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Políticas de memória no México contemporâneo: as experiências do Comité 68 e da

FEMOSPP.

Larissa Jacheta Riberti


Mestranda em História Social pelo PPGHIS/UFRJ
Bolsista CNPq
la_riberti@yahoo.com.br

Introdução.

A luta contra a impunidade dos crimes cometidos por Estados autoritários tem sido umas
das principais demandas dos movimentos de direitos humanos nos países que passaram por
experiências traumáticas. As múltiplas experiências de países que tiveram contextos marcados
pela violência, limitação de liberdades civis e que transitaram por um cenário de
autoritarismos políticos ou ditaduras militares, foram e são importantes para se pensar a partir
de quais estratégias estão sendo cumpridas, ou não, as demandas das sociedades. Na maioria
dos casos, as sociedades têm experimentado as tensões entre as demandas das vítimas e das
organizações da sociedade civil e a urgência de se buscar acordos que possam rever esses
passados. Na prática, o nível de impunidade existente torna-se um obstáculo para que se
desenvolvam políticas capazes de satisfazer as demandas dos diferentes sujeitos presentes na
cena pública. As experiências de países como a Rússia, Alemanha, Irlanda do Norte, Sudão,
Uganda, Serra Leoa, são exemplos de como governos no presente tiveram que lidar com
passados de violência. Em países da América Latina como Argentina, Guatemala, Chile e
Uruguai, as chamadas Comissões da Verdade foram criadas no sentido de buscar uma possível
reparação para as vítimas dos passados de violência ditatorial 1. No que se refere ao tema de
passados de violência, o México não tem sido uma exceção2.
No presente artigo, propõe-se analisar as experiências de duas organizações importantes
no que se refere à memória e as medidas de reparação e justiça referentes aos crimes
cometidos por agentes do Estado nos anos entre 1968 até o final da década de 1980. O Comité
68 Pro Libertades Democráticas e a Fiscalía Especial para Movimientos Sociales y Políticos
del Pasado, foram escolhidos pelo caráter das atividades que promoveram. Nascido a partir da
iniciativa de ex-líderes do movimento estudantil de 1968, no México, o Comité 68 possui

1
Comisión de Derechos Humanos del Distrito Federal; Asociación para la Prevención de la tortura (Suiza);
Centro de Derechos Humanos “Miguel Agustín Pro Juárez” (México); Corporación de Promoción y Defensa de
los Derechos del Pueblo (Chile) (Orgs); Memoria do “Seminario internacional Comisiones de la verdad:
Tortura, reparación y prevención.”e “Foro público Comisiones de la verdad: Perspectivas y alcances El caso de
México.México: 2004. Digitalizado em: http://es.scribd.com/doc/19375070/Comisiones-de-La-Verdad
(verificado em 28/09/2012).
2
VALENZUELA, Luis Arriaga. “Crímenes de Estado y derechos humanos en México.” In. Revista El Cotidiano,
n. 150. Julio-Agosto de 2008, ano 23.
caráter de organização civil que realiza denúncias e busca justiça no que se refere a crimes
cometidos contra os direitos humanos de pessoas envolvidas com movimentos sociais e de
esquerda. Já a Femospp nasceu a partir de um decreto do presidente Vicente Fox (2000-2006)
em 2001 e segundo uma recomendação da Comissão Nacional de Direitos Humanos do
México. Política pública de memória, a Femospp desenvolveu suas atividades até 2006,
quando foi encerrada por uma determinação do Procurador Geral da República Rafael Cabeza
de Vaca. Seus resultados foram compilados em um Informe à Nação Mexicana, divulgado no
mesmo ano em que foi fechada.
A seguir analisaremos algumas das atividades desenvolvidas por ambas as instituições no
que se refere à defesa dos direitos humanos e a construção da memória e da história sobre o
período considerado. Em primeiro lugar, no entanto, faremos considerações sobre o contexto
mexicano no qual se gerou o emprego sistemático da violência e da repressão contra
movimentos de esquerda.

Memória e violência de Estado.

Desde o governo de Plutarco Elias Calles (1924-1928) a política mexicana esteve marcada
pela hegemonia de um partido de Estado, o Partido Revolucionário Institucional 3. Neste
regime, caracterizado pelo autoritarismo, a dissidência foi criminalizada e perseguida através
de estratégias de controle e repressão. Um aspecto decisivo para o triunfo do PRI na política
mexicana foi a absorção das instâncias de manifestação e lutas políticas pelo Estado. A partir
da década de 1940 o governo passou a mediar os órgãos de reunião social como sindicatos e
outros organismos de reivindicações. Durante o século XX, é possível identificar o emprego
de métodos regulares e cada vez mais sofisticados para combater os considerados “inimigos
do estado” através da violência.
Todas as negociações deviam dar-se no interior do aparelho do Estado através de seus
canais e instrumentos, com suas organizações sociais e piramidais, seu partido rolo
compressor e suas autoridades arbitrárias. O que fugia dessas normas de negociação
intramuros era violentamente reprimido. O característico desse monólogo institucional é que

3
Fundado por Plutarco Elias Calles em 1928 sob o nome de Partido Nacional Revolucionário (PNR), alterado
dez anos depois para Partido Revolucionário Mexicano (PRM), por Lázaro Cárdenas, o então presidente
mexicano e, mais tarde, constituído em Partido Revolucionário Institucional, o partido “herdeiro da revolução”
dominou o cenário político durante várias décadas do século XX. Tal atitude era vista pelo movimento estudantil
como autoritária e antidemocrática. Daí surge um dos pontos principais dos questionamentos da sociedade
mexicana da década de 1960. HERNÁNDEZ, Salvador. El PRI y el movimiento estudiantil de 1968. México: El
Caballito, 1971
2
os conflitos ficavam sujeitos a uma negociação subordinada ao Estado e seu aparato de
controle político ou a uma repressão seletiva de extraordinária violência. 4

Além das estratégias de repressão à dissidência e do autoritarismo do PRI 5, existiram


marcos jurídicos que permitiram o emprego da violência contra “subversivos” e agentes
externos que pudessem ameaçar o país. Em 1941, no governo de Manuel Ávila Camacho
(1940-1946), aprovou a condenação do delito de Dissolução Social através da aprovação dos
artigos 145 e 145 bis do Código Penal Federal. A iniciativa surgiu no Congresso Latino-
americano de Criminologia6, no qual palestrantes dos Estados Unidos recomendaram aos
países da América Latina a promulgação de Leis que, no contexto da Segunda Guerra
Mundial, pudessem prever penas às práticas que “atentassem contra a vida nacional ou suas
instituições”7. Ao final da guerra, os delitos estipulados nesses artigos do Código Penal
Mexicano foram as principais ferramentas para que fossem perseguidos legalmente os
ativistas, líderes sociais, operários ou camponeses em greve, ou movimentos de contestação 8.
Assim, os mecanismos jurídicos de repressão aos movimentos de esquerda colaboraram para
que os sucessivos governos do PRI se consolidassem no poder9.
4
CAMÍN, Hector Aguilar & MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana. São Paulo: Edusp, 2000. Pp.
268-269
5
Segundo Hectór Aguillar Camín e Lorenzo Meyer, o Partido Revolucionário Institucional foi responsável pela
construção de um eficaz “mecanismo sucessório”, o que deu espaço para que o partido pudesse exercer domínio
sobre os principais cargos políticos. Idem, ibidem.
6
O II Congresso Latino-americano de Criminologia foi realizado de 19 a 26 de janeiro de 1941 no Instituto de
Ciências Penais da Universidade do Chile, na capital Santiago. Os países participantes foram Argentina, Bolívia,
Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, Guatemala, Haiti, México, Nicarágua, Peru, República
Dominicana, Uruguai. Dentre os temas aprovados estavam a reforma da legislação penal na América, delitos
contra as nações, delitos políticos e delitos sociais, além disso, foram feitos os convites oficiais para que os
representantes dos Estados Unidos participassem de futuros congressos que passariam a chamar Congressos Pan-
americanos de Ciências Penais. Houve também a aprovação do tema que discutiria a instalação de uma oficina
permanente de criminologia com sede na cidade de Buenos Aires. Biblioteca Digital Daniel Cosío Villegas.
Conferencias Internacionales Americanas. Primer suplemento 1938-1942. Recopilación de tratados y otros
documentos. Versão digital disponível no link:
http://biblio2.colmex.mx/coinam/coinam_1_suplemento_1938_1942/base2.htm (visualizada em setembro de
2012)
7
Comité 68 Pro Libertades Democraticas A. C. Informe Histórico Presentado A La Sociedad Mexicana. Fiscalía
Especial Para Movimientos Políticos Del Pasado. Série “México: Genocídio y delitos de lesa humanidad:
Documentos Fundamentales 1968-2008”. México: 2008. Tomo IX. Pp. 56
8
O Informe da Femospp também atenta para o fato de que, através dos artigos 145 e 145 bis foram presos vários
líderes sociais como Valentin Campa e Demetrio Vallejo – dois líderes do movimento ferroviário de 1958 – que
questionaram a mediação promovida pelo líder da Central dos Trabalhadores Mexicanos (CTM), Vicente
Lombardo Toledano, ligado ao Partido Revolucionário Institucional. Atualmente, o artigo 145 bis está derrogado,
entretanto, o artigo 144 do Código Penal afirma que “Se consideran delitos de carácter político los de rebelión,
sedición, motín y el de conspiración para cometerlos.”. In. Código Penal Federal. Arquivo disponível no link:
http://info4.juridicas.unam.mx/ijure/tcfed/8.htm (verificado em 28/09/2012).
9
Na avaliação desse contexto é importante problematizar a associação entre comunismo e subversão, feita pelo
Estado mexicano. Para os agentes do governo, os movimentos de esquerda estavam automaticamente ligados à
ideologia comunista. Carlos Monsiváis afirma que durante a partir da década de 1940, além dos mecanismos de
controles que já eram utilizados pelo governo mexicano, o fator histórico da Guerra Fria influenciou a maneira
de agir do Estado. Propagandeando a teoria da conspiração, os Estados Unidos provocaram o medo e a paranoia
3
Durante a década de 1960, camponeses, estudantes, líderes sociais independentes e
integrantes de movimentos insurgentes foram considerados inimigos em potencial pelo
Estado. Para combater este tipo de perigo desaparições forçadas, torturas e execuções ilegais
foram estratégias sistemáticas empregadas pelas forças do Estado. Dos massacres estudantis
que ocorreram em 1968 e 1971, ao fim da guerra suja, existe uma convergência entre as
violações dos direitos humanos e a impunidade. Ou seja, esse foi o caráter dos governos de
Gustavo Díaz Ordáz (1964-1970), Luiz Echeverría Álvarez (1970-1976) e José López Portillo
(1976-1982). As medidas repressivas aplicadas para reprimir os movimentos de oposição
incluíram o cárcere ilegal, a inclusão do Exército em questões de segurança civil e a atuação
da extinta Direção Federal de Segurança (DFS) 10. Os governos que sucederam López Portillo
não se preocuparam em combater essas práticas.
O contexto aqui considerado é marcado pela violência contra os movimentos estudantil de
1968 e de 1971 e pelo combate às guerrilhas urbanas da década de 1970 e 1980. Sobre o
primeiro caso vale ressaltar que o movimento estudantil se desenvolveu entre os meses de
julho e outubro de 1968. Logo no começo, a Cidade do México foi palco de manifestações
grandiosas encabeçadas pelo Conselho Nacional de Greve e com o apoio de setores da
sociedade civil. As duas principais instituições estudantis, Universidade Nacional Autônoma
do México e Instituto Politécnico Nacional, coordenaram a greve e tiveram seus recintos
invadidos pelo exército no mês de setembro. Além de mobilizar grande parte dos estudantes
das universidades mexicanas, o movimento ainda contou com o apoio do Reitor da UNAM,
Javier Barros Sierra e sua pauta de reivindicações girava em torno da democratização do
Estado11. O episódio mais emblemático desses dias aconteceu em 2 de outubro. Enquanto

em países do Ocidente, além de conseguir o alinhamento político dos mesmos. A isto se soma a ofensiva política
e policial do governo mexicano em relação à esquerda. “En México la campaña, particularmente eficaz, usa del
cine, de las negativas de visa para entrar a Estados Unidos, de los artículos, de los sermones parroquiales.” In.
MONSIVÁIS, Carlos. El 68: La tradición de la resistência. México: Ed. Era, 2008. Pp. 46
10
Criada em 1947, no governo de Miguel Alemán Valdés, e extinta em 1985, o principal objetivo da DFS era
garantir a estabilidade política dos governos revolucionários e eliminar qualquer influência da esquerda.
Segundo Sergio Aguayo, as atividades desempenhadas pela Direção se referiam à segurança e ao controle da
dissidência. Além disso, os serviços de inteligência do estado mexicano eram desempenhados pelos membros da
DFS em conjunto com a Dirección General de Investigaciones Politicas y Sociales de la Secretaria de
Gobernación (DGIPS), criada em 1942. Além disso, a Dirección Federal de Seguridad e o Exército serviram de
estrutura para a integração de um grupo especial anti-guerrilha. De acordo com o Informe “Compromisos
quebrantados, justicia aplazada”: “La “Brigada Especial o Brigada Blanca”, perteneciente a la Secretaría
de Gobernación, estuvo integrada por elementos del Ejército Mexicano -aunque esto es omitido por la
CNDH-, policías judiciales federales, policías judiciales estatales e incluso elementos de las policías
municipales. Sus agentes fueron capacitados y entrenados para combatir grupos armados”. Véase AGUAYO,
Sergio, La charola: una historia de los cuerpos de inteligencia en México, Grijalbo, 2001.
11
Os pontos de reivindicação dos participantes do movimento foram discutidos e formalizados num pieglo
petitorio, uma petição que correspondia às principais demandas e que continha seis pontos: 1. Destituição do
corpo de granaderos e da polícia metropolitana. 2. Destituição de chefes de polícia, militares e demais
responsáveis pelo comando de repressões e violência sobre os estudantes e demais manifestantes. 3.
4
estavam reunidos na Praça das Três Culturas, no bairro de Tlatelolco, os estudantes foram
surpreendidos por uma operação na qual as forças do exército, do corpo policial de
granadeiros, do Estado Maior (polícia presidencial) e do Batalhão Olímpia foram mobilizadas
para conter o movimento. O tiroteio estrategicamente planejado pelas forças oficiais resultou
em um número de aproximadamente 40 mortes, cifra oficialmente reconhecida pelo
presidente Luis Echeverría12. Durante aquele período, os líderes do CNG foram presos e só
receberam anistia em 1971.
Foi nesse ano também que aconteceu o segundo massacre ao movimento estudantil. O
episódio, que ficou conhecido como Jueves de Corpus, foi uma estratégia do Estado para
conter uma manifestação estudantil no dia 10 de junho daquele mês. Os estudantes se
reuniram para protestar em apoio à greve estudantil da Universidad de Nuevo León, que
passava por um momento de crise e reivindicava autonomia universitária, bem como a
aprovação de uma Lei Orgânica que fosse condizente com os interesses dos estudantes e dos
professores. Organizado pelo Comitê Coordenador de Comitês de Luta (CoCo), o protesto na
Cidade do México também serviria para chamar a atenção das autoridades para o problema da
educação nas universidades. O grupo paramilitar Los Halcones foi responsável pela operação
que freou os estudantes. Durante o ataque morreram mais de 50 estudantes 13. Criado e
mantido pelo estado, esse grupo paramilitar já tinha sido responsável por outros ataques
contra movimentos sociais e de esquerda. Segundo Gilberto Guevara Niebla, os membros do
Los Halcones foram recrutados pelo coronel Díaz Escobar, colaborador do Gral. Alfonso
Corona del Rosal, que tinha operado vários ataques contra manifestações em 1968. Os jovens
que integravam esse grupo paramilitar provinham de zonas urbanas marginalizadas e pobres.
Em troca de aprender golpes e o manuseio de armas, eram pagos pelo Estado com salários e
benefícios, podendo ascender socialmente. A lógica do governo era, então, reprimir o povo
com o próprio povo14.
De acordo com a leitura de Gilberto Guevara Niebla, o Jueves de Corpus foi o golpe
definitivo contra os estudantes15. O que não foram presos e que continuavam se mobilizando

Indenizações pelos estudantes mortos e feridos. 4. Revogação dos artigos 145 e 145 bis, que regulamentavam e
propunham penas aos delitos de dissolução social. 5. Responsabilização dos culpados pelas prisões e mortes. 6.
Liberdade aos presos políticos, encarcerados a partir de 26 de Julho de 1968. Sobre a petição ver: RAMÍREZ,
RAMÓN El movimiento estudiantil de México: Julio-diciembre de 1968. México: Ed. Era, 1969, TOMO II,
documentos. Ver também: ZERMEÑO, SERGIO. México, una democracia utópica: el movimiento estudiantil
del 68. México: Siglo XXI Editores, 1978.
12
AGUAYO, Sergio. 1968 Los Archivos de la Violencia. Grijalbo: 1998.
13
O número é apontado em: NIEBLA, Gilberto Guevara.1968 largo camino a la democracia. México: Cal y
Arena, 2008.
14
NIEBLA, Gilberto Guevara.1968 largo camino a la democracia. México: Cal y Arena, 2008.
15
Idem, idibem.
5
entenderam que as vias legais para a associação e a reivindicação de um Estado de direito
estavam fechadas. A partir desse momento, surgiram as primeiras organizações radicalizadas
na Cidade do México. Além disso, é nesse momento em que as novas organizações rechaçam
o modelo de luta do Conselho Nacional de Greve: aqueles que insistissem na luta pela via
legal e pacífica eram estigmatizados como pequenos burgueses e contra revolucionários.
Em seu livro El Fuego y el silencio, Adella Cedilo trata do surgimento da guerrilha urbana
e rural pós 196816. Considerando a criação e a formação das Fuezas de Liberación Nacional
(FLN) – que depois originaram o Exército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) – a
autora aponta que a recuperação da memoria e da história do movimento armado socialista
mexicano é importante porque se trata do único fenômeno armado na América Latina que não
foi criado a partir de uma ditadura militar e não recebeu financiamento nem ajuda substantiva
de país estrangeiro. Além disso, entender a conjugação desses movimentos armados da década
de 1970 e 1980, revelam as estratégias governamentais de combate e repressão.
De acordo com uma recomendação emitida pela Comissão Nacional de Direitos Humanos,
foi entre essas duas décadas que os agentes do Estado cometeram o emprego sistemático de
desaparição forçada de pessoas consideradas subversivas17. Devido ao emprego dessa
estratégia sistemática, existem 308 casos de pessoas desaparecidas na zona rural,
principalmente no estado de Guerrero e 174 casos de desaparecimentos na zona urbana. A
CNDH ainda ressalta para o caráter violento da prisão dessas pessoas. Tortura, lesões físicas,
psicológicas, morais, violações sexuais e desrespeito à dignidade humana são algumas das
características apontas pela CNDH e que estiveram presentes nas ações dos agentes do Estado
contra membros de organizações de esquerda e de luta social.
É a respeito desses crimes que o Estado mexicano cometeu entre as décadas de 1960 e
1980, que as vítimas e seus familiares, juntamente com organizações de direitos humanos tem
mantido, por anos, as exigências por justiça, verdade e reparação. Tais exposições geraram
inúmeras discussões sobre o grau comprometimento do Estado mexicano em investigar e
punir os crimes do passado. Nesse contexto, o Comité 68 e a Femospp são exemplos de
iniciativas que surgiram a partir das necessidades de justiça, verdade e reparação, no que diz
respeito às violações aos direitos humanos cometidas pelo estado no passado.

A criação da Femospp: virada democrática ou estratégia política?


16
CEDILLO, Adela. El Fuego y el silenco: Historias de la FPL. In. Série “México: Genocidio y delitos de Lesa
Humanidad. Documentos Fundamentales (1968-2008). México: Comité 68, 2008. Tomo VIII.
17
A recomendação está publicada integralmente em:
http://www.cndh.org.mx/Recomendaciones_1990_2012 (verificado em setembro de 2012)
6
Para se realizar uma discussão sobre os contornos da Femospp precisamos considerar as
atividades desenvolvidas primeiramente pela Comisión Nacional de Derechos Humanos
(CNDH). Criada em 6 de junho de 1990, a CNDH se constituiu como um organismo
descentralizado da Secretaria de Governo – órgão público que até então tinha gerenciado o
funcionamento de iniciativas oficiais ligadas aos direitos humanos como a Dirección General
de Derechos Humanos, criada em 1989. Em 1992, a CNDH foi elevada a órgão nacional, com
personalidade jurídica e patrimônio próprios, criando assim o chamado Sistema Nacional No
Jurisdiccional de Protección de los Derechos Humanos. Finalmente, por meio de uma
reforma constitucional, o organismo se constituiu numa instituição com plena autonomia de
gestão, em 199918.
A conexão entre a CNDH e o surgimento da Femospp se deu pelo fato de que em 1999 se
realizou um balanço das ações desenvolvidas pela Comissão em torno do Programa Especial
sobre Presuntos Desaparecidos19. O resultado das avaliações estabeleceu a necessidade de se
trabalhar nas investigações e dar à sociedade uma resposta baseada no direito à verdade sobre
as denúncias apresentadas. Assim, encaminhou-se ao chefe do Poder Executivo, Vicente Fox,
a recomendação 26/200120, “através da qual se solicitou o compromisso ético e político do
governo federal para orientar o desempenho das instituições do governo, dentro do marco dos
direitos humanos reconhecidos e garantidos pela ordem jurídica mexicana, a fim de evitar,
através de todos os meios legais existentes, que se repitam os acontecidos nas décadas de
1970 e 198021”.
Em 27 de novembro de 2001 o presidente do México criou a Fiscalía Especial para la
atención de hechos probablemente constitutivos de delitos federales cometidos directa o
indirectamente por servidores públicos en contra de personas vinculadas con movimientos
18
Portal Oficial da Comisión Nacional de los Derechos Humanos: http://www.cndh.org.mx/ (verificado em
setembro de 2012)
19
No Informe intitulado Informe Especial sobre las quejas en materia de desapariciones forzadas ocurridas en
la decada de los 70 y principios de los 80, a CNDH afirma que: “ha examinado los elementos contenidos en los
expedientes relativos a los 532 casos de personas incluidas en las quejas presentadas en materia de
desapariciones forzadas ocurridas en la década de los 70 y principios de los 80 del siglo XX. Por la importancia
y gravedad del caso, presenta a la opinión pública el presente Informe Especial, en el cual se detalla:
presentación, antecedentes y entorno, acciones, metodología, obstáculos, casos específicos, logros y resultados
en el proceso de investigación sobre el tema de las personas denunciadas como víctimas de la desaparición
forzada en el periodo mencionado”. O Informe está publicado integralmente no link:
http://www.cndh.org.mx/Informes_Especiales (verificado em setembro de 2012).
20
A recomendação está publicada integralmente em:
http://www.cndh.org.mx/Recomendaciones_1990_2012 (verificado em setembro de 2012)
21
GUAJARDO, Elia Patricia Neri. “México”. In. AMBOS, Kai, MALARINO, Ezequiel y ELSNER, Gisela
(editores). Justicia de transición. Informes de América, Alemania, Italia y España. Uruguay: Fundación Konrad-
Adenauer, 2009. Pp 330.
7
sociales y políticos del pasado. Vicente Fox também instruiu a criação de um Comité
Ciudadano de Apoyo para contribuir nas investigações. O passo seguinte foi dado em janeiro
de 2002, pelo Procurador Geral da República Rafael Macedo de la Concha, que através do
acordo A/01/02, nomeou o Dr. Ignacio Carrillo Prieto como Fiscal Especial22.
A Femospp pode ser compreendida como a resposta institucional ao legado de crimes e
violações aos direitos humanos cometidos por agentes do Estado no período da guerra suja.
Entretanto, a própria criação desse órgão aconteceu a partir de múltiplos debates em torno da
conveniência de se conformar uma Comissão da Verdade 23. Isso porque os envolvidos na luta
pelos direitos humanos alegaram que uma agência subordinada ao Ministério Público
dificilmente poderia ser um mecanismo idôneo. Dessa forma, podemos localizar o debate
acerca dos trabalhos desenvolvidos pela Femospp que acontece a partir das críticas realizadas
pelos organismos de direitos humanos24.
Segundo o diretor do Centro de Direitos Humanos Miguel Augustín Pro Juarez (Centro
Prodh), Luiz Arriaga Valenzuela, os membros da organização já apontavam para algumas
limitações desde o início das atividades da Femospp. Atentou-se, por exemplo, para o fato que
a nomeação do fiscal responsável por parte do Procurador Geral da República, dificultava o
reconhecimento da ação por parte dos atores envolvidos. Além disso, criticou-se a
subordinação da Femospp à PGR, dirigida em 2001 pelo General Rafael Macedo de la
Concha, que na condição de militar causava desconfiança em muitos dos envolvidos na luta
pelos direitos humanos. A ambiguidade do mandato do Procurador da República; a falta de
embasamento teórico nas premissas internacionais sobre os direitos humanos, a falta de
capacitação profissional e a falta de uma interdisciplinaridade para o andamento das
investigações, também foram algumas críticas apontadas pelo Centro Prodh25. Entretanto, a
via aberta pelo Estado foi utilizada e aproximadamente 300 denuncias de violações aos
direitos humanos foram feitas durante a vigência da Femospp.
Os organismos envolvidos na criação do Informe Esclarecimiento y sanción a los delitos
del pasado en el sexenio 2000 – 2006: compromisos quebrantados y justicia aplazada,
22
“Denuncia y critérios del Comité 68: Las imputaciones a los genocidios.” Serie México: Genocidio y delitos
de lesa humanidad: Documentos fundamentales (1968-2008). Comité 68 Pró Libertades Democráticas. México,
2008. Anexo 10, pp. 137.
23
Ver: “El debate sobre una Comisión de la Verdad o la creación de una Fiscalía Especial”. In. Denuncia y
criterios del Comité 68. Série “México: Genocidio y delitos de Lesa Humanidad. Documentos Fundamentales
(1968-2008). México: Comité 68, 2008. Tomo IV.
24
GUAJARDO, Elia Patricia Neri. “México”. In. AMBOS, Kai, MALARINO, Ezequiel y ELSNER, Gisela
(editores). Justicia de transición. Informes de América, Alemania, Italia y España. Uruguay: Fundación Konrad-
Adenauer, 2009. Pp 330.
25
VALENZUELA, Luis Arriaga. “Crímenes de Estado y derechos humanos en México.” In. Revista El
Cotidiano, n. 150. Julio-Agosto de 2008, ano 23.
8
apontam para as contradições no modelo de tal instituição 26. O informe reafirma a postura
dupla e contraditória do Fiscal Ignacio Carrillo Prieto e aponta que o compromisso
presidencial com a investigação dos casos de violação de direitos humanos foi desaparecendo,
pouco a pouco, após sua eleição 27. A avaliação do período de mandato de Vicente Fox, revela
que houve retrocessos e avanços no executivo, no legislativo e no judiciário em relação ao
tema dos direitos humanos. Isso significa que os delitos cometidos no passado devem ser
compreendidos dentro de uma estrutura governamental ampla, ou seja, como ações que por
sua natureza e características envolvem uma responsabilidade que vai mais além de um
mandato presidencial ou do âmbito individual de cada um dos envolvidos. Para essas
organizações, portanto, faltou pensar nos crimes enquanto ações realizadas dentro de um
conjunto de estratégias sistemáticas de repressão que deveriam promover responsabilizações
também no conjunto dos envolvidos. “Nossa prática permitiu constatar que a experiência de
trabalho com a Femospp foi distinta e isso explica a existência de uma hierarquia para a
realização dos trabalhos. No que todas as organizações coincidem é que o direito à verdade e
à justiça ainda estão longe de serem satisfeitos28.”
Os resultados da Femospp foram divulgados em um Informe Histórico à Nação Mexicana,
em 200629. Elia Patricia Guajardo observa que a narrativa histórica do Informe é geral e
insuficiente para contextualizar o conjunto de ações repressivas realizadas pelo Estado no

26
O informe Esclarecimiento y sanción a los delitos del pasado en el sexenio 2000 – 2006: compromisos
quebrantados y justicia aplazada foi produzido e divulgado por: Comité 68 Pró Libertades Democráticas A.C; a
Asociación de Familiares de Detenidos y Víctimas de Violaciones a Derechos Humanos (AFADEM); Fundación
Diego Lucero A.C.; Comité de Madres de Desaparecidos Políticos de Chihuahua; Hijos e Hijas Nacidos de la
Tempestad; Red Nacional de Organismos Civiles de Derechos Humanos Todos los Derechos para Todas y Todos;
Comisión Mexicana de Defensa y Promoción de los Derechos Humanos A.C.; Centro de Derechos Humanos
Miguél Agustín Pró Juárez A.C. Disponível em versão digital pelo link:
http://www.amdh.org.mx/mujeres3/biblioteca/Doc_basicos/5_biblioteca_virtual/9_informes/ONG/49.pdf
(verificado em 28 de setembro de 2012).
27
Essa crítica é baseada no conteúdo de campanha de Vicente Fox que se comprometeu em criar algum
mecanismo que pudesse investigar e puder os agentes do Estado que cometeram crimes contra os direitos
humanos no passado. Tal comprometimento é ressaltado no discurso de posse do novo presidente:
“Ninguna relación con el pasado es saludable si no está fincada en la verdad. Sin sustituir a las instancias de
procuración e impartición de justicia, me propongo abrir lo que ha permanecido cerrado en episodios sensibles
de nuestra historia reciente e investigar lo que no ha sido resuelto, mediante una instancia que atienda los
reclamos por la verdad de la mayoría de los mexicanos [...]. No habrá piadoso olvido para quienes delinquieron;
tampoco habrá tolerancia para quienes pretendan continuar con privilegios hoy inaceptables.” Discurso de posse
do Presidente Constitucional do México, Vicente Fox Quesada, 1° de dezembro de 2000, portal da Presidência
da República: http://www.presidencia.gob.mx/ (verificado em setembro de 2012)
28
Esclarecimiento y sanción a los delitos del pasado en el sexenio 2000 – 2006: compromisos quebrantados y
justicia aplazada. Pp. 3. . Disponível em versão digital pelo link:
http://www.amdh.org.mx/mujeres3/biblioteca/Doc_basicos/5_biblioteca_virtual/9_informes/ONG/49.pdf
(verificado em 28 de setembro de 2012).
29
Fiscalía Especial Para Movimientos Políticos Del Pasado. Informe Histórico Presentado A La Sociedad
Mexicana. Série. “México: Genocidio y delitos de lesa humanidad: Documentos fundamentales (1968-2008)”..
México: Comité 68 Pró Libertades Democráticas, 2008. Tomo IX.
9
período considerado. Além disso, a autora afirma que a descrição dos casos é escassa para que
possam auxiliar nas investigações jurídicas 30. Um dos principais problemas da investigação é
em relação à adoção das leis internacionais sobre os diversos assuntos dos direitos humanos.
No caso dos delitos verificados principalmente no contexto da guerra suja, como o genocídio,
a tortura e a desaparição forçada de pessoas, a competência de julgá-los é do Tribunal Penal
Internacional. Entretanto, como o Estatuto de Roma31, que rege as normas do TPI só foi
ratificado no México em 2005 e pelo caráter não retroativo das normas previstas no estatuto –
ou seja, as leis só podem ser aplicáveis a casos considerados após a sua ratificação – a Corte
Penal Internacional não conheceu tais crimes, inclusive os de desaparecimento forçada,
contrariando o seu caráter de delito contínuo e permanente32.
Existe ainda a crítica sobre a criação da Femospp enquanto estratégia do governo do
Partido de la Acción Nacional (PAN) para se firmar enquanto partido democrático, já que a
eleição de Vicente Fox em 2000 rompeu com mais de sete décadas de domínio do Partido
Revolucionário Institucional. Segundo Luis Arriaga Valenzuela a criação da Fiscalía se
localizou dentro de um contexto específico de mudança política no México. A chamada
“transição mexicana” deveria incorporar na sua agenda a prestação de contas com relação aos
crimes do passado33. Para que o novo governo fosse legitimado, Vicente Fox deveria mostrar
seu comprometimento e atenção com os crimes do passado. Entretanto, as pretensões iniciais
não garantiram resultados promissores. Para o autor, o principal problema foi a distância entre
o trabalho desempenhado pela Fiscalía e a experiência de atores que já estavam envolvidos
com o tema dos direitos humanos.
Entre éstas señalamos la necesidad de conservar una Fiscalía Especial para la
investigación de estos delitos –previa evaluación y perfeccionamiento de lo realizado
hasta entonces por la Femospp– y la creación de una comisión de esclarecimiento
histórico capaz de sentar las bases para el reconocimiento público de la

30
É importante ressaltar que serão considerados por esta pesquisa, a fim de que possam ser melhores entendidas
as atividades realizadas no âmbito da Femospp, os textos que regem as leis internacionais sobre direitos
humanos. São eles: Convenção Interamericana sobre Desaparição Forçada de Pessoas (ratificada no México em
4 de maio de 2001); Convenção Americana para Previnir e Sancionar a Tortura (ratificada no México em 22 de
junho de 1987) e Convenção para Prevenção e Sanção do crime de genocídio (ratificada no México em 11 de
outubro de 1952). Todos os textos podem ser consultados em:
http://cndh.org.mx/Instrumentos_Internacionales_Derechos_Humanos (verificado em setembro de 2012)
31
O Estatuto de Roma está disponível em: http://untreaty.un.org/cod/icc/statute/spanish/rome_statute(s).pdf
32
GUAJARDO, Elia Patricia Neri. “México”. In. AMBOS, Kai, MALARINO, Ezequiel y ELSNER, Gisela
(editores). Justicia de transición. Informes de América, Alemania, Italia y España. Uruguay: Fundación Konrad-
Adenauer, 2009.
33
VALENZUELA, Luis Arriaga. “Crímenes de Estado y derechos humanos en México.” In. Revista El
Cotidiano, n. 150. Julio-Agosto de 2008, ano 23.
10
responsabilidad del Estado por las violaciones a los derechos humanos cometidas en
el pasado.34
O Fiscal Especial, Ignacio Carrillo Prieto, no entanto, insistiu na necessidade do
funcionamento e na legitimidade das ações promovidas pela Femospp. Para ele, o plano de
trabalho assumiu as disposições legais que o conformaram e as obrigações éticas que
presidiram as tarefas da justiça. O Fiscal defendeu que, apesar do Procurador Geral da
República ter sido outorgado com plena autoridade de nomear um Fiscal Especial, ele
também foi orientado a conformar um Comitê de Apoio composto por cidadãos de
reconhecido prestígio e experiência, tanto na área jurídica, quanto na defesa dos direitos
humanos. Dessa forma, a atuação do Comitê de Apoio com a o Fiscal Especial, conformaria o
trabalho em conjunto entre diferentes setores da sociedade35.
O desaparecimento da Femospp, em 2006, também é considerado por alguns críticos
como o resultado da falta de atenção do Estado para com os compromissos assumidos
anteriormente. Na visão dos ex-líderes do movimento estudantil de 1968, José Revueltas,
Raúl Álvarez Garín e Eduardo Valle Espinoza, a outorga de plenos poderes para que o
Procurador Geral da República definisse as atividades realizadas pela Femospp, permitiu
também que ela fosse encerrada. Em 2006, o Procurador Daniel Cabeza de Vaca, recusou a
renovação da nomeação de Ignacio Carrillo Prieto como Fiscal Especial; tal atitude levou ao
fechamento ilegal da Fiscalía e a suspensão de investigações que estavam em andamento.
Sobre a publicação do informe que sucedeu a suspensão dos trabalhos da Femospp, os autores
afirmam que a elaboração do texto não contou com o grupo de investigadores que
inicialmente foram encarregados de tal trabalho. Não obstante, Garín, Espinoza e Revueltas,
sublinham que o desaparecimento ilegal da Femospp foi um ataque ao direito das pessoas de
conhecerem a verdade e terem acesso à justiça.
La existencia de la fiscalía permite que el compromiso del Estado sea acatado
y que, consecuentemente, la Recomendación de la CNDH sea cumplida en forma
plena y íntegra. Por lo tanto, el restablecimiento de la Femospp es indispensable,
porque represente un valor agregado; implica un beneficio tangible resultante de la
planeación, organización, coordinación y manejo armónico de los asuntos bajo su

34
VALENZUELA, Luis Arriaga. “Crímenes de Estado y derechos humanos en México.” In. Revista El
Cotidiano, n. 150. Julio-Agosto de 2008, ano 23. Pp.60
35
PRIETO, Ignácio Carrillo. “La creación y el labor de la Fiscalía Especial”. In Comisión de Derechos Humanos
del Distrito Federal; Asociación para la Prevención de la tortura (Suiza); Centro de Derechos Humanos “Miguel
Agustín Pro Juárez” (México); Corporación de Promoción y Defensa de los Derechos del Pueblo (Chile) (Orgs);
Memoria do “Seminario internacional Comisiones de la verdad: Tortura, reparación y prevención.”e “Foro
público Comisiones de la verdad: Perspectivas y alcances El caso de México.México: 2004. Digitalizado em:
http://es.scribd.com/doc/19375070/Comisiones-de-La-Verdad (verificado em 28/09/2012)
11
férula; igualmente, permite que se aproveche el enorme capital humano, el
importante acervo de conocimientos y experiencias adquiridas en un tema sumamente
complejo y poco explorado en México, como lo es la investigación de los crímenes de
lesa humanidad36.
O principal resultado da Femospp foi a prisão domiciliar do ex-presidente Luis
Echeverría pelo crime de genocídio cometido em 1968. Quanto aos outros crimes e a
responsabilidade de membros do exército e da polícia pelo desaparecimento de pessoas,
assassinatos, tortura e crimes contra os direitos humanos, as investigações em curso foram
interrompidas juntamente com o fechamento da Fiscalía. O foco da Femospp na
responsabilização de um culpado principal, a exemplo do caso de Echeverría, além de não
trazer resultados concretos e não penalizar devidamente outros envolvidos nas violências do
período considerado pela instituição, afirmou o descaso com as políticas de memória,
reparação simbólica e promoção do “nunca mais” na sociedade mexicana. Ou seja, se a
urgência por penalizar um possível culpado dos crimes cometidos durante o período da
“guerra suja” centralizou todos os esforços dos trabalhos realizados pelos investigadores e
membros da Femospp, não houve concentração de esforços ou preocupação com as ações que
pudessem contribuir para a ativação da memória, para a luta contra o esquecimento, para a
promoção do “nunca mais”, para o avanço de uma cultura e de uma educação voltadas para os
direitos humanos. A Femospp, enquanto política pública de memória do governo de Vicente
Fox foi incapaz de atender às demandas sociais por verdade e justiça, bem como estabelecer
uma narrativa histórica a partir das investigações realizadas. A interrupção das atividades da
Fiscalía em 2006 impediu o esclarecimento do passado e não criou condições para que se
estabelecesse a responsabilização dos culpados, a reparação das vítimas e um discurso da
memória.

Comité 68 Pro Libertades Democraticas: sociedade civil e reparação.

Idealizado por ex-presos políticos e membros do Conselho Nacional de Greve –


organização representativa do movimento estudantil de 1968 – o Comité 68 Pro Libertades
Democráticas nasceu durante no marco do X aniversário dos acontecimentos de Tlatelolco,
em 2 de outubro de 1978. Desde esta data, o Comité promove ações sobre a memória histórica

36
GARÍN, Raul Alvarez; REVUELTAS, José & ESPINOZA, Eduardo Valle. Procesos inconclusos, deslinde de
responsabilidades. Un preámbulo a juicios internacionales. In. Comité 68 Pro Libertades Democráticas A.C.
Série “México: Genocidio y delitos de lesa humanidad. Documentos Fundamentales 1968-2008”. México, 2008.
Tomo V; pp. 31.
12
do Massacre de 1968, mas também encabeça iniciativas jurídicas e políticas, em instituições
nacionais e internacionais, em busca de responsabilizações aos agentes do Estado e do
exército que cometeram violações aos direitos humanos no passado. As funções
desempenhadas pelo Comité giram em torno da denuncia, gestão e defesa frente a instituições
como a Suprema Corte de Justiça do México, a Procuradoria Geral da República e a
Secretaria de Governo. Além disso, no período de funcionamento da Femospp, os integrantes
do Comité 68 acompanharam as ações realizadas pela Oficina do Fiscal Especial Carrillo
Prieto, fomentando as investigações sobre o Massacre de 1968 e o movimento estudantil de
10 de junho de 1971.
Os representantes principais do Comité 68 são Raúl Álvarez Garín, que estudou
matemática no Instituto Politécnico Nacional na década de 1960 e era representante frente ao
Conselho Nacional de Greve no movimento estudantil de 1968; e Félix Hernández Gamundi,
que foi estudante da Escola de Engenharia do IPN e também membro do CNG. Ambos foram
presos naquela época, tendo recebido a anistia somente em 1971. De acordo com a leitura de
Eugenia Allier Montaño, o contexto no qual nasceu o Comité 68 foi palco de uma série de
iniciativas de ex-participantes do movimento estudantil que anteriormente tinham se calado
diante da repressão do Estado ou que estavam presos, e começaram a levar a público suas
vozes sobre a violência. Para a autora, os anos que vão de 1978 até 1985, representam o
período em que a memória sobre 1968 encontrou nessas novas organizações e atores o espaço
para rememorar o passado37.
A criação do Comité 68 coincide com o governo de Luiz Lopes Portillo (PRI) e com as
reformas políticas de 1977. Segundo Eugenia Allier Montaño, essas mudanças foram
responsáveis por reconhecer os partidos políticos como entidades de interesse popular. Dessa
forma, o Partido Comunista Mexicano – ao qual vários líderes de 1968 eram ligados – saiu da
ilegalidade. As comemorações de Tlatelolco em 1978 foram, portanto, parte das iniciativas de
entidades sociais e partidos de esquerda que encontraram meios de atuação. Nesse sentido, a
comemoração dos dez anos do Massacre de Tlatelolco se tornou um espaço propício para o
surgimento de demandas sociais38.

37
MONTAÑO; Eugenia Allier. “Presentes-pasados del 68 mexicano. Una historización de las memorias públicas
del movimiento estudiantil, 1968-2007”. Revista Mexicana de Sociologia, 71, n.02 (abril-junho, 2009).

38
“Por último, y como protagonistas principales, pues son las que tienen entre sus mandatos permanentes luchar
por reparar los daños del pasado, las asociaciones de “afectados directos” (familiares de víctimas o personas que
sufrieron la represión): el Comité 68 Pro Libertades Democráticas (conformado el 2 de octubre de 1978 por
actores del movimiento estudiantil) y aquellos grupos que no estando directamente ligados al 68 unen sus fuerzas
con los anteriores porque comparten el objetivo de denunciar la represión (el Comité Nacional pro Defensa de
Presos, Perseguidos Desaparecidos y Exiliados Políticos, fundado en 1977 y que desde 1984 es conocido como
13
Sobre a construção da memória de 1968, o Comité esteve envolvido, por exemplo, na
criação do Monumento em homenagem aos mortos na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco,
no dia 2 de outubro de 1993. Inaugurado depois de 25 anos do Massacre, a Estela de
Tlatelolco contém 20 nomes de pessoas homenageadas e fez parte de uma manifestação
encabeçada por ex-líderes de 1968 na qual se pediu por justiça, verdade e responsabilização
dos culpados39.
No que diz respeito as demandas por reparação das vítimas, a organização também atua,
desde seu nascimento, com denúncias junto aos órgãos de defesa de Direitos Humanos no
México. Em 1998, os membros do Comité 68 fizeram uma denuncia coletiva sobre as
violências que sofreram no dia 2 de outubro de 1968, junto à Procuradoria Geral da
República. No texto, os denunciantes classificam o massacre de 1968 como genocídio e
apontam para a ilegalidade dos processos judiciais que sofreram por parte do Estado enquanto
estiveram presos40. Além disso, afirma-se que os funcionários do governo federal em 1968,
violaram reiteradamente alguns dos direitos fundamentais e fizeram nulos outros como a
liberdade de expressão, o direito à petição, as liberdades de reunião e associação, a liberdade
de ir e vir, o direito à integridade corporal e a inviolabilidade de domicílio 41. O documento
apresenta nomes de pessoas assassinadas no Massacre de 1968, bem como possíveis
responsáveis – tanto agentes do Estado, como membros do exército. Primeiramente rejeitada
pela PGR, a denúncia foi protegida pela Suprema Corte de Justiça Mexicana e também pela
Comissão Nacional dos Direitos Humanos. Pode-se considerar que tal denuncia auxiliou na
criação da Femospp, já que ela também foi argumento para a recomendação emitida pela
CNDH em 2000.
Sobre os trabalhos desenvolvidos no âmbito da Femospp, o Comité 68, enquanto
organização civil, possui uma leitura bastante crítica. Após o final do mandato de Vicente Fox
em 2006, o Comité 68 em parceria com outras entidades civis que lutam pelos direitos
humanos no México, emitiram um Informe que realizava um balanço das iniciativas e dos
resultados conquistados em relação a este tema. Segundo os membros dessas associações, no
que diz respeito à reparação das vítimas, as ações da Femospp e também de outras políticas

Comité ¡Eureka!,24 y el Frente Nacional Contra la Represión, creado en 1979 por más de 54 organizaciones”. In.
MONTAÑO; Eugenia Allier. “Presentes-pasados del 68 mexicano. Una historización de las memorias públicas
del movimiento estudiantil, 1968-2007”. Revista Mexicana de Sociologia, 71, n.02 (abril-junho, 2009). Pp.298.
39
GARÍN, Raúl Alvarez. La estela de Tlatelolco: una reconstrucción historica del movimiento estudiantil de 68.
México: Itaca, 1998.
40
Os denunciantes foram: Raul Álvarez Garín, Roberto Escudero, Félix Lucio Hernández Gamundi, Cesar
Tirado, José Gilberto Pineiro Guzman, Roberto Vazquez Camarena e Javier Ramos Rodriguez.
41
Comité 68. Denuncia y critérios del Comité 68. Las imputaciones a los genocidas. Série “México: Genocídio
y delitos de lesa humanidad. Documentos Fundamentales 1968-2008.” Tomo IV. México: 2008.
14
públicas ligadas à defesa dos direitos humanos, não foram capazes de satisfazer as demandas
sociais de responsabilização, justiça e verdade 42. Sobre as investigações dos casos de pessoas
desaparecidas, o Informe indica a falta de organização nos trabalhos técnicos de coleta,
análise e organização da documentação recolhida no âmbito da Femospp.
Desde la experiencia de las organizaciones que elaboramos este informe, varios
han sido los obstáculos enfrentados durante la integración de las indagatorias. Por
una parte, la mayoría de las pruebas han tenido que ser ofrecidas y
presentadas por los propios familiares o denunciantes: la pro-actividad de la
autoridad ministerial ha sido nula, incipiente o poco efectiva. La mayoría de los
agentes ministeriales se han limitado a la recepción y el desahogo de pruebas
ofrecidas por los coadyuvantes, dejando el impulso procesal y la carga probatoria
a los familiares y representantes de las víctimas. Por otro lado, la FEMOSPP no
ha logrado avances sustantivos para ubicar el paradero de las personas
desaparecidas, y en muchas ocasiones los resultados de sus investigaciones
ministeriales son pobres; por ejemplo, en ocasiones han presentado como un
logro la solicitud de actas de nacimiento o de defunción en los municipios del Estado
de residencia de alguno de los desaparecidos.43
A última grande iniciativa do Comité 68 foi a publicação de uma série de livros sobre
o período de 1968 até 2008. Nos dez tomos que compõem a série foram compilados
documentos de denúncias, escritas as especificações dos critérios e dos marcos jurídicos
internacionais e nacionais nos quais se apoiam as denúncias realizadas pelo Comité, análises
sobre o movimento estudantil de 1968 e de 1971, bem como sobre o surgimento das
guerrilhas urbanas na década de 1970. Dentre os livros, está também um que reproduz
integralmente o Informe à Nação Mexicana publicado pela Femospp em 200644.

Conclusão: políticas de memória e construção da democracia.

A idealização do Comité 68 e a constituição da Femospp devem ser situados em


distintos momentos mas que refletem a necessidade de se construir uma nova ordem
democrática no México contemporâneo. Se em 1978, os líderes do Comité 68 ainda

42
Comité 68, Centro Prodh (Orgs). [et.al.]. Esclarecimiento y sanción a los delitos del pasado en el sexenio 2000
– 2006: Compromisos quebrantados y justicia aplazada. Disponível em:
http://www.amdh.org.mx/mujeres3/biblioteca/Doc_basicos/5_biblioteca_virtual/9_informes/ONG/49.pdf
(verificado em 28 de setembro de 2012).
43
Idem, ibidem. Pp. 27
44
Comité 68. Série México: Genocidio y delitos de lesa humanidad. Documentos Fundamentales 1968-2008. X
Tomos. México: 2008.
15
enfrentavam obstáculos e não possuíam liberdade de ação no que diz respeito às denúncias e à
verdade sobre o passado, atualmente, eles são responsáveis por incentivar e promover, através
de suas ações, a investigação e a atenção aos casos de genocídio e violência política por parte
do estado. Diretamente, as denúncias realizadas pelos membros do Comité 68 fazem parte de
todo um leque de pressões exercidas pela sociedade civil para o Estado tome iniciativas
oficiais de justiça e reparação.
A Femospp pode ser considerada a primeira iniciativa oficial para a constituição de
uma democracia preocupada com os direitos humanos no México. Apesar de criticadas, as
ações da Fiscalía resultaram em debates que fomentaram a necessidade de se trabalhar o tema
no espaço público, nos recintos escolares e na agenda política45. Além disso, desde 2000 a
proteção aos direitos humanos ganhou novas vertentes através da maior visibilidade dada às
organizações que protegem as mulheres, os indígenas, os negros e as crianças. Soma-se a isso
a existência de secretarias especiais que cuidam dos direitos humanos a nível regional e
local46.
É impossível negar que a partir da caída do PRI, o tema dos direitos humanos foi
melhor recebido pelo governo de Vicente Fox. Estratégia política ou não, o fato é que as
organizações de luta da sociedade civil ganharam maior visibilidade e espaço de atuação.
Entretanto, é preciso considerar que, apesar dos esforços das entidades civis e da luta dos
familiares, o tema da proteção dos direitos humanos ainda é um desafio para o México, já que
pouco se fez no âmbito jurídico para se condenar os agentes que perpetuam tais violações.
Ainda hoje, assassinatos de líderes camponeses e de trabalhadores, torturas, desaparições e
violência contra mulheres e crianças são violações aos direitos humanos que acontecem em
diversas áreas do país sem que as instituições jurídicas promovam a responsabilização e a
condenação devida dos culpados. Enquanto não houver uma atuação conjunta entre
organizações da sociedade civil e os poderes Judicial, Legislativo e Executivo da nação, no
sentido de promover a responsabilização dos culpados e a reparação das vítimas e dos
familiares, uma ordem realmente democrática não poderá ser instituída.

45
http://www.derechoshumanos.gob.mx/ (verificado em 28 de setembro de 2012)
46
Um exemplo é a Comissão de Direitos Humanos do Distrito Federal. http://www.cdhdf.org.mx/ (verificado em
28 de setembro de 2012)
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