações de angústia daí advindas. ções que o processo civilizatório impõe à
O que é central no Édipo é que, neste pe- criança para que ela se constitua como
ríodo, o sujeito se dá conta de que está sujeito. O período edipiano, momento
excluído de uma relação. A dificuldade máximo da introjeção dos valores cultu-
deste período é devido, principalmente, à ralmente aceitos – o superego é o her-
bissexualidade constitucional de cada su- deiro do complexo de Édipo –, constitui
jeito e ao caráter triangular da relação a etapa derradeira deste processo. Sua
edipiana (cf. Freud, 1923). Entretanto, dissolução depende da ordem simbólica
nada indica que o caráter triangular deva que, na sociedade ocidental, tem no pai
ocorrer com duas pessoas de sexo dife- seu representante, mas não seu guardião.
rente. Afirmar isso, equivaleria a dizer O Édipo, como toda representação fantas-
que crianças criadas por um genitor ape- mática, é ao mesmo tempo universal e
nas ou em instituições, aquelas que per- singular. Porém, a maneira como esta re-
deram um dos genitores, as que cresce- presentação é tratada socialmente é his-
ram em famílias matriarcais onde a pre- tórica e varia no espaço e no tempo.
sença masculina não existia e tantos ou- Tendo em vista as mudanças nos laços
tros arranjos que fogem ao lugar comum, sociais e considerando o que foi dito, po-
todas estas crianças teriam problemas na demos levantar algumas questões: seria
resolução do Édipo. possível atribuir à função paterna o mes-
Passar do modo de relação narcísica para mo estatuto de fantasma originário que
panorama

o objetal, renunciar ao narcisismo primá- Freud atribuiu ao complexo de castração?


rio em prol dos valores culturalmente Isso transformaria a função paterna em
aceitos, e outros tantos processos de per- “solução paterna” (Tort, 1999): uma pos-
das e de limites marcados por movimen- sibilidade de subjetivação entre outras. O
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tos pulsionais e identificatórios, tudo isso complexo de castração sendo um fantas-


caracteriza o complexo de castração. Isto ma originário permite que este fantasma
só é possível, como escrevi em outro lu- seja simbolizado, metabolizado, por várias
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gar (cf. Ceccarelli, 2001, p. 91-7), graças à vias. O significante Nome-do-Pai é, sem
função do Outro primordial que, encar- dúvida, um articulador poderoso para
nada inicialmente na mãe, vai “introduzir que a introdução na ordem simbólica,
a criança no mundo da metáfora onde os metafórica, seja possível. Mas, será o úni-
objetos secundários substituem os pri- co? Haveria outras saídas? As mudanças
mordiais: para manter-se o narcisismo na atualidade que, como vimos, não trou-
secundário, o do eu, deve-se sacrificar o xeram nenhuma transformação radical
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no processo civilizatório, não sugeririam no” vários artigos debatem a questão da
a possibilidade de arranjos diferentes? adoção de crianças por casais compostos
O que vai diferenciar as crianças criadas de pessoas do mesmo sexo. Embora nada
por um casal do mesmo sexo das outras de conclusivo seja apresentado, o que se
é o que diferencia os seres humanos en- depreende da matéria jornalística é que o
tre si: a particularidade do trajeto identifi- maior problema enfrentado, tanto pelo
catório e as escolhas de objetos de cada casal homossexual quanto pelas crianças
um. Cada modo de filiação – homopater- adotadas, continua sendo o preconceito.
nidade, adoção, monopaternidade, famí- Do ponto de vista psicológico, nada de
lias tradicionais, famílias separadas, um desabonasse esta forma de adoção foi
ou os dois genitores falecidos e toda ou- encontrado.
tra forma que pudermos imaginar – terá Isso só reforça o que de há muito já sa-
a sua própria configuração de angústia. bíamos: o lugar do pai e da mãe não tem
Mas, do ponto de vista da constituição do que ser necessariamente ocupado por
psiquismo não existe, a priori, nenhuma um homem e por uma mulher. O que cha-
evidência para dizer que um modelo é mamos de “função paterna” e “função
mais ou menos patogênico. Não há quem materna” não necessita da presença de
não conheça uma criança que se encaixa um homem e de uma mulher. A realida-
num destes modelos e que, nem por isso, de anatômica de quem cria a criança não
apresente problemas particulares de sub- é um elemento fundamental para a cons-
jetivação. trução da subjetividade desta última. Esta
Estudos sobre o destino psíquico das crian- construção está muito mais subordinada
ças criadas no modelo homoparental não à organização psíquica daqueles que cui-
revelam nenhuma anomalia. As conclu- dam da criança, de como eles se colocam
sões de um trabalho7 em pedo-psiquiatria em relação à sua própria sexualidade, à
realizado em Bordeaux, França, com 58 fantasia que têm de ser pai e/ou mãe e,
crianças que têm pais do mesmo sexo talvez sobretudo, ao lugar que a criança,
mostrou que o desenvolvimento psicos- adotiva ou não, ocupa no universo psíqui-
panorama

sexual destas crianças é tão normal quan- co dos pais.


to o de qualquer outra: “Ao que tudo in-
dica, a homopaternidade não constitui, Considerações finais
em si, um fator de risco para as crianças; Tudo isso sugere a hipótese de que as
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elas vão bem”, conclui o Dr. Nadaud com mudanças nos modos de filiação, produ-
uma simplicidade lapidar. zindo aquilo que, no início do texto, cha-
Mais perto de nós, temos o espaço que o mamos de “crise das referências simbóli-
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jornal Folha de S. Paulo, na sua edição de cas”, não alteram os processos de subje-
domingo, dia 31 de março deste ano dedi- tivação. Estas “crises”, longe de provoca-
cou ao tema. No caderno “Folha Cotidia- rem uma desestruturação social, atestam

7> Tese de doutorado em pedo-psiquiatria defendida pelo Dr. Stéphane Nadaud na Universidade de Bor-
deaux, França, em 10 de outubro de 1999. O longo artigo sobre este trabalho foi publicado no periódico Le
Monde, em novembro do mesmo ano.

>96
a força do simbólico, da metáfora, e mos- que formem uma família. Além disso, te-
tram que o problema da homopaternida- mos os mais diversos arranjos onde os
de não pode ser tratado pelo viés de po- membros se sentem em família sem, con-
sições nostálgicas que tentam transfor- tudo, terem ligações sanguíneas: por
mar em normas, soluções que pertencem exemplo aquelas que agregam filhos de
a organizações sociais, e ordens simbóli- uniões anteriores. O que define uma famí-
cas não mais sustentáveis na pós-modernida- lia, o que une os seus membros são os la-
de. Utilizar os pressupostos psicanalíticos ços afetivos, ou seja, os investimentos
para ditar os caminhos “normais” do de- que, como todo investimento, carregam
senvolvimento psíquico a partir dos mo- correntes afetuosas e agressivas: não é
dos de filiação tradicionais e seculares raro uma família ser marcada pela rivali-
equivale a esquecer que as construções teó- dade entre os seus membros, pelo ódio
ricas da psicanálise baseiam-se em um entre os irmãos, pelo ressentimento para
terreno diferente da organização social: com os pais.
pulsões, desejos, complexo de Édipo, re- Os argumentos de parentesco são múlti-
lações de objeto, identificações. O verda- plos: biológico, social, afetivo, religioso,
deiro trabalho psicanalítico é, não ape- cultural, histórico... Talvez o que tanto
nas, o de analisar como estes elementos ameace na homopaternidade é que este
organizam-se em um determinado momen- arranjo destrói a ilusão de “parentesco
to sócio-histórico de uma dada sociedade natural” e abala nossas mais profundas
para compreender a ordem simbólica daí convicções, produzindo um retorno do
advinda, como também o de seguir os recalcado que mostra a dimensão imagi-
efeitos das mudanças socioeconômicas nária das certezas e dos valores cultural-
na dinâmica destes elementos permitindo, mente tidos como Verdades.8
assim, compreender a nova ordem simbó- Ao que tudo indica, o problema da homo-
lica. Valer-se da psicanálise para, baseado paternidade, com as aflamadas discus-
nas organizações sociais mais comuns, sões que ele suscita, parece ser muito
sustentar que apenas um modo de filia- mais uma questão sociológica do que psi-
pulsional > revista de psicanálise > panorama

ção é correto, corresponde a uma imagi- cológica. Os argumentos, a favor ou con-


narização do simbólico, o que é, no míni- tra, são, na sua grande maioria, de ordem
mo, perverso. político-social e religiosa.
Se do ponto de vista social e legal as nor- Seja como for, devido à complexidade e
mas que definem uma família são relativa- a novidade da questão, toda prudência é
mente bem estabelecidas, do ponto de recomendada. Entretanto, para terminar,
vista psicológico as famílias são sempre duas considerações que me parecem
ano XV, n. 161, set./2002

construídas e os filhos sempre adotivos. oportunas. A primeira é a de que teremos


O fato de um homem e uma mulher vive- que esperar ainda mais alguns anos para
rem juntos e terem filhos não significa pronunciarmos com mais clareza sobre as

8> Uma interessante discussão destes aspectos foi apresentada por Anne Cadoret. Conf: Cadoret, A., “Fi-
gures d’homoparentalité”. In: Gross, M. (org.) “Homoparentalités, état des lieux”, Op. cit., p. 169-73.

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angústias das crianças criadas por casais F REUD , S. (1914). Sobre o narcisismo: uma
do mesmo sexo. A segunda merece uma introdução. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago,
reflexão: até a presente data, todos aque- 1974, p. 104. v. XIV.
les que apresentam algum tipo de proble- _____ . (1917). Conferências Introdutórias
ma ou patologia mental, de comporta- sobre a Psicanálise, conf. XXIII. In: ESB. Op.
mentos anti-sociais, tais como a delin- cit., p. 433. v. XVI.
qüência, marginalidade, sociopatias, e _____ . (1918). História de uma neurose
tantos outros distúrbios, foram criados infantil. In: ESB. Op. cit., p. 148. v. XVII.
por casais heterossexuais. Isto significa _____ . (1923). O ego e o id. In: ESB. Op. cit.
que o sexo daqueles que se ocupam das v. XIX.
crianças não traz, a priori, nenhuma ga- _____ . (1924). A dissolução do complexo de
rantia. Mas significa, também, que deve- Édipo. In: ESB. Op. cit. v. XIX.
mos estar atentos a toda idealização da GROSS, M. (org.). Homoparentalités, état des
heterossexualidade. lieux. Paris: ESF, 2000. Collection La vie de
l’enfant.
Referências LACAN , J. Le seminaire. Libre IV. La relation
CADORET, A. Figures d’homoparentalité. In: GROSS, d’objet. Paris: Seuil, 1994.
M. (org.). Homoparentalités, état des lieux. LANGOUET, G. (org.). Les “nouvelles familles” en
Paris: ESF. p. 169-73. Collection La vie de France. Paris: Hachette, 1998.
l’enfant. T ORT , M. La solution paternelle. Logos &
CECCARELLI, P. R. O sexual da violência. Pulsional Anankè Revue de psychanalyse et de
Revista de Psicanálise. São Paulo, ano XI, psychopathologie. Paris, n. 1, p. 57-73, 1999.
n. 106, p. 78-81, fev/1998. _____ . Quelques conséquences de la
_____ . Sexualidade e preconceito. Revista différence “psichanalytique” des sexes. Les
Latinoamericana de Psicopatologia temps modernes, Paris: TM, n. 609, p.
Fundamental. São Paulo, v. III, n. 3, p. 18- 176-215, Juin-juillet-août/2000.
37, set/2000.
_____ . A sedução do pai. Grifos . Belo
panorama

Artigo recebido em maio/2002


Horizonte: IEPSI, n. 18, p. 91-7, out/2001. Aprovado para publicação em agosto/2002
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