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A relação entre moralidade e legalidade

No filme “Decisão de risco” há um impasse que provoca profunda reflexão sobre até que ponto
a legalidade se sobrepõe à moralidade. Durante a trama, a coronel Katherine Powell se vê em
meio a uma situação que exige bastante cautela, uma vez que a missão, originalmente designada
para ser de captura de terroristas, transforma-se em uma operação de extermínio e que pode
levar à morte várias pessoas inocentes. O impasse é: os terroristas são homens-bomba e, se não
forem mortos, podem causar mortes a um número muito maior de pessoas. Contudo há uma
criança que gira em torno da trama, e, por conseguinte, há uma grande pressão para salvar sua
vida. Surge então a questão: é moralmente legal matar um menor número de pessoas
objetivando poupar um número maior delas? Ou seria, por ventura, legalmente moral? Ou será
que esse jogo de palavras não faz nenhum sentido e a moralidade e a legalidade são mundos que
não se interseccionam? E quando postas lado a lado, o que escolher? Haveria um modo supremo
de agir que garantiria sempre a plena justiça? O que é ser justo, afinal?

Todas essas perguntas são de extrema complexidade e já foram discutidas por inúmeros
pensadores de gerações e culturas bem diferentes. E nesse contexto, um ponto que parece
sempre se interpor é: aquilo que a maioria das pessoas chama de moral caracteriza-se como algo
mutável, haja vista já ter sido alterada diversas vezes à medida que as sociedades evoluíam. E se
ela muda constantemente seria sensato apoiar-se nela como a base das mais importantes
decisões de longo prazo?

Tendo como pano de fundo todas essas perguntas, podemos começar a inferir sobre elas,
definindo como ponto de partida a conceituação. A palavra “moral” (Mores, no original latim)
significa “algo que diz respeito aos costumes”. E sobre os costumes, o que se pode afirmar?
Pode-se afirmar que o costume de algumas tribos indígenas de sacrificar as crianças que
nasciam com algum defeito congênito como algo de natureza má? Perguntas como essa
despertam de imediato um sentimento de horror em leitores treinados nos conceitos da maioria
das religiões ocidentais. Mas antes de condenar com veemência essa prática, deve-se observar
algo que pode passar despercebido: a moral está profundamente ligada a um sentimento. Em
moral, é tudo sobre o que foi aceito ser correto, pois uma coisa é certa: a maioria das pessoas se
julga modelo de virtude, e mesmo quando confessam suas falhas, fazem isso porque confessar
pressupõe humildade, que é uma virtude aceita. Logo, entende-se que a atitude moral é quando
“as minhas ações estão de acordo com o meu modelo de virtude”. E como foi visto, a virtude é
circunstancial.

Para exemplificar ainda mais, vejamos o exemplo do mais famoso chefe de gângsters, Al
Capone, que afirmou: “Passei os melhores anos da minha vida proporcionando prazeres ao povo
e tudo que consegui foram insultos e a exigência de um homem caçado”. Ele estava plenamente
alinhado com suas convicções e por isso não se condenava. Para a moral pública ele era um
criminoso, porém, para si mesmo, era um benfeitor.

Dados esses exemplos, utilizarei três grandes pensadores que reforçam a tese de que a moral é
circunstancial e está ligada a emoções. O primeiro deles é o mais importante teórico do
liberalismo econômico, Adam Smith. Para ele, as regras da sociedade são escolhidas se forem
úteis em um determinado momento, sob determinadas condições. Para ele, tudo depende das
circunstâncias históricas. Dessa forma, cito o exemplo do nacionalismo, que pode ser visto
como virtude em tempos de guerra, ou um atraso em tempos de globalização. Ou seja, as
sociedades escolhem o que é melhor para elas em determinado contexto. O segundo pensador,
David Hume, parte do princípio utilitarista de que a vida humana se pauta em obter prazer e
fugir da dor, e dessa forma a moral estaria ligada diretamente à emoção e não à razão, como
afirmava Kant.

O terceiro pensador é o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Para ele, “A moral não tem
importância e os valores morais não têm qualquer validade, só são úteis ou inúteis consoante a
situação”. O próprio Nietzsche criticou veementemente a moral kantiana, que segundo ele, nega
a natureza e enfraquece o homem.

Diante dos argumentos supracitados, devemos voltar às questões iniciais, mas não sem antes
conceituar a legalidade e propor um princípio supremo de justiça. Tendo em vista uma moral
contextual, faz-se necessário que a lei atenda aos requisitos da maioria da população, pois se as
pessoas considerarem a lei do seu estado como sendo imoral, logo tratarão de mudá-la, a
exemplo do que aconteceu na Revolução Francesa ou na Revolução Americana, entre outras.
Sendo assim, em um lugar onde a democracia é um valor moral, o Estado deve primar os
interesses da maioria, respeitando os direitos humanos, que também é um valor criado na
Revolução Francesa. Ou seja, a lei é algo criado sob determinadas circunstâncias, e que deve ser
pensada de um ponto de vista universal. Todavia, se uma lei é criada baseada na moral, não
estaria esta também “corrompida” pelos sentimentos de uma época, que não necessariamente
correspondem à nova geração?

A saída seria relativizar a vida? “Depende”. Para alguns modelos morais, relativizar é “errado”.
Mas, na prática, não faz muita diferença, pois, no fim das contas, as pessoas sempre acabam
fazendo aquilo que corresponde ao seu mais forte sentimento. E por mais que as regras morais
ou legais digam o contrário, um pai que pode salvar seu filho de um criminoso matando o
criminoso, fará isso. E uma parte da sociedade pode aplaudir (pois se coloca no lugar do pai), e
outra parte pode condená-lo, recoberta por um manto progressista (a mesma moral antinatural,
anti-o-mundo-da-vida, niilista e hipócrita, que Nietzsche tanto condenou). Portanto, como
princípio supremo de justiça, sempre vai imperar a Lei da Natureza. A lei da preservação da
vida. E voltando à questão abordada no filme, é realmente algo difícil, porém, por uma estranha
razão parece-me que foi feita a melhor escolha, poupando muito mais vidas de um desastre
iminente. Agora, não me pergunte se eu acharia justo se fosse eu uma das vítimas.

E o que concluir a partir disso? Como criar leis justas? Deixo esse hercúleo trabalho para os
revolucionários que as inventam, sentados em seus gabinetes, enquanto imaginam um mundo
perfeito de pessoas guiadas pela razão.