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Waldomiro Vergueiro. Manuel Barrero Mara Burkart Paulo Ramos Géisa Feandes D‘Oliveira, Theophilo Augusto Pinto Talvani Lange Chantal Herskovic Octavio Carvalho Aragao N 0103-9989 R$ 20,00 wil | | il isl77or0slgeeoog! MM deZembra/janeirorfevereiro 2010-2017 humor na‘midia ‘MARA BURKART é professora de MARA BURKART Tradugao de Maria Paula Gurgel Ribeiro De Caras y Caretas a HUM@: a imprensa de humor grafico na Argentina do século XX RESUMO O artigo oferece uma incursao pelas principais publicacoes de humor gréfico argentinas no século XX, demonstrando uma prolifica histéria e Re eMC Meee gn) € Tia Vicenta, entre outras, presta-se atencao ao surgimento destas e a seu futuro levando-se em conta os contextos sociopoliticos, particularmente a alternancia entre regimes democraticos ¢ autoritarios. Ce a ene ec ee ABSTRACT Thisarticle offers a foray nto the leading Argentine graphic humor publications of the 20th century; and reveals a prolific history and humor tradition. From Caras y Caretas to HUM®, Rico Tipo and Tia Vicenta, among others, a close ere Re ee ea en Te ee eee nn eA a a Cee ee ce em Keywords: press, graphic humor, Argentina. 1m 1898 surgiu arevista Carasy Caretas,produzindo ‘um ponto de inflexo entre um século ¢ outro com. relagtio a0 tipo de jornalismo grifico que se fazia até entio. Caras y Caretas foi a primeira revista modema, dirigidaaum piblicomassivo.Um século depois, em 1999, deixavade sereditadaa revista HUM® (Fumor Registrado), depois de 21 anos no mercado. Com ela se ps fim 4 um tipo de publicagtio de humor grafico que teve suas rafzes naquela Caras y Careras. Entre ambas as experiéncias editoriais, hd muitas outras, e € 0 objetivo deste artigo analisar a histéria da imprensa argentina de humor grafico no século XX, Serio estudadasas revistas! mais representativas de cada 6poea,aquelas {que inovaram e conquistaram com sucesso o piblico leitor,e sua relagio com seu contexto politico, social ¢ cultural. © errético caminho da politica argentina entre ademocraciae oautoritarismo «© seu impacto no campo cultural e social encontra-se represen- tado nas caricaturas, nos cartoons, nas tiras cOmicas e nas notas humoristicas de cada época, nilo s6 marcando o futuro de cada uma das publicagdes ¢ de seus realizadores como também con- tribuindo para modificar aquela realidade que pareciam refletir. AIMPRENSA MODERNA E AIRRUPCAO DAS MASSAS: CARAS Y CARETAS No inicio do século XX, a sociedade argentina assistiu a. um processo de complexificagiio social com a irrupgiio das classes médias e da classe opersria urbana. Ocampo jomnalistico também se viu imerso em um processo de modernizacio — associado 408 avangos mec@nicos introduzidos na impressiio por sistemas tipogrificos — e de aquisig&o de seu atributo de autonomia rela- I Serd deixado de ado © hurergricoputeadoem jomaiseemrevstasrdoes: pesiarentshumorsios. 2 Emtermet do conto de cama de Pere Bourdieu (2003, 3 Em 1903, Pelicer sty de Gas y Crease fndou a ican ceharvor sca 8 Bsa tina rt com 2 Foy Moc, encortraa se na mesna Inka grea humorisce de Cais y Carin 30 tiva? (Saitta, 2000). Periddicos, jomalistas ¢ intelectuais se afastaram das priticas militantes e das tendéncias partidérias, livrando-se de caudilhos ou partidos que 8 sustentavam ou apadrinhavam, para se transformar em politicamente independen- tes e passar a depender do mercado no que se referre & parte econémica. Os periddicos seconsolidaram como lugares privilegiados onde se revelava a vida politica do pafs, jé do circunscritaasestreitasesferas do poder. Além disso, os publicos se massificaram. Em 1898, irrompeu a primeira revista de massas, Caras y Caretas, criada por Eustaquio Pellicer’, na qual participaram caricaturistas politicos j4consagradoscomo José Marfa Cao, Manuel Mayol e José Sixto Alvarez, mais conhecido como Fray Mo- cho, entre outros desenhistas de alto nivel. Caras y Caretas foi a primeira revista de interesse geral, moderna, © produziu ino- vases em termos grificos, humoristicos ¢ tematicos com a particularidade de manter um notavel equilfbrio entre textoe imagem, caricaturase fotografias,notas humoristicas ecolaboragdes litersrias, deatualidade edo- cumentais,e publicidade e entretenimento, Acquilibrada heterogeneidade da revistase complementava com suadiversidade temé- tica: arte, literatura, politica, vida social ¢ costumes, moda, informacio ¢ atualidade. Eduardo Romano (2004, p. 18) reconhece em Caras y Caretas a inauguragao de Publicagdes jornalisticas como “hipertex- tos polifénicos”. Por sua vez, 0 formato também era novidade, mais manusedvel do que os peri6dicos satiricos El Mosquito © Don Quijote, do século XIX: umas vinte Paginas de 26,5 x 18 centimetros, com capa e contracapa em um papel de melhor qualidade e em cores. Além disso, oferecia uma proposta de leitura égil e divertida ao percorrer as notas curtas com contetidos menos dos principais acontecimentos na- cionais e internacionais e a0 abandonar 0 discurso critico com aspirag6es intelectuais, Todas essas inovagGes a transformaram em modelo para outras revistas. Desde fins do século XIX, jornalismo © 0 humor grafico argentino comegaram a incursionar em temas menos conilitivos € politizados, a0 mesmo tempo em que, esteticamente, foi-se abandonando 0 estilo realistade Daumiere passou-se a outro mais esquemitico e menos carregado, tributério dos desenhistas norte-americanos. Em Caras y Caretas, desenvolveu-se a nova estética junto com um humor baseado na observagiio dos costumes de uma sociedade em rpida expansao. Essa inovagio coexis- tia com “o humor e a caricatura de corte politico, como se nessa zona os magazines no tivessem superadoa velha casca do jor- nalismo como divulgador quase exclusive da politica e dos fatos parlamentares,...” (Rivera, 1985, p.107) A sdtira politica de Caras y Caretas nao cra mantida a partir de uma militancia e de uma concepedo combativa do humor polt- tico. Esse tipo de postura havia sido aban- donado pela imprensa grifica. As criticas politicas, matizadas pela heterogeneidade icdnica e textual do resto da publicacio, niio tinham repercussGes diretas sobre esta ou seus colaboradores. Todos 0s politicos © personagens piblicos de relevancia eram satirizados, criticados, desmascarados ou clogiados nos desenhos humoristicos da revista. Essa caracteristica editorial se manteve, indistintamente, tanto durante 0 perfodo oligarquico como no democratico, inaugurado em 1916, e durante 0 golpe de Estado de 1930 e na posterior “década infame”. Em 1938, com escassas vendas, chegou ao fim sua primeira etapa. 0 COSTUMBRISMO E 0 SELO NORTE-AMERICANO: PATORUZU Em 1936, surgiu a revista Patoruzii, de Dante Quinterno, que difundiu no pats © sistema norte-americano de syndicates visando a alcancar a produgao massiva de hist6rias em quadrinhos de aventuras e de um humorcostumbristae familiar. Patoruzti era o nome do protagonista de uma tirinha independente que jé fazia cinco anos queera publicada no jornal Critica. Era um indio. terra-tenente, patriota,caridoso,moralmen- REVISTA USR Sao Paul, n 8p. 2637, dazembraffeverero 2010-2011 seelibatirio que expressava um -redondoe simples|...].fino que ocorre, sem mais puas do no tributaveis” (Sasturain, 4 Editora Dante Quinterno publicagdes vinculadas a sua em 1945 aparece Patoru- Las Andanzas de Patoruzti, Patorucito (1958) e Locuras ). A formula costumbrista, jitica fez sucesso ao longo de do século XX, resistente as publicista Jorge Piacentini* lo Cascabel, revista que fe satirizou o fim da “década 3). 0 golpe de Estado de ros anos do peronismo no ‘politica interna argentina, e Mundial no que se refere fonal. Quantoaestatitima, “icionoua favor dos aliados, 'Wénios com publicagées \duzia caricaturas das da politica internacional, lini. De Gaulle, Chur- “ficou o retorno do humor de publicago semanal dilacerado pelo vazio de © a contenda bélica no revista recuperou o tipo hos satfricos, combati- 20 estilo dos perisdicos XIX mas adaptados as cas ¢ grdficas do sécu- feve um formato que se ide, umas quarenta pa- fixase capas coloridas de uma piada que se inava nacontracapa, miaseeao"Paginada ;acomoeditorialem. spolitica, Ali,criticou-se ‘© presidente Ramén Castillo (1940-43) por querer voltar as praticas fraudulentas que seuantecessor, Roberto Ortiz’ havia tentado desterrar, Dessa postura, viu com expec- tativa o golpe de Estado de 1943, posigito compartilhada por boa parte da sociedade, Addécada de 40 foi outro ponto de infle- xio na histéria politica argentina. A demo- cratizagio de 1912 ainda exclufa os setores populares aondo ser acompanhadaporuma mudanga no modelo de acumulacao. Isso Se consumou nos anos 40 com 0 modelo de “industrializagtio por substituigao de nportagdes” e a entrada na cena politica © econémica nacional dos trabalhadores industriais urbanos. Estes encontraram em Juan Domingo Perén, queapartirdo Estado respondiaa suasnecessidades ereclamagiies hist6ricas, seu lider politico. Em 1946,com seu triunfo nas elcigSes, dava-se ini regime populista, que marcaria a fogo a historia argentina. Baseado na ideia de justiga social e io 40 harmonia de classes, © peronismo levou adiante uma distribuigio mais equitativada Fiqueza. Assim, a tensio entre liberdade igualdade dos regimespoliticos modemos se resolveu,nessaocasido,afavordasegunda. A liberdade de expressdo e de imprensa se viu prejudicada pela estratégia peronista baseada no controle, na suspensiioe fecha- mento de jornaiserevistas contesrios linha oficial. No entanto, nesses anos, os traba- Ihadores da imprensa viram regulamentada sua atividade a partir da sangao do Estatuto do Jomalista Profissional. © Estado também se fez presente com a criagao de escritérios estatais de imprensa,como a Subsecretaria de Informagées, que acabaram instituindo como Unica informacao possivel aquela vertida oficialmentee instaurandoe fomen- tando jornais e revistas adeptos ao regime. Entre elas estiveram duas publicagées de humor politico oficialista: PTB. e Pica Pica (Gené, 2008), Cascabel assumiu uma postura oposta a0 peronismo. Scus caricaturistas de- nunciavam a experiéncia peronista como nazifascista ao insistir na manipulacdo das ‘massas porparte de Perén.Damesma forma, os humoristas representaram de maneira REVISTA USR So Paulo n88,p.2637,dezembraffeverir 2010-2011 4 Poseriormente, 2 revit fark a carp de aut co laborers, Ero Vib WetheAlejnira\eritly Ramén Casto sucadeu ra presdéncia a Roberto (nts depos de sua re inca por doarca Cail reeeseranontetcreemas conservaderes da alanga cleteral que lou ambos sopra. 31 32 ambjgua as classes populares dando lugar complexos objetos culturais: alguns as exaltavam eoutros as retratavam de maneira pejorativa. Essas posturas contrapostas em uma mesma publicago circulavam em um contexto no qual, ae mesmo tempo em que as classes populares eram interpeladas politicamente, tinham sua imagem difun- dida de forma pejorativa, associando-se 0 peronismocom a brutalidade,aignorancia, © vulgar e com 0 “cheiro de graxa” Com © governo de Perén © apare- cimento de Rico Tipo, revista de humor costumbrista, Cascabel perdeu leitores colaboradores, 0 que a levou a fazer algu- ‘mas mudangas. Embora tenha baixado seu prego, aprofundado sua politizacZo e seu antiperonismo,nfioconseguiureconquistar a classe média antiperonista. Em 16 de novembro de 1944, Rico Tipo ganhou as ruas. A nova publicagio humoristica era de Guillermo Divito, um ex-colaborador de Patoruzit, que estava acompanhado por Eduardo Almira como chefe de redaco e por Oski, César Bruto, Mazzone, Fantasio, Seguf, Tofio Gallo, Janiro, Chamico, Taboada, Bavio Esquid, Billy Kerosene e, a partir de 1951, Calé, entre outros colaboradores. Rico Tipo ra- pidamente conseguiu deslocar Cascabel ¢ a familiar Paroruzii do centro do campo da imprensa de humor gréfico.Em pouco tem- po, Rico Tipo subiu aos 300 mil exemplares de vendasemanal,conquistando osjovense ‘0 adultos menos preconceituosos com um humor que, para a época, constitufa uma abertura audaz em raziio de certo desenfado que, naquele momento, era malvisto em muitos lares, Rico Tipo foi um semanério que se caracterizou por “tiras fixas que traziam um humor simples direto,mas ao mesmo tempoagressivo esem preconceito” (Rivera, 1985, p. 116). Além disso, o que atraiu massivamente 0s leitores foi sua he- terogeneidade e a modernizacao do humor costumbrista que saiu de suas paginas. Em Rico Tipo sobressafram,nacapaeno interior darevista,as “chicas” esculturais de Divito. As mulheres foram desenhadas por Divito com o estilo que remete ao desenho de moda, mas com umas curvas que marca- vam uma cintura de vespa, amplos quadris € impactante busto. Essas mulheres ideais € sensuais desenhadas, mais do que para fazer rir, para seduzir o leitor masculino impuseram um modelo de mulher ~ fisico © de roupa feminina ~ que, por inalcangé- vel que fosse, as mulheres se resignaram a tentar aleangar: Egsas mogas eram acompanhadas por rapazes que, nos anos 50, também ultra- passaram as paginas da revista ¢ cram conhecidos nas ruas portenhas como “di- vitos” e “petiteros”, Ambos se distinguiam pelo modo de vestir ~ ridicularizado nos desenhos ~e pelo que em cada caso repre- sentavam. Os petiteros iam ao Petit Café, lugar de distingo frequentado por jovens de classe média cujo desejo era alcangar 0 modelo das classes abastadas e diferenciar- se dos tangueiros do bairro, 0s divitos. Do mesmo modo que as chicas,oquecomesava sendo humortransformou-seem modelo de distingdo a aleangar. No interior da revista sobressafam as tiras cOmicas protagonizadas por perso- nagens arquetipicos do mundo da cidade que exibiam uma nica conduta, rigida, universal e reconheefvel, fazendo com que suas hist6rias se baseassem na repeticao, Estes conformavam uma “excelentissima galeriade personagens unilaterais,regidos e definidos por uma caracteristica invariével que deve necessariamente se manifestar em cada ato de presenga” (Sasturain, 1995, p. 233). Lino Palacio criou Avivato (personagem que encarnava a esperteza criolla), Tarrino (a sorte) e Don Fulgencio (a infancia infinita); Oski criou Amarroto (representacio do pilo-duro); Mazzone, Afanancio (o ladriio) ,Batilio (© alcaguete), Piantadino (0 fugidio), Fiaquini (0 que 86 ‘queria dormir); Jorge Palacio criou Chicato; Ferro, Carade Angele Bélido (lentidio),de Ianiro, Purapinta (0 bonitdo) e Marmolin (uma estatua que ganhava vida); e Divito, Falluteli, Fuilmine, Bombolo,Pochita Mor- foni ¢ 0 Dr. Merengue. Se esses personagens de Rico Tipo eram universais, jd que careciam de referéncias temporais, na revista também ficaram registrados os costumes portenhos dos REVISTA USR Sto Pav. n 88-26-37, dzembraeverero 2010-201 | anos 50 a partir da incorporagao de Calé, pseud6nimo de Alejandro del Prado. Sua secao “Buenos Aires de Camiseta” inovou no costumbrismo. Como destaca De Santis (1994, p. 162), “seu costumbrismo esté -apoiado na procura expressiva que o leva a ‘ensaiardiferentes tiposde piadas paracons- ‘muir, como se armasse um quebra-cabeca, 42 figura completa de um baile, uma partida de futebol, casamentos, comunhdes, ou a ‘estreia das calgas compridas”. Se Divito -sepresentava 0s modelos ideais femininos © masculinos ¢, inclusive, antecipava as smodas, Calé representava 0 real, as vozes ‘das ruas portenhas, a Buenos Aires caseira -que no estava no ritmo da moda e, sim, “que era imutdvel. As piadas de Calé repre- sentavam as classes médias € populares que circulavam pela cidade de 6nibus ou ‘Bondes, nio em cartos; que se divertiam, ‘em bilhares, bailes de clubes e terrenos Baldios; niio em cafés. Além da grande supremacia do humor ‘exifico, em Rico Tipo também houve lu- ‘gar para o humor escrito. Entre as segdes ‘escritas se destacaram as de Conrado Nalé Roxlo (Chamico), que parodiava os mais difundidos autores da literatura nacional; ‘as de Carlos Warnes, que, sob 0 pseud6- saimo de César Bruto, escrevia com erros -gramaticais € ortograficos; ¢ as de Miguel Babio Esquit, que, assinando como Juan Mondiola, levava a linguagem oral da rua ra 0 texto escrito. Nas paginas de Rico Tipo no houve \gar para © humor politico, Entretanto, 0 ndo implicou que no tenha tido in- mnvenientes com o governo peronista. A -sevista como tal s6 teve um problema com ‘© governo quando foi privada de papel por sm do secretirio de Imprensa. Depois de varias negociagdes, Divito conseguiu. ‘papel em troca de incluir em cada ntimero ‘uma pagina dedicada a Evita, que nfo podia ser humorfstica. Outras duas situagdes que ‘apresentaram problemas com o governo envolveram duas colaboragdes de Rico Tipo, mas a titulo pessoal. Rico Tipo fechou em 1972, anos depois da morte,em um acidente automobilistico, de seu dono e principal figura, Divito. En- tretanto, desde meados dos anos 50, Rico Tipo havia perdido protagonismo. Como seus personagens estiticos © invariaveis, a revista se mantinha sempre igual, sem inovages mesmo quando o mundo ao seu redor assistia a um acelerado processo de mudanga. ENTRE A MODERNIZAGAO EA PROSCRICAO DO PERONISMO: TIA VICENTA Em 1957, abria-senovamenteocaminho paraum governo“democratico”*e aparecia Tia Vicenta,deLandri,pseudénimodeJuan Carlos Columbres, uma revista inovadora, com um novo tipo de humor sem precon- ceito, que rapidamente foi um sucesso de vendas. Tia Vicenta foi um exponente do inicio darevolugao cultural queexplodiu na década de 60 e que envolveutransformages nas atividades artisticas ¢ intelectuais e no comportamento © nos costumes, especial- mente, das classes médias. A inovago no humor gréfico foi produzida por Tia Vicenta, com Landré e Oski, no desdobrar de um humor que esteticamente parecia ingénuo, ¢ até infantil, tributdrio de Sauil Steimberg depois, por Quino (Joaquin Lavado) com ‘Mafalda, publicada a partir de 1964 ,inicial- mente no jornal Primera Plana, depois no El Mundo ¢ na revista Siete Dias. Tia Vicenta, autoproclamada “A revista do novo humor” e inspirada na espanhola La Codorniz, oferecia grande diversidade de matérias, piadas e artigos baseados na espontaneidade, no disparate ¢ na falta de solenidade, quer se tratasse de politicas ou dos habitos sociais (Russo & Colombres, 1993, p. 23). A revista era semanal ¢ se caracterizou pela auséncia de segGes fixase um critério de“redagdo aberta” em que nin- guémeradono das segdes.Com Tia Vicenta reaparecia © humor politico, embora seu diretor tenha tido uma grande capacidade de se acomodar as mudangas de governo, REVISTA USP So Paso, 88 p.26-37, dzembraffverro 2010-2011 6 Asaspasse devem ao to dequeonte 1955219730 peroneroestveproserts 33 7 ads de mica © pose ‘ue carr em geal ma parede véscuporiodes alésebarestertiia ND, 34 quando essa estratégia fracassou foi o fim darevista, Landriiexplicava essa adaptacao ‘nema favor ‘nem contra, fago piadas sobre,reconhecen- do sempre os lados eriticos como uma con- digo indispensavel de suaeficdcia” (Russo & Colombres, 1993, p.20).Junto ao humor politico também havia um desdobramento do humor costumbrista, no qual ficavam pelo tipo de humor que fazia, expressas as diferentes classes sociais € suas estratégias de diferenciagio social. ‘A capacidade adaptativa de Lande & seus vineulos com os efreulos de poder nao foram suficientes paraevitaradvertenciase acensura. O presidente Frondizi (1958-62) fez chegar a Landré um “convite” para que deixasse de desenhé-lo com um nariz. tio comprido; 0 presidente de facto, general Ongania (1966-70), que era caricaturizado como uma morsa.ndo duvidou em ordenar, em 1966,que Tia Vicenta devia ser“fechada por falta de respeito para com a autoridade © a investidura hierrquica” (Avellaneda, 1986). A revista Confirmado —dirigida por Jacobo Timerman —, que nunca defendeu 0 presidente democrstico Ilia (1963-66) dos caricaturistas que © representavam como ‘uma tartaruga, justificou o fechamento de Tia Vicenta alegando que “a autoridade presidencial nfo podia serobjeto de gozagio sistemstica com o pretexto da liberdade de imprensa'’(in Ulanovsky, 1977,p-175).1ss0 deixava em evidéncia que Tia Vicenta niio rao tinico caso de imprensa acomodaticia (© tinico jormal que lamentou e condenou a ‘medida foi o jornal da comunidade inglesa, The Buenos Aires Herald, que sustentou: Nifo haverd lugar para os partidos politi- cos, mas deve haver lugar para o humor” (in Ulanovsky, 1977) 0S CONTURBADOS ANOS 1970: HORTENSIA E SATIRICON Addécadade 70na Argentina foi marcada pela politizacao do campo cultural e a vio- Iencia politica. Depois do Cordobazo, em 1969, 0 processo da transigiio demoeriitica contribuits para a reativagio da “revolugdo cultural” que a ditadura militar (1966-73) havia tentado frear e realinhar em sentido conservadore catSlico.Acensuracomegava a relaxar e corriam ares de inovagdo para © campo jornalistico e do humor grifico, Neste tiltimo, irrompia,em agosto de 1971, na provincia de Cérdoba, Hortensia, “La Papa” de Alberto Cognini,eemnovembro de 1972, em Buenos Aires, Satiricén, de Oskar © Carlos Blotta junto com Andrés Cascioli e Pedro Ferrantelli, Com ambas as publicagées e a nacionalizagao da pagina de humor grifico levada a cabo pelo jornal Clarfn em margo de 1973 (Levin, 2009), irrompeue se consolidou uma nova geragio de humoristas gréficos que imps um novo estilo grafico e temitico. Hortensia, “La Papa” foi uma publica- Ho quinzenal que apareceu no mereado 20 prego de § I, promovendo-se com a frase “Estou aqui para dizer © que me der na telha, ou nfo?”. Tinha um formato similar ao de Tia Vicenta, tabloide (27 x 35 em), umas 24 paginas com a capae a contracapa com duas cores ¢ as paginas intermas em branco e preto. Desde seu inicio, Hortensia se encarre- gou de reivindicar a tradiggo humoristica da provincia mediterranea. No entanto, rapidamente seu sucesso ultrapassou as fronteiras provinciais e em, 1973, chegou a Buenos Aires ¢ outras cidades do pafs, Hortensia chegou a editar tiragens supe- riores 20s 100 mil exemplares e, embora (Cognini tenha falecido em 1983, a revista continuou saindo até 1989, Hortensia se caracterizou por inovar no humor costumbrista. Foi “uma explosiio de humor regional, costumbrista, que conflui, esse momento, com toda uma tendéncia de pensamento valorizadora das formas da cultura popular e da oralidade” (Sasturain, 1995, pp. 33-4). Rivera (1985, p. 132) ‘cepa reconhece & revista de Cognini uma popular e picaresca”. Nessa linha estava a seco “Negrazn & Chaveta (Dos amigos de Ia sexta)”, na qual Cognini levava a0 papel didlogos populares e humor oral. A revista era um prolongamento das t{picas peas’ cordobesas jé queem suas paginas 0 REVISTA US Sto Paula.ndl p 2637, denembrotfeverevo 2010-201 ontrava tudo que ali se escutaya saya naquelas longasmadrugadas de SiolZoe éleool. Também sobressai- Jbest6rias em quadrinhos de Fonta- “Boogie. cl Aceitoso” ¢ a parédia “Inodoro Pereyra,elRenegau!™, eragdes de Crist, Peird,Tan, Ortiz, Parrotti, Gonio Ferrari, Miguel politico nao esteve ausente 20 as referencias a situagdes S politicos significativos para sxsentina desse tempo. Entre- Ise apelou caricatura politica a representada em piadas quais niio havia personifica- tia privilegiava o popular e combinava 0 artesanal ¢ 0 er outro lado, Satiricdn se Isticado e moderno, ¢ era issional ISpareceu em Aires, Fra uma nova pu- vembro de enifico idealizada pelos i Oskar e Carlos Blotta’, “Andrés Cascioli-Onome prestava tributo tanto PetrOnio, obra cléssica ‘©omo A versio cinema- pelo italiano Federico sIaépocaem Buenos também era tributério REVISTA USR Sto Paso, n86p. 2 de Satirikon, uma revista satirica russa do inicio do século XX, dirigida peloescritore humorista Arkadi Avérchenko (1881-1925), Essarevistade ideologia liberal e seu diretor foram perseguidos pela policia dos czares © pela policia bolchevique. Se em termos politicos Satiricén era devedora da russa homénima, no que diz respeito ao estilo grafico e jomalisticotinha jidas com a revista norte-americana Na: tional Lampoom e a alemi Pardon,embora também, no que diz. respeito as suas notas adultas, com Penthouse e Playboy. Assi propunha uma mistura inovadora ¢ atrati- va de humor satirico, com forte erotismo, informaciio e reflexes criticas. O carater diferenciado de Satiriedn foi serumarevista sem limites, irreverente, libertando-se de tabus ¢ do “politicamente correto” assim como também combinar humor grifico com notas jornalisticas escritas com ironia mas 1ndo porisso menos: érias. Um puiblico leitor Jovem, misto e majoritariamente de classe média aceitou © aderiu, incentivado pela proposta modernizante da revista embora também por seu rechaco ~ em nome da liberdade, mais do que da democracia — a ditadura militar eneabecada pelo general Lanusse e seu olhar satirico de Perén, que retornava ao pafs e & presidéncia da nao depois de dezoito anos. Com a ascensao de Peréncamaiorpolitizagaoda sociedade,seu diretor,emum gestode autocensura,reduziu © humor politico, sendo a critica e a sétira cultural as que mantiveramo efeito coesivo, Satiricdn contou com a colaboragiio de um grande ntimero de humoristas ~ Caloi, Fontanarrosa, Crist, Izquierdo Brown, Landrii, Carlos Trillo, César Bruto ¢ Oski, Garaycochea, Durafiona, Bréecoli, Napo- le6n, Rafael Martinez, Grondona White, Viuti, Sanz, Limura, Sanzol, entre outros ~e jornalistas—Dante Panzeri, Mario Mac- tas, Carlos Ulanovsky, Jorge Guinzburg, Carlos abrevaya, Alejandro Dolina, Alicia Gallott ete. Sua aposta editorial teve resultado positive em seus dois primeiros anos ¢ se traduziu em um constante aumento de vendas, até alcangar um miximo de 250 mil exemplares em abril de 1974, 0 éxito