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S TENCH

“Certamente eu sou a mais hedionda generalização do Desconforto...


Eu sou aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do
caminho, a poesia de tudo quanto é morto!”
(Augusto dos Anjos)

Hannibal Allan Poe


Criado em 13/11/2010
A NÉVOA

A
névoa recobre o ambiente crepuscular. Uma densa emanação que paira sobre o
chão é a primeira coisa que constato ao abrir os olhos. Ao levantar-me,
sonolento, meus pulmões doem como se pela primeira vez recebessem o ar em
seu interior. Com a vista limitada por uma parcial cegueira, procuro me localizar através deste
nevoeiro. O ambiente é bucólico. Não consigo encontrar uma razão para que eu esteja aqui.
Em minhas memórias conturbadas, ainda que não possa afirmar com exatidão meu último
paradeiro, não há qualquer referência ao campo. Caminho sobre as folhas que apodrecem
devagar liberando seus vapores pútridos. Por alguma razão que desconheço, meus
movimentos estão retardados e minha respiração pesada, mortificante. As dores pulmonares
persistem e aumentam consideravelmente...
A caminhada prossegue. Ainda que com dificuldade, posso ver algumas formas
humanas mais adiante. Vultos curvados e de movimentos moribundos; formas grotescas numa
dança assustadora e diabólica. Estão lentos... Numa caminhada algo que coreografada,
tamanha é a homogeneidade do movimentar destes vultos. Tento apressar meus passos para
que possa alcançá-los, mas o esforço é em vão. As sombras se afastam e somem na imensidão
que se torna toda e qualquer distância ao ser engolida pela nuvem densa. Sobre minha cabeça
uma ave agourenta passa emitindo seus malditos cânticos.
Mais a frente, recaio sob a copa de uma árvore ancestral, rugosa e fétida. Uma falta de
ar perturbadora me obriga a um exercício mais intenso em busca de oxigênio, ainda que as
dores me flagelem em proporções equivalentes ao meu esforço. O dia vai recebendo os
primeiros raios. O ar falta-me cada vez mais... Assim como minha consciência se esvai num
fluxo deletério...
Não sei por quanto tempo estive desfalecido. Presumo não ter sido por tanto tempo,
haja vista que ainda não está totalmente claro. Levanto com um pouco de dificuldade e
prossigo, agora com melhores vistas. Novamente encontro as sombras de outrora. Os mesmos
diabos curvados. Eles estão todos reunidos e parados. Uma espécie de reunião que apenas a
visão desconcertante já seria suficiente para minar a sanidade de um espectador mais
impressionável... Evito maiores aproximações enquanto mantenho-me a observar.
Estranhamente, uma emanação passa a envolver o lugar de reunião; um miasma
terrível. Sons inarticulados são emitidos pelas figuras reunidas. Sou atraído por uma força
descomunal que me obriga a fazer parte do grupo de vultos. Enquanto sou impelido à

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aproximação ao grupo, passo a observar o ambiente circundante em sua totalidade. Trata-se
de um lugar morto. Mórbido. Sou conduzido e passo sob um arco com alguma inscrição...
Árvores tortas e sem folhas estão distribuídas de forma estranha, quase que ordenadas.
O vento cortante e gélido que movimenta a colcha de podre folhagem que recobre o chão
passa por minha pele e parece modificar a própria essência de minha alma. Algumas cruzes
antigas estão fincadas na terra. Umas caídas, danificadas talvez pelo tempo, não sei. Covas
abertas, mas como se a partir de dentro, reviradas. É aterradora a visão deste inferno!
Neste momento já sei onde estou, acredito que saibas também. Aves negras pousam
sobre os galhos acinzentados e encaram-me friamente. Parecem entoar uma sinfonia de
maldição para o meu destino. Minhas entranhas se contorcem miseravelmente. Curvo-me
devido às dores e caio ajoelhado sobre a terra. Os demais presentes nesta reunião maldita nada
demonstram e permanecem imóveis, como a contemplar algum ídolo invisível. Surpreendo-
me com o aspecto das sombras agora materializadas: são literalmente cadáveres "vivos"!
Perdoem a incoerência da minha denominação, mas não encontro outra mais adequada ao
estado destas bestas. Suas roupas – os que possuem algo – são apenas trapos sujos. Alguns
são cobertos apenas por uma camada de pele esverdeada e rompida, de onde escorre um fluxo
mefítico de sânie amarelada. Outros expõem apenas a musculatura putrefata sendo devorada
lentamente pelos vermes famintos. Macilentos defuntos - ainda que haja um velho gordo
ainda mais repulsivo e hediondo.
De súbito eles passam a se decompor rapidamente. Consumidos em instantes! Um por
um vão caindo em pedaços podres ao chão, formando uma camada putrefata de carne e
secreções pestilentas. É um momento verdadeiramente aterrador. Como se minha carne se
soltasse de minha ossada e ao chão fosse se depositar como alimento aos bichos, sinto como
se minha própria "decomposição" estivesse em curso, num ritmo ferozmente acelerado por
alguma força inexplicável... Dores inauditas me fazem lembrar de certas coisas que se
encontravam perdidas. Pensamentos confusos, talvez alucinações resultantes do sofrimento
cruciante que experimento. Lembranças de minha própria morte... Algo tão improvável assim.
Caio em contorções horríveis. Ao longe uma mulher e um gato preto observam o espetáculo
que se processa.

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O PASTOR

A
menina se revira na cama velha onde estão ensopados dum suor velho, os
lençóis. O quarto mal iluminado está infestado com esta emanação infecta. A
sua velha avó profere alguma prece que não posso entender, pois o dialeto é
estranho a mim; já a mãe, mulher de meia-idade, está ajoelhada numa posição penitente.
Outras mulheres em uníssono cantarolam uma cantiga ancestral. E a menina... A menina se
contorce com mais violência; abruptamente.
É dramático ver os espasmos deste corpo macilento. Nua, lascivamente abre suas
pernas finas de menina em minha direção. Percebo um riso no canto de sua boca. Uma voz
gutural... Ela rosna. Todos, atônitos, estão paralisados pelo temor provocado pela vocalização
estranha. A voz é ameaçadora em essência, ainda que eu não entenda o que acabou de ser
dito. Prantos inauditos das mulheres aqui presentes...
O calor aumenta e o fedor se torna mais acre. No meu relógio já se marca o fim da
tarde. O crepúsculo se revela lá fora enquanto o quarto cada vez mais lúgubre e mórbido se
torna. É insuportável, sufocante e mortífero continuar assistindo tão grotesca cena. À porta
alguém bate apressadamente. Um anônimo corre para abri-la. Este volta correndo e gritando
alto, à plenos pulmões:
-É o pastor! É o pastor!
O recém chegado pastor adentra o quarto nauseabundo e não se impressiona com a
devassidão estampada na posição da jovem. Não se incomoda com o fedor. Não me percebe
ali. Ele parece já ter um vasto conhecimento acerca destas manifestações obscuras duma
mente perturbada. Diz numa voz seca e ríspida:
- É um espírito maligno que se apossou desta criança.
Todos silenciam diante da sentença. O meu interesse começou a aumentar...

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TRIVIALIDADE E UMA CADELA

P
assava eu e mais um amigo por uma rua imunda quando vi uma cadela e alguns
filhotes que de suas tetas extraiam leite. Num ritmo frenético sugavam aqueles
mamilos feridos da progenitora também esfomeada. Ao ser tomado de súbito por
uma malevolência atroz, um chute desfiro contra a ninhada faminta. Os cinco pequenos
cachorros voam para longe. Já podes imaginar os ruídos agudos dos pequenos cães. A cadela
muito magra não tinha muitas forças, mas bravamente levantou e se colocou numa postura
agressiva a rosnar. Admirei sua valentia e ri comigo mesmo. Chutei-a. Do chão apanho um
pedregulho que lanço contra a cachorra quase morta. O esfacelamento não exige maiores
detalhes. Senti-me muito bem depois desse assassínio. Continuei meu caminho rumo à minha
casa

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MANDUCA

D
e alguma forma tenho acesso ao contato diário com anciões. Posso observar
todo o processo de lenta degradação da vitalidade humana. Já imaginas que sou
funcionário de um asilo... Não estou aqui para lhe dar certezas, afinal.
Todos os dias, estou pronto a satisfazer necessidades que os corpos fracos já não
podem realizar por si só. Há algo de benevolente em minhas ações, sem sombra de dúvida;
mas ganho para isso. Enfim, há um entrelace de interesses que se comunicam reciprocamente
de uma forma que não me sinto capaz de elucidar.
Manhã ensolarada de sábado. Há tempos os velhos não podiam desfrutar de um
passeio pela área verde do abrigo. É um tempo de chuvas freqüentes, afinal. No já referido
passeio, eles podem exercitar a musculatura carcomida, conversam entre si num saudável
processo de socialização. Percebem-se sorrisos em suas faces que outrora, e na maior parte do
tempo, expressam algo de lúgubre e mórbido. Os que ainda usufruem de alguma consideração
por parte de suas crias recebem visitas – algumas deveras forçadas por algum intento
execrável – e, se assim for o caso, saem para passeios mais demorados. O que me impressiona
de forma intensa é pensar na expectativa da volta ao ambiente familiar, ao convívio com as
gerações mais avançadas de sua linhagem. Lógico que tal esperança por parte dos velhos é
logo obliterada assim que estão de volta ao asilo. De qualquer forma, tais manhãs - ou dias
inteiros - são positivas aos residentes deste modesto abrigo.
Sou encarregado da limpeza dos cômodos e aproveito o momento em que os idosos
estão fora. Lembro-me que um dos quartos precisa de reparos num móvel antigo. Levo para lá
minhas ferramentas. Sigo pensando em minha velhice...
É o quarto n° 25. Vejo numa ficha de controle que o residente se chama Álvaro;
Álvaro Gonçalves. Atende pela alcunha de Manduca. A porta está fechada. Bato e não recebo
resposta. Utilizo uma chave-mestra e me surpreendo com uma cena hedionda. O velho
manduca, sem roupas, se contorce em espasmos convulsos sobre a cama repleta de
excrementos liquefeitos. O fedor que me atinge ao abrir a porta faz com que minhas vísceras
se movimentem violentamente. Após recuperar-me da ânsia súbita chego ao pé da cama do
animal que sobre ela continua com uma coreografia demoníaca. Numa dança grotesca seus
membros se contorcem de forma inexplicável. Grunhidos guturais ele libera enquanto realiza
os movimentos.
Minha própria percepção está alterada. Alguma emanação entorpeceu meus sentidos.
O quarto parece se recolher em si mesmo, numa curvatura claustrofóbica, como se fosse um

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predador a lentamente abocanhar uma presa mais desavisada. Minha voz torna-se um mero
sopro enquanto um suor gélido escorre de minha testa. A impressão que tenho é a de que
estou dividindo com esse velho alguma espécie de transe espiritual... Inexplicável tortura que
não aplica sobre mim dores, mas sim tormentos psíquicos severos.
Em busca de livrar-me dessa possessão, procuro golpear o velho que padece sobre a
cama. Tenho a impressão de que é dele que todo esse processo nefasto provém. Vou
cambaleante até a caixa de ferramentas que trouxe para o conserto do móvel antigo. Um
martelo será suficiente para matar o velho. Volto em direção à cama e, sobre ela, um Gato
agourento se põe a me observar. Os dois olhos daquele Gato preto estão a me encarar
atentamente. Aturdido com a visão do felino medonho, sem pensar lanço um golpe sobre ele.
Acerto a parte frontal da cabeça do animal que a plenos pulmões libera um som indescritível.
Ele convulsiona ao chão liberando uma escuma branca na forma de vômito. Do olho
esquerdo, um pouco afundado para o interior da cabeça, na deformação craniana, vaza uma
substância repugnante. O velho cai violentamente sobre a cama imunda. Imóvel.
Observo, agora que os movimentos cessaram, o aspecto do corpo do homem. Está com
uma magreza de cadáver. As pontas dos ossos formam ondulações salientes sob a pele
enrugada. Meus sentidos ainda entorpecidos, de forma canhestra, percebem toda a fealdade do
velho. A face macilenta, cor de chumbo, possui covas profundas. Cor de chumbo... Os lábios
estão todos consumidos por feridas vivas e brilhantes. Os olhos de Manduca parecem pular de
suas órbitas. Encaram o teto com espanto. Totalmente calvo.
De súbito ele levanta o peito, infla as costelas, como que buscando ar. Repete o
movimento. Para minha surpresa outras contorções esse desgraçado corpo produz, contorções
essas ainda mais bizarras. Todas as deturpações sensoriais que me abatem se elevam até
níveis paralisantes. Seria isto a morte?! Sufocante. Com uma fúria virulenta, o martelo, já sujo
com pêlos e sangue do Gato preto, atinge a face de Manduca. Ele não grita, parece não sentir
dor alguma e, o que é pior, ainda se contorce! A testa já afundara com este golpe certeiro.
Lanço outros, repetindo instintivamente as marteladas precisas até que aquela face seca está
totalmente deformada. Olhos saltados de suas órbitas. Massa encefálica e sangue se misturam
ao suor do corpo, às fezes que já incrustavam sobre o lençol infecto. Maxilar partido em
várias faces. Desumanizado em suas formas exteriores...
Os movimentos extremos agora se resumem a leves tremores nos dedos das mãos de
Manduca. Ainda me sinto dominado por alguma força degenerativa que se esvai devagar, ao
passo que vou perdendo minha consciência gradualmente. Um sono abate meu corpo.
Por um tempo impreciso, dormi...

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Acordo cercado pelos idosos que cuido diariamente. Exibem uma expressão que
mescla preocupação e alívio. Trazem-me um desjejum generoso. Ao levantar, procurando
uma posição adequada à minha alimentação, observo, à beira da porta, a espreitar
silenciosamente, aquele mesmo Gato preto de outrora. Uma vertigem faz com que eu derrube
o suco que uma senhora trouxera até mim. Mais ao fundo, encurvado pela velhice, e com o
mesmo olhar mortífero do gato, está o velho Sr. Álvaro Gonçalves: Manduca!

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O ULTRA-ROMÂNTICO

E
o rapaz contava, soluçando em prantos, todo o seu “amor”. Falava de todas as
virgens anêmicas e suas pálidas frontes banhadas por um suor convulso em meio
às noites de carícias infantis. E eu ria do pobre amante. Bebia meu vinho e ria de
tamanha insolência. A taverna estava cheia. Vários bêbados circulavam pelo espaço. Poetas
anônimos recitavam seus versos para as belas prostitutas da casa. Pego uma delas em meus
braços. Ao jovem digo:
-Rapaz! Abandona aos vermes estes teus sonhos pueris! Que estes famintos
devoradores consumam toda esta tua insânia! Relega à putrefação todas estas tuas ilusões
ultra-românticas! Estas jovens pálidas que outrora lamentastes a perda jamais existiram,
creio eu. Entrega-te à formosura das morenas que ali transpiram lascívia, verme. Aqueles
volumosos seios são reais. Aquelas meretrizes estão longe da frieza destes cadáveres com os
quais tu sonhas. Livra-te dos fedores daquelas carcaças inertes! Viva ao menos um dia fora
desta tua ilusão literária!
Mas o diabo em minha frente não me dava ouvidos. Enterrava cada vez mais a face
entre suas duas mãos e lamuriava...
-Diabo! Que morras sufocado neste pranto teu ilegítimo! Que os corvos carniceiros se
saciem de tua carne podre, infeliz! Levem o cérebro onde fermentas loucuras e devaneios
cegos!
Eis que ele ergue os olhos vermelhos como brasa incandescente:
-Do que falas, incrédulo? Este teu materialismo não te permites entender minha
situação. Não passas de um desesperado que busca o calor do colo prostituído. Os beijos que
todos já provaram, o gozo que todos já gozaram. Tu és um cadáver que respira! De teu corpo
emanas apenas este ateísmo mefítico!
Em réplica, grito:
-Diabo insolente! Alimentando tuas loucuras o que ganhas? A idolatria que tens para
com os cadáveres anêmicos de tez amarelenta é repulsiva!
Por fim, o jovem levanta da mesa e sai da taverna. Deve ter ido ler mais algumas
páginas dos romances ultra-românticos donde surgem os fantasmas que o atormentam... Volto
à minha meretriz. Uma ode à secura do meu materialismo merece ser entoada!

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EIS COMO ELE DESCREVE...
As sensações que obtém através do abuso dos pequenos corpos:

"N
ão imaginas o desejo que percorre este corpo nefando que possuo... Sentir
o aroma da pele infante... Os sons que balbuciam... São fáceis de seduzir.
Apesar de não compreenderem a totalidade da situação à qual estão
submetidas, elas percebem algo diferente e, a partir daí, passam a esboçar alguma resistência.
Não posso negar que isto torna todo o processo muito mais apreciável... Uma vez dominadas,
tudo se torna mais simples. Estrangulo-as até que morram sufocadas escumando pelo canto
dos lábios... Tremem tal qual um animal num abate. Precisas presenciar tal acontecimento..."
Então ele continua a descrever os abusos, os toques maliciosos, os fluidos dos corpos,
o cheiro dos cadáveres, tudo em detalhes muito bem refinados e vívidos. Enquanto gravo suas
palavras para o relatório não posso deixar de me surpreender com o quanto isto tudo se torna
interessante para mim. Parece que estou a ouvir minha própria voz...

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UMA CEIA EM FAMÍLIA

D
ia 24 de dezembro de um ano qualquer: véspera de Natal. Todos preparam seus
suntuosos banquetes, uma lista interminável de alimentos e bebidas das mais
variadas espécies sobre as mesas decoradas com extrema atenção por mães
afetuosas e suas auxiliares. O brilho das lâmpadas ornamentais em volta das árvores nas quais
os presentes são colocados aos pés. Os sorrisos estampados em cada rosto. Natal...
Sou convidado especial duma casa em especial. Mas, antes de qualquer coisa,
esqueçam o quadro traçado anteriormente. Esqueça os banquetes; esqueça as luzes e esqueça
também os sorrisos. Aqui só há uma lâmpada providenciada de forma precária sobre a cabeça
de quatro corpos. O banquete... Também não há. Apenas uma panela vazia espera por um
milagre dos céus em cima dum fogão pequeno e empenado. Uma pia empoeirada com
algumas colheres dispersas, uma faca grande; nada mais. No centro deste cômodo (é a isso
que se resume esta “casa”) uma mesa velha e ao redor dela três crianças que estão reunidas
em silêncio. Parecem se comunicar com os olhares que trocam furtivamente. A mulher,
provavelmente a mãe dos três pequenos, caminha de um lado para o outro... Pensativa. Emite
resmungos contidos. Parece lançar blasfêmias contra Deus, maldizeres contra a trindade. No
lugar de sorrisos apenas o som destas lamúrias.
Os pequenos são magros. A pele coberta por feridas e coceiras que a todo o instante se
abatem sobre eles. Os cabelos loiros desgrenhados e repletos de piolhos. Os olhos azuis,
fundos e sem vida. Dentes deteriorados e inflamações nas bocas. A mãe é uma mulher alta,
magra. Seus longos cabelos loiros estão amarrados. Usa um vestido azul, já desgastado pelo
uso. Dirijo meu olhar para as paredes. Há apenas uma foto pendurada. Algo me deixa
intrigado. A foto parece não ser destes que aqui estão. Nela vejo três crianças saudáveis e
risonhas. A mulher com um vestido vermelho, assim como a cor dos seus lábios, abraçada a
um homem que sorri abertamente. O velho núcleo familiar burguês...
Volto meus olhos para a mesa. As crianças parecem elaborar algum plano entre si. A mãe
continua com seus dizeres sórdidos. Toma um gole de alguma bebida. Tenho a impressão de
que está a esperar alguém. “Filho da puta! Todos aí te dando graças e tu nos submete a
tamanha miséria? Filho da puta! Filho da puta!” Eu pude ouvir claramente. Acredito que os
pequenos também. Mais um gole... Ela senta num sofá velho num canto do cômodo.
Adormece.
Os filhos se levantam da mesa e, ao mesmo tempo, balançam suas cabeças em sinal de
positivo. A mulher está tão bêbada que nada percebe. O maior dentre os três vai até a pia e

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toma a faca em suas mãos trêmulas. Os menores afastam-se da mãe que dorme, ainda
resmungando maldições ininteligíveis, e se abraçam. Com a faca em punhos, o primogênito, a
passos curtos, abafados, se aproxima cada vez mais. Está suando. Suas mãos tremem... Ele
parece hesitar por alguns instantes... Olha para os seus irmãos que o incentivam... Com
lágrimas nos olhos ele está diante do ventre que o pariu. Desferindo um golpe certeiro na
garganta de sua mãe, ele estremece...
A mulher pula de sobressalto; não entende o que se passa. Não consegue falar. Apenas
emite grunhidos bizarros. Lembro-me de porcos em matadouros... O sangue jorra com
violência chegando a banhar os três meninos que assistem a tudo. Ela convulsiona com as
mãos em volta do pescoço perfurado... As pernas tremem de forma incontrolável. Pára...
Agoniza... Morre.
O menor dos meninos se aproxima e chuta-lhe a cabeça. Os olhos ainda arregalados da
mulher parecem encarar suas três crias. Tiram a roupa do corpo morto. Eles observam o
ventre de onde foram expelidos. A mesma faca que matou a mulher é fincada em seu
abdômen revelando as vísceras maternais. Batidas à porta. O infante assassino vai até ela e a
abre. Um homem baixo, com uma barba considerável, e cabelos compridos, afaga o menino.
O cheiro de cachaça se faz presente e se mistura ao fedor das tripas expostas.

-“Meus parabéns, meus filhos. Nosso Natal será perfeito. Eis a ceia que nosso Senhor
Jesus Cristo nos oferece. Aleluia! Aleluia!”.

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AS PALAVRAS DUM ESQUIZOFRÊNICO...
QUE OUSOU OLHAR ATRAVÉS DA JANELA

S
ete e meia da manhã. Tudo corria em ordem nesse dia. As pessoas percorriam
seus caminhos habituais. Adestradas podem percorrê-los de olhos atados... Os
carros e seus escapamentos velhos, a fumaça negra subindo. O barulho sem fim...
Enquanto contemplo mais um dia que chega sinto uma dor inexplicável em meu abdômen.
Algo como se minhas entranhas estivessem sendo devoradas... Minha cabeça pesada... Abro
os olhos e ainda estou sobre a cama. Inexplicavelmente são sete e meia da manhã. Um sonho?
Levanto do leito e sinto um cheiro desagradável. Não identifico a fonte... É bem fraco... Vou
até a janela. Abro-a e sinto dessa vez um fedor tão pungente que vomito o que comi pouco
antes de dormir. Quando posso finalmente ver através da janela... Que diabos...
Uma cena inexplicável. Sobre os telhados pássaros mortos amontoados. Alguns apenas
em ossatura; outros cobertos por larvas que caem acidentalmente ao chão. Alguns que ainda
estavam vivos continuam a cair mortos e sem explicação alguma. Olhando para o chão a
desgraça é ainda maior. Os cães moribundos, esqueléticos vagam pelas calçadas enquanto são
consumidos por feridas sangrentas. Vários cadáveres caninos sendo devorados pelos ratos, até
mesmo por outros cachorros famintos... O mesmo acontece com os gatos... Os algozes sendo
comidos por suas antigas presas... Os ratos tomam conta da superfície! Uma mulher encostada
à parede tossia e escarrava sangue. Ao lado dela o corpo dum homem gordo infestado por
vermes em meio à gordura e a carne putrefata. Olho mais além e observo os inúmeros corpos
sobre as calçadas. Cães, ratos, gatos e homens numa amálgama pestilenta... As moscas
sobrevoavam toda a matéria em decomposição... Algumas entram pela minha janela.
Testemunhas desta hecatombe...
A dor de outrora volta. Vejo meus braços: estão cobertos por chagas. Alguns vermes
começam a aparecer. Algo devora meus intestinos...
O chão está coberto por um vômito seco. Ratos também adentram nesse cômodo.
Ainda estupefato tento entender o que se passa. Seria isso o tão prometido fim? O
cumprimento das antigas profecias? O que faço aqui? Por quê? Deus...
Vomito novamente. O fedor cáustico é atordoante...

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O FIM DO VELHO

U
m recanto decadente. Um fedor asfixiante invade minhas narinas. Apenas uma
luz precária ilumina o único cômodo. Uma luz tremula... Tenho certeza que a
qualquer momento se extinguirá... Móveis velhos e empoeirados. Uma janela
escancarada pelo vento permite que o vento frio torne este lugar ainda mais miserável...
Pelo chão os ratos passam a todo instante. Fezes humanas e restos alimentares salpicam o
carpete imundo. É nauseante... Num dos cantos observo um corpo trêmulo. Aproximo-me
dele. Tenho certeza que ele é uma das fontes dessa fedentina pestilenta. É um velho.
Extremamente magro e fraco; as pontas de seus ossos saltam para fora o deformando de
maneira grotesca. Os cabelos brancos desgrenhados acentuam a imundície. A barba garante
um semblante ainda mais funesto ao homem. Olhos fundos... Vazios. Pergunto:
-Tu, miserável, diga-me como devo chamar-te.
Ele suspira ruidosamente e não balbucia nada além de ruídos indecifráveis. Os
pulmões estão repletos duma secreção que o pobre diabo já não mais consegue expelir. Uma
tosse carregada que libera o hálito carregado do moribundo. Posso perceber a falta de vários
dentes. Os que sobram são amarelos já pendendo a um tom enegrecido. A língua está inchada
e coberta por feridas ainda bem vivas. O velho tremia de frio, ou fome, ou as duas coisas...
Mas tremia. O ranger dos poucos dentes num ritmo frenético incomoda com o passar do
tempo...
Continuo a passar os olhos pelo sepulcro anunciado deste velho. Algo havia passado
despercebido: um cão. O animal se encontra num estado tão deplorável quanto o do outro
bicho. A mesma secura, os mesmos insetos que parasitam sobre os pêlos, as feridas e o
fedor... Isso principalmente: o fedor. Ambos exalam este odor execrável... Penso sobre o
cachorro... Seria ele o único companheiro deste velho decrépito? Lamberia o cão as chagas
sobre a pele do homem? A única fonte de afeto ali existente? O que diabos esse cão quase
morto fazia ali? Sob a luz fraca da lamparina eu pude ver os olhos arregalados do animal. Ele
fita sem parar o corpo inerte, porém, vivo que descansa no chão sujo. Agora entendo... O
cachorro, reproduzindo os hábitos carniceiros dos abutres, estava apenas aguardando que o
velho morresse. Aguardava o momento em que a carne desta musculatura combalida pudesse
apaziguar a fome que devorava suas entranhas. Esperava poder roer a ossatura fragilizada.
Que a morte do velho pudesse retardar a sua morte também certa. Sento ao lado do homem.
Começo a rir de tamanha má sorte. Se ao menos ele fosse um leproso... Mas não o é.

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-Tu, miserável. O que fez para receber tamanho esquecimento? Onde estão teus
semelhantes? Mortos como em breve tu estarás?
Ele nada responde. Apenas geme. Está chorando. Levanto-me e fico atrás do cão que
ignora minha movimentação. O cachorro se aproxima do velho que sofre espasmos e agoniza
em seus últimos instantes. Está de frente para o moribundo. Imóvel...

E assim morre o velho.

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FRANK HOWARD E GRACE BUDD1

O
anúncio no jornal trazia o seguinte: "Homem jovem, 18, deseja a posição no
campo. Edward Budd, 406 West 15th Street." Mal sabia este jovem o que lhe
esperava ao publicar estas poucas palavras... No dia vinte e oito de maio,
exatamente três dias após postar o anuncio, bate na porta de Edward um senhor de meia idade.
Por volta de seus 58 anos, cabelos grisalhos, magro, olhos azuis e fundos... Bochechas secas
formando uma cavidade meio profunda. Usava um bigode convencional apenas. Uma
aparência amigável e modesta. Seu nome era Frank Howard, um fazendeiro relativamente
bem sucedido.
Cumprimentam-se com um breve aperto de mãos. Em seguida Frank é convidado a
entrar e assim o faz. Em sua cabeça vários pensamentos se passavam... O mais intenso era
como ele mataria e o que faria depois com o corpo de Edward. A decisão havia sido feita:
Edward Budd seria castrado e sofreria um corte que lhe causaria uma hemorragia ininterrupta.
Talvez fosse sodomizado, não posso afirmar com certeza. Em meio a esse turbilhão de idéias
os dois caminhavam em direção à sala para encontrar com os pais do rapaz quando cruzam
com uma menina. Adorável aspecto carregava em seu semblante. Olhos verdes, cabelos
escuros e uma pele branca; lábios firmes e vermelhos... Dez anos de idade.
Frank sente algo estranho. Fica fascinado por aquela menininha adorável. É dominado
por uma vontade tamanha de tê-la, algo sem explicação. O nome deste objeto fascinante para
Frank é Grace Budd, a irmã de Edward. Neste momento, Frank pede desculpas a Edward e
arruma um problema urgente que precisa ser resolvido imediatamente. Antes de partir garante
o emprego do jovem e diz que em poucos dias estará de volta para buscá-lo.
Como prometido, Howard retorna à casa da família Budd. Carrega consigo uma cesta
coberta com um pano vermelho contendo um queijo fresco e vários morangos. Retribuindo a
gentileza, é convidado para sentar-se à mesa junto com a família.
Conversam bastante enquanto comem. Frank fala de sua fazenda, suas posses, história
familiar, dentre outras. O Sr. e Srª. Budd o ouvem com atenção e respeito... Dão risadas
juntos... Um clima amistoso toma conta do lugar. Grace, a menina, senta-se no colo do novo
amigo da família e lhe dá um beijo inocente... Frank pensa alto... Pensa em comer sua carne.
No fim da tarde, o fazendeiro levanta e diz que precisa ir, mas antes anuncia o
primeiro trabalho de Edward: ornamentar a fazenda e fazer pequenos consertos para a festa de
aniversário de sua sobrinha. Pegá-lo-ia mais tarde, após Frank apanhar um amigo que morava

1
Baseado em fatos reais. A carta escrita ao fim do conto é a carta real.

16
ali próximo. Já quando estava se aproximando da porta da frente da casa, pede permissão à
mãe de Grace para levá-la à festa, pois ela se daria bem com a sobrinha que estaria fazendo
aniversário no dia seguinte. Grace sorri para sua mãe que não resiste à alegria da criança. A
permissão é concedida. Grace corre para seu quarto em busca de seu novo vestido enquanto
Frank a observava com atenção... Observava e pensava...
Ela volta com trajando um pequeno vestido vermelho com enfeites das mangas e na
gola. Um laço branco prendia os cabelos negros. Estava perfumada e contente. Frank promete
a garota que irá pagar-lhe um sorvete... Seus olhos brilham. Grace sobe no carro de Frank e
acena para a mãe que sorrindo lhe devolveu o gesto... Ele entra no carro e dá a partida. Os
dois seguem.
Chegando a casa, (sim uma casa e não uma fazenda), os dois saem do carro e Frank
pede que Grace fique fora por uns instantes. Ela balança a cabeça de forma positiva e vai
colher umas flores ali perto. Ele abre a velha porta da casa e sobe as escadas. Já no quarto, ele
tira toda a roupa, não queria que vestígios de sangue caíssem nela. Põe a cabeça para fora e da
janela do quarto chama Grace para subir. Ele se esconde no armário e espera a chegada da
menina.
Quando ela o avista, muda de expressão. A menina outrora sorridente espanta-se ao
ver o homem nu. Começa a chorar e tenta descer as escadas. Frank a segura... Ela chora e
ameaça contar à sua mãe. Frank começa a tirar o vestidinho vermelho... Depois a calcinha
rosa com enfeites de flores. Ela tenta defender-se com chutes, arranhões... Sem efeito como já
se podia prever. Ele sente o aroma da pequena... Envolve o pescoço pequeno com suas mãos.
Grace começa a sufocar e tossir. Uma baba escorre por entre os lábios vermelhos... Seus
membros tremiam durante a agonia e a perda de ar. Pequenos espasmos e por fim o
relaxamento. Está morta...
Frank parte para os preparativos. Organiza os instrumentos em sua cozinha. Carrega o
corpo frio e o coloca sobre uma mesa de mármore escuro. Com uma faca bem afiada abre o
abdômen da menina e começa a retirar os órgãos ainda mornos do interior de Grace. O fígado
e o coração são guardados em vasilhas sujas. Os intestinos são postos em sacos plásticos junto
com o resto... Após a evisceração, corta a musculatura da menina. Cortes nobres... Tal como
se fosse um outro tipo de animal.
Por fim Frank Howard assa partes do corpo para que possa comer, afinal, sente fome
como qualquer um de nós. Alguns minutos depois ele começar a saciar sua fome... E assim o
fez durante nove dias...

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Usou vinho como acompanhamento... Saladas... Molhos... Grace foi assada... Cozida...
Enfim... Não foi molestada. Morreu virgem.
Escreve à família da pequena Grace e relata toda a trajetória diabólica...
“Minha querida Sra. Budd,
Em 1884 um amigo meu embarcou como trabalhador braçal de convés no navio
Steamer Tacoma, o capitão John Davis. Eles velejaram de San Francisco para Hong Kong,
na China. Quando chegaram lá, ele e dois outros foram para terra e ficaram bêbados.
Quando voltaram, o navio tinha ido embora. Aqueles eram tempos de fome na China. Carne
de qualquer tipo custava de 1 a 3 dólares a libra. Tão grande era o sofrimento entre os muito
pobres que todas as crianças com menos de 12 anos foram vendidas como comida, para
manter os outros não famintos. Um menino ou menina de menos de 14 anos não estava
seguro nas ruas. Você poderia ir a qualquer loja e pedir um bife, cortes de carne ou
picadinho. Do corpo nu de um menino ou menina seria trazida exatamente a parte desejada
por você, que seria cortada dele.
A parte de trás de meninos ou meninas é a mais doce parte do corpo e era vendida
como costela de vitela, no preço mais alto. John ficou lá tanto tempo que adquiriu gosto por
carne humana. Quando voltou para Nova York, ele roubou dois meninos de 7 e 11 anos.
Levou-os para sua casa, tirou a roupa dos dois e os amarrou nus no armário. Então queimou
tudo deles. Inúmeras vezes, todo dia e noite, ele os espancou e os torturou para fazer com que
sua carne ficasse boa e tenra. Primeiro ele matou o menino de 11 anos, porque ele tinha a
bunda mais gorda e, é claro, mais carne nela. Cada parte do corpo foi cozida e comida,
exceto a cabeça, os ossos e as tripas. Ele foi assado no forno (todo o seu lombo), fervido,
grelhado, frito e refogado. O menino pequeno era o próximo, e tudo aconteceu da mesma
maneira. Nessa época, eu estava morando no 409, na 100 Street, perto do lado direito. Ele
me falou com tanta freqüência como a carne humana era gostosa, que eu decidi prová-la.
No domingo 3 de junho de 1928 telefonei para vocês no 406 w 15 st. Trouxe-lhes um pote de
queijo e morangos. Nós almoçamos. Grace sentou no meu colo e me beijou. Eu me convenci a
comê-la (naquele momento), com a desculpa de levá-la a uma festa. Você disse sim, ela
poderia ir à festa comigo. Eu a levei a uma casa vazia em Westchester que já tinha escolhido.
Quando chegamos lá, disse a ela para ficar no quintal. Grace colheu flores selvagens. Eu
subi as escadas e tirei toda a minha roupa. Sabia que, se não o fizesse, ficaria com o sangue
dela nas roupas. Quando eu estava pronto, fui até a janela e a chamei. Então me escondi no
armário até a menina entrar no quarto. Quando ela me viu completamente nu, começou a
chorar e tentou correr escadas abaixo. Eu a agarrei e ela disse que ia contar para a mãe

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dela.
Tirei a roupa de Grace, deixando-a nua. Como ela chutou, mordeu e arranhou! Eu a asfixiei
até a morte, então a cortei em pequenos pedaços para poder levar a carne para meus
aposentos. Cozinhei e comi aquilo. Como era doce e tenro seu pequeno lombo assado no
forno. Levei nove dias para comer seu corpo inteiro. Eu não fodi a menina, embora pudesse
tê-lo feito, se tivesse desejado. Grace morreu uma virgem.”

19
INSALUBRIDADE

S
enti-me terrivelmente angustiado na clausura deste tormento. O ambiente
cáustico destruía meus nervos através de constantes estímulos deletérios.
Sons repetitivos miseravelmente se reproduziam em intervalos
irregulares. Um fedor nauseabundo eu era obrigado a inalar. O ranger de mecanismos me
davam a certeza de que havia sido condenado por algum crime hediondo, tamanho era meu
sofrimento.
Vi outras pessoas. Pareciam sofrer a mesma desgraça que eu... Amontoavam-se. O
ambiente metálico se assemelhava a uma enorme câmera de tortura. Vômitos exalavam seu
odor característico. As paredes estavam cobertas por camadas incontáveis de dejetos. E a
câmera de tormentos se movia! Desgraçado... Não encontrei outra denominação a mim por
experimentar tamanho processo maligno.
Mas ainda não podia descer do ônibus, afinal minha parada estava longe...

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POETA EM PUTREFAÇÃO

"A poesia é decerto uma loucura:


Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro... Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes — bravo! à inspiração divina...
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora
Por que há de o vivo, que despreza rimas,
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?"
(A. Azevedo)

E
jazia o corpo, encostado sob a sombra de uma árvore velha. Ao lado uma garrafa
esvaziada de cachaça. Apesar de desfigurado pela decomposição que se manifestava em
seu curso naturalmente estabelecido, pude reconhecer o cadáver como sendo de um poeta
muito conhecido que perambulava pelas ruas da cidade. Os trapos vomitados que lhe vestia, a
barba desgraçada. Da boca desdentada vários versos saíram... Poesia apreciada pelos ouvidos
entorpecidos pelas imagens mais estúpidas que eram criadas através das rimas e do ritmo da
fala do poeta. Flores, sol, amores perdidos, toda sorte de frescuras e inutilidades. Palmas ao
poeta!
Agora veja o que resta. O cadáver sendo consumido pelos vermes que numa onda
violenta se manifestam em seu ventre inchado. A coloração infame, o livor das extremidades,
os humores mefíticos expelidos. Sânie que escorre das chagas abertas. Os insetos
devoradores, a nuvem de moscas, o miasma pestilento que emana o pedaço de carniça que
outrora se preocupava com rimas, beleza, poesia e insânias.
Foi um estúpido apreciado por uma legião de "sensíveis". A única poesia que vejo é o
corpo morto misturando-se à poeira. Eu que desprezo as rimas, vou embora enquanto o poeta,
com as secreções morbígenas que secreta, escreve sua última poesia no mato que o cercou em
seu leito de morte.

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ESPREITA

U
m dos lugares mais miseráveis que já pude observar durante minhas viagens
como funcionário da secretaria de saúde estadual. Entranhada num canto
remoto, a pequena aldeia carrega um semblante de extrema desolação. Logo em
sua entrada, um poço que se mostrava muito antigo devido à aparência rústica do mecanismo
pelo qual o balde vinha à superfície, além de uns tijolos faltosos na beira do poço e do estado
putrefato da madeira que formava o tal mecanismo. Mais à frente, alguns instrumentos de
roça quebrados e lançados aleatoriamente sobre o chão de terra batida. O sol desgraçadamente
joga suas maldições sobre essa terra seca. Uma onda de vento sopra a poeira densa... Olhei
para o relógio já pensando em sair dali o mais rápido possível.
Continuei a caminhar e observar a precariedade do lugar. As casas são construções
tradicionais feitas de pau-a-pique com telhados de palha seca. Possuem apenas uma porta e
uma janela em sua frente. Não há subdivisões em seu interior. Isso é o que pude ver do lado
de fora, já que algumas estavam com o interior acessíveis ao olhar. Não tive grande interesse
em buscar adentrar numa dessas casas, já que meu trabalho ali consistia apenas em falar com
o líder responsável pelo local, devidamente cadastrado por outros agentes de saúde e lhe
entregar um relatório feitos também por outrem.
Ninguém à vista. Pelo que havia visto a pouco em meu relógio, a aquela hora os
poucos moradores do local deveriam estar na roça lutando contra os infortúnios desse lugar
insalubre. Não havia mais nada a fazer a não ser esperar. Fui até o fim do vilarejo, onde havia
uma sombra. Ao longe, nada além de mais terra seca é o que podia alcançar com os olhos.
Pontos cinzas denunciam a vegetação morta que se mantêm sobre o solo pobre... Não há
perspectiva alguma ali, apenas um vazio parece engolir tudo vorazmente. O tempo passa e
maltrata ainda mais os seres que moram por mero acaso neste vilarejo.
Agora, à menor lembrança do que acabei por ver naquele lugar, sinto um mal-estar
inaudito. Apenas o esforço para trazer de volta aquela imagem torpe e relatar o fato ocorrido e
por mim observado, me causa o mais agudo e mortificante asco. Evitaria tal rememoração a
todo custo se não fosse o meu encargo profissional coagindo-me a relatá-la. Que eu tivesse
morrido ao ver tal miséria!
Pois bem. Já sob a proteção parcial de uma sombra, após tentar, em vão, encontrar
alguém que pudesse indicar o paradeiro da pessoa que me fez ir até ali, vi uma cena dantesca.
Se algum deus existir, ele só pode ser um deus de Calamidade. Um deus que se coloca a
observar suas crias infames a se contorcer em múltiplas Condenações, em severos Tormentos.

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Uma divindade que se alimenta de Decadência. Uma mentira que se fortalece a partir do
Definhar...
Após o estarrecimento inicial, fui cambaleante para mais perto daquilo que acabara de
ver. Um fedor me invadiu as narinas naquele momento. Não há com o que comparar aquele
odor nauseabundo. A vertigem dali resultante foi violenta. Vomitei sobre a terra seca que
sugou rapidamente o que acabara de ser expulso de meu estômago. Uso a manga da camisa
que usava para limpar minha barba e chego mais perto daquela infâmia.
Não sei por quanto tempo observei o estado deplorável do menino. Fui surpreendido
com um movimento brusco e um balbuciar grotesco. Ruídos guturais, forçados, alimentados
pelo que restava de força no corpo semi-morto. Mais uma vez um terror passa por minha
espinha... O menino parece abandonar este mundo de miséria e se entregar aos vermes que lhe
infestarão. Um rito de passagem hediondo se processava ali. Eu não deveria ter presenciado
esta insanidade!
Após o encerramento destas estranhas atividades, o corpo calou e permaneceu quieto,
como antes. Olho ao redor do sepulcro indigno da criança. Ninguém se aproximava. Ninguém
mais tomou conhecimento da morte desse menino. As casas permaneciam vazias, o sol
continuava a malograr o vilarejo. Um suor gélido escorria de pela minha testa.
Já ao me preparar para ir embora, ouço um ruído, um grito maldito. No céu havia um
par de urubus a voar em círculos. Afasto-me, lentamente devido ao meu estado mental, dali.
Os carniceiros pousam triunfantes e chegam mais perto do cadáver. A primeira bicada traz
consigo um dos olhos do defunto. A outra ave lhe perfura o ventre, que expulsa uma
viscosidade morbígera. Os intestinos revelados saltam. Cães infames se aproximam. Todos
magros e degenerados. Um deles morde com firmeza o pescoço do menino, que estala. Outro
repuxa as vísceras para longe... Eu não poderia mais continuar ali. Fui para o carro, prestes a
morrer. Deixo para trás o vilarejo, o que sobrou do menino, os urubus e os cachorros. O que
após isso ocorreu não mais é necessário que seja pronunciado.(...) O corpo humano, tão
glorificado como criação suprema de uma inteligência exterior se torna mero alimento para
seres infames. A humanidade finda e a podridão se ergue, vencedora!

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O PEQUENO VELHO

A estatura nanica se misturava a outros sinais físicos que me chamaram rapidamente


atenção. Pele enrugada, ressecada pelo tempo. Calvície total. Cadavérica magreza, corpo
curvado para frente. Os olhos muito proeminentes na caixa craniana de proporção incomum.
Ele caminha em seus mórbidos passos, notadamente forçados, com o auxílio de uma bengala.
Posso perceber o esforço que ele realiza para andar. A lentidão é tamanha que se torna
massacrante observar sua movimentação. E segue, vestido por uma roupa preta que lhe cobria
a maior parte do corpo...
Não alcançou uma distância grande desde o ponto onde comecei a observá-lo, porém.
Pôs as mãos secas apoiadas nos joelhos, tentando recuperar o fôlego rapidamente perdido.
Cai. Apenas o ruído de sua cabeça contra o chão.
Imediatamente uma mulher jovem, em desespero, passa por mim. Corre em direção ao
homem e grita:
"-Meu filho!".

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UM PRETO

Eis que o animal se contorcia violentamente em dores; parecia possesso. O suor lhe
banhava a fronte escoriada, misturava-se ao sangue que escorria morno em pequenos fluxos.
Grunhidos e blasfêmias eram vomitados ali, em mistura quase ininteligível. Ainda carregava
algo do seu dialeto materno, o bicho. Irritante sonoridade. As carolas tentavam cobrir as vistas
com suas pequeninas mãos gordas. Tentavam dissimular o prazer frente ao sofrimento alheio.
Tentavam ignorar o corpo do animal, exposto vergonhosamente, vulnerável. Proferiam rezas
devidamente memorizadas; purificação para suas almas perturbadas. Nada para o bicho.
Esta infame praça, antigo cenário destinado a processos específicos, recebia os
curiosos já acostumados ao espetáculo de semelhantes flagelos. Mero incentivo ao carrasco
cínico com seu sorriso a estampar frente a agonia de um animal desgraçadamente submetido a
uma autoridade.
O calor miserável irritava-me, o ar era desagradável. O fedor que o corpo surrado
exalava era pungente. Excretas liberados involuntariamente escorriam por entre as pernas que
tremiam e vacilavam. Espectadores atentos a cada expressão do bicho acorrentado à tora
fincada verticalmente no chão sujo. O olhar do carrasco frente ao animal.
Era um preto. Até que caiu morto...

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A ÚLTIMA INSPIRAÇÃO.

Por muito tempo enveredei por estes caminhos tortuosos, sozinho. Algo de esquecido
nos processos enclausurados pelo luto estabelecido. Revirei a terra em busca daquilo que sob
sua frieza simplesmente passava silenciosamente... Exumei o que é mantido em segredo,
expus as carnes podres sem pestanejar, os odores mefíticos trouxe à tona, os fiz tomarem o ar
que nos circunda. As degenerações tanto físicas quanto mentais, tudo aquilo que é ignorado,
tudo em sua crueza mais torpe. Entre palavras enlameei as mãos, assim como as cobri com o
sangue ora rubro, ora enegrecido fora da circulação.
Pelas entranhas o gosto pelo grotesco se misturou ao muco, aos excretas tão animais,
impregnando em minhas narinas o cheiro que exala o corpo inerte. Infantes em matadouros,
vilipêndios de carcaças ora já em suas tumbas, ora apodrecendo sob a sombra d'uma árvore,
ou até "queimando" e sendo devoradas sob o sol escaldante. E todos apreciaram... Minha
própria morte, experiências pós-mortais, cárceres privados, toda a sorte de relatos, de
sangrias, de cânceres... À matéria, única coisa que importa, o seu fim. Não me arrependo de
evocar em palavras a monstruosidade e a animalidade - quem sabe natureza, algo que duvido
muito que exista, destes bichos feitos imagem e semelhança de alguma divindade que se auto-
intitula: pai.
Caminhei a maior parte do tempo sem rimas, numa obscuridade, nunca as procurei e
as que uma hora ou outra se mostraram ficaram a total encargo do acaso. Nunca considerei-
me poeta, no máximo, por vezes, um doudo. Sem remorso algum, para o bem da verdade.
Rimas não foram os alvos que tive em mente ao retirar de minhas próprias entranhas estas
calamidades... Não me importo que outros as busquem, afinal. E para ti que até aqui caminha
os olhos sobre estas linhas, minha última inspiração, em ambas as possibilidades, só me resta
evocar as palavras d'um poeta: "Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos."
Nem verso, nem prosa. Nada mais me interessa. Muito menos tuas palavras.

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