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BIRMAN, Joel.

Mal-estar na atualidade: a psicanálise e


as novas formas de subjetivação. 3. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001. 304 p. ISBN: 852000492X.

Sobre a atualidade do mal-estar virtude de amarrar em um todo coerente


uma série de tramas conceituais abertas

A interpretação da Cultura é uma


das temáticas mais tradicionais de
“aplicação” da Psicanálise. Inaugurada e
pelas novas formas de subjetivação e pelos
desdobramentos da pós-modernidade.
A proposta de Birman possui uma
propagada por Freud, constitui um dos dupla finalidade. Parte de uma posição
pontos fundamentais de circunscrição do genuinamente freudiana acerca da
campo de saber psicanalítico. Embora tenha interface Psicanálise e Cultura, acreditando
sido alvo de críticas contundentes por que é na análise dos limites e impasses
parte de cientistas sociais e tenha perdido desses dois campos que se possa chegar a
sua importância em alguns setores do uma contribuição mútua. Esse exercício
movimento psicanalítico, a relação entre é disparado por um problema bastante
Psicanálise e Cultura tem sido resgatada pertinente, a saber, a insuficiência dos
nos últimos anos por vários autores, instrumentos interpretativos da psicanálise
principalmente por aqueles que se inserem no que concerne às novas modalidades de
na linhagem da psicanálise francesa. inscrição das subjetividades na atualidade.
Embora haja razões intrínsecas ao Nesse sentido, esboçam-se duas linhas de
movimento psicanalítico que justifiquem esse investigação. Por um lado, trata-se de
resgate, não podemos deixar de observar que pensar as condições sócio-históricas que
o reforço que as interpretações psicanalíticas organizam as formas de subjetivação na
da Cultura ganharam decorre principalmente atualidade, caracterizando as novas formas
de uma série de questões colocadas pelo do mal-estar na cultura; por outro, refletir
contexto sócio-histórico da contemporaneidade. sobre os fatores extrínsecos e intrínsecos
A explosão da violência, as novas formas de à teoria psicanalítica que motivem a crise
sofrimento psíquico, a biologização do social da psicanálise na contemporaneidade.
e a crise da psicanálise estão no centro das Sendo uma coletânea de diversos
preocupações desse começo de século artigos e notas para palestras que abordam
XXI. O livro de Joel Birman ocupa-se dessa diferentes aspectos de uma linha de
complexa interpenetração entre saberes, pesquisa, a articulação geral das temáticas
ideologias e práticas que configuram o mal- tratadas pelo livro é costurada em sua
estar na atualidade. apresentação, delineando os quatro eixos
Em sua terceira edição, esse livro pode que configuram os destinos do desejo no
ser considerado um clássico, devido a seu mal-estar da atualidade: (1) os impasses
impacto na formação da nova geração de da psicanálise; (2) as novas formas de
psicanalistas e psicólogos brasileiros, e pela subjetivação; (3) as drogas; (4) a violência.

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Birman parte da obra fundamental a sociedade pós-moderna em suas


acerca da interpretação psicanalítica da características de exibicionismo, auto-
cultura, O mal-estar na civilização (Freud, centramento e esvaziamento das trocas
1929), colocando-a em perspectiva com o intersubjetivas. A tese defendida é que a
mal-estar contemporâneo, por meio de um fragmentação da subjetividade trouxe
referencial analítico foucaultiano. A questão como reação o autocentramento do sujeito
colocada é: se Freud analisou e descreveu no Eu, porém de uma forma distinta do
as características do mal-estar inerente individualismo moderno. Se a subjetividade
à condição trágica do sujeito moderno, moderna constitui-se no duplo registro da
qual seria o estatuto da questão hoje? interioridade e da reflexão sobre si mesmo,
Tendo como baliza uma concepção de pós- a subjetividade contemporânea sustenta
modernidade, oriunda da constelação o paradoxo de um autocentramento
teórica francesa por onde circula, Birman voltado para a exterioridade, em que a
estabelece uma ruptura epistemológica para dimensão estética, dada pelo olhar do outro,
pensar o estatuto da concepção de sujeito ganha destaque.
no devir histórico. O interessante da tese de Birman é
A apropriação feita pelo autor da idéia sua interpretação desse conjunto de
de ruptura epistemológica de Bachelard características pelo viés da compreensão
(2001) já é de longa data, remonta a seus psicanalítica de sujeito. Defende, então, uma
estudos sobre a constituição do pensamento interpretação do narcisismo, espetáculo e
freudiano (Birman, 1989, 1991). No texto consumo pelo prisma da psicanálise. A
ora resenhado pode-se observar claramente relação dual narcísica, na mortal armadilha
a leitura estruturalista desse conceito, da ilusão da completude imaginária, é
estabelecendo duas epistemes distintas, convocada como eixo estruturante da
que configuram as possibilidades de subjetivação contemporânea. Deveríamos,
subjetivação em um determinado contexto portanto, passar do paradigma da
social e cultural. Desse modo, configura-se estrutura neurótica para analisar o potencial
a tese de que a pós-modernidade seria heurístico da perversão em lançar luz sobre
decorrência da falência dos projetos sociais o mal-estar na atualidade. A idéia de uma
de superação do mal-estar, levando à ruína captura da subjetividade contemporânea no
do sujeito epistêmico e do indivíduo social, registro do Imaginário, em detrimento do
e conseqüente ameaça de niilismo de Simbólico, constitui a principal contribuição
relativismo cultural. A fragmentação da do autor para uma interpretação psicanalítica
subjetividade constituiria, assim, o aspecto da Cultura.
fundamental do mal-estar na atualidade. Uma decor rência direta dessa
Nesse aspecto, Birman apóia-se no interpretação, que parte de uma analogia
discurso sobre a pós-modernidade que entre o plano do social e da psicopatologia,
ganhou relevo nas ciências humanas é a conclusão de que a ética da violência
nas últimas décadas (Baudrillard, 2000; que caracteriza o mal-estar na atualidade
Giddens, 1991; Bauman, 1998). Os principais deve ser entendida no campo da anulação
autores de referência são Debord (1997) da alteridade do outro e de sua utilização
e Lasch (1984), com os conceitos de como objeto de predação e gozo. Não
sociedade do espetáculo e cultura do sendo à toa, portanto, que as chamadas
narcisismo, respectivamente. Deles Birman psicopatologias contemporâneas se
extrai o essencial das descrições sobre organizem em torno dessa problemática.

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Dessa forma, manifestações tão díspares (2) o abandono do corpo e dos afetos
como a depressão, a síndrome do pânico e em detrimento da linguagem. Esses
as toxicomanias – onde podemos incluir posicionamentos do movimento psicanalítico
também os distúrbios psicossomáticos contribuíram sobremaneira para o
e da imagem corporal – encontram, na movimento de retirada do sujeito, que
interpretação de Birman, o estatuto de caracteriza o mal-estar na pós-modernidade.
sintomas no tecido social de um mesmo Embora não possamos nos estender
ordenamento lógico da subjetivação sobre todos esses aspectos, é importante
contemporânea. Seriam resultado dos assinalar o esquema teórico que integra
desdobramentos da exigência de algumas das dimensões em jogo no campo
reconhecimento imaginário da completude, de forças descrito pelo autor. Segundo ele,
veiculado pela fetichização e reificação há um perigoso conluio na retirada do
do outro – devorado e descartado na Sujeito na atualidade, que se alimenta
fluidez das identidades efêmeras da do ciclo vicioso entre: (1) a exigência
contemporaneidade. performática da sociedade de consumo
Munido desse referencial teórico, ditada pelos modos de subjetivação da pós-
Birman traz uma série de contribuições modernidade; (2) a posição de recusa do
importantes para o campo das psicopatologias indivíduo em qualquer penetração na
contemporâneas, quer seja na circunscrição dimensão propriamente psíquica e simbólica
da problemática das toxicomanias, quer seja do sofrimento, cujo maior exemplo é
na denúncia da medicalização social. o quadro depressivo; (3) os rótulos
Esse último ponto, a propósito, é a via sintomatológicos e sem etiologia subjetiva
de articulação com a outra grande temática fornecidos pelos manuais diagnósticos e
do livro, que é entender a assim chamada estatísticos da psiquiatria organicista.
crise da psicanálise. Birman faz uma Voltando a abordar a questão pelo
análise muito interessante do avanço da campo da psicopatologia psicanalítica e a
psicofarmacologia na fundamentação do relação do Indivíduo com a Cultura, que é o
discurso médico, denunciando a ideologia recorte da presença resenha, podemos ainda
por trás das novas tecnologias de apontar alguns aspectos interessantes da
gerenciamento do sofrimento. Nesse ponto leitura proposta por Birman. Um deles é o
encontramos a vertente mais política do que vem da denúncia do posicionamento
trabalho de Birman, aquela que muitas do movimento psicanalítico em relação à
vezes infelizmente é tomada também Cultura, o que o faz afirmar categoricamente
de forma ideológica, fazendo com que que a Psicanálise encontra-se, na atualidade,
uma importante posição de resistência e à prova do social. Na convicção de não
revelação de contradições se torne uma desviar dessa tarefa e resgatar o verdadeiro
militância estéril. sentido de uma interpretação psicanalítica
É importante lembrar, contudo, a da cultura é que Birman esboça seu retorno
denúncia que Birman faz ao próprio campo a Freud. Analisando a interpretação
da psicanálise, naquilo que identifica freudiana, e mostrando seu alcance ao
como concessões que traem a essência de referencial moderno, mostra o germe da
seu campo de saber. De forma bastante leitura do desamparo pós-moderno nos
resumida, o argumento pode ser expresso impactos que a leitura da pulsão de morte
em uma dupla retirada: (1) o abandono do trouxe ao discurso freudiano acerca do social.
social em detrimento do individual; Em um dos capítulos mais elucidativos

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do esquema de leitura que faz da obra pós-modernidade; (2) a passagem imediata


freudiana (p. 121-146), defende a tese da da estrutura psíquica para a social.
gestão interminável do conflito pelo sujeito, Sobre o primeiro ponto, é preciso
uma vez que o conflito entre natureza/ denunciar o uso ideológico que muitos
pulsão e cultura/civilização configura-se fazem sobre a questão da pós-modernidade,
de forma estrutural, sem possibilidade que não é um conceito unívoco, e muito
de ultrapassagem da posição original menos um ponto pacífico nas ciências
de desamparo. Esse segundo discurso humanas. Também não convém entrar na
freudiano sobre o social, característico do querela se jamais fomos modernos ou se
final da obra, é o fio da meada que Birman ainda não somos pós-modernos, mas a
tomará para tecer seu próprio quadro do questão é que uma abordagem estrutural
mal-estar na atualidade. do social tende a dicotomizar sobremaneira
É interessante notar como a leitura de dois contextos que não são distintos.
Birman da obra freudiana, bem como seu O mesmo engodo pode ser encontrado
próprio esquema de construção teórica, na passagem da dimensão psíquica para
opera com o que poderíamos chamar de a social. A relação que a psicanálise
uma metapsicologia da descontinuidade. estabelece entre os planos do infantil, no
Podemos assinalar uma série de rupturas psíquico, e do cultural é de analogias e
nesse percurso. A primeira seria a ruptura interpretações pontuais, sem buscar esgotar
que constitui o campo da Psicanálise. A as especificidades de cada campo. Se
segunda seria a ruptura interna ao campo perdermos essa especificidade de vista,
psicanalítico, em seus diferentes discursos corremos o perigo de anularmos a própria
sobre o Social. A terceira seria a ruptura especificidade da dimensão psíquica. Algumas
entre as configurações sociais modernas leituras desse tipo de interpretação podem
e pós-modernas. Embora possamos entender nos colocar em um lugar desconfortável, já
o viés diacrônico do autor e sua preocupação que abre espaço para uma sobrevalorização dos
estrutural, é preciso assinalar os perigos aspectos sociais na determinação do sofrimento
que tal recorte pode trazer para o leitor psíquico, caindo em um culturalismo estéril
desavisado. e anacrônico. Como se a questão da redução
Não caberia, no contexto desta resenha, ao biológico se resolvesse apenas com uma
discutir em amplitude essa questão, que ampliação em direção ao social.
precisaria de uma série de intermediações, Um terceiro viés problemático é uma
inclusive para fazer jus à complexidade leitura saudosista, típica do lugar-comum
da proposta de Birman. Mas se uma das acadêmico. Penso que a transposição muito
grandes virtudes do trabalho de Birman, imediata entre a configuração narcísica do
e provavelmente uma das razões de seu sujeito e da sociedade pode levar à conclusão
impacto, foi justamente a denúncia das de que a cultura pós-moderna é doente; ou
ilusões, creio que seja mais do que justificado ainda, à degradação de um ideal de saúde
apontar as armadilhas ideológicas que social que nunca tivemos. Pode até parecer
alguns atalhos teóricos podem criar. absurdo ao leitor encontrar uma afirmação
Nesse sentido, parece-me particularmente tão anti-psicanalítica nesse ponto da
importante apontar dois tipos de interpretação argumentação, mas esse tipo de raciocínio
que enfraquecem o potencial da pode, de fato, levar a uma patologização do
contribuição de Birman: (1) a naturalização social muito semelhante, do ponto de vista
e a dicotomização entre modernidade e moral, com a medicalização do social. Um

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exemplo de denúncia desse viés pode ser BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.
encontrado na análise que Costa (2003), ainda Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
nos anos 80, fez da cultura do narcisismo. BIRMAN, Joel. Freud e a experiência psicanalítica: a
Esses são alguns pontos que gostaria constituição da psicanálise. Rio de Janeiro: Taurus-
de assinalar na apreciação da linha de Timbre, 1989.
investigação aberta por Birman nesse BIRMAN, Joel. Freud e a interpretação psicanalítica:
seu livro seminal. Penso constituírem a constituição da psicanálise. Rio de Janeiro: Relume-
pontos de aprofundamento importantes Dumará, 1991.
na construção de uma interpretação COSTA, Jurandir Freire. Violência e psicanálise. 3.
psicanalítica da cultura na atualidade. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2003.
Interpretação esta que se mostra cada vez
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários
mais urgente e necessária, haja vista o sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro:
desdobramento avassalador das teses Contraponto, 1997.
previstas na interpretação da ética da
FREUD, S. (1929). O mal-estar na civilização. In:
pós-modernidade nesse nosso início de FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago,
século. A pergunta que deveríamos nos 1994. vol. XXI.
fazer com mais freqüência, contudo, seria:
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade.
até que ponto estamos de fato elaborando São Paulo: UNESP, 1991.
esse conhecimento, e até que ponto não
estamos simplesmente repetindo-o LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de
Janeiro: Imago, 1984.
compulsivamente, na tentativa de ligar o
desamparo que nos violenta?

Referências Bibliográficas Érico Bruno Viana Campos


BACHELARD, Gaston. A epistemologia. Lisboa:
Edições 70, 2001. Psicólogo; Mestre e Doutorando em Psicologia
(Instituto de Psicologia/USP); Bolsista CNPq.
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade do consumo.
Lisboa: Edições 70, 2000. e-mail: ericobvcampos@uol.com.br

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