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A abordagem da disciplina de história nas séries iniciais

RAFAEL NASCIMENTO DA SILVA*

72
Resumo
O presente artigo tem como foco a disciplina de história nas séries iniciais, a
qual está intimamente ligada à realidade em que o educando se encontra, uma
vez que a história é uma construção de conhecimento que as sociedades nos
deixaram, de modo a perceber que o conhecimento histórico não é neutro e
pode ser reinterpretado conforme as diversas sociedades, tendo assim
multiplicidades de interpretações. A História enquanto disciplina sempre foi
vista como base de informações que seriam adquiridas com regressos a fatos
passados, uma perspectiva voltada a acontecimentos que visam à formação da
disciplina como acabada e restrita apenas a conhecimentos voltados para o que
já ocorreu em determinado tempo ou lugar. Hoje, ainda é comum encontrarmos
aulas que caracterizam que o ensino e aprendizagem na disciplina de história
são meros momentos em que se aprendem marcos histórico, datas e
personagens tidos como heróis.
Palavras-chave: Ensino de História; Séries Iniciais; Ensino Tradicional.

The approach of discipline in history series beginning


Abstract
This article focuses on the discipline of history in the early grades, which is
closely linked to the reality in which the student is, since the story is a
construction of knowledge societies that have left us, to realize that the
historical knowledge is not neutral and can be reinterpreted as the various
societies, and thus multiplicity of interpretations. History as a discipline has
always been seen as the basis of information that would be purchased with
returns to past events, a perspective aimed at training events that aim to
discipline as finished and restricted to facing the knowledge that has already
occurred in a given time or place. Today, it is common to find classes that
characterize the teaching and learning in the discipline of history are mere
moments when you learn historical milestones, dates and characters as heroes.
Keywords: Teaching History; Initial Series; Traditional Education.

*
RAFAEL NASCIMENTO DA SILVA é graduado em Pedagogia pela Faculdade Norte
Paranaense, Pós-graduando em Docência na Educação Superior na Universidade Estadual de Londrina
(UEL) e professor de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Londrina.
mudanças. Atualmente,
nas salas de aula ainda é
comum encontrar uma
prática educacional
acrítica quanto ao ensino e
à aprendizagem de
História, dando ênfase
para a reprodução de fatos
e acontecimentos
limitados a datas e
personagens históricos. 73

Sala de aula tradicional Tal fato nos faz refletir


sobre a formação dos
Atualmente vivemos em um mundo no docentes dos anos iniciais perante essa
qual os recursos tecnológicos surgem a área de conhecimento, pois a forma
todo o momento, atrelados a como concebem esse campo de
informações por diferentes linguagens conhecimento interfere diretamente em
como: rádio, televisão, cd’s, jornais, suas práticas pedagógicas no cotidiano
revistas e internet. Por meio destes escolar.
recursos tecnológicos, adolescentes,
adultos e crianças presenciam e Ao visarmos uma aprendizagem
convivem com as constantes mudanças histórica por parte do aluno, focando-
sociais. Este ritmo acelerado de nos na compreensão de que os mesmo
mudanças e informações favorece a sofrem influência do mundo que os
sensação de presenteísmo, cerca, devemos considerar a História,
especialmente entre os jovens, em que: segundo Fonseca (2009, p. 50) como
[...] à medida que a sociedade
“[...] uma prática social, construída na
consumista tem se estruturado sob vida real por homens e mulheres”,
a égide do mundo tecnológico, formada por acontecimentos reais, por
responsável por ritmos de conhecimentos realizados pelas pessoas,
mudanças acelerados, fazendo com tendo como foco de estudo as “[...]
que tudo rapidamente se transforme diversas maneiras (de) como homens e
em passado, não um passado mulheres vivem e viveram, como
saudosista ou como memória pensam e pensaram suas vidas e de suas
individual ou coletiva, mas sociedades, nos diferentes tempos e
simplesmente um passado espaços” (Fonseca, 2009, p. 51).
ultrapassado. Trata-se de gerações
que vivem o presenteísmo de forma Por esse prisma, a História no Ensino
intensa, sem perceber liames com o Fundamental tem por objetivo conduzir
passado e que possuem vagas o aluno à reflexão e análise para uma
perspectivas em relação ao futuro
melhor compreensão da realidade que o
pelas necessidades impostas pela
sociedade de consumo que cerca. Com o entendimento adquirido
transforma tudo, incluindo o saber nas aulas de História, os alunos serão
escolar em mercadoria. capazes de agir por si próprios no meio
(BITTENCOURT, 2005, p. 14) em que atuam, valendo-se de suas
opiniões, indagações e pontos de vista.
Perante a tais mudanças, é fato que a
sala de aula e o próprio ambiente Dessa maneira, fazem-se necessárias
escolar sofrem influência dessas aulas de história mais críticas, não se
pautando em práticas de transmissões sua prática educacional algumas
ou repetições de conteúdos, mas sim, evidenciais históricas descritas acima,
considerando o saber histórico dos próprios da natureza histórica. Ao
discentes no processo de ensino e inovar suas metodologias, o professor
aprendizagem, em especial pelo fato de amplia as fontes didáticas que, além de
estarmos imersos em um mundo enriquecer o ensino, possibilita maior
globalizado, no qual as crianças a todo o participação do aluno nas aulas por
momento recebem informações que meio de debates, confronto de visões e
repercutem no próprio conhecimento experiência histórica. (FONSECA,
histórico que estão construindo. 2009).
(CAINELLI E SANCHES, 2008). 74
É relevante considerar que o ensino de
Durante as aulas de História, um dos História não se remete apenas à
maiores desafios do professor, de memorização de fatos ou de
acordo com Menezes e Silva (2007), é o informações detalhadas, ou mesmo à
de proporcionar atividades que tem saudação de figuras ilustres de heróis,
como objetivos promover a reflexão mas sim, compõem-se como um campo
sobre as diversidades de identidades do conhecimento no qual debate e
assumidas pelos alunos, pois os mesmos pesquisa revelam novos elementos,
estão inseridos em variados grupos fontes e informações para a construção
sociais, como: o grupo familiar, escolar, do conhecimento histórico.
de amigos... Tal situação possibilita que
Nessa concepção, o conteúdo histórico
os alunos sejam capazes de discernir
volta-se para contextualização, no qual
que os acontecimentos históricos
o aluno pode perceber que a disciplina
ocorridos ao longo do tempo estão
está presente, atuante em cada um, pois
intimamente ligados a todos os homens,
a mesma sempre fez parte da evolução
e que os mesmos influenciam o
humana estudando as transformações e
presente, mesmo tendo ocorrido no
permanências sociais no tempo. Perante
passado.
tal fato, os alunos podem perceber que
É preciso mostrar ao aluno que o “[...] crianças e os professores (também)
presente não existe por si só, e sim são protagonistas da história, e não
como resultado de idéias que se somam, meros coadjuvantes ou espectadores”.
de valores que se multiplicam e culturas (FONSECA, 2009, p.79).
que se entrelaçam, de ideologias que se
Deste modo, Benetti (2010, p.2) nos
confrontam ao longo de um processo
aponta que “o passado é o mesmo,
que se faz por relações interpessoais,
porém a forma de compreender,
quer na sucessividade, quer na
organizar e interpretar os processos
concomitância de ações. (MENEZES e
históricos é que mudam”, portanto a
SILVA, 2007, p.221).
disciplina de História ocorre por
A partir disso, a História se faz presente processos, e estes processos necessitam
no cotidiano social, e podemos de pesquisas e fontes, sendo o professor
evidenciá-la por meio de registros de um dos responsáveis por aguçar o
ações humanas como: documentos, interesse e a investigação por parte do
fotografias, depoimentos, monumentos discente, mostrando a eles que existem
e que evidenciam o real vivido por a necessidade de buscas e novas
homens e mulheres durante o tempo descobertas, bem como o fato de a
(FONSECA, 2009). Deste modo, é história possuir multiplicidades de
necessário que o professor considere na olhares sobre um mesmo
acontecimento, gerando novas reflexões orientando o aluno no sentido de
e opiniões. Tal situação vai de encontro buscar novas soluções para suas
com a própria sociedade em que dúvidas. (BRODBECK, 2009,
vivemos, agregada de múltiplas p.42).
informações onde: Em geral, nas séries iniciais, os
[...] somos permanentemente professores que lecionam História têm
confrontados com diversas visões sua formação em Pedagogia ou em
do mundo, por vezes em conflito Curso Normal Superior, sendo
entre si – tanto do passado como do responsáveis por lecionar as disciplinas
presente – e que muitas vezes básicas como: Língua Portuguesa,
colidem também com os nossos 75
Matemática, Ciências, História e
conhecimentos, interpretações e Geografia. Esse fato segundo Cainelli e
emoções. E na História acontece o Sanches (2008, p. 146), indica que os
mesmo: historiadores e filósofos da docentes “tiveram em sua formação
História apresentam diversas
uma disciplina que aborda apenas a
narrativas e explicações dentro de
diversos modelos epistemológicos,
metodologia de ensino das licenciaturas
para dar sentido ao passado. especificas”. Tal evidência, aliada à
(BARCA, 2007, p. 5). dificuldade cotidiana do educador
quanto à participação em cursos,
Do mesmo modo, Gago (2007, p. 128) palestras e seminários para atualização
nos alerta que nas aulas de história: de todas as disciplinas que lhe são de
[...] torna-se necessário enfatizar o competência no ensino básico, resulta
que existia no passado e já não se na falta de preparo em áreas específicas
possui, bem como propor do conhecimento. Essa situação pode
exercícios de comparação entre gerar uma prática mais tradicional de
realidades passadas mais próximas ensino, bem como acomodação e falta
da que se tenta compreender ou de motivação profissional.
mesmo realidades contemporâneas
e entre si diversas. Com aulas de história mais voltadas
para uma pedagogia tradicional, no qual
Um dos meios pelo qual que o aluno o docente, por vezes apenas se utiliza do
poderá adquirir de novas descobertas ou livro didático como única fonte de
novos caminhos de compreensão do trabalho e pesquisa, temos um
estudo da História pode ser com o panorama no qual o ensino e
exercício da leitura, ela torna-se uma aprendizagem da história se tornam
necessidade e o aluno a utilizará empobrecidos; essas aulas se tornam
freqüentemente, com a orientação dada cansativas e não atrativas para os
pelo professor, ele notará que a leitura estudantes, já que visa apena a
não é realizada apenas na sala de aula, memorização de acontecimentos
mais sim, em toda parte, tudo o que históricos. Tal situação segundo Duarte
existe tem uma história, tem um porquê (2005), conduz para a passividade do
de sua existência. Além disso, a leitura aluno, já que o aprendizado é mais
proporciona aquisição de melhor centrado no professor, talvez por que:
vocabulário seguido pela compreensão
do que se foi lido. Tradicionalmente, o ensino de
História revestiu-se de uma
É fundamental trabalhar a leitura e importância significativa tendo em
encontrar as dificuldades, quanto vista a formulação de objetivos
ao vocabulário, conceito ou definidos a partir de instâncias que
entendimento próprio do texto, não o próprio professor. Desde as
primeiras décadas de constituição ou em aulas expositivas, mas também
do Estado brasileiro, propunha-se deve vincular a prática educacional à
que esse ensino participasse da fundamentação da construção do
construção de uma identidade conhecimento histórico, no
nacional que impedisse o estabelecimento das relações entre o
esfacelamento territorial.
passado e sua realidade, no qual o aluno
(DUARTE, 2005, p. 53). possa compreender que o conhecimento
Portanto, as aulas com práticas histórico é resultado de pesquisas
pedagógicas tradicionais acabam historiográficas construídos por
proporcionando um aprendizado não historiadores. Para isso, de acordo com
reflexivo, de memorização de fatos e os autores, o professor deve “dominar o 76
datas. Franco e Venera (2007, p.75) conjunto teórico e metodológico
relatam que, por vezes, os alunos “vêem específico da disciplina História, ter a
o estudo da história como mero clareza das estratégias cognitivas de
acúmulo de informações sobre fatos, produção deste conhecimento” (p. 148)
nomes e datas do passado, sem relação A respeito da prática educacional com
com o presente” o que provoca uma foco tradicional, o Ensino de História
barreira entre o ensino-aprendizagem revestiu-se de uma importância
para ambos (professor e aluno), já que significativa em formulação de
as aulas mais tradicionais não enfocam objetivos definidos. Tais objetivos,
a pesquisa e a compreensão que os segundo Duarte (2005, p. 53),
alunos possuem sobre a história. “direcionavam não só a escolha de
O problema é que a maioria dos conteúdos, mas também a forma como
professores continuam lecionando eram transmitidos”. Devido a isso,
no molde tradicional. Centralizam aconteceram “as valorizações às datas
as aulas em sua pessoa, empregam ligadas às comemorações enquanto
como recursos apenas o quadro, repetições ritualizadas dos eventos”,
livro didático e a voz, além de não desencadeando estudos ligados a
deixar explícito os objetivos de
acontecimentos vistos apenas para o
cada aula e o valor do conteúdo
estudado. Permanecem trabalhando lado do progresso e cumprimentos do
cronologicamente e avaliando de que se era ligado à Pátria.
forma punitiva e classificatória Frente a isso, a aula de História pode ser
turmas numerosas e heterogêneas. considerada por muitas vezes como um
(MALTEZ, 2006, p. 1). conhecimento acabado, sem relevância
Bittencourt (2009) relata que o ensino e sem significado para o aprendizado do
tradicional é ligado à lousa, livro aluno, não considerando que esta
didático e giz, no qual a utilização deste disciplina se faz também por mudanças,
material implica no recebimento de pois:
várias informações de maneiras passivas [...] estudar história é criar
ao aluno que se tornam repetitivas com possibilidade de buscar explicações
cópias no caderno e exercícios para ações dos seres humanos, no
resolvidos nas propostas de livros passado e no presente. É realizar
didáticos. uma viajem por outros tempos e
espaços e, através da investigação,
Para Cainelli e Sanches (2008) o ensino tentar compreender os caminhos
de História não se reduz à transmissão por eles escolhidos, enfatizando as
de conhecimentos ou conteúdos ações sociais, econômicas e
históricos dispostas nos livros didáticos culturais ao longo do tempo, numa
época na qual, não apenas a cultura 45) relata que o uso do livro didático
histórica, mas o próprio sentido do deve ser consciente, já que são fontes de
conhecimento histórico parece ser extrema importância, isso se remete a
pouco relevante para os alunos. própria forma de uso dos mesmos, pois:
(BERUTTI; MARQUES, 2009,
p. 23). Os livros didáticos em sala de aula
precisam ser ampliados,
Isto mostra que a História enquanto complementados, criticados,
disciplina vive entrelaçando fatos revistos. O professor deve ter uma
passados com idéias, considerações e relação crítica, nunca de submissão
reflexos do tempo presente. É preciso ao livro de História, que, como
notar que ensinar história favorece a todo texto, toda fonte, deve ser 77
análise de experiências vividas no hoje, questionado, problematizado e
a partir da análise de experiências dos amplamente explorado com os
alunos.
nossos antepassados, ou seja, nada mais
é do que uma reflexão do passado que Há a necessidade de o professor trazer
influi no nosso cotidiano, por isso para outros documentos para a sala de aula
os alunos: que não sejam somente os livros
É fundamental que desde o início
didáticos, para que haja uma
da escolaridade (eles) possam complementação de materiais, correndo
perceber a pluralidade e a em busca das diversidades
diversidade das experiências metodológicas, o que favorece a
individuais e coletivas, dinamicidade das aulas. Assim, ao
compreendendo-as no constante aluno são proporcionadas novas formas
processo de mudança e de interpretação, novos meios de chegar
permanência, adquirindo a à análise concisa, crítica e real de
habilidade de analisar as relações, determinado assunto. Exemplos disso
as diferenças, as semelhanças e as são algumas aulas que envolvem visitas,
desigualdades. (BRODBECK, como ir ao museu, centros históricos,
2009, p. 06). centros urbanos e bibliotecas, que
Ainda para a autora acima, a aula de podem proporcionar uma aula mais
História deve oportunizar ao aluno um interessante para o aluno. Aulas
estímulo para a compreensão da diferenciadas promovem a formação de
realidade, sendo motivado a participar novas descobertas e aprendizados pelos
das aulas, falando, expondo suas idéias alunos, que poderá perceber que a
e debatendo-as junto aos colegas de sociedade muda com o tempo e que a
classe, para possíveis reformulações, e disciplina de História é um elemento
mesmo hipóteses. muito importante que reflete essa
mudança.
Tais considerações nos fazem refletir
sobre algumas posturas educacionais As visitas aos museus merecem
que vem sendo perpetuadas pelos atenção, para que possam constituir
docentes, como utilizar o livro didático uma situação pedagógica
como único recurso metodológico, no privilegiada com o trabalho de
análise da cultura material, em
qual os professores transmitem para
vista da compreensão da linguagem
seus alunos uma série de informações, plástica. Mesas, vasos de cerâmica,
muitas vezes acabadas, sendo papel do vidro ou metal, roupas, tapetes,
aluno nessa relação apenas o disseminar cadeiras, automóveis ou
e o decorar tudo o que lhe é transmitido locomotivas, armas e moedas
passivamente. Assim, Fonseca (2009, p. podem ser transformadas de
simples objetos da vida cotidiana, da localidade: a paisagem natural,
que apenas despertam interesse os equipamentos urbanos de valor
pelo “viver de antigamente”, em histórico e de valor afetivo, as
documentos ou em material personalidades de cada local e seus
didático que servirão como fonte de guardiões da memória.
análise, de interpretação e de crítica (MENEZES e SILVA, 2007, p.
por parte dos alunos. 223).
(BITTENCOURT, 2009, p.
355). Partindo da realidade do aluno como
eixo para o trabalho na sala de aula, o
Outro exemplo de uma aula que pode professor deve estar centrado naquilo
favorecer o aprendizado significativo é que for discutir com seus alunos, com 78
o trabalho com a história local, que preparação de materiais, documentos e
parte da realidade do aluno, do seu planejamento adequado à realidade de
próprio cotidiano, pois consegue cada um.
perceber elementos do passado da
Levando em conta que a criança está no
comunidade em que vive, possibilitando
início da alfabetização, torna-se
uma melhor compreensão da sociedade
necessário trabalhar a história a partir de
que está inserido e na qual virá a
fontes orais e iconografias, para que seu
intervir (FERNANDES, 1995).
aprendizado seja atrelado a sua
Para que o ensino ocorra de modo a competência, ou seja, trabalhar com os
promover um aprendizado histórico objetos de seu cotidiano; segundo os
crítico, baseado na vivencia e atrelado à PCN’s (2011, p. 44), “o papel do
realidade do aluno, é preciso um professor consiste em introduzir o aluno
trabalho docente aberto a novos na leitura das diversas fontes de
horizontes. Ao mesmo tempo, Duarte informação, para que adquira, pouco a
(2005, p. 59) ressalta que “o professor pouco, autonomia intelectual”.
nada mais é do que um intermediário, Portanto, em relação ao ensino que
alguém que traduz os objetivos e as parte da realidade do aluno, Oliveira
etapas do processo, para que ele seja (2006) ressalta que, estudar o ‘tempo
mais bem incorporado pelos seus vivido’ da criança favorece o
discípulos”. Para tanto, há a necessidade estabelecimento da relação com a
de utilizar de novos métodos de identidade do aluno, porém não a sua
pesquisa, novas fontes de informação, identidade social e histórica, já que
métodos que estimulem o despertar do limita-se ao seu grupo de convívio
aluno para novos caminhos a serem social no tempo presente e, a um
vistos, novas fontes a serem descobertas passado familiar, assim, o tempo vivido
e novas ferramentas que sejam é apenas enfocado na 1ª primeira série
utilizadas como fontes para aula de ou no Ciclo Básico e desaparece nas
História. É imprescindível, portanto, o séries seqüentes” (BITTENCOURT
trabalho da História ligada à realidade apud OLIVEIRA, 2006).
do aluno, ao seu lugar de moradia, aos
fatos ocorridos onde ele habita, para que Nas séries Iniciais, os conteúdos de
o ensino de história se torne História são elaborados para os alunos
significativo ao mesmo. visando à percepção de mundo, a
compreensão de si, do outro e de nosso
[...] O professor precisa também lugar e papel na sociedade, contribuindo
estar aberto para além dos muros e
para a formação de um cidadão crítico e
dos textos escritos, trabalhando
com os textos inscritos na história político, por isso:
Nas séries iniciais, os conteúdos construindo noções caras a essa
formulam o ensino das práticas disciplina. (PUGAS e RAMOS,
políticas institucionais possíveis, 2008, p. 7).
indicando os cargos eletivos dos
municípios e estados da Federação, Então, para que o aluno seja um cidadão
e a divisão de poderes do estado, que atue com autonomia, pensamento
informam ainda sobre os deveres crítico e atuante em nossa sociedade,
cívicos dos cidadãos tais como a durante as aulas de História torna-se
necessidade de pagamento de necessário que o mesmo adquira
impostos, de prestação do serviço conhecimentos sobre noções históricas,
militar e tem sido introduzidos sendo necessário o trabalho em que
estudos sobre as leis de trânsito, 79
professor e aluno realizem, de acordo
surgindo, assim, as idéias do com os PCN’s:
cidadão-motorista e do cidadão-
pedestre e ainda da preservação do  Busca de informações em diferentes
meio ambiente, especialmente nas tipos de fontes (entrevistas,
séries iniciais. (BITTENCOURT pesquisa bibliográfica, imagens,
apud OLIVEIRA, 2006, p. 74). etc.).
 Análise de documentos de diferentes
Os Parâmetros Curriculares Nacionais
naturezas.
para o Ensino de História (1998)
informam que os conteúdos do Ensino  Troca de informações sobre os
de História nas séries iniciais, objetos de estudo.

(...) estão voltados para atividades  Comparação de informações e


em que os alunos possam perspectivas diferentes sobre um
compreender as semelhanças e as mesmo acontecimento, fato ou
diferenças, as permanências e as marco histórico.
transformações no modo de vida  Formulação de hipóteses e questões a
social, cultural e econômico de sua respeito dos temas estudados.
localidade, no presente e no
passado, mediante a leitura de  Registro em diferentes formas:
diferentes obras humanas. textos, livros, fotos, vídeos,
(BRASIL, 2001, p. 49). exposições, mapas, etc.
 Conhecimento e uso de diferentes
Além disso, Pugas e Ramos (2008) medidas de tempo. (BRASIL, 2001,
relatam que nas primeiras séries do p. 58)
Ensino Fundamental, é preciso ensinar o
passado utilizando-se de alguns Por isso, os professores devem estar
elementos, como a comparação, a atentos à construção de conhecimento e
análise de dados e fontes, a ao saber histórico dos alunos, tendo um
temporalidade, entre outros: olhar para o fato histórico, sujeito
histórico e tempo histórico como
O objetivo do ensino da História, norteadores da atuação do professor,
também nos primeiros anos do desenvolvendo o corpo central na
Ensino Fundamental, não é o escolha de conteúdos e atividades para o
passado pelo passado, mas os
ensino-aprendizagem. Para que isso
procedimentos de análise e os
conceitos capazes de levarem conta aconteça, o professor deve ter a clareza
o movimento das sociedades, de sobre o domínio da disciplina, o que
compreender seus mecanismos, nem sempre acontece por determinados
reconstruir seu processos e fatores, desde a desmotivação com
comparar suas trajetórias relação à sua própria profissão, falta de
opção por algo que realmente o faça se Conclusão
identificar como comprometimento
Conclui-se deste modo que o trabalho
profissional e o próprio desmerecimento
com a diversidade de fontes históricas,
que a educação enfrenta frente ao
que valorizam os saberes e
reconhecimento de sua importância para
conhecimentos prévios dos alunos,
a formação do cidadão.
conduzindo os alunos a uma prática
Sendo assim, é possível operar com a voltada para as temporalidades,
produção do conhecimento histórico nas favorece a construção de um
Séries Iniciais sem que isso gere perda conhecimento histórico mais
na transmissão e recepção de significativo para as crianças, no qual as 80
informações ou na simplificação de mesmas se sentem pertencentes ao
conteúdos e conceitos. Menezes e Silva processo histórico.
(2007, p. 217) ressaltam que o professor
Através das leituras realizadas sobre o
deve e precisa buscar estratégias que
possibilitem aos alunos a reflexão e a ensino de história, nota-se também que
construção de conceitos por meio de os professores ainda confundem sua
articulação, articulação esta, utilizando metodologia com a passada a eles
o saber histórico como campo de durante sua estadia como alunos nas
escolas de ensino fundamental e médio.
pesquisa e produção de conhecimento
Preferem seguir o ritmo tradicional,
do domínio de especialistas e o saber
tendo como postura única a sua figura
histórico escolar como conhecimento
perante toda a sala de aula, para que
produzido no espaço escolar.
assim, de conta dos conteúdos ao longo
Diante disso, surge a necessidade do do ano, mais sem proporcionar ao aluno
professor discutir a noção de a devida contribuição para que seja
temporalidade, permitindo que ele ativo e participante e pensante de suas
compreenda melhor determinado próprias conclusões. No entanto, ainda
acontecimento por meio de ligações do sobre o tradicional, averigua-se que os
contexto social em que ocorre ou professores da escola abordada seguem
ocorreram, sem deixar de mencionar a o tradicional uma vez que, os
questão da identidade. O aluno deve ter professores das séries iniciais são
noção de quem ele é, do que ele responsáveis por todas as disciplinas
representa junto à sociedade, seus escolares a serem ensinadas aos alunos,
diretos e deveres como cidadão, qual a mesmo sem ter a devida formação.
contribuição dele como sujeito de
Torna-se necessário, também, rever seus
conduta própria de suas ações
conceitos sobre a disciplina de história,
interligadas entre o seu grupo social, o
dando a ela mais importância para ser
grupo que todos nos pertencemos.
transmitida aos alunos e acabando com
Para isso, Brodbeck (2009) cita o apoio a visão de que ensinar história
de materiais de pesquisa como revistas, representa simplesmente a volta ao
jornais, e demais meios de comunicação passado. Ainda, deve averiguar que
que expressem diversas formas de ensinar história deve ser um processo
cotidiano do ser humano, que ilustrem constante, onde professor e aluno
que cada um possui o seu tempo e seu constroem e compartilham diferentes
lugar que, com o passar do tempo, vão conhecimentos sobre determinado tema,
se alterando. em que a participação do aluno não seja
repreendida, mas incentivada
constantemente, tornando o professor e
o aluno próximos e melhorando o FERNANDES, José Ricardo Oriá. Um lugar na
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