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O Cristianismo Nascente

até o Ano 30 d.C.


Sumário

O Cristianismo Nascente até o Ano 30 d.C.


Objetivos....................................................................... 03
Introdução..................................................................... 04
1. O Cristianismo Nascente até o Ano 30 d.C.......... 05
1.1. O Contexto Histórico e Religioso da Época de Jesus...06
1.2 O Mundo Greco-Romano................................... 10
Síntese........................................................................... 20
Referências Bibliográficas............................................... 21
Objetivos
Ao final desta unidade de aprendizagem, você será capaz de:

• Analisar o processo de formação do pensamento .


cristão nascente;
• Perceber como o cristianismo recebeu influências externas
em sua formação.

História do Cristianismo e da Teologia Antiga e Medieval | 3


Introdução
Nesta unidade de aprendizagem estudaremos as primeiras
décadas do cristianismo, mais especificamente até o ano 30 da nossa era.

O cristianismo nasceu na bacia do Mediterrâneo em um


mundo dominado pela cultura greco-romana. A partir de agora
estudaremos como esse contexto histórico e social contribuiu para
os primeiros passos da comunidade cristã e qual a sua relação com a
religiosidade judaica, predominante em seu lugar de nascimento.

Ao longo de nossos estudos veremos o contexto do nascimento de


Jesus e os seus primeiros passos dentro de um mundo onde se fazia presente
a política romana, o pensamento grego e a religiosidade judaica. Cada um
desses povos influenciou esse período de uma maneira específica.

Neste contexto, o cristianismo se desenvolve de acordo com o


seu mundo e o seu tempo, começando como um pequeno movimento
de pessoas simples que sinceramente reconheciam em Jesus o Messias
prometido por Deus.

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1. O Cristianismo Nascente até o Ano 30 d.C.
O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Gálatas, chamou o
período em que Jesus nasceu de “plenitude dos tempos”.

“Vindo, porém, a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu


filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei” Gl 4.4.

Paulo considerou que no, momento da manifestação física


de Jesus, o mundo passava por intensas transformações que fizeram
daquele contexto um momento ideal para o seu nascimento. Estudar
este período chamado pelo apóstolo de “plenitude dos tempos” é
importante, pois compreenderemos melhor o desenvolvimento do
cristianismo nascente.

Para os primeiros cristãos, o tempo e o lugar do nascimento


de Jesus não se deram ao acaso, pois em todos os eventos Deus estava
operando e preparando tudo para a vinda de Seu Filho Unigênito. Três
eram os povos que exerciam influência naquele contexto: os judeus
(mais especificamente na Palestina), os gregos e os romanos; cada um
desses povos deixou sua marca para o período.

O cristianismo ainda é considerado uma religião relativamente


jovem. Das grandes religiões, juntamente com o judaísmo e o
islamismo, faz parte das três religiões monoteístas do mundo, das quais
apenas o islamismo é mais recente.

Não devemos nos esquecer de que a concepção monoteísta


de religião também é a mais recente. Num primeiro momento, o ser

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humano praticava uma fé animista, uma religiosidade ligada à vivência
tribal dos seres humanos, que acreditava que todas as criaturas vivas
possuíam alma e que os humanos deveriam buscar uma unidade com
essas almas. Com a civilização, o ser humano desenvolveu a concepção
politeísta, passando a atribuir a seres divinos as causas do mundo
terreno. Apenas séculos depois surgiu o monoteísmo, expressão que
traduz a crença na existência de um único Deus criador e mantenedor
de todas as coisas. A primeira expressão monoteísta foi o judaísmo, do
qual o cristianismo é herdeiro.

1.1. O Contexto Histórico e Religioso da Época de Jesus

O cristianismo nasceu na bacia do Mediterrâneo – aliás,


uma característica muito forte da civilização antiga era de se edificar
ao redor de rios, mares e lagos, ou seja, próximo à água. Mais
especificamente, o cristianismo nasceu na Palestina, um território
pequeno e pobre, mas de posição estratégica, pois era a ligação natural
entre o Norte da África, a Europa e o Oriente Próximo. Por causa de
sua posição estratégica, a Palestina sempre foi palco de conflitos entre
grandes potências da antiguidade: primeiro foi dominada pelo Egito;
depois pela Assíria, que levou o Reino do Norte para o cativeiro;
depois pela Babilônia, que levou o Reino Sul em cativeiro, destruiu
Jerusalém e levou consigo boa parte da população.

Sob o domínio dos persas – império que superou a


Babilônia –, houve a ordem de reconstruir a cidade e o templo de
Jerusalém. Em seguida, a Pérsia foi superada pelo império grego
de Alexandre, o Grande, um dos maiores impérios que o mundo já
conheceu. Consequentemente, na dominação de Alexandre, a Palestina
ficou sob sua influência. Alexandre foi responsável pelo processo de
helenização do mundo antigo: em todas as áreas conquistadas, a cultura
grega deveria ser estabelecida.

Com a morte de Alexandre, seu vasto império foi disputado


entre seus generais. A Palestina se tornou uma província da Síria,
controlada pelos descendentes de Seleuco. Terceiro da dinastia dos
selêucidas, Antíoco Epifanes foi o responsável pela profanação da

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religião judaica, o que enfureceu os judeus e culminou na revolta dos
macabeus e no período de cem anos de independência sob os asmoneus.

Após cem anos de liberdade sob os asmoneus, o Império


Romano conquistou a Palestina e se tornou o maior império de
todos os tempos. A dominação romana na Palestina se deu no ano
37 a.C. Podemos perceber que a Palestina estava dominada pelo
Império Romano no contexto do nascimento de Jesus, marcado pela
religiosidade romana em função da dominação política com a influência
do pensamento grego.

O judaísmo

Antes de mais nada, devemos ter em mente que Jesus viveu,


pensou, agiu e morreu como um judeu de seu tempo. O judaísmo era o
resultado da antiga religião de Israel desenvolvida ao longo dos séculos. O
templo e a religião são purificados depois do cativeiro babilônico, o que
quer dizer que, depois deste período, isto é, após o exílio babilônico, o
judaísmo estava de fato formado e já era uma religião monoteísta.

O judaísmo imediatamente anterior ao cristianismo era estritamente


monoteísta e dava muita ênfase à Lei e aos Profetas. Para os judeus, Deus
escolheu aquele povo para lhe pertencer. A Lei era uma regulamentação
moral e ética que deveria conduzir o povo, enquanto os profetas
representavam o cumprimento desta Lei e a mediação divina com os judeus.
Na verdade, foi com os profetas que o judaísmo foi efetivamente formado;
eles eram honrados como porta-vozes de Yahweh e denunciavam a opressão
que os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros sofriam pelos ricos.

Naturalmente os judeus produziram várias literaturas


religiosas, das quais a Lei e a coletânea poética são alguns exemplos.
Uma das características marcantes do judaísmo foi a Literatura
Apocalíptica. O estilo apocalíptico surge da crença judaica de que
Deus controla toda a história e, a partir do momento em que o
povo presencia perseguição e opressão, quando os ímpios exercem a
dominação sobre os justos, a presença de doenças e outras mazelas, a
literatura apocalíptica tentava conciliar a realidade com a soberania de
Deus e procurava incentivar o povo à fé de que Deus faria justiça.

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Outra característica do judaísmo era a esperança messiânica.
Diante de uma realidade preocupante e desalentadora, os judeus
nutriam a esperança na vinda do messias enviado por Deus, que
definitivamente venceria os inimigos de Seu povo e faria justiça
dando-lhe a salvação. Esta esperança se fortalece principalmente depois
do cativeiro e esteve muito presente na crença dos primeiros cristãos
(Melo, 2013, p. 13).

O judaísmo também contribui para a plenitude dos


tempos com as sinagogas. Estes lugares de culto e de aprendizagem
surgiram logo após o cativeiro babilônico. Na ausência do templo
e posteriormente com a helenização dos judeus que viviam fora da
Palestina, as sinagogas passaram a ocupar um papel de destaque na
prática religiosa daquele povo. Em várias partes do mundo antigo elas
foram edificadas. No Novo Testamento temos várias alusões a elas,
Jesus e os discípulos usaram as sinagogas diversas vezes para curar e
transmitir sua mensagem.

Além de todas essas influências, o judaísmo deu ao


cristianismo nascente as Escrituras Sagradas, ou seja, o Antigo
Testamento. A coletânea de livros sagrados dos judeus foi a base
escriturística dos primeiros cristãos, uma vez que o cânon do Novo
Testamento só foi concluído em meados do século IV. Naturalmente,
Jesus e os discípulos citaram várias vezes textos do Antigo Testamento,
nos quais embasaram suas palavras e seus ensinamentos.

Os principais grupos do judaísmo

Na época de Jesus havia muitos judeus espalhados pela bacia


do Mediterrâneo. Os que moravam fora da Palestina receberam com
maior intensidade a helenização a que foram submetidos. O principal
representante desta linha foi Filon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.).
Influenciado pelo platonismo, conhecia melhor o grego que o próprio
hebraico e utilizou o método alegórico de interpretação das Escrituras,
uma prática que se tornou muito comum na igreja da antiguidade.

O chamado judaísmo helênico, do qual Filon era um expoente,


produziu a famosa tradução do Antigo Testamento do hebraico para o

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grego. Neste momento, o idioma hebraico já estava em declínio, e o
grego era uma língua praticamente universal. Esta tradução ganhou a
nomenclatura de septuaginta (LXX) (Latourette, 2006, p. 17).

Além do judaísmo helênico, representado principalmente pelos


judeus que viviam fora da Palestina, na localidade existiam, por exemplo,
os samaritanos, que foram considerados estrangeiros pelos outros judeus
porque eram mestiços, nascidos na mistura entre os remanescentes do
Reino do Norte e os estrangeiros que invadiram a terra. Estes samaritanos
rejeitaram a Lei e Jerusalém como centro de adoração.

Os fariseus eram o grupo mais numeroso e mais conservador


da Palestina. Defendiam uma fé livre da contaminação estrangeira,
lutavam pela observância estrita da Lei, nutriam uma religião
pessoal e nacional. Dentre suas principais crenças, algumas inclusive
influenciaram o cristianismo nascente: por exemplo, acreditavam no
pecado, na necessidade do arrependimento, na graça de Deus e no
seu perdão. Os fariseus criam em uma vida futura com recompensas e
punições, enfatizavam a tradição oral e eram os mais influentes naquele
contexto; acabaram por praticar o legalismo.

Os saduceus eram aristocratas que entraram para a vida


política e, por algum tempo, controlaram o templo de Jerusalém. Eram
mais amenos em relação ao helenismo. Considerados conservadores,
sustentavam a Lei judaica escrita e repudiavam a lei oral, praticada pelos
fariseus. Os saduceus não acreditavam na vida após a morte, no juízo ou
recompensa após esta vida, nem em anjos ou demônios. Curiosamente,
centravam-se no templo e em seus ritos, e não na sinagoga, por isso
desapareceram logo após a destruição do templo no ano 70 d.C.

Havia também um grupo minoritário chamado essênios.


Tudo indica que viviam em comunidades tendo tudo em comum. A
maioria das comunidades dos essênios era composta por celibatários.
Não tinham escravos, não participavam de guerras, trabalhavam
arduamente e praticavam uma forma de ascetismo. Tinham em alta
conta a honestidade, nunca faziam juramentos e davam generosas
ofertas para os mais pobres. A estas comunidades são atribuídas os
rolos do Mar Morto.

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Os essênios se afastaram das grandes cidades e dos centros
da vida econômica e política da Palestina, pois acreditavam que lá
havia grande número de pessoas e costumes imundos, por isso se
estabeleceram em comunidades como as de Qunram (Gonzalez, 2002, p.
35). Este grupo se afastou do templo de Jerusalém, pois julgou ter caído
nas mãos de sacerdotes indignos. Entre eles era muito valorizado um
dualismo apocalíptico entre o bem e o mal.

Na época de Jesus não existiam judeus apenas na Palestina;


Em outras regiões do Mediterrâneo havia comunidades judaicas
relevantes, como no Egito, na Síria, na Ásia Menor e em Roma. Os
judeus em outras regiões não foram absorvidos pela cultura dos países
em que se encontravam. Pelo contrário, criaram comunidades separadas
que gozavam de certa autonomia no governo civil. Os judeus que viviam
fora da Palestina eram unidos pela Lei e pelo Templo, e todo homem
com mais de vinte anos enviava uma oferta anual para a manutenção do
templo de Jerusalém.

1.2 O Mundo Greco-Romano

O pano de fundo religioso judaico e a estrutura do mundo


greco-romano fizeram um ambiente propício para o surgimento e
crescimento do cristianismo. Durante o primeiro século, a bacia
do Mediterrâneo usufruía de uma unidade política e cultural sem
precedentes. Esta unidade foi garantida pela disseminação do
pensamento grego por meio das conquistas de Alexandre, o Grande e da
subsequente consolidação romana.

O pensamento grego antigo era bastante racista e exclusivista.


Esta tendência só começou a mudar com o crescente comércio e a
intercomunicação entre vários grupos. Alexandre tinha o ideal de unir a
humanidade em um único império e cultura e, por isso, a tendência ao
exclusivismo dos gregos tinha que ser abolida.

Dentre os pensadores gregos antigos, Platão foi quem teve a


maior influência no desenvolvimento do pensamento cristão primitivo.
Um ensino platônico que logo ganhou a adesão no cristianismo foi

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a doutrina dos dois mundos, segundo a qual existem duas realidades
antagônicas e excludentes: uma seria representada pelo mundo das
ideias, de natureza imaterial, considerado bom, ideal; a outra realidade
era representada pelo mundo das coisas, de natureza material,
considerado mal, corrompido.

Rapidamente esse conceito de dualismo gerou a ideia de


que as realidades ligadas ao espiritual são sempre melhores que as
realidades materiais, ou seja, o dualismo entre céu x terra, espiritual x
material. Quando o cristianismo se percebe influenciado pelo dualismo
platônico, desenvolve um forte ascetismo, e a carne é entendida como
uma prisão da qual o homem deve se libertar (dificuldade com o sexo,
por exemplo). O gnosticismo, que abraçou o dualismo, foi o principal
desafio para o cristianismo primitivo.

Outro ensinamento platônico de influência no cristianismo


primitivo foi a imortalidade da alma. Essa doutrina foi procurada
pelos cristãos como apoio na filosofia à esperança escatológica. Platão
ensinou que a alma era imortal, enquanto que o corpo físico era mortal.
Portanto, após a morte terrena, a alma permaneceria para sempre
viva, e o corpo encontraria a corrupção definitiva. A ideia platônica
não entendia a vida eterna como presente de Deus e afirmava que
apenas o espiritual prosseguiria sempre em detrimento do material.
No pensamento platônico, essa vida terrena era um erro, e o filósofo
precisava se libertar para alcançar a verdade. Esse desprezo pela vida
física é dualista e não era um pensamento cristão.

Uma terceira característica do pensamento platônico que


influenciou o cristianismo foi a ideia da reminiscência, ou recordação de
uma verdade observada pela alma que, quando retomada pela consciência,
pode ser a base de todo conhecimento humano. Inevitavelmente, a crença
na reminiscência implica na crença da imortalidade da alma, muito
presente, por exemplo, no pensamento de Santo Agostinho.

Dentre as correntes do pensamento filosófico grego,


o estoicismo teve grande influência no cristianismo primitivo,
especialmente por causa de seu rigor moral, sua doutrina sobre o
Logos e a ideia da Lei natural. A Lei natural está presente no interior

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dos seres humanos e surge a partir da razão universal, de modo que,
para sermos virtuosos, precisamos apenas obedecê-la. O estoicismo
atraiu muitos das classes mais altas e era uma corrente panteísta,
que acreditava que Deus permeava todas as coisas, mas não de modo
independente delas (Latourette, 2006, p. 34).

A única corrente filosófica de pensamento grego que surgiu


depois do cristianismo foi o neoplatonismo. Como o nome sugere, trata-se
de uma releitura do platonismo que reunia aspectos de diversas outras
correntes filosóficas anteriores a ela, como o aristotelismo, o estoicismo
e o neopitagoreanismo. O neoplatonismo tinha uma forte tendência
ascética e mística, por isso atraiu tanto a atenção dos cristãos primitivos.
Por meio do ascetismo, praticavam um rigor moral elevado e acreditavam
que desta forma o homem purificaria a sua alma, podendo, por meio da
contemplação, unir-se novamente a Deus (Latourette, 2006, p. 35).

A grande influência deixada pelos gregos para o período


do nascimento de Jesus e do cristianismo foi de cunho intelectual.
O cristianismo teve de dialogar com a filosofia grega predominante
no mundo antigo e acabou sofrendo sua influência. Na verdade, o
pensamento grego não apenas influenciou o cristianismo nascente como
formou todo o modo de pensar do mundo ocidental.

Outra grande influência do pensamento grego foi o idioma,


presente em todo o mundo mediterrâneo, e acabou sendo a língua do
Novo Testamento e do cristianismo nascente.

Importante
A maior contribuição dos gregos para a plenitude dos tempos foi,
certamente, de caráter intelectual.

O mundo antigo, embora fosse politicamente dominado


pelos romanos, ainda era filosoficamente influenciado pelos gregos.
Não é em vão que o pensamento grego tenha formado o pensamento
do mundo ocidental e grande parte do pensamento cristão. O
cristianismo nascente precisou do referencial filosófico grego para
dialogar com o mundo de sua época.

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Os romanos

O mundo mediterrâneo na época do nascimento de Jesus era


comandado politicamente pelo Império Romano, que sobrepujou os
gregos. A estrutura política e legal que vigorava no mundo do primeiro
cristianismo era romano e a Palestina, berço de Jesus – uma província
deste grande Império.

Importante

Sem dúvidas, a influência romana deixada para o cristianismo foi


de cunho político e estrutural.

Todos nós sabemos das modificações estruturais produzidas


pelos romanos, como as estradas, o exército de abrangência universal,
a moeda única, a chamada pax romana etc. Tudo isso foi marcante
no início do cristianismo, mas os romanos também tiveram sua
relevância religiosa.

Quando pensamos numa religiosidade romana anterior


ao cristianismo, devemos lembrar das religiões de mistério, que se
originaram de antigos ritos de fertilidade. O milagre da fertilidade era
celebrado em várias culturas antigas: por exemplo, o culto a Dionísio/
Baco é considerado um culto à fertilidade, e liturgias orgíacas eram
praticadas em sua homenagem.

Desde o antigo Egito celebravam-se a morte e a ressurreição


da divindade, pois acreditava-se que o deus morria e retornava na
primavera trazendo fertilidade. Ao fazer parte dessa celebração, o
indivíduo se tornava participante da renovação da vida da divindade. A
participação nessas religiões só era possível para os que eram iniciados.
Esses ritos de iniciação representavam a união dos neófitos com os
deuses que, desta maneira, tornavam-se participantes do poder e da
imortalidade divina.

Os cultos de mistérios causavam fascinação e, por isso, se


expandiram. Em Roma, o culto a Atis e a Cibele, que originalmente
era um culto frígio, foi muito praticado. Nesses cultos de mistério

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havia refeições cerimoniais nas quais o fiel ingeria o deus e se tornava
participante da divindade.

No mundo romano, o culto a Mitra foi o mais popular. Este


culto chegou a ser um adversário do cristianismo nascente em sua
expansão missionária. Alguns estudiosos apontam que as religiões de
mistério influenciaram o cristianismo no conceito de paixão, morte e
ressurreição de seu deus, no rito de iniciação (o batismo), na refeição
cerimonial (a eucaristia) etc. Outros estudiosos dizem que foi o
contrário, ou seja, foi o cristianismo dos séculos II e III que influenciou
as religiões de mistérios, já que não havia uma teologia de mistério que
fosse comum à essas crenças.

De uma forma ou de outra, as religiões de mistérios exerceram
alguma influência sobre o cristianismo. Por exemplo, a data 25 de
dezembro – quando se celebra o nascimento de Jesus – era uma antiga
data pagã relacionada ao culto a Mitra. Esta data só foi observada como
o nascimento de Cristo a partir de Constantino, no século IV.

Um ponto em comum nas religiões de mistérios é que quase


todas apelavam para um dualismo que considerava a matéria como má
e o espírito como bom. Nessas religiões, os fiéis eram estimulados a
procurar a emancipação da carne, praticando o ascetismo, a abstinência
sexual e uma moralidade rigorosa. Uma forma dessas religiões que
muito ameaçou o cristianismo nascente foi o gnosticismo.

Outro aspecto dessa religiosidade romana antiga era o culto aos


imperadores, considerados a maior divindade do panteão romano. Esse
tipo de culto não surgiu em Roma: o Egito adorava os faraós, os persas
se curvavam ante seus soberanos, os gregos adoravam seus heróis etc. Os
cultos aos imperadores geraram pontos de conflito com o cristianismo
nascente, que passou a interpretar que Jesus era o único Kyrios. Outra
característica que marca essa religiosidade era o sincretismo. Tais religiões
competiam para ser mais amplas que as outras, ou seja, para englobar
maior número de divindades e doutrinas possíveis.

Roma subjugou a Palestina na invasão do general Pompeu na


primavera de 63 a.C. Nesta época, a população do Império Romano

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vivia, majoritariamente, nas grandes cidades, construídas quase sempre
nas costas do Mediterrâneo, à margem dos grandes rios ou em lugares
protegidos das planícies mais férteis.

A Galileia era uma região importante para as rotas comerciais


do Oriente próximo, pois permitia a comunicação entre os povos
do deserto e os povos do mar, além de ser uma ligação entre a
Europa, o norte da África e o Oriente. A Galileia, assim como a
Judeia, pertenciam à província romana da Síria. Roma não ocupava
os territórios submetidos, mas preferia governá-los por meio de
soberanos, de preferência locais.

Nos anos próximos ao nascimento de Jesus, a região da Palestina


era governada por Herodes, o Grande. Este foi o homem obcecado
pelo poder, conhecido por sua crueldade e ganância, tanto que mandou
executar vários familiares, inclusive filhos, por medo de conspirações.

Herodes destacou-se como um grande construtor; são dele


edificações como o palácio em Massada, a Cesareia Marítima e o templo
de Jerusalém. Herodes levava a sério a tarefa de educar o povo a adorar
o imperador: em seu governo o imperador já era chamado de Augusto,
que significa O Sublime, título dado apenas aos deuses até então.

Quando Herodes morreu, em 4 a.C., seu território foi dividido


entre seus filhos. Herodes Arquelau ficou com Idumeia, Judeia e
Samaria; Herodes Antipas ficou com a Galileia e a Pereia; e, Herodes
Filipe governou Gaulanítide, Traconítide e Auranítide. O período da
vida de Jesus coincidiu com o domínio de Antipas sobre a Galileia, que
ficou sob seu governo do ano 4 a.C. até sua deposição em 39 d.C.

A Galileia era uma região agrária. A maioria de seus habitantes


vivia do campo e da pescaria, em virtude do mar da Galileia. O povo
mais pobre, embora vivesse da terra, não as possuía. Havia desigualdade
e muita exploração tributária. Roma cobrava dois impostos: um
correspondente a terras cultivadas e outro cobrado dos homens adultos
de cada família. Antipas tinha seus próprios impostos – que giravam
entre 12% e 13% das colheitas dos camponeses – e ainda havia os
impostos religiosos, os dízimos e as primícias.

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A maioria da população da Palestina nos dias de Jesus era
agrária e com muita dificuldade para pagar os impostos e sobreviver.
A situação dos camponeses ficou ainda mais difícil quando Antipas
reconstruiu a cidade de Séforis e edificou a nova capital, Tiberíades.
Séforis havia sido o centro administrativo da Galileia nos dias
de Herodes; e, nos dias dos asmoneus, a cidade era o centro de
recolhimento de impostos (Pagola, 2012, p. 45).

A vida nas cidades e nas aldeias era muito diferente. Nos


povoados rurais da Galileia, as pessoas viviam em casas muito simples
de barro ou de pedras, as ruas eram de chão batido e sem pavimentação.
Já em Séforis, por exemplo, existiam edifícios bem-construídos, ruas
pavimentadas e até uma avenida de 13 metros de largura. Para sustentar
as cidades de Séforis e Tiberíades – cidades que não cultivavam a terra –,
os camponeses foram ainda mais oprimidos a pagarem impostos e taxas
aos governantes herodianos.

Foi neste período que começou a circulação de moedas


na Galileia cunhadas por Antipas. As de prata serviam para o
tributo imperial por pessoa e diversos impostos. Já as moedas de
bronze eram normalmente usadas pelos camponeses. Jesus viveu
em um contexto em que o nível de endividamento e perda de
terras das populações mais carentes aumentou muito. Assim, Jesus
condenou este tipo de exploração em passagens como a do rico e
Lázaro (Lc 16.19-31), do proprietário de terras insensato que só
pensa em construir armazéns para acumular riquezas (Lc 12.16-
21), na crítica que faz aos que entesouram sem pensar nos mais
necessitados (Mt 6.24).

A cidade da Galileia era uma ilha rodeada de cidades


helenísticas como Samaria, Sebaste, Ptolemaida, Tiro, Sidom e
principalmente a confederação de cidades chamada Decápole, centro
helênico na região.

É curioso citarmos que na época de Jesus se falava o aramaico,


e o grego possuía grande influência. Mesmo com o domínio romano, o
latim não conseguiu se estabelecer na Palestina, a não ser pelos próprios
funcionários e militares romanos.

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A vida de Jesus neste contexto

Jesus viveu na Palestina dominada pelo Império Romano, ou


seja, num contexto de influência religiosa judaica, em um mundo de
estrutura greco-romana.

Não é exagero dizer que Jesus nasceu na periferia (Galileia) da


periferia (Palestina) da periferia (região da Síria) do Império Romano.
Sua vida foi marcada pela simplicidade: ele nasceu numa manjedoura
(local onde os animais se alimentam) e morreu pregado nu a uma cruz,
como um malfeitor. Seu nome era Yeshua, que embora significasse
Yaweh Salva, não era um nome único e muito menos nobre. Yeshua foi
o nome dado pelo seu pai no dia da circuncisão. Era um nome muito
comum naquela época, por isso, para identificá-lo dentre os demais, era
chamado de Yeshua bar Yosef, (Jesus filho de José).

Jesus era da Galileia, nem mesmo era de Jerusalém, cidade


onde ficava o templo. Seu pai era um simples carpinteiro, não possuía
nenhuma profissão de destaque como um publicano ou mesmo um
sacerdote. Não devemos esquecer que, nesta época na Galileia, só quem
vivia com conforto eram sacerdotes e funcionários ligados ao Império,
e que todo o restante da população se via em grandes apuros para pagar
os muitos impostos e tentar sobreviver com o que sobrava.

A população do imenso Império Romano na época de Jesus


chegava a quase 50 milhões de pessoas. Na Galileia a população era de
150 mil pessoas, e Jesus era só mais um dentre tanta gente.

Jesus dedicou sua vida à defesa dos oprimidos e da população


mais simples em detrimento dos poderosos, que exploravam o povo
galileu. Não é raro encontrarmos parábolas nas quais Jesus faz esse
tipo de condenação, por exemplo: na parábola do mendigo Lázaro e
do rico que vive insensível à fome das pessoas que estão ao seu redor,
é curioso notar que Jesus inverte a ordem que se aplicava naquela
cultura na qual geralmente dava-se nome às pessoas importantes e, .
na ocasião, Jesus chama pelo nome apenas o mendigo (Cf. Lc 16.19-31);.
outra parábola interessante é a denúncia que Jesus faz de um homem
preocupado apenas em construir armazéns para concentrar cada

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vez mais riquezas (Cf. Lc 12.16-21). A célebre frase de Jesus no
sermão da montanha, na qual ele classifica os pobres como felizes
(bem-aventurados) (Cf. Mt 5.3). Nos relatos dos Evangelhos
não encontramos apenas parábolas e discursos de Jesus quanto à
exploração, mas vemos ações práticas no combate à corrupção e à
perversão da religiosidade, bem como ações em defesa dos menos
favorecidos (ex.: Mt 12.12, Mt 23, Lc 9.10-17, Jo 5 etc.).

A maior (não a única) fonte de informações que temos a


respeito da vida de Jesus são os Evangelhos. Os textos considerados
canônicos relatam poucos episódios de sua infância e menos ainda
de sua adolescência e juventude. É certo deduzirmos que, nessas
fases, Jesus viveu como qualquer pessoa de sua idade, possivelmente
aprendendo a ler a Torá em família, os preceitos religiosos e também .
a profissão do pai no dia a dia.

O período de sua vida que mais importa para os relatos


evangélicos é do seu ministério, de sua vida adulta, inaugurado com
o batismo no rio Jordão por João, o Batista. Três são os anos mais
relatados de sua vida, considerados os anos de seu ministério. Nesta
época Jesus passou mais tempo na Galileia (dois anos), depois na Judeia
(oito meses) e também na Pereia (cerca de quatro meses). Estes anos
podem ser resumidos como o ano da discrição, ano da popularidade e o
último como o ano da oposição e perseguição (Melo, 2013, p. 19).

Jesus chamou para serem seus discípulos doze homens


comuns, gente do povo e com suas imperfeições, o que fica muito
exposto na convivência do colégio apostólico. Os doze homens de
personalidades diferentes e histórias diferentes não foram os únicos
seguidores que Jesus teve: ele foi seguido por muitas pessoas, inclusive
mulheres, parte fundamental de seu ministério.

Hoje já é praticamente inquestionável a historicidade de Jesus.


Além dos textos dos Evangelhos canônicos, existem várias outras fontes
que comprovam sua existência, bem como dos primeiros discípulos e
das primeiras comunidades ligadas a ele. Além dos quatro Evangelhos
que conhecemos, foram produzidos vários outros considerados apócrifos,
que ainda que não contêm valor dogmático, mas que constituem

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fontes históricas importantes. Existem, ainda, os relatos de pessoas
que nem sequer discípulos de Jesus eram. Por exemplo, o historiador
romano Tácito faz uma ligação entre o nome e a origem dos cristãos a
um Christus, que, no reinado de Tibério, sofreu a pena de morte por
crucificação (Cairns, 1995, p. 37). Plínio, autoridade da Ásia Menor,
escreveu uma carta para o imperador Trajano pedindo conselhos de como
lidar com os cristãos de seu território. Suetônio faz citações em relação a
Cristo em suas obras, e Luciano satiriza os primeiros cristãos e sua fé em
suas obras. Flávio Josefo também fala de um homem com seguidores que
foi sentenciado à morte por Pôncio Pilatos (Melo, 2013, p. 17).

Jesus foi considerado Mestre e Salvador vindo da parte de


Deus por seus seguidores. Talvez, o texto que melhor expressa esta
certeza seja o do Evangelho de Mateus:

E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Felipe, interrogou


os seus discípulos dizendo: Quem diz os homens ser o Filho
do homem? E eles disseram: uns João Batista, outros Elias e,
outros, Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes ele: e vós?
Quem dizeis que sou? E Simão Pedro, respondendo disse:
Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo,
disse-lhe: bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não
foi carne ou sangue quem to revelou, mas meu Pai que está
nos céus (Mt 16.13-17).

A certeza de que Jesus era o Salvador (Messias) foi


entendida pelos primeiros discípulos como uma revelação do Pai.
Aqueles homens e mulheres entregaram suas vidas e abriram os seus
corações à proposta de amor e misericórdia feita por Jesus, o Cristo,
a imagem visível do Deus invisível.

Mais do que um mestre, Jesus foi recebido pelas primeiras


comunidades como Salvador e revelação do Pai. Jesus é a perfeita e
plena revelação de Deus à humanidade, e em torno desta revelação se
forma a comunidade cristã.

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Síntese
Nesta primeira unidade estudamos os fundamentos do
cristianismo nascente. Vimos o contexto político e social da época do
nascimento de Jesus. Tivemos a oportunidade de compreender melhor
como era o contexto religioso da época, um ambiente de predominância
judaica, assim como conhecemos algumas práticas dos grupos judaicos
que formavam a religião e sua relação com o povo.

Também estudamos o mundo greco-romano, ou seja,


o contexto histórico no qual Jesus estava inserido, bem como o
pensamento grego e a estrutura política estabelecida pelos romanos.
No fim da unidade também estudamos um pouco da vida de Jesus e
suas relações com o mundo e as pessoas.

Esperamos que esta primeira lição sobre a história do


cristianismo e da teologia tenha sido esclarecedora e enriquecedora para
os seus estudos. Qualquer dúvida, nos colocamos à sua disposição.

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Referências Bibliográficas
CAIRNS, Earle. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida
Nova, 1995.

GONZALEZ, Justo. Uma história do pensamento cristão. Vol. 1. São


Paulo: Cultura cristã, 2002.

_______. Uma história ilustrada do cristianismo. Vol. 1. São Paulo:


Vida Nova, 1995.

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo. Vol. 1.


São Paulo: Vida Nova, 2006.

MELO, Jansen Racco Botelho de. Entusiasmo e poder — uma


história do cristianismo. Petrópolis: Independente, 2013.

PAGOLA, José Antonio. Jesus — aproximações históricas. Petrópolis:


Vozes, 2012.

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