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Módulo 3 – Ficha de avaliação Caderno do Professor

Lê atentamente o texto e responde às questões formuladas.

Vacilantes rostos do passado


Vacilantes rostos do passado: os meus avós, os meus tios, a minha bisavó, já
tontinha, um militar com as tripas nas mãos a olhar-me na picada, numa atitude de
oferta. Silenciosos verões, a serra da Estrela que continua a fazer-me sonhar, o céu
da noite sobre as ramadas dos pinheiros. Cheiros da Beira Alta que só a mim
5 pertencem, da roupa engomada nas gavetas e o do incenso, na igreja, quando era
menino do coro e as flechas de São Sebastião, num altar lateral, me atormentavam.
Riscos encarnados a imitarem sangue no corpo de pasta. […] Saudades do
carrossel em forma de oito:
– Viaje no oito que viaja melhor
10 berrava o altifalante, e atrás do microfone um homem gordo, de bexigas, a
piscar o olho às pequenas jeitosas enquanto limpava o suor das bochechas com um
lenço gigantesco, esse não um vacilante rosto do passado, uma cara pavoro-
samente nítida, de anel do tamanho de uma algema no dedo. Silenciosos verões
durante o dia, os insetos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre, asas quei-
15 madas crepitando. O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e
se ausentava num abismo de mudez. O bolso do casaco dele cheio de palitos que
não sei para que lhe serviam, não os punha na boca. Depois de morrer o casaco, de
linho branco, permaneceu que tempos no cabide. Era bonito e triste, de uma
melancolia amável. Não me ligava nenhuma, dava ideia de não ligar a ninguém.
20 Sorria apenas. Vacilantes rostos ou sombras? […] Lembro-me da minha mãe
cantar, lembro-me de parecer nossa irmã, lembro-me de eu a querer escrever. Com
cinco ou seis anos copiava coisas dos jornais e considerava-as minhas. Fazia
versos. Por volta dos treze anos comecei a entender que não tinha talento e
seguiram-se séculos e séculos de prosa. Na altura ainda fazia essas diferenças. As
25 prosas eram, evidentemente, horríveis, tinha consciência disso, mas tinha tam-
bém a certeza inabalável, de cimento, que iria fazer o que nunca, antes de mim, se
fizera. É esquisito que ainda hoje não pasme com a minha convicção de garoto. […]
Que longo caminho até chegar aqui. E, ao mesmo tempo, a sensação de que
estamos sempre a começar. Queridos, vacilantes rostos do passado. Daqui a nada
30 eu, passado igualmente, na memória dos outros:
– Como era o António, que não me recordo bem?
Casaco e palitos não tinha, sorriso pouco, quase não falava. Sujeitava-se mal à
ordem das coisas. Tentou, a vida inteira, conseguir vários níveis de emoção em
cada frase e concentrar num nada o mundo todo. O resto considerava-o inútil. Um
35 dia morreu. Deixou parágrafos. Na esperança que as asas queimadas dos insetos
do crepúsculo contra a lanterna do alpendre crepitem não um segundo mas a
eternidade inteira. Na esperança, não. Seguro disso, enquanto o céu da noite
continuará sobre as ramadas dos pinheiros, no lugar onde foi mais feliz.

António Lobo Antunes, in Visão, de 21 de janeiro de 2010 (com supressões)

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75 pontos
I

1. Identifica o facto que deu origem a esta crónica. 15

2. Diz se as afirmações que se seguem são verdadeiras (V) ou falsas (F), tendo em 20
conta o texto:
a. A estátua trespassada por flechas de São Sebastião, na igreja, incomodava o
autor.
b. O homem do carrossel é uma recordação ténue.
c. O avô de António Lobo Antunes era muito sociável e adorava conversar com
o seu neto.
d. Quando era pequeno, o autor publicava os seus textos em jornais.

3. Indica o motivo que levou o autor a dedicar-se à prosa. 10

4. Explicita o significado da seguinte expressão: 15

“Daqui a nada eu, passado igualmente, na memória dos outros” (ll. 30-31).

4.1. Como se descreve o autor? 15

II 75 pontos

1. Transcreve do texto os antecedentes dos vocábulos sublinhados nos excertos que 15


se seguem:
a. “[…] esse não um vacilante rosto do passado […]” (l. 12)
b. “O bolso do casaco dele cheio de palitos […]” (l. 16)
c. “[…] não os punha na boca […]” (l. 17)

2. Classifica o sujeito das seguintes frases. 15

a. “As prosas eram, evidentemente, horríveis […]” (ll. 24-25)


b. “Sorria apenas.” (l. 20)
c. O incenso e a estátua de São Sebastião lembravam a António Lobo Antunes
o passado.
2.1. Identifica as funções sintáticas dos constituintes sublinhados na frase
apresentada em 2.c.

3. As palavras “tontinha” (l. 2) e “pavorosamente” (ll. 12-13) foram formadas por: 20

a. derivação (prefixação)
b. composição morfológica
c. derivação (sufixação)

4. Considera as duas frases simples: 10

O rapaz escrevia poesia. Ele desejava ser escritor.

4.1. Transforma-as numa frase complexa recorrendo a uma conjunção 15


subordinativa causal.

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III 50 pontos

1. Resume o texto informativo a seguir transcrito, constituído por duzentas e


noventa palavras num texto de noventa e cinco a cento e dez palavras:

Áudio-guias vão orientar turistas na


Guarda
Até ao final do ano, a autarquia da Guarda tem previsto arrancar com um
novo sistema de visitas guiadas. Os visitantes e turistas que se deslocam ao
Posto de Turismo da Guarda têm à sua disposição, mediante o pagamento
de uma caução, um aparelho que lhes permite executar uma visita áudio, em
5 português, inglês e francês, pelo centro histórico da cidade. Os áudio-guias, é
assim que se designam, vão orientar turistas e visitantes pela história da
cidade mas também pelo património. Será possível também aos visitantes
“espreitar” o som ambiente de certos locais do concelho.
Juntamente com o aparelho (vão estar 20 disponíveis), que é pouco maior
10 do que um telemóvel, será distribuído um panfleto com um mapa da cidadela
medieval onde todos os locais estão identificados com um código específico.
Ao acionar o código do local ou edifício pretendido, o visitante ouve
imediatamente toda a informação sobre a sua escolha.
Este aparelho põe ao dispor do utilizador uma contextualização e des-
15 crição de todo o concelho, permitindo realizar uma visita ao centro histórico
da cidade com informações históricas e culturais minuciosas.
Trata-se de uma solução multimédia que permite a elaboração de um
roteiro cultural e histórico do centro da cidade e que ajuda a identificar e
interpretar não apenas os sítios históricos mas também as memórias e o esti-
20 lo de vida da população residente na zona.
Valorizar os hábitos locais e os estilos de vida, contribuir para a promoção
do Centro Histórico, aumentar o tempo de permanência dos turistas, melhorar
a experiência de visita à cidade, contribuir para a sustentabilidade financeira
dos residentes e dar maior dinamismo ao comércio local (através do aumento
25 da oferta turística e serviços ao visitante) são alguns dos objetivos que estão
na base deste projeto. […]

in Guarda Viva, Boletim Municipal da C. M. da Guarda, n.º 1, novembro de 2007 (com


supressões) Total
200 pontos

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