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INTERVENÇÃO ANALÍTICO COMPORTAMENTAL FRENTE AO

TRANSTORNO AUTISTA
ANALYTICAL BEHAVIORAL INTERVENTION IN LIGHT OF AUTISTIC DISORDER

Ana Paula Gargantini1


Nathany Caroline Homenhuck Damas2
Tainara Aparecida Siqueira Assis3
Patricia Cristina Novaki Aoyama4

GARGANTINI, A. P.; DAMAS, N. C. H.; ASSIS, T. A. S.;


AOYAMA, P. C. N. Intervenção analítico comportamental frente
ao transtorno autista. Akrópolis Umuarama, v. 23, n. 1, p. 75-86,
jan./jun. 2015

Resumo: Este trabalho tem como objetivo geral investigar quais In-
tervenções Analítico Comportamentais são realizadas em relação ao
Transtorno Autista, por via bibliográfica e por meio de pesquisas com
profissionais desta abordagem. O método de coleta de dados acon-
teceu mediante questionários enviados por e-mail, totalizando três
psicólogos, que participaram da pesquisa. As intervenções utilizadas,
segundo os profissionais entrevistados, são “O PAD, Programa de
Aprendizagem e Desenvolvimento, o TEACCH, as Social Historys, o
PECS e outras intervenções baseadas na Análise do Comportamento”.
Pode-se perceber, com base nos resultados, que a Intervenção Ana-
lítico Comportamental, por meio de suas implicações técnicas, obtém
1
Discente do 4º ano do curso de Psicologia bons resultados no tratamento de indivíduos autistas, assim como, é
- UNIPAR. a abordagem que mais produz embasamento para esse tipo de aten-
dimento.
2
Discente do 4º ano do curso de Psicologia
- UNIPAR.
Palavras-chave: Transtorno autista; Intervenções comportamentais;
Análise do comportamento.
3
Discente do 4º ano do curso de Psicologia
- UNIPAR. Abstract: The aim of this study is to investigate Analytical Behavioral
4
Mestre em Psicologia. Docente na Univer-
Interventions performed in relation to Autistic Disorder by using biblio-
sidade Paranaense. graphic research and surveys with professionals from this approach.
The data was collected through questionnaires sent by e-mail, with a
total of three psychologists participating in the research. The interven-
tions used, according to the interviewed professionals, are PAD (Le-
arning and Development Program), TEACCH, Social Histories, PECS
and other interventions based on behavioral analysis. Based on the
results, it can be noticed that the Analytical Behavioral Interventions ,
by means of their technical implications, obtains good results in treating
autistic individuals. Therefore, this is the approach that produces the
greatest fundaments for such treatment.
Keywords: Autistic Disorder; Behavioral Interventions; Behavior
Analysis.

Recebido em Novembro de 2014


Aceite em Abril de 2015

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GARGANTINI et al.

INTRODUÇÃO O diagnóstico do Transtorno Autista deve


ser realizado por: médicos, psiquiatras e neuro-
O presente trabalho pretende discutir logistas, buscando a interdisciplinaridade com
como se desenvolvem as intervenções frente profissionais como: psicólogos, professores e
ao Transtorno Autista, baseado na abordagem outros. Para coletar informações consideradas
Analítico Comportamental. Analisando como o importantes, utiliza-se o método indireto ou dire-
Psicólogo pode agir em diferentes contextos que to. O método indireto consiste em questionários
envolvem este transtorno, de forma a pensar o que são preenchidos pelos pais, familiares ou
tratamento não voltado somente a fármacos, professores. Já no método direto são utilizadas
mas também a questão de desenvolvimento da entrevistas, escalas de avaliação e observação
relação social e melhora da qualidade de vida direta no ambiente natural (WINDHOLZ, 2005).
desses indivíduos.
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO E POSSÍ-
DIFERENTES CONCEPÇÕES E DIAGNÓSTI- VEIS INTERVENÇÕES COM AUTISTAS
CO DO TRANSTORNO AUTISTA
Para Silva, Herrera e Vitto (2007), existe
Nos seus primórdios, o Transtorno Au- uma grande variedade de fundamentos teóricos
tista era considerado uma psicose. Com a evo- que intervém terapeuticamente no Autismo, cada
lução de pesquisas na área, a partir de 1980, um com sua estratégia e enfoque diferenciado e
deixa de ser incluso entre psicoses e passa a ser apesar das diferentes abordagens sempre bus-
reconhecido como um Transtorno Invasivo do cando os mesmos objetivos finais: melhorar as
Desenvolvimento. Na classificação do DSM-IV, habilidades linguísticas, sociais e cognitivas.
houve uma separação entre Transtorno Invasivo Goulart e Assis (2002) consideram que
do Desenvolvimento, Autismo e Asperger. Atual- mesmo os comportamentos desajustados apre-
mente no novo DSM-V o Transtorno do Espectro sentados pelos Autistas são provocados por
Autista (TEA) foi criado para englobar todas es- algum evento e são repetidos porque existem
tas classificações em somente um diagnóstico consequências. As intervenções que não con-
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013). sideram estas consequências como variáveis
Para melhor compreensão, neste traba- controladoras dos comportamentos tendem a
lho serão utilizados os termos Transtorno Autista não obter resultados positivos em estabelecer
e Autismo para referir-se ao Transtorno do Es- novas habilidades ou eliminar comportamentos
pectro Autista. Suplino (2009) coloca que o Au- problema. Como objetivo na intervenção com
tismo continua sendo um desafio para estudio- Autistas a Análise Aplicada do Comportamento5
sos, sendo que não existe um consenso sobre procura baseado em princípios e métodos com-
quais as suas causas. São elaboradas várias portamentais desenvolver habilidades sociais
hipóteses, mas a maioria aponta para uma pro- relevantes, como o contato visual e a intenção
vável causa orgânica. Fernandes, Neves e Sca- comunicativa. Tendo como objetivo também re-
raficci (2010) trazem que o Autismo tem origem duzir repertórios inadequados. A intervenção
de alguma anormalidade no cérebro, porém não acontece com reforços e modeladores por meio
existem testes laboratoriais específicos para o de estratégias como: repetição, imitação, man-
seu diagnóstico. do, modelo e pareamento de estímulos.
Fernandes et al. (2010), ressaltam que Lovaas et al. (2003), sugerem alguns
existem diferentes graus de Autismo (leve, mo- critérios baseados na Análise Aplicada do Com-
derado e severo). Porém, a intervenção acon- portamento, para que o tratamento com Autistas
tece basicamente da mesma forma para cada seja feito de forma adequada:
um, diferenciando somente na intensidade ou 1. Ênfase Comportamental: Utilizar-se
duração com que é realizada. Existem também de intervenções mais técnicas como, testes de
vários sistemas de diagnóstico, entre os mais diferenciação, modelação por aproximações su-
comuns estão: o CID-10 (Classificação Interna- cessivas, alternações no controle de estímulo,
cional de Doenças), DSM-V (Manual Diagnósti- distinção de estímulo e ensino de imitação.
co e Estatístico de Transtornos Mentais), CHAT 5
“Área de intervenção e aplicação do conhecimento produzido pela
(Escala de Investigação do Autismo a partir dos Análise do Comportamento. A Análise do Comportamento é a in-
18 meses de vida do bebê). vestigação conceitual e empírica do comportamento”. (JÚNIOR;
SOUZA, 2006, p.18)

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Intervenção analítico comportamental...

2. Participação da família: Sem a partici- e intensidade; e por último, quais as consequên-


pação dos pais, os ganhos que se obtém no con- cias que esses comportamentos problemas es-
texto com o terapeuta, não levam a uma melhora tão causando.
em casa ou na comunidade. Indivíduos com o Transtorno Autista não
3. Instrução individual: Entre os primeiros levam experiências consigo por meio dos am-
6 a 12 meses é aconselhável que as interven- bientes, por isso, eles precisam ser ensinados
ções sejam individuais, porque no início eles se a generalizar os comportamentos aprendidos.
desenvolvem melhor dessa forma. Eles conseguem aprender a partir do momen-
4. Integração: Antes da integração no to em que um ambiente especial é criado com
grupo, o indivíduo Autista deve ter aprendido essa finalidade, porém, deve variar do ambiente
comportamentos socialmente adequados. O normal somente o necessário para ser funcional.
grupo deve ser formado por pessoas com de- Conseguindo dessa forma, fornecer exigências
senvolvimento típico, já que eles se desempe- e consequências comportamentais, tal como o
nham melhor do que junto a outros indivíduos ambiente típico faz. Sendo extremamente impor-
com o transtorno. Dentro do grupo eles necessi- tante estar procurando por novos reforços para
tarão de instruções explícitas de como interagir conseguir mantê-los motivados a aprender. O
com os colegas. reforço deve estar longe, de tal forma que não
5. Abrangência: Inicialmente eles preci- fique a sessão inteira tentando alcançar. Reco-
sam ser ensinados sobre absolutamente tudo, já menda-se fazer um teste de domínio de respos-
que possuem poucos comportamentos conside- ta, que consiste em remover de repente o estí-
rados adequados. Ocorre dessa forma porque o mulo e ver se há resposta correta da solicitação.
ensino de um comportamento raramente leva ao Caso não haja resposta, deve estabelecer então
surgimento de outros, sem serem diretamente uma quantidade mínima de estímulo para provo-
ensinados. car a resposta correta e ir diminuindo de forma
6. Intensidade: Para que a intervenção gradativa (LOVAAS et al., 2003).
seja bem sucedida, deve consistir em aproxima- Ainda sobre reforço, Pêssoa e Velasco
damente quarenta horas por semana. (2012) sinalizam que nesse processo há um
7. Diferenças individuais: A minoria da- aumento na frequência de um dado comporta-
queles que são classificados como aprendizes mento, devido à apresentação de um reforçador.
auditivos ganham e mantém o funcionamento Em decorrência das consequências produzidas,
normal. Já os que são identificados como apren- as classes de respostas são fortalecidas. O es-
dizes visuais, não alcançam o funcionamento tímulo reforçador são essas consequências que
normal com o tratamento comportamental, pre- acabam por tornar as respostas de uma classe
cisando de atendimento individual para o resto mais prováveis. Existem os reforçadores incon-
da vida. dicionados, que aumentam a frequência ou du-
8. Duração: Geralmente o tratamento ração de respostas que o antecedem, simples-
percorre por toda a vida, com exceção de crian- mente por uma condição inata do ser humano
ças que mais ou menos aos sete anos de idade a eles. Como também os reforçadores condicio-
participam de intervenções comportamentais in- nados, que são aqueles dependentes da história
tensas e assim atingem o funcionamento normal. de vida para adquirir função reforçadora. O que
Ribeiro (2010) argumenta sobre a impor- funciona como reforçador condicionado para um
tância de desenvolver uma avaliação antes da ser humano, pode não funcionar para respostas
intervenção propriamente dita, sendo realizada de outro, pois cada um tem uma história particu-
do seguinte modo: entendendo como o indivíduo lar de vida.
Autista se comunica, por exemplo, se ele utiliza Lear (2004, p.32) descreve os conceitos
linguagem funcional, contato visual ou atendi- de Reforço positivo e Reforço negativo:
mento de ordens; como acontece a relação dele
com o ambiente, em relação aos seus brinque- Um Reforçador Positivo (SR+) é a adição de
dos favoritos, reação com as outras pessoas, se alguma coisa que resulta no fortalecimento
apresenta birras ou não; entender qual a função do comportamento. Um Reforçador Negativo
dos comportamentos desse indivíduo; analisar (SR–) é a remoção de alguma coisa desa-
gradável que resulta no fortalecimento de
quais as circunstâncias que os problemas ocor-
um comportamento. Ele é também chamado
rem ou deixam de ocorrer, com maior frequência de “aversivo”. Tanto reforçadores positivos

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GARGANTINI et al.

quanto os negativos tenderão a fortalecer ou de diferenciação; Identificação receptiva de ob-


aumentar o comportamento. jetos; Identificação receptiva de comportamen-
tos; Habilidade de entretenimentos iniciais; Artes
O Ensino por Tentativas Discretas (DTT) e trabalhos manuais; Habilidades de autoajuda;
é descrito por Lear (2004) como um método de Imitação verbal; Identificação expressiva de ob-
ensino utilizado pela Análise Aplicada do Com- jetos e comportamentos; Ensinando cores, for-
portamento para o tratamento do Autismo. Nes- mas e tamanhos; Gramática inicial, eu quero, eu
sa metodologia, as sequências complicadas de vejo, eu tenho; Preposições; Emoções; Leitura
aprendizados são divididas em passos muito pe- e escrita, uma breve introdução; Estratégias de
quenos, que são ensinados um de cada vez, em comunicação para aprendizes visuais. Consi-
uma série de tentativas, junto ao reforço positivo derando a complexidade destas intervenções
e alguma ajuda necessária. O autor traz também optou-se por apresentar neste trabalho alguns
a técnica de aprendizagem sem erros. Nesta é programas que são pré-requisitos para desen-
garantido que aconteça a resposta correta por volvimento de outras habilidades futuras, sendo
parte da criança. Utilizando-se de sistemas de estes: Imitação verbal; Introdução à linguagem;
dicas que vão da ajuda máxima até a mínima. Imitação não verbal; Identificação receptiva de
Iniciando pela maior dica, posteriormente pas- Comportamentos; Comportamento autoestimu-
sando para dicas menores, até retirá-las com- lante; Habilidade de entretenimentos iniciais;
pletamente. É necessário aumentar ou diminuir Habilidades de autoajuda; Imitação verbal; Gra-
o nível de dicas, de tentativa para tentativa, con- mática inicial, eu quero, eu vejo, eu tenho; Emo-
forme for necessário, para sempre produzir res- ções; Explosões de raiva e automutilação.
postas corretas na criança. As habilidades ensinadas no programa
Existem as dicas de respostas, que po- de Imitação Verbal, como sons, palavras, frases
dem ser verbal, gestual, física e de modelação. e sentenças, são importantes tanto para aque-
Como também as dicas de estímulos, que po- les que ainda não falam quanto para os que são
dem ser intraestímulo e extraestímulo. Dica ecolálicos. É necessário saber que a pressa tor-
Verbal: pode ser parcial ou total. A dica verbal na maior o risco da linguagem se tornar aversiva
parcial consiste em dar uma parte da resposta para o indivíduo, sendo esse um programa difícil
após a emissão da pergunta. A dica verbal total para dominar. O autor cita sete fases dentro do
é o dar a resposta inteira antes de verbalizar a programa de imitação verbal. A primeira seria in-
pergunta. Dica Gestual: indicar a resposta cor- fluenciar e mais tarde moldar as vocalizações do
reta, seja com um olhar ou com um gesto. Dica indivíduo. Na segunda, há emissão de um som
Física: colocar a mão sobre a mão da criança e e se ele vocalizar, logo após recebe o reforço.
levá-la até a resposta correta. Dica de Modela- Na terceira fase, os reforços são liberados so-
ção: mostrar a criança como fazer algo, pedindo mente se as vocalizações combinarem com as
para que ela o observe. Dica intraestímulo: mu- quais foram emitidas. Dentro da fase quatro, co-
dar algo no estímulo para que ele se destaque meça o ensinamento da imitação de combina-
e tenha chances de ser escolhido. Dica extraes- ções de sons. A fase cinco ensina palavras mais
tímulo: adicionar algo ao estímulo para que ele complexas e a seis ensina a sequência dessas
possa ajudar na resposta correta (LEAR, 2004). palavras. E a fase sete ensina a imitação de in-
Loovas et al. (2003), sugerem em seu tensidade, entonação e velocidade (LOOVAS et
manual “Ensinando indivíduos com atrasos no al., 2003).
desenvolvimento” algumas intervenções emba- Loovas et al. (2003), compreendem que
sadas na Análise do Comportamento que podem nos programas de Introdução à Linguagem
ser realizadas na intervenção com o indivíduo percebe-se que os indivíduos com Autismo pos-
Autista, tais como: Explosões de raiva e automu- suem pouca e em alguns casos nenhuma lin-
tilação; Comportamento autoestimulante; Pro- guagem expressiva e receptiva, com algumas
blemas motivacionais; Problemas de atenção; exceções em que a linguagem é relativamente
Estabelecimento da cooperação e redução das bem desenvolvida. Ensinar a linguagem para
explosões de raiva; Introdução à combinação e eles necessita de muito tempo, várias horas por
imitação; Combinando e ordenando; Imitação dia, durante anos. É importante começar pela
não verbal; Introdução a programas de lingua- linguagem receptiva simples (Venha cá, Sente-
gem; Linguagem receptiva inicial; Aprendizagem -se), progredindo para a mais complexa, con-

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sistindo em solicitar que o indivíduo responda a e lamber superfícies, entre outros. Um método
novas instruções. para redução desses comportamentos, de acor-
O programa de Imitação não Verbal ensi- do com Loovas et al. (2003), é aumentar a força
na a imitação generalizada, que acontece quan- de comportamentos socialmente adequados. O
do o indivíduo aprende a imitar novos compor- comportamento autoestimulante acaba bloque-
tamentos sem necessariamente ser ensinado ando reforços sociais, pois as recompensas do
a fazê-lo. Através de estímulo e reforço, ele é autoestímulo (reforço primário ou biológico) po-
ensinado a imitar comportamentos mais simples dem ser mais fortes que as recompensas sociais
de um adulto, como, por exemplo, acenar com a (reforço secundário ou adquirido). Para tentar
mão. De forma sistemática ele é ensinado a imi- reduzir esses reforços conflitantes, podem ser
tar comportamentos mais complexos. Median- removidos os objetos que são utilizados para a
te essa imitação não verbal, o indivíduo presta autoestimulação ou então se essa estimulação
mais atenção nas pessoas e aprende observan- for pelo próprio corpo, pode impedi-lo fisica-
do o comportamento do outro (LOOVAS et al., mente de fazer. Se responder corretamente, ele
2003). deve ser recompensado, deixando que se esti-
Dentro do programa de Identificação mule por no máximo dez segundos. Levando em
Receptiva de Comportamentos, são inclusas conta que o comportamento autoestimulante é
a imitação não verbal e a linguagem receptiva. considerado uma adaptação, se não houver um
Loovas et al. (2003), sugerem que esse conjunto comportamento mais adequado para oferecer
judará no sentido de discriminação de estímu- como substituto é melhor deixá-lo, resguardan-
los realizado pelo indivíduo. Esse programa tem do assim seu sistema nervoso de uma deterio-
como objetivo ensinar a identificar ações do dia ração.
a dia. Começando pela introdução de estímulos Lear (2004) reporta-se à importância de
bidimensionais, como, por exemplo, imagens colocar os comportamentos autoestimulatórios a
de comportamentos, pois, essas podem ilustrar controle de alguém, de forma que se tornem um
comportamentos que são difíceis de fazer na re- reforço e assim possam controlar a quantidade
alidade, tais como dormir e andar de bicicleta. O e o momento em que eles vão acontecer. Para
primeiro comportamento a escolher para ensinar posteriormente começar a substituí-los por um
deve ser algum que ele ache divertido ou que reforço mais adequado. Se o comportamento
acontece de forma frequente na vida dele, usan- autoestimulatório for de bater palmas, por exem-
do sempre imagens de pessoas conhecidas. É plo, é preciso redirecionar para um substituto
importante analisar, pois alguns dominam me- mais apropriado. Se for o barulho que mantém
lhor a identificação receptiva de comportamen- este comportamento, o indivíduo é interrompido
tos ao vivo, que são aqueles comportamentos e direcionado para bater em um tambor ou pra-
demonstrados por pessoas reais. Se este for o ticar atividades de músicas. Já se a autoestimu-
caso, é interessante pedir ajuda da equipe para lação for sensorial, o comportamento por ser di-
participar da intervenção. É bem complicado fa- recionado a atividades com massa e argila. Nos
zer com que o indivíduo Autista generalize os comportamentos autoestimulatórios verbais, é
comportamentos e identifique variações deste. importante atrapalhar sua emissão, com pergun-
Então caso não houver a generalização desses tas ou ecoicos para interrupção.
comportamentos, ensinar novos exemplares no Para Loovas et al. (2003), uma das ca-
mesmo procedimento faz parte do programa. racterísticas do Autismo é o atraso em entrete-
Ensinar a identificar os próprios movimentos, nimentos com brinquedos. O brincar é estereoti-
assim como os movimentos dos outros, é um pado, parecendo impróprio. Como, por exemplo,
avanço dentro da linguagem receptiva. a brincadeira com carrinhos, em que eles viram
Os indivíduos Autistas possuem diversos o carrinho para baixo e mexem com suas ro-
comportamentos repetitivos e estereotipados, das, ou então a brincadeira com bonecas, em
que podem ser denominados de autoestimulan- que chupam os pés de uma boneca, em vez de
tes, pois fornecem estímulos a vias aferentes. carregá-la. Para melhorar nesse aspecto, é re-
Podendo ser de origem olfativa, visual, sinesté- comendável iniciar o ensino com quebra-cabeça
sica ou tátil. Alguns exemplos desses compor- ou então com jogos de pré-escola que podem
tamentos são o sacudir das mãos, girar e ali- ser mais reforçadores. No caso do quebra cabe-
nhar objetos, ecolalia, bater os braços, cheirar ça é utilizado um procedimento chamado Enca-

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GARGANTINI et al.

deamento Regressivo, que consiste em montar tos (escova, pasta de dente, toalha, copo com
todas as peças do quebra cabeça e entregar a água). No final do programa, é necessário saber
faltante para o indivíduo, para que ele termine escovar os dentes após ouvir “Escove os den-
de montar. Sempre reforçar a resposta correta tes”. Esses comportamentos complexos preci-
ajuda durante o processo, que é feito de forma sam da uma maior estimulação manual (LOO-
gradativa, aumentando o número das peças e o VAS et al., 2003).
nível do quebra cabeça. Conforme o progresso, O domínio emocional dos indivíduos Au-
é aconselhável intercalar tipos de entretenimen- tistas foi visto como danificado, porém a maio-
to. ria que recebe intervenção comportamental
O brincar com carros é trabalhado de intensiva já na infância acaba desenvolvendo
forma a expandi-lo, criando itens adicionais, tais vida emocional mais rica e variada. Loovas et
como pessoas, garagem e pistas. Se o indiví- al. (2003) dizem que não há uma necessidade
duo imitar a ação de quem está empurrando o de programa de ensino para emoções, uma vez
carrinho, reforce-o imediatamente. Se caso ele que elas se resolvem por si mesmas. Com os
não fizer, é necessário fornecer os estímulos resultados dos programas detalhados acima, os
para posteriormente ir retirando. É aconselhável comportamentos emocionais aparecem de forma
escolher carros e pessoas com poucos detalhes espontânea, como consequências da aquisição
para que não haja muita distração. O brincar de repertórios comportamentais mais variados.
com bonecas é inicialmente ensinado pela imita- A partir dessas intervenções, o autor coloca que
ção e conforme acontecerem ganhos de habili- o desenvolvimento emocional dos indivíduos Au-
dades é ensinado a responder a uma solicitação tistas foi ficando cada vez mais parecido com o
receptiva (balance o bebê). Segue basicamente de indivíduos com desenvolvimento típico.
os mesmos critérios do brincar com carrinhos.
Aprender a linguagem junto a ações ajudará a MÉTODO
transmitir habilidades simbólicas para a realida-
de (LOOVAS et al., 2003). População: Participaram deste estudo
É comum que eles precisem de ajuda de três Psicólogos formados que utilizam da abor-
adultos para realizar tarefas básicas, porém é dagem analítico comportamental e que atuam
possível que aprendam habilidades de autoaju- com indivíduos que possuem o diagnóstico de
da bastante completas. No desenvolvimento das Transtorno Autista.
habilidades de autoajuda, utilizar-se de procedi- Local: A coleta de dados ocorreu por
mentos de modelagem e encadeamento de ge- meio de contato eletrônico via e-mail.
neralização, buscando reforçar as aproximações Instrumento: Foi utilizado um questioná-
da resposta alvo é o mais indicado. As habilida- rio contendo cinco questões.
des são estimuladas fisicamente, ou seja, guian-
do o indivíduo pelos movimentos desejados. Ou Questionário é um instrumento de investiga-
então pela demonstração dos comportamentos. ção que visa recolher informações basean-
Se há a capacidade de imitação utiliza-se de do-se, geralmente, na inquisição de um gru-
estímulos de demonstração. Para comer com po representativo da população em estudo.
Para tal, coloca-se uma série de questões
colher, é utilizada novamente a técnica de En-
que abrangem um tema de interesse para os
cadeamento Regressivo de todos os passos fei- investigadores, não havendo interação direta
tos durante a refeição. É sempre utilizada uma entre estes e os inquirido. (AMARO; POVOA;
instrução geral “Coma”. Aconselha-se escolher MACEDO, 2004/2005, p. 3).
a colher de acordo com o tamanho do indivíduo
e as comidas reforçadoras. Para escovar os ca- Procedimento: Para a escolha dos par-
belos, é utilizada uma combinação entre imita- ticipantes da pesquisa foi entrado em contato
ção, modelagem e encadeamento, sempre que com alguns psicólogos da Análise do Compor-
o indivíduo esteja de frente para o espelho, pois tamento que trabalham com indivíduos Autistas.
isso ajuda na aquisição do comportamento alvo. Em seguida, apresentou-se o objetivo da pes-
Escovar os dentes é um pouco mais complexo quisa. Havendo disponibilidade para respon-
até mesmo para indivíduos com desenvolvimen- derem ao questionário, foi ofertado o termo de
to típico. O Encadeamento Progressivo é usado consentimento livre e esclarecido. Enviou-se o
para ensinar e combinar cada um dos elemen- questionário e o tempo para preenchimento foi

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Intervenção analítico comportamental...

de uma semana. Aos que excederam o prazo, controle de comportamentos inadequados,


realizou-se mais um contato para verificar se que estão prejudicando o desenvolvimento
ainda haveria disponibilidade de resposta ao da criança.
questionário.
Análise dos dados: Análise qualitati- Observa-se com base nesse relato a co-
va com análise de conteúdo. Segundo Bardin erência de como o Transtorno Autista é visto na
(2002, p. 9): “Análise de conteúdo é um conjunto prática e descrito na literatura, relacionando a
de instrumentos metodológicos cada vez mais déficits e excessos comportamentais.
sutis em constante aperfeiçoamento que se apli- Além desse aspecto, é interessante no-
cam a discursos extremamente diversificados.” tar como o processo de avaliação ocorre, pois
Para Bardin (2002), na análise qualitativa, é o segundo P3 há necessidades de identificar
conjunto de características das mensagens que questões comportamentais para programar a
é levado em consideração, assim como a pre- intervenção. Sabe-se que a Análise Aplicada do
sença ou ausência de uma dada característica Comportamento, por meio da Análise Funcional
de conteúdo. do comportamento6, tem como finalidade iden-
tificar o que acontece no ambiente do indivíduo
RESULTADOS E DISCUSSÃO que pode acabar controlando e influenciando
seu comportamento. Por isso, são ensinadas
Com o objetivo de verificar como ocor- algumas habilidades que estão ausentes ou pre-
rem as intervenções da teoria analítico compor- judicadas no repertório, mas que são necessá-
tamental com casos de Autismo, enviou-se um rias. Dessa forma, em oposição ao uso somen-
questionário para três psicólogos que declara- te de medicação ou exclusão social, busca-se
ram trabalhar com o Autismo e com a compre- um desenvolvimento de métodos para o ensino
ensão analítico comportamental. Destes, 66,6% de habilidades e possibilidades. São importan-
possuem mestrado e 33,3% a pós-graduação. tes estudos sobre as variáveis que atuam nos
Para melhor compreensão, esses profissionais comportamentos, bem como um conhecimento
foram identificados com a letra P e um numeral, sobre as habilidades que se é possível de de-
preservando assim sua identificação pessoal. senvolver ou não. Isso tudo, para uma melhor
Em relação à maneira como o Transtorno avaliação dos efeitos das variáveis manipula-
Autista é visto pela abordagem Analítico Com- das durante o treino. A avaliação de repertório
portamental, percebe-se que todos descrevem é de extrema importância no sentido de que há
a mesma compreensão de causalidade deste uma definição das demandas imediatas, como
transtorno. Por exemplo, P3 aponta: também a identificação dos comportamentos
presentes no repertório que podem servir como
O analista do comportamento não descreve o pré-requisitos para instalação de novos compor-
Autismo da mesma forma que faz o diagnós- tamentos. Contudo, pode haver um melhor pla-
tico médico, ou seja, comparando o desen- nejamento de ensino necessário para cada caso
volvimento da criança com o desenvolvimen- (GOULART; ASSIS, 2002).
to de outras crianças que tenham a mesma Percebe-se, desta forma, que esses pro-
idade. O analista do comportamento compa- fissionais além de utilizarem a metodologia su-
ra o indivíduo apenas com ele mesmo. Des-
gerida pela Análise do Comportamento, sabem
ta forma, olhamos para o Autista buscando
justificar de acordo com a teoria, o que sugere
habilidades que ele já possui, que o ajudam
a interagir socialmente e se adaptar ao meio uma boa formação nessa área por esses profis-
ao redor; habilidades que estão ausentes e sionais.
fazendo falta em seu funcionamento geral; e Considerando se há ou não embasamen-
habilidades que estão em excesso, ou seja, to de técnicas e teorias na abordagem Analítico
interferindo negativamente no desempenho Comportamental para o atendimento com Autis-
da criança em seu meio (agressões, auto tas, todos concordam que esta é a abordagem
lesões, estereotipias, etc.). Com base nesta que mais produz conhecimento para o atendi-
avaliação individualizada de cada criança,
planejamos uma intervenção também indi- 6
Identifica relações de tríplice contingência, que são responsáveis
vidualizada, voltada para o ensino de habi- pela aquisição e manutenção dos comportamentos. A análise fun-
lidades novas que vão ajudar a criança a se cional se volta para as funções das respostas, assim como, para
as consequências que modificam a probabilidade do comporta-
adaptar melhor ao seu meio; bem como ao mento vir a ocorrer novamente. (NENO, 2003)

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GARGANTINI et al.

mento. P1 afirma: “Dentre as abordagens dispo- mais rica, uma vez que se tem aparato teórico
níveis na Psicologia, a Analítico Comportamen- para posteriormente poder usá-lo ou adequá-lo
tal é a mais funcional para o trabalho com este a cada atendimento.
público, a que mais possui estratégias e estudos Referindo-se às intervenções mais utili-
publicados sobre o assunto com comprovação zadas e aos resultados obtidos, todos acreditam
científica de resultados.” P3 completa dizendo que, por sua cientificidade, a abordagem Ana-
como isso ocorre: lítico Comportamental é a que mais produz re-
sultados positivos. P1 relata as intervenções que
Tudo é feito de forma científica, ou seja, a mais utiliza:
frequência dos comportamentos e das va-
riáveis antecedentes e consequentes são Usamos o PAD (Programa de Aprendizagem
registradas antes, durante e após a aplica- e Desenvolvimento), que é baseado no ABA,
ção do procedimento de intervenção. Só as- o PAD se baseia em reforço positivo, onde
sim podemos ter certeza de que a mudança são selecionados comportamentos especí-
comportamental deveu-se ao procedimento ficos que são estimulados diariamente, até
aplicado. Com base nestes dados registra- que a resposta esperada possa ser genera-
dos podemos avaliar se o procedimento está lizada para outros contextos. (Ex: dar tchau,
sendo eficaz em mudar o comportamento ou reconhecimento de cores, nomeação de ob-
não e, com base nesta avaliação, podemos jetos, brincar, etc). A velocidade dos resulta-
tomar decisões a respeito da continuidade ou dos varia entre as crianças, já que cada uma
mudança no procedimento. reage de um jeito diferente frente a estimu-
lação. Ainda usamos o TEACCH, as Social
Souza e Juliani (Ano???) consideram Historys, o PECS e outras intervenções que
que para uma intervenção baseada na Análise se baseiam na teoria Analítico Comporta-
Aplicada do Comportamento é importante um mental.” P3 cita o uso da Análise Funcional
trabalho intenso e multidisciplinar que envolva como exemplo de intervenção: “Para con-
fisioterapeutas, acompanhantes terapêuticos, trole de comportamentos inadequados seria
aplicar estratégias de controle de variáveis
médicos, profissionais de educação física entre
ambientais para reduzir a frequência de auto
outros. Windholz (2005) sinaliza que é de gran- lesões (machucar a si mesmo). Inicialmente,
de importância programar e analisar as tarefas fazemos uma Análise Funcional deste com-
que vão ser implementadas para o indivíduo Au- portamento, ou seja, observamos sua ocor-
tista. É necessário que se estabeleçam alguns rência no dia a dia da criança e registramos
objetivos, como: definição dos comportamentos variáveis antecedentes (que evocam o com-
alvos; análise das condições ambientais, físicas portamento) e variáveis consequentes (que
e sociais que são importantes para que se tenha estão mantendo o comportamento). Se, por
êxito na intervenção; iniciar com uma sequên- exemplo, nesta Análise Funcional, identifica-
cia progressiva de comportamentos, começan- mos que a função do comportamento é “cha-
mar a atenção do adulto”, então aplicamos
do pelos mais fáceis até os mais complexos; ter
estratégias de prevenção e redirecionamento
definido os procedimentos a serem utilizados; deste comportamento. Para prevenir o com-
planejar os reforços para que sejam eficazes de portamento temos que manipular as variá-
acordo com a individualidade; registrar e quan- veis antecedentes, ou seja, diminuir a priva-
tificar as respostas durante a execução das ta- ção de atenção, orientando que os familiares
refas; fazer manutenção dos comportamentos deem mais atenção contingente a compor-
aprendidos; averiguar se está havendo gene- tamentos adequados, isto é, falar e interagir
ralização destes comportamentos, reavaliando com a criança quando ela estiver se compor-
constantemente o percurso. tando bem. Isso vai diminuir as chances do
Assim, pode-se analisar nos relatos dos comportamento inadequado ocorrer, afinal
a criança já estará recebendo a quantidade
profissionais que eles possuem bastante emba-
de atenção que precisa. Quando o compor-
samento teórico para o atendimento com Autis- tamento já aconteceu, temos que manipu-
tas. E pela cientificidade da abordagem analítico lar variáveis consequentes, para evitar que
comportamental, é possível saber se a interven- este seja mais uma vez reforçado e, por isso,
ção está surtindo os efeitos desejados ou se se fortaleça ainda mais. Então, orientamos
há necessidade de mudança do procedimen- que, frente a estas respostas, o adulto não
to. Consequentemente, a intervenção torna-se dê atenção à criança, apenas bloqueie res-

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Intervenção analítico comportamental...

postas que sejam perigosas e redirecione a último, é interessante entender que a automuti-
atenção da criança para atividades funcionais lação nem sempre é mantida por consequências
e comportamentos adequados. Com isso, sociais, mas também por ser autoestimulante.
os comportamentos adequados, que estão Por isso, nesse caso, o método consiste em
sendo reforçados com atenção, aumentam e
construir comportamentos alternativos adequa-
substituem os inadequados, que não estão
recebendo nenhuma consequência. Parale-
dos, que proporcionem sensações semelhan-
lamente a isso, é fundamental instalar uma tes ao comportamento de automutilação, já que
forma de comunicação funcional, afinal, não este é mantido pelo reforço sensorial-perceptivo
conseguir se comunicar é, normalmente, a (LOOVAS et al., 2003).
principal causa de comportamentos inade- No ensino de comportamento verbal7,
quados. Então, é preciso treinar a comunica- é utilizado o programa de gramática inicial: Eu
ção vocal (operantes verbais). Porém, se a quero, Eu vejo, Eu tenho, consiste em ensinar
criança estiver com a fala muito atrasada, é o indivíduo na utilização de formas básicas de
preciso instalar uma forma de comunicação gramática. É ensinado a produzir frases como
alternativa, por exemplo, por meio da troca
“Eu quero brincar”, “Eu vejo pássaro grande”,
de figuras (PECS).
“Eu tenho pizza”. No programa “Eu quero”, o ob-
jetivo é fazer com que o indivíduo verbalize suas
Os comportamentos de explosões de rai-
escolhas, solicitando comidas, objetos e ativi-
va e automutilação que são comuns de se de-
dades favoritas, sendo recomendado iniciar por
senvolverem em quem tem o Transtorno Autista,
essa parte. Tais escolhas geralmente envolvem
como gritar, morder, puxar cabelo, bater, atirar
reforços, fortalecendo as sentenças “Eu quero”,
objetos, podem ter sido aprendidos como forma
como também ajudando o indivíduo a expressar
de comunicação. Segundo Loovas et al. (2003),
seus desejos, resultando em redução de explo-
são utilizadas quatro formas de redução desses
sões de raiva. O programa “Eu vejo” tem como
comportamentos todas embasadas no procedi-
objetivo fazer com que ele descreva o ambien-
mento de Análise Funcional conforme citado pe-
te, de maneira espontânea. No programa “Eu
los participantes. Primeiramente, a Extinção, que
tenho”, o objetivo é descrever as suas posses.
consiste em ignorar, fingir que não está vendo
Cada um desses programas contribui para facili-
ou escutando os comportamentos de explosões
tar a comunicação social (LOOVAS et al., 2003).
de raiva e automutilação. Essa forma de redu-
Observa-se, com base nas falas dos pro-
ção é complicada, porque provavelmente haverá
fissionais e apontamentos da literatura especia-
um pico, em que o comportamento, para poste-
lizada nesse transtorno, que são inúmeras as
riormente diminuir de frequência. Essa técnica
formas de intervenções utilizadas na abordagem
é utilizada somente quando o comportamento
Analítico Comportamental e como decorrência
problema é mantido por atenção. Por segundo,
da cientificidade das técnicas propostas é a que
é citado o Reforço Diferencial, em que aconte-
mais produz resultados positivos. Dessa forma,
ce o reforço de comportamentos alternativos e
os profissionais podem escolher as intervenções
que são socialmente aceitáveis. Por exemplo,
que utilizarão, de acordo com a demanda de
se as explosões de raiva e automutilação são
cada indivíduo. Nas intervenções citadas por es-
mantidas visando um controle sobre o ambiente,
ses profissionais percebe-se bastante conheci-
ensinar comportamentos alternativos reduzirá o
mento em relação ao que fazem, o que contribui
comportamento problema ou então proporciona-
para que a intervenção seja bem sucedida.
rá meios de substituí-lo.
Quando perguntados sobre o preparo
Existe ainda, para o controle do compor-
para o atendimento, aconteceram divergências
tamento de agressividade, a técnica de Interva-
nos relatos. Em relação a maior facilidade em
lo, considerada uma terceira forma de redução.
lidar com esse transtorno, P1 escreve: “Nesse
Que significa sair de perto ou colocar em iso-
público, padrões comportamentais se repetem
lamento. Mas, só deve ser usado no caso em
em variadas situações e com variadas crianças,
que os comportamentos são mantidos perante
reforço positivo. Já se os comportamentos são 7
Comportamento Verbal é controlado por Reforço Mediacional.
baseados na fuga de uma situação, ou seja, re- Dessa forma há uma dependência de um treino específico entre
forçados negativamente, o intervalo tende a au- falante e ouvinte na comunidade verbal para que ele ocorra. Sen-
do um comportamento operante ele é emitido em um determinado
mentar os comportamentos indesejados. E por contexto, modelado e mantido pelas suas consequências. (JÚ-
NIOR; SOUZA, 2006)

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GARGANTINI et al.

sendo que a abordagem a estes padrões pode e a sua evolução, todos sinalizam que é impor-
ser generalizada e estratégias repetidas.” Já tante a identificação precoce para melhores re-
para P2, a sua maior facilidade: “É o amor que sultados. Por exemplo, P3 coloca: “Sim, quanto
tenho por minha profissão e também a possibili- mais precoce for o diagnóstico e, consequente-
dade de estar sempre aprendendo mais através mente, quanto mais precoce for o início da in-
de cursos e supervisões.” Quando questiona- tervenção, melhor a resposta do indivíduo ao
dos sobre a maior dificuldade em lidar com esse tratamento e melhor o prognóstico. No caso de
transtorno, P1 e P3 concordam que é em relação diagnóstico e início de tratamento tardio (na ado-
á escola e a adesão do tratamento por parte da lescência ou idade adulta), a intervenção deve
família. Conforme P3 descreve: “Um dos maiores se focar em habilidades e déficits mais urgen-
desafios na intervenção com Autismo refere-se tes, ou seja, não dá para fazer uma intervenção
à Inclusão Escolar, afinal, ainda é muito difícil ampla que aborde todas as áreas de desenvol-
conseguir a parceria das escolas para que esse vimento do indivíduo. Então, o analista do com-
processo seja aplicado com sucesso. Temos di- portamento deve atuar de forma mais pontual,
ficuldades em conseguir, por exemplo, que as resolvendo questões que estão interferindo mui-
escolas aceitem a inserção de um AT (Acompa- to na qualidade de vida do indivíduo e da famí-
nhante Terapêutico), profissional que é funda- lia, como, por exemplo: autonomia nas ativida-
mental no processo de Inclusão Escolar. Tam- des de vida diária; controle de comportamentos
bém é difícil conseguir autorização da escola inadequados; comunicação funcional; etc. Com
para fazer todas as adaptações ambientais e no crianças pequenas, a intervenção é mais ampla,
material didático que a criança Autista precisa. aborda todas as áreas de desenvolvimento ao
Outro grande desafio é conseguir participação e mesmo tempo.”
aderência total ao tratamento por parte da famí- De acordo com o Ministério da Saúde
lia que, muitas vezes, prefere apenas delegar as (2013), o diagnóstico é muito importante, pois fa-
tarefas à equipe. Esta participação é peça chave cilita a comunicação entre os profissionais e per-
da intervenção e do sucesso do tratamento. O meia a organização de serviços e tratamentos.
tratamento se torna muito mais fácil e bem suce- Contudo, as classificações somente têm sentido
dido quando se tem total parceria e participação se forem utilizadas em um processo de diagnós-
da família e da escola.” No entanto, P2 caracte- tico contínuo e complexo, colocando sempre o
riza sua dificuldade relacionando-a ao preparo indivíduo em primeiro lugar e não o seu trans-
de materiais para o atendimento assim como, ao torno.
aspecto emocional do terapeuta. A importância do diagnóstico precoce foi
Para Leal e Rodrigues (2010), o esta- bem enfatizada nos relatos, porque quanto mais
belecimento de um ambiente terapêutico que cedo houver um diagnóstico, o psicólogo con-
responda às necessidades do indivíduo garante segue realizar a intervenção voltada ao melhor
em parte a efetividade de uma intervenção com- desenvolvimento do indivíduo em todas as áre-
portamental. Esse ambiente deve proporcionar as. No entanto, isso não quer dizer que iniciar
serviços terapêuticos, materiais e atividades de a intervenção com adolescentes ou adultos não
lazer, pais, professores, toda uma equipe que surtirão bons resultados, mas sim que ela se vol-
seja capaz de proporcionar interações voltadas tará a outros objetivos.
ao prazer, aprendizado e independência do in- Com a realização desta pesquisa, con-
divíduo. clui-se que a coerência teórica com a prática é
A importância da família e da escola no extremamente importante para a efetividade do
processo de tratamento é fundamental, mas ain- tratamento com Autistas. Esse conhecimento
da se encontram inúmeras dificuldades nesses teórico advindo da Análise do Comportamento
âmbitos, assim como citaram os profissionais. possibilita que os efeitos desejados sejam alcan-
Não dependendo somente do embasamento te- çados, como por exemplo, a independência do
órico que a abordagem analítico comportamen- indivíduo. Sendo este um dos maiores objetivos
tal produz, ou então da busca do conhecimento da intervenção Analítico Comportamental frente
por parte dos profissionais, mas também da con- ao Transtorno Autista. Percebeu-se também que
tribuição que essas outras partes desencadeiam pode haver uma melhora na capacitação da es-
no desenvolvimento positivo do tratamento. cola, já que existem materiais voltados a esse
Quanto ao diagnóstico precoce ou tardio fim, porém o estigma da escola frente aos Au-

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Intervenção analítico comportamental...

tistas ainda é forte. Com base nesse contexto, a LEAR, K. Ajude-nos a aprender: um
conscientização da família tem que ser realiza- programa de treinamento em ABA (análise
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INTERVENCIÓN ANALÍTICA DE
COMPORTAMIENTO DELANTE AL TRASTORNO
AUTISTA

Resumen: Este trabajo tiene como objetivo principal


investigar cuales son las Intervenciones Analítico de
Comportamientos realizadas en relación al Trastor-
no Autista, por vía bibliográfica y por medio de en-
cuestas con profesionales de este enfoque. El mé-
todo de recolección de datos ocurrió por medio de
cuestionarios enviados por e-mail, totalizando tres
psicólogos, que participaron de la investigación. Las
intervenciones utilizadas, segundo los profesionales
cuestionados, son “O PAD, Programa de Aprendizaje
y Desenvolvimiento, el TEACCH, la Social Historys,
el PECS y otras intervenciones basadas en el Análi-
sis del Comportamiento”. Se puede percibir, por me-
dio de los resultados, que la Intervención Analítica
del Comportamiento, por medio de sus implicaciones
técnicas, obtiene buenos resultados en el tratamiento
de individuos autistas y así, es el enfoque que más
produce base para ese tipo de atendimiento.
Palabras clave: Trastorno Autista; Intervenciones
Conductuales; Análisis de comportamiento.

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