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JACQUES DE MEDINA

Visionário humanista
JACQUES DE MEDINA
Visionário humanista
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JACQUES DE MEDINA
Visionário humanista

Tributo ao desbravador e ao sedimentador dos nossos


caminhos, na comemoração de seus 92 anos.

março de 2016
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Jacques de Medina é engenheiro civil pela Escola Nacional de Engenharia, com mestrado pela
Universidade de Purdue, nos Estados Unidos. Participou com destaque na elaboração e exe-
cução do Laboratório Tecnológico do DER da Guanabara. Em 1967 ingressou na COPPE, onde
chegou ao cargo de professor titular e criou as disciplinas Mecânica dos Pavimentos e Proprie-
dades Físico-Químicas do Solo. Devido a sua paixão pela área de pavimentação, inspirou, ao
longo dos anos, vários engenheiros do Departamento de Estradas de Rodagem – RJ.

Eng. Ângelo Monteiro Pinto


Presidente do DER-RJ

Eng. Romulo Keller Rodrigues


Presidente da Associação dos Engenheiros do DER-RJ
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Medina representa um símbolo de uma época em que não era fácil aos engenheiros se dedica-
rem aos estudos além da faculdade, e ter bons livros para se aperfeiçoar na vida profissional.
Montar laboratórios e estudar no exterior era objetivo de poucos.

Formado em 1947 pela Escola Nacional de Engenharia, fez o mestrado na Universidade de Pur-
due, nos EUA, entre 1949-1951, e realizou, nos anos 1960, viagens de estudo à França e à África.
Estudou em Berkeley, nos EUA, e no Road Research Laboratory, na Inglaterra. Atuou nos Labora-
A título tórios do DNER e do DER/RJ e foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Pavimentação
– ABPv em 1959.
de apresentação
Ao ingressar na COPPE formou, com Willy Lacerda e Dirceu Velloso, o tripé de sustentação da
Equipe de Geotecnia da COPPE/UFRJ área de Mecânica dos Solos, depois Geotecnia. Aqui, encontrou lugar ideal para seu espírito
investigativo. Com seu protagonismo, colaborou decisivamente na fundação da pós-graduação
na Engenharia Civil e da própria COPPE.

Medina é exemplo de dedicação, ética e criatividade, acessível a todos, sensível aos proble-
mas do país e ligado nas tendências de inovação da área a que se dedicou: a pavimentação
e a estabilização de solos. Criou as disciplinas de Físico-Química e Estabilização de Solos e
introduziu a pesquisa de uso de resíduos industriais, quando quase ninguém tinha essa pre-
ocupação. Montou um laboratório e escolheu um químico para tocá-lo, de modo a prover o
arcabouço experimental e ampliar as pesquisas fundamentais das argilas e dos princípios da
estabilização química.

A introdução da Mecânica dos Pavimentos no país foi responsável por verdadeira revolução nos
conceitos tradicionais de seleção de materiais. A consideração do clima na formação dos solos
tropicais e a laterização típica dos solos brasileiros foi sua preocupação desde os tempos de
engenheiro do DNER. Na COPPE, dedicou-se a incentivar os alunos a seguirem por essa trilha de
compreensão da importância do meio físico na Geotecnia Rodoviária e formou seguidores que
continuam essa divulgação em inúmeras universidades. A eletrosmose e a pedologia aplicadas
à pavimentação, a primeira instrumentação de pavimentos (1976), a mecânica da fratura nas
misturas asfálticas, o acomodamento ou shakedown dos materiais, a introdução do FWD e con-
ceitos de retroanálise para interpretar a deflexão, o pavimento ferroviário, entre outros temas
hoje correntes, também partiram de sua visão ampliada dos pavimentos.

É unânime o reconhecimento da sua erudição. Cronista de fino estilo, sempre nos brinda com
deliciosos comentários de fatos cotidianos. Foi reconhecido pela UFRJ com os títulos de Notó-
rio Saber, em 1988, e Professor Emérito, em 2008. Todas as honrarias não lhe tiraram a virtude
de ter sempre um olhar atencioso e uma palavra de carinho, especialmente para os que anoni-
mamente constroem e zelam pelas instituições.

É querido por todos na área e no Laboratório de Geotecnia, que tem seu nome, no Programa
de Engenharia Civil e na COPPE. Tem o respeito e a admiração de toda a comunidade de
profissionais da Engenharia Rodoviária nacional.
SUMÁRIO TRABALHOS CONVIDADOS
• Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas Jaelson Budny 200

• Microestrutura e propriedades geotécnicas de 212


um solo residual Francisco José Casanova
MEDINA POR Jacques de Medina 10
• Rankine: o homem que quantificou o amor Francisco José Casanova 221
A minha esposa, Lia Jacques de Medina 14 • O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico 225

Homenagem ao professor emérito Jacques de Medina Willy Lacerda 18 e seu papel no bem-estar de um povo Francisco José Casanova
• Considerações sobre a criação do homem a partir da argila Francisco José Casanova 249
Com a palavra Jacques de Medina 26
• O longínquo passado do solo Francisco José Casanova 287
Obrigado, Jacques de Medina José Vidal Nardi 32
• 30 anos do Laboratório de Pavimentação da UFRGS Jorge Augusto Pereira Ceratti 299
Jacques de Medina: amigo, mestre e educador Francisco José Casanova 38 • Parâmetros de deformação permanente de 305
O sujeito é a oração, a oração ora é o pensar, ora é a ação... 46 solos finos Antonio Carlos Rodrigues Guimarães
Ian Schumann Martins • Utilização dos conceitos de payfactor na gestão 310
de obras rodoviárias brasileiras Leni Leite
Solicitação de concessão de título de emerência 50
• Novo método brasileiro de dimensionamento 318
de pavimentos asfálticos Laura Maria Goretti da Motta
• Metodologia alternativa para projetos de pavimentos na 327
TraBALHOS PROFESSOR JACQUES DE MEDINA
área de estabilização de solos José Vidal Nardi
• Uma pequena história da Escola Nacional de Engenharia 58
• Reflexão sobre o dimensionamento de pavimentos 336
• Minhas viagens de estudo ao exterior 59 rígidos no Brasil Ernesto Simões Preussler
• Research on soil stabilization at UFRJ 115
• Transparency and good governance as success factors 344
• Une méthodologie d’evaluation des chaussées 128 in public/private partnerships Cesar Queiroz
souples et calcul de renforcement
• Previsão de deformações plásticas em pavimentos asfálticos Régis Martins Rodrigues 351
• Design of asphalt pavements using lateritic soils in Brazil 131
• Uso do DCP para avaliação do grau de compactação de um solo 359
• Considerações sobre o ensino da pedologia 138
na Região Oeste de Curitiba/PR Caio Vinícius Schlogel
aplicada à engenharia
• Previsão da sucção in situ do subleito do Aeroporto Internacional Nelson Mandela, 366
• Stabilization of lateritic soils with phosphoric acid 146
em Cabo Verde Carlos Filipe Santos Correia e Silva
• Um engenheiro geotécnico face à geologia 164
• Análises de desempenho dos pavimentos com uso do HDM-4 Rafael Cerqueira Silva 371
• Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 171
• A importância de se reproduzir na obra a granulometria dos agregados 380
• Prefácio da 3ª edição do livro Mecânica dos Pavimentos 193
da mistura asfáltica de projeto Ilonir Antonio Tonial
• Desempenho da reciclagem de pavimento com adição de cimento 394
na Rodovia SC 135 Glicério Trichês

Referências Bibliográficas TrabALHOS CONVIDADOS 405


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MEDINA POR JacqueS de Medina Embora filho único, tive a companhia de um primo-irmão português, Rafael, até os 5 anos de
idade. Nasci em Santa Tereza, mas residi até os 5 anos em Copacabana. Meu pai era pequeno
industrial de móveis e decoração de interiores; em 1937 ganhou o Grand Prix na exposição Inter-
nacional de Paris, tinha eu 13 anos. Do segundo ano primário em diante, até concluir o ginásio,
fui aluno do colégio Anglo-Americano.

Colocou-me o destino diante de mim um amigo-irmão: Luiz Van Berg. Ao iniciar o ginásio, ga-
nhei o segundo amigo-irmão: Alberto Luiz Galvão Coimbra. Boas lembranças do colégio e da
praia de Copacabana (futebol na areia, ondas do mar, jogo de peteca etc.).

Duas viagens à Europa de navio, Portugal e França. Aos 5 e 13 anos, excursão à Itália. Meu pai,
Gregório de Medina, estudioso de história e arte, muitos anos mais tarde, escreveu quatro livros
que se intitulam Roteiro turístico, artístico e histórico: Portugal, Paris, Espanha e Roma. Ele tinha
um considerável acervo; doei à UFRJ os livros de arte, história e teatro.

Os estudos ginasianos valeram-me duas medalhas de ouro de melhor aluno. Cedo, tornei-me
um torcedor botafoguense, ia ao estádio da General Severiano e a todos os outros estádios com
os amigos Luiz e Alberto.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as Forças Armadas e a nossa Força Expedicionária tornaram-
-se o foco de minha admiração; idem, a resistência dos guerrilheiros contra o nazi-fascismo.

Já era então aluno da Escola Nacional de Engenharia (1943-1947). Senti, no início, a base pre-
cária que trazia do ginásio, ainda que de permeio houvesse, na época, o curso complementar
num colégio do governo. Mas fiz o tiro de guerra e tornei-me reservista de segunda categoria.
Fiz curso de inglês e pequena revisão de francês que praticava com minha mãe Hélène.

Pode parecer paradoxal, mas o melhor dos cinco anos da faculdade, além da convivência va-
riada com jovens de vários estados e conceituados professores, foi o curso de Mecânica dos
Solos realizado na companhia Estacas Franki na Rua Equador, Cais do Porto, que durou quase
um ano e onde ganhei dois colegas. O curso foi ministrado pelo Engenheiro e professor Icarahy
da Silveira a quem muito devo.

Jacques de Medina nos anos 1960, como presidente Antes disso, no terceiro ano, estagiei num escritório de cálculo de concreto armado de sete às
da Associação Brasileira de Pavimentação - ABPv. dez da manhã, no centro.

Casei-me tarde, segundo os padrões usuais, aos 44 anos, com Lia Machado Velloso, de 31
anos, em 1969. Foi o que de melhor aconteceu na minha vida. Tivemos dois filhos: Rodrigo
(1971) e Rafael (1973).
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Engenheiros que tiveram relevância


no meu desenvolvimento profissional
4

3 • Icarahy da Silveira, professor de Mecânica dos Solos do curso ofereci-


do pela Companhia Estacas Franki, 1947/1948, quando esta disciplina
não era ainda oferecida na Escola Nacional de Engenharia;
• Galileu Antonio de Araujo, diretor do Laboratório Central do DNER no
Omito doenças e operações da nossa família, pois nada se compara No dia 30/03/2003, ao completar 79 anos, Rio de Janeiro, onde tive o primeiro emprego público em 1948, na Se-
Jacques com a esposa Lia e os filhos
à via crucis da Lia, treze anos mais jovem do que eu. Acrescentaria o ção de Solos;
Rodrigo e Rafael (1); com Willy, França
modo trágico da morte de meu pai (atropelado), em 1984. e Coimbra e os canis familiaris Dunga e • Francisco Pacheco Silva, do IPT de São Paulo, que acompanhei nos
7
Katucha (2); e Jacques com a camiseta estudos de aterros sobre argila mole na Baixada Fluminense, em obras
O que mais me motiva até hoje é permanecer nesta comunidade universi- que melhor representa sua vida profissional do DNER; foi grande incentivador do mestrado nos EUA;
madura (3).
tária de nome COPPE/UFRJ. Mas, durante a vida fui motivado pelo carinho 5 Em 1949, Jacques (esq.) com o • Abilio de Azevedo Caldas Branco, no conhecimento da tecnologia do
4 Placa do Laboratório de Geotecnia com o
e apoio dos meus pais e dos amigos. Se algo, por vezes, me desanima, é engenheiro Francisco Pacheco Silva do IPT concreto, no DER-GB; excelente conselheiro na década de 1960. Reali-
nome do professor Medina. de São Paulo, na Variante Rio-Petrópolis.
ver à minha volta a pobreza menosprezada e oprimida, é constatar o des- zou estudos originais na Escola Técnica do Exército;
Em 2006, 57 anos depois, Jacques seria
caso com o meio ambiente e a impunidade dos poderosos. convidado a apresentar a VII Conferência • Gerald Leonards, K.B. Woods, Carl Minismith James Mitchel, Francis
Pacheco da Silva, no auditório do IPT. Hveem (os dois primeiros da Universidade de Purdue, Indiana; os dois se-
6 Em 1961, no prédio do Laboratório guintes da Universidade da Califórnia, Berkeley, e o último do Departamen-
Ao meu amigo Willy Lacerda: do DER, na Av.Brasil, perto do Trevo das to de Estradas da Califórnia - Laboratório Central de Sacramento, EUA);
Missões. A partir da esquerda: Bock, Housel
“Doutor no saber e na arte de viver. • Francisco Bolivar Lobo Carneiro, excelente profissional e investigador
(Univ. Michigan), Fernando Martins, Medina,
Ouvido musical que o sonoro trocadilho produz Fernando Barata e Hélio P. Pinto. do campo. Fundador da Proenge - Projetos e Serviços de Engenharia, de
Alma leve, muitos à tua volta ajudaste a crescer, que participei por alguns anos. Colega do DER-GB;
7 Em 1957, como engenheiro do laboratório
com a simplicidade refinada que a todos seduz”. do DER, com o engenheiro Bolivar Lobo • Helio Farah, engenheiro químico do laboratório do DER-GB, parceiro de
Carneiro, na Av. Litorânea. Ensaio de CBR trabalho pioneiro sobre temperatura de pavimentos asfálticos.
in situ.
• Murillo Lopes de Souza, o especialista autodidata de pavimentos do
À minha amiga Laura: DNER, trouxe-me a realidade das questões de campo à franca discus-
“Talvez o melhor que me tenha acontecido na COPPE tenha sido conhecer-te, são desde a década de 1950, sendo eu um dos seus parceiros de troca
minha aluna dedicada, depois docente e professora. Teria orgulho de ter-te de ideias e dos mais assiduamente solicitados.
como filha. O Antônio (Vermelho) é teu companheiro inseparável, e juntos • Mário Kabalem Restom, por ser o principal artífice da criação da Asso-
trouxeram ao mundo duas jóias – Beatriz e Gabriel. ciação Brasileira de Pavimentação, em 1959, que me permitiu desenvol-
Obrigado por existires”. ver ampla troca de informações técnicas com especialistas de todo país.
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A minha esposa, Lia

Jacques de Medina

Lia em 1969, ano


do casamento.

A esposa Lia no meu trabalho na COPPE, e sua formação

Seria egoísmo de minha parte não destacar a figura da companheira


amada esposa, Lia Machado Velloso, na minha trajetória na COPPE. Ca-
samento realizado a 29/01/1969 na Igreja de São Pedro de Alcântara, na
sede da UFRJ, Praia Vermelha, perante o Padre Francisco Leme Lopes.
Tinha eu 44 anos e era recém ingresso na COPPE /UFRJ, no limiar de
uma atividade docente de tempo integral, sob a direção do amigo de
infância e de torcida do Botafogo, professor Alberto Luiz Coimbra.

Tive a compreensão de minha jovem esposa mesmo porque Lia tinha vi-
vência do meio universitário de alto nível na parte administrativa: IMPA/
CNPq e PUC-RIO. Nossa opção trouxe-nos o reconhecimento de familiares
e amigos, mas também momento de acentuada dificuldade financeira.

Portanto, o meu currículo neste livro se enriqueceu muito ao juntar o


perfil de Lia Velloso de Medina. Quis o triste e impiedoso destino que
ela, treze anos mais nova do que o esposo, se fosse antes, em 2 de no-
vembro de 2015.
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Minha esposa, Lia Velloso de Medina (1937-2015) país. Seu presidente era o professor Eduardo Portela, ex-ministro da Edu-
cação. O nome da instituição evoca o do “College de France”, fundado em
Lia estudou no colégio Notre Dame de Sion, habilitando-se para o magis- Paris pelo Rei Francisco I, em 1530. Na época, uma das figuras que mais
tério primário particular em 1956. comoveu a Lia foi a do Professor Milton Santos, pois aliava a sua extraor-
dinária cultura ao trato ameno das pessoas e a consciência tranquila de
Concluiu o curso de Didática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras sua negritude.
da Santa Úrsula, em 1968. Fez curso de treinamento para professora de
inglês, e podia ensinar o idioma para o Ensino Médio em qualquer institui- A senhora Lygia Portocarrero Velloso, tia da Lia, que desempenhou o pa-
ção de ensino. Especializou-se em tradução e interpretação, em 1976,ten- pel de avó querida dos “netos” Rodrigo e Rafael, teve seu nome dedicado
do como professor Daniel Brilhante de Brito. post mortem à biblioteca do Centro de Memória do CNPq, em Brasília, no
dia 13/04/2004. Representando a família da homenageada, a sobrinha
Cursou a cadeira de Teoria e Técnica Psicopedagógicas, 360 horas (2 Lia disse algumas palavras. Foi, na verdade, um momento de evocação da
anos), do CEPERJ - Centro de Estudo Psicopedagógico do Rio de Janeiro fase “heroica” do CNPq, muito bem vivida pela homenageada e lembrada
(professora Maria Aparecida Campos Mamede Neves), tendo a orientação com ternura e graça pela sobrinha. Presentes estavam os ministros da
curricular do CEP - Centro de Estudos Psicopedagógicos de Buenos Aires Ciência e Tecnologia e o da Cultura, e o presidente do CNPq.
(professor Jorge Visca), em 1990.
Foi graças à Lia que pude aguentar as agruras do Fundão e tivemos o
Recebeu o certificado de término do 4º ano do curso de francês da Alian- reforço da verba mensal disponível. Ave, Lia!
ça Francesa. Participou de vários cursos de curta duração, como Atua-
lização em Psicopedagogia, Distúrbios da Aprendizagem, A Criança e a
Aprendizagem.

Citam-se a seguir, alguns destaques da sua atividade profissional que se


refletiram sempre na minha missão de professor, pela compreensão e
apoio recebido da Lia.

Funcionária administrativa o IMPA/CNPq - Instituto de Matemática Pura e


Aplicada, Conselho Nacional de Pesquisa, de 1959 a 1969, quando licen-
ciou-se por dez anos consecutivos (casamento e filhos pequenos).

Funcionária administrativa da PUC-Rio de 01/02/1979 a 28/02/1987.

Assessora da diretora do departamento de matemática, professora Gil-


da de La Rocque Palis, de 01/02/1979 a 01/02/1980; Assessora do vice-
-reitor acadêmico, de 01/02/1980 a 01/12/1982; Assessora da diretoria
do NOAP (Núcleo de Orientação e Atendimento Psicopedagógico), de
01/01/1983 a 16/03/1987;

Assessora do diretor-presidente do Colégio Brasil, Rio de Janeiro, de


Lia, Rafael e Rodrigo,
01/01/1996 a 01/12/1998. Nessa atividade, Lia viveu uma experiência de
março de 1974.
rica convivência com pessoas representativas do melhor da cultura do
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Homenagem ao professor Estamos aqui hoje reunidos para homenagear Jacques de Medina, uma das figuras mais
ilustres da Engenharia Nacional. Começarei pela listagem dos pontos mais relevantes de sua
emérito JacqueS de Medina extraordinária carreira.

Willy Lacerda A sua formação iniciou-se em 1947, com sua graduação em Engenharia Civil e Eletricista, pela
Escola Nacional de Engenharia da então Universidade do Brasil (atual UFRJ), no Rio de Janei-
Professor Emérito da UFRJ
ro. Foi talvez o primeiro brasileiro a obter o título de mestrado em Engenharia Civil no exterior,
pela Universidade de Purdue, Indiana, EUA, em 1951. Prestou o exame de livre docência pela
nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornando-se professor titular em 1988.

Fez estágios e cursos de extensão em diversos organismos de pesquisa no Brasil e no exterior,


podendo-se citar, resumidamente, os seguintes:
• 1947/48 – Curso de Mecânica dos Solos, na companhia Estacas Franki, lecionado pelo
professor Icarahy da Silveira;
• 1958 – Curso de Mecânica dos Solos e de Materiais Betuminosos no Road Research
Laboratory, Londres, Inglaterra; 1 mês; bolsista da CAPES/MEC;
• 1958 – Estágio de Treinamento no Laboratoire Central des Ponts et Chaussées, na seção de
Solos do Institut du Bâtiment et des Travaux Publics, em St. Remy-les-Chevreuse; 9 meses;
bolsista de Assistência Técnica das Nações Unidas.
• 1958/59 – Estágios de Treinamento nos Laboratoires des Travaux Publics de Dacar, Senegal
e Abidjan, Costa do Marfim; 2 meses; bolsista do Governo da França;
• 1962/63 – Cursos de Pós-Graduação de Engenharia Civil na área de Geotecnia e
Pavimentos, Universidade da Califórnia, Berkeley; professores: Carl Monismith, James
Mitchell, Robert Horonjeff etc.; 10 meses; bolsista OEA;
• 1963 – Estágio de Treinamento no Laboratório de Materiais e Pesquisa da Divisão de
Estradas da Califórnia, com a supervisão direta de Francis N. Hveem; 2 meses;
bolsista da OEA;
• 1965 – Curso de Engenharia Econômica, Escola Nacional de Engenharia, UFRJ; 9 meses.

Sua atuação profissional revela desde cedo sua opção para os assuntos ligados a pavimentos,
que levaria, como área de interesse principal, para sua atuação na COPPE:
• 1948-1952: Engenheiro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) – Seção
de Solos do Laboratório Central, dirigido pelo engenheiro Galileo Antenor de Araújo;
Discurso proferido por Willy Lacerda • 1952-1968: Engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem da antiga Prefeitura do
em 17 de dezembro de 2008, por Rio de Janeiro, depois Estado da Guanabara, hoje Funderj. De 1968 a 1983, licenciado e par-
ocasião da cerimônia de concessão
ticipante de acordo de cooperação técnico-científico com a UFRJ;
do título de professor emérito da
UFRJ a Jacques de Medina. • 1968-1994: Professor do Programa de Engenharia Civil, COPPE/UFRJ (Instituto Alberto Luiz
Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia), Centro de Tecnologia, Universidade
Federal do Rio de Janeiro (aposentado como professor titular);
• Pesquisador 1A do CNPq;
20 21

2
• Orador da VII Conferência Pacheco Silva, pela Associação Brasileira de Mecânica
dos Solos, em 2006.

1 Pertence a várias associações técnico-científicas e profissionais no Brasil e no exterior.

Produziu cerca de 120 publicações, sendo 30 em países estrangeiros e 15 em congressos inter-


nacionais realizados no Brasil; orientação de 6 teses de doutorado e 29 de mestrado.
4
Publicou o livro Mecânica dos pavimentos, pela Editora UFRJ, em 1997.

Uma de suas primeiras publicações, na década de 1940, foi sobre o estudo do adensamento
radial de argilas, de onde derivaram equações que permitem a aplicação prática dos chamados
3
drenos verticais na estabilização de depósitos de argila mole.

Suas áreas de atuação no ensino e pesquisa abrangem todos os assuntos relacionados à Enge-
nharia Rodoviária e à Mecânica dos Pavimentos.
Não menos extensa é a sua lista de títulos. 1 Na cerimônia de emerência:
Eduardo Nazareth, Willy Lacerda,
A introdução no Brasil, particularmente na COPPE, da Mecânica dos Pavimentos, sob a ótica
Laura Motta e Medina.
• Prêmio Terzaghi, biênio 1980/2, “por contribuição notável em trabalho cientifica e experimental, é a sua grande contribuição para a Engenharia brasileira. De fato, foi
2 No Laboratório de Geotecnia com Alberto
de pesquisa no campo da Geotecnia”, Associação Brasileira de pioneiro nessa área, onde, pela primeira vez no Brasil, iniciou-se o estudo sistemático dos méto-
Coimbra e Luiz Puinguelli Rosa.
Mecânica dos Solos; dos mecanisticos-empíricos de dimensionamento de reforços de pavimentos asfálticos, com a
3 Em 2007, ao comemorar 83 anos, Medina
• Honra ao Mérito (1976) e Homenagem Especial (1996) – Associação participa da inauguração do prédio anexo introdução de ensaios triaxiais de cargas repetidas de solos, cascalho laterítico e pedra britada
Brasileira de Pavimentação – ABPv; ao Laboratório de Geotecnia, destinado para uso em pavimentos.
• Prêmio da Comissão de Asfalto do Instituto Brasileiro de Petróleo: à pesquisa de pavimentos. Uma salva de
palmas ao “Laboratório de Laura” como
4º Encontro (1982) e 10° Encontro (1990); Seu interesse por todos os assuntos ligados a pavimentos reflete-se na sua importante contribuição
passou a ser conhecido o local. No centro,
• Notório Saber, outorgado pelo Colegiado do Programa de Engenharia em primeiro plano, Lia, a querida esposa na compreensão da mecânica da fratura, no estudo do trincamento de pavimentos, fadiga de mistu-
Civil da COPPE , referendado pelo Conselho Federal de Educação, de Jacques, e Leni Leite, na época do ras asfálticas e fadiga de solo-cimento. Foi grande incentivador no uso da Pedologia aplicada à En-
Cenpes/Petrobras.
publicado Boletim UFRJ nº 38 de 18/09/1986; genharia. Foi um dos pioneiros estudiosos no uso das lateritas e solos lateríticos em pavimentação.
• Menção Honrosa ABGE – Associação Brasileira de Geologia 4 Medina e Saul Birman, sócios fundadores
de ABPv, na comemoração de 50 anos da
de Engenharia; Sua preocupação com a influência da Física e da Química no comportamento do solos levou-o
associação, em 2009.
• Prêmio Pontes Corrêa da ABPv: 1961, 1978 e 1991, pelo melhor a estudar o assunto com o professor James K. Mitchell em Berkeley, EUA, trazendo seus ensina-
trabalho apresentado nas 2ª, 14ª e 25ª reunião anual de pavimentação mentos para a grade curricular na COPPE, e criando o Laboratório de Físico-Química.
da associação;
• O Laboratório de Geotecnia foi batizado de Laboratório Professor Outra área em que se revela seu pioneirismo está na sua preocupação da influência da tempe-
Jacques de Medina, nome dado pela COPPE ao novo prédio anexo do ratura no comportamento de pavimentos asfálticos no ambiente tropical brasileiro, medindo-se
Centro de Tecnologia, em 1995; pela primeira vez no Brasil a temperatura de pavimentos.
• Diploma de sócio emérito da Associação Brasileira de Mecânica dos
Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS ) (1998); Outras contribuições refletem-se na estabilização de areia uniforme de duna com cinzas vo-
• Homenagem da ABMS em agradecimento pela ajuda no lantes de usinas termelétricas e cal hidratada; efeito da adição de cimento Portland e brita;
estabelecimento das fundações da associação em 2002; resistência mecânica e durabilidade. É notável sua preocupação ambiental desde o início de
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sua atuação na COPPE, com estudos de aproveitamento de rejeitos industriais na execução de


pavimentos, onde realizou estudos de estabilização de solo argiloso com cal hidratada e cal de
carbureto (rejeito da indústria do gás acetileno), estudos de permeabilidade e estrutura de solo-
-cal, estabilização de solo laterítico com ácido fosfórico, estudo da irregularidade superficial de
pista de aeródromo militar na dirigibilidade das aeronaves na decolagem. 5

O professor Jacques de Medina tem um largo acervo de contribuição de grande relevância à


UFRJ e à pesquisa e ao ensino de pavimentação no Brasil. Formou toda uma geração de profes-
sores que hoje atuam em várias universidades brasileiras e do exterior.

Foi um dos primeiros professores do Programa de Engenharia Civil (PEC) da COPPE, onde
atuou como liderança da área de Geotecnia de 1967 até 1994. Aposentado, continuou atuan-
do no PEC desde então, como bolsista – pesquisador do CNPq até 2006. Hoje continua como
professor convidado.
6

Trabalhou no DER – RJ e no DNER onde montou laboratórios de referência na década de 1960. 7

Atuou em diversas pesquisas para órgãos rodoviários do Brasil e como consultor de pesquisas
do Instituto de Pesquisas Rodoviárias do DNER. Consultor Ad-Hoc de vários organismos tais
5 Em 2014, na comemoração dos 40 brasileiros que permitem grande economia nos dimensionamentos e
como CNPq, CAPES, FAPESP, etc. anos do Laboratório Química de Solos.
maior durabilidade das estradas, resultando em tecnologias de relevância
Homenagem a Jacques de Medina e
Franklin Antunes.
para a engenharia rodoviária brasileira. Introduziu na década de 1970, o
Fundador da Associação Brasileira de Pavimentação em 1959 e seu colaborador até o presente.
estudo da Físico-Química dos Solos, que coloca a COPPE na frente nos
6 Em 2006, Medina e Willy Lacerda
no lançamento do livro Mecânica dos estudos de Geotecnia Ambiental pelo laboratório e técnicas já desenvolvi-
Ressalto agora as razões que justificaram a presente homenagem. A solicitação de emerência
pavimentos no Clube de Engenharia RJ. das desde aquela época.
para o professor Jacques de Medina foi uma forma que o Programa de Engenharia Civil da
7 Em 2001, Luiz de França, Ana Maria
COPPE apontou por unanimidade em 2004, motivado pela grande contribuição que o mesmo
Souza, Laura Motta, Medina, Marcos A parceria com a Petrobras nos estudos de ligantes e misturas asfálticas
havia prestado de 1967 a 1993 – 26 anos de efetiva dedicação exclusiva e profícua – e que se Antunes, César Castro e Fabrício Mourão
foi também por ele implantada de longa data, o que hoje também se refle-
reconhecia ter se estendido por mais 10 anos após a sua aposentadoria compulsória, como no Laboratóio de Asfalto.
te em instalações laboratoriais de ponta.
bolsista – pesquisador.

Do ponto de vista pessoal, sempre foi exemplo de dignidade e pondera-


O professor Jacques de Medina sempre foi um pioneiro em sua área de atuação – a pavimenta-
ção, agindo de forma conciliadora e agregadora, equilibrado e justo em
ção – e também admirável como exemplo de vida pessoal e acadêmica.
seus pareceres, em todos os locais onde atuou. É sempre citado como
exemplo de profissional de notório saber e figura irretocável.
Do ponto de vista acadêmico, o exemplo de professor dedicado e formador de novos grupos
que hoje são reconhecidos nacionalmente. Foi criador de novas disciplinas, implantou laborató-
Mostrou grande influência na elevação científica e tecnológica da Enge-
rios e métodos numéricos. Tem ex-alunos em universidades e empresas que até hoje o reveren-
nharia Geotécnica brasileira, atuando tanto como pesquisador quanto
ciam como um verdadeiro maestro.
como consultor de diversas empresas.

Na área de pesquisa, promoveu uma verdadeira modificação no cenário da pavimentação


Sua disposição para o trabalho e sua curiosidade científica são exemplos
no país, com introdução de técnicas que levam em conta a condição de formação dos solos
até o presente para os docentes e para os alunos com os quais convive
24 25

ainda hoje com enorme proveito para os mesmos, em discussões sempre


Poemas
criativas e estimulantes.

O efeito multiplicador da contribuição à sua área principal de estudos foi


Há poemas sem serventia
notável e permanece atual, pois ainda é chamado para opinar e avaliar cur-
sos e teses. Sua emerência engrandece o Programa de Engenharia Civil, a Tesouros guardados que não são
COPPE e a própria UFRJ.
Sentimentos acorrentados sem alforria:
Que se deixem morrer no meu coração.
Depoimento pessoal

Agora, não posso deixar de relatar a minha admiração pessoal pelo pro-
fessor, mestre e amigo Jacques de Medina.
J.M.
Em 1964, tive a honra de trabalhar sob sua direção, no então Laboratório
de Solos do DER-GB (Laboratório de Solos do Departamento de Estradas
de Rodagem do Estado da Guanabara). Na época, estava eu decidido a
fazer meu curso de mestrado nos Estados Unidos, e fui encorajado e aco-
lhido pelo Medina. Ali fiquei até 1967, quando ingressei na COPPE. O pro-
fessor Medina ficou na COPPE enquanto eu me doutorava em Berkeley,
para onde fui influenciado pela sua grande admiração pelos professores
Mitchell e Monismith. Trocamos extensa correspondência epistolar (não
existia a Internet, na época), e eu dava a ele noticias do que se fazia de
novo por lá, no que prontamente ele incorporava estas informações nos
cursos que dava na COPPE.

Nossa amizade permaneceu constante, e minha admiração estendeu-se


ao casal Medina, onde a figura de Lia Medina desponta como exemplo de
amor e companheirismo.

Ao amigo, mestre e professor Jacques de Medina, minha eterna gratidão.


26 27

Com A PALAVRA Magnificentíssimo Senhor Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor
Aloísio Teixeira. Senhoras, Senhores.

Jacques de Medina Agradeço à direção da COPPE, à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa e ao Conselho Uni-
versitário, a indicação de meu nome, na companhia de ilustres colegas.

Dedico este momento solene de minha vida profissional ao meu velho amigo Alberto Luis Gal-
vão Coimbra. Nossa amizade data de 1935, quando iniciamos o ginásio. Não fosse ele e não
existiria a história da COPPE, e eu não teria vivido esta experiência extraordinária.

Tenho outro amigo-irmão de infância, que se vivo fosse, não perderia este momento: Luiz van
Berg, sapientíssimo médico cardiologista, na verdade, médico de tudo e de todos os que o
cercavam. Éramos os três amigos de mesma paixão clubística – o Botafogo, e das aventuras
próprias da adolescência.

Faz 41 anos que o professor Luiz Bevilacqua, por indicação do professor Coimbra, foi procurar-
-me, junto com o professor Willy Lacerda, numa sala de repartição do Estado da Guanabara,
para que eu fosse trabalhar no recém-criado Programa de Engenharia Civil da COPPE. Àquela
época, estando afastado da chefia do Laboratório do Departamento de Estradas da Guanabara,
que exercera durante 12 anos, eu aproveitava o tempo a redigir esboços de notas de aula de me-
cânica dos solos. Era uma maneira de reavivar o que eu havia estudado 4 anos antes (1963/6)
na Universidade da Califórnia, na sequência de viagens de estudo ao exterior: o mestrado na
Universidade de Purdue em 1951, os estágios nos Laboratórios de Ponts et Chaussées da Fran-
ça e nos laboratórios de obras públicas no Senegal e Costa do Marfim, em 1958.

Em novembro de 1967, eu assentava praça na tropa de “mi Comandante” Coimbra, para a revo-
lução da pós-graduação a partir do Bloco G, nossa Sierra Maestra.

No cômputo geral das vitórias alcançadas nestes 45 anos de vida da COPPE, há uma cicatriz in-
delével: o exílio intramuros, de 1973 a 1983, do professor Coimbra, vítima de insana perseguição
deflagrada dentro da própria Universidade.

Sou muitíssimo grato ao professor Luiz Pinguelli Rosa por todas as atenções que recebi nas
Discurso proferido por Jacques de Medina, suas gestões à frente da COPPE. Em 13 de dezembro de 1995, inaugurávamos, juntos, o novo
em 17 de dezembro de 2008, por ocasião do prédio do Laboratório de Geotecnia. Já lá se vão 13 anos. Em seguida, houve o acréscimo das
recebimento do título de professor emérito da UFRJ.
instalações de ensaios de modelos físicos – um dos prédios com o nome do Professor Willy La-
cerda e mais o prédio de preparações de amostras e o Espaço-Geo de lazer comunitário. Em 30
de março de 2007, na gestão da professora Ângela Uller, foi inaugurado o prédio do Laboratório
de Pavimentos, da professora Laura Motta. Graças ao empenho desta colega obteve-se o finan-
ciamento da Petrobras, resultado de um estreito relacionamento com o CENPES nos últimos 20
28 29

Estas são as generosas palavras da plaqueta oferecida pelo pessoal anos. Contamos com a participação inestimável da Dra. Leni Leite, nas pesquisas de misturas
técnico do Laboratório de Geotecnia, por ocasião da emerência asfálticas para pavimentação. O segundo andar do prédio abriga o acervo de livros científicos
que me foi conferida em 17 de dezembro de 2008. e técnicos que o saudoso professor Dirceu Velloso doou à Universidade. O título de Professor
Emérito foi-lhe dado post mortem.
No canto superior direito os dizeres de Jorge Ben Jor,
numa manifestação de sabedoria popular: Quero manifestar meu apreço e minha gratidão para sempre à professora Laura Maria Goretti da
Motta, minha ex-aluna de mestrado e doutorado. Foi assistente dedicada durante 15 anos, antes
“Eles são discretos e silenciosos de me aposentar. Deu continuidade ao meu trabalho com brilho próprio, inteligência aguçada e
Moram bem longe dos homens vigor renovado. É um ser humano que me comove por sua grandeza d’alma e senso de justiça.
Escolhem com carinho a hora e o tempo
Do seu precioso trabalho”. Um mui fraterno abraço de agradecimento aos técnicos do Laboratório de Geotecnia, por sua
amizade, solidariedade e gentil acolhida que sempre me proporcionaram. Se tivesse que nome-
E diz a mensagem generosa: ar um representante desta família, escolheria o engenheiro Álvaro Dellê Vianna, por estar mais
próximo da história da linha de pesquisas de Mecânicas dos Pavimentos. Seu irmão, também
“Alguns homens são assim, singulares, fora do comum. Aqui deixamos engenheiro, Antônio Jorge, foi o nosso primeiro laboratorista, tendo ajudado o professor Wiily
gravada a nossa singela homenagem ao Professor Emérito Jacques de Lacerda a instalar os primeiros equipamentos do laboratório no Bloco A do Centro de Tecnolo-
Medina, que mesmo sendo discreto, construiu com perseverança gia. Antes das atuais instalações, passamos muito tempo no subsolo do Bloco I deste Centro.
e sapiência uma carreira sólida, pavimentando os caminhos que
permitem ao nosso país um futuro cada vez mais promissor”. Meus agradecimentos a todos os ex-alunos que me ajudaram a construir o acervo de conheci-
mentos do qual sou sócio minoritário.
Laboratório de Geotecnia Jacques de Medina, 17 de dezembro de 2008.
Assinalo o convívio agradável que sempre me proporcionaram os colegas da Área de Geotec-
Obrigado, Álvaro, Eduardo, Hélcio, Sérgio Iório, Ana Maria, Maria da nia. Alguns já nos deixaram para sempre: Paulo Roberto Carim, Márcio Miranda Soares e Dirceu
Gloria, Gil, Bororó, Max, Luiz Mario, Salviano e outros mais, de Alencar Velloso. Atuam com muito brilho: Anna Laura Nunes, Cláudio Mahler, Fernando Dan-
que me perdoarão as falhas de memória de um nonagenário. ziger, Francisco Casanova Castro, Francisco Lopes, Ian Schumann Martins, Laura Motta, Márcio
Almeida, Maria Cláudia Barbosa, Maurício Ehrlich e Paulo Santa Maria.

Recentemente, aposentou-se o Professor Wiily Lacerda – a mais alta expressão científica e pro-
fissional de nossa Área de Geotecnia e técnico de renome internacional. É um amigo que tenho
há cerca de 40 anos, desde o Laboratório do DER-GB.

Sou, também, muito reconhecido aos que incentivaram meu trabalho profissional no período de
20 anos pré-COPPE. É justamente neste período que se encontram as raízes dos estudos que
eu viria a desenvolver, posteriormente, na pós-graduação.

Devo muito aos mais experimentados de quem tomei conselho; sim, porque já fui muito jovem...

Evoco os ensinamentos do professor Icarahy da Silveira, meu mestre no curso de Mecânica


dos Solos oferecido no laboratório da Companhia Estacas Franki. Teve início em 1947 quando
eu cursava o 5º ano da Escola Nacional de Engenharia, no Largo de São Francisco de Paula.
30 31

Terminou em meados de 1948, já era eu engenheiro civil formado. À época nossa Escola não
Alma lusa
tinha esta disciplina (dizia-se cadeira) no seu currículo. De minha turma de 115 alunos de todos
os recantos do país, dois se inscreveram e mais um aluno do 4º ano. Havia encontrado minha
área de atuação, o que me levou a fazer, mais tarde, o mestrado na Universidade de Purdue. Fui Das longínquas praias de Portugal
o primeiro de três ou quatro de minha turma a buscar a pós-graduação no exterior. Uma curiosi-
A luz do farol de Sagres a me chamar:
dade: meu diploma de mestrado é de 28 de janeiro de 1951, ou seja, 13 dias depois de criado no
Brasil o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), diretamente ligado à Presidência da República. Tens aí tua casa, mas aqui teu quintal,

Sou muito grato, do fundo do coração, à minha família; em primeiro lugar à Lia, minha esposa,
Por que tanto mar a nos separar?
pela compreensão da responsabilidade de meu trabalho de professor universitário, iniciado aos Rever pessoas e cenários do passado
43 anos de idade. Depois, aos meus filhos – Rodrigo e Rafael – que deveriam ter importunado
mais vezes o pai para dividir alegrias e tristezas que se perderam no tempo. Vibrar o coração de tanta saudade
Desfazer da garganta o nó atado
Para terminar, onde minha vida começou, uma lembrança dedicada aos meus pais. Gregório
de Medina e Hélène Laporte, ele nascido na cidade do Porto, ela em Huriel no Midi da França. Rir e chorar, sentir-se à vontade.
Nasceram em 1893. Chegaram ao Brasil no final de 1918. Aqui viveram. Aqui morreram.
Andar por onde meu pai caminhou
Meu pai, um dia, leu-me os versos do padre Antônio Vieira (1608-1697): Ouvir o som de seus passos nunca fatigados

“A vida é uma lâmpada acesa:


Entender o passado nos livros que amou
Vidro e fogo, vidro que com Diante da arte centenária, olhos marejados.
Um assopro se faz fogo
Que com um assopro se apaga“.
J.M.
Muito a propósito sussurrou-me minha mãe:

“Jacques, fais attention aux courants d’air”.1

Sou eternamente grato à Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Agradeço a todos pela presença neste ato solene.

1. N.R. “Jacques, cuidado com as correntes de ar”.


32 33

Obrigado, JacqueS de Medina tempos atrás, em reunião com amigos, comentei que a grande maioria dos alunos gostaria de
cursar escolas superiores mundialmente consideradas como ícones na área de tecnologia, tais
como as que existem em alguns países como os Estados Unidos e Inglaterra.
José Vidal Nardi
Professor do Instituto Federal de Educação,
À noite, já recolhido ao aconchego do lar, isolado do agito e bem mais tranquilo, tive um mo-
Ciência e Tecnologia de Santa Catarina
IFSC, Florianópolis, SC mento de lucidez relativamente aqueles comentários e me lembrei dos largos elogios que fiz
àquelas instituições. Toquei-me que comentei somente sobre a parte material, a colossal es-
trutura física instalada naqueles centros tecnológicos que, provavelmente, permanecerão por
anos como referência dos grandes avanços científicos ocorridos até os dias de hoje e os que
futuramente virão.

Fiquei bastante constrangido e teria imediatamente me desculpado perante minha esposa Day-
se, socióloga, também presente naquela reunião, se a mesma já não estivesse sob os domínios
de Orfeu. Simplesmente me esqueci, na ocasião, do personagem principal, sem o qual nada dis-
so teria significado e existiria. Refiro-me à figura do Professor. Tão logo possível me desculpei
junto à Dayse eu escutei sua voz baixinha dizendo: “ainda bem!”

Infelizmente, no tempo atual, materialista, perverso e agitado, cada vez mais se tem relegado o
protagonista principal em função das instituições materiais e da monstruosa avareza governa-
mental com relação a um ganho pecuniário justo à sua função.

Há longa data tenho tido e conhecido um grande número de professores. Uns mais, outros
menos sábios. Lembro-me de um deles, no internato marista, que era o sapato que geralmente
pisava no calo do meu pé. A incompatibilidade era radical. Poucos anos depois lhe agradeci,
reconhecendo ser meu o erro, levando em consideração tudo o que de útil havia-me ensinado.

Em 1973, iniciei meu curso de mestrado na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de
Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ)1 e recordo ainda hoje, aos
68 anos de idade, que foi o local onde tive a satisfação de conhecer uma série de professores,
que me acrescentarão conceitos fundamentais à minha carreira profissional.

Sobrevivia de bolsa de estudo e do que meus pais podiam ajudar. Pouco a pouco, me fui entrosan-
do à nova família universitária, composta inicialmente pelos colegas e depois pelos professores.
As semanas passavam e se seguiam os meses. Lentamente, foram adquiridos novos conhe-
cimentos e surgiram novas amizades. Intrigava-me a peculiar paciência que um determinado
professor mantinha. Nunca o tinha visto levantar a voz, seja com um colega ou aluno. Nunca se
furtava a repetir ensinamentos que, no momento, não entendíamos.

1. Atualmente, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE)


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Sou originário do interior de um estado onde as maneiras não eram sutis como as dele e sem- Após aprovação da minha tese, o artífice foi além: orientou uma equipe de profissionais na
pre tinha a sensação de estar ao lado de um cavalheiro, figura que frequentemente víamos nos elaboração da primeira pista experimental instrumentada construída no Brasil, referindo-se ao
filmes daquela época. Era um professor exemplar e, segundo meu entendimento, possuidor de aproveitamento do rejeito de termoelétrica (cinzas volantes) na estabilização de solos areno-
didática única e peculiar. sos com cal hidratada, na construção de pavimentos rodoviários. Era um bypass construído
paralelamente à BR-101/SC, projetado com várias seções, onde algumas se constituíam numa
O ano passou e fui brindado com seu aceite para ser meu orientador. Na realidade, fiquei muito parafernália de instrumentos visando medidas de tensões, deformações e temperaturas nas
preocupado em não poder corresponder e não ser digno de merecer sua atenção. várias profundidades do pavimento. Foi um completo sucesso, tendo o trabalho técnico, relativo
à referida pista, recebido da Associação Brasileira de Pavimentação (ABPv) o Prêmio Pontes
Finda a fase da revisão bibliográfica, a tese deveria ser desenvolvida em laboratório. Foi um Corrêa, em 1977. Cabe ressaltar que todas essas pesquisas foram desenvolvidas e mantidas
“Deus nos acuda” a montagem da logística, principalmente no que se referia à verba para aqui- financeiramente pelo Instituto de Pesquisas Rodoviárias.
sição de determinados equipamentos necessários, e quem forneceria o laboratório adequado
para tais serviços. No período em que estive sob sua orientação me causou admiração a sua honestidade, ab-
negação pelo serviço, profissionalismo e visão de futuro, motivos pelos quais mantenho a
Sentia-me completamente inseguro em ter planejado, com o auxílio do orientador, todo aquele admiração e respeito.
trabalho, além de não ter ideia alguma da possibilidade física da sua futura execução. Igualmen-
te, não tinha conhecimento algum, naquele momento, de quem pudesse ter interesse por tal Retornei a Santa Catarina, meu estado, em 1977. Até os dias de hoje mantemos contato. Suas
estudo. O tempo passava e as dificuldades aumentavam. Houve semanas bastante difíceis, nas cartas me causam admiração pela lucidez nelas contida, pelo propósito de vida apesar de sua
quais me encontrava psicologicamente perturbado em face do contexto em que vivia. idade longeva, e pelos conselhos sempre adequados e atuais. Também o amor por sua área de
trabalho, suas primorosas publicações e o cuidado extremamente carinhoso com sua família,
Gradativamente, percebi que naqueles períodos também recebia orientação emocional, a qual são detalhes que sempre continuam a me impressionar.
permitia meu retorno à serenidade. Foi quando me dei conta de que havia encontrado não só
um excelente orientador técnico como também um competente conselheiro. Foi ele quem me inspirou na área que atuo e me introduziu na vida profissional. Sempre procurei
direcionar meu caminho atrás das suas pegadas, das suas orientações e conselhos, atitudes
Pouco a pouco, as diversas partes que compunham o esquema de trabalho estavam se materia- que me proporcionaram boa parte das vitórias que obtive no desenrolar da minha vida profis-
lizando, não pelos meus conhecimentos, mas sim pelas mais diversas intervenções do orienta- sional. Sempre falei à minha esposa e filhos sobre suas qualidades e exemplo ímpar, inclusive
dor. Em um determinado dia comecei, definitivamente, a dar andamento normal ao trabalho, ten- sobre as novidades relatadas em suas aguardadas missivas.
do como finalidade a tão sonhada defesa de tese de mestrado. Novamente percebi que, além de
um orientador e conselheiro, eu tinha ganhado um grande amigo, alguém que lutava por mim tal Não obedecendo à ordem cronológica, gostaria de expor algumas das geniais observações
qual um pai luta pelo filho. Nos primeiros meses de trabalho, chegamos à conclusão da extrema feitas em suas cartas:
dificuldade prática na execução dos serviços e de que sozinho não teria condições de realizar tal
tarefa em tempo hábil. Surpresa minha que, semanas após e através das tratativas do orienta- “Escrever à máquina tem duas vantagens: fica-se isolado dos outros para evitar interferências e
dor, a pesquisa foi incorporada pelo Instituto de Pesquisas Rodoviárias (IPR). A partir desse fato interrupções, salvo o da fita que emperra vez ou outra, segundo, porque a letra trêmula de mãos
formou-se uma equipe de laboratoristas, possibilitando assim a elaboração e defesa da tese de idosas não se revela nem aborrece o leitor”.
mestrado, que veio receber a aprovação da banca examinadora em dezembro de 1975. Posso concordar com “a letra trêmula de mãos idosas”, mas invejo a mente firme e lúcida do idoso.

No período da elaboração dos trabalhos laboratoriais, tive a oportunidade de participar de uma “Este ano, sairá a 3a edição do livro Mecânica dos pavimentos. Valerá a pena? Tudo é tão dinâmico”.
série de eventos, elaborar trabalhos científicos e conhecer uma gama de pessoas influentes na Fico a meditar sobre a expressão “Valerá a pena?”. Fazendo uma comparação mental entre os
minha área de atuação. Nesse período, conheci então o mestre não só como orientador, mas seus e os meus trabalhos, o que valeriam meus artigos técnicos? Fiquei muito pensativo e pre-
sim como o profissional respeitado, reconhecido no Brasil e também internacionalmente. ocupado a esse respeito.
36 37

“Pensar que a Laura já beira os 60 anos! Ela é de São Geraldo, Minas”. sutis, penso eu. Acredito qu, em determinados períodos do tempo, o seu anjo da guarda foi a
O ponto de exclamação colocado pelo Mestre demonstrou que estava muito pensativo sobre Laura Motta. Eu estou convicto que o Mestre, em vários momentos, foi o meu.
o fato. O tempo realmente passa rápido. Percebo isso nas minhas juntas que a cada ano me
incomodam mais. Com certeza, eu estaria extremamente realizado se conseguisse ser ao menos um pouco pare-
cido com seu modo de ser. Esteja onde eu estiver sempre o terei em minhas lembranças com
“É reconfortador saber que há elos de amizade que não se perdem no tempo”. admiração e respeito.
Essa me deixou completamente arrepiado. Sabe aquela sensação que te pega desprevenido e a
emoção brota lá do fundo do seu interior? Tenho somente a agradecer e muito, por tudo o que fez por mim. Posso até ter me esquecido de
alguns professores, todavia jamais esquecerei do mentor.
“Vai-se vivendo como Deus quer ou o destino desenhou”.
Também fiquei muito pensativo a respeito dessa afirmação. O importante é que estamos vivos Concluindo, me encontro profissionalmente realizado, bem casado, com maravilhosos filhos,
e aptos a continuar essa experiência milagrosa, partindo da constatação de que somos ani- nora, genro e netos, mas sempre ávido de novas experiências quando em condições e na pro-
mais dotados de sabedoria e livre-arbítrio. Muitas vezes intercalamos momentos felizes com cura da maturidade espiritual.
momentos infelizes. Nos momentos felizes estamos OK. Neles nos esquecemos de tudo. Já os
momentos infelizes correspondem aos períodos em que paramos para pensar, corrigir e apren- Somente posso encerrar dizendo: Muito obrigado meu orientador, conselheiro, mestre, anjo da
der. Faz parte do jogo. guarda e inesquecível amigo, Medina.

“No meu pequeno círculo de parentes e amigos de fato conto muito com a Laura Motta. Tem sido
uma verdadeira filha que não tivemos”.
Mestre, mineiro é fogo e boa gente!

“Uma amizade pozolânica que enrijece com o tempo”.


Essa eu conheço e continua se solidificando até hoje. Pela literatura, é fato que vai além da
morte, os romanos que o digam.

“Essa minha ex-aluna tem sido muito boa comigo, e faz-me sentir útil apesar de meus 83 anos”.
Neste mundo materialista e agressivo ainda se encontram pessoas assim, graças a Deus. Isso
nos dá esperança da possibilidade de um mundo melhor. A juventude merece isso.

“Aqui em casa há um velho meio emperrado de 89 anos, uma senhora admirável, Lia, de cadeira
de rodas, e um “jovem” de 40 anos, meu curatelado pela justiça”.
Conheço várias pessoas que, aos 50 anos, já envelheceram física e mentalmente. Mestre, o
senhor até pode estar com o sistema físico meio emperrado, mas mentalmente está um garo-
tão. Provavelmente é onde encontra tanta força para levar à frente a recordação da admirável
senhora e continuar a guarda do jovem filho, pessoas que foram e são tão queridas e amadas.

“A Laura Motta tem sido uma verdadeira filha. Ajuda-me muito, graças a Deus”.
O homem recebeu um cérebro privilegiado e o livre-arbítrio, o que nos permite deduzir ser possí-
vel a existência do anjo da guarda espiritual e material. O Criador age de formas extremamentes
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Jacques de Medina: em 1963, nascia no âmbito da UFRJ um núcleo de estudos em Engenharia Química no nível de
pós-graduação, que rapidamente veio a se transformar no que hoje é a Coordenação dos Pro-
amigo, mestre e educador gramas de Pós-Graduação de Engenharia (COPPE). Cinco anos depois, surgiu, como parte do
Programa de Engenharia Civil, a Área de Mecânica dos Solos, que comemora nesta data (2015)
Francisco José Casanova de Oliveira e Castro 47 anos de atividades abrangendo ensino, pesquisa e prestação de serviços.

Professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro


Tendo eu passado 40 desses 47 anos, estudando, trabalhando e ensinando nessa instituição
que me honra com tal distinção, é imperativo, nesta oportunidade de congraçamento entre pro-
fessores, alunos, ex-alunos e técnicos da Área de Geotécnica, quando festejamos esse marco
histórico, prestar in litteris uma sincera homenagem àquele que me acompanha desde o inicio
e que considero meu alter ego: professor Jacques de Medina.

Dedicado à Engenharia desde 1947, sua história confunde-se com a própria história da COPPE,
assim como a da pós-graduação em Engenharia Civil no Brasil, em especial com o curso de
Mecânica dos Solos do qual foi partícipe com todo fervor e despreendimento, desde o início.

Reconhecido unanimemente por seus méritos e suas realizações, a magnis maxima, tanto como
engenheiro quanto como professor e pesquisador, é uma personalidade de destaque no meio
técnico-científico, que se dedica integralmente à universidade há quase 50 anos.

Confesso sentir-me verdadeiramente realizado por tornar explicitamente pública uma ínfima
parcela da trajetória desse professor que pode se orgulhar de ter cumprido durante tanto tempo
e com todo denodo, estoicismo e dignidade, aquilo a que se propôs em prol do seu país e da
sua gente. Sua fidelidade aos princípios que elegeu e seu compromisso com a profissão que
abraçou são os exemplos mais eloquentes do seu proceder. Mesmo sob as mais adversas
condições de trabalho, nunca esmoreceu e jamais abdicou de seus ideais e propósitos; suas
infindáveis perseverança e satisfação por tudo que faz, servindo de lição e incentivo a todos
aqueles próximos de si.

É, então, com imenso júbilo que venho à sua presença e de toda comunidade universitária atra-
vés destas linhas, oferecer um singelo e sincero depoimento acerca daquele que como profes-
sor e educador, eu julgo ser primus interpares. Manifesto e reconheço assim a felicidade e o
bem que o destino me proporcionou ao conceder-me o privilégio e a honra, não somente de ser
1992: Comemoração da defesa de seu aluno (na realidade considero-me mais que um aluno, um discípulo), de com ele trabalhar,
tese de mestrado de Maria da Glória de poder privar e compartilhar de suas ideias e ideais, mas, principalmente, de poder tê-lo co-
Marcondes Rodrigues. A partir da
nhecido como ser humano, como o homem Jacques de Medina.
esquerda, Medina, Glória, Ceratti, Laura
e Casanova (orientador).
Não tenho a pretensão de escrever sua biografia e muito menos seu curriculum vitae, limitando-me
aqui apenas a aspectos pessoais e particulares, que somente uma prolongada convivência no
dia-a-dia universitário pôde por em evidência.
40 41

Já lá se vão 40 anos quando, em novembro de 1973, como aluno da graduação do IQ/UFRJ, desenvolvimento de equipamentos, em estudos teóricos avançados, sem nunca descuidar dos
vim a encontrá-lo pela primeira vez na sua pequena e antiga sala no Bloco G, no Centro de Tec- fundamentos básicos.
nologia, completamente cercado pelos seus livros, suas coleções de periódicos e amostras de
lateritas. Ainda hoje é assim. Mostrou-me o quão honrado e estimado o professor pode se tornar exercendo com dignidade,
isenção e dedicação o ato de ensinar e de orientar; que a parte mais nobre da docência é a res-
Recordo ter-me causado profunda impressão esse contato inicial, não apenas devido a sua ponsabilidade com que o conhecimento é transmitido; que o verdadeiro mestre nem sempre é o
aparência sóbria, trato gentil, fala pausada e macia, mas especialmente pela sensação inequí- que ensina, mas aquele que quer e sabe aprender e reconhece que jamais pode deixar de fazê-lo.
voca de estar conhecendo e iniciando um relacionamento com uma pessoa de excepcional
caráter e boa índole. Sinceramente, sinto hoje que, naquele momento, deu-se o encontro de Fez-me ver também que, mesmo numa escola de um centro superior de engenharia e tecnolo-
dois corações irmãos. De fato, foi o começo de uma expressiva e profícua relação na minha gia, há lugar para a formação moral e ética do corpo discente e não tão somente para a técnico-
vida. Senti-me muito bem naquele dia, talvez num clarão de premonição que o passar do tempo -profissional. Esta é a sua inestimável herança como educador.
veio a confirmar inteiramente, revelando-me pouco a pouco, à medida que se estreitava nossa
convivência, outros aspectos de sua personalidade. Introduziu-me no fascinante e desafiante mundo da consultoria, dando-me suporte e confiança
para o correto e seguro equacionamento dos problemas, alguns complexos, e cuja solução sem-
Recusando-se a seguir a tendência, já naquela época estabelecida, “do funcionário público pre foi para mim motivo de grande satisfação pessoal, impossível de ser atingida por outro modo.
acabar por especializar-se em generalidades a que a função pública tende a conduzi-lo” (J.M.),
fez da Universidade e de seus alunos o objetivo da sua vida, nunca mais dela se afastando e Formou um respeitável número de mestres e doutores, hoje atuando em grandes universidades
exercendo a docência como um verdadeiro sacerdócio. Íntegro e sério sob todos os aspectos, brasileiras, em órgãos federais de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia, ou em firmas de
ficaram-me a certeza de priorizar sempre o aluno, a universidade, a verdade, o saber e sua consultoria. A primeira tese de mestrado na Área de Solos (Salomão Pinto, 1971) foi elaborada
ampla difusão para o proveito da coletividade, em detrimento de títulos, cargos, ambições sob sua supervisão e orientação, assim como a primeira tese de doutorado (senso estrito) no
pessoais e materiais, num país onde desde há muito é norma geral cada um agir de acordo país, na linha da Mecânica dos Pavimentos (Ernesto Preussler, 1983), além de muitas outras no
com o seu interesse. campo da Mecânica dos Pavimentos e da Tecnologia Rodoviária.

De imediato, nele identifiquei traços marcantes como um elevado senso de ponderação, um Participou do que foi provavelmente o primeiro estudo geotécnico sistemático para um projeto
perfeito equilíbrio psicológico, surpreendente humildade e um raro altruísmo. “Avesso ao traje de pavimentos no país (1953), tendo sido o responsável pelos estudos geotécnicos de jazidas
de gala, ao discurso acadêmico, às cerimônias oficiais com suas sessões solenes, e ao elitismo” e de seus solos.
(J.M.), é de uma simplicidade franciscana.
Sócio fundador da ABPv (a qual deu muito de si!) foi seu segundo presidente, sendo atualmente
Sua palavra sempre foi de moderação e conciliação, jamais o tendo visto exaltado sob que pre- membro da SEAERJ, ABMS, ABGE, ABPv, ASCE e SBCS. Laureado com diversos prêmios como
texto fosse ou ouvido qualquer tipo de consideração desabonadora; pautando-se sempre por professor e pesquisador, suas maiores conquistas são, sem dúvida alguma, sua honra e a con-
princípios éticos e morais irretorquíveis. sideração e estima de seus alunos e colegas.

Exigente, porém justo, seu trato com o aluno sempre foi leal e cordial, aconselhando, orientan- Publicou, em 1967, uma monografia de pouco mais de setenta páginas, onde descreve por-
do, mostrando a importância da pesquisa, da leitura e da reflexão, levando-o a preocupar-se não menorizada e criticamente suas viagens de estudo ao exterior, que prima pela objetividade e
tão somente com o quanto, mas também a dar importância ao como e ao porque, principalmen- atualidade, deixando à mostra muito do seu lado cultural e humanístico. Considero a publicação
te. Este é, no meu juízo, indubitavelmente o seu maior legado como docente. dessas lembranças, reunindo comentários técnicos enriquecidos com observações críticas e
pessoais sobre os mais diversos assuntos, um feito singular para a época e que mostra a sua
Entre tantas outras, uma das suas grandes, e talvez mais valiosa contribuição acadêmica, diz preocupação em dividir a experiência vivida com todos aqueles que dela pudessem vir a se be-
respeito à sua constante preocupação em estabelecer uma conexão entre o ensino e a pes- neficiar um dia. Mais do que um relatório técnico ou uma mera prestação de contas, um modelo
quisa, levando para a sala de aula projetos de pesquisa, bem como envolvendo os alunos no de comportamento a ser seguido nesses casos.
42 43

Seu horizonte acadêmico/científico sempre foi o mais amplo possível, trazendo dentro de si o par maior compreensão da importância do projeto bem elaborado e de especificações sempre
de complementares que são a essência da vida do verdadeiro cientista: a mente (ciência, desen- atualizadas e bem redigidas”. Em um parágrafo, a apologia da Qualidade Total explicitamen-
volvimento e bem-estar) e o coração (ética e espiritualidade). É do meu conhecimento próximo, o te manifestada há 47 anos!
único que, quase cinco décadas atrás, já se preocupava com as tendências atuais da ciência e da
tecnologia: a interdisciplinaridade que deve nortear qualquer estudo mais aprofundado; a questão Para que se possa compreender esse seu comportamento realmente sui generis, basta fazer
do meio-ambiente, especialmente no tocante a sua interação com a engenharia civil, o controle de alusão a duas de suas mais contundentes virtudes: uma mentalidade aberta e inovadora, cien-
qualidade severo, e as especificações e normas “atualizadas e bem redigidas” (JM). tificamente não preconceituosa e capaz de se adiantar ao presente; e uma visão holística da
ciência e do desenvolvimento, escorada em sólida base científica, proveniente de um autodida-
Assim, mercê de seu esforço pessoal, criou, organizou e introduziu no Brasil, em 1968, a cadeira tismo inato e permanente, que o levou a enveredar pelos mais diversos ramos do saber: Quími-
Fisico-Química dos Solos e Argilas, curso pioneiro e reconhecidamente uma das suas marcantes ca, Física, Fisico-Química, Pedologia, Cristalografia, Mineralogia e Geologia, entre outras – o que
contribuições à Engenharia Geotécnica brasileira, hoje mais do que nunca na ordem do dia. lhe valeu, com toda justiça, o reconhecimento e a outorga pelo Conselho Federal de Educação
do título de profissional de Notório Saber.
Detém o pátrio poder do Laboratório de Química e Mineralogia dos Solos da COPPE/UFRJ, cuja
organização e montagem iniciada em 1974, sob a responsabilidade do seu ex-aluno e assisten- Essas características foram transmitidas aos seus alunos, dos primeiros a frequentarem cur-
te, professor Mario Marcio Alvarenga – que teve destacada contribuição nessa empreitada – e sos em outros programas da COPPE, em outros departamentos da UFRJ, e até em outras
eu a ventura e a confiança em continuá-la; incentivou e proporcionou à Área de Mecânica dos universidades, o que lhes deu a opção de aumentarem o espectro dos seus conhecimentos
Solos a abertura de novos campos de atuação, favorecendo o químico, o pedólogo e o geólogo ao incluir no currículo escolar matérias de seus interesses imediatos e particulares, tanto
ao ter como norma a caracterização química, físico-química e mineralógica de solos, argilas e acadêmicos como profissionais, como, por exemplo, Eletroquímica, Corrosão, Mecânica da
materiais assemelhados em geral; a poluição de solos, aquíferos e corpos d’água naturais; a Fratura, Planejamento Estatístico de Experimentos, Termodinâmica, Pedologia, Química Ana-
utilização de resíduos industriais, minerários e agrícolas; a classificação e o estudo da gênese lítica, Estatística Geral, entre outras.
de solos em ambiente tropical; a reatividade frente à cal e ao cimento, de solos e pozolanas; e a
introdução no Brasil da disciplina Fisico-Química para a compreensão/explicação do comporta- Facultou ao aluno o estágio em firmas de consultoria e prestação de serviços com o intuito
mento mecânico de solos argilosos – tópicos que normalmente não faziam parte da formação de oferecer-lhe treinamento específico no campo e/ou no escritório, junto a profissionais ex-
acadêmica e nem eram considerados da alçada profissional do engenheiro geotécnico. perimentados. Organizou seminários e cursos especiais com experts e professores externos
à COPPE, inclusive estrangeiros, oferecendo, desse modo, ao corpo discente bem como ao
Seu interesse no aproveitamento de resíduos industriais e minerários, como uma maneira de docente, a oportunidade de conhecerem melhor uma realidade até pouco tempo atrás virtual:
aliviar o problema da poluição ambiental e, concomitantemente, trazer novas e mais baratas a da Mecânica dos Solos integrada às Ciências da Terra, fazendo parte da intrincada malha da
soluções ao âmbito da engenharia civil, remonta ao início da década de 1970 quando apresen- dinâmica da Natureza.
tou ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ uma monografia a esse respeito (possivelmente
a primeira no país), tendo sido ainda o mentor intelectual e gestor de um grande projeto de Foi, indubitavelmente, dos primeiros a perceber e a chamar a atenção para as particularidades
pesquisa financiado pelo Banco Mundial e fiscalizado pelo IPR/UNER, e que contou com uma dos solos tropicais residuais (lateríticos) e suas diferenças com relação àqueles formados em
equipe multidisciplinar envolvendo engenheiros, economistas, químicos, assim como o pessoal clima temperado, evidenciando a temeridade da importação e a falibilidade da aplicação in-
qualificado das indústrias produtoras dos resíduos. Antecipou-se desse modo à realidade am- discriminada de modelos e lições exógenas a solos e problemas brasileiros. Hoje, todos falam
biental atual que hoje, como sabemos, mobiliza e ocupa profissionais da engenharia civil bem sobre esse aspecto.
como especialistas de outras áreas da ciência.
O slogan criado para comemorar os cinquenta anos da COPPE, a saber: 50 ANOS ANTECIPANDO
No tocante à qualidade, é suficiente reproduzir sua opinião publicada nas suas Memórias de O FUTURO, ajusta-se como uma luva à trajetória profissional do professor Jacques de Medina!
Viagens de Estudos (1968): “É indispensável insistir no controle da qualidade dos materiais
empregados nas obras e na melhoria do nível da fiscalização; para isso torna-se necessário Estuda e incentiva há pelo menos quatro décadas uma das mais intrigantes técnicas da En-
maior divulgação de conhecimentos técnicos através de cursos e estágios práticos e uma genharia Civil Rodoviária: a Estabilização Química de Solos – verdadeira tradição cultural e
44 45

tecnológica da humanidade. Dentro da sua especialidade – a Mecânica dos Pavimentos e a Ao pobre companheiro
Geotécnica Rodoviária – esteve sempre no front do saber, atuando tanto como pesquisador
como consultor, buscando incessante e incansavelmente o conhecimento de primeira mão, tal
como preconizado por São Tomás de Aquino, mostrando que de fato a ciência enobrece. Tu que não recebeste nenhum diploma
Mas que tens da vida o notório saber
Redigiu um livro didático – Mecânica dos pavimentos – onde deixa registrado todo o seu co-
nhecimento científico e prático adquiridos e acumulados ao longo dos anos pelo exercício da É porque escapaste da estreita redoma
prática e da pesquisa.
Que nós – os educados – nela insistimos morrer.
Enfim, não faço essas palavras somente minhas, mas estendo-as, sem receio algum de con-
testação, a todos aqueles que de algum modo conhecem, convivem ou tiveram contato com
sua pessoa, mesmo porque os fatos têm mais força do que as palavras. Assim, este é o meu
J.M.
testemunho sobre uma pessoa que entrou na minha vida há 40 anos e que resultou em meu
benefício durante todo esse período de convívio num profundo aprendizado e numa gratificante
experiência de vida, não apenas como professor, mas também como educador e, sobretudo
amigo, Jacques de Medina: Qui invenit amicum, invenit thesaurum1 (Eclesiastes,VI-Vl4).

Benjamin Franklin (1706-1790), ao ser indagado como um verdadeiro homem deveria proce-
der ao longo de sua vida, enunciou uma máxima que seguramente pode ser tomada como o
mote de vida de raríssimas pessoas, entre as quais não hesito em incluir o professor Jacques
de Medina: “a melhor coisa que você pode dar a um seu inimigo, é o perdão; ao adversário, sua
tolerância; ao amigo, sua atenção; aos filhos, bons exemplos; a seu pai, consideração; a sua
mãe comportamento que a faça sentir-se orgulhosa de você; a todos os homens, caridade; e
a você, próprio respeito”.

Com profunda gratidão, admiração e reconhecimento do seu aluno, colaborador e amigo, subs-
crevo-me com protestos de grande admiração, elevado apreço e distinta consideração.

1. N.R. “Quem encontra um amigo, encontra um tesouro”.


46 47

O sujeito é a oração, Alguém já disse que cada um de nós é um universo dentro de sua individualidade. Em sendo
isto verdade, seria tarefa inglória falar sobre algo infinito num espaço finito.
a oração ora é o pensar,
ora é a ação, é o verbo, Não segui a subespecialidade de Pavimentos, assim, não pude sentir de forma mais aprofun-
dada as marcas que um relacionamento orientado-orientador deixa no orientado. Se não tive a
e o verbo o sujeito da oração, oportunidade de ser orientado por Jacques de Medina, pelo menos tive o privilégio de conviver
a oração do sujeito com ele diariamente por cerca de 30 anos. Em assim sendo, falarei sobre o que eu observei,
como alguém fala da grandeza de um iceberg, sabendo que 90% de seu tamanho estão sub-
mersos, ou de alguém que fala da dimensão de um galáxia pelo que dela se vê ao telescópio.
Ian Schumann Marques Martins
Portanto, ouso empreender tal tarefa pelo que pude enxergar e perceber, quase de perto e quase
Professor associado da COPPE/UFRJ.
de longe, durante todos esses anos.
Discurso feito por ocasião da VII Conferência Pacheco Silva, em 2006

O Medina que eu conheço

Conheci o professor Jacques de Medina em abril de 1977. Eu era, então, um estudante do quinto
ano de Mecânica dos Solos, da Escola de Engenharia da UFRJ, que havia pedido ao professor
Barata que pedisse ao professor Willy Lacerda, na época chefe do Laboratório de Geotecnia da
COPPE/UFRJ, para que eu pudesse estagiar naquele Laboratório. Foi assim que entrei para o
Laboratório de Geotecnia da COPPE/UFRJ.

Gostei tanto daquele laboratório que, logo, logo, como tantos outros que o frequentavam, pas-
sei a chamá-lo de “nosso laboratório”. Antes de se mudar, no início de 1997, para o prédio onde
hoje funciona, “nosso laboratório” ficava no subsolo, no Centro de Tecnologia, na interseção dos
Blocos D e I.

Pois bem, no “nosso laboratório” havia várias figuras humanas especiais e uma delas era o nos-
so homenageado de hoje, Jacques de Medina.

Quando se conhece alguém especial, há alguma peculiaridade que salta aos olhos, logo que se
é apresentado a esse alguém. Também foi assim quando fui apresentado ao professor Medina.
Impressionou-me, sobremaneira e de imediato, a sua delicadeza no trato com as pessoas. Do
mais humilde ao mais graduado, todos mereciam dele igual e atencioso tratamento. Se vivo
fosse e se tivesse frequentado “nosso laboratório”, Nelson Rodrigues se referiria a ele como a
delicadeza vestida em mangas de camisa.

Mas havia outras peculiaridades que somente o tempo de convívio iriam revelar. No dia a dia
do “nosso laboratório”, Jacques de Medina passou a aparecer para mim como uma importante
biblioteca, da qual sua figura era a própria porta de entrada. Uma porta simples, modesta, cuja
48 49

aparência quase franciscana disfarçava o rico conteúdo que por detrás dela se escondia. E a ex-
pressão “franciscana” não se limitava à postura modesta com que Jacques de Medina sempre
se colocou diante de seus conhecimentos. Refiro-me também à sua presença diária em “nosso
laboratório”, onde religiosamente era, senão o primeiro, um dos primeiros a chegar. Chegava
silenciosamente e, silenciosamente, após uma breve e gentil saudação de bom dia, punha-se
a trabalhar em seu gabinete, de onde podia ser visto através das vidraças das divisórias que
separavam os ambientes em “nosso laboratório”. Talvez tenha sido esse silêncio que o cercava
o maior obstáculo para que as pessoas se aproximassem dele. Explico: parecia haver em todos
um receio intrínseco de perturbá-lo em seu trabalho, já que todos sabiam que, sob hipótese
alguma, ele negaria atenção a quem quer que fosse procurá-lo. Devo confessar que eu mesmo,
por algumas vezes, não resisti à tentação de quebrar-lhe a concentração só para ouvir dele al-
guma opinião interessante, que, consoante o amplo espectro de sua cultura, poderia ir desde o
desempenho de um tenor ao interpretar uma ária do Rigoletto até a performance de seu querido
Botafogo de Futebol e Regatas!

Pois foi neste ambiente que tive o privilégio de conviver com Jacques de Medina, o professor
e o pesquisador, cuja vida sempre se confundiu com a do Laboratório de Geotecnia da COPPE/
UFRJ, razão pela qual o “nosso laboratório” leva o seu nome e razão pela qual, com toda a pro-
priedade, podemos também chamá-lo de nosso Jacques de Medina.

Se há algo de especial que o espírito delicado de Jacques de Medina tenha legado a todos nós,
esse algo é a sua conduta sagrada diante de suas tarefas de pesquisador e professor. Não sei
ao certo se foi o nome da cidade santa árabe que o inspirou ao longo de todo o seu caminho.
Entretanto, sei que, por tudo o que ele fez, a vida fez de Medina a Meca do ensino e pesquisa da
Início do magistério, aos 44 anos, na Mecânica dos Pavimentos no Brasil.
COPPE. Aula de Mecânica dos Solos,
Bloco G, Centro de Tecnologia. Regime
de dedicação exclusiva. O colega Willy Ao fazer esta análise sintática-sintética, pode-se dizer, diante da trajetória silenciosa de vida e
Lacerda seguira para a Universidade da trabalho do Medina que eu conheci, que o sujeito é a oração, em que ora a oração é o pensar,
Califórnia, Berkeley, depois de instalar o ora é a ação, é o verbo. Portanto, no caso do sujeito Medina, o verbo viver-trabalhar é, ao mesmo
primeiro laboratório no Bloco A, com a
tempo, o sujeito da oração e a oração do sujeito.
ajuda de Antônio Jorge Dellê Vianna, 1968.

Como encarregado pela ABMS de fazer o agradecimento final ao homenageado pela apresenta-
ção da VII Conferência Pacheco Silva, acredito que possa falar em nome de todos os presentes,
ao pedir a Deus que mantenha acesa dentro de cada um de nós e da ABMS a chama sagrada
que sempre ardeu no espírito de Jacques de Medina. Per omnia secula seculorum, amem!
50 51

Solicitação de concessão Formação

de título de emerência Professor Titular (livre docência), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 1988; Mestra-
do em Engenharia Civil, Universidade de Purdue, Indiana, EUA, 1951; Graduação em Engenharia
Civil, Escola Nacional de Engenharia, Universidade do Brasil (atual UFRJ), Rio de Janeiro, 1947
(diploma de Engenheiro Civil) e Engenheiro Eletricista (1948).

Cursos de Extensão e Treinamento

• 1947/48 – Curso de Mecânica dos Solos, na Companhia Estacas Franki, lecionado


pelo Professor Icarahy da Silveira;
• 1958 – Curso de Mecânica dos Solos e de Materiais Betuminosos no Road Research
Laboratory, Londres, Inglaterra (1 mês); bolsista da CAPES/MEC;
• 1958 – Estágio de Treinamento no Laboratoire Central des Ponts et Chaussées na seção
de Solos do Institut du Bâtiment et des Travaux Publics, em St. Remy-les-Chevreuse;
9 meses; bolsista de Assistência Técnica das Nações Unidas.
• 1958/59 – Estágios de Treinamento nos Laboratoires des Travaux Publics de Dacar,
Senegal e Abidjan, Costa do Marfim; 2 meses; bolsista do Governo da França;
• 1962/63 – Cursos de Pós-Graduação de Engenharia Civil na área de Geotecnia e
Pavimentos, Universidade da Califórnia, Berkeley; professores: Carl Monismith,
James Mitchell, Robert Horonjeff etc; 10 meses; bolsista OEA.;
• 1963 – Estágio de Treinamento no Laboratório de Materiais e Pesquisa da Divisão
de Estradas da Califórnia, com a supervisão direta de Francis N. Hveem; 2 meses;
bolsista da OEA;
Solicitação elaborada pelo Programa de • 1965 – Curso de Engenharia Econômica, Escola Nacional de Engenharia, UFRJ; 9 meses.
Engenharia Civil da Coppe em janeiro de
2008. Tal solicitação foi aprovada e o título
de professor emérito foi outorgado ao
professor Jacques de Medina em sessão Atuação Profissional
solene na UFRJ, realizada no dia 17 de
dezembro de 2008. • 1994 – Pesquisador 1A do CNPq;
• 1968-1994 – Professor, Programa de Engenharia Civil, COPPE/UFRJ (Instituto Alberto Luiz
Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia), Centro de Tecnologia, Universidade
Federal do Rio de Janeiro (aposentado como professor titular);
• 1952-1968 – Engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem da antiga Prefeitura
do Rio de Janeiro, depois Estado da Guanabara, hoje Funderj. De 1968 a 1983, licenciado
e participante de acordo de cooperação técnico-científico com a UFRJ;
• 1948-1952 – Engenheiro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) Seção
de Solos do Laboratório Central, dirigido pelo engenheiro Galileo Antenor de Araújo.
52 53

Prêmios e títulos Portland e brita; resistência mecânica e durabilidade. Medições de temperatura em painel asfál-
tico. Estabilização de solo argiloso com cal hidratada e cal de carbureto (rejeito da indústria do
• VII Conferência Pacheco Silva, ABMS, 2006; gás acetileno). Estudos de permeabilidade e estrutura de solo-cal. Estabilização de solo lateríti-
• Homenagem da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica co com ácido fosfórico. Ensaios triaxiais de cargas repetidas de solos, cascalho laterítico e pe-
ABMS em agradecimento pela ajuda no estabelecimento das fundações da associação, 2002; dra britada para uso em pavimentos. Estudo da irregularidade superficial de pista de aeródromo
• Diploma de sócio emérito, ABMS 1998; militar na dirigibilidade das aeronaves na decolagem.
• Laboratório de Geotecnia Professor Jacques de Medina – nome dado pela COPPE ao novo
prédio anexo do Centro de Tecnologia, COPPE/UFRJ, 1996;
• Prêmio Pontes Corrêa da Associação Brasileira de Pavimentação (ABPv): 1961, 1978 e Principais realizações
1991 (pelo melhor trabalho apresentado na 2ª, 14ª e 25ª reunião anual de pavimentação);
• Prêmio Terzaghi, biênio 1980/2, “por contribuição notável em trabalho de pesquisa no cam- O professor Jacques de Medina tem um largo acervo de contribuição de grande relevância à
po da Geotecnia”, Associação Brasileira de Mecânica dos Solos; UFRJ e à pesquisa e ensino de pavimentação no Brasil. Formou toda uma geração de professo-
• Honra ao Mérito (1976) e Homenagem Especial (1996) da ABPv; res que hoje atuam em várias universidades brasileiras e do exterior.
• Prêmio da Comissão de Asfalto do Instituto Brasileiro de Petróleo: 4º Encontro (1982)
e 10° Encontro (1990). Foi um dos primeiros professores do Programa de Engenharia Civil (PEC) da COPPE, onde atuou
• Notório Saber outorgado pelo Colegiado do Programa de Engenharia Civil da COPPE, refe- como liderança da área de Geotecnia de 1967 até 1994. Aposentado, continuou atuando no
rendado pelo Conselho Federal de Educação, publicado Boletim UFRJ nº 38 de 18/09/1986. PEC, desde então como bolsista – pesquisador do CNPq até 2006. Hoje continua como profes-
• Menção Honrosa da ABGE – Associação Brasileira de Geologia de Engenharia. sor convidado.
• Associações Técnico-Científicas e Profissionais
• 1948 – Clube de Engenharia, Rio de Janeiro (sócio remido); Foi presidente do Conselho Deliberativo da COPPE.
• 1951 – Associação Brasileira de Mecânica dos Solos (sócio emérito);
• 1959 – Associação Brasileira de Pavimentação – sócio fundador nº 4; Trabalhou no DER – RJ e no DNER onde montou laboratórios de referência na década de 1960.
• 1963 – Association of Asphalt Paving Technologists (sócio remido);
• 1951-1981 – American Society of Civil Engineers; Atuou em diversas pesquisas para órgãos rodoviários do Brasil e como consultor de pesquisas
• 1952-1990 – Transportation Research Board, EUA. do Instituto de Pesquisas Rodoviárias do DNER. Consultor Ad – Hoc de vários organismos tais
como CNPq, Capes, Fapesp etc.

Resumo Participou do Comitê Assessor do CNPq.

Cerca de 120 publicações, sendo 30 em países estrangeiros e 15 em congressos internacionais Fundador da Associação Brasileira de Pavimentação em 1959 e seu colaborador até o presente.
realizados no Brasil; orientação de 6 teses de doutorado e 29 de mestrado. Um livro publicado
pela Editora UFRJ, em 1997.
Razões que justificam a presente solicitação

Áreas de atuação, ensino e pesquisa: A solicitação de emerência para o professor Jacques de Medina foi uma forma que o Programa
de Engenharia Civil da COPPE apontou por unanimidade em 2004, motivado pela grande contri-
Métodos mecanístico-empíricos de dimensionamento de reforços de pavimentos asfálticos. buição que o mesmo havia prestado de 1967 a 1993 – 26 anos de efetiva dedicação exclusiva
Mecânica da fratura no estudo do trincamento de pavimentos. Fadiga de mistura asfáltica. e profícua – e que se reconhecia ter se estendido por mais 10 anos após a sua aposentadoria
Fadiga de solo-cimento. Pedologia aplicada à engenharia. Estabilização de areia uniforme de compulsória, como bolsista – pesquisador.
duna com cinzas volantes de usinas termelétricas e cal hidratada; efeito da adição de cimento
54 55

Deveria? O professor Jacques de Medina sempre foi um pioneiro em sua área de atuação – a pavimenta-
ção – e também admirável como exemplo de vida pessoal e acadêmica.

Tanto não fiz que deveria, Do ponto de vista acadêmico, o exemplo de professor dedicado e formador de novos grupos
que hoje são reconhecidos nacionalmente, criador de novas disciplinas, implantação de labo-
Poder retomar o caminho percorrido.
ratórios e métodos numéricos. Tem ex-alunos em universidades e empresas que até hoje o
Horas paradas e o tempo que corria reverenciam como “um verdadeiro maestro”.

Que outras venturas poderia ter tido? Na área de pesquisa, promoveu uma verdadeira modificação no cenário da pavimentação no
país, com introdução de técnicas que levam em conta a condição de formação dos solos brasi-
leiros que permitem grande economia nos dimensionamentos e maior durabilidade das estra-
J.M. das, resultando em tecnologias de relevância para a Engenharia Rodoviária brasileira. Introdu-
ziu, desde a década de 1970, o estudo da Físico-Química dos solos que hoje coloca a COPPE na
frente nos estudos de Geotecnia Ambiental pelo laboratório e técnicas já desenvolvidas desde
aquela época.

A parceria com a Petrobras nos estudos de ligantes e misturas asfálticas foi também por ele
implantada de longa data, o que hoje também se reflete em instalações laboratoriais de ponta.

Do ponto de vista pessoal, foi exemplo de dignidade e ponderação, agindo de forma conciliado-
ra e agregadora, sempre equilibrado e justo em seus pareceres em todos os locais onde atuou.
É sempre citado como exemplo de profissional de notório saber e figura irretocável.

Mostrou grande influência na elevação científica e tecnológica da Engenharia Geotécnica brasi-


leira, atuando tanto como pesquisador quanto como consultor de diversas empresas.

A sua disposição para o trabalho e sua curiosidade científica são exemplos até o presente para
os docentes e para os alunos com os quais convive ainda hoje, com enorme proveito para os
mesmos em discussões sempre criativas e estimulantes.

O efeito multiplicador da contribuição à sua área principal de estudos foi notável e permanece
atual, pois ainda é chamado para opinar e avaliar cursos e teses. Sua emerência engrandece o
Programa de Engenharia Civil, a COPPE e a própria UFRJ.
56 57

O óleo de xisto é nosso...

Baixa a poeira da pequena estrada


Por São Mateus que nos deu o xisto
É dele o santo óleo que ajuda nossa caminhada
O anti-pó que por todos nós é benquisto

Se prendes ao chão a incômoda poeira


Quem sabe, da comunhão do óleo e terra
Em vez de união passageira
Um casamento mestiço que a poeira enterra
trabalhos
Quando a turma do betume fizer a poeira baixar JACQUES DE MEDINA
Não só o usuário da via contente ficará
Ribeirinhos com menos aflição para respirar
E acenos alegres de crianças haverá

J.M.
58 59

Pequena história da Minhas viagens de


Escola Nacional de Engenharia estudo ao exterior, 1967

Jacques de Medina Jacques de Medina

Há 137 anos, pela Carta Régia de 4 de dezembro de 1810, foi criada a Academia Militar, célula
máster da Escola Nacional de Engenharia e que se destinava a formar “hábeis oficiais da classe
de engenheiros geógrafos e topógrafos, que pudessem também ter o útil emprego de dirigir
objetos administrativos de minas, pontes e calçadas”. Em 22 de outubro de 1823, foi permitido
nessa academia o estudo conjunto de militares e civis. Em 14 de janeiro de 1839, passava a
Academia Militar a chamar-se Escola Militar.
Em 9 de março de 1842, pelo Decreto nº 140, o plano de ensino foi alargado e estendido defi-
nitivamente aos civis. Pelas reformas de 1845, 1846, 1848, 1855 e 1858, a Escola Militar passou
a constituir a Escola Central, “destinada ao ensino das Matemáticas, das Ciências Físicas e
Naturais e das disciplinas próprias de Engenharia”.
Em 24 de maio de 1873, pela Lei nº 2.261, o governo foi autorizado a realizar uma reforma
tendente a separar o ensino militar do civil e da qual nasceu a Escola Politécnica.
Em virtude disso, o Decreto nº 5.600, de 25 de abril de 1874, deu estatuto ao novo estabeleci-
mento de ensino civil, sucessor da Escola Central, denominado Escola Politécnica.
Em 5 de julho de 1937, pela Lei nº 452, a Escola Politécnica passou a se denominar Escola
Nacional de Engenharia (ENE). Em 2003, a ENE voltou à denominação de Escola Politécnica,
situada no âmbito do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha
do Fundão.
60 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 61
62 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 63
64 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 65
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108 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 109
110 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 111
112 JACQUES DE MEDINA Minhas viagens de estudo ao exterior 113
114 JACQUES DE MEDINA 115

Research on soil
stabilization at UFRJ, 1977
5th Southeast Asian Conference on Soil Engineering
Bangkok, Thailand, July 2-4

Jacques de Medina
116 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 117
118 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 119
120 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 121
122 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 123
124 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 125
126 JACQUES DE MEDINA Research on soil stabilization at UFRJ 127
128 Une méthodologie d’évaluation des chaussées souples et calcul de renforcement 129

Une méthodologie d’evaluation


des chaussées souples et calcul
de renforcement, 1984
Revue Générale des Routes et Aérodromes. Paris. v. 8, n. 614, p. 47-50

Jacques de Medina
Salomão Pinto
Ernesto Preussler
130 JACQUES DE MEDINA 131

Design of asphalt pavements


using lateritic soils in Brazil, 1987
Proceedings of 6th International Conference on
Structural Design of Asphalt Pavements, Univ. of Michigan, EUA.
Também publicado na revista Solos e Rochas, v. 11, número único, p. 3-9, 1988.

Jacques de Medina
Laura Goretti Motta
132 JACQUES DE MEDINA Design of asphalt pavements using lateritic soils in Brazil 133
134 JACQUES DE MEDINA Design of asphalt pavements using lateritic soils in Brazil 135
136 JACQUES DE MEDINA Design of asphalt pavements using lateritic soils in Brazil 137
138 Considerações sobre ensino da pedologia aplicada à engenharia 139

Considerações sobre o ensino da


pedologia aplicada à engenharia, 1989
XII Congresso Brasileiro de Ciência do Solo. Recife. Anais da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS)

Jacques de Medina
Franklin Santos Antunes
Francisco José Casanova Castro
140 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre ensino da pedologia aplicada à engenharia 141
142 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre ensino da pedologia aplicada à engenharia 143
144 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre ensino da pedologia aplicada à engenharia 145
146 Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 147

Stabilization of lateritic
soils with phosphoric acid, 1993
Geological and geotechnical engineering. Londres, v. 13, n. 4, p.199 -216.

Jacques de Medina
Hugo Nicodemo Guida
148 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 149
150 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 151
152 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 153
154 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 155
156 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 157
158 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 159
160 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 161
162 JACQUES DE MEDINA Stabilization of lateric soils with phosphoric acid 163
164 Um engenheiro geotécnico face à geologia 165

Um engenheiro geotécnico Parecia-me que dispondo-se a tal papel, deixariam de lado a ciência ou o melhor conhecimento da crosta terrestre.
Entretanto, percebia que o engenheiro de minas, de sólidos conhecimentos de geologia, era um bom exemplo de
face à geologia, 1999 como poderia funcionar esta associação do saber científico adquirido na observação da natureza, com o das téc-
9º Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia. nicas da mineração que envolvem estruturas de engenharia. A Escola de Minas de Ouro Preto existe desde 1876. O
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia (ABGE). São Pedro, SP. curso de Engenharia de Minas e Metalurgia da Escola Politécnica de São Paulo data de 1939.

Jacques de Medina AS FORMAÇÕES ARGILOSAS DO RIO DE JANEIRO

Não existia no curso de engenheiros civis da Escola Nacional de Engenharia, quando a frequentei de 1943 a 1947,
RESUMO Relato da busca de informações geológicas por parte de um engenheiro civil, especializado em geo- a cadeira de Mecânica dos Solos. Na de Materiais de Construção, apenas algumas noções de física do solo, nada
técnica rodoviária, antes da consolidação da geologia de engenharia no país. O interesse pela compreensão do mais. A Escola Politécnica de São Paulo antecipou-se à Escola Nacional de Engenharia, valendo-se do Instituto de
cenário físico na sua interação com as obras de engenharia, em especial estradas e pavimentação. Comentários Pesquisas Tecnológicas, a ela anexa, cuja Seção de Solos e Fundações foi criada em 1938 pelo Dr. Odair Grillo.
sobre alguns estudos geotécnicos envolvendo noções de geologia, geomorfologia, pedologia e utilização de No Rio de Janeiro a Companhia Estacas Franki oferecia um curso básico de mecânica dos solos, lecionado pelo
interpretação de fotografias aéreas. O papel da geologia de engenharia. Sugestão de uma proposta de estudo eng. Icarahy da Silveira, da PDF e docente de Materiais de Construção. O local das aulas era o laboratório da Franki,
multi-institucional sobre os condicionamentos geológicos das obras de engenharia. no prédio das oficinas sito à rua Equador, próximo à atual Rodoviária Novo Rio. Éramos só dois alunos. No final do
curso, em julho de 1948, apresentei um trabalho - Medina (1948), sobre as argilas orgânicas do Rio de Janeiro. Na
Biblioteca Nacional consultei velhos mapas do período colonial e na Biblioteca do Serviço de Topografia da Prefei-
INTRODUÇÃO
tura o relatório do plano urbanístico de Alfred Agache, que viera ao Rio de Janeiro em 1927 a convite do prefeito
Prado Jr. Nos laboratórios da Franki, Instituto Nacional de Tecnologia (com o eng. Mario Brandi Pereira) e Central
Desde o início do exercício da profissão de engenheiro civil, atuando como geotécnico rodoviário, há cinquenta e
do DNER (com o eng. Galileo Antenor de Araújo), consultei boletins de sondagem e fichas de ensaios de argilas. No
um anos atrás, senti necessidade de recorrer ao estudo de textos de geologia e de representações gráficas dos
Laboratório do DNER estavam os dados dos solos da variante Rio-Petrópolis, em construção, cujo estudo geotécni-
terrenos feitas por geólogos. Fui espectador privilegiado da criação da ABMS - Associação Brasileira de Mecâ-
co fora entregue ao IPT de São Paulo. Ingressei no DNER em meados de 1948, indo trabalhar na seção de solos do
nica dos Solos, o que ocorreu em 1950, quando me encontrava na Universidade de Purdue para o mestrado. Fui
Laboratório Central. Dediquei-me, inicialmente, aos ensaios de adensamento das argilas, inclusive com drenagem
um dos dois representantes designados pelo DNER para o Congresso da ABMS, em 1951, em São Paulo. Pude
radial. Acompanhei o eng. Francisco Pacheco Silva, do IPT de São Paulo, na instalação de piezômetros e medição
acompanhar o progresso da geologia aplicada nos vinte anos que antecederam a fundação da ABGE, em 1968.
de recalques, para o controle da construção de aterros. Conheci, nessa ocasião, o Dr. Milton Vargas. Eram pessoas
Empenhei-me para que o quadro de engenheiros do DER-GB (Guanabara) tivesse, pelo menos, um geólogo. Atuei,
alguns anos mais velhas do que eu, que haviam feito cursos com Terzaghi e Casagrande. Estava eu, portanto, na
pessoalmente, na fundação da ABPv - Associação Brasileira de Pavimentação em 1959. Nesta houve, de ime-
“torrinha” do teatro em que se levava a peça do surgimento da Mecânica dos Solos sob os auspícios do IPT.
diato, lugar para a geologia aplicada: Nogami (1962). Ajudei a criar a revista Solos e Rochas na COPPE/UFRJ em
Este trabalho despertou-me o gosto pela pesquisa, pelos condicionantes geológicos e o interesse histórico
janeiro de 1978; o título sugeria a participação dos geólogos de engenharia.
envolvido. Devo-o ao prof. Icarahy da Silveira.
No Panorama da Geologia de Engenharia, neste final de século, penso que há lugar para um retrospecto histó-
Faltava-nos, nos bancos escolares, um verdadeiro curso de geologia para engenheiros. Esse poderia ter como
rico, pontilhado de pequenas experiências pessoais modestas, sem dúvida, mas muito significativas na minha
ponto de partida a explicação da orografia ou das formas de terreno e as transformações pela ação do homem.
atividade profissional.
No caso do Rio de Janeiro, os aterros dos alagadiços, os desmontes (morros do Castelo e de Santo Antonio), os
aterros da orla marítima (aeroporto, Flamengo, Botafogo e Copacabana) e da Baía de Guanabara. A história da
AS PRIMEIRAS REFERÊNCIAS construção dos túneis da cidade seria um dos pontos principais - ver Danciger e Totis (1971).

Na Revista Brasileira de Geografia encontrei a descrição do meio físico em artigos de geógrafos, geólogos, pedó-
DISCIPLINAS DE GEOLOGIA PARA ENGENHEIROS (UNIVERSIDADE DE PURDUE, 1950)
logos, botânicos etc. Foi nessa revista que encontrei as primeiras descrições de lateritas, os concrecionamentos
ferruginosos modeladores do relevo e fontes de material de construção.
Fiz duas disciplinas de geologia durante o mestrado de Engenharia Civil. A primeira de Petrografia e Mineralogia
As obras de Alberto Ribeiro Lamego (1940, 1945), pertinentes às formações litorâneas, constituíram leituras
e a segunda de aplicação a obras de engenharia (fundações e barragens), com noções de geologia estrutural.
muito proveitosas. Sempre à mão, o dicionário de Antonio Teixeira Guerra (1975) de várias edições.
Em excursões ao campo coletávamos amostras de mão, dando aos pedaços de pedra as dimensões desejadas a
O engenheiro geotécnico rodoviário lida com extensões lineares de dezenas de quilômetros, de modo que a
golpes de martelo; as fontes de material, de generosa abundância, eram os eskers e kames: cordões e montícu-
descrição da geologia e da fisiografia de um corredor sinuoso pode abranger várias províncias geológicas.
los de resíduos de origem glacial do Estado de Indiana. No laboratório procedíamos aos testes de identificação.
Na época que antecedeu à criação da ABGE, perguntava-me até que ponto um geólogo, na qualidade de cientista
Relacionada a este treinamento estava a disciplina de “Materiais para Estradas e Aeroportos”. O renomado
da Terra se disporia a entender a interação das obras de engenharia com os maciços rochosos, o manto de intem-
prof. K.B. Woods apresentava as relações da geologia, clima, topografia e solos, na construção e conservação de
perismo e os sedimentos de modo a poder interferir no projeto? Seria razoável pedir a este cientista que atuasse
estradas, mostrando as inúmeras possibilidades de soluções locais e a variedade de recursos de que pode lançar
como árbitro e orientador da ação antrópica de modo a diminuir os riscos e aumentar os benefícios econômicos ?
mão o engenheiro rodoviário, principalmente dos conhecimentos de geologia. Este curso preencheu, no meu en-
166 JACQUES DE MEDINA Um engenheiro geotécnico face à geologia 167

tender, com a visão de aluno estrangeiro, dois objetivos: primeiramente, conhecer o meio físico norte-americano, do mosaico com referência a pormenores do padrão aerofotográfico convenientemente interpretado, sendo as
em segundo lugar, o valor da metodologia do curso. Passei a entender como as técnicas de construção e os discrepâncias compatíveis com o grau de precisão do ante-projeto.
métodos de dimensionamento de pavimento decorrem da natureza dos solos, do clima e dos materiais naturais Via-se nas fotografias aéreas: tonalidades escuras de solos mal drenados - argilosos - da baixada, tonalidades
utilizados na construção; a relevância está em que o empirismo importado pode, então, ser devidamente avalia- claras de solos bem drenados - arenosos - mais ao norte. Antigas orlas marítimas apareciam em formas alonga-
do. Assim, por exemplo: na metade norte do território dos EUA o inverno é rigoroso e na parte leste a precipitação das no fundo da baixada. Nos sedimentos percebia-se a forma meândrica do rio Portinho antes de retificado pelas
atmosférica é elevada, de modo que o congelamento pode atingir o subleito, isto é, congela a água dos poros das obras de saneamento, as franjas escuras de arbustos, ao longo das margens dos canais e as culturas de cereais
várias camadas e, até certa profundidade, a do subleito. Na primavera o degelo praticamente empapa o subleito. e pomares nas partes enxutas do terreno. Solos arenosos de tonalidades mais claras nas fotos ocorrem a poucos
As variações de deflexões em provas de carga são grandes, na primavera de 4 a 6 vezes os valores medidos metros acima da superfície das baixadas. Certas manchas claras de ocorrência extensa nas fotos, a partir de rios e
no outono e inverno. Soma-se a isto a pior qualidade do suporte e maior deformabilidade dos subleitos (argilas canais, designadas localmente de “apicum”, representavam depósitos de silte com areia fina e pouca argila, cor cin-
expansivas são comuns). Desde que me envolvi com o dimensionamento de pavimentos flexíveis, o método do za claro, que ao secar, tornavam-se torrões poligonais. Estes depósitos formam-se por ocasião das marés altas, na
CBR pareceu-me inadequado nos trópicos úmidos. Para transformar esta impressão em certeza foi preciso apro- água salina ou salobra; nas fotos, como manchas esbranquiçadas, não podem ser, contudo, confundidas com areia.
fundar os estudos de solos e climas do país e desenvolver a disciplina de Mecânica dos Pavimentos, nos 25 anos Na foto do mosaico em anexo estão indicadas diretrizes da estrada e feições topográficas relevantes.
de atividade na pós-graduação na COPPE/UFRJ - Medina (1997). Quando não se pode vivenciar uma determinada técnica, é difícil aceitá-la. Por outro lado, para se ganhar notorie-
dade como expert há que praticá-la muito, o que não era o meu caso. Mas achava que poderia chamar a atenção
de outros colegas, daí um “trabalho-moção” que resolvi divulgar - Medina, 1957 - em que recomendava aos DER a
ESBOÇO DO TRAÇADO DE UMA ESTRADA NA BAIXADA DE GUARATIBA USANDO FOTOGRAFIAS AÉREAS
admissão de geólogos e engenheiros de minas, a melhoria do ensino de geologia nas faculdades de engenharia,
dando-lhe cunho mais objetivo e, é claro, introduzindo a técnica de foto-interpretação como valioso instrumento di-
Em 1956, no antigo DER-PDF que passou a DER-GB (quando Brasília passou a ser a nova capital federal, em
dático. Propunha a realização sob o patrocínio dos DER e, se possível, com o auxílio da CAPES e do CNPq, de cursos
21.04.1960) estava em estudo um trecho do Anel Rodoviário que tinha ao norte a chamada Avenida das Bandei-
de geologia para engenheiros rodoviários, em que fossem abordados não só os temas gerais, a título de revisão,
ras (hoje o prolongamento da Av. Brasil) e ao sul a Av. Litorânea. Passava-se da Baixada de Jacarepaguá à de
como aspectos particulares da geologia da região ou estado em que se realizassem tais cursos. Cheguei a esboçar
Sepetiba, como hoje, pela Estrada da Grota Funda, já que o túnel era, como hoje, uma promessa.
a ementa de um curso para o DER-DF.
O trecho em causa (Medina, 1957) ia do Rio Portinho à Fazenda Modelo da Prefeitura, numa extensão de cerca
Durante quatro meses, em 1954, participei como assistente do geólogo norte-americano Thurrell, do curso de
de quatro quilômetros. Ou se construiria a estrada contornando o relevo dos morros em cotas maiores, ou se pas-
foto-interpretação aplicada à geologia e solos, do Centro Panamericano de Aperfeiçoamento para a Pesquisa de
saria em aterros de pequena altura, atravessando o trecho de argila sedimentar e de baixa consistência. Esta al-
Recursos Naturais, na Universidade Rural, km 47 da Rodovia Rio-São Paulo, Itaguaí, RJ. Colaborei, também, com
ternativa seria de menor comprimento, mas exigiria as atenções e precauções ditadas pela mecânica dos solos.
o prof. Antonio Arena, renomado pedólogo argentino, nos ensaios de solo.
O Serviço de Estudos e Projetos do DER-DF utilizava levantamentos aerofotogramétricos contratados. A escala
Portanto, ao empenhar-me no estudo geotécnico de uma estrada, com auxílio de fotografias aéreas, no DER-DF,
das fotos era de 1:5000 a 1:6000, os mosaicos de 1:2000; dispunha-se ainda do foto-índice e plantas de resti-
já havia passado pela experiência anterior acima relatada, quatro anos após os cursos em Purdue.
tuição aerofotogramétrica. Mas foi a foto-interpretação de solos (tivera um curso na Universidade de Purdue),
formas de terreno e redes naturais de drenagem, que procurei explorar nos estudos geotécnicos.
A região estudada, Baixada de Guaratiba, pertence à divisão fisiográfica maior que é a Baixada de Sepetiba. A ESTUDO DAS LATERITAS E O INTERESSE PARA A PAVIMENTAÇÃO
planície quaternária é constituída de depósitos de origem aluvionar, silto-argilosos, de consistência mole, com
conchas, sobre camadas de areia mais ou menos argilosas e estas sobre solos saprolíticos. Lê-se em Lamego Transcrevo trecho de um escrito meu de mais de quarenta anos - Medina, 1956 - quando se implantava a técnica
(1940) que a emersão desses sedimentos deve-se ao movimento de regressão do mar no litoral sul do país. Se das bases estabilizadas granulometricamente:
eustatismo ou isostasia, a seara é dos geólogos.
A interpretação das fotografias aéreas com a visão estereoscópica permitiram-me, como dizia à época, aos “Carecemos, entretanto, a fim de tirar o máximo proveito das vantagens desse tipo de pavimento de baixo
meus colegas, trazer a imagem do terreno para minha prancheta e ir ao campo com a impressão do “dejà-vu”. custo, tornar rotineira e sistemática a pesquisa de jazidas, para o que, além da necessidade de maior número
As diretrizes escolhidas foram materializadas no campo. A primeira, no prolongamento do eixo do futuro (36 de engenheiros especializados em solos e de laboratoristas, julgamos necessária a presença de geólogos nas
anos atrás...) túnel da Grota Funda e passando próximo à Fazenda Modelo. Preparei um mosaico de fotos al- organizações rodoviárias, da mesma forma que o desenvolvimento da técnica de foto-interpretação para o
ternadas, não controlado, grampeando-as numa prancheta de celotex, nele marcando a diretriz. As fotos não reconhecimento de solos e rochas, o planejamento regional quanto ao tipo de bases e revestimentos (trabalho
grampeadas serviam-me para a visão estereoscópica. Comparados pontos do mosaico com os de uma planta de digno de um Centro Brasileiro de Pesquisas Rodoviárias, como já foi proposto) e a introdução de métodos de
1:20.000, concluía-se que o mosaico tinha a escala média de 1:6.500. Em janeiro de 1956 localizamos os pontos prospecção geofísica na fase de estudos de rodovias, já difundidos em países de maior desenvolvimento tec-
de referência e iniciamos as sondagens com a equipe do próprio laboratório (Setor de Pesquisas Tecnológicas) nológico. Não é “luxo” de país rico apurar os estudos preliminares à construção e dedicar verbas maiores para
do Serviço de Estudos e Projetos do DER-DF. Reportei-me a sondagens de reconhecimento (percussão e lava- esse fim, mas uma necessidade para a economia da construção”
gem) existentes na região, certificando-me de que abaixo da argila mole ocorre sempre argila arenosa média a
rija, ou areia argilosa medianamente compacta. Num dos furos para a Estação Radio-Receptora de Guaratiba, no Neste artigo, de 1956, abordo uma experiência tida em 1952 com as lateritas do Norte (Pará e Maranhão) que me
Campo Peixoto, apareceu, a 14,65 m de profundidade, solo de alteração de rocha, arenoso e muito compacto. Os levou a questionar a validade das especificações de misturas estabilizadas de solos e materiais granulares dos EUA.
furos a trado, de determinação da espessura de argila, espaçados de 100 m no campo, foram marcados nas fotos Pouco antes, tivera início no Sudeste a aplicação da técnica da estabilização mecânica ou granulométrica (solo resi-
168 JACQUES DE MEDINA Um engenheiro geotécnico face à geologia 169

dual - “saibro” - de gnaisse e granito, misturado à areia de campo) em substituição às tradicionais bases de macadame Recordo-me que, ao participar de um “atélier” de lateritas durante um congresso de estradas em Paris, 1984,
hidráulico ou de pedra seca. Mas, eu, engenheiro geotécnico do complexo cristalino e das baix das, praias e restingas tive oportunidade de explicar o porquê da análise química por ataque sulfúrico para caracterizar as razões sílica-
do Sudeste, me deparava pela primeira vez com a concreção ferruginosa de laterita (a “piçarra”, dizia-se localmen- -alumina e sílica-sesquióxidos do complexo coloidal ser feita na fração “terra fina”, ou seja, na que passa na pe-
te) no estudo de pavimentação de trechos das rodovias federais BR-22 no Pará e BR-21 no Maranhão. Procurei em neira no 10 (2mm). Esta é a prática antiga do Instituto de Química do Solo, no Rio de Janeiro, atualmente da Em-
escritos de geógrafos e geólogos a explicação das ocorrências de laterita no cenário tropical úmido. Especialmente brapa. Ora, vinte e três anos antes, na 2ª Reunião Anual de Pavimentação - Medina (1961), eu fornecia a mesma
proveitoso foi ler o prof. Pierre Gourou (1949) sobre a Amazônia, seus terrenos quaternários mais antigos e os terci- explicação nos debates sobre meu trabalho, reportando-me ao famoso pedologista francês Erhart, do Instituto
ários e a ocorrência da laterita nos solos, descrita como concreção de hidróxidos de ferro e de alumínio, que se pode Pedológico de Strasbourg que dizia: “o ácido sulfúrico concentrado e fervente ataca os produtos alterados como
observar na maioria dos cortes das estradas; ora de aspecto escoriácio, com vacúolos e recoberto de verniz violáceo, argila, não atuando sobre o quartzo e minerais não sintetizados etc”.
ora o aspecto de arenito limonítico de grãos de quartzo cimentados. A presença de uma camada superior de laterita Este fato mostra que o pesquisador ou o engenheiro estudioso não pode deixar de olhar à sua volta para as
num perfil determina encostas abruptas; nos cortes a laterita aparece nas quebras de declividade dos taludes. Este áreas de conhecimento próximas e coadjuvantes, tanto aqui como na Gália e alhures. E mais, deve interessar-se
estudo geotécnico para dimensionamento de pavimento flexível com bases e subbases de laterita no Pará e Mara- pela história da ciência e das técnicas.
nhão, compreendendo sondagens, coleta de amostras de subleitos e ocorrências, ensaios de laboratório e indicação A saudável prática de reunir estudiosos de diferentes áreas a fim de discutir um tema comum foi bem sucedida
das especificações de serviços, deve ter sido pioneiro no âmbito federal. Passei a interessar-me pela gênese dos solos por ocasião do Simpósio Brasileiro de Solos Tropicais em Engenharia, realizado de 21 a 23 de setembro de 1981,
lateríticos e lateritas e a compreensão do intemperismo tropical e o processo de laterização (termo “engenheiral”). no Centro de Tecnologia da UFRJ, por iniciativa da Área de Mecânica dos Solos do Programa de Engenharia Civil
As dessemelhanças de nossos solos e climas em relação aos da “matriz”do progresso tecnológico rodoviário - os da COPPE. Num mesmo forum estavam geólogos, engenheiros, pedólogos, químicos etc, num total de duzentos
EUA - já estavam no elenco de meus argumentos, quarenta anos atrás, em defesa de nossos próprios métodos e da participantes. Promoveu-se um painel sobre geoquímica do ferro nas obras de engenharia que se referiu à pre-
valorização de nossa experiência. Por outro lado era natural que meus colegas rodoviários e eu nos interessásse- cipitação bioquímica do óxido de ferro em drenos e filtros de barragens de terra - Kanji et al (1981). Registro as
mos pelas lateritas da África e Ásia. ponderações do eminente Dr. Paulo Teixeira da Cruz que considerou não preocupante este tipo de colmatação,
O primeiro engenheiro brasileiro que me chamou a atenção para o universo da laterita foi o Dr. Rafael Gontijo de longa data objeto de sua atenção. A prof. Hebe Martelli, do Departamento de Engenharia Bioquímica da Escola
de Assunção (1956). Ele, eu e o Dr. Antão Luiz de Mello, nesta ordem, fizemos o nosso “caminho de Santiago” de Química da UFRJ, apresentou um trabalho sobre as ações microbianas na geoquímica do ferro. A curiosidade
na revelação das lateritas africanas, a curtos intervalos entre um e outro viajante. Bolsistas do governo francês, sobre este assunto fora-me despertada por um trabalho do eng. Tavares (1967), do Pará, que divulgou o estudo
visitamos a África Ocidental - Senegal e Costa do Marfim. Recordo que durante minha estada no Senegal visitei da origem biológica de concreções de ferro pela ação de bactérias. Estas extrairiam e ingeririam o ferro de tubu-
o Centro de Pedologia de Dakar - Hann, tendo me deleitado com a verdadeira aula sobre a gênese das lateritas lações para excretá-lo sob a forma de óxido de ferro. Tal processo poder-se-ia dar num solo que tivesse ferro nos
do pesquisador Dr. Maignien. Lembro que é de Maignien (1966) a publicação da UNESCO, edições inglesa e fran- seus minerais. Uma cultura de “bactérias de ferro”, num solo arenoso ao qual se acrescentasse limalha de ferro,
cesa, sobre as pesquisas de lateritas. Outro relato muito bem acolhido entre nós foi o dos colegas portugueses poderia dar lugar - quem sabe ? - a um processo bio-geoquímico de estabilização de solo...
- LNEC (1959), com suas experiências em Angola e Moçambique.
Como foi absorvida a experiência de nossos engenheiros, com o apoio das referências estrangeiras mais con-
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA
fiáveis, nas novas especificações?
Participei, como membro externo, da comissão do DNER, cujo objetivo era a elaboração de novas especifica-
A primeira observação é de que nos trabalhos referentes ao planejamento da ocupação do solo envolvendo grandes
ções de bases e sub-bases de solo estabilizado granulometricamente com utilização de solos lateríticos; fun-
extensões geográficas como nos estudos de fundações de barragem e de estabilização de encostas, há que se
cionou de 1972 a 1974. Mais do que o trabalho normalizador, útil e necessário, embora, por vezes, castrador,
estabelecer a correlação dos condicionantes geológicos com os dados do projeto das obras de engenharia.
interessantes foram as respostas ao questionário sobre a utilização da laterita, divulgadas no boletim técnico
É inegável que os geólogos caminharam muito nos últimos trinta anos no sentido da compreensão dos problemas
no 9 da ABPv (1976). Havia testemunho de cerca de 1200 km de rodovias em Goiás e de 650 km no Norte. O
de engenharia e na expertise de sua solução. Também, não padece dúvida de que o engenheiro geotécnico aperfei-
eng. José do Couto Dafico Filho, do 12º DRF-DNER, descreveu vários tipos de cascalho de laterita: pedregulhos
çoou, em igual período, suas ferramentas de análise teórica e experimental, os recursos laboratoriais e instrumen-
de limonita de cor amarelada, pedregulhos de óxidos de ferro vermelho escuro, arroxeado, quase negro, de grãos
tais (de campo), além de expandir seu conhecimento prático, dando maior atenção aos condicionantes geológicos.
porosos e resistentes; pedregulhos de grãos de quartzo fendilhados, friáveis, com finos lateríticos; pedregulhos
Alguns trabalhos de geologia de engenharia podem parecer aos engenheiros que se detêm na sua leitura, des-
lateríticos com seixos rolados de arenito e silex disseminados no maciço de solo, onde se nota que a laterização
crições genéricas que pouco ajudam na quantificação dos parâmetros mecânicos que interessam ao projeto. Da
foi posterior à união dos dois materiais; descreveu ainda, um conglomerado de oólitos de dimensões de ovos
mesma forma, trabalhos de geotécnicos contêm referências à geologia do local da obra, que podem parecer aos
de galinha, casca de 4mm de óxido de ferro resistente recheados de areia fina. Estas descrições correspondem
geólogos, por vezes, inadequados e insuficientes.
às duas categorias de laterita do relatório LNEC (1959): primárias e secundárias, aquelas formadas “in situ” pela
É-me difícil avaliar o nível dos cursos de geologia para engenheiros nas nossas faculdades de engenharia. Tem
saída de bases alcalinas e acúmulo de minerais sesquioxídicos produzidos na alteração química dos minerais
sido uma preocupação da Área de Geotecnia da COPPE, desde o início de suas atividades, que se proporcione aos
primários, e estas pelo aporte de óxidos de ferro das águas de infiltração. Os minerais argílicos formados são de
pós-graduados uma revisão e aprofundamento da pequena bagagem de conhecimento de geologia. E aqui cabe
natureza caulinítica, seja não expansivos.
um preito de reconhecimento à valiosa colaboração que nos prestou o prof. geol. Enzo Totis, de saudosa memória.
A tentativa de explicar a tolerância de limites de Atterberg maiores, no caso de solos lateríticos em pavimentos e a
Um dos reconhecidos pioneiros da geologia de engenharia foi Ernesto Pichler. Disse o Dr. Milton Vargas na
questão da densidade diferenciada dos grãos concrecionados em relação à fração arenosa quatzosa mais fina, en-
conferência inaugural do XI COBRAMSEG em Brasília, da grande afinidade de diálogo do Dr. Pichler com o prof.
controu apoio no livro de Wooltorton (1954). Mas o destaque às relações volumétricas e à natureza não expansiva
Karl Terzaghi, nos idos de 1947, por razões de idioma comum e de conhecimentos de geologia.
dos minerais argílicos cauliníticos, mostrou-se insuficiente para entender o comportamento das argílicas lateríticas.
170 JACQUES DE MEDINA 171

Na geologia aplicada à construção rodoviária, e pavimentação em particular, desponta o nome do prof. Job Shuji No- Mecânica dos pavimentos.
gami, engenheiro de minas e civil que trabalhou anos a fio no DER11 SP até se aposentar, quando passou a se dedicar
exclusivamente ao Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da EPUSP. É autor, com o Dr. Douglas Fadul Villibor, de Aspectos geotécnicos, 2006
um livro marcante da literatura técnico-científica brasileira: Nogami & Villibor (1995). Vejo neste livro um modelo de VII Conferência Pacheco Silva da ABMS. Revista Solos e Rochas, v. 29, p. 137-158.
utilização dos conhecimentos de geologia e pedologia sem nunca perder de vista o desempenho das estruturas dos
pavimentos e a natureza dos problemas de engenharia. Desenvolveram em, pelo menos, vinte anos de trabalhos expe-
rimentais, uma nova metodologia de identificação de solos tropicais utilizados em pavimentação de baixo custo das Jacques de Medina
estradas vicinais. Os sistemas de classificação de solos, importados dos EUA - o do T.R.B., ex-H.R.B., e o Unificado dos
Engenheiros Militares - referem-se ao desempenho de estruturas de engenharia desse país e semelhantes: estradas e
pavimentos, o primeiro, e aterros, barragens, fundações, aeroportos e estradas, o segundo. Um solo A-7-6 do primeiro
sistema indica, nos EUA um subleito de má qualidade, tanto pior quanto maior o índice de grupo ( função dos limites
de Atterberg e da granulometria); no Brasil, pode tratar-se de um solo laterítico de bom desempenho como subleito.
Cabe lembrar que a importante rede de estradas vicinais, abastecedoras do tráfego das rodovias principais,
será sempre objeto de estudos geotécnicos com forte ingrediente de geologia de engenharia. Mais engenho e
arte é preciso numa vicinal acomodada racionalmente ao terreno do que num “freeway”.
Os geólogos de engenharia têm que estar presentes no desenvolvimento de tecnologias apropriadas aos trópi-
cos úmidos, principalmente na Amazônia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É indissolúvel o trabalho conjunto de geólogos de engenharia e engenheiros civis geotécnicos nas obras de enge-
nharia e no planejamento da ocupação do solo. De certa forma meu testemunho é neste sentido.
Creio que seria oportuno, neste momento, propor um trabalho conjunto de engenheiros geotécnicos e geólogos de
engenharia, com a colaboração de profissionais de áreas do conhecimento afins: “Levantamento das condições geo-
lógicas referentes às obras de engenharia no Brasil”. O estudo poderia ser feito por região geográfica ou por província
geológica ou geomorfológica, em diferentes níveis de detalhamento, a exemplo dos levantamentos de solo dos agrô-
nomos. Os recursos financeiros seriam pleiteados junto às agências de fomento à pesquisa, federais e estaduais, com
o apoio da ABGE e ABMS. Seria necessária a participação de várias instituições de ensino e pesquisa do país e uma
assessoria multidisciplinar ao “projeto”. O patrono deste trabalho coletivo ficaria muito bem na pessoa do Decano da
Geotecnia do Brasil, o prof. Dr. Milton Vargas. Na década de 40, o jovem eng. Milton Vargas fez um curso de geologia
aplicada com o fundador da Mecânica dos Solos na Harvard Graduate School of Engineering: Karl Terzaghi.

REFERÊNCIAS 7 BRAS. SOLOS TROPICAIS EM ENGENHARIA. COPPE/UFRJ, Rio


1 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PAVIMENTAÇÃO. Utilização de de Janeiro, v. 2, p.146-158, 1981.
laterita em pavimentação. Boletim n. 9, Rio de Janeiro, 1976.
8 LAMEGO, A. R. Restingas na costa do Brasil. Boletim n.96. Div.
2 ASSUNÇÃO, R. G. Viagem de Estudos: França e A. O. F. Boletim Geol. Mineralogia, Depto. nac. Prod. Mineral, Rio de Janeiro, 1940.
Técnico n.7, Assoc. Rodov. Brasil, Rio de Janeiro, 1956.
9 LAMEGO, A. R. Ciclo evolutivo das lagunas fluminenses. Bole-
3 DANCIGER, F.; TOTIS, E. Geologia dos túneis do anel rodoviário tim n.118. Div. Geol. Mineralogia, Depto. nac. Prod. Mineral, Rio
do Estado da Guanabara. Anais, 3 SEMANA PAULISTA DE GEO- de Janeiro, 1945.
LOGIA APLICADA, São Paulo. v.1, 1971.
10 LABORATÓRIO NACIONAL DE ENGENHARIA CIVIL. As lateri-
4 GOUROU, P. Observações geográficas na Amazonia. R. bras. tes do Ultramar Português. Memória n.141. Lisboa, 187 p., 1959.
Geogr., Rio de Janeiro, ano XI, n. 3, jul./set. 1949.
11 MAIGNIEN, R. Review of research on laterites. Paris: UNESCO.
5 GUERRA, A. T. Dicionário Geológico-Geomorfológico. 4 ed. Rio 148 p, 1966.
de Janeiro: IBGE. 439 p. 1975.
12 MEDINA, J. Sobre as formações argilosas e em especial as
6 KANJI, M. A.; FERREIRA, R. C.; GUERRA, M. O.; INFANTI, N. V. orgânicas do Distrito
Geoquímica do ferro nas obras de engenharia em solos tropicais:
breve histórico do conhecimento. Anais, SIMP.
172 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 173
174 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 175
176 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 177
178 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 179
180 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 181
182 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 183
184 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 185
186 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 187
188 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 189
190 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos. Aspectos geotécnicos 191
192 JACQUES DE MEDINA 193

Mecânica dos Pavimentos, 2015


Prefácio da 3ª edição do livro Mecânica dos Pavimentos

Jacques de Medina
Laura Maria Goretti da Motta
194 JACQUES DE MEDINA Mecânica dos pavimentos 195
196 JACQUES DE MEDINA Influência da presença de estaca defeituosa em grupo de fundações profundas escavadas e flutuantes 197

Aos vinte anos do Rodrigo – 3 de agosto de 1991

Explode teu coração recatado e indeciso


Concede-te a felicidade que tens escondida
Disse o poeta Pessoa que navegar é preciso
Pois solta as amarras de aventurosa vida.

J.M.
198 JACQUES DE MEDINA Influência da presença de estaca defeituosa em grupo de fundações profundas escavadas e flutuantes 199

trabalhos
CONVIDADOS
200 Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 201

Estudo do comportamento mecânico de participação econômica significativa, o que as posicionam, em caráter mundial, como um dos
setores estratégicos para incentivar mudanças efetivas que diminuam seu impacto na degra-
misturas asfálticas mornas dação do planeta.
Nesse contexto, a área da pavimentação também tem buscado alternativas ambientalmente
Jaelson Budny1 corretas visando à redução no consumo de combustíveis e a correspondente redução na emis-
Laura Maria Goretti da Motta2 são de gases causadores do efeito estufa. Dentre estas, destacam-se neste trabalho novas
tecnologias que têm sido desenvolvidas para a produção de misturas asfálticas.
Uma das técnicas recentes é das chamadas misturas mornas ou “Warm Mix Asphalt”. As
misturas asfálticas mornas diferem das misturas asfálticas convencionais pelas temperaturas
nas quais são produzidas. As misturas asfálticas a frio são executadas em temperatura am-
biente, variando entre 20 e 50°C, enquanto as misturas asfálticas a quente são produzidas em
temperaturas variando entre 140 e 180°C. As misturas asfálticas “mornas” são produzidas em
temperaturas entre 105 e 135°C.
As misturas asfálticas a quente possuem maiores estabilidade e durabilidade se comparadas
às misturas a frio, o que explica a utilização deste material em camadas mais delgadas de
RESUMO A comunidade de pesquisa tem buscado alternativas para a 1 Universidade Federal do Pampa
pavimentos com baixo volume de tráfego. O principal objetivo das misturas asfálticas mornas
Curso de Engenharia Civil, Alegrete, RS
redução do consumo de combustíveis e da emissão de gases causado- é alcançar resistência e durabilidade equivalentes ou superiores às das misturas asfálticas a
res do efeito estufa. Dentre estas alternativas, as misturas mornas têm 2 Laboratório de Geotecnia e
Pavimentos, COPPE/UFRJ quente, mas em temperaturas que não degradem o ligante asfáltico, diminuindo as emissões e
recebido atenção crescente da comunidade de pesquisa em materiais Rio de Janeiro, RJ os impactos sobre os operários (NEWCOMB, 2007).
de pavimentação. O uso de temperaturas reduzidas de usinagem e com- Os benefícios diretos e imediatos são a redução de energia na produção da mistura, neces-
pactação resulta em menores níveis de consumo de energia, melhores sária para atingir altas temperaturas que permitam atingir a viscosidade ideal do ligante para
condições de trabalho em campo e menores danos ambientais. O obje- envolver adequadamente os agregados, ter boa trabalhabilidade e fácil compactação. Quando
tivo principal desta pesquisa foi avaliar o desempenho de três misturas se reduz a temperatura em todas ou em pelo menos uma destas fases, sem perder as carac-
mornas por avaliações de propriedades volumétricas e mecânicas. O terísticas técnicas, há redução de fumos e emissões, nas usinas e nas obras, além de menor
ligante das misturas foi modificado por dois aditivos (químico e orgâni- envelhecimento do ligante, preservando suas características de flexibilidade por mais tempo.
co) que têm sido usados no Brasil. Da comparação dos resultados das Os benefícios das misturas mornas em termos de qualidade do ar e economia de combustí-
misturas modificadas, com as respectivas misturas de referência, foi vel são válidos e tem sido muito estudados e medidos no exterior, e começam a ser medidos
possível concluir sobre a viabilidade do uso dos produtos e processos também aqui no Brasil.
testados. Os resultados experimentais das misturas mornas avaliadas No entanto, o número de produtos e técnicas no mercado é muito grande, sendo necessário
neste estudo foram comparados com os resultados obtidos para mis- estudar as várias opções também sob o ponto de vista mecânico, para avaliar se a condição
turas convencionais e indicaram que tais misturas podem ser usadas atingida pela mistura morna será pelo menos equivalente aos concretos asfálticos tradicionais,
como alternativas a misturas asfálticas convencionais. em termos de desempenho na estrutura do pavimento. Se forem melhores (o que se espera em
algumas circunstâncias, devido ao menor envelhecimento do ligante no processo, por exem-
plo), é um bônus.
1 INTRODUÇÃO Os técnicos, governo e academia brasileiros, devem unir esforços para avaliar e validar as
várias tecnologias de WMA (Warm mix Asphalt), e, assim, chegar a implementar diretrizes e pro-
O controle das tecnologias tornou-se um trunfo considerável de forma que cedimentos para o projeto e as práticas que contribuam para a alta qualidade e menores custos
a grandeza das nações não se avalia mais unicamente pela sua extensão da infraestrutura de transportes no país, ainda muito carente de ruas e estradas pavimentadas.
territorial e suas riquezas naturais, mas também pelo seu grau de conhe- O fato de que os produtos são importados, em sua maioria, tendo as técnicas registradas, por si
cimento cientifico e tecnológico. só, não são garantia de qualidade ou “receita de bolo” sem contestação: é necessário testar e tirar
Um dos grandes desafios contemporâneos está em atender as premis- “nossas” próprias conclusões, enfim, criar o consenso dentro da engenharia rodoviária nacional.
sas da sustentabilidade, visando grandes investimentos em tecnologias Neste contexto, o presente trabalho tem por objetivo geral contribuir para o conhecimento das
que garantam um desenvolvimento equilibrado em todos os aspectos. PALAVRAS-CHAVE concreto misturas mornas, verificando o comportamento em laboratório de duas misturas de concreto
As atividades desenvolvidas pelas diversas áreas da Engenharia Civil asfáltico, misturas mornas, asfáltico preparadas com aditivos comerciais que já estão sendo usados no país, comparadas
podem gerar grandes impactos ambientais. Além disso, representam uma diminuição de emissões com misturas de referência produzidas com ligantes convencionais.
202 JACQUES DE MEDINA Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 203

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ção encontrados para as misturas mornas foram muito próximos aos de misturas de concreto
asfáltico. Para o efeito da susceptibilidade à umidade, os valores para o ensaio Lottman foram
2.1 Experiências brasileiras com uso de misturas mornas de 70%. Desta forma os autores concluíram que, considerando o desempenho mecânico das
amostras a técnica empregada é adequada para a produção de misturas asfálticas a tempera-
Seguindo a mesma tendência de outros países, também no Brasil, este tipo de revestimento tem turas intermediárias (Concepa-Lapav, 2007).
recebido atenção de alguns centros de pesquisa, contudo são poucos os trabalhos realizados. Em 2008, dando continuidade aos estudos apresentados em 2007, a parceria Concepa-Lapav
Motta (2011) estudou misturas asfálticas mornas com uso de aditivos surfactantes, compa- realizou novos estudos, pois a técnica EBE apresentava dificuldades ou necessitava de adap-
rando seus resultados com misturas convencionais. Foram realizados trechos experimentais e tação na usina que na época foram julgadas de difícil execução. Desta forma, novas técnicas
foi observado que a diminuição das temperaturas de usinagem e compactação não apresentou foram estudadas e foram feitos estudos com uso de emulsão asfáltica modificada por aditivo
dificuldades para a sua execução. Foi observada uma economia significativa de combustíveis a base de enxofre e outra mistura com uso de zeólita sintética. O estudo concluiu que as duas
para a sua produção, além de uma redução em cerca de três vezes nas emissões de poluentes. formas de produzir misturas mornas se mostravam eficientes (Concepa-Lapav, 2008).
Foi observado também que os resultados mecânicos tanto em laboratório, quanto em campo,
apresentaram resultados similares.
Rivoire Jr. et al. (2011) apresentaram os primeiros resultados de testes realizados com o uso 3 METODOLOGIA
de zeólitas naturais, executando trechos experimentais. Foi possível produzir misturas a 110ºC
e compactar a 80ºC, e as misturas mornas apresentaram valores de módulo de resiliência e Para investigar a aplicabilidade de produtos ou processos que permitam atingir o objetivo de
resistência a tração inferiores aos das misturas produzidas em temperaturas convencionais. racionalizar as temperaturas de processamento, espalhamento e compactação das misturas
Contudo os valores encontrados são aceitáveis. mornas testadas, foram realizados vários ensaios mecânicos dos materiais e misturas modi-
Cavalcantti (2010) realizou estudos modificando ligantes com RedisetTM WMX. Os re- ficadas, cujos resultados foram comparados aos de misturas de referência processadas nas
sultados de resistência a tração destas misturas apresentam valores muito similares às condições convencionais de temperatura. Para isto, foram dosadas algumas misturas e pro-
misturas de referência, enquanto os módulos de resiliência apresentam valores inferiores duzida certa quantidade de corpos-de-prova para a realização dos ensaios de caracterização
às misturas convencionais. volumétrica e para os ensaios mecânicos programados: módulo de resiliência, resistência à
Rohde et al. (2010) relatam o uso da adição de 0,3% de uma zeólita natural sobre o peso total tração, flow number. Inicialmente, foram escolhidos dois produtos de modificação do ligante
de ligante mais agregado e com temperaturas de mistura entre 100ºC e 120ºC e de compacta- para obter viscosidades necessárias para processar a mistura dos agregados com o ligante
ção entre 80ºC e 100ºC. Os resultados indicaram que as técnicas avaliadas por eles permitem em temperatura apropriada e posterior compactação a temperaturas mais baixas do que as
adotar o WMA com temperaturas intermediárias ao redor de 100ºC, tendo como produto final convencionalmente empregadas. Estes dois produtos têm sido empregados em obras de pavi-
misturas asfálticas com características mecânicas compatíveis com as observadas para a mis- mentação recentes no Rio de Janeiro e são dos tipos:
tura asfáltica a quente.
Fritzen et al. (2009) analisam os resultados provenientes da utilização do simulador de tráfe- a) CCBIT 113AD, de nome comercial CCBit, produzido na Alemanha, cedido pelo consórcio Novo
go móvel (HVS) instalado em trechos experimentais, localizados na Cidade Universitária na Ilha Asfalto por indicação do Engenheiro Celso Ramos da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro; e
do Fundão no Rio de Janeiro. Foram testadas três diferentes misturas asfálticas mornas, com b) AD-WARM, de nome comercial AD-Warm, produzido no Brasil, cedido pela BR Distribuidora.
temperaturas de 35ºC a 40ºC inferiores às misturas convencionais. Foram produzidas misturas Esta pesquisa contempla o estudo de vinte e uma misturas preparadas compactador giratório.
com aditivo A-SAT da Petrobras e misturas com Zeólitas, comparadas com misturas sem aditi- Tais misturas, cujas composições serão detalhadas a seguir (Tabela 01), foram por conveniên-
vos produzidas em temperaturas convencionais. As misturas asfálticas mornas apresentaram cia, denominadas ao longo do texto de misturas M-01 a M-21.
uma excelente trabalhabilidade, desde sua usinagem até a aplicação nos trechos experimen-
tais, mesmo com temperatura de compactação baixa em relação às misturas convencionais
utilizadas. Quanto aos resultados obtidos nos trechos experimentais das misturas mornas ob- 4 RESULTADOS
servou-se que: a solução sem aditivo apresentou pequeno aumento de afundamento na trilha
de roda em relação ao obtido na mistura asfáltica com a utilização do aditivo, mas todos os 4.1 Módulo de Resiliência
resultados das três soluções de técnica foram compatíveis com o esperado.
Otto (2009) estudou misturas asfálticas mornas com adição de zeólitas. O autor concluiu que O ensaio de módulo de resiliência (MR) de misturas asfálticas é realizado aplicando-se cargas
estas misturas apresentavam: maior susceptibilidade ao efeito do dano por umidade induzida, repetidas num intervalo de 0,1s e repouso de 0,9s no plano diametral vertical de corpos- de-pro-
valores de módulo complexo maiores do que da mistura convencional, contudo o seu desempe- va cilíndrico. Esta carga gera uma tensão de tração transversal ao plano de aplicação da carga
nho à fadiga foi muito inferior. Desta forma, para uma mesma solicitação de carregamento, as e sensores LVDT medem o deslocamento diametral recuperável na direção correspondente à
misturas mornas deveriam ter camadas mais espessas. tensão gerada (deslocamento horizontal).
Em 2007, foi publicado o relatório final de uma pesquisa entre a Concepa e o Lapav, onde foi Nas Figuras 1, 2 e 3 observa-se o comportamento do MR de forma gráfica de todas as
estudada tecnologia francesa EBE. Os valores de módulo de resiliência e de resistência à tra- misturas. Cada um dos três corpos-de-prova de cada mistura foi submetido a três níveis de
204 JACQUES DE MEDINA Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 205

Tabela 1 Resumo das características das misturas estudadas neste trabalho.

Figura 1
Resultados do ensaio de MR
(Misturas M-01 a M-07)

Figura 2
Resultados do ensaio de MR
(Misturas M-08 a M-14)

cargas, e os valores de MR admitidos de cada corpo- de- prova é sempre a média dos MR
obtidos nesses três ciclos. O valor de MR adotado para a mistura foi a média dos valores
de MR admitidos de cada corpo-de-prova, após análise de dispersão. Este procedimento
estatístico é o adotado pelo laboratório de pavimentação da COPPE para determinação do
MR, para um nível de confiança de 95%. Nas figuras aparece o módulo de resiliência de cada
mistura e o desvio padrão.
Os resultados deste estudo mostram que as misturas se tornam mais rígidas à medida que
a temperatura de produção do concreto asfáltico é mais elevada. Isto demonstra que o ligante
asfáltico, quando submetido a temperaturas elevadas, sofre maior envelhecimento. Assim, a
mistura tende a ter um comportamento elástico menos acentuado, o que aumenta o seu MR.
Observa-se que a diminuição de 20ºC na temperatura de aquecimento dos agregados usada
na preparação das misturas M-08 e M-09, resultou em diminuição dos valores de MR para a
condição de ligante puro, cerca de 10% menor. Para o ligante modificado com CCBit, nesta mes-
ma condição de diminuição da temperatura do agregado, representada pelas misturas M-10 e
Figura 3
M-11, e também M-12 e M-13, observa-se situação inversa: os valores de MR aumentaram com Resultados do ensaio de MR
a diminuição da temperatura dos agregados, em cerca de 8% em cada caso. (Misturas M-15 a M-21)
206 JACQUES DE MEDINA Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 207

A adição de 3% de CCBit gerou valores de MR ligeiramente inferiores aos obtidos quando com Nas Figuras 4, 5 e 6 apresentam-se as médias e os desvios padrão dos
2% deste aditivo, conforme observado nos pares de misturas M-10 e M-12 (cerca de 6%), M-11 resultados de ensaios de resistência à tração por compressão diametral.
e M-13 (cerca de 6%), mantidas as outras condições de moldagem. A média leva em conta os valores encontrados para os corpos-de-prova
Conforme observado nas misturas (M-01 e M-08) e (M-06 e M-10), que foram preparados nas que antes destes ensaios tinham sido submetidos ao ensaio de MR e em
mesmas condições, mas com curvas granulométricas diferentes (a M-01 e a M-06 com curva amostras virgens. Como o ensaio de MR não é destrutivo e o nível de ten-
IVC e M-08 e M-10 com curva Bailey), observa-se: sões ao corpo de prova aplicado é muito baixo não se tem perda ou ganho
de resistência devido a esta condicionante. Portanto, no caso da RT, a
• Um pequeno aumento (7%) de rigidez da mistura M-06 para a mistura M-10, média refere-se a seis corpos-de-prova.
ambas com CCBit; De forma geral as RT são bem elevadas em todas as misturas deste
• Para o caso da mistura com ligante convencional (M-01 e M-08), o comportamento foi experimento, com o asfalto puro ou com aditivos, podendo em parte ser
inverso – a mudança da granulometria para a metodologia Bailey representou diminuição explicado pelo uso do ligante 30/45 e pelas duas horas de envelhecimento
(16,5%) dos valores de MR. a que foram submetidas as misturas antes da compactação.
• A redução da temperatura de compactação das misturas com CCBit (de M-03 a 155ºC
para as condições de temperaturas menores em M-04, M-05, M-06 e M-07 a 110ºC)
mostrou que quanto menor a temperatura de compactação, menor foi a rigidez das
misturas de forma geral, mas a taxa de queda vai diminuindo rapidamente, destaca-se
que o volume de vazios destas misturas também diminui com o decréscimo
da temperatura.
• De M-03 (155ºC) para M -04 (140ºC) a diminuição foi de 19%
• De M -04 (140ºC) para M-05 (130ºC) a diminuição foi de 9,3%
• As misturas M-05 (130ºC), M-06 (120ºC) e M-07 (110ºC) apresentam valores
praticamente iguais.

Para a condição com ligante convencional M-01(155ºC) para M-02 (120ºC) observa-se queda
muito significativa (55%), mostrando que para o ligante sem aditivo a redução de temperatura
de compactação pode mudar significativamente a condição de rigidez. Destaca-se também
que as amostras compactadas a 120ºC apresentaram volume de vazios mais elevados que as
amostras compactadas a 155ºC.
Para as misturas preparadas com o aditivo AD-Warm nota-se também que os valores de MR Figura 4
Resultados do ensaio de RT
são mais elevados para as misturas com o aditivo que tiveram a sua mistura realizada a 155ºC
(Misturas M-01 a M-07)
se comparadas a mistura M-14 que foi misturada a 135ºC e compactada a 120ºC, como espe-
rado pelo envelhecimento relativo. Dentre as misturas preparadas a 155ºC e compactadas a
temperaturas mais baixas tem-se:

• De M-15 (155ºC) para M -16 (140ºC) a diminuição de 6,9%


• De M-16 (140ºC) para M -17 (130ºC) a diminuição de 9,8%
• De M-17 (130ºC) para M -18 (120ºC) a diminuição de 9,2%

Para as misturas M-19 (CAP 30/45), M-20 (2% CCBit) e M-21 (0,3% de AD-Warm) que foram pre-
paradas nas mesmas condições, observa-se que os valores de MR apresentaram pouca variação.

4.2 Resistência à Tração

Os ensaios de resistência à tração (RT) consiste na aplicação de um esforço no corpo-de-prova


que é dado por duas forças de compressão concentradas e diametralmente opostas em um
Figura 5
cilindro, que geram, ao longo do diâmetro solicitado, tensões de tração uniformes perpendicu- Resultados do ensaio de RT
lares a esse diâmetro (MEDINA e MOTTA, 2005). (Misturas M-08 a M-14)
208 JACQUES DE MEDINA Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 209

tendência foi observada para as misturas com ligante puro, em que a mistura
compactada a 155ºC (M-01) apresentou valores mais elevados (15%) de RT.
Para as misturas que fazem uso do aditivo AD-Warm, nota-se também
que os valores destes ensaios são mais elevados para as misturas que
fazem uso de temperaturas mais elevadas.
Observa-se também que o valor de resistência a tração da mistura com
CAP 30/45 na condição de temperaturas de mistura e compactação de
135ºC atingiu valor mais baixo que as misturas com aditivos produzidas
nestas mesmas condições.

4.3 Flow Number


Figura 6
Resultados do ensaio de RT Nas Figuras 7, 8 e 9 estão apresentados os valores médios e desvio pa-
(Misturas M-15 a M-21) drão, de três corpos-de-prova por mistura, de Flow Number (FN) encontra-
dos para todas as misturas deste estudo. Está indicado também o valor
Nota-se que valores mais elevados de RT são encontrados para as amos- de FN mínimo proposto por NASCIMENTO (2008) para vias de tráfego mé-
tras mais rígidas (associadas aos maiores valores de MR) sendo também dio, para que as misturas apresentem desempenho satisfatório em campo
as que foram produzidas a temperatura mais elevada, conforme observado quanto à deformação permanente.
nos corpos-de-prova das misturas M-08, M5, M6, M13, M1 e M10. Observa-se nas misturas preparadas com a curva granulométrica IV-C
A diferença entre a RT da mistura de referência M-01 para a M-02 (re- (Figura 7) que quanto menor a temperatura de compactação menor são
ferência compactada a temperatura baixa) foi de 16%, mostrando que há os valores de FN. Segundo a recomendação de NASCIMENTO (2008), mis-
influência na condição mecânica. Comparando-se a M-01 com a M-03, esta turas compactadas a 110ºC e 120ºC não poderiam ser usadas, tendo ris-
com 2% de CCbit, observa-se aumento da RT de 7,5%, diferença pequena. co de terem problemas precoces de deformação permanente em campo.
Esta diferença se inverte à medida que a temperatura de compactação das
misturas com o aditivo vai diminuindo de forma geral, em relação à M-01.
A diferença de temperatura de 20ºC para os agregados das misturas
M-08 e M-09, M-10 e M-11, M-12 e M-13, resultou em diminuição dos
valores de RT.
A adição de 3% de CCBit (M-03 e M-09) quando comparada às misturas
com 2% (M-02 e M-08) de CCBit apresentou duas situações: para as mis-
turas produzidas com agregados a 175ºC notou-se ganho de resistência;
para os agregados produzidos a 155ºC observa-se situação inversa: que-
da de resistência a tração.
Para a análise dentre as duas curvas granulométricas (IV-C e Bailey)
tem-se: para a mistura preparada com o ligante modificado com CCBit
valores mais elevados de resistência a tração, para as misturas prepara- Figura 7
das com ligante puro, observa-se valores mais elevados para a mistura Resultados do ensaio de FN
enquadrada dentro da faixa IV-C. As RT são afetadas pela granulometria (Misturas M-01 a M-07)

visto que, no caso das misturas preparadas com a granulometria Bailey,


de forma geral, há diferenças em relação as de granulometria IVC , de
forma geral para menos, embora entre as misturas de referência (M-01 e Para as misturas M-08 a M-14, preparadas com a curva Bailey (Figura 8)
M-08) tenha havido um aumento de 20%. observa-se que os valores de FN permanecem praticamente inalterados
A redução da temperatura de compactação das misturas com CCBit (M- para as misturas produzidas com o ligante CAP 30/45 e misturas com
03 para as condições M-04, M-05, M-06 e M-07) acarreta em diminuição incorporação de CCBit, nos dois percentuais. Em campo, portanto, estas
dos valores de RT. Os valores diminuem à medida que a temperatura de misturas tendem a apresentar comportamento adequado quanto ao afun-
compactação diminui com exceção da mistura M-06 que apresenta valo- damento, compatível com a proposta do método Bailey de escolha do ar-
res de RT mais elevados que as misturas M-07, M-05 e M-04. Esta mesma ranjo do esqueleto mineral.
210 JACQUES DE MEDINA Estudo do comportamento mecânico de misturas asfálticas mornas 211

5 CONCLUSÕES
As misturas preparadas com o ligante modificado com AD-Warm não
apresentaram valores de FN da mesma ordem de grandeza que as demais O principal objetivo deste estudo foi verificar o efeito de dois aditivos (CCBit113AD e AD-WARM)
preparadas com a mesma curva granulométrica. As misturas compacta- nas propriedades mecânicas de misturas de concreto asfáltico do tipo Warm Mix Asphalt. Para
das abaixo dos 140ºC apresentaram valores de FN abaixo do recomen- tanto, foram produzidas vinte e uma misturas. As misturas foram submetidas a ensaios de re-
dado e, portanto em campo, este tipo de mistura poderia ter problemas sistência à tração, módulo de resiliência e resistência a deformações permanentes, através do
prematuros de afundamento. ensaio de flow number. Todo este programa experimental permitiu chegar a várias conclusões
que estão apresentadas a seguir.

• Os aditivos de misturas mornas (químico e orgânico), estudados nesta pesquisa, são muito
promissores para uso na técnica de mistura morna. O aditivo químico, na proporção de 2%,
permitiu diminuir a temperatura de compactação em 35ºC, o aditivo orgânico, que foi usado
na proporção de 0,3% permitiu reduzir a temperatura de compactação em 15ºC.
• As misturas se tornam mais rígidas com a elevação da temperatura de usinagem do concreto
asfáltico. Nota-se, que os valores de MR não mudam muito para temperaturas de usinagem
abaixo dos 140ºC, devido ao menor envelhecimento do ligante.
• Nota-se que valores mais elevados de RT são encontrados para as amostras mais rígidas, ou
seja, as que foram produzidas a uma temperatura mais elevada.
• Para as misturas preparadas com a curva granulométrica IV-C, observa-se que quanto menor
a temperatura de compactação menor são os valores de Flow Number. Quando se analisam
as misturas preparadas com a curva Bailey observa-se que os valores de FN permanecem
Figura 8 praticamente inalterados. Portanto, o método de seleção granulométrica Bailey se mostra
Resultados do ensaio de FN uma técnica eficaz do ponto de vista deste parâmetro.
(Misturas M-08 a M-14)

Figura 9
Resultados do ensaio de FN
(Misturas M-15 a M-21)

• Referências bibliográficas na página 405.


212 Microestrutura e propriedades geotécnicas de um solo residual 213

Microestrutura e propriedades As partículas de tamanho argila (<2 mm) possuem grande área superficial por peso ou vo-
lume unitário (superfície específica), fato que é a causa do predomínio das forças elétricas de
geotécnicas de um solo residual superfície com relação às forças de inércia.
Por outro lado, as propriedades dielétricas (PD’s) de uma substância são uma medida da
Francisco José Casanova1 facilidade com que as suas moléculas são polarizadas e orientadas em um campo elétrico.
Décio Lopes Cardoso2 Como as superfícies dos cristais de argila têm cargas elétricas, potenciais elétricos são
gerados e emanam de cada uma delas. Assim, a magnitude da constante dielétrica da fase
fluida do solo, que pode ser mais bem visualizada como a capacidade de um dielétrico de
enfraquecer um campo elétrico, determina a distância relativa entre as partículas de argila,
influenciando o estado físico-químico do sistema. Portanto, substâncias com diferentes
PD’s (expressas pela constante dielétrica/CD), dão origem a comportamentos estruturais
diferenciados quando ocupam os poros de um solo. Atualmente, devido à questão ambien-
tal, é de bom alvitre que saibamos os mecanismos de interação entre os solos e dielétricos
orgânicos líquidos.
A análise desses mecanismos e o comportamento induzido pelos dielétricos constituem o
RESUMO O trabalho apresenta os resultados de um estudo sobre os efeitos 1 COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil
objetivo do presente trabalho.
de líquidos com diferentes propriedades químicas na estrutura e no compor- 2 UNIOESTE/PR, Cascavel, Brasil
tamento de engenharia de um solo argiloso caolinítico do RJ. O solo foi en-
saiado para expansão livre específica, compactação, adensamento, potencial 2 MATERIAIS e MÉTODOS
e pressão de expansão e resistência ao cisalhamento. As substâncias utiliza-
das foram: água, álcool isopropílico (2-propanol), tolueno e ciclohexano, co- 2.1 O SOLO
brindo uma faixa de constantes dielétricas de 2 a 80. Os resultados mostram
que, para o solo em questão, a resistência mobilizada nos contatos interpar- Utilizou-se um solo com caráter argiloso da cidade do Rio de Janeiro, cuja caracterização física
tículas, a qual governa o comportamento tensão-deformação, é função tanto está mostrada no quadro 2.1, enquanto as suas características químicas são mostradas no
das forças FQ atuantes no solo, quanto da sua tecedura estrutural. quadro 2.2. No Quadro 2.3, encontram-se as propriedades dos vários dielétricos utilizados.

1 INTRODUÇÃO 2.2 METODOLOGIA

A estabilidade da tecedura de solos coesivos é sensível às variações no 2.2.1 Expansão Livre Específica (ELE)
ambiente químico, ao passo que naqueles de cunho granular ela é influen- A determinação da expansão livre unitária foi obtida através do volume de sedimentos nos
ciada pela presença ou ausência de cimentos nos contatos interpartículas. solventes. Uma amostra do solo seco e passando na peneira 10 (<2 mm), de aproximadamente
Um agregado consiste de um agrupamento íntimo de partículas primárias 10g foi transferida livremente por meio de um funil para uma recipiente de volume aferido com
retidas numa unidade secundária, e seu mecanismo de formação constitui mercúrio (V=6,57cm3). O excesso de solo foi então rasado com uma espátula e o conjunto pe-
um dos fatores mais importantes relacionados à estrutura do solo. sado com precisão de leitura de 0,001g, após o que, foi transferido para uma proveta calibrada
Essa estrutura pode ser alterada por manipulação, como no caso da e com tampa. Cinquenta ml (50ml) do solvente foram então adicionados e a suspensão subme-
compactação ou se dar de modo espontâneo como quando ocorre disper- tida ao ultrassom por 10 minutos, em posição vertical. Após 4 horas em repouso, o seu volume
são ou liquefação do solo; por exemplo. aparente é lido e 24 horas depois, após agitação, outra leitura é feita. Este procedimento é repe-
A fração mais fina do solo, de comportamento coloidal, onde se concen- tido até a constância das leituras de volume ser atingida. Dessa forma, a EL é calculada como:
tram os argilominerais juntamente com os óxi-hidróxidos de Fe e Al são no
caso de solos inorgânicos, a responsável pela cimentação das partículas EL=[(V-VO).(VO)-1]*100; onde: EL > expansão livre percentual; [V] > o volume aparente da sus-
primárias no interior dos agregados. A formação de agregados estáveis, pensão e [VO] > volume da proveta.
não ocorreria em siltes e areias na ausência de argilominerais,óxidos de
Fe e Al e colóides orgãnicos. A expansão livre por peso unitário (ELU) foi estabelecida pelo aumento do volume da suspen-
Sob a maioria das condições normais, nos solos aqui considerados, a PALAVRAS-CHAVE são com relação ao volume inicial do solo seco no estado fofo; o que corresponde ao seu peso
fração fina coloidal encontra-se no estado totalmente floculado devido às microestrutura, físico-química, unitário. Assim, a expansão livre unitária foi calculada pelo aumento do volume aparente da
forças eletrostáticas de atração oriundas das cargas elétricas superficiais. DCE, comportamento mecânico suspensão com relação àquele do solo seco e solto.
214 JACQUES DE MEDINA Microestrutura e propriedades geotécnicas de um solo residual 215

Quadro 2.1 Caracterização física do solo 2.2.4 Potencial e pressão de expansão


A determinação do potencial e da pressão de expansão do solo com os diferentes dielétricos
obedeceu à metodologia da ASTM (CHEN, 1988). O potencial de expansão (PSE) é dado pela
variação volumétrica percentual que o solo sofre no ensaio de adensamento, quando uma pe-
quena sobrecarga é aplicada, a pressão de ajuste (σse = 6.25 kPa). A pressão de expansão foi
quantificada pelo intercepto da curva e x log σv com a horizontal que passa pela ordenada cor-
respondente ao volume inicial da amostra, ou seja, na leitura zero do defletômetro.

2.2.5 Resistência ao cisalhamento


Ensaios triaxiais de resistência ao cisalhamento tipo UU, não consolidado e não drenado, foram
Quadro 2.2 Caracterização química e mineralógica Quadro 2.3 Características dos dielétricos
executados sobre amostras compactadas no mini-CBR, no PEAS máximo e teor ótimo de umi-
dade usando como dielétricos, água, álcool isopropílico, tolueno e ciclo hexano. As dimensões
das amostras são D=3.6 cm e H=8.0 cm; o grau de compactação foi superior a 99% e a tensão
confinante aplicada em cada caso foi igual a σ=100 kPa. A taxa de aplicação das deformações
foi de 1.141 mm/min.

3. RESULTADOS e DISCUSSÃO

3.1 A EXPANSÃO LIVRE ESPECÍFICA

O Quadro 3.1 apresenta os resultados do ensaio da ELE para os vários dielétricos.


As propriedades dielétricas das substâncias foram plotadas contra os valores da ELU, e osre-
sultados são mostrados na figura 3.1.
ELU = [(V-VO)/G]*100; onde: G > peso do solo seco no estado fofo. É clara a relação entre a ELU do solo e as propriedades dielétricas, no sentido de maior ex-
Ou ainda: ELU=(EL/g) e g=(G/VO). pansão livre associada a substâncias de CD (constante dielétricae) mais elevada. Os valores no
Quadro 3.1 mostram alguns aspectos muito significativos.
Este procedimento foi introduzido pelo autor sênior (Casanova, 1992) para que os resultados Lembrando-se da equação que relaciona a espessura da dupla camada elétrica (DCE) com a
com diferentes materiais pudessem ser comparados, sem as distorções relativas aos pesos CD do meio, vem que:
das amostras.
[(1/k) α (ε)1/2] (Eq. 3.1)
2.2.2 Compactação
Os ensaios de compactação foram executados segundo a norma Proctor normal da AASTHO. Substituindo os valores extremos da expansão livre com a água e com o ciclo hexano, tem-se:

2.2.3 Consolidação ELU (ciclo hexano) / ELU (água)= 109/703= 0.155*


os ensaios convencionais de adensamento unidimensional foram conduzidos sobre o material Assim, pode-se escrever que:
< 2 mm, seco ao ar, compactado a um volume do líquido, correspondente ao teor ótimo de umi- ε (CHX)1/2 /ε (água)1/2 = (2.0/80.0) = 0.158*
dade e peso específico aparente seco máximo. O solo foi compactado diretamente num anel
edométrico ao qual foi adaptado um colar destacável em uma das extremidades. O equipamen- A concordância mostrada indica claramente que em suspensões de solo, a relação matemá-
to utilizado na compactação foi o mini-CBR e a energia usada foi a do P-Normal. tica entre a espessura da DCE e a CD do meio é perfeitamente válida e aplicável, mesmo em
A colocação das várias amostras próximo ao teor ótimo de umidade para cada dielétrico um experimento simples como é o de sedimentação, o que efetivamente indica que é a inte-
foi adotada para que se pudessem comparar os efeitos da estrutura sobre o comportamento ração entre as DCE’s quem governa o processo de floculação/dispersão em solos de caráter
do solo. Se as amostras fossem compactadas para a mesma densidade máxima, a energia argiloso.O mecanismo é o seguinte: a interação entre partículas de argila isoladas ou grupos
de compactação precisaria ser alterada e as estruturas resultantes provavelmente não seriam de partículas (domínios) com o meio circundante é o resultado líquido do balanço das forças
muito diferentes de uma substância para outra, o que impediria que os efeitos das propriedades de atração e repulsão [VR-VA]. Em líquidos com valores de CD muito baixos, como o tolueno e o
dos dielétricos sobre essas estruturas pudessem ser avaliados. CHX, a DCE é fortemente reprimida, o que imobiliza os íons presentes no espaço da DC forçan-
do-os em direção à camada de Stern, muito próximo à superfície do cristal, o que ocasiona a
216 JACQUES DE MEDINA Microestrutura e propriedades geotécnicas de um solo residual 217

diminuição do potencial elétrico (ψS). Como consequência, a barreira de Quadro 3.1 Ensaio de expansão livre Isso favorece as associações das faces (-) com as arestas (+) entre as partículas argilosas,
energia potencial repulsiva também é reduzida fazendo com que as par- originando o estado floculado que confere às partículas, ou grupo delas, uma configuração
tículas possam se aproximar umas das outras até que as forças de atra- aberta com alto índice de vazios e que sedimenta com grande volume aparente.
ção de Van der Waals e de London predominem, levando-as a formarem Na água e no álcool isopropílico e a baixos valores de pH, a concentração de prótons é apreciá-
espessos pacotes de partículas arranjadas aleatóriamente entre si e que vel, o que explica formação de pacotes floculentos em arranjo aresta-face. Como esses compos-
acabam por sedimentar sob a ação da gravidade originando sedimentos tos têm elevados valores de MP, o íon Na+ está fortemente solvatado existindo como [Na(H2O)]6, o
mais ou menos compactoscom grande volume aparente. que enfraquece as ligações na estrutura floculada, permitindo então a entrada de mais líquido nos
As forças de repulsão são insignificantes, pois o potencial repulsivo de seus vazios, o que resulta em um retículo aberto e frouxo após a sedimentação.
solvatação (VR) dado pela equação de Born mostra que se a CD for peque- Mecanismo semelhante se aplica ao AIP para explicar o resultado obtido com a sedimenta-
Figura 3.1 Constante Dieletrica
na, VR também o será. ção. Como o valor de ΔpH é próximo de zero, o solo se encontra perto do seu PCZ, podendo se
comportar tanto como doador como aceptor de íons H+ e OH-. Se o pH do sistema for menor
VR = [(ze).(ε - 1)/2πr] (Eq.3.2) que o PCZ, o solo tem carga líquida positiva, caso contrário o pH promove a carga negativa.
Mediu-se então o pH do álcool isopropílico e do sistema (solo + AIP), cujos valores são 7.50 e
A solvatação de um íon pode ser tratada como a interação entre o íon e 3.71, respectivamente. Como o pH do sistema é menor do que o PCZ do solo (5.04), as arestas
o momento de dipolo das moléculas do solvente. Desse modo, tem-se que dos cristais de caulinita estão protonadas pela adsorção de íons H+ oriundos das hidroxilas do
para baixos valores do MD, como nos casos do tolueno e do ciclo hexano, álcool, como segue:
a interação química dos íons localizados na DCE é fraca e não contribui
para o potencial de repulsão. Da mesma forma, considerando agora o po- AlOH(OH) + OH-CH(CH3)2 > [Al(OH2)+(OH)] + [O-CH(CH3)2]-1
tencial eletrostático de atração, mostra-se que VA é máximo para valores
muito pequenos da CD (e), de acordo com a seguinte equação: Ou seja; de forma análoga ao que aconteceu com a água, a floculação também é do tipo ares-
ta-face. Como o pH da suspensão (solo + AIP) é menor que o do solo em água, há mais prótons
VA = [(2πσ2)(1/2d)]/ε disponíveis para reduzir o potencial da DCE e assim originar a floculação. Forma-se um maior
número de ligações aresta-face no caso do AIP e, consequentemente, uma quantidade maior
Em resumo, a floculação ocorre, pois os efeitos conjugados da CD e do deflocos volumosos é formada o que leva a um maior volume aparente com relação à água.
MP não são fortes o suficiente para irem contra as forças de atração. Foi
com os dielétricos de CD’s elevadas, a água e o AIP que se observaram
os maiores volumes para os sedimentos. O solo é ácido e tem, portanto, 3.2 COMPACTAÇÃO
forte tendência à floculação. Porém, a concentração relativa do íon Na+
também é alta e, assim em um meio onde a solvatação iônica é mais efe- A Figura 3.2 mostra as curvas de compactação com os diferentes dielétricos, na energia do
tiva (como na água), a floculação é atenuada. Por outro lado, uma elevada Proctor normal. As curvas indicam que o teor ótimo de umidade para os sistemas, não sofreu
CD faz com que haja uma distância maior entre as partículas nesse meio. variação significativa, mas houve decréscimo no PEAS máximo quando a CD do líquido de
Ao se analisar o sinal da carga superficial líquida (CSL) deste solo, vê- saturação foi reduzida.
-se que o valor de ΔpH é negativo e igual a [-0.5], o que indica que essa A compactação envolve a aplicação de um esforço direcionante que age no sentido de alinhar
carga é negativa e está bem próxima de zero. O solo encontra-se próxido as partículas e grupos de partículas, na direção perpendicular à carga. Entra em jogo, então, a
do seu PCZ. maior ou menor oposição aos deslocamentos relativos das partículas. Na água e no AIP, com
altos valores de MP, a forte solvatação dos íons dominantes no complexo sortivo/trocável en-
ΔpH = [pH (KCl)-pH (H2O)] = (4.04-4,54) = -0.5 fraquece as ligações e os fracos vínculos nos contatos interpartículas bem como entre grupos
de cristais, os quais são facilmente rompidos pelo esforço compactivo. Porque a água é mais
Tal resultado mostra então que as superfícies das partículas têm CSL polar, ela atua mais eficientemente como lubrificante e as partículas e seus domínios podem
negativa, e em meio ácido suas arestas estão protonadas. Esquematica- deslizar uns sobre os outros com maior facilidade, produzindo um arranjo mais compacto; ou
mente, isso pode ser visto como segue: seja, uma estrutura mais densa.
Já os compostos de baixas CD’s promovem a floculação agindo na camada difusa da DCE,
XOOH + H+ [XOOH2]+1 originando flocos mantidos por ligações mais fortes que resistem à orientação induzida pela
XOOH + OH XOO-1 + H2O compactação. Para uma mesma energia de compactação, o resultado é uma estrutura compac-
AlOH-OH2 + H+ [AlOH2]+[OH2] tada mais rígida, apesar de mais aberta; ou seja, com maior índice de vazios (menor densidade).
218 JACQUES DE MEDINA Microestrutura e propriedades geotécnicas de um solo residual 219

3.3 CONSOLIDAÇÃO Quadro 3.2 Potencial e pressão de expansão 3.4 RESISTÊNCIA ao CISALHAMENTO

A Figura 3.3 apresenta graficamente a relação [tensão aplicada x índice de A Figura 3.4 mostra a relação tensão desvio x deformação dos ensaios
vazios] dos ensaios edométricos convencionais para os dielétricos utiliza- triaxiais UU para as amostras do solo com diferentes dielétricos, con-
dos. Sob um pequeno carregamento de 6.25 kPa, determinou-se também finadas a 100 kPa. A análise dos resultados é a seguinte: a compac-
nestes ensaios, o potencial de expansão do solo (CARDOSO, et al.,1992) tação, que induz grandes deformações cisalhantes no solo, tem como
cujos resultados estão no Quadro 3.2. resultado arranjos mais orientados das partículas e de seus domínios,
Os resultados obtidos mostram que as estruturas compactadas com os as quais durante o cisalhamento aumentam sua resistência progressiva-
dielétricos de CD’s baixas, exibem maiores potenciais e pressões de ex- mente com o decorrer do processo de deformação. Em outras palavras,
pansão, o que está em pleno acordo com MITCHELL (1976), que mostrou predominam as deformações plásticas no sistema. É o que ocorreu com
que solos compactados com arranjos floculados rígidos, demonstram os sistemas compactados em água, principalmente, e no álcool isopro-
serbem mais expansivos. pílico em menor magnitude.
A expansão verificada para o solo compactado tanto com o tolueno quanto Em amostras compactadas nos dielétricos com baixas CD’s, a maior
como ciclo hexano é a manifestação da repulsão da dupla camada elétrica do oposição à reorientação das partículas e seus domínios, originou tece-
solo, que em ambos os casos se encontra fortemente comprimida. O desen- duras inicialmente mais floculentas; portanto, mais rígidas conforme já
volvimento incompleto da dupla camada pode ser visto como uma deficiên- aludido. Este tipo de estrutura apresenta alta resistência a baixas defor-
cia de água. Quando esta se torna disponível, devido a sua grande afinidade mações e mostra somente pequenos incrementos de resistência com o
química pelas superfícies dos colóides do solo, rapidamente ocupa a região aumento da deformação. É o que se observa com as amostras compacta-
da DCE deslocando o composto orgânico (que tem pouca afinidade química das em tolueno e ciclo hexano, que exibem um comportamento de ruptura
pelas superfícies das partículas de argila) o que provoca imediatamente o frágil, típica de uma tecedura mais rígida. Predominam as deformações
começo da expansão devido à restauração da Dupla Camada Elétrica. elásticas. O arranjo das partículas de argila num sistema floculado apre-
Com a água e o AIP, o solo compactado não mostrou expansão, pois a senta maior interferência geométrica entre as partículas e seus domínios,
camada difusa já está plenamente formada, e o aporte de mais líquido implicando numa maior tendência do solo de dilatar, o que reduz as po-
somente se dá nos vazios do solo. ropressões no cisalhamento não drenado. Em consequência, as tensões
Os índices de vazios mais baixos obtidos com a compactação do solo efetivas no solo aumentam; tal como aqui observado.
usando água e AIP levaram à formação de estruturas mais estáveis às
tensões de consolidação; daí os menores índices de compressibilidade
durante todo o processo. Por outro lado, nos dielétricos de baixas CD’s,
as amostras com tecedura mais rígida mostraram maior proporção de de-
formações elásticas recuperáveis, significando uma maior habilidade da
tecedura aberta de ser mantida após a compactação. Desse modo, a dis-
Figura 3.2 Figura 3.3 Figura 3.4
tância média entre partículas adjacentes é maior;o que pode ser verificado
nos resultados mostrados na figura na Figura 3.3, onde para qualquer nível
de carga aplicada, o índice de vazios é máximo para o ciclo hexano.
Os altos índices de compressibilidade verificados para as amostras,
contendo em seus poros líquidos de baixas CD’s, sugerem que a expansão
inicial experimentada por esses sistemas na consolidação unidimensio-
nal, não só aumentou o espaçamento entre as partículas e/ou os domí-
nios de partículas, como pode também ter promovido um rearranjo estru-
tural; uma reorientação destas. Neste caso, a carga consolidante precisa
realizar trabalho extra para, primeiro, orientar paralelamente as partículas
e depois aproximá-las. Por isso, a tecedura é mais resistente, ao passo
que na água e no AIP a carga consolidante só necessita aproximar as
partículas que jáestão orientadas pela compactação.
220 JACQUES DE MEDINA 221

3.5 CONCLUSÕES
Rankine: o homem que quantificou o amor
As propriedades dielétricas bem como o momento de dipolo dos dielé-
tricos utilizados influenciaram drasticamente as propriedades e o com- Francisco José Casanova
portamento mecânico do solo ensaiado. Tal comportamento deve-se ao
fato de que tanto a constante dielétrica como o momento de dipolo dos
dielétricos utilizados determinarem a força das ligações quando predomi-
nam as interações eletrostáticas de superfície no sistema. Os resultados
obtidos indicam que as forças físico-químicas envolvidas mobilizaram a
resistência ao cisalhamento nos contatos entre as partículas e grupos de
partículas, sobrepujando os fatores puramente físicos relativos às forças
de inércia: a fricção, o embricamento e o encurvamento elástico.
A presença do cátion Na+ em quantidade apreciável também contribuiu
para o impacto dos diferentes dielétricos sobre o comportamento mecâ-
nico do solo; fato que assume importância pois, em geral, as análises de
rotina em mecânica dos solos, usualmente não procuram por esse tipo de COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO William John Macquorn Rankine (1820-1872), engenheiro, físi-
interferência. co, polimatemático, professor e pesquisador. Destacado pioneiro da Ter-
Ficou clara também a importância das condições químicas (cátions modinâmica e da Mecânica dos Solos. Botânico, cantor, pianista e violon-
presentes no complexo sortivo, pH, PCZ) inicialmente presentes em so- celista amador. O homem que quantificou o amor.
los argilosos, pois o estado químico está intimamente ligado ao desem-
penho mecânico.
1 INTRODUÇÃO

Engenheiro mecânico e físico. Nascido em Edimburgo, Escócia (1820),


Rankine tornou-se professor de Engenharia Mecânica e Civil da Universi-
dade de Glasgow, em 1855. Logo, foi considerado um pioneiro no campo
da Termodinâmica, publicando relevantes e importantes trabalhos nessa
área. Seu trabalho mais destacado é “Manual de máquinas a vapor”, pu-
blicado em 1859, no qual desenvolveu a teoria termodinâmica completa
sobre o funcionamento de máquinas a vapor – Teoria da Mudança de
Fase de Vapor em Máquinas Térmicas – onde introduziu um importante
ciclo termodinâmico, chamado de Ciclo de Rankine, até hoje utilizado.
Ele também estudou a ação de forças em sistemas estruturais comple-
xos, física molecular e a fadiga em metais, particularmente com relação a
eixos ferroviários, o que levou a novos métodos de construção nessa área.
Realizou um trabalho pioneiro na Mecânica dos Solos, abordando as pres-
sões de terra e a estabilidade de muros de contenção. Também estudou e
desenhou esquemas para melhorar rios e portos.
Rankine foi eleito Fellow da Royal Society em 1853, morrendo em Glas-
gow. Seu nome é lembrado pelo princípio conhecido como o Ciclo Ranki-
ne, que ele desenvolveu e é usado ainda hoje como um padrão termodinâ-
PALAVRAS-CHAVE Rankine, amor, mico para classificar o desempenho de máquinas a vapor. Foi o cunhador
matemática, casamento, equações do termo “energia potencial”, em 1853.

• Referências bibliográficas na página 405.


222 JACQUES DE MEDINA Rankine: o homem que quantificou o amor 223

Incrível e lamentavelmente, o professor William Rankine nunca encon-


trou tempo para testar essa teoria em prática. Ele morreu solteiro, na vés-
pera de Natal de 1872, com a idade de 52 anos, por excesso de trabalho,
segundo é dito em sua biografia.

2 The mathematician in love *

O professor Rankine, nas seguintes estrofes, espirituosamente propõe


sua teoria do amor e do casamento.

Estrofe I
1 A mathematician fell madly in love
2 With a lady, young, handsome, and charming:
3 By angles and ratios harmonic he strove
4 Her curves and proportions all faultless to prove
5 As he scrawled hieroglyphics alarming.

Personifica o exemplo mais proeminente do efeito hiato do gênio que, em Estrofe II


1830 aos 10 anos, foi forçado a deixar a escola devido a uma grave doença 6 He measured with care, from the ends of a base,
que o fez ficar os seis anos posteriores sendo ensinado por seu pai David 7 The arcs which her features subtended:
Rankine, um respeitado engenheiro ferroviário da Edinburgh & Dalkeith Rai- 8 Then he framed transcendental equations, to trace
lway. Quatro anos após sair da escola, quando ele completou 14 anos de 9 The flowing outlines of her figure and face,
idade, seu pai presenteou-o com uma cópia dos Principia, de Isaac Newton, 10 And thought the result very splendid.
em latim, que ele estudou avidamente, o que despertou o seu interesse em
matemática superior, dinâmica e física. O mesmo fenômeno “forçado” do Estrofe III
hiato do gênio é comum aos teóricos do amor: Goethe (1809): dois anos 11 He studied (since music has charms for the fair)
de hiato; e Thims (1995): dez anos de hiato. Outros exemplos a esse respei- 12 The theory of fiddles and whistles,
to são: Alharzan (famoso matemático árabe); Isaac Newton; Heisemberg; 13 Then composed, by acoustic equations, an air,
Warntz; Bazargan e Henderson (químico da fisiologia). 14 Which, when ‘twas performed, made the lady’s long hair
Não obstante, o trabalho de maior sucesso de Rankine, mas pouco co- 15 Stand on end, like a porcupine’s bristles.
nhecido, é sem dúvida, o poema “The mathematician in love”, escrito em
1845, mas publicado postumamente, em 1874 (ver referências). Estrofe IV
Ainda hoje, esse poema ou canção (como muitos o veem), é comentado e 16 The lady loved dancing: he therefore applied,
analisado. Contém oito estrofes com cinco linhas cada, sendo usualmente 17 To the polka and waltz, an equation;
referido como o “poema de amor” de Rankine. Nele, encontra-se uma das 18 But when to rotate on his axis he tried,
mais antigas equações matemáticas do amor, ou “a fórmula matemática 19 His center of gravity swayed to one side,
maravilhosa” como o físico e historiador americano, Morris Zucker, a des- 20 And he fell, by the earth’s gravitation.
creveu (1d). Incrivelmente, Rankine discute com uma visão poética bem hu-
* Original text: William J. Macquorn Rankine,
morada, a hipótese de que o amor é um tipo de potencial termodinâmico Songs and Fables (Glasgow: James Estrofe V
[nota 1], que requer, em sua análise, um discernimento muito refinado. Maclehose, 1874): 3-6, 11652.e.19 British 21 No doubts of the fate of his suit made him pause,
“O matemático apaixonado” já foi comentado e citado por inúmeras per- Library; PR 5209 R3S6 Robarts Library. 22 For he proved, to his own satisfaction,
sonalidades da ciência, como Arthur Eddington, em sua palestra sobre a 23 That the fair one returned his affection; because,
First publication date: 1874 RPO poem
Filosofia da Ciência, em 1938, onde diz que o poema é um exemplo de editor: Ian Lancashire RP edition: RPO 2001. 24 As everyone knows, by mechanical laws,
como é “supostamente fácil introduzir a notação matemática, mas difícil Recent editing: 2:2002/1/16 25 Re-action is equal to action”
de transformá-la em algo aplicável”; Zucker (1945), Haynes (1994), Lan-
cashire (2003) e Copan (2005), entre outros.
224 JACQUES DE MEDINA 225

Estrofe VI O solo como fator de desenvolvimento político,


26 Let x denote beauty, y, manners well-bred,
27 Let z, Fortune, -- (this last is essential), social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo
28 Let L stands for love”, our philosopher said,
29 Then L is a function of x, y, and z,
Por que devemos conhecer, estudar e respeitar o solo
30 Of the kind which is known as potential

Estrofe VII Francisco José Casanova


31 Now integrate L with respect to dt,
32 (t Standing for time and persuasion);
33 Then, between proper limits, ‘tis easy to see,
34 The definite integral Marriage must be:
35 (A very concise demonstration)

Estrofe VIII
36 Said he: “If the wandering course of the moon” COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO Neste ano de 2015 quando foi instituído (pela ONU/FAO) e co-
37 By Algebra can be predicted, memorado (05/12) em todo o mundo o Ano Internacional do Solo, o autor
38 The female affections must yield to it soon aborda diversos aspectos com relação à importância do solo tanto para a
39 But the lady ran off with a dashing dragoon, humanidade quanto para a Terra.
40 And left him amazed and afflicted.

1 INTRODUÇÃO
3 As equações de Rankine para o amor
Neste 2015, foi instituído pela ONU o Ano Internacional do Solo, comemo-
rado em todo o mundo no dia 5 de dezembro, através de eventos sobre o
tema “A proteção de nossos solos”. O tema foi justamente escolhido devi-
do ao preocupante estado de degeneração de grande parte da pedosfera,
que já atingiu proporção alarmante nos cinco continentes.
Uma característica marcante da Humanidade sempre foi o desprezo total pela
Natureza, fato refletido na atual situação de degradação dos biomas da Terra.
Para a maior parte das pessoas o solo é um ilustre desconhecido, prin-
cipalmente para aquelas encarregadas de planejar e realizar melhoramen-
tos sociais e incrementar políticas, bem como para a maioria daqueles
que o utilizam e até o estudam. O solo não faz parte do patrimônio cultural
do homem moderno, pela simples razão de que o conhecimento a seu res-
peito não é convenientemente ensinado a nossas crianças, ao contrário
A função potencial [do] amor de Rankine do que acontece com as rochas, as plantas, os animais e a água. Não obs-
tante, já existem propostas de livros didáticos para o ensino fundamen-
tal e médio que são bons e reveladores exemplos de que o assunto vem
4 Conclusão sendo bem trabalhado. A este respeito, veja: Boletim informativo da SBCS,
v. 39 (2), Mai/Ago de 2014, de Dalmolin, R.S.D. e Bastos, F.P., O ensino de
Todos os valores, de zero a infinito, são menos que o AMOR! Certo? PALAVRAS-CHAVE solo, ecologia, solos e as novas ferra-mentas no processo de aprendizagem à distância,
(tradução da tatuagem). desenvolvimento, ensino, política, Boletim informativo da SBSC, v. 38 n.3:22, Set/Dez de 2013. Esta é uma
sociologia questão de máxima importância e prioridade, a nosso ver.

• Referências bibliográficas na página 405.


226 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 227

Inicialmente, é preciso reconhecer que a natureza é sábia e tem lições a nos dar. Por que não já refletiu o quanto nós dependemos dele e como ele é essencial para a
aprender? Por exemplo, ela: manutenção e para a sobrevivência da vida na Terra.
• Otimiza ao invés de maximizar;
• Aperfeiçoa ao invés de alterar; “Nós não herdamos a Terra dos nossos ancestrais. Nós a tomamos em-
• Usa somente a energia de que precisa; prestada dos nossos filhos” (Provérbio nativo americano).
• Adapta a forma à função;
• Não destrói nada. Recicla absolutamente tudo; Desde a tenra infância que somos afastados do convívio com o solo.
• Sempre dá preferência à cooperação e à diversidade; Vivemos toda nossa vida em áreas urbanas e quando delas nos afasta-
• Exige especialização; mos, não nos damos conta da natureza ao nosso redor. Eu quero dizer
• Inibe fortemente todo excesso em seu seio. que temos de sentir o solo; devemos colocar nossas mãos nele. Quantas
vezes você pega em seu telefone celular todos os dias? Talvez umas 100
Nosso comportamento na Terra deveria e deve se espelhar no da natureza, que tem no solo vezes? Quantas vezes você toca ou já tocou o solo (no campo!)? Quase
um exemplo supremo: viver e evoluir com máxima eficiência e mínimo gasto de energia. nunca, certo? Você já sentiu o cheiro da terra após uma chuva? Já obser-
O solo, por si só e por sua influência sobre os ambientes e sobre as sociedades, é um dos vou alguma coisa nascer e crescer no solo? Lembra-se de já ter observado
recursos essenciais à vida. Por isso, é preciso conhecê-lo e valorizá-lo em proveito de todos. sua biota (minhocas!) em alguma oportunidade? Quando viaja de automó-
Empreiteiros e engenheiros, em regra, tendem a descartar o solo sem levar em conta os mi- vel, se dá conta de como varia o solo nos taludes passantes com relação
lhares de anos que se passaram para sua formação. Por isso é de vital importância que esses ao relevo, vegetação, agricultura, cor, textura, raízes, profundidade, perfil
Nota 1 Além dessas necessidades, a saúde,
e todos os outros usuários do solo sejam educados com mais detalhes durante sua formação. a educação, a higiene, o lazer, o vestuário, cultural, ocorrência de húmus, de rocha em de-composição, etc.? Pense e
Não seria exagerado dizer que mesmo já na escola primária, e também na secundária, o estudo o transporte e o trabalho, também têm reflita sobre isso.
do solo deva ser introduzido com um razoável nível de detalhamento. Sem dúvida, o melhor a sua devida importância. Não obstante,
como bem enfatizou Barbour (1980), em
conhecimento do solo tanto pelo cidadão comum como pelos empresários, políticos e adminis- Às taxas atuais de degradação do solo, temos no máximo, cerca
situações de penúria, escassez e falta
tradores, resultaria em todas as suas atividades, em um maior respeito por ele. Só assim será de dignidade, o ser humano dá sempre de 60 anos de solo fértil. Aproximadamente metade do solo uti-
possível que se passe a considerá-lo como um patrimônio de todos; um recurso não renovável prioridade à satisfação das necessidades lizado para a agricultura em todo o mundo é classificado como
absolutas: comer e se abrigar. Keynes
quando não é manejado e tratado convenientemente; i.e, em acordo com os princípios éticos, degradado ou seriamente degradado. Isso significa que 70% do
(1972) e Maslow (1970) também
sociais e científicos. assinalaram que essas necessidades
solo superficial, a camada onde os alimentos são cultivados, es-
Sua ubiquidade é enganadora, pois tal qual a conta bancária, é um recurso natural renovável materiais devem ser satisfeitas antes, tão perdidos. O solo do mundo está desaparecendo a uma taxa
se e quando administrado e manejado de acordo com a sua aptidão, ou seja, através de prin- para que o indivíduo seja plenamente de (10 a 40) vezes àquela em que ele pode naturalmente ser for-
capaz de incrementar suas opções por
cípios racionais e naturais, já que não depende do ciclo da matéria em curto prazo, mas do mado; devido aos métodos de cultivo que esgotam o seu carbono
atividades não materiais. Segundo os
potencial de reciclagem em longo prazo, numa escala de tempo de milhares a milhões de anos. citados autores, o ser humano preocupa- orgânico e tornam-lo menos resistente, bem como deficiente em
Ele é uma prova cabal que nossos conceitos econômicos devem ser revistos e que o valor do se antes de tudo com sua sobrevivência e nutrientes. Até mesmo as terras de cultivo bem conservadas na
recurso natural mesmo que superabundante, tem que ser reavaliado e sua efetiva proteção, um segurança. Uma pessoa faminta, subnutrida Europa, estão sendo perdidas a taxas insustentáveis. E o mesmo
e desempregada, apresenta pouco interesse
desejo permanente. A real importância do solo pode ser mais bem avaliada e percebida através acontece em todos os lugares!
por artes, política, esportes, diversões e
de algumas constatações concernentes ao seu papel, descritas mais adiante. até mesmo por sexo. O preenchimento
das necessidades primordiais constitui Muitos movimentos históricos no mundo têm três palavras-chave que ex-
precondição para a completa percepção
Solo: a extática e ubíqua pele da terra! pressam seu espírito. Durante a Revolução Francesa, por exemplo, as pala-
daquelas não materiais.
vras-chave foram liberté, égalité, fraternité e na Declaração de Independência
Vida ou morte; prosperidade ou miséria; fome ou fartura; progresso ou dependência; são as Nota 2 Cerca de 2/3 da superfície terrestre americana você encontra as palavras “vida, liberdade e a busca da felicidade”.
alternativas que dependem de como tratarmos e usarmos o solo. são cobertos por água e do 1/3 restante, Liberdade, igualdade e fraternidade formam uma boa trindade, mas ela
25% é inabitável e praticamente desprovido
é muito humana: a liberdade é humana, a fraternidade é humana e igual-
da pedosfera (os desertos, as regiões
O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico. rochosas e as geladas). No cômputo geral, dade também é humana. Da mesma forma, na Declaração de Indepen-
somente (1/32) (3%) é composta por solos dência, a vida é basicamente a vida humana, a liberdade é a liberdade hu-
A boa alimentação é uma das necessidades básicas do homem; o abrigo é outra. Embora não agriculturáveis produtivos, e considerando mana e a felicidade é a felicidade humana. Estas palavras representam
que a camada eutrófica do solo capaz de
pareça, o desenvolvimento político e social, a riqueza e o bem-estar de um povo estão íntima uma visão de mundo por demais antropocêntricas. Chegamos a pensar
sustentar colheitas tem em média 40 cm
e diretamente relacionados com o grau de satisfação dessas necessidades, que por sua vez, de espessura, fica claro que a vida (a qual que nós, os seres humanos, de alguma forma, estamos no centro do
guardam estreita relação com o solo (nota 1). depende em última análise desse fino universo. É como se nós fossemos a espécie mais importante da Terra e
horizonte que se mantém num precário
Apesar de ser o sustentáculo da vida na Terra (nota 2), já que é a base dos sistemas agríco- que todas as outras estão a nosso serviço. Esta é uma visão do mundo
e delicado equilíbrio) pode ser fácil e
las e o mais destacado biótopo dentre todos os biócoros, a maioria de nós sequer imagina ou seriamente ameaçada.
muito centrada no ser humano.
228 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 229

Creio que essa visão de mundo, hoje, não é mais válida. Especialmente podemos destruir as florestas, podemos sobrepescar nos oceanos e podemos interferir com
quando percebemos que somos totalmente dependentes de muitas ou- sementes através de engenharia genética. Esta atitude tem de mudar.
tras espécies; que nós não somos os governantes do mundo e que não es- É por isso que eu coloquei o solo em primeiro lugar da trindade. Somos todos, parte dessa
tamos aqui para fazer o que gostamos. Temos que respeitar e cuidar das teia de vida saudável mantida pelo solo. O solo faz-nos humildes e ser humano é ser humilde.
outras espécies, porque somos todos feitos uns dos outros, não estamos A palavra húmus que vem do latim e significa a terra/o solo, deu origem a homem, humano e
separados, estamos todos relacionados e somos membros da grande co- humildade, pela noção de “seres da Terra” em oposição aos seres divinos. Quando os seres
munidade viva da Terra. Esta realidade, que foi conhecida e aceita pelos humanos perdem a humildade eles não são mais humanos.
Antigos, foi recentemente apagada de nossa memória coletiva, principal- O fato de essas palavras estarem vinculadas a húmus é certamente uma sábia exortação de
mente pelo capitalismo. que mantemos com a terra um vínculo eterno e embrionário. Reconhecer e aceitar essa verdade
Então, precisamos de uma nova trindade para substituir aquelas centra- é não somente um princípio elementar de ecologia profunda, mas uma apologia ao valor e à
das no homem. Mesmo a trindade adotada pelo movimento da Nova Era, lição da humildade. Se a humildade está relacionada com o solo fértil e produtivo, talvez a os-
‘mente, corpo e espírito’, refere-se à mente humana, ao corpo humano e tentação, a luxúria e o esnobismo representem o oposto disso e, portanto não passem de terra
ao espírito humano. Precisamos de uma nova trindade que seja holística desgastada e empobrecida.
e mais inclusiva, que abranja todo o planeta Terra e não apenas a espécie Com o tempo, o senso original da palavra humildade foi modificado intencionalmente sob a
humana. Precisamos de uma filosofia, uma ciência, uma religião e um sis- influência do capitalismo. Talvez isso contrariasse os interesses dos ricos de matéria ou então
tema jurídico que irão beneficiar todos os seres vivos, não apenas seres dos pobres de espírito. Não é à toa que se convencionou associar humildade à pobreza, sendo
humanos. Necessitamos, com urgência, de uma teologia que contemple quase inconcebível a ideia de um rico humilde ou de um humilde rico. Que desvirtuamento!
os animais, as florestas, os rios, o mar, a atmosfera! Você sabe onde o Buda se iluminou? Sentado sob uma árvore de Bodhi (a árvore de Bodhi foi
Assim, proponho uma nova trindade. E no topo desta trindade está a pa- a árvore debaixo da qual Sidarta Gautama, o Buda histórico, se sentou para meditar, e onde ele
lavra “Solo”, que representa todo o mundo natural. Sem solo não há os ali- alcançou a Iluminação. Bodhi é um termo sânscrito para “desperto” ou “iluminado”. Costuma-se
mentos e sem alimentos não há vida, não há animais, árvores e florestas. dizer que Buda só tem iluminação porque ele estava sentado sob uma árvore. Uma árvore tem va-
Portanto, o solo representa a natureza com toda a vida na Terra. Poucos lor intrínseco. Ou seja, uma árvore é boa, não porque me dá comida, madeira, sombra ou prazer es-
atinam que estamos relacionados com o solo e dele somos dependentes. tético. Não. A árvore é boa em si própria, mesmo que ninguém olhe para ela. Mesmo que ninguém
Nossas crianças e jovens acham que a comida vem do supermercado; nunca diga: olhe, uma daquelas lindas árvores! Mesmo que ninguém nunca a veja, a árvore ainda
que ninguém cultiva alimentos nos dias de hoje. Se alguém vive da agri- florescerá. Esta é a graça divina que permeia a Terra. Árvores, animais, plantas, rochas, monta-
cultura, pensamos: pobre homem é camponês. Ele não é educado, então nhas, rios, vermes, borboletas, abelhas – todas as criaturas sobre a terra tem valor intrínseco. Elas
ele tem que trabalhar na agricultura. Mas se você é educado, você com têm o direito de ser como o são, quem são e o que são. Falamos sobre direitos humanos, e isso é
certeza não trabalha na agricultura. O cultivo de alimentos não tem reco- bom. Mas a Natureza também tem seus direitos. As árvores têm o direito de existir. Não temos o
nhecimento e nem dignidade na sociedade. Você já esteve ou conversou direito de cortá-las, sem finalidade própria. Quando entendermos isso, quando reconhecermos os
com um “boia fria”? direitos das árvores, dos animais e de toda a Natureza, então seremos verdadeiramente ecologis-
Você se senta em frente do seu computador, e sua comida vem de tas e teremos então entendido o significado da palavra “solo”.
algum lugar. Ninguém quer se envolver com o cultivo dos alimentos, por- Nota 3 As dinastias do Nilo só existiram
que tal atividade é um sinal de atraso. Se você é avançado, educado e graças à capacidade de produzir alimentos “O homem possui uma singularidade no conjunto dos seres: cabe-lhe a responsabilidade ética de
rico, então você tem que trabalhar com tecnologia avançada, no merca- a partir dos solos do Vale do Tigre e do cuidar e manter as condições que garantam a sustentabilidade da mãe Terra” (Leonardo Boff).
Eufrates, na Mesopotâmia. Do mesmo
do financeiro, no governo ou então numa importante corporação trans-
modo, na Índia e na China, berços de
nacional, por exemplo. magníficas civilizações, esse papel coube Foi o solo que permitiu a constituição da base alimentar, assim como ajudou a assegurar a
Cultivar alimentos tornou-se um sinal de subdesenvolvimento. A palavra aos rios Indo e Yangtzé & Huang Ho, evolução social e cultural do homem neolítico em comunidades organizadas e ordenadas sub-
camponês há muito se tornou depreciativa. É preciso mudar isso. A socieda- respectivamente, os quais através de sequentemente em civilizações. De fato, a história humana mostra que o padrão de vida de um
regulares inundações recompunham a
de deve dar dignidade aos camponeses, àqueles que cultivam o solo e produ- povo tem sido função direta da qualidade de seus solos, os quais respondem de acordo como
fertilidade dos solos aluviais marginais,
zem alimentos; aos verdadeiros supridores da vida: os agricultores. assegurando abundante e contínuo são tratados, manejados, protegidos e melhora-dos. Grandes civilizações nasceram e prospera-
O solo é importante, ainda que infelizmente tenha sido esquecido. Sim, suprimento alimentar. Em contraste, as -ram apoiadas basicamente em solos férteis (nota 3); mas também é certo que outros com
nós seres humanos também somos importantes, mas a espécie humana errantes sociedades nômades com seus limitados recursos pedológicos vieram a crescer e prosperar, ao passo que alguns com boas
sistemas de pastoreio, instaladas em
é apenas uma das dezenas de milhões de espécies na Terra. Nós não regiões de solos distróficos, só foram
terras fracassaram. A resposta a esta aparente contradição, pode ser encontrada em tradições
somos onipotentes. A Terra não é uma colônia humana, mas nós sempre capazes de progredir quando aprenderam a sociais, costumes e preceitos religiosos, e até em conceitos políticos que foram adotados e
nos comportamos como se pudéssemos fazer tudo o que queremos. fazer uso desses solos, após descobrirem desenvolvidos, bem como no correto manejo agrícola do solo.
como fertilizá-los com estrume de animais e
Nós podemos causar o aquecimento global, podemos mudar o clima, Ainda hoje, em regra, o solo é mal conhecido, é um ilustre desconhecido, mesmo por aque-
resíduos vegetais, em culturas assistidas de
podemos alterar e envenenar o solo, represar rios, drenar pântanos; nós subsistência. les que o utilizam e dele dependem de algum modo, e até pelos que nele vivem. Fracassos
230 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 231

agrícolas, migrações rurais e degradação do meio ambiente, são na maior parte das vezes as Uma sequência impressionante de civilizações que apareceram e cairam ao longo dos milê-
consequências desse desconhecimento e da imprudência e descaso com que o solo é visto e nios formada por suméria, acádia, babilônica e assíria, à medida que o cultivo deslocou-se para
tratado. Poucos se dão conta que a civilização erguida pelo Homo Faber, pode e certamente as regiões central e superior da Mesopotâmia. Atualmente, o assoreamento e a salinização
deve sobreviver à exaustão das reservas carboníferas e petrolíferas, mas com certeza não à ma- continuam a acossar essas regiões que praticam a irrigação extensiva. Para o leste da Mesopo-
ciça e contínua degradação do perfil cultural do solo. É muito tênue a perspectiva de fugirmos à -tâmia, passando pelos desertos do sul do Irã e do Baluquistão, encontra-se o Vale do Rio Indus.
dependência da porção fotossintética do ciclo energético natural, que tem no solo um dos seus Outra civilização baseada na irrigação intensiva apareceu e desenvolveu-se lá, provavelmente
pilares. Recordemos que os mais pressagos efeitos sobre o meio ambiente são originados por sob a influência da civilização mesopotâmica. A civilização do rio Indus, provavelmente, abran-
perturbações ambientais que levam à destruição da informação genética, às transformações geu uma área total muito superior que aquelas da Suméria ou do Egito; porém, pouco se sabe
que impedem a homeostase e ao lesionamento grave, direto ou indireto, da fotossíntese. É no- sobre ela. Não há registros escritos, mas seu destino, como a da suméria foi o mesmo: sucum-
tável que de um modo ou de outro, todas essas causas estejam relacionadas com o solo. biu à degradação ambiental, agravada pelo grande desmatamento que ocorreu para fornecer
combustível para assar os tijolos utilizados na construção (Hillel, 1991). Os tijolos em cidades
“Para ver um mundo em um grão de areia e um céu numa flor silvestre, observe o solo” da Mesopotâmia eram secos ao sol, semelhantes aos de adobe usados em regiões áridas e
(William Blake, Auguries of Innocence, 1863). semiáridas. Em contraste, a civilização egípcia persistiu mais ou menos no lugar, como resul-
tado das cheias anuais do rio Nilo, que renovava a fertilidade do solo em vastas áreas ao longo
Mesmo sendo juntamente com o sol e os oceanos, um dos grandes recursos naturais à dis- da sua extensão que corria em direção ao norte. Ao longo dos milênios, de (1 a 3) milhões de
posição da humanidade, como todo recurso natural o solo tem que ser tratado como uma conta pessoas viveram ao longo do Nilo e produziram grãos de trigo e cevada, suficientes para a ex-
bancária onde deve haver depósitos regulares que compensem as retiradas. Sua ubiquidade portação para muitos países ao redor do arco Mediterrâneo. Agora que a população é cerca de
é en-ganadora, pois tal qual a conta bancária (que precisa ser abastecida), não é um recurso 30 vezes maior, tem que importar vários produtos alimentares porque está eco-nomicamente
natural renovável em curto prazo; mas sim em longo prazo, numa escala de dezenas a centenas em condição ruim, apesar das vastas áreas que estão sendo irrigadas com a água proveniente
de milhares de anos. Apenas quando administrado e manejado adequadamente, de acordo com da barragem de Assuão.
sua aptidão, ou seja, através de princípios naturais e racionais ele pode ser visto como renová- Já aqueles que degradaram e/ou exauriram irreversivelmente os seus solos por não os
vel, já que é dependente de uma reciclagem em curto prazo, terem manejado corretamente, desapareceram. O maior exemplo é o dos grandes impérios da
Ele é uma prova cabal que nossos conceitos econômicos devem ser revistos e que o valor América Central (apesar de um forte período de seca), podendo ainda ser citados o triste caso
de um recurso natural, mesmo que abundante, tem que ser reavaliado e sua proteção um exer- da ilha de Madagascar – atualmente uma vasta extensão laterítica completamente imprópria
cício permanente. É preciso com grande urgência que tomemos consciência do que é e o que para qualquer atividade agrícola, consequência do empobrecimento do solo pela total devasta-
representa o solo para a humanidade: é o capital supremo, a base do metabolismo planetário, ção de suas florestas.
uma das chaves para elevar o bem-estar do homem. Não é sem razão que os espertos chineses,
sabiamente o denominam de “a mãe de todas as coisas”. “O solo é o grande conector de nossas vidas, a origem e o destino de todos” (Wendell Berry, The
Unsettling of America, 1977).
“Pois só raramente consideramos nossos solos como algo bonito e, talvez até mesmo misterioso.
Que outro corpo natural, distribuído por todo o mundo, tem tantos segredos interessantes para revelar Mesmo hoje em dia, vemos que povos que habitam regiões com solos distróficos, utilizam
ao observador paciente?” (Les Molloy, Soils in the New Zealand Landscape: Living Mantle, 1988). técnicas agrícolas totalmente inadequadas ou são predominantemente vegetarianos, porque
os vegetais que consomem (leguminosas, cereais e tubérculos), fontes de hidratos de carbono,
“Como eu posso pisar no solo todos os dias e não sentir o seu poder? Como posso viver minha satisfazem de imediato e economicamente suas necessidades energéticas.
vida pisando neste material e não o admirar?” (William Bryant Logan, s/data). Por outro lado, o povo Inca que utilizou com correição a técnica do terraceamento do solo
na região montanhosa dos Andes, solução tão acertada, que ainda hoje eles são cultivados com
Há ampla evidência de que numerosas civilizações, da antiga Suméria e da Babilônia até aquelas sucesso, é um exemplo de manejo correto. Um exemplo mais recente é a Holanda, detentora
que hoje usam a agricultura de alta intensidade, acabam por serem atingidas por problemas de dos maiores índices de longevidade e produtividade de cereais, batata inglesa e gado leiteiro
sustentabilidade em longo prazo. As civilizações antigas tiveram relações óbvias com os solos. por unidade de área, utilizando terrenos que outrora foram brejos, pântanos e até areais, con-
A região da Mesopotâmia, que atualmente engloba o atual Iraque e Kuwait, ocupando o vale dos -siderados totalmente impróprios para a agricultura. Questão de sobrevivência.
rios Tigre e Eufrates, os quais saem dos elevados planaltos e montanhas da atual Armênia para de- De fato, costuma-se afirmar que “o arado causou mais destruição às civilizações do que a
sembocarem no Golfo Pérsico, teve uma das civilizações que mais cedo apareceram: os sumérios, espada” (Hillel, 1991). Talvez o ditado europeu “bater espadas em arados”, deva ser repensado.
em cerca de 3300 anos A.C. Um inventário do tempo dos primeiros Califados mostrou que 12,5 Cremos que é realmente hora para trabalhar com a natureza e não contra ela, e parar logo de
milhões de acres (cerca de 5,1 milhões de hectares) foram intensamente cultivados na metade sul tratar os solos como vimos fazendo até agora.
da Mesopotâmia (Whitney, 1925). Com os muitos séculos de irrigação, esta chamada “civilização
hidráulica” foi atormentada com os conhecidos problemas do assoreamento e da salinização, o que O solo é a fina camada da Terra que está entre nós e a morte pela fome!
foi descrito e devidamente registrado pelo rei Hamurabi em 1760 A.C (Hillel, 1991).
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2 SOLO, SOCIEDADE E TRÓPICOS “Como um fazendeiro, o próprio homem tornou-se intimamente ligado à paisagem, firmemente
enraizada no solo que o suporta. Às vezes, o solo parece generoso e bondoso e novamente teimo-
Do ponto de vista sociológico, o solo também sempre foi ignorado. A sociologia costuma es- so e não amigável. Porém, ele sempre foi um desafio para a astúcia do homem” (Charles Kellogg,
tudar o homem como se ele tivesse evoluído sem qualquer vínculo com o solo, com a terra. The soils that support us, 1956).
Algo parecido se passa com a política. Ora, a história nos mostra inequivocamente a que ponto
o solo é a base real da política. Tanto numa como noutra, a teoria que fizer abstração do solo Dentre os diversos aspectos relativos à reforma agrária (políticos, econômicos, técnicos etc.),
toma os sintomas por causa. Note que o Estado não pode existir sem um solo e, mesmo quan- o conhecimento do solo e das técnicas adequadas para o seu correto manejo e emprego comu-
do aquele deste se destaca, vemos que a sociedade permanece a ele firmemente ligada. nitários, aplicáveis às pequenas e médias proprie-dades, são imprescindíveis. Características do
Grupos humanos como a família, a tribo, a comuna, só são possíveis de se constituírem com solo como as pedológicas (identificação e clas-sificação), edafológicas (fertilidade), topografia,
base num solo, e seu desenvolvimento não pode ser compreendido senão com respeito a esse condições hídricas, estrutura do horizonte cultural, irrigação, propriedades químicas, etc., não
solo. Por exemplo, quando o Estado romano desapareceu, seu povo sobreviveu sob a forma de podem ser esquecidas e deixadas de lado no momento em que forem selecionadas as áreas a
grupos sociais de todo o tipo, por intermédio dos quais se transmitiu à posteridade uma série serem utilizadas no momento do assentamento dos seus ocupantes, bem como na instalação da
de características que ele herdou do e pelo Estado. De fato, quer se considere uma sociedade infraestrutura, principalmente se o processo para tal envolver desapropriação ou litígio judicial.
grande ou pequena, rica ou pobre, antes de tudo, ela sempre busca manter integralmente o solo Sem a aplicação dos conceitos da Ciência do Solo não há como se pretender obter resultados
sobre o qual e do qual depende e vive. Assim que se assegura de tal objetivo, imediatamen- minimamente satisfatórios para o processo de reforma, qualquer que seja o “modus faciendi”.
te se transforma em Estado. A sociedade pode então ser considerada como o in-termediário Curiosamente a história nos fornece lições que teimamos desde há muito, em não aprender
através do qual o Estado e o Solo se transformam num único organismo, o que implica em que e a aproveitar. Por todo o planeta, ações antrópicas danosas ao meio ambiente se sucedem
as relações da sociedade com o solo afetam a natureza do Estado em qualquer fase do seu ininterruptamente. Em regra, a mídia noticia e dá ênfase às catástrofes ecológicas com relação
desenvolvimento que se considere. aos oceanos (derrames de petróleo), às florestas (queimadas), e à atmosfera (efeito estufa),
Quer seja o homem considerado isoladamente ou em um grupo (família, tribo, cidade, etc.), ignorando aquelas relativas à pedosfera (erosão, empobrecimento por exaustão da fertilidade,
haverá sempre um pedaço de terra que pertença ou a sua pessoa ou ao grupo social do qual faz desertificação e poluição).
parte. E quanto mais as necessidades de habitação e de alimentação ligarem a cidade à terra, Os danos causados ao solo são incalculáveis: hidromorfia (excesso de água), salinização,
tanto maior será a sua necessidade de nela se manter. alcalinização e acidificação (chuva ácida e excesso de fertilizantes), envenenamento por agro-
Quem admitir que para um povo em vias de crescimento, a importância do solo não é evi- tóxicos, metais pesados, petroquímicos e todo tipo de resíduos industriais, material radioativo
dente, que o observe no momento da sua dissolução: nada poderá ser entendido a respeito do e a assim denominada “concretagem do solo” (abertura de rodovias, expansão urbana etc.).
que ocorre se não considerar o solo. O povo regride sob todos os aspectos quando perde seu Pior que tudo isso é que, com a nossa volúpia exploratória, estamos acelerada e loucamente,
território; ele pode ter novos cidadãos e conservar ainda muito solidamente esse espaço onde destruindo até 80% da matéria orgânica humificada (húmus) presente nos solos, o que acarreta
se encontram suas fontes de vida, mas se ele se reduz ou se perde, é o começo do fim. consequências nefastas não apenas com relação ao empobrecimento da diversidade (número
Pela milenar prática da agricultura a sociedade se une mais estreitamente ao solo, o que con- de espécies) e da atividade biológica, mas também com relação ao agravamento do já avança-
fere ao Estado um conjunto de características que dependem diretamente do modo pelo qual as do efeito estufa, pois o húmus é um dos grandes reservatórios de carbono da biosfera.
terras são ou estão divididas entre seus cidadãos. Quando a divisão é igualitária, a sociedade Pois bem: em primeiro lugar não interessa às classes dominantes do País, nem a educação
tende a ser homogênea e a propender para a democracia; caso contrário, uma divisão injusta e sobre o que é o solo e como ele pode ser eficazmente utilizado, assim como muito menos nem
desigual é um sério obstáculo a toda organização social que possa dar preponderância política a sua divisão, especialmente num regime capitalista onde o modelo tecnológico vigente é o da
aos não proprietários, sendo, por conseguinte contrária a toda espécie de oligocracia. Esta atin- maximização do lucro a qualquer custo.
ge o ápice de seu desenvolvimento naquela sociedade que tem em sua base, uma população de Para que isso tenha sido e continue sendo possível, é preciso que muito poucos possuam
escravos sem propriedades e completamente desprovida de quaisquer direitos. a quase totalidade da terra e que o corpo do saber a seu respeito, como um todo, seja e fique
Por fim, é notável que não apenas a dupla necessidade do alimento e da moradia que condi- continuamente restrito a uma elite. Uma das nefastas consequências dessa terrível situação,
ciona a relação homem-solo, mas também a concepção universal de que o solo possui algo de estabelecida desde a fundação do País, é a exclusão do solo do nosso patrimônio cultural e
sagrado (não somente porque nossos ancestrais estão e são nele enterrados), sempre contri- educacional. O conhecimento a seu respeito além de ser privilégio de uns poucos técnicos, não
buiu para a tenaz defesa do seu solo por um povo. Essa constatação nos leva a outra área do é ensinado, divulgado e popularizado como deveria ser (quando soe de acontecer, é de uma
campo social onde o conhecimento e o respeito pelo solo são de primordial importância: a temí- maneira totalmente equivocada para não dizer errada). É urgente que nossas crianças desde a
vel Reforma Agrária. Todos concordam que seu objetivo é dar terra, solo, a quem efetivamente escola primária tenham contato e aprendam sobre ele, do mesmo modo que engenheiros, arqui-
quiser fazer uso dele consoante os princípios corretos e adequados, fecundando-o com o seu tetos, políticos, agricultores, economistas, fazendeiros, legisladores, administradores, políticos,
trabalho, fazendo do verdadeiro camponês, um cidadão com uma vida digna. e proprietários, sejam de fato apresentados ao solo no decorrer de suas vidas, principalmente
durante a formação profissional, para que possam vir a realmente conhecê-lo, considerá-lo e
tratá-lo como um patrimônio de todos.
234 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 235

“Sabemos mais sobre o movimento dos corpos celestes do que sobre o solo sob os pés” encantamento e admiração. É preciso saber que o solo não é uma massa inerte, mas o palco
(Leonardo Da Vinci, circa 1500). de um sem número de transformações físicas, químicas e biológicas. Ele é uma sepultura no
seu mais amplo sentido, e ainda assim é a verdadeira mola mestra de nova vida e da vida. É um
O que a nossa sociedade realmente precisa, no mais curto lapso de tempo possível, é de grande receptáculo de genes e se algum objeto pode demonstrar a possibilidade de ressurrei-
técnicos com sólida base cultural, elevado preparo humanístico e político, conscientemente ção, esse objeto é o solo.
ensinados e treinados através de uma formação técnica científica curricular eclética, já que por
força de acontecimentos históricos, as regiões tropicais (hoje ainda subdesenvolvidas) ficaram “Os solos nascem e desenvolvem-se; eles não são uma mera acumulação de detritos resul-
sujeitas ao jugo e à subordinação política, psicossocial, econômica e militar de países das re- -tantes da decomposição de rochas e materiais orgânicos. Em outras palavras, um solo é uma
giões temperadas que obstruíram de todos os modos possíveis todo e qualquer conhecimento entidade - um objeto da natureza que tem características que o distinguem de todos os outros
técnico por largo período de tempo. objetos da natureza” (C. E. Millar & L. M. Turk, 1943).
Uma das várias consequências dessa subjugação mais prejudiciais para o País é o total des-
prezo votado ao solo decorrente de um completo despreparo em Ciência & Tecnologia que nos O solo fértil arável é espantosamente complexo. Uma simples colher de chá de um bom solo
tem impedido por décadas, de entender o erro ainda hoje cometido de se pensar e utilizar o solo fértil chega a conter 5 bilhões de bactérias, 20 milhões de fungos e 1 milhão de protistas. Num
tropical como se fosse de clima temperado ou pertencente a outra categoria geográfica, com só metro quadrado desse mesmo solo há milhares de aranhas, formigas e tatuzinhos, besouros
base em lições exógenas. e larvas de moscas, 2 mil minhocas, 20 mil enquitreias, 2 mil embuás e lacraias; 8 mil lesmas,
40 mil colêmbolos, 120 mil ácaros e 12 milhões de nematoides; além de algas, protozoários e
Destruir o solo significa destruir a vida, e apenas os loucos ou os mais inconsequentes hedonis- vírus. As formas de vida sob o solo pesam mais do que as vivem sobre ele – o equivalente a até
tas podem continuar inertes e delibe-radamente de olhos fechados, à sistemática destruição que 12 cavalos por acre. Em cada grama de solo pode haver 4000 genomas diferentes; eles poden-
um dos pilares de sustentação da vida na Terra vem sofrendo. do variar no mesmo solo de um local para outro.
De fato, o solo é um ente natural que ocupa lugar de destaque no meio ambiente macro,
De fato, já perdemos décadas atrás da figura quimérica do êxito irrestrito transplantado do podendo ser dito sem exagero, que desempenha um papel indispensável de suma importância
exterior (Europa e Estados Unidos) para áreas carentes e necessitadas de desenvolvimento ou devido a uma série de razões, entre as quais podemos nomear:
de investimentos em PC&T. Buscar adquirir, seja por compra ou mesmo por aprendizado, co-
nhecimentos próprios e inerentes aos grandes centros desenvolvidos do mundo, aplicando-os 1. O solo é o principal ecossistema dos inúmeros exossistemas existentes no epinociclo.
cegamente e ignorando inteiramente as leis do trópico ditadas pela natureza, é no mínimo uma 2. O solo e o clima (determinado basicamente pela temperatura e precipitação) são os princi-
grande insensatez e desperdício de recursos financeiros, para não dizermos burrice. pais responsáveis pelos diversos biócoros terrestres.
Sabe-se hoje que existem grandes e profundas diferenças, tanto do ponto de vista qualitativo 3. É a base de todas as comunidades terrestres.
quanto quantitativo, entre esses dois sistemas pedológicos mundiais, que inviabilizam na maior 4. É um meio organizado e estruturado, em contínua evolução.
parte das vezes a transferência direta aos trópicos, de informação científica e tecnológica pro- 5. Juntamente com o clima, é o principal responsável pelos biócoros terrestres.
venientes de outras latitudes. Quando aqui aplicadas, podem originar em certos casos soluções 6. É provedor de suporte físico e de estabilidade para as plantas.
corretas; resultados falsos, contudo, são usualmente obtidos pela cega e indiscriminada apli- 7. Os solos contêm 82% de todo o carbono terrestre.
cação de tal procedimento principalmente em se tratando do solo, sistema que espelha melhor 8. É um enorme recipiente de genes.
do que qualquer outro, toda essa problemática. Assim, é de fundamental importância que nós 9. Tanto o solo quanto a argila são extensi-vamente usados no tratamento de doenças em que
fiquemos conscientes de que dependemos apenas do nosso próprio esforço nesse sentido se usam terras ou lamas medicinais. É a peloterapia ou argiloterapia (a cura pela terra/solo).
e que se quisermos viver e sobreviver condignamente nesta época de globalização, estamos 10. Tem capacidade terapêutica, agindo sobre inúmeras patologias (algumas gravíssimas,
obrigados a tratá-la de maneira apropriada visando a consecução da melhoria do bem-estar de como no combate à Buruli ulcerans provocada pela bactéria Myco-bacterium ulcerans; a
todos os brasileiros e do pleno desenvolvimento do País. bactéria comedora de carne) que afetam todos os seres vivos (nós inclusive).
A este respeito vale muito consultar o livro da professora Primavesi (2014) onde ela descreve 11. É juntamente com o sol e a água, a base da vida, pois origina e suporta das mais simples às
fracassos na agricultura brasileira, devido à aplicação de tecnologias exógenas; importadas de mais complexas cadeias ali-mentares dos ecossistemas terrestres.
países de clima temperado. 12. É o substrato das plantas, cuja massa excede de longe a de todos os outros bi-ontes: 99%
dessa massa estão na fito-massa. É interessante notar que os 7 bilhões de seres humanos
da atualidade são apenas 0,018% da biomassa da vida na Terra, e 0,48% daquela dos ani-
3 A BELEZA INTRÍNSECA AO SOLO mais. E, no entanto, somos uma real e aguda ameaça para toda a biosfera.
13. É a principal fonte de microrganismos do planeta.
Quando consideramos a longevidade do solo, o caráter complexo, a diversidade de vida, a per- 14. É um abrigo e refúgio natural estável tanto contra o frio como contra o calor. As glaciações
pétua renovação, a evolução constante da matéria nos estados sólido, líquido e gasoso e de- do Quaternário, por exemplo, afetaram deletériamente muito mais a população exopedônia
mais transformações continuamente nele presentes, ninguém pode deixar de ser tocado de do que a endopedônia. [De fato, o solo é o habitat perfeito para um sem número de orga-
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nismos que dificilmente sobreviveriam fora dele. No seu interior não existem gradientes 32. Devido a sua capacidade de reter e acumular água nos estados de vapor e líquido, é possí-
bruscos de temperatura, luminosidade, evaporação, vento e umidade. Os processos de tro- vel mesmo nos solos desérticos, a existência de animais que respiram pela pele e por guel-
ca (gasosa e iônica) ocorrem por difusão e são lentos. Alguns centímetros abaixo da sua ras. Existem inclusive flores que crescem dentro do solo, como duas espécies de orquídeas
superfície, o clima já é mais estável e ameno do que o da atmosfera acima. As raízes, que muito raras (Angiospérmicas monocotiledôneas).
são em muitos aspectos, a mais vulnerável parte das plantas superiores, es-tão totalmente 33. O solo é uma grande fonte de materiais de construção.
adaptadas à vida no solo, não correm perigo e suas funções vitais são favorecidas]. 34. O solo é um agente de elaboração das formas do relevo.
15. É também a maior fonte de antibióticos. 35. Apresenta para muitos valor espiritual, religioso e é o lugar onde enterramos nossos semelhantes.
16. Todos os principais filos animais, exceto os celenterados (a água viva) e os equi-nodermes 36. É notável a importância do solo e da ar-gila na área psicopedagógica, onde de-senvolve não
(a estrela do mar) se fazem presentes no solo. só o despertar criativo e intuitivo, como o despertar e o desen-volvimento das sensações e
17. Devido a sua capacidade de reter e acumular água nos estados de vapor e líquida, é possível percepções, permite ao indivíduo um crescimento contínuo no seu processo de autoconhe-
mesmo nos solos do deserto a presença de animais que respiram pela pele ou por guelras. cimento e busca do equilíbrio interior.
18. A sua fauna inclui formas de vida muito antigas, que surgiram antes que a deriva continental 37. O solo como importante elemento da di-nâmica da paisagem, é imprescindível para o en-
tivesse desmembrado a massa de terra original dos continentes. tendimento das transformações do espaço geográfico, sendo, por isso, responsável pelo
19. Mais animais vivem no solo do que sobre ele: 1g de solo são contém em média (1 a 5) mi- desenvolvimento de nossa consciência (Pimenta et al., 2008).
lhões de bactérias; 100 mil a 1 milhão de protozoários, algas e fungos e (10 a 100) milhões
de actinomicetes. O conceito de solo é intrínseco a cada pessoa e/ou especialidade, visto que tem significado
20. Em solos saudáveis, até 5 toneladas de vida animal pode ser encontrada em 1 hectare. e abrangência conforme a história de cada um e/ou a atividade de quem o analisa e trabalha.
21. É um ambiente tão propício à vida, que somente 1% das suas micro flora e micro fauna De fato, definir o solo é uma tarefa árdua. À luz dos conhecimentos atuais é possível então
sobrevivem em laboratório. adiantarmos uma definição tentativa do que seja o solo, de um modo abrangente, preciso e
22. O trabalho efetuado pela totalidade dessa fauna excede a dos que vivem fora do solo (*). satis-fatório, apesar de ainda incompleta.
23. É o único lugar da Terra onde encontramos atuando simultaneamente, a biosfera, a atmos-
fera, a litosfera e a hidrosfera; as quatro esferas onde ocorrem todos os processos nos “Há dois perigos espirituais em não possuir uma fazenda. Um deles é o perigo de se supor que
ecossistemas superficiais. A vida, o solo, a atmosfera, a água e as geoformas evoluem o café da manhã vem do supermercado e o outro, que o aquecimento vem a partir da fornalha”
todos em conjunto; nenhum destes elementos seria tal como o conhecemos, sem todos (Aldo Leopold, s/data).
os outros. Os solos que cobrem a superfície terrestre são o elo que faz a interação entre a
atmosfera, o clima, a biota e com as águas superficiais e subterrâneas. O solo é um dos mais complexos sistemas na-turais e a base da vida na Terra. Sistema multi
24. O solo é o maior reservatório em interação com a atmosfera: a vegetação, 650 GT; a atmos- limítrofe é o único local em que se interpenetram as fases sólida, líquida e gasosa; o reino orgâ-
fera, 750 GT; o solo, 1500 GT (giga toneladas). nico e o mineral; o vivo e o inerte. É um meio dinâmico, em perpétua evolução: há transformação
25. É fator de desenvolvimento político, social e ecológico, e desempenha importante papel no permanente, cíclica ou não, dos seus constituintes, da sua estrutura e do seu sistema poroso.
bem-estar de um povo. Há no seu interior, transportes permanentes ou intermitentes de matéria sólida, líquida, gasosa
26. É o grande reservatório dos elementos químicos no biociclo das terras emersas; o local e biológica. É palco de sínteses e decomposições; de nascimento, crescimento, senilidade e
onde o ciclo do carbono interage simultaneamente com os ciclos do hidrogênio, fósforo, morte; de translocações, de incontáveis fenômenos mecânicos e físicos, como por exemplo,
enxofre e oxigênio. (lixiviação, iluviação, eluviação, evaporação, etc) e químicos (dissolução e precipitação, redu-
27. A quantidade de carbono orgânico estocado no solo é em média, duas a três ve-zes maior ção e oxidação), fenômenos físico-químicos (troca iônica, adsorção e absorção), bem como um
do que na vegetação natural cultivada. Por exemplo, no meio equatorial há tanto C orgânico sem número de simbioses. É um corpo heterogêneo complexo, anisotrópico, incessantemente
no solo quanto nas suas florestas; nos meios cobertos de planícies e lavouras, há dez vezes submetido a uma extraordinária e complexa dinâmica, um ente natural autônomo, não conser-
mais carbono no solo do que na vegetação (Ruellan e Targulian, 1992). vativo, auto-organizado, sempre em evolução lenta, mas constante [nasce, cresce, amadurece,
28. À escala global, em termos de balanço de materiais, a Terra pode ser vista como um grande torna-se senil e pode rejuvenecer, morre e renasce!], formado independente da vontade e ação
reator e cristalizador, funcionando continuamente para produzir o solo, num perfeito exem- do homem por processos particulares e submissos a leis que lhe são próprias.
plo de reciclagem natural.
29. É o regulador do fluxo da água entre seus vários reservatórios: a atmosfera, a terra e os “Pelo sentido do tato, nossos pés avaliam a natureza da terra selvagem e desconhecida em bai-
oceanos. Desse modo, os regimes hidrológicos bem como a qualidade das águas nos len- xo, ainda que a fala humana não possa expressar o que os pés têm a dizer! Ande a pé, caminhe,
çóis freáticos e nos rios, são sobremaneira influenciados pelos solos já que as águas se caminhe sobre a terra!” (F. D. Hole, Walking on the Earth, 1989).
movimentam sobre e através dele antes de atingirem os reservatórios e desaguadouros.
30. Atua como moderador, filtro e tampão do ciclo hidrológico. Sendo um meio em constante evolução, possui um passado que esforçamo-nos por co-
31. É um refúgio e abrigo natural estável, tanto contra o frio como contra o calor. As glaciações nhecer e um futuro que tentamos prever. Goza da exclusividade de ser o único ambiente na
do Quaternário afetaram muitíssimo menos a fauna endopedônica doa que a exopedônica. face da Terra onde se reúnem natural e intimamente, a litosfera, a atmosfera, a hidrosfera e
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a biosfera. Como substrato para o processo fotossintético é fonte de alimentos e de energia, eletrolítica da solução intersticial e a concentração de gases nos poros; outras um pouco mais
além de ser um excelente material de construção, ubíquo e de extrema versatilidade, bem lentas como a oxidação da matéria orgânica, a produção de húmus, a ação da biota; e outras
como matéria-prima para muitos outros. Não obstante, apesar de ubíquo e abundante, não é ainda muito mais lentas como a transformação de minerais primários em secundários.
renovável a curto e médio prazo, devendo por isto ser muito bem protegido, manejado adequa-
damente e utilizado com toda cautela e parcimônia. Além do seu caráter único como um ma- “O agricultor detém o título da terra, mas na verdade, ele pertence a todas as pessoas, porque a
terial, desempenha papel primordial no desenvolvimento sociopolítico, cultural e ecológico, própria civilização repousa sobre o solo” (Thomas Jefferson).
assim como no bem estar dos povos. O solo é um importantíssimo capital natural que deve
ser preservado a todo custo. Tecnicamente falando, ele é metaestável, mas ao observador comum ele é estável e imutável.
Aliás, poucos se dão conta da sua importância no tocante aos serviços prestados; entre ou- A vida na Terra depende dessa situação de não equilíbrio do solo. Se ele, como todo ecossistema,
tros, podem ser citados: fosse isolado, não haveria organismos vivos para ocupá-los. A abertura termodinâmica torna-o
um sistema externamente dirigido, sendo a causa de suas propriedades antientrópicas, as quais
• A decomposição da matéria orgânica e produção de húmus. originam a sua estruturação e desenvolvimento. A termodinâmica nos diz que o solo existe preca-
• O controle biológico de patógenos. riamente, como os seres vivos; mas a experiência mostra que todos são admiravelmente resisten-
• A alteração das características físicas do solo. tes à degradação. Na realidade o solo é um sistema aberto e assim deve ser estudado e tratado.
• A produção de metabólitos: antibióticos, hormôneos, alelopáticos. O solo é um sistema dissipativo com relação à energia, matéria e informação, ou seja, ele é
• A decomposição de xenobióticas. entrópico; mas apresenta também auto-organização indo contra os gradientes do decaimento
• A nutrição vegetal (fixação biológica do N2). entrópico no sentido de produzir novas configurações de suas partes vivas e não vivas. A fonte
de sua capacidade de lutar contra as forças de desorganização é o seu estado termodinâmico
Nenhum desses serviços é sequer cogita de ser contabilizado pelos economistas; o que se- aberto, o que o torna capaz de adquirir matéria, energia e informação contra as forças dissipa-
ria um estímulo para a preservação do meio ambiente. Por exemplo, Constanza et Al. (1997) tivas (Prigogine, 1980). É então um sistema aberto e altamente relacionado com o seu entorno,
quantificaram o valor da ciclagem de nutrientes pelo solo, a nível global/ano, chegando à astro- gerador de neguentropia (exergia), o que faz com que se mova constantemente para longe do
-nômica cifra de US$ 17 trilhões! equilíbrio termodinâmico.
O solo possui também uma prodigiosa “memória” onde registra as situações por que passa O decréscimo da entropia associado com o estado aberto, não viola a 2ª Lei da Termodinâmi-
como se fossem mesmo impressões digitais, refletidas nitidamente numa organização parti- ca porque o solo recebe continuamente do exterior, componentes de baixa entropia na forma de
-cular a níveis macro e microscópicos características dos processos que levaram à sua forma- quanta solares, e expulsa radiação de alta entropia na forma de calor. Nosso comportamento
ção e evolução. Ainda neste contexto, seus constituintes não se dispõem aleatoriamente uns na Terra deveria e deve se espelhar no da natureza, que tem no solo (e em outros ecossistemas)
em relação aos outros; pelo contrário, guardam estreita ligação entre si originando uma anato- um exemplo supremo: viver e evoluir com o mínimo de energia e com a máxima eficiência ter-
mia, uma estruturação de fundamental significado e importância para a compreensão do seu modinâmica, ou seja, com um mínimo de produção de entropia.
comportamento em todos os níveis. É justamente a existência de estruturas específicas a todos Por exemplo, o equilíbrio total entre o solo e o ar literalmente destruiria as raízes da vida, faria
os níveis de observação, desde a célula unitária, os cristalitos, os micro agregados, os “peds” e todo carbono orgânico passar ao estável CO2 e oxidaria o N2 atmosférico a HNO3 até que todo
o perfil, até a paisagem, o que constitui a grande marca registrada do solo. o O2 desaparecesse da atmosfera. Contudo, não pode haver um grande afastamento do equilí-
É importante também notar que o solo fez com que ramos da ciência antes orientados em dis- brio. A simples sobrevivência de frágeis e suculentas raízes que crescem no solo cercadas por
ciplinas isoladas (Pedologia, Edafologia, Geologia, Hidrologia, Biologia, Mineralogia, Agronomia, hordas de vorazes criaturas microbianas é a mais significante lembrança do não equilíbrio, que
Geografia, Geomorfologia, Engenharia), entre outras, se combinassem e entre-cruzassem no nós podemos constatar em qualquer solo.
exame dos mesmos fatos e fenômenos, mas sob distintos ângulos de visão. Indubitavelmente, Desse modo, se o solo não tendesse continuamente ao equilíbrio com a atmosfera, todo o
o Solo conseguiu captar, há já muito tempo, a tendência atual da ciência moderna. CO2 seria rapidamente imobilizado como matéria orgânica e a fotossíntese cessaria.
Allan Kardec em O Livro dos Espíritos (Capítulo 5, p. 380, 2007) também nos oferece uma
primorosa definição de solo: “Podemos dizer que a Terra tem o espírito do crescimento, e que a sua carne é o solo”
(Leonardo Da Vinci, circa 1500).
“O solo é a fonte primacial donde dimanam todos os outros recursos, pois que, em defini-tivo,
estes recursos são simples transformações dos produtos do solo”. Ainda em analogia com os seres vivos, o solo mostra possuir a capacidade de se opor a mu-
danças bruscas do seu estado, apresentando mecanismos para tal espantosamente eficientes.
O autor ficou bastante impressionado por encontrar esta exata e concisa definição de solo, Por exemplo, o solo resiste a variações de pH, temperatura, perda de água e do potencial redox,
vinda de uma fonte não técnica e tão improvável quanto à referida. através de verdadeiros sistemas tampão que atuam sobre cada uma das citadas variações.
Outra característica marcante do solo é a sua existência permanente num estado de não equi- Assim, quando retirado do seu ambiente natural invariavelmente sobre alterações químicas,
líbrio. Apesar de parecer o contrário, mesmo para tempos curtos sofre alterações de acordo físicas e mecânicas. Perde/ganha umidade, sofre transformações químicas (S2- > SO4; CaCO3 6;
com o ambiente interno e/ou o externo. Umas ocorrem muito rapidamente como a concentração húmus > CO2 + H2O, etc.) e sua biocenose é drasticamente afetada, acabando por adquirir um
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neo-estrutura, que se reflete principalmente nas suas características mecânico-reológicas. De Possui propriedades descritivas que não são propriedades de estado; isto é, independem do
fato, quando tentamos alterar seu estado de quasi-equilíbrio, seja de que modo for forçando-o estado em que são medidas: a plasticidade e a granulometria são exemplos.
a deslocar-se e a permanecer num ambiente inóspito onde é quimicamente instável, verifica- Não obstante, dois solos com idênticas propriedades que independem do estado, podem
mos que o solo não aceita passivamente essa intromissão reagindo o mais intensamente que comportar-se de modo diametralmente oposto porque o solo também exibe propriedades de
pode quanto maior for o afastamento do seu estado original através de mecanismos químicos estado, como por exemplo, a estrutura (micro e macro), a permeabilidade, a compressibilidade,
e físico-químicos mobilizados imediatamente com o objetivo de anular tanto quanto possível a expansibilidade, etc. Portanto, é de máxima importância a coleta de amostras indeformadas,
a continuidade da nova situação, que se não for revertida a tempo acaba inexoravelmente por ou seja, tal qual o solo se encontra in situ, se quisermos ficar sabendo seu comportamento na-
degradá-lo de um modo irreversível. E parece que ele é “consciente” disso! tural. O mesmo é válido para propriedades químicas e biológicas, que rapidamente se alteram
Não haverá exagero nessa análise do solo? A fim de tentar mostrar que não, vamos enquadrá- assim que o solo é retirado do seu habitat. Apenas recentemente é que o amolgamento químico
-lo na teoria geral dos sistemas (Bertalanffy, 1947). Em sua portentosa obra, Living Systems, biológico começou a ser considerado. Sua fração fina, a argila, onde estão concentrados os
James Miller (1978), um dos pioneiros da aplicação dessa teoria aos sistemas vivos, propôs argilominerais, é físico-químicamente ativa, apresentando propriedades coloidais da mais alta
que estes são compostos de subsistemas cujo objetivo é ingerir, processar e expelir matéria, importância para a nutrição vegetal, o desenvolvimento da microfauna e seu comportamento
energia ou informação; ou uma combinação destes ítens. Identificou então 19 subsistemas mecânico-reológico. A presença da dupla camada elétrica em suas superfícies regula os fenô-
cruciais que ao que tudo indica são necessários, mas não são suficientes para caracterizar um menos da absorção, retenção de cátions e aníons, troca iônica e atividade catalítica. Dependen-
sistema vivo. Miller argumenta convincentemente que uma máquina, por exemplo, ostenta mui- do dessa atividade superficial coloidal e da concentração da fase líquida em relação à sólida,
tas dessas características e com modificações e acréscimos poderia passar a apresentar to- suas propriedades variam das de um sólido quasi-ideal às de um fluido-ideal.
das – inclusive a de reprodução se assim se quisesse. Contudo, nem por isso uma máquina se Por isso, devemos ter sempre em mente que o que o solo é e como se comporta depende,
tornaria um sistema vivo. Porém, há uma característica que é comum a todos os sistemas vivos tal qual como com as pessoas, de fatores genéticos e ambientais de estado. A apreciação e
e que pode distingui-los dos não vivos, a saber, a capacidade do sistema de manter um elevado compreensão de sua história pedológica e dos processos que levaram à sua formação são es-
grau de ordem interna a despeito de contínuas modificações no seu meio-ambiente. Ou seja, senciais dentro de qualquer contexto de uso do solo.
um sistema vivo é então autorreparador e auto-organizador. A máquina não. É realmente difícil A antecipação de um futuro desempenho seja ela qual for (edáfica, mecânica, física ou quími-
encontrar exemplos de sistemas não vivos que simultaneamente se enquadrem nos dezenove -ca) deve ser sempre baseada em considerações e dados que levem em conta fatores de ordem
requisitos e sejam autorreprodutores e organizadores. Parece-nos, portanto que a satisfação física, química, mineralógica e biológica.
desses critérios é condição suficiente para se afirmar se um sistema qualquer é vivo ou não.
Russel (1982) aplicou-os ao ser humano, à sociedade e à biosfera. Tentemos ver se é possível “Pois todas as coisas vêm de terra, e todas as coisas acabam por se tornar à terra”
estendê-los ao solo. (Xenófanes, 580 A.C).
Analisando o solo como um material, descobrimos também que ele apresenta um caráter úni-
co. É o mais conspícuo representante dos materiais particulados, é heterogêneo e de composi- É muito comum depararmo-nos com especialistas às voltas com o que costumam denominar
ção (química, física, mineralógica e biológica) altamente variável. É tipicamente anisotrópico e de “solo-problema” ou então desconcertados com o desempenho “não esperado” de um solo.
apresenta comportamento mecânico não linear. Haverá solos realmente surpreendentes ou somos nós que nos surpreendemos? Acontece sim-
Devido a sua natureza particulada, difere de um material contínuo por uma série de caracte- plesmente que nossa habilidade e/ou capacidade de investigar o solo seja no campo ou no
rísticas: é composto por unidades ditas estruturais não necessariamente do mesmo tamanho e laboratório, bem como de usar técnicas sofisticadas de análise matemática e cálculo numérico
independentes entre si, que interagem mutuamente na presença das fases líquida e/ou gasosa para previsão e resolução de problemas complexos é cada vez maior, já tendo ultrapassado em
as quais preenchem os vazios da sua trama reticular formada pelo arranjo relativo dessas uni- muito aquela de observar, analisar, compreender e formular hipóteses, selecionando os parâme-
dades estruturais. Possui assim uma estrutura e um espaço poral (que pode atingir até 60%) tros relevantes para a compreensão e solução adequada do problema.
que regulam uma série de propriedades como a aeração, a circulação da água, a penetração É urgentemente necessário apreendermos e estarmos preparados para esperar o inesperado,
das raízes, a locomoção da mesofauna e o seu comportamento mecânico. o imponderável, especialmente quando somos confrontados com novo-velhos problemas em si-
tuaçõe inusitadas. Devemos lidar com o solo diferentemente de como o fazemos com a rocha, o
“O solo é, primordialmente, o albergue da vida”, (Philippe Duchaufour, Pedology ,1982). concreto, o aço e a madeira. Os solos devem ser encarados como eles são e estão e não como
pensamos ou desejamos que sejam e estejam, ou como desejaríamos que fossem e estivessem.
A interação entre essas unidades estruturais é a principal condicionante da sua resistência e
rigidez, pela maior ou menor restrição da liberdade e autonomia que elas possam apresentar.
A consequência é um desempenho mecânico peculiar: sofre variação volumétrica significativa 4 O SOLO E A SOCIOLOGIA
sob a ação de tensões cisalhantes, obedece ao assim chamado princípio das tensões efetivas
e é sensível a pressões hidrostáticas. Deforma-se pelo deslocamento relativo das unidades Do ponto de vista sociológico, o solo praticamente sempre foi ignorado. A sociologia costuma
estruturais (deformação intergranular) em contraste com a deformação individual típica dos estudar o homem como se ele tivesse evoluído sem laços com a terra. Algo parecido se passa
meios sólidos contínuos (deformação intragranular). com a política. Ora, a história nos mostra inequivocamente a que ponto o solo é a base real da
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política. Tanto num como noutra, a teoria que fizer abstração do solo toma os sintomas por cau- o tratamos mal e o desprezamos, provocando degradações ambientais graves, irreversíveis em
sa. Note que o Estado não pode existir sem um solo e mesmo quando aquele deste se destaca, muitos casos, e que cada vez são mais frequentes.
vemos que a sociedade permanece a ele firmemente ligada. Grupos humanos como a família, É curioso notar que a história fornece lições que teimamos desde há muito em não apren-
a tribo, a comuna, só são possíveis de se constituírem sobre um solo, e seu desenvolvimento der e a tirar proveito. Por todo o mundo, ações antrópicas danosas atingem o meio ambiente,
não pode ser compreendido senão com respeito a esse solo. Por exemplo, quando o Estado em especial os solos. A imprensa falada e escrita, em regra noticia e dá ênfase a catástrofes
romano desaparece, seu povo romano sobreviveu sob a forma de grupos sociais de todo tipo ecológicas oceânicas (derramamento de petróleo) ou atmosféricas (o efeito estufa), ignorando
por intermédio dos quais se transmitiu à posteridade uma serie de características que o povo aquelas relacionadas ao solo (erosão, poluição e exaustão dos solos). O dano causado aos
herdou no Estado e pelo Estado. De fato, quer se considere uma sociedade grande ou pe-quena, solos é incalculável: hidromorfia (excesso de água), salinização, alcalinização e acidificação,
rica ou pobre, antes de tudo ela busca manter integralmente o solo sobre o qual e do qual vive. erosão, inundação, poluição e envenenamento por agrotóxicos e resíduos industriais e urbanos
Assim que se assegura de tal objetivo, imediatamente se transforma em Estado. A sociedade (metais pesados, elementos radioativos, orgânicos não biodegradáveis), e a assim chamada
pode então ser vista como o intermediário pelo qual o Estado se une ao solo; logo as relações concretagem do solo, que é a expansão urbana das grandes cidades.
da sociedade com o solo afetam a natureza do Estado em qualquer fase so seu desenvolvimen- Mas, pior que tudo é que na sua volúpia exploratória do solo o homem destrói rapidamente
to que se considere. Quer seja o homem considerado isoladamente ou em grupo (família, tribo, até 80% da matéria orgânica humificada, o que acarreta consequências nefastas inclusive com
cidade etc.), haverá sempre um pedaço de Terra que pertença ou à sua pessoa ou ao grupo do relação ao efeito estufa já que o húmus é um dos grandes reservatórios de carbono. Além disso,
qual faz parte. E quanto mais as necessidades de habitação e de alimentação ligarem a socie- e mais importante, é o fato do húmus apresentar as seguintes propriedades: (i) é a principal
dade à terra, tanto maior será a sua necessidade de nela se manter. fonte de energia para a fatura do solo. Sem ela, a atividade bioquímica praticamente ficaria
Quem admitir que para um povo em vias de crescimento, a importância do solo não é evi- paralisada; (ii) atua como agente granulador das partículas minerais finas, originando uma es-
dente, que o observe no momento da sua decadência e da sua dissolução; nada poderá ser trutura grumosa, frouxa e aberta, que favorece a entrada, a circulação, a absorção e retenção
entendido a respeito do que ocorre se não for considerado o solo. O povo regride quando per-de da água e do ar; o crescimento das raízes e o desenvolvimento da fauna do sol; (iii) é de longe a
território; ele pode ter novos cidadãos e conservar ainda muito solidamente o território onde se principal fonte de elétrons, sustentando os processos de redução-oxidação no interior do solo;
encontram suas fontes de vida, mas se esse espaço se reduz é o começo do fim. (iv) é a principal fonte de enxofre e fósforo e o grande reservatório de nitrogênio não gasoso.
Pela milenar prática da agricultura, a sociedade se une mais estreitamente ao solo, o que con- O empobrecimento da diversidade biológica e a redução da atividade biológica são também
fere ao Estado um conjunto de características que dependem diretamente do modo pelo qual manifestações da degradação do solo (Chapin III et al, 2000; Veresoglou et al., 2015). Destruir o
as terras estão divididas entre os seus cidadãos. Quando a divisão é igualitária, a sociedade é solo significa destruir a vida, e apenas os loucos ou os mais inconsequentes hedonistas podem
homogênea e propende para a democracia; do contrário, uma divisão injusta e desigual é um fechar os olhos deliberadamente à destruição da sustentação da vida na Terra.
sério obstáculo a toda organização social que daria preponderância política aos não proprietá- A resposta a atual situação do solo nas nossas cultura e sociedade pode ter muitas e variadas
-rios e que seria, por conseguinte, contrária a toda espécie de oligocracia. Esta atinge seu ápice versões, mas creio que em primeiro lugar não interessa às classes dominantes, nem educação
de desenvolvimento numa sociedade que tem em sua base uma população de escravos sem e nem divisão da terra, principalmente num regime capitalista onde o modelo tecnológico que
propriedades e completamente desprovida de direitos. caracteriza a agricultura é o da maximização produtiva cujo real objetivo é a maximização dos
Finalmente, é notável que não apenas a dupla necessidade da alimentação e habitação condi- lucros. Para isso ser possível é preciso que poucos possuam grandes extensões de terra, o que
-ciona a relação homem-solo, mas a concepção ubíqua de que o solo possui algo de sagrado significa desagregação social da família rural, êxodo, pobreza e infelicidade, pois esse modelo
(não apenas porque os ancestrais estão nele en-terrados) também sempre contribuiu para te- está associado a (i) mecanização intensa com redução da mão-de-obra ao mínimo indis-pensável
naz defesa do solo por um povo. (ii) uso maciço de produtos químicos (fertilizantes e agrotóxicos), (iii) regime agrícola de mono-
Essa constatação nos leva a outra área do campo social onde o conhecimento e o respeito cultura com concentração de capital e recursos físicos. Uma das consequências dessa política
pelo solo são de suma importância: a Reforma Agrária. Todos concordam que seu objetivo no nosso país é a resposta para a exclusão do solo do nosso patrimônio cultural e edu-cacional.
é dar terra, solo, a quem quer explorá-lo e fecun-dá-lo com seu trabalho, fazendo do campo- Como muito bem enfatizou Coimbra (1985): “nós amamos e impressionamo-nos com as plantas
nês um cidadão com vida digna e realmente humana. Dentre os diversos aspectos por trás da e os animais que dão vida a nossa casa e à paisagem; enaltecemos a presença da água e valoriza-
reforma agrária (humanos, políticos, econômicos, tecnológicos, etc), o conhecimento do solo mos o papel do ar. Esquecemos, todavia, que no solo desenvolvem-se processos extraordinários,
e das técnicas de fácil emprego comunitário aplicáveis à pequena e média propriedade, são complexos e de rara beleza, essenciais à qualidade de vida que observamos na superfície”.
condições imprescindíveis. Aspectos como fertilidade, topografia, profundidade dos perfis do O conhecimento a seu respeito além de ser privilégio de uns poucos técnicos, não é correta-
solo, comportamento hídrico, estrutura do horizonte cultural, etc., não podem ser deixados de mente ensinado e divulgado, ao contrário do que acontece com as plantas, os animais e até as
lado no momento em que são escolhidas as áreas a serem desapropriadas e principalmente rochas. O que é lastimável, pois o solo nos mostra que a ciência não deve ser um instrumento
no momento do assentamento dos novos proprietários (lavradores), bem como na construção de agressão, de dominação da natureza; mas sim uma forma de nos integrarmos a ela, um
da infra-estrutura. Sem essa contribuição da Ciência do Solo, não há como esperar resultados modo de compreender que todas as coisas na natureza estão e são inter-relacionadas. Mes-
satisfató-rios da Reforma Agrária, nem como dos muitos e grandes empreendimentos agrários. mo na escola primária e secundária é fundamental a introdução ao estudo do solo com certo
Porque então o solo é ainda tão desconhecido e relegado a plano secundário pela nossa so- detalhe, como já dissemos. É importante que todos que tenham ou possam ter contato com o
ciedade? Porque ao invés de reconhecermos sua importância e respeitarmos seus limites, nós solo, principalmente os engenheiros, arquitetos, legisladores, políticos, economistas, adminis-
244 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 245

tradores, fazendeiros e proprietários, sejam apresentados a ele no decorrer de suas formações Ainda é tempo de atenuarmos e revertermos em curto prazo essa situação de subjugo, reco-
técnicas para que possam vir a considerá-lo e a tratá-lo como um patrimônio de todos. A nossa -nhecendo que nossos solos devem ser tratados e manejados criteriosamente devido às par-
sociedade precisa urgentemente de profissionais com sólida base cultural, elevado preparo hu- ticula-ridades a eles inerentes, trazendo-os para as escolas e a universidade assim como para
manístico e político, treinados e ensinados através de uma formação curricular eclética. o conhecimento público do modo mais amplo possível. É de fundamental importância estar
Não ostante, é preciso reconhecer que esse estado atual nos foi imposto; veio de fora. Por conscientes de que dependemos apenas do nosso próprio esforço, pois é praticamente inviável
força de acontecimentos históricos, as regiões tropicais ficaram sujeitas ao jugo e à subordi- na maior parte das vezes a transferência direta aos trópicos de informação e tecnologia prove-
nação política, econômica, militar e psicossocial das regiões temperadas, que obstruíram de -nientes de outras latitudes. Estas, quando aqui aplicadas chegam apenas em alguns casos a
todos os modos possíveis todo e qualquer conhecimento técnico por largo período de tempo resultados corretos; erros grosseiros podem e são usualmente cometidos pela aplicação cega
(Leão, 1986). e indiscriminada de tais informações.
Por fim, mas não menos importante, precisamos combater incansavelmente os gananciosos,
“O desconhecimento e, principalmente, a ga-nância, são os motores propulsores da grande de- os egoístas, os inescrupulosos e os inconsequentes que se lançam sobre qualquer riqueza na-
gradação dos nossos solos e florestas. Os solos dependem das florestas e estas dependem dos tural obstinadamente, querendo apenas tirar-lhes tudo o que for possível sem restituir e mui-to
solos. Com os solos depauperados, as florestas não se instalam e, pela retirada dessas, o solo se menos preservar nada.
degrada” (Lima, V.C. e Lima, M.R., UFPR, s/data). Faz-se senhor que o solo seja apresentado e ensinado às nossas crianças, que o coloquemos
na nossa consciência ecológica, que seja valorizado e respeitado, que “todos os problemas
Por outro lado, a nossa história deixa bem clara a imprevidência de nossos governantes (polí- relacionados a ele sejam devidamente resolvidas sob todos os pontos de vista, com a maior
ticos) e a inconsciência ou ignorância da parte dos empresários e usuários, bem como da elite brevidade, prioridade e a mais alta compreensão acerca de sua importância para a consecução
pensante, no que concerne ao desprezo votado aos solos. Desprezo decorrente da falta de um da melhoria, do bem-estar e do pleno desenvolvi-mento do povo brasileiro” (Leão, 1986).
mínimo de discernimento e de um completo despreparo em ciência e tecnologia que os tem Há muito o homem se afastou da natureza, chegando ao ponto de considerar-se fora dela.
impedido de entender o erro cometido de pensarem e utilizarem o solo tropical como se fosse Desde o aparecimento do Homo Habilis nas savanas africanas que o gênero homo vem,
de outra categoria geoclimática, baseando-se em lições exógenas. Já são inúmeras décadas de sistematicamente num crescente, interferindo, perturbando e alterando as condições e o
corrida dos nativos tropicais atrás da figura quimérica do êxito transplantado de além Europa equilíbrio do seu entorno natural. Essa situação iniciou-se muito cedo e os motivos foram,
ou de além Estados Unidos, para as áreas carentes de desenvolvimento. Milhares de jovens e ainda hoje são, os mesmos: melhorar as condições em que vivemos protegermo-nos dos
estudantes e centenas de estudiosos viajaram e ainda viajam para os grandes centros desen- perigos e das intempéries, auferir vantagens sobre adversários e competidores e aumen-
volvidos do mundo, buscando adquirir conhecimentos próprios daquelas regiões e co-piando tarmos a rentabilidade de nossas atividades. Precisamos retornar à nature-za, conhecê-la e
inteiramente o que lá se fazia, se fez e se faz, para aplicação em suas regiões de origem, igno- respeitá-la, para ai então usufruirmos de seus benefícios. Talvez não haja outra saída para a
rando inteiramente as leis do trópico ditadas pela natureza. humanidade, a não ser esta.
Os impulsos libertários dos cientistas e técnicos nativos que se preocuparam e preocupam em O solo pode nos fazer compreender isso. Aquele que tem contato com a terra, com o solo,
estudar e adotar concepções e soluções eminentemente de acordo com as condições tropicais, sabe que o cheiro que o solo umedecido exala quando recentemente arado, é indicação
subordinando as diretrizes a serem traçadas para o nosso desenvolvimento à real, indiscutível da atividade da microbiota; principalmente dos actinomicetes a pH nas proximidades da
e irreversível realidade dos fenômenos físicos, químicos e biológicos ditados pela inter-relação neutralidade. O porco com seu contínuo ato de fuçar é um exemplo de arte aperfeiçoado
solo/trópico, nunca foram preocupação dos organismos internacionais incumbidos de presta- através do tempo. Ele não usa nem talento e nem instinto para reconhecer emanações ado-
ção de assistência técnica e financiamento aos países tropicais. Não interessa aos mentores ríficas de putre-fação anaeróbica. Por outro lado, as indicações olfativas produzidas por so-
internacionais o equacionamento correto e a montagem de modelos adequados para a solução los aeróbicos são tão soberbamente sutis e penetrantes, que a maioria de nós não é capaz
nativa dos problemas com que nos deparamos. Sabemos hoje que o solo tropical apresenta de percebê-las por não possuir habilidade suficiente de sentir e processar essas sensações.
muitas vantagens sobre seus pares temperados. A estação de crescimento agrícola estende- Em lugar das fragrâncias comuns da natureza, nós confiamos e dependemos cada vez mais
-se habitualmente por todo o ano, havendo em grande parte dos trópicos, umidade suficiente e de parafernálias eletrônicas.
disponível durante toda ela. Muitos solos apresentam características físicas muito superiores Repetindo: Das terras emersas, o solo cobre 75%. Ele está em todos os lugares, mas, repe-
aos de zona temperada, a mineralogia da fração argila possibilitando o cultivo sob pluviosidade -tindo, não é renovável em curto prazo! Por isso devemos tratá-lo com respeito e usá-lo com
muito intensa devido ao estado floculado-agregado do solo tropical. Por isso, a trabalhabilidade sabedoria! Estima-se que, em média, são necessários 500 anos para a formação de uma cama-
de nossos solos é também muito melhor, mais fácil de ser efetuada e requerendo menos ener- da superficial de solo com 2,50 cm de espessura; o que corresponde a menos de 0,01 mm/ano!
gia. Não obstante, é preciso enfatizar que esses solos merecem tratamento cuidadoso, pois a Cerca de 2/3 da superfície terrestre são cobertos por água e do 1/3 restante, 25% é inabitável e
matéria orgânica rapidamente se oxida, em regra são ácidos e deficientes em alguns nutrientes praticamente desprovido da pedosfera, como os desertos, regiões rochosas e geladas. No com-
essenciais, podendo apresentar forte capacidade tampão elevada com relação à calagem e à -puto geral, somente (1/32) é composta por solos agricultáveis produtivos, e considerando que
adubação fosfatada. Contudo, o manejo do solo sendo feito corretamente, de forma integrada a camada eutrófica do solo capaz de sustentar colheitas tem em média 40 cm de espessura,
e harmônica, respeitando seus limites, torna-o produtivo e permite o aumento da pressão sobre fica claro que a vida (a qual depende em última análise desse fino horizonte que se mantém
seu uso sem levar a sua deterioração. num precário e delicado equilíbrio) pode ser fácil e seriamente ameaçada.
246 JACQUES DE MEDINA O solo como fator de desenvolvimento político, social e ecológico e seu papel no bem-estar de um povo 247

“Working with the soil, can actually be the most evolved status of a being 5 COMO ESTAMOS TRATANDO O SOLO
human” (Vandana Shiva, India).
A degradação do solo só aumenta, e já afeta um quarto da população mundial segundo estudo
Portanto, se estamos vivos é porque existe o solo. Não podemos comê- recente da FAO, com dados pesquisados num período de 20 anos. Definida como o declínio em
-lo (*), porém indiretamente o fazemos, pois nos alimentamos de organis- longo prazo na função e na produtividade de um ecossistema, tal degradação vem aumentando
mos que crescem e se reproduzem à custa dele. Não obstante, nós temos em gravidade e extensão, desde a assinatura em 1994, da Convenção da ONU para o Combate
seriamente solapado a sua fertilidade e a sua capacidade de sustentar a à Desertificação pelos 193 países membros. Quase 3,5 bilhões de pessoas, 50% da população
vida: 65% da terra cultivável estão seriamente prejudicadas. Além disso, mundial, depende diretamente dos solos que estão sendo degradados.
15% das terras do planeta estão em processo de desertificação. Nos últi- As consequências desse fenômeno incluem a forte diminuição da produtividade agrícola,
mos 25 anos a Terra perdeu uma quantidade de solo equivalente a toda a migração, insegurança alimentar, prejuízos a recursos e ecossistemas básicos com a perda de
terra cultivável da França e da China (FAO, 2010). biodiversidade genética e de espécies, devido a mudanças nos habitats.
Dois terços de toda a terra usada para agricultura foi degradada, mo- A degradação do solo tem também importantes implicações para a redução e a adaptação às
derada ou severamente, pela erosão ou pela salinização. Além disso, mudanças climáticas, já que a perda de biomassa e de matéria orgânica do solo libera carbono
dezenas de substâncias altamente tóxicas e persistentes, usadas como na atmosfera e afeta a qualidade do solo e sua capacidade de reter a água e os nutrientes.
biocidas, envenenam os solos e destroem contínua e lentamente os pro- Vinte e dois porcento das terras em processo de degradação estão em zonas ou muito áridas
-cessos que sustentam a vida. ou subúmidas secas, enquanto 78% estão em regiões úmidas. O estudo revelou que a principal
O solo contém quantidades enormes de carbono na forma de matéria causa da degradação do solo é a má gestão da terra.
orgânica, que fornece os nutrientes para o crescimento das plantas e me- Em comparação com as avaliações anteriores, o estudo revela que a degradação do solo tem
lhora a fertilidade da terra e o movimento da água. A faixa mais superficial afetado novas regiões desde 1991, enquanto que algumas áreas historicamente muito degra-
do solo armazena sozinha cerca de 2,2 trilhões de toneladas de carbono, dadas foram tão afetadas que agora estão estáveis com baixo nível de produtividade, por terem
três vezes mais que o nível atualmente contido na atmosfera, como infor- sido abandonadas ou exploradas.
ma o relatório do PNUMA de 2012. Esses estoques de carbono no solo Os dados sobre a degradação do solo em nível mundial são parte do estudo apresentado
são altamente vulneráveis às atividades humanas, diminuindo de forma pela FAO, pelo Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (PNUMA) e pela Informação
significativa e rapidamente em resposta às mudanças na cobertura e no Mundial do Solo (ISRIC). O estudo se chama Avaliação da Degradação do Solo em Zonas Áridas
uso do solo, tais como desmatamento, desenvolvimento urbano e o au- (LADA, em inglês) e foi financiado pelo Global Environment Facility.
mento das culturas, bem como resultado de práticas agrícolas e florestais Por exemplo, a extensão da desertificação no mundo já afeta seriamente 33% da superfície emer-
insustentáveis. Além disso, o carbono do solo é facilmente perdido, mas sa do planeta, que abrigam mais de 2,6 bilhões de pessoas, 42% da população mundial e 22% da
muito difícil de ser reposto. produção mundial de alimentos são oriundos de áreas fortemente susceptíveis à desertificação.
Quando a matéria orgânica do solo é destruída, o carbono é convertido O ranking atual por país e por população rural afetada com a degradação dos solos é a se-
em dióxido de carbono e ele é perdido do solo para a atmosfera. Assim, o guinte (PNUMA, 2014):
aquecimento global ficará pior à medida que a agricultura acelerar a taxa 1 China (457 milhões de pessoas)
de decomposição da matéria orgânica do solo, reduzindo a quantidade 2 Índia (177 milhões de pessoas)
de carbono que o solo é capaz de armazenar. Desde o início do século 3 Indonésia (86 milhões)
XIX, aproximadamente 60% do carbono armazenado nos solos foi perdido 4 Bangladesh (72 milhões)
como resultado das mudanças no uso da terra, tais como limpá-la para 5 Brasil (46 milhões)
a agricultura e agropecuária, maltratos diversos, esgotamento e para a
expansão de áreas urbanas das cidades. À medida que a demanda global Já vimos como um bom solo arável é espanto-samente complexo e rico em vida. Essas for-
por alimentos, água e energia aumentar drasticamente, como se prevê, o mas de vida no solo pesam mais do que as vivem sobre ele: o equivalente a 12 cavalos por acre.
Nota a destruição dessa fina película
solo ficará sob uma pressão cada vez maior. Em cada grama de solo pode haver 4000 genomas diferentes e eles diferem enormemente de
(40 a 100 cm) da superfície do solo que
concentra a matéria orgânica humificada, um local para outro. Essa inestimável vida orgânica tem sido sistematicamente destruída em
No futuro, o solo se tornará cada vez mais crucial para a humanidade, pois interromperia o ciclo da fotossíntese e áreas agrícolas de todo o mundo, pelo uso indiscriminado de pesticidas e fertilizantes. Nos
a população mundial dobra a cada 40 anos enquanto que a superfície da certamente ocasionaria a extinção da vida EUA, onde a agricultura tem sido uma história de sucesso, um terço do solo arável foi perdido e
na Terra, com exceção de uns pequenos
Terra disponível para a agricultura é somente de 7%! grupos de seres procariontes quimios-
grande parte daquele que resta, está degradado. Depois de um século de agricultura intensiva
sintetizantes, já que em última análise a vida no estado de Iowa, o lugar no mundo com a maior concentração de solo arável de excelente
depende dos organismos clorofilados, os qualidade, metade do solo morreu e o restante está semimorto.
quais por sua vez, dependem do solo. Toda
a vida na Terra depende da seguinte reação:
6 CO2 + 12 H2O + Luz > C6H12O6 + 6 O2 + 6 H2O.
248 JACQUES DE MEDINA 249

O cerrado e a caatinga já perderam metade da sua vegetação e seu desmatamento é acelerado! Considerações sobre a criação
A produtividade do solo nas Grandes Planícies americanas caiu cerca de 70% durante os do homem a partir da argila
primeiros anos de seu cultivo. Pior ainda é o fato de que em grande parte do resto do mundo, a
perda de solo por tonelada de alimentos produzidos, é pior do que nos Estados Unidos, segundo Francisco José Casanova
a FAO (2010).
Embora grandes esforços tenham sido feitos nos EUA para restaurar o solo, melhorando e
revigorando-o, 90% das suas terras agrícolas está perdendo fertilidade num ritmo 17 vezes
maior do que o da formação de novo material fértil (Eisenberg, 1999).
O desmatamento também deve ser combatido com o maior rigor possível, pois uma vez que
a floresta desaparece, a biodiversidade e o solo são contínua e inexoravelmente destruídos.
Num país tropical como o Brasil, onde 70% da pedosfera são constituídos por solos residuais
fortemente lixiviados e de caráter ácido, continuarmos com o desflorestamento e com as
monoculturas é caminharmos para uma situação sombria e sem esperança. Ora, desde o
século XVI, quando aqui aportou o Sr. Pedro Álvares Cabral, não temos feito outra coisa a não
ser agredir nossas florestas e nossos solos. A ferro e fogo foram destruídos 93% da Mata COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO O autor examina, compara e discute a criação do homem a partir
Atlântica, 50% do Cerrado, 46% da Caatinga. A degradação se acelera no Pantanal (vem sendo da argila, contada pelas narrativas mitológicas e religiosas das várias civi-
destruído aceleramente nos últimos 20 anos), nos manguezais, nas florestas de araucária e lizações que se sucederam ao longo do espaço e do tempo. Compara-as
no Pampa (estimativas de perda de hábitat dão conta de que em 2002 restavam 41% e em com as teorias científicas modernas e também examina com algum porme-
2008 restavam apenas 36% da vegetação nativa deste bioma). A maior floresta tropical do nor, o possível papel dos argilominerais na origem da vida e porque esta é
mundo está ameaçada, pois 20% da floresta amazônica já foram eliminados e o restante do baseada no carbono e não no silício. A criação do mundo e as sérias conse-
ecossistema segue ameaçado em proporções crescentes. Por exemplo; o Nordeste, outrora quências da vida carbonada também são discutidas.
coberto por abundantes florestas, hoje conta com mais de 600 mil quilômetros quadrados
desertificados. São Paulo e Rio Grande do Sul já eliminaram praticamente suas coberturas
de vegetação, possuindo hoje, somente (5 e 1,5) % de seu território coberto com florestas 1 INTRODUÇÃO
nativas, respectivamente. Situações análogas podem ser encontradas em todo o Brasil, espe-
cialmente na Caatiga, no Cerrado e na Mata Atlântica. O Homem e o seu cérebro (com seus 1011 neurônios e suas mais de 1014
de conexões) é o mais complexo sistema que a ciência já encontrou em
sua exploração do mundo. A maioria concorda que os anthropoi (termo
PODEMOS AINDA EVITAR A CATÁSTROFE? grego para seres humanos sem significar literalmente, aqui, a humani-
dade com suas particularidades, mas com o sentido geral da comple-
Talvez. Mas estou cético a este respeito. Vejo a situação muito complicada e sem uma solução xidade própria da vida baseada no carbono), sem dúvida foram criados
em curto prazo. Creio que, enquanto não tivemos consciência de que pertencemos, juntamente por uma inteligência superior cósmica de difícil descrição, a qual se
com todos os seres vivos, à mesma trama da vida; enquanto houver ganância sem limite e for denominou de Deus.
possível lucrar desmesuradamente com a natureza, dificilmente haverá mudança no panorama Todos nós conhecemos a versão bíblica da criação do homem por
que atualmente vemos e vivemos. esse Deus. O Livro do Gênesis (circa 1200 AC) descreve Adão como sen-
Pessimismo? Pode ser; porém, prefiro ser um pessimista racional a um otimista alienado. do feito “do pó da terra”, e no Talmude, Adão é descrito como tendo sido
moldado a partir da argila.
Então, disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e conforme
AGRADECIMENTO a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). E assim, para formar o corpo do
homem, Deus fez uso da matéria existente, previamente por Ele criada:
O autor agradece penhoradamente à Gaia, pelo solo, essa sua criatura encantadora, esse mag- tomou o pó da terra e com ele modelou o ser que chamou de homem e
nífico ser, que me seduziu e encanta há já 41 anos. com seu sopro, infundiu-lhe a vida e o espírito (a alma).
Esse punhado de pó de terra com o qual Deus modelou o homem é o
PALAVRAS-CHAVE argila, solo, a argila. Em Gênesis 2:7 lemos que: “Então Iahweh Deus modelou o
Deus, criação, homem, carbono, homem com a argila da terra (do solo) e insuflou em suas narinas o hálito
universo, gnosticismo, 666 da vida, e o homem se tornou um ser vivente”.
• Referências bibliográficas na página 405.
250 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 251

Em Isaías (64:8) lemos: “Mas agora, Óh meu Senhor, Tu és nosso Pai; nós somos a argila e Figura 1 está presente também no nosso idioma cuja origem latina remonta ao
tu és o nosso oleiro; somos todas obras das tuas mãos”. antigo idioma dos primeiros romanos. (Figura 1)
É notável que a frase hebraica que a Bíblia de Jerusalém (versão utilizada aqui) traduz como O vocábulo-raiz hum parece ter originalmente se referido à terra ou
“argila do solo” é “apar min-hadamah”. Apar pode ser traduzido como “poeira” e min-hadamah solo, acabando por dar origem a humanus e humano, ser e espécie.
como “do solo”. Apar é o mesmo vocábulo usado para a frase muito conhecida por nós, pre- Isto sugere que nossos antepassados se percebiam como sendo origi-
sente em Gênesis (3,19): pois tu és pó e ao pó voltarás. É também interessante notar que o ato nários do solo.
de enterrar os mortos seguiu-se ao costume ancestral de devolver ao seio da mãe-terra o filho Assim temos que humano vem do latim humus e húmus por sua vez
que dela se ausentou, talvez cumprindo a antiga máxima bíblica de que “do pó vieste e ao pó nós conhecemos como uma terra mais ou menos preta, rica em nutrien-
retornarás”. A expressão hebraica para a substância utilizada por Deus para criar o homem, tes e microrganismos, ótima para a agricultura, pois apresenta grande
significa a terra solta; o solo, aquela que encontramos no chão. Por isso creio que a tradução fertilidade. Então humus é terra/solo cheia(o) de vida, e quando nos da-
mais correta para o pó da terra, é o solo vindo, em seguida, a da argila. mos conta de que o “ser humano” tem esta origem, percebemos que é o
Adão (Adam) significa o “homem terreno” (da Terra), o homem que foi feito a partir da terra; mesmo que dizer que o homem é a “terra viva”.
do solo. A palavra Adão provém do hebraico ‫ םָדָא‬que foi traduzido para o grego ἀνδρός (an- O mais fantástico é perceber a semelhança do conceito bíblico de ho-
drós) que é o genitivo singular de ἀνήρ (anér) e para o latim “homo”, vindo a dar, “homem”, ou, mem formado do pó da terra, encontrado também na etimologia da pa-
simplesmente, “Adão”, do hebraico. lavra no latim.
O termo hebraico ‫ םדא‬tem a ver tanto com a palavra adamá/adamah (terra vermelha ou argila Não obstante, essa mesma história não é privilégio dos sumérios e
vermelha), quanto com as palavras adom (“vermelho”) e dam (“sangue”). nem do judaísmo. Muito pelo contrário. Em muitos mitos da Antiguidade,
Alguns autores admitem que a palavra Adam no hebraico, deve ser traduzida como humano, pode-se observar nas narrativas ou em outras formas de representação,
e vem de outra palavra hebraica “adamash” que é um tipo de solo argiloso, comum em partes que o solo (a terra) exerce papel importante na existência do homem
do Oriente Médio e que apresenta uma cor avermelhada mais ou menos intensa. (Campbell, 2005). De fato, ela é encontrada em praticamente todas as
Seja como for, isto nos permite especular que muito provavelmente a matéria prima de regiões da Terra, contada por muitos outros povos, bastante separados
Deus tinha cor vermelha e por certo foi utilizada uma argila contendo óxidos-hidróxidos de Fe no tempo e no espaço. Parece que a intenção de ligar o homem à terra,
livres (goetita e hematita), pois Adão vem do hebraico “vermelho” e adom, cujo termo tem a pode estar ligada à importância que os primeiros homens davam à agri-
mesma raiz, é usado para designar ‘terra’ (do hebraico ‘adama’). De fato, em determinados lo- cultura para sua sobrevivência.
cais, o solo daquela região, muito amiúde tem um forte tom avermelhado (www.wutang-corp.
com). Outra possibilidade é o local da criação, supostamente o Éden, ter sua localização nos
trópicos. Mas, tanto para uma como para outra hipótese, isso implica na existência de solos TERRA: A MATÉRIA PRIMA DOS HUMANOS*
contendo óxi-hidróxidos de ferro em ambas as localidades.
Assim, a palavra hebraica Adam significa Adão e é derivada da palavra Adom, que quer O desenvolvimento humano pode ser visto como uma história de dis-
dizer vermelho; que tem a cor vermelha. Da mesma raiz, Adama e Dam significam terra/solo tanciamento, de alienação dos humanos de sua matéria prima – a terra.
e sangue, respectivamente. É interessante notar que o verbo hebraico yatsar (formar) sugere Nessa história, homens e mulheres alcançaram grandes, impressionantes
e nos induz a pensar no trabalho de um artesão, um ceramista ou um oleiro, moldando a sua conquistas tecnológicas. “No entanto, a terra e o seu ciclo bem como o
obra em sua matéria prima: novamente encontramos o solo argiloso, a argila. De fato, a figura ritmo natural de vida, perderam em importância”, como muito bem avaliou
de Deus apresentada no relato da criação é a de um oleiro com incrível capacidade artística. o coordenador adjunto do Conselho de Missão entre Índios (Comin), Hans
Percebe-se a clara intenção de ressaltar a origem do ser humano, que tem íntima ligação com Trein, durante a realização do seminário Terra, na IECLB, em agosto de
Deus e com a terra que ele criou. 2007, quando lembrou com muita propriedade, que o solo foi reduzido
Contudo, a história da criação do homem, contada pela tradição hebraica, encontra o seu a um meio capitalista de produção, um recurso material comercializável,
parentesco primal na antropogenia suméria, segundo a qual a humanidade é fruto do sangue deixando de ter uma conotação de ser vivo.
dos deuses e da lama da terra, ideia que se reproduzirá nas tradições judaico-cristã e islâ- “Se compararmos a nossa visão de mundo ocidental com as visões de
mica, onde também o homem é considerado moldado da terra/argila pelas mãos de Deus e mundo indígenas, vamos constatar concepções completamente opos-
* Excerto resumido da meditação
animado pelo seu espírito. tas: nós ocidentais falamos em natureza, os indígenas falam de mãe-
apresentada pelo Padre Hans Alfred Trein,
Alguns estudiosos defendem que a verdadeira origem do nome está no sânscrito Adi-Aham, secretário adjunto do Comin, no dia 17 -terra; nós ocidentais consideramos o domínio da natureza como marco
palavra formada por termos diferentes: Adi, que significa “o primeiro” e Aham, que pode ser de agosto de 2007, na Casa Matriz das de desenvolvimento, ao passo que povos indígenas consideram sua inte-
Diaconisas, em São Leopoldo/RS, na
traduzido como “ego”. Assim, o nome significaria “o primeiro ego”; o primeiro eu, o que tam- gração no todo da criação como marco de desenvolvimento”.
abertura do Seminário sobre a temática:
bém se refere à história da criação do primeiro homem na Terra por Deus. Terra, um tema candente/urgente na IECLB
De fato, parece que quanto mais as sociedades se desenvolveram e se
O nome na origem sânscrita também pode significar literalmente o conceito filosófico do (Igreja Evangélica de Confissão Luterana afastaram de suas origens tribais na direção de modernas sociedades
“eu sou”, um modelo do existencialismo individual do ser humano. Curiosamente, esta relação no Brasil). de estado, tanto mais elas se distanciaram de sua ligação com a terra.
252 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 253

“Um exemplo disso é que nos países desenvolvidos há cada vez menos agricultores, um fator de nossa ligação com a terra”, afirma Trein. “O conceito de domínio foi amplamente aplicado
quase alçado ao status de critério para medir o grau de desenvolvimento”. e resultou no que estamos vendo e vivenciando. Trouxe progresso tecnológico e o sentimento
Na política de desenvolvimento, por muitos anos, falou-se da contraposição de países agrá- de que os humanos na verdade são os verdadeiros deuses e criadores (Salmo 8, v5: fizeste o
rios a países industrializados, para distinguir entre países subdesenvolvidos e países desen- ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe deste a glória e a honra de um rei). Porém, não
volvidos. Na Alemanha, com 85 milhões de habitantes, menos de 400 mil lutam para sobrevi- é um acaso isolado em que Deus foi europeu.
ver na agricultura; enquanto no Brasil, com 210 milhões, entrementes ainda se considera 12% Diante de todas as mazelas ambientais e da violência na terra, é hora de nos inspirarmos
de população rural como índice de subdesenvolvimento, enquanto na costa brasileira vão se e de nos dedicarmos ao relato da criação que fala dos humanos criados a partir do “húmus”,
multiplicando as grandes metrópoles. Trein lembrou que em nossa Bíblia conservamos dois emprestando os olhos dos povos indígenas e buscando analogias em seus mitos para com-
relatos da criação. Um deles espelha muito dos povos indígenas. Por exemplo, para os abo- preendê-lo ainda melhor. Todo o pedaço de terra é sagrado para o nosso Deus. Juntos com os
rígenes australianos, a terra consiste no pó dos antepassados. Para eles não existe morte, animais, nós somos pedaços de húmus animados pelo sopro divino, enfatizou Trein.
apenas transformação. O corpo humano se torna novamente terra para servir de nutrição para
as plantas que, por sua vez, possibilitam a respiração a outros seres vivos, animais selvagens
para servirem de alimento para netos e bisnetos. À semelhança dos povos indígenas de ou- O QUE O ALCORÃO ENSINA (SÉCULO VII)
tros continentes, eles se autodenominam “os verdadeiros humanos” para distinguir-se de nós,
outros ocidentais a quem eles denominam de “os humanos modificados”. O Islã nos fornece os detalhes surpreendentes da criação de Adão [baseado no trabalho do
O que todos eles creem coincide muito bem conceitualmente com o segundo relato bíblico Imam ibn Katheer, As histórias dos profetas]. As tradições cristãs e judaicas são notavelmente
da criação, no qual Deus forma um boneco de terra, para em seguida insuflar-lhe o sopro da semelhantes mas ao mesmo tempo diferem de maneira significativa do Alcorão. O Livro do
vida. A terra do boneco não é qualquer tipo de solo. É adamah, terra agricultável, terra de plan- Gênesis descreve Adão como sendo feito “do pó da terra” e no Talmude, Adão é descrito como
tio. Adão é o terráqueo, feito de adamah, aqueles 12 a 15 cm de solo fértil e vivo. Os humanos, sendo moldado a partir da argila.
portanto, são partes dessa camada de húmus animadas pelo sopro de Deus. E Deus disse aos anjos: “Vou instituir um legatário na minha criação, a Terra! Perguntaram-
Assim, Adam tem uma relação imediata com a adamah. Para permanecer humana, essa -Lhe: Estabelecerás nela quem ali fará corrupção, derramando sangue, enquanto nós celebra-
relação não pode ser perturbada e muito menos interrompida. O vínculo com o sopro de Deus mos Teus louvores, glorificando-Te? Disse (o Senhor): Eu sei o que vós ignorais. Eu vou criar
lhe atribui a função de elo entre Deus e a terra. Aliás, em geral, esquecemos que também os um ser humano a partir da argila. Quando o tiver formado e inspirado o Meu Espírito nele, caí
animais são formados da mesma adamah (Gênesis 2,19). Isso explica, porque nas cosmovi- em prostração diante dele”. (Alcorão 2:30, Surata 38: 71-72).
sões indígenas há trocas muito naturais entre humanos e animais, e que eles entendem os Assim começa a história de Adão no Alcorão, o primeiro homem, o primeiro ser humano.
animais apenas como corporificações diversas da essência humana. Ne-le, Deus criou Adão de um punhado de solo contendo porções de todas as variedades na
O vínculo de terra e o sopro divino constituem a humanidade. Quando Deus busca de volta Terra. Os anjos foram enviados à Terra para coletar o “solo” que se tornaria Adão. De acordo
o sopro de vida concedido, o boneco de argila volta a ser terra. “Terra à terra, cinza à cinza, pó com o Alcorão, ele era “vermelho, branco, marrom e preto; era macio e maleável, duro e are-
ao pó. Da terra foste formado, à terra tornarás”.Tanto me parece belo quanto consolador estar noso; veio das montanhas e dos vales; dos desertos inférteis e de planícies férteis e viçosas
integrado no ciclo da vida dessa forma, estando animado pelo sopro divino. e de todas as variedades intermediárias”. Os descendentes de Adão estavam destinados a
Esse vínculo inseparável também ficou conservado em algumas línguas: os humanos são serem tão diversificados como o punhado de solo do qual seu ancestral foi criado; todos têm
feitos de húmus. A pessoa humana é um pedaço de “húmus” contendo o sopro divino. Quando aparências, atributos e qualidades diferentes.
os humanos se distanciam e alienam da terra, esse vínculo sagrado é destruído. Matar uma É deveras interessante ver que Allah utilizou diversos tipos de solos, para produzir um “solo
pessoa humana significa machucar a terra. Ferir a terra significa matar pessoas humanas. O padrão”, de modo que os descendentes de Adão herdassem seus atributos. Um processo
húmus grita por causa da morte de Abel e abre sua boca para absorver o seu sangue (Gêne- criativo muito mais elaborado do que o usado por Jeová.
sis, 4.10s). O húmus é tão sagrado como a vida humana. Somente nesse vínculo sagrado é Ao longo do Alcorão, o solo usado para criar Adão é chamado de muitos nomes, e a partir
pensável haver um futuro sustentável. disso somos capazes de compreender um pouco da metodologia de sua utilização. Cada
O outro relato da criação é atribuído a autores sacerdotais. Originou-se nos círculos favorá- nome para o solo é usado em uma etapa diferente da criação de Adão. O solo tirado da terra
veis à monarquia na área urbana. Nela falta completamente a ligação entre a pessoa humana e é chamado de terra, mas Allah também se refere a ele como argila. Quando está misturado
a terra. São sublinhadas a imagem e a semelhança a Deus e o domínio sobre animais e plantas. com água se torna lama e quando é deixado em repouso e o conteúdo de água reduz, ele se
Nenhuma palavra sobre Adão ou Adamah. Enquanto o relato tribal encerra, encarregando os torna argila sólida. Se for deixado novamente em repouso por algum tempo começa a ter mau
humanos de cultivar e guardar a criação na qual foram integrados, esse relato estatal fala de cheiro (!) e a cor fica mais escura; é a argila negra, polida. Foi dessa substância que Deus
dominar e sujeitar. Trata a pessoa humana como um ser destacado da criação restante; trata-o moldou a forma de Adão. E Deus disse aos anjos: “Recorda-te do teu Senhor, pois da argila
exclusivamente como sujeito e agente; trata o restante da criação como objeto, caracterizando criarei o homem. Quando o tiver plasmado e alentado com o Meu Espírito, prostrai-vos ante
a relação entre humanos e o restante da criação como uma relação assimétrica, desigual. ele” (Alcorão 38:71-72). Seu corpo sem alma foi então deixado para secar e se tornou o que
“Penso que não é acaso termos conservado a tradição de dois relatos da criação. Num po- é conhecido no Alcorão como a “argila ressonante” (Saheeh Al-Bukhari). Segundo a Surata
demos ver o nosso domínio sobre a terra como que num espelho. No outro somos lembrados (15:26), homem foi criado da argila ressonante, da lama moldada na forma do homem (lama
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negra alterada). “Criei o homem da essência [‫ ]ةلالس‬do solo; fiz de seus grumos os ossos e juntos aos pares, e a raça humana recebeu as leis do trabalho. Essas pessoas suportariam
os revesti com carne; então eu criei outra criatura (a mulher)” (Surata 23:12-14). Ainda no a carga de trabalho dos Igigi. Ela também acrescentou que a criação de Gilgamesh, deu-se
Alcorão, há um versículo onde é dito: “Nós criamos o Homem de um extrato argiloso” (Qur’an, sob o comando de Anu, fazendo Enkidu à imagem de Anu comprimindo um pedaço de argila,
23:12). Em outro, nos é dito que: “Teu Senhor disse aos anjos: Eu vou criar um ser humano a atirando-o para o deserto e lá o fazendo nascer.
partir da argila. Quando Eu o tiver formado e bafejado-o com o Meu Espírito, caiam em pros-
tração!” (Alcorão 38: 71-72). Em seguida, perguntou-lhes: “são eles mais fortes na estrutura Cananeia-Ugarítica
ou em outras coisas que Nós criamos? Nós os criamos da argila untuosa”! (Qur’an, 37:11). A mitologia Cananeia corresponde à religião dos cananeus, descoberta a partir de 1928 como
Outras citações encontradas no Alcorão são: “Criamos o homem de argila modelável” (Ver- resultado de escavações arqueológicas em Ugarit (atual Ras Shamra, ao norte da Síria moder-
so 26 da 15ª Surata – Al Hijr) e “Recorda-te de quando o teu Senhor disse aos anjos: Criarei na). Nela, os homens também são considerados como criados a partir da argila.
um ser humano de argila, de barro modelável”.
Indubitavelmente, o Alcorão é muito mais detalhado e técnico com relação à criação do Sumeriana (1700 A.C)
homem do que o Velho Testamento. Notamos um Deus mais preocupado em elaborar a sua Na mitologia suméria, de 1700 A.C, diz-se que a deusa do nascimento Nammu, vinda das pro-
criatura, ao utilizar um “solo” especialmente fabricado, oriundo da mistura de vários outros fundezas das águas, moldou com argila os seres humanos trazendo-os à vida para serem mão
solos com características distintas, previamente selecionadas. Um Deus muito mais planeja- de obra trabalhadora em substituição aos deuses na manutenção da terra. De acordo com Sa-
dor, cuidadoso e técnico. muel Noah Kramer em Tabuletas da Suméria (Colorado, 1956), Nammu e Ninmah, assistidos
Vejamos então, o que outras civilizações e povos dizem a respeito da criação do Homem. por divindades que são os “bons e principescos artífices”, usando a argila que estava sobre o
abismo, trouxeram o homem à existência.
As tabuletas sumerianas, em caracteres cuneiformes, contam a história da criação. Os deu-
A CRIAÇÃO SEGUNDO OUTRAS RELIGIÕES ses estavam tendo dificuldades em encontrar comida, e seus problemas aumentaram quando
as deusas, mais tarde nascidas, a eles se juntaram. Enki, o deus da água – ele era o deus da
Narrativas sobre a criação dos seres humanos a partir da argila são comuns em todo o mundo, sabedoria e em condições de ajudá-los – adormecido no fundo do mar, não ouviu as suas
incluindo lugares como a Austrália e as ilhas do Pacífico, que não estavam em contato com queixas. A mãe de Enki, mãe de todos os deuses, Nammu, trouxe as lágrimas dos queixosos
qualquer uma das religiões abraâmicas até tempos recentes. para Enki e disse-lhe em sua presença: “Oh! Meu filho faça o que é sábio. Dê forma (faça) para
A origem da teoria da criação humana a partir da argila parece ter se originado em 3100 A.C alguns servos dos deuses. Deixe-os fazer suas próprias cópias”. Enki pensa e decide liderar a
na antiga cidade egípcia de Heliópolis, onde, no âmbito da teologia de Ra, admite-se que o “união de bons e brilhantes modelistas e diz para Nammu: “Óh! mãe, a criatura que você men-
deus do fogo Atum foi autogerado nascendo de um monte de lama argilosa, depois do que ele cionou existe: coloque a imagem dos deuses nele, e forme o coração da argila na superfície
criou as primeiras duas formas de vida: Shu, seu filho, e Tefnut, sua filha, usando a respiração da profundeza sem fim. Bons e brilhantes modelistas vão engrossar esta argila. Você faz os
e a saliva, respectivamente. seus órgãos; Ninmah (deusa da Terra) vai trabalhar na sua frente. Enquanto você está fazendo
um modelo, as deusas do nascimento estarão com você. Óh! Mãe; decida-se sobre a fé dos
Assírio-Babilônica (circa 2000 A.C) recém-nascidos e deixe Ninmah colocar a imagem de deuses nele: este é o ser humano”.
O mito de Atrahasis: a chamada Epopéia de Atrahasis é um poema épico da Mitologia sumé-
ria, sobre a criação e o dilúvio universal. A sua cópia mais antiga data de 1700 A.C quando a Enki & Ninmah
civilização suméria desaparece ante as invasões dos Hititas, acreditando-se que esteja ligada Ela é a deusa-mãe e, como Ninmah, auxilia na criação do homem. Enki, tendo sido suportado
às tradições próprias do templo da cidade-estado de Eridu, cidade vizinha à antiga foz do rio por Nammu para criar servos para os deuses, descreve como Nammu e Ninmah ajudaram a
Eufrates. É um dos mitos de criação mais antigos de toda a região do Oriente Médio, narrando moldar o homem da argila. Antes de começar a trabalhar, ela e Enki bebem em demasia em uma
a trajetória de Atrahasis, que significa “o muito inteligente”. festa. Ela, então, forma seis versões imperfeitas do homem a partir do coração da argila sobre o
A narrativa: “Estando os deuses reunidos, Anu, pai de todos eles, admite que os rebeldes Abzu, com Enki declarando seus destinos. Enki, por sua vez, também cria um homem falho, que
tivessem motivos para as suas queixas. Os deuses decidiram então criar o homem, para que é incapaz de comer. Ninmah parece amaldiçoá-lo pelo fracassado esforço.
este se encarregasse dos seus serviços. Ea (ou Enki), deus das águas, deu então o seguinte
conselho: “[ ] que se degolasse um deus e todos os demais deuses se purificassem no banho Os Anunnakis: da argila à vida
de seu sangue. E que à sua carne e ao seu sangue, Nintu (ou Mami), a deusa-mãe, misturasse As tabuletas sumérias, encontradas no Iraque, detalham como os deuses Anunnakis alteraram
um pouco de argila, de maneira a que deus e homem estivessem misturados, constituindo as- geneticamente os genes dos hominídeos que estavam em Ki (a Terra), adicionando alguns de
sim uma só carne e um só espírito”. seus genes àqueles seres, criando assim o trabalhador primitivo para a extração do ouro de
Os deuses presentes concordaram e degolaram Wé, um deus desconhecido. Ea e a deusa- nosso planeta.
-mãe chamaram então as sete genitoras, que se puseram a pisar a argila ao som de encan- Enki, com a ajuda de Ninhursag, criou a raça humana através de um processo de engenharia
tamentos mágicos. A deusa-mãe cortou então catorze pedaços de argila, sete à esquerda e genética, adicionando e combinando genes dos Anunnakis e dos hominídeos. Depois de mui-
sete à direita, e as deusas deram à luz sete varões e sete mulheres que, imediatamente, foram tos erros e ensaios, o modelo perfeito foi alcançado. Exatamente como? Segundo um trecho
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do Livro Perdido de Enki, de Zecharia Sitchin, os Anun-nakis estavam utilizando recipientes no ventre de suas mães. Sua atribuição como “Oleiro divino” e “Aquele que cria as coisas de si
de cristal de Nibiru (Lar dos Anunnakis) e a experiência não estava dando certo. Enki, então, mesmo”, se estenderia também aos deuses, aos quais também teria moldado.
sugeriu que a inseminação do óvulo fosse feita em recipientes de argila de Ki (Planeta Terra),
porque talvez fosse isso que estivesse faltando para a sobrevivência do óvulo. “Possivelmen- Africana
te, o impedimento não esteja nem no óvulo da fêmea nem nas essências! Pelo que a Terra Os Shilluk, que vivem ao longo do Nilo, no Sudão, dizem que Juok (Deus) criou o homem a partir
mesma está forjada, possivelmente seja isso o que falta! Não use um recipiente de cristais de da argila. Ele viajou para o norte e encontrou um pouco de argila branca, da qual foram feitos os
Nibiru, mas faz uso da argila da Terra!” Assim disse Enki, ser de grande sabedoria, a Ninmah. E europeus. Os árabes foram feitos de argila marrom-avermelhada e os africanos de terra preta.
assim foi feito o homem primitivo, inicialmente escravo após algumas tentativas malogradas; Os Pangwe de Camerões dizem que Deus criou primeiro um lagarto a partir da argila, e que
depois trabalhador. em seguida ele o colocou em um recipiente de molho, deixando-o lá por sete dias. Em segui-
Ainda com relação aos Anunnakis, existem mais duas narrações e dois modos da criação da, disse “Homem, apareça!”; e um homem surgiu ao invés de um lagarto.
do homem:
Inca
(i) Narração da argila molhada O deus Viracocha criou a Terra e o Céu e po-voou a terra com os homens. Não havia sol e as
Cansados de tanto trabalho e sendo os deuses menores os mais afetados, estes ameaça- pessoas andavam nas trevas. Mas eles desobedeceram a seu Criador e ele decidiu destruí-
ram revoltar-se, isso não acontecendo porque Namu, a mãe de Enki, pediu ao filho para que -los, transformando alguns em pedra e afogando o resto em uma enchente que subiu acima
resolvesse criar um substituto para realizar os trabalhos dos deuses. Este aceitou e, através das montanhas mais altas do mundo (dilúvio!). Os únicos sobreviventes foram um homem e
da sua magia e com seus ajudantes, entre as quais estava Ni-nhursag, predispôs-se a criar uma mulher que permaneceram em uma caixa de madeira (arca!) e, quando a água baixou, foi
os seus substitutos. Para isso, chamou Imma-en e Imma-shar e colocou-as à sua frente. Em levada pelo vento para Tihuanaco, a morada do Criador. Lá, ele criou todos os povos e nações,
seguida, estendeu sobre elas o seu braço. A partir desse gesto criador, gerou-se um feto no fazendo figuras de argila e pintando as vestimentas de cada nação. Para cada uma delas deu
seio dessas duas ajudantes e, pouco a pouco, esse feto foi crescendo de acordo com o que uma língua, canções e sementes para semearem. Então, ele soprou a vida e a alma na argila e
ele tencionara. Depois Enki chamou por Namu e pediu-lhe para molhar a argila do Apsu do ordenou cada nação a passar debaixo da terra e emergir no lugar que ele indicou. Esta narrativa
qual tinham nascido todos os deuses. Enki colocou nessa argila molhada os fetos que se de- é impressionante!
senvolveram e saíram, a seu tempo, um homem e uma mulher. Foi assim que a humanidade Outra versão estipula que entre os incas antigos, havia vários mitos da origem do homem. Um
foi criada por Namu. destes mitos diz que os seres humanos fo-ram criados da argila, pelo deus Viracocha que é Apu
Kun Tiqsi Wiraqutra no dialeto inca. A divindade suprema inca, Viracocha, fez pessoas de argila,
(ii) Narração da argila amassada com o sangue de um deus vestindo-as com roupas cujos desenhos coloridos distinguiam uma nação da outra. Ele deu a
Ao ser chamado para dar origem aos homens e mulheres, com a ajuda de Nintu (Ninhursag), cada grupo sua própria língua e costumes, então, soprou o sopro vital sobre eles e os enviou
Enki responde: no primeiro, no sétimo e no décimo quinto dia do mês, devo fazer um ritual para diferentes locais, ordenando que emergissem das cavernas, lagos e montanhas.
de purificação por lavagem. Então, um deus deverá ser sacrificado. E os deuses poderão ser
purificados por imersão. Nintu deverá então misturar a argila com a carne e o sangue [deste Grega Antiga
deus]. Então, homem e deus irão existir juntos na argila. Prometheus moldou o homem de uma lama argilosa e Athena deu vida a essa figura de argila.
É de notar, também, a imortalidade da alma, pois se diz que ela viverá para sempre. Com Segundo a mitologia, a Terra era sombria e sem vida quando os deuses começaram a dar vida
efeito, o vocábulo “espírito” pode corresponder a dois termos muito parecidos: etammu (fan- e a pôr cada coisa em seu devido lugar. Porém, faltava um animal nobre que pudesse servir de
tasma) ou temmu (inteligência). Mas, tanto um termo como o outro podem muito bem ser uti- recipiente para um espírito. Tal tarefa foi incumbida a dois titãs: Epimeteu (aquele que reflete
lizados para descreverem o espírito. O “fantasma” (etammu) é usado para descrever o espírito tardiamente) e Prometeu (aquele que prevê). Epimeteu criou os animais, dando-lhes todas as
sem o corpo de homens e de mulheres que sobrevivem à morte, o que noutras civilizações e características distintas; Prometeu ficou responsável por criar um ser à imagem e semelhança
culturas vai ser a alma. dos deuses. Tomou um pouco de terra/solo e o molhou com a água de um rio, obtendo assim
Portanto, o homem e a mulher foram criados, física e espiritualmente, do sangue da divinda- um material que foi moldando com carinho e dedicação até conseguir uma imagem semelhan-
de e da argila fertilizada pelas águas doces das profundezas da terra. São, pois, constituídos te à de seus deuses. Porém, o homem estava sem vida e, por isso, Prometeu tomou todas as
por um corpo (perecível) e uma alma (imortal) para servir os deuses e os seus irmãos. coisas boas que seu irmão Epimeteu colocou nos animais, e também as colocou no homem.
Mas, ainda faltava algo mais forte. Prometeu tinha amizade com uma deusa, Atená, admiradora
Egípcia Antiga da obra dos titãs que deu ao homem o espírito que lhe faltava. (Eliene Percília, Brasil Escola).
Elefantina é o nome grego de uma pequena ilha no Nilo situada junto à Primeira Catarata. Nessa
ilha, dominava uma tríade encabeçada por Cnum, deus com cabeça de carneiro e um dos mais Ameríndia do sul da Califórnia
antigos do Egito, ligado à fonte do Nilo, e que representava a criatividade e o vigor do rio. Como Chinigchinich então formou o ser humano, macho e fêmea, a partir da argila encontrada nas
o rio, em suas cheias anuais, depositava argila e lodo nas suas margens, acreditava-se que ele fronteiras de um lago.
criava os corpos das crianças em seu entorno, como o oleiro cria as suas peças, e os colocava
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Asiáticas tou uma porção da argila em um dos outros pedaços de casca e a moldou em uma forma
Em Burma, Deus criou o primeiro homem da terra/solo e, após terminar a obra da criação, então humana; primeiro ele fez os pés, depois as pernas, depois o tronco, os braços e na cabeça.
ele criou a mulher. E do que ele a formou? Ele tomou uma costela do homem e criou a mulher. Assim, ele fez um homem da argila de cada um dos dois pedaços de casca e estando muito
Os aborígenes de Minahassa, no norte de Celebes, dizem que dois seres chamados Wailan satisfeito com sua obra ele dançou em volta deles e se rejubilou. Em seguida, ele tomou a
Wangku e Wang foram os criadores dos humanos, a partir de terra/solo. Disse Wailan Wangku casca fibrosa das árvores de eucalipto, fez o cabelo e colocou-o sobre a cabeça de seus
para Wang, “volte, tome a terra e faça duas imagens: a de um homem e de uma mulher”. homens de argila. Então, ele olhou para eles novamente, ficou satisfeito com o seu trabalho,
Os Sakarran e os Dyaks de Bornéu dizem que o primeiro homem foi feito por dois grandes e novamente dançou e se alegrou em volta deles. Então, se deitou sobre eles, soprou seu
pássaros. No início, eles tentaram fazer o homem das árvores, mas em vão. Em seguida, eles pesado hálito em suas bocas, narizes e em seus umbigos, ordenando que se erguessem
o talharam da rocha, mas as figuras não podiam falar. Em seguida, eles moldaram um homem como homens crescidos.
da terra úmida e infundiram em suas veias a goma vermelha da árvore-kumpang; depois do
que ele foi chamado e respondeu. Então, eles o cortaram e o sangue fluiu de seus ferimentos, Ilhas do Pacífico
de modo que lhe foi dado o nome de Tannah Kumpok ou terra moldada. Os Maoris da Nova Zelândia dizem que um determinado deus chamado de Tu, Tiki, ou Ta-ne,
O deus supremo da ilha de Nias, o Luo Zaho, tomou um punhado de terra tão grande quanto tomou uma argila vermelha e amassando-a com seu próprio sangue, formou uma figura com
um ovo e formou a partir dele uma figura. Tendo feito isso, ele a colocou na balança e pesou; ele os olhos, pernas, braços, e tudo mais completo, moldando assim uma cópia exata de si. Ten-
também pesou o vento e, tendo-o pesado, ele o colocou na boca da figura que tinha moldado. do então modificado esse modelo, ele animou-o através da respiração em sua boca e narinas,
Assim que a figura falou como um homem ou como uma criança, Deus deu-lhe o nome de Siha. após o que a efígie de argila de uma vez só veio à vida e espirrou. “De todas essas coisas”,
Os Bila-an, uma tribo selvagem de Mindanao (uma das ilhas Filipinas), relacionam a criação disse um maori, ao relatar a história da criação do homem, “o mais importante é o fato de que
do homem com um ser chamado Melua. Ele o formou em conformidade à sua semelhança a a argila espirrou, porquanto esse sinal do poder dos deuses permanece conosco até hoje para
partir da sobra com a qual ele tinha moldado a terra/solo. E este foi o primeiro ser humano. que possamos nos lembrar do grande trabalho realizado no altar da Kauhanga-Nui. Assim,
Os Bagobos, outra tribo pagã do sudeste de Mindanao, dizem que, no início, certo Diwata fez o quando os homens espirram estão repetindo as palavras de TU que dizem: Espirre Oh! Espírito
mar e a terra e plantou árvores de muitos tipos. Então ele tomou dois torrões de argila, moldou- da Vida. Ele chamou-o então de Tiki-Ahua; isto é, à semelhança de Tiki”.
-os como figuras humanas e cuspiu sobre eles, transformando-os em homem e em mulher. Uma tradição passada do Tahiti, diz que o primeiro casal humano foi feito por Taaroa, o
Os Kumis, que habitam porções de Arakan e das colinas de Chittagong, na Índia Oriental, deus principal. Diz também que, depois de ter criado o mundo, ele criou o homem de uma terra
contaram para o explorador e capitão inglês Lewin, a seguinte história da criação do homem: vermelha, que também foi o alimento da humanidade, até a fruta-pão ter sido produzida. Além
Deus fez o mundo, as árvores e os répteis em primeiro lugar, depois ele fez um homem e uma disso, alguns dizem que um dia, Taaroa chamou o homem pelo nome e quando ele chegou,
mulher, formando seus corpos da argila. ele o fez adormecer. Enquanto ele dormia, o criador tirou um de seus ossos e fez deles uma
De acordo com os Korks, uma tribo indígena das províncias centrais de Índia, o deus Thereu- mulher que ele deu ao homem para ser sua esposa. E assim, os dois tornaram-se os progeni-
pon (Mahadeo aka Shiva) tomou um punhado de terra vermelha e fez à sua semelhança duas tores da humanidade.
imagens: a do primeiro homem e da primeira mulher. Em Nui, uma das ilhas Ellice, é dito que o deus Aulialia fez modelos de um homem e uma
Uma lenda é contada com uma curiosa variação, pelos Mundas, uma primitiva tribo de abo- mulher a partir de terra argilosa e, quando Ele levantou-os, eles tomaram vida. Chamou o ho-
rígenes de Chota Nagpur. Eles dizem que o deus-Sol de nome Singbonga, primeiro moldou mem de Tepapa e a mulher de Tetatẹ.
duas figuras de argila; uma representando o homem e outra a mulher. Os ilhéus Pelew relatam que um irmão e uma irmã fizeram os homens a partir de argila
Os Santals de Bengala dizem que Malin Budha fez os seres humanos de um tipo de espuma amassada com o sangue de vários animais, e que os caracteres desses primeiros homens e
proveniente de um ser sobrenatural que habitava o fundo do mar; mas outros dizem que ela de seus descendentes, foram determinados por aqueles dos animais cujo sangue tinha sido
os fez de uma argila seca e dura. misturado com a argila primordial.
De acordo com uma lenda da Melanésia, contada em Mota, uma das ilhas Banks, o herói
Chinesa Qat moldou o homem com a argila vermelha da beira de um rio pantanoso em Vanua Lava.
Para os antigos chineses, os responsáveis pela criação do homem e da humanidade foram Os habitantes de Noo-hoo-roa, nas Ilhas Kei, afirmam que seus antepassados foram forma-
a deusa Nukua ou Nuwa e seu irmão-marido Fu-Xu. Ambos os deuses são retratados muitas dos a partir da argila, pelo deus supremo Dooadlera, que deu vida às figuras moldadas.
vezes, tendo a metade do corpo na forma de uma serpente e a outra metade na forma humana. Os Marindineezes, uma tribo que ocupa a planície lúgrebe, monótona e sem árvores na
Quanto à questão da origem do homem, a mitologia diz que os dois criaram a humanidade antes costa sul da Nova Guiné Holandesa, não muito longe da fronteira do território britânico,
do dilúvio, e que o homem foi recriado após aquele, a partir da argila. dizem que um dia uma cegonha estava ocupada pescando peixes do mar. Ela jogou-os na
praia, onde a argila que tinha escorrido com a chuva, os cobriu e matou. Os peixes e a argila
Australiana então se transformaram numa massa disforme. Em seguida, eles foram aquecidos por um
Os aborígenes negros australianos, na vizinhança de Melbourne, disseram que Pund-jel, o incêndio num bambuzal, de modo que toda vez que os bambus estouravam e pipocavam
criador, cortou três grandes folhas de casca com seu facão. Em uma delas, ele colocou um devido à queima, a massa de argila assumia cada vez mais a forma de seres humanos, até
pouco de argila e trabalhou-se com a faca até uma consistência adequada. Ele então dei- atingir a forma final.
260 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 261

Européia o mundo. Contudo, Obatalá teria caído em um sono profundo após se embriagar, e, com isso,
Os Cheremiss, um povo da região da Finlândia, contam uma história da criação do homem Olodumaré incumbiu a orixá Odudua de criar o mundo. Odudua cumpriu com sua missão e
que recorda episódios dos Toradjan (grupo étnico de South Sulawesi, Indonésia) de lendas criou a Terra, as plantas e os animais. Mas então, quando Obatalá despertou de seu sono,
indígenas sobre a criação do homem. Dizem que Deus moldou o corpo do homem com argila ficou inconformado por ter perdido seu trabalho para Odudua. A fim de evitar confusões, Olo-
e, em seguida, subiu ao céu para buscar a sua alma, com o qual lhe deu a vida e o espírito. dumaré incumbiu Obatalá de criar o ser humano e o mesmo aceitou o desafio tentando criar
o homem a partir de diversos elementos, mas todas as tentativas acabaram fracassando, até
Americanas que a orixá Nanã vendo a tristeza de Obatalá, lhe deu uma ajuda: ela lhe ofereceu uma argila
Os esquimós de Point Barrow, no Alasca, contam a história de uma época em que não havia ou lama. No fim, Obatalá conseguiu criar a raça humana e assim povoou o mundo, moldando
nenhum homem na terra, até que certo espírito chamado Á Sê Lu, que residia no local, fez o ser humano da argila e lhe dando em seguida o sopro da vida.
um homem de argila, deixou secá-lo, alentou-o e deu-lhe a vida. Outros esquimós do Alasca
relatam como um corvo fez a primeira mulher de argila para ser a companheira do primeiro Mitologia Tupi-Guarani
homem. Ele prendeu a parte de trás da cabeça com grama para ser o cabelo e bateu as asas A figura primária na maioria das lendas guaranis da criação é Iamandu (ou Nhanderu ou Tupã), o
sobre a figura de argila, fazendo com que uma bela jovem criasse vida. deus Sol e realizador de toda a criação. Com a ajuda da deusa lua, Araci, Tupã desceu à Terra num
Os índios da Califórnia, dizem que um ser poderoso chamado Chinigchinich Acagchemem lugar descrito como um monte na região do Aregúa, Paraguai, e neste local criou tudo sobre a face
criou o homem a partir da argila que se encontrava nas margens de um lago, e que os índios da Terra, incluindo os oceanos, as florestas e os animais. Também as estrelas foram colocadas
de hoje em dia são os descendentes do homem e da mulher de argila. no céu nesse momento. Tupã então criou a humanidade em uma cerimônia elaborada, formando
Para os índios Maidu da Califórnia, o primeiro homem e mulher foram criados por um perso- estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza.
nagem misterioso chamado Terra-Iniciado, que desceu do céu por uma corda feita de penas. Depois de soprar vida nas formas humanas, deixou-os com os espíritos do bem e do mal, e partiu.
Seu corpo brilhava como o sol, mas seu rosto estava escondido e nunca foi visto. Uma tarde, Comentário: É de impressionar quantos povos e civilizações, completamente separados
ele tomou terra vermelha escura, misturou-a com água e formou duas figuras; uma delas um entre si no tempo e no espaço, contam a história da criação do primeiro ser humano de modo
homem e outra uma mulher. muito parecido. Eu diria que até de maneira idêntica. E nós e outros, criados e educados sob
Os índios Diegueno ou, como eles chamam a si mesmos, os Kawakipais, que ocupam o can- as religiões abraâmicas, pensando que temos a primazia da exclusividade da narrativa da
to extremo sudoeste do Estado da Califórnia, têm um mito para explicar como a raça humana criação do Homem.
em sua forma atual, foi criada. Tcaipakomat tomou um torrão de argila de cor clara, dividiu-o
em dois e fez o homem de uma parte dele.
Os índios Hopi ou Mopi, do Arizona, acreditam que a deusa oriental tomou argila e moldou a O QUE A CIÊNCIA DIZ A RESPEITO
partir dela a primeira mulher e, depois, o primeiro homem. Ambos foram trazidos à vida, assim
como os pássaros e os animais tinham sido muito antes deles. Em 1951, o cientista J. D. Bernal propôs que a argila, por ser capaz de adsorver moléculas or-
Os índios Pima, uma tribo do Arizona, alegam que o criador tomou a argila em suas mãos e gânicas, facilitaria o encontro das moléculas precursoras da vida, existentes no “caldo ou sopa
misturou-a com o suor de seu próprio corpo, amassando o todo em um torrão disforme. Então, primordial” de Oparin.
ele soprou sobre esse torrão até que ele começou a viver e se mover, tornando-se um homem Desse modo, a argila pode ter tido uma grande influência sobre a fase da evolução química,
e uma mulher. desempenhando um papel de catalisador das reações de polímeros orgânicos, além de prote-
Um sacerdote dos índios Natchez, em Louisiana, disse “que Deus tinha amassado um pou- ger as moléculas da radiação, o que seria fatal para tais substâncias.
co de argila, como a que os ceramistas usam, transformando-a em um pequeno homem que, Ponnamperuma et al. (1982) citam os estágios da possível evolução química na Terra primi-
após ser examinado e considerado bem formado, foi trazido à vida imediatamente. Após cres- tiva, retirados da hipótese de Bernal, e que seguem a seguinte sequência:
cer e andar, ele achou-se um homem perfeitamente bem formado”. 1. Os minerais de argila catalisam as reações de síntese de biomonômeros gasosos consti-
Os Tucapachas Michoacan do México, também creem que o grande Deus fez o homem e a tuintes da atmosfera primitiva;
primeira mulher partir da argila. 2. Os minerais de argila adsorvem esses biomonômeros em sua superfície, provendo um sis-
Os índios Lengua do Paraguai acreditam que o criador, na forma de um besouro, habita um tema altamente concentrado, no qual os monômeros assumem uma orientação propícia às
buraco na terra e que lá ele formou, a partir da argila, o homem e a mulher, os quais ele trouxe interações químicas;
de sua morada subterrânea. 3. Os minerais de argila facilitam as reações de condensação entre monômeros orgânicos ad-
sorvidos na superfície da argila, formando os biopolímeros. Em adição a isso, as superfícies
Mitologia Iorubá dos minerais de argila podem ter servido de moldes para a adsorção específica e replicação
O povo Iorubá, residente no continente africano, principalmente nas regiões que compreen- de moléculas orgânicas.
dem hoje a Nigéria e o Benin, conta desde um passado muito remoto, que a criação do homem
deu-se a partir das mãos dos orixás. Tudo começou quando Olodumaré, o deus supremo, Por outro lado, o químico escocês Cains-Smith (1982), sugeriu que a argila pode armazenar
criou o universo e então o enviou ao orixá Obatalá (também conhecido como Oxalá) para criar e reproduzir defeitos estruturais, além de outras características distintas.
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E, bem mais recentemente, em 2013, Yang e colaboradores mostraram nitidamente que, além Para o ARN, uma teoria popular gira em torno das propriedades incomuns do argilomineral
das características citadas anteriormente na literatura, a argila é capaz de proteger os ácidos montmorilonita. As camadas formadoras dos seus cristais, carregadas negativamente, criam
nucleicos das enzimas Dnase e Rnase, porém sem inibir a transcrição e nem a tradução. um sanduíche de carga positiva entre elas (os cátions trocáveis), o que gera um ambiente alta-
Nas palavras desses autores: “In turn, this could imply that the clay hydrogel provided a mente atraente para as subunidades de RNA se concentrarem e se unirem em longas cadeias.
favorable environment for pre-cellular evolution in a RNA world. In other word, clay selectively
protected molecules that were conducive to the RNA and protein synthesis, such as DNA, RNA, Estudo sugere a argila abriu o caminho para a evolução de animais complexos
transcriptional andtranslational machinery” (Yang et al., 2013). Cerca de 550 milhões de anos atrás, os primeiros animais complexos, como as trilobitas, apa-
receram no registro fóssil. Muitos cientistas concluíram que o aumento na quantidade de oxi-
gênio atmosférico foi crítico para a evolução relativamente súbita destes animais. Já se sabia,
A ARGILA PODE ESTAR NA ORIGEM DAS CÉLULAS com certeza, que organismos fotossintéticos vinham produzindo oxigênio por centenas de mi-
lhões de anos, mas o que poderia ter levado à aparentemente rápida acumulação do oxigênio
Um experimento de cientistas norte-americanos comprovou que os argilominerais induzem a na atmosfera era um mistério. Agora, uma equipe de pesquisadores afirma que a argila pode ter
formação rápida de membranas e de vesículas de ácidos graxos. A mera adição desses mine- desempenhado um papel fundamental.
rais multiplicou em cem vezes a tendência dos ácidos graxos (moléculas que compõem os lipí- O geólogo Martin Kennedy da Universidade da Califórnia, Riverside, percebeu que os mine-
dios ou gorduras) a formar uma membrana de camada dupla, semelhante as das células bacte- rais de argila presentes em sedimentos marinhos são responsáveis pela captura do carbono
rianas de animais e vegetais. As células crescem, incorporando as partículas dos ácidos graxos orgânico, que seria de outra forma, oxidado pelo oxigênio altamente reativo.
espalhadas nas proximidades da argila, e até se dividem com certo grau de estimulo externo. Hoje, os minerais de argila formam-se no solo quando os agentes intempéricos e os or-
O experimento demonstrou que os argilominerais podem ser capazes de induzir a formação ganismos, tais como micróbios ou fungos interagem com minúsculos pedaços de rocha. A
de cadeias de ARN, a molécula-irmã do ADN, que também contém instruções genéticas e, ao argila resultante, em seguida, é carreada para o mar e se deposita na parte inferior onde suas
contrário do ADN, induz reações químicas por si só. propriedades químicas atraem ativamente o carbono orgânico adsorvendo-o nas superfícies
Dois dos componentes cruciais para a origem da vida – o material genético e as membranas externas e internas. Os cientistas argumentam que essa produção de argila poderia ter produ-
das células – poderiam ser introduzidos um no outro, através das partículas coloidais de argi- zido o forte aumento na disponibilidade de oxigênio que precedeu o florescimento de formas
la, como novos e recentes experimentos têm demonstrado repetidamente. O estudo da argila de vida complexas. “Nós prevíamos que só iríamos encontrar uma percentagem significativa
montmorilonita por Hanczyc et al. (2003), do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, reve- de minerais de argila nos sedimentos, ao final do Pré-Cambriano quando surgiu a vida com-
lou que ela pode acelerar drasticamente a formação de vesículas cheias de fluido membranoso. plexa, já que os sedimentos mais antigos teriam menor teor de argila”.
Essas vesículas também crescem e passam por uma forma simples de divisão, mimetizan- Eles então se voltaram para um dos afloramentos de rocha sedimentares mais antigos do
do as propriedades das células primitivas. Trabalhos anteriores mostraram que a montmorilo- mundo, localizadas na Austrália. As camadas mais antigas com cerca de 850 milhões de
nita pode ajudar a montar o material genético do RNA, a partir de produtos químicos simples. anos, são, em grande parte, compostas de silte e/ou de microscópicas partículas de rochas
“Curiosamente, o argilomineral também fica ocluída/incluída nas vesículas”, diz Leslie Orgel, que sofreram pouca alteração química. Cerca de 600 milhões de anos atrás, no entanto, a ar-
outro especialista na origem de vida do Instituto Salk de Ciências Biológicas, em San Diego, gila faz a sua aparição neste registro de rocha. Afloramentos idênticos na China e na Noruega
Califórnia. “Portanto, este trabalho é muito interessante já que ele encontra uma conexão confirmaram essa cronologia.
entre o mecanismo que cria o ARN, encerrando-o em uma membrana fabricada com o auxílio Outras fontes de dados também corroboram esse fato. Por exemplo, o isótopo do estrôn-
de um argilomineral”. cio – 87Sr – em rochas parece mostrar um aumento no chamado intemperismo químico ou
alteração ao que não é simplesmente o resultado de chuva ou outros processos naturais, mas
que estão relacionados com a vida. Exatamente quando a superfície terrestre ficou coberta
HERANÇA, MUTAÇÃO E EVOLUÇÃO por algum tipo de organismo, provavelmente unicelular. Isso é o que o estudo aborda.
Em outras palavras, os micróbios e possivelmente até mesmo fungos colonizaram a super-
A gênese do material genético e do surgimento de estrutura celular são áreas importantes da fície da Terra num determinado momento no tempo, dando origem ao sistema do solo, que
pesquisa científica, mas até agora os dois não tinham sido ligados. O nascimento de material ainda funciona hoje. Um dos subprodutos desse sistema foi a argila que, levada para o mar,
genético foi claramente crucial para a vida assumir suas habilidades únicas de herdar, se trans- passou a reter carbono orgânico, liberando oxigênio que então migrou para a atmosfera. “O
formar e evoluir. E as membranas foram fundamentais para a fisiologia das células, porque elas aumento resultante de seis vezes no teor de oxigênio teria influenciado significativamente
protegem os seus conteúdos, concentram produtos químicos para promover reações químicas o ciclo biogeoquímico de oxidação de elementos sensíveis como o ferro e o enxofre, o que
e isolam genes bem sucedidos daqueles mal sucedidos. resultou nesse aumento da concentração de oxigênio da atmosfera”. Ou seja, a inovação
Pesquisas já mostraram que alguns dos blocos de construção para moléculas do tipo do evolutiva e a expansão da biota terrestre poderiam ter aumentado permanentemente o intem-
ARN e de membranas, são criados espontaneamente por reações químicas no espaço exte- perismo bioquímico e, consequentemente a intensidade da formação de argila, estabelecen-
rior e em condições que possam ter existido na Terra primordial. Mas, como estas subunida- do um novo nível de imobilização do carbono orgânico e de acúmulo de oxigênio, levando à
des foram sintetizadas, ainda está em discussão. disseminação generalizada da vida.
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Adão e Eva não existiram de acordo com alguns cientistas O nosso organismo reflete a biosfera, com todos os seus subsistemas. O corpo humano é
Vamos admitir, do ponto de vista religioso, que a humanidade começou a partir de um homem, composto em 97% por elementos químicos procedentes da hidrosfera e atmosfera e por ape-
Adão, que foi feito do pó da terra recebendo vida através de um divino sopro de vida. Depois que nas 3% de elementos da litosfera. Poderiam o carbono e nitrogênio dos nossos corpos terem
Deus criou o homem, Ele criou a mulher, Eva. origem no nitrogênio e no dióxido de carbono da atmosfera?
Alguns estudiosos conservadores, entretanto, suportam que não podem acreditar na teo-
ria do Gênesis de que todos vieram de Adão e Eva. “Isso vai diretamente contra toda a evidên- Exogênese: a vida veio de fora da Terra?
cia genômica que nós reunimos nos últimos 20 anos, então não é muito provável”, diz Dennis A hipótese da panspermia cósmica é uma das hipóteses acerca de como surgiram as primeiras
Venema, biólogo evolucionista da Trinity Western University. formas de vida no planeta Terra. Essa ideia surgiu pela primeira vez no século V AC, na Grécia,
Segundo Venema, não é possível voltar no passado e chegar a apenas um casal. Ele sugere remontando a autoridade a Anaxágoras, e foi colocada novamente em evidência no século XIX
que com o mapeamento do genoma humano, está claro que os humanos modernos vieram pelo biólogo alemão Hermann Richter em 1865, que cunhou o termo. Porém, foi em 1908 que
de outros primatas com uma grande população. E que não é possível rastrear um tamanho o químico sueco Svante August Arrhenius usou a palavra panspermia para explicar o início da
populacional abaixo de 10 mil pessoas em nenhum período da história evolutiva. “Você teria vida na Terra, como originária do espaço exterior. O astrônomo Fred Hoyle, em 1932, foi o pri-
que postular que houve uma taxa de mutação absolutamente astronômica que produziu todas meiro que apoiou entusiasticamente a ideia.
as novas variantes, em um período de tempo incrivelmente curto”, disse Venema, que é um A teoria da panspermia ainda hoje se encontra desacreditada junto à Ciência, mesmo ha-
membro sênior da Bio Lobos Foundation, um grupo cristão que tenta reconciliar a fé com a vendo dados suficientes para encará-la seriamente. Mas a NASA começa a ser pressionada
ciência. Ele é parte de um grupo crescente de estudiosos cristãos que tentam provar a sua fé para reconhecer que existe possibilidade real de que a vida ou seu precursor pode ter vindo
neste início do século XXI. de fora com os corpos celestes.
John Schneider, teólogo no Calvin College em Michigan, afirma, categoricamente, que já é Os aminoácidos, os blocos constituintes da vida, são quirais; ou seja, eles desviam o
tempo de encarar com seriedade, os fatos: “Não houve um Adão e Eva históricos, serpente, plano da luz polarizada, para a esquerda (levogiros) ou direita (dextrogiros). As moléculas
maçã e a queda que derrubou o homem de um estado de completa inocência”. “A evolução orgânicas isoladas de meteoros e asteroides são levogiras, e a vida na Terra é constituída
torna bastante claro que, na natureza e na experiência moral dos humanos, nunca houve qual- quase que exclusivamente só de aminoácidos canhotos (levogiros). O grupo amino (NH2)-L
quer paraíso perdido”. “Acho que os cristãos têm um desafio, um trabalho grande em suas está presente na maioria dos aminoácidos que são encontrados nas proteínas, enquanto o
mãos para reformular algumas das suas tradições em relação os primórdios da humanidade”. grupo amino D é encontrado apenas em algumas proteínas que são formadas por organismos
exóticos que vivem no mar. Esta é uma forte evidência circunstancial, indicando que a vida
Filhos da Terra ou filhos do Cosmos? originou-se fora da Terra. No espaço sideral, a luz forma um padrão de “saca rolhas”, pois sua
Mãe Terra. A Terra é a nossa mãe! Quantas vezes já não ouvimos esta expressão? Mas, ao con- polarização é circular. Não se sabe por que os compostos orgânicos sintetizados no espaço
templarmos o universo, com tudo o que nele é incluído, estrelas, planetas, galáxias, do menor são prevalecentemente levogiros. Se a vida fosse criada na Terra, diretamente, a proporção
ao maior ser vivo, passando por nós com nossos corpos, a identificação da nossa Mãe com a entre os aminiácidos L e D, seria igual, já que a luz não é polarizada de forma circular.
Terra não se sustenta. Talvez tudo não passe de um chauvinismo grego. Recentemente, documentou-se mais uma variedade de rochas espaciais que tinham amino-
Não obstante, fica difícil não admitirmos que o Céu seja a mãe doadora dos nossos corpos. ácidos levógiros, embasando ainda mais a teoria da panspermia (NASA, 2011).
Os elementos químicos mais abundantes do cosmos são, na ordem, o hidrogênio, hélio, oxi-
gênio, carbono e nitrogênio. Excluindo o hélio, que é um gás nobre praticamente não reativo, Adão era hermafrodita?
os quatro elementos quimicamente ativos são H, C, O e N. Astrônomos, químicos e biólogos De acordo com o que está relatado na Bíblia, pode-se dizer que o primeiro homem foi herma-
cunharam a sigla CHON, colocando à frente o versátil C. Veremos mais adiante que o universo -frodita. Em Gênesis 1, lemos: “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o
é composto fundamentalmente por CHON, assim como todos os organismos da Terra. Adi- criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,27). Note que a Bíblia usa o singular: Deus “o criou”
cionando ao CHON cerca de uma quinzena de elementos químicos, dos quais o fósforo é o e não o plural; “os criou”. Portanto, Adão era “macho e fêmea” ao mesmo tempo, ou seja, um ser
mais importante, obtém-se a vida e sua química com carboidratos, lipídios, proteínas, ácidos hermafrodita, pois só posteriormente, num outro relato, é dito que Deus tira uma das costelas
nucleicos e tudo o mais. de Adão, para com ela criar o elemento feminino, Eva, e só depois disso é que passa a existir a
Se compararmos a composição da crosta terrestre com a dos nossos corpos, vemos que procriação dos seres humanos, através do casal (Adão e Eva), tomando-se estritamente o que
elas são completamente diferentes! se encontra narrado na Bíblia. Aliás, se Adão não fosse macho e fêmea, não teria sido possível
O nosso DNA nega a maternidade da Terra! É no Cosmos que encontramos a nossa filiação. a Deus tirar dele a sua parte feminina. Em certo momento, Deus percebe que o homem estava
O hidrogênio perfaz 93% de todos os átomos do universo visível (He=6%) e 75% de sua maté- sozinho e que isso não era nada bom, resolvendo fazer para ele uma companheira (v. 18). Mas
ria sólida (He=23%). Cerca de 70% do nosso corpo é água, o que também decorre de um fato antes de realizar esse novo projeto, Deus forma do solo da terra todas as feras e aves do céu,
astronômico: a água é a molécula tri atômica mais abundante do universo. Além disso, 80% apresentando-as ao homem, que dá nome a cada uma delas (v.19). Foi neste momento que o
das moléculas identificadas no meio interestelar são orgânicas. E o nitrogênio está presente homem se deu conta de que não havia ninguém que lhe fosse semelhante (v. 20). Apercebendo-
em metade delas. Crê-se que na primeira fase da história da Terra, cometas e asteroides trou- -lhe este sentimento, Deus o faz cair em torpor (v. 21) tomando-lhe uma de suas costelas com a
xeram a maior parte dos compostos orgânicos para o nosso planeta. qual modelou a mulher (v. 22), razão pela qual Adão, ao vê-la, disse: “Esta sim é osso dos meus
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ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!” (v. 23). Adão e Eva nunca existiram por razões genéticas
Embora não tenhamos entendido o porquê dele ter dito isso, já que estava dormindo e não viu Comecemos com premissas simplificadas:
de onde Eva tinha saído, esse fato reforça a ideia de que Adão viveu sozinho por algum tempo; 1. O ser humano é dotado de 22 pares de cromossomos chamados autossômicos e um par de cro-
portanto, ele foi mesmo um hermafrodita, uma vez que Eva foi criada num outro momento que mossomos sexuais em cada célula do corpo (com exceções), XX se for mulher e XY se for homem.
não o dia em que ele se tornou um ser vivente. 2. Os genes estão contidos nos cromossomos e sua posição no cromossomo é chamada
Resulta então o nascimento de Caim e Abel (Gn. 4,1-2). Esses dois irmãos, depois de cresci- lócus. Já que nós somos 2n (duas cópias de cada gene em cada tipo de cromossomo), temos
dos, foram personagens do primeiro ato no qual um ser humano morre. É também o primeiro então duas cópias de gene em cada loco. A cada uma das versões do mesmo gene, chama-
assassinato (fratricídio) do mundo (de lá para cá, absolutamente nada mudou; só piorou), a mos alelo.
acreditarmos na narração da Bíblia: o primogênito, por inveja, mata o irmão, supondo que as 3. Todos os alelos surgem por mutação. Mutação pode ser causada por vários fatores, e um
ofertas deste eram mais agradáveis a Deus do que as suas (Gn 4,3-8). deles é a simples maquinaria de replicação dos genes, que nunca foi perfeita e erra numa taxa
Diante de tal fato, não restou alternativa a Deus senão expulsá-lo daquela região; toma Caim baixa, mas erra eventualmente.
a direção de Nod, a leste do Éden. No caminho encontra uma mulher. Que mulher? Como isso é 4. As mutações podem dar origem a alelos deletérios. Chamamos deletério aquele alelo que
possível se, até aí, só existiam ele e seus pais, pelos relatos bíblicos?! Na sequência, ele a toma prejudica ou impossibilita a vida do organismo. Um organismo que tem mais de uma cópia do
por “sua mulher”, com a qual tem um filho dando-lhe o nome de Henoc. Fato extraordinário é mesmo cromossomo, como nós, não necessariamente morre ou é prejudicado por um alelo
que, pouco depois, Caim funda uma cidade, batizando-a com o nome do filho. Certamente que, deletério, porque possui em outro cromossomo, outro alelo normal.
para se fundar uma cidade, há necessidade de se ter mais pessoas do que somente um casal 5. Todas as pessoas possuem alelos deletérios em seus cromossomos. Como a taxa de mu-
para nela habitarem, razão pela qual temos que adotar uma das seguintes hipóteses: tação é baixa, se você encontra o mesmo alelo deletério em duas pessoas diferentes há boas
1. até Deus criar Eva, Adão, como hermafrodita, teve a sua própria prole; ou, chances que elas sejam descendentes de um ancestral comum em que houve essa mutação.
2. ele não formou com Eva o primeiro casal humano. A opção pela primeira hipótese, nos 6. Um filho herda 23 cromossomos do pai e 23 cromossomos da mãe, podendo então herdar
leva à conclusão de que, no início, a reprodução humana foi por autofecundação ou então por alelos diferentes ou alelos iguais em cada lócus.
autogeração. Já, de acordo com a segunda delas, a história da criação de Adão e Eva passa a 7. Quanto mais a mãe e o pai de uma criança são aparentados, maior chance a criança tem de
ter um caráter meramente alegórico. herdar dois alelos iguais e maiores as chances de herdar alelos iguais que sejam deletérios.
Exatamente por esse motivo é que filhos de um casal de primos em primeiro grau têm maio-
Que haverá contestação é um fato, porquanto logo dirão que o “homem” citado em Gn1-27 res chances de nascerem com defeitos.
representa a humanidade. Pode até ser, dependendo da tradução. Mas a resposta está em Gn
5,1-2: “Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança Portanto, por mais que os alelos de Adão fossem diferentes dos alelos de Eva, se a hu-
de Deus o fez; homem e mulher foram criados, abençoados, e lhes chamou pelo nome de Adão, manidade toda fosse descendente desse casal haveria cruzamento entre irmãos e primos
no dia em que foram criados”. próximos nas primeiras gerações. Esse endocruzamento ou endogamia leva ao aumento do
Observe-se que o versículo diz que Deus “criou o homem... e o chamou pelo nome de Adão”; número pessoas que possuem alelos iguais em seus cromossomos; o maior número de ale-
óbvio, portanto, tratar-se do homem e não do ser humano. Aqui também vemos o mesmo pro- los iguais inclui deletérios iguais (por “alelos iguais” quer-se dizer a condição comumente
blema com o artigo, que deveria ser no singular, mas todos constam no plural: “[...] os criou e chamada de homozigoto).
os abençoou, e lhes [...]”. Ora, isso deveria acontecer com todos os descendentes de Adão e Eva. Ou seja, todos
Como vimos, Deus fez surgir Eva da costela de Adão; na verdade, trata-se aqui do mito co- nasceriam com genes defeituosos e teriam sua sobrevivência prejudicada, possivelmente
mum do “um” que se tornou “dois”, conforme lemos em Campbell (2005): “o mais conhecido significando a extinção da espécie humana.
exemplo ocidental dessa imagem do primeiro ser, dividido em dois, está no Livro do Gênese, Assim, a Genética moderna de fato aponta para uma origem comum de todos os seres hu-
segundo capítulo, orientado, porém em outra direção. Pois o casal é dividido ali por um ser manos: uma população africana, não um casal.
superior que, como nos contam, fez com que o homem caísse em profundo sono e, enquanto
ele dormia, tirou uma de suas costelas (Gênese 2:21-22)”. Na versão indiana é o próprio deus Uma dificuldade para a criação do homem a partir da argila/solo
que se divide e se torna não apenas homem, mas toda a criação, de maneira que tudo é ma- Argila: grupo de alumino silicatos hidratados, de diminuto tamanho, encontrados nos solos de
nifestação daquela única substância divina onipresente: não há outro. Na Bíblia, entretanto, toda a superfície da Terra, formados pelo intemperismo físico, químico e biológico das ro-chas.
Deus e homem, desde o início, são distintos. De fato, o homem é feito à imagem de Deus e o Atualmente, o solo perfaz 75% de toda a superfície da crosta terrestre.
Seu sopro foi insuflado em suas narinas; mas seu ser, seu si próprio, não é o de Deus, nem Desde tempos imemoriais que a capacidade de moldar e transformar a argila manualmente
tampouco é uno com o universo. em artefatos tem sido empregada para expressar as ideias e as crenças dos povos. Através
Ou seja, a criação do mundo, dos animais e de Adão (que então se tornou Adão e Eva) foi da modelagem de figuras que representavam seus deuses, seus semelhantes ou quaisquer
realizada não dentro da esfera da divindade, mas fora dela. Há, consequentemente, uma se- outros assuntos (artísticos, científicos ou culturais importantes), os povos deixaram marcas
paração intrínseca e não apenas formal (Campbell, 2005). próprias que serviam e ainda servem para se reconhecerem entre si, se afirmarem e para se-
rem reco-nhecidos pelos outros.
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Recentemente, o criacionismo islâmico arguiu como evidência da veracidade do Qur’an, como a borracha, por exemplo. Também é primordial, junto a estes elementos, para a forma-
a hipótese científica que admite os cristais de argila como participantes da abiogênese, tal ção das moléculas de ADN e de ARN, as portadoras do código químico genético da vida e o
como vimos anteriormente. Cientificamente, a mais famosa teoria completa a esse respeito trifosfato de adenosina (ATP), que é a molécula de transferência de energia mais importante
é devida ao químico escocês Cairns-Smith (1982/1986). em todas as células vivas.
Não obstante, um sério problema emerge quando a composição química ponderal do corpo De fato, o fósforo tem um papel fundamental na estrutura do ADN, do ARN e do ATP. Os
humano é examinada, e constata-se que muitos dos elementos presentes nas rochas e nos nucleotídeos dessas moléculas são formados por três componentes: um grupo fosfato, um
solos também são encontrados nos seres vivos. Ou seja; a química analítica nos diz que os açúcar com cinco carbonos e uma base contendo nitrogênio. Os grupos fosfato e os açúcares
mesmos elementos químicos encontrados na crosta terrestre (rochas e solo), também foram formam a espinha dorsal das cadeias de ADN e do ARN. Já os fosfolípidos formam todas as
empregados na criação humana. Contudo, os tecidos vivos (humanos, animais e vegetais) membranas celulares. O fósforo está também envolvido na eliminação dos produtos ácidos
contêm 95% de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre, acrescidos de tóxicos finais, provenientes do metabolismo energético; nos rins, os íons de hidrogênio são
outros 34 elementos químicos em menor porcentagem. segregados com auxílio de fosfatos, auxiliando, assim, o fundamental controle do pH. Idem
Portanto, a química dos seres vivos é a química dos compostos de carbono (denominada para o metabolismo energético de proteínas, lipídios e carboidratos, assim como no controle
de orgânica) enquanto a das rochas e solos (supostamente a matéria prima de Deus) é ba- das funções nervosas e musculares.
sicamente a química do silício e do alumínio (denominada de inorgânica). Isto é, na crosta O fósforo é apenas a ‘faísca’ em nosso DNA que nos faz arder de vida. Deus não poderia ter
terrestre, composta pelas rochas, solos e sedimentos, predominam os elementos Si (silício), criado o Homem se não tivesse antes criado o fósforo! Pode Adão ter sido criado introduzin-
Al (alumínio) e Fe (ferro), que estão fortemente ligados ao oxigênio. Contudo, nessa mesma do o fósforo em seu DNA através de um solo vermelho/cinzento da Terra? Sim; pode: o fósfo-
crosta terrestre, a porcentagem média de carbono é igual a apenas 0,03%; com ele se ligando ro é o único macro nutriente que não existe na atmosfera, nem na forma elementar devido a
preferencialmente ao hidrogênio. No oceano, essa porcentagem é igual a 0,003% e no corpo sua elevada reatividade, sendo unicamente encontrado na forma de fosfatos nas rochas e nos
humano, é 20%. solos. As suas duas principais variedades alotrópicas, são o P branco (P4) e o P vermelho (P4)
O carbono perfaz 0,03% da litosfera da Terra (crosta e o manto exterior) em peso [uma es- n. O fósforo branco é extremamente venenoso – uma dose de 50 mg pode ser fatal. É muito
timativa grosseira do peso da litosfera é de (1.4 x 1023) Kg, tornando o peso aproximado de inflamável e, por isso, deve ser armazenado submerso em água, na qual não é solúvel. Em
carbono na mesma, igual a (4,5 x 1017) Kg]. O dióxido de carbono representa aproximadamen- contato com o corpo provoca gravíssimas queimaduras, pois se inflama espontaneamente
te 0,04% da atmosfera da Terra e a composição química ponderal de uma pessoa de 70 quilos em contato com o oxigênio (é utilizado como arma química). Além disso, a exposição contí-
contém (numa base seca), 50% de C; 20% de O; 10% de H e 8% de N. nua provoca a necrose dos tecidos. Ele é convertido em fósforo vermelho, uma forma mais
Assim, se Deus fez mesmo o homem a partir do solo/argila, Ele teve que utilizar um solo estável que não fosforesce, não é venenosa e não se oxida pela simples exposição ao ar.
rico em matéria orgânica (húmus); talvez uma turfa, ou então lançou mão do horizonte “O” O fósforo perfaz 1% do nosso peso corporal total e está presente em todas as células do
(orgânico) de um solo. corpo; a maior parte dele (85%) no organismo é encontrada na forma de cristais de fosfato
Mas, e o que dizer quanto à cor vermelha do solo? Sabemos que a cor vermelha (arroxeada, de cálcio [Ca3(PO4)2] e fosfato de magnésio [Mg3(PO4)2] nos ossos e nos dentes. Note que
laranja e assemelhadas) de um solo deve-se aos óxidos e hidróxidos de ferro. Tais solos, residu- a abundância média de fósforo na crosta terrestre é de apenas 0,11%. É bastante peculiar e
ais ou não, são encontrados por todo mundo – inclusive no Oriente Médio (www.wutang-corp. importante o fato de o fósforo em latim ser conhecido como “lúcifer”. Sim; a palavra latina
com), local aqui assumido onde ocorreu a criação do homem. Esses solos do Oriente Médio correspondente ao grego fósforo é “lúcifer.” E o fósforo do grego Φωσφόρος phosphoros, é
são testemunhas vivas de um passado geoclimático favorável à sua formação. Aliás, tudo leva a palavra que em português significa o “portador da luz” ou a “estrela da manhã”; o que nos
a crer que, naquela época, a região sustentava de fato condições climáticas para tal, pois lá remete nova e diretamente aos relatos religiosos da criação do homem.
estava o Éden (palavra que teria sua origem do acádico edinu, que significa ‘campo aberto’). Para os alquimistas medievais, o P era dado como um constituinte da “pedra filosofal”.
Não obstante, a criação pode ter se dado em qualquer outro lugar do mundo e sem a utili-
zação de um solo vermelho. De fato, os solos gley (húmicos e pouco húmicos) conhecidos E quanto à participação do ferro presente no solo (vermelho) para a criação?
na engenharia como as argilas moles orgânicas, em regra, são ricos em matéria orgânica Bem, no corpo humano existem os eritrócitos, que são os glóbulos vermelhos responsáveis
(húmus) e óxi-hidróxidos de ferro (Fe+2). pelo transporte do oxigênio dos pulmões para os tecidos do corpo. Eles constituem as célu-
Parece-me que o uso dessas argilas, é perfeitamente factível, pois atende às duas neces- las mais abundantes do sangue, sendo sua função primordial suprir de oxigênio os tecidos.
sidades materiais de Deus: conter ferro e húmus. Mas sua cor pode variar de acinzentada a A sua principal função é transportar a molécula da hemoglobina, a qual, por sua vez, tem o
quase preta, e não vermelha! Contudo, existe outra possibilidade bastante plausível também e papel de transportar o oxigênio dos pulmões para os tecidos. Além desta, os eritrócitos têm
que resolve o problema da cor vermelha do solo. Esta pode muito bem ser uma metáfora para outras funções. Uma delas é catalisar a reação reversível entre o dióxido de carbono e a água,
designar o fósforo (31P15), elemento de suma importância para a vida. Quando combinado acelerando-a em milhares de vezes através da presença no seu interior de grande quantidade
com o oxigênio e o hidrogênio, o carbono pode formar muitos grupos de importantes com- da enzima anidrase carbônica. A rapidez dessa reação permite que a água do sangue trans-
postos biológicos, incluindo açúcares, lignanos, ligninas, quitinas, gorduras, alcoóis, ésteres, porte grande quantidade de dióxido de carbono dos tecidos para os pulmões na forma do íon
cetonas, derivados aromáticos, carotenoides, terpenos etc. Com o nitrogênio, ele forma alca- bicarbonato e do ácido carbônico. Outra função deve-se à atuação da hemoglobina como um
loides e com a adição de enxofre dá origem aos antibióticos, aminoácidos e aos polímeros excelente tampão, como a maioria das proteínas costuma ser, de forma que os eritrócitos
270 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 271

são os responsáveis pela maior parte da capacidade de tamponamento Figura 2 Por outro lado, toda cor tem outra cor que a complementa, como se uma fosse atraída pela
ácido-básico de todo o sangue. Se essas células vermelhas do sangue outra. É a cor complementar. As cores complementares são aquelas que estão localizadas no
não puderem exercer essas suas funções, o CO2 se acumula no corpo e extremo oposto do círculo cromático e, portanto, se complementam. O complemento de uma
o O2 não chega aos tecidos; o que acarreta a morte do organismo. A sua cor primária é a cor resultante da mistura das outras duas cores primárias. Por exemplo, a cor
função é exercida através de uma molécula de transporte que é chama- complementar do vermelho é o verde, porque esta cor se obtém a partir da mistura das outras
da de hemoglobina. Se a hemoglobina for deficiente ou se a sua quanti- duas cores primárias que não o vermelho, ou seja, o azul e o amarelo. As cores complemen-
dade nas células vermelhas do sangue for insuficiente, o transporte de tares são as seguintes: vermelho e verde; laranja e azul; amarelo e roxo.
oxigênio fica seriamente prejudicado. Sua estrutura é formada por duas Desse modo, temos que a hemoglobina e a clorofila podem ser consideradas como sendo
partes principais que são os grupos heme e globina. A hemoglobina é moléculas complementares! E isso não pode ser uma mera coincidência.
uma proteína globular, de estrutura quaternária, que contém 4 cadeias Será que passamos por uma fase vegetal primitiva na nossa evolução, antes de atingirmos
polipeptídicas (cadeias de globina) e um grupo heme ligado a cada uma a vida humana? A tradição esotérica mundial diz que sim; que o elemento vegetal é parte es-
das cadeias de globina. Heme é o grupo que contém um átomo de ferro. sencial do ser humano atual. Se você retirar o seu sistema nervoso simpático (SNS) do corpo
Logo, a hemoglobina possui quatro átomos de ferro. É por causa dessa e o estender, verá que ele imediatamente lembra e se parece muito com uma árvore. O SNS
combinação na molécula da hemoglobina, que os glóbulos vermelhos e é a dádiva do reino vegetal para o corpo físico humano! Quanto mais penso no fato, mais me
o sangue animal são fortemente vermelhos. convenço que a natureza talvez tenha consciência e seja capaz de planejar suas criaturas.
Se a quantidade de ferro nos alimentos da nossa dieta não for sufi- Aliás, o olho humano é mais sensível para a cor verde, que também faz parte do espectro
ciente, a hemoglobina não pode ser produzida pelo organismo. Como solar de maior intensidade, e bem menos sensível para a cor vermelha.
resultado, as células vermelhas do sangue não podem ser produzidas na É por esse motivo que os DVDs utilizam três camadas de imagens. A verde é geralmente uti-
nossa medula óssea e aparece a anemia. Ou seja: se não fosse o ferro, lizada com vídeos de alta resolução, enquanto as outras duas cores são gravadas com menor
não poderíamos viver mais do que 3 minutos. Nós não podemos viver definição. Dessa maneira, o tamanho dos arquivos pode ser bastante reduzido sem causar
sem esse elemento. O benefício mais importante do ferro é dar vida e prejuízos à qualidade das imagens. É também o porquê dos visores noturnos militares e de
manter vivos respirando. câmeras fotográficas e filmadoras, possuírem a cor esverdeada.
Então, o sinal de alerta/perigo não deveria ser o vermelho, e sim o verde e até mesmo o
Hemoglobina x Clorofila amarelo! Será porque o vermelho remete ao sangue? De fato, no mundo esotérico o vermelho
No Reino Vegetal (Vegetalia – Plantae) há um equivalente para o sangue significa calor, paixão, perigo, urgência, sangue, raiva. Já o verde implica em harmonia, segu-
vermelho animal: é a clorofila. Ela é o sangue das plantas e a luz da vida! A rança, esperança, saúde etc. Mas o caso do trânsito nada tem a ver com essa interpretação.
clorofila, pigmento verde encontrado nos cloroplastos dos vegetais, atua A primeira cidade a ter sinais de trânsito foi Londres, e a cor vermelha foi adotada como
como se sabe, no processo de fotossíntese que capta a energia solar. A padrão para o sinal de perigo e de “pare!”, porque o fog (neblina) e especialmente o smog
clorofila que contém magnésio usa a energia fornecida pelo sol para con- (névoa poluída) londrinos, que são colóides (partículas sólidas dispersas num gás), espalham
verter a água e o dióxido de carbono em açúcares, que são a fonte básica e absorvem intensamente todos os comprimentos de onda com exceção do vermelho, que
de energia dos organismos vivos, e oxigênio: II [6 CO2 + 6 H2O + (luz e clo- consegue passar relativamente incólume, chegando então aos olhos dos motoristas.
rofila)] g [C6H12O6 + 6 O2] II. É esse oxigênio que respiramos.
Comparativamente, a molécula da clorofila é extremamente semelhan- Os homens são vermelhos e as mulheres são verdes!
te à hemoglobina, o pigmento vermelho da célula sanguínea animal-he- A cor vermelha também possui outros significados encontrados na natureza. Um deles, des-
mácia. O ferro compõe a hemoglobina presente nas células vermelhas coberto recentemente, é na relação entre os sexos: em pesquisa realizada pela Universidade
do sangue, as hemácias transportadoras do oxigênio nos organismos de Rochester, o vermelho é a cor preferida pelas fêmeas (animais) e pelas mulheres, na busca
animais, e a clorofila-Mg+2 presente nos cloroplastos, que são organelas por um parceiro. O comportamento de mulheres de variadas nações foi estudado concluindo-
das células dos vegetais, também é responsável pela captação e reten- -se que o vermelho é, além de atrativo sexualmente, a cor que representa um status elevado,
ção do gás oxigênio nesses organismos. (Figura 2) além de gerar confiança. Também foi descoberto que o vermelho faz com que as fêmeas pri-
A clorofila é responsável pela cor verde das algas e das folhas; isto sig- matas prefiram os machos de mais alta hierarquia. Nós não percebemos, mas a cor de nossa
nificando que ela reflete a cor amarela e a cor verde do espectro, absor- pele é a soma de várias tonalidades do espectro de luz visível, que vai do vermelho ao violeta,
vendo apenas o vermelho. Será porque o vermelho e o verde são cores passando pelos tons de verde, amarelo e azul. Usando equipa-mentos capazes de analisar a
complementares? contribuição de cada uma dessas frequências, pesquisadores da Universidade Brown em Pro-
As cores vermelha, azul e verde são as três cores que nossos olhos vidence, EUA, chegaram à conclusão de que as faces femininas são mais verdes e as mascu-
captam. Todas as outras cores que vemos são formadas a partir dessas linas, mais vermelhas (pelo menos nos caucasianos). O mais curioso é que essa informação,
três cores. Por isso elas são consideradas as cores primárias da visão e processada pelo cérebro de forma inconsciente, nos ajuda a identificar o sexo das pessoas e
também da síntese aditiva de cor. transmite atração física.
272 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 273

Em um dos experimentos, a equipe de cientistas usou um rosto andrógino criado por com- cristais, música, geografia etc.; fato matematicamente expresso pela proporção áurea, que é
putador, ora mais esverdeado, ora mais avermelhado, que foi apresentado a voluntários cuja uma constante algébrica real e irracional (talvez o mais irracional de todas elas), denotada
tarefa era dizer se pertencia a uma mulher ou a um homem. Os resultados mostraram que pela letra grega Φ (phi) em homenagem ao escultor grego Phideas (Fídias), que a teria utiliza-
quanto mais verde havia na imagem, maior a probabilidade de a resposta apontar para o do para conceber o Parthenon. É um número escondido na natureza. Seu valor arredondado é
sexo feminino e, quanto mais vermelho, mais masculino parecia na opinião dos participantes. igual a Φ=1.6180), e ele também é encontrado na sequência de Fibonacci.
Segundo os autores do estudo, publicado na revista Psychological Science (apud Mente & Este é outro mistério. E o mistério e o encanto que estão associados a este número ultra-
Cérebro, março de 2009), essas evidências apontam, pela primeira vez, para a composição passam o horizonte do que é humano. O que levou a natureza a utilizar essa relação matemá-
de cores das faces como elemento importante para o reconhecimento e atração sexual tanto tica como um padrão de desenho criativo?
para os primatas quanto para os humanos.
O átomo de carbono e o número 666
É o átomo de carbono a besta do Apocalipse? O carbono-12 está em toda parte como um requisito básico para a vida que naturalmente inclui
Está escrito no Livro do Apocalipse de João (13:18): “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem todos nós, formas de vida carbonadas. É um dos cinco elementos que compõem o DNA, tem
entendimento que calcule o número da besta, pois é o número do homem. E esse número é 666”. 6 elétrons, 6 prótons e 6 nêutrons, o que já o remete ao número 666. Ele também perfaz 99%
Há inúmeras interpretações para essa passagem do Apocalipse, principalmente sobre quem (66 invertido) de todo o carbono na Terra; seu volume na atmosfera sendo igual a 18% (6 + 6
ou o que, é a besta. + 6)! É também o sexto elemento da tabela periódica, tem um peso atômico (2 x 6) e número
Ele simboliza a existência do Homem, que está separado de Deus e sob a influência cons- atômico 6: 6C12. Lembremos que o Homem foi criado no sexto dia, o que nos permite admitir que
tante de Satanás. O número “6” na Bíblia é frequentemente associado com o homem; assim o número 6, que não é um número perfeito, está ligado ao homem, à humanidade. Ora, como
como o número “7” é o número perfeito e o “3”, muitas vezes, é atribuído à Trindade. O número o número 666 é o número do homem, segundo afirma São João, se admitirmos sua relação
666 é, portanto, um número situado aquém do número do divino, 777. com o átomo de carbono, como nos parece plausível, ele tem tudo a ver com a vida baseada
Ele se refere também à “trindade profana”: Satanás, a Besta e o Falso Profeta. As letras em no carbono, representando assim a realidade material; i.e, o Universo vivente. Realmente, quem
grego para Nero (Neron) somam 1005. No entanto, se tais letras gregas para Nero César (Ne- negaria que somos todos prisioneiros num invólucro corruptível feito de carbono! (Será a Terra
ron Kaisar) são transliteradas para o hebraico (Nrwn Qsr), os números das letras somam 666. uma prisão?). A realidade material, todos a conhecem bem e sabem de que ela é feita: egoísmo,
No ano 66, quando Nero era imperador e os judeus se revoltaram contra Roma, ele cunhou ganância, preconceitos de todo tipo, racismo, vaidade, individualismo (depois de mim, o dilú-
seu próprio dinheiro. A palavra grega traduzida como marca (da besta), χάραγμα, também vio!), acúmulo de riquezas, procura de prazeres mundanos, uma vida sem sentido, a negação do
significa dinheiro (estampado) ou moeda. Existem ainda uma miríade de más interpretações livre arbítrio, da evolução do ser humano e de uma individualidade superior.
para o número 666.
Na matemática, esse número também está ubiquamente presente. De fato, os números 6, Então este mundo é mau por natureza?
66 e 666, aparecem em todos os tipos de formas e medidas no nosso mundo. São tantas as Parece-nos que sim; o que é corroborado pelo caminho tomado pela humanidade desde o
vezes, que talvez você concordará plenamente que não se trata de uma coincidência. E que início, assim como pelo estado deplorável em que se encontra a humanidade há pelo menos
nem sempre tem a ver com o mal. Mais uma vez, estamos apenas arranhando a superfície de 12 mil anos.
uma realidade completamente diferente, a qual é interessante conhecer. A este respeito, o autor comunga com os ensinamentos dos evangelhos ditos apócrifos
Por exemplo: 666 é a soma dos primeiros 36 números naturais (isto é, 1 + 2 + 3 + ... + 35 + (Judas, Tomé, Felipe, Pedro, Maria Madalena etc.) que a igreja tanto se esforçou para destruir.
34 + 36 = 666), e, portanto, é um número triangular. Tenha em conta que [36 = 15 + 21] e que Através deles, aprendemos que este mundo é de fato uma prisão e foi criado por um demiur-
15 e 21 são também números triangulares. Seis é o terceiro, 66 é o 11o e 666 é o 36o número go (que não é Deus, mas o arconte ou líder, de espíritos inferiores, decaídos) inferior a Deus,
triangular, o qual é o maior de todos esses números, compostos por um mesmo dígito: o 6! imperfeito e em constante luta com Ele. Exilado por Deus e sozinho no reino material, fora do
Logo, [152 + 212] = 225 + 441 = 666. Pleroma (a harmoniosa e espiritual plenitude), tomou-se por ser um deus único e produziu um
Na base 10, 666 é um número palíndromo e um número de Smith. Um quadrado mágico recí- cosmos imperfeito onde a matéria dividida está no lugar do espírito unificado e a desilusão
proco principal baseado em (1/149) na base 10, tem um total de 666. O numeral romano para e o sofrimento substituíram a verdade original. Criou, então, o homem para reinar sobre ele,
666, DCLXVI, é formado pela sequência de todos os algarismos romanos cujo valor é inferior moldando-o à semelhança da imagem perfeita do Pai, e aprisionou-o neste universo imperfei-
a 1000: [D = 500, C = 100, L = 50, X = 10, V = 5, I = 1 g ∑=666]. to num invólucro material, forçando-o antes a beber da água do esquecimento.
Uma das melhores aproximações para o número Pi usando divisão é [355/113] que é igual Mas Deus influiu nessa criação, dotando cada um dos seres humanos de uma centelha di-
a π=3,1415929. Se você invertê-los alternadamente e adicioná-los, obterá: [355 + 311] = 666 vina (pneuma, a alma; uma parte de Deus) que, ao ser ativada (despertada), nos reconecta a
e [553 + 113] = 666. Ele. Essa centelha sagrada está aprisionada na sonolência da prisão física, submetida pelas
Estes resultados provavelmente não significam nada, mas se prestam a estimular a discus- forças materiais e mentais.
são sobre o assunto. Assim, iniciou-se uma luta contínua entre os poderes da luz e da escuridão, pela possessão
Sem dúvida, a Natureza adora o número seis, que pode ser encontrado em plantas, flores, dessas centelhas divinas. Elas somente serão ativadas no homem no momento de ilumina-
minerais, insetos, frutas, vegetais, animais, peixes, furacões, cosmo (galáxias), corpo humano, ção (da gnose) onde tomamos consciência de sermos exilados da nossa origem, o Pleroma.
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A partir daí, rejeitamos as formas e convenções do plano físico como Figura 3 666. Creio que você, leitor, deve refletir a respeito: nós podemos ser os
fantasmas de um pesadelo, como ilusões perpetradas por um deus que próprios animais e anticristos que o nosso bom São João nos advertiu!
conspira contra nós. Somente aqueles que tiverem o conhecimento (a E qual é o número de Jesus? A guemátria ou guimátria é um dos mé-
iluminação ou gnose) retornarão ao Pleroma; os outros serão reencarna- todos hermenêuticos de análise das palavras bíblicas, o qual atribui um
dos até alcançarem o conhecimento salvífico. valor numérico definido a cada letra. É conhecido como “numerologia ju-
Assim, se nós atingirmos o conhecimento (gnosis, em grego) de modo daica”. Assim, somando as letras-números do nome de Jesus em grego
a acessarmos essa centelha divina, nos libertamos da prisão que é o [ιζσους], aparece o seguinte resultado: [8 + 10 + 70 + 400 + 200 + 200 =
corpo humano nesse mundo mau, e nos salvamos. 888], o qual simboliza a perfeição.
Desde os primeiros tempos da história, mensageiros da Luz foram en- Temos então que:
viados do Pleroma para a Terra, com o propósito de fazer avançar a gno- 666 g o número da besta: o homem;
se na alma dos seres humanos. 777 g o número do sagrado;
Jesus foi um dos muitos enviados de Deus para trazer essa gnōsis 888 g o número da perfeição: Jesus.
para cá com o objetivo de “salvar” (curar é a palavra certa) a humani- (Figura 3)
dade ao fazer as pessoas lembrarem-se das suas origens celestiais. Não espere pelo Juízo Final. Ele ocorre todos os dias! (Albert Camus,
Indubitavelmente, o maior dos muitos mensageiros em nossa matriz 1913-1960).
histórica e geográfica foi o Logos que desceu de Deus manifestado em
Jesus Cristo e que exerceu um ministério duplo: ele foi um professor A receita humana e a fórmula molecular da vida
dando instruções sobre o caminho da gnose e um hierofante, revelando Comece com oxigênio suficiente para encher um contentor de carga. Em
os mistérios conhecidos como sacramentos – os quais são auxiliares seguida, adicione uma quantidade de hidrogênio que encha 5 mil balões
poderosos para a gnose, os quais foram confiados por Ele, aos seus de festa. Encontre carbono suficiente para carregar um purificador de
apóstolos e sucessores. água e o adicione também. Em seguida, junte uma pitada de cálcio, fós-
Mas atenção: a gnose não é provocada pela crença ou pelo número e foro e potássio e polvilhe algum cobre, iodo, cromo, manganês, selênio.
desempenho de ações virtuosas ou por obediência a regras religiosas e Misture bem, entregue para a “evolução” e espere alguns bilhões de anos.
mandamentos. Estas, na melhor das hipóteses, servem para o preparo das Esta é a receita clássica para o ser humano – o que o universo, como uma
condições que propiciem um conhecimento libertador. Este não é apenas o feiticeira, colocou no caldeirão bioquímico e produziu, talvez, gargalhando
meio de salvação: é a única e real possibilidade de salvação, o que também à medida que o fez. Mas o tempo cósmico é muito longo para se esperar.
foi pregado por Sidarta Gautama (Buda) cerca de 500 anos A.C e repetido A receita para um ser humano não enche uma lista de compras, como
recentemente pelo guru indiano Paramahansa Yogananda (2015). você pode suspeitar. Apenas vinte e dois elementos podem descrever
Tal conhecimento salvífico é o conhecimento do verdadeiro Eu (o self praticamente quase todas as moléculas que reunidas são, neste mo-
em detrimento do ego) e de seu lugar no Pleroma. Essa busca da liber- mento, você. Não só nós sabemos que elementos entram na receita; nós
-tação é completamente individual. A salvação (o acesso ao reino de sabemos o quanto temos que usar. É a estequiometria química que nos
Deus) está dentro de cada um de nós e podemos atingi-la sem a ajuda leva até lá.
de qualquer intermediário. Acredito que o Reino de Deus é resultante de Podemos escrever do ponto de vista racional, que a vida é f{O, C, H, N,
uma conquista pessoal íntima, alcançada na própria intimidade. Jesus Ca, P, K, S, Na, Cl, Mg, Fe, Cu, Mo, Zn, I, F}. Todos os elementos químicos
ensinou que: “Quem não conhecer a si mesmo não conhece nada, mas presentes no corpo humano valem hoje (Nov 2015), isolados e puros,
quem se conhece, vem a conhecer simultaneamente a profundidade de adquiridos a preço de mercado, R$ 4.000,00.
todas as coisas”. Agora, sabendo a composição química ponderal do ser humano mé-
Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro dio, é possível calcular o quanto de cada elemento é necessário para
de vós” (Lc 17.21). a receita química humana. Usando a estequiometria química, vem que
Este versículo foi a resposta de Jesus a uma questão levantada pelos essa fórmula é:
fariseus sobre quando viria o reino de Deus. Ele já está aqui, dentro de nós! H[375.000.000] O-[132.000.000] C-[85.700.000] N-[6.430.000]
O conflito não é entre o bem e o mal, mas sim entre o conhecimento e Ca-[1.500.000] P-[1.020.000] S-[206.000] Na-[183.000]
a ignorância (Budha). K-[177.000] Cl-[127.000] Si-[38.600] Fe-[2.680] Zn-[2.110]
É fato que o número 666 também pode representar muitos outros ce- Cu-[76] I-[14] Mn-[13] F-[13] Cr-[7] Se-[4] Mo-[3] Co-[1]
nários, bem como muitas interpretações, mas a verdade é que esse nú-
mero nos foi passado pelo Livro do Apocalipse (a revelação de algo ocul- Esta é a fórmula química mínima do ser humano. Para cada átomo
to), de modo a nos ajudar a identificar a “besta” marcada com o número de cobalto, por exemplo, há 132 milhões de átomos de oxigênio e 375
276 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 277

milhões de átomos de hidrogênio. O corpo humano adulto com 70 kg contém cerca de Figura 4 desconcertante constatar que a vida orgânica utilize apenas cinco ou seis
[3x1027] átomos e pelo menos vestígios detectáveis de outros 60 elementos químicos, além desses elementos em quantidades apreciáveis; o principal deles sendo
dos aqui considerados. o carbono. Para além de ser o principal elemento constituindo a matéria
Quase 99% da massa do corpo humano são constituídos por seis elementos químicos: oxi- orgânica, os átomos de carbono existem na natureza, arranjados em duas
gênio, carbono, hidrogênio, nitrogênio, cálcio e fósforo. Apenas 0,85% são compostos por estruturas cristalográficas distintas, ditas alotrópicas, com propriedades
mais cinco elementos: potássio, enxofre, sódio, cloro e magnésio. diametralmente opostas: o grafite e o diamante. Um é abundante, fácil de
Em termos de massa dos elementos químicos, somos constituídos pelas seguintes quan- encontrar e vale praticamente nada; o outro é raro e muitíssimo valioso.
tidades dos vários elementos químicos: 35 kg Oxigênio; 6.4 kg Hidrogênio; 17.5 kg Carbono; Os átomos de carbono formam ligações muito fortes com outros
1.5 kg Nitrogênio; 1.0 kg Cálcio; 0.54 kg Fósforo; 110 g Enxofre; 72 g Sódio; 120 g Potássio; átomos de carbono; tão fortes que ele pode formar longas cadeias,
76 g Cloro; 17 g Magnésio; 18 g Silício; 2.5 g Ferro; 2.4 g Zinco; 83 mg Cobre; 31 mg Iodo; contendo milhares de átomos. Além do carbono, o silício é o outro ele-
12 mg Manganês; 4.2 mg Flúor; 6.2 mg Cromo; 5.4 mg Selênio; 4.9 mg Molibdênio e apenas mento que pode fazer isso. O carbono não forma somente longas ca-
1 mg de Cobalto. deias retas; mas também é capaz de formar cadeias que apresentam
É claro que qualquer bom cientista louco verifica duas vezes ou mais os resultados. Adicione ramificações. Esta é uma das principais razões porque os compostos
todos os montantes da receita humana e você obtém 62 kg para os elementos químicos conside- de carbono exibem tantos isômeros. Por exemplo, o composto decano
rados no cálculo. O peso médio de um adulto humano saudável não está longe desse resultado. de fórmula (C 10H22) tem 75 isômeros. Os átomos de carbono também
Com algumas visitas a um laboratório de química de uma universidade ou alguns telefo- podem formar anéis com diferentes números de carbono, e podem ser
nemas para um fornecedor de produtos químicos no mercado, podemos ter à nossa porta saturados ou insaturados.
cada átomo dos que compõem um ser humano. Você poderia então colocá-los num caldeirão Mas se a vida na Terra é baseada no carbono, o que o faz tão impor-
borbulhante, como o universo fez, mas constataria que nada iria acontecer. Embora saiba- tante para a vida? De fato, seria impossível para a vida na Terra existir
mos todos os ingredientes, a síntese (montagem) é a parte mais importante do processo do sem o carbono. Ele é o principal componente de açúcares, proteínas,
processo químico. Tudo deve estar perfeito. Afinal, como o bom astrônomo Carl Sagan disse gorduras, DNA, o tecido muscular e praticamente tudo em nosso cor-
uma vez: “a beleza de um ser vivo não são os átomos que fazem parte dele, mas a forma como po. A resposta está no modo e na capacidade de como o carbono se
esses átomos são alocados”. combina com outros elementos químicos para formar moléculas. Essa
Mas, claro que os seres humanos são muito mais do que o pó de estrelas mortas. Átomos capacidade faz com que seus átomos consigam formar uma variedade
humanos são as notas, a vida é a sinfonia. E um exército de seres humanos remontados a praticamente sem fim de longas cadeias, variando tanto em tamanho,
partir de elementos químicos fáceis de encontrar, pode ser o seu crescendo louco. quanto em formato. Tais propriedades permitem que o carbono consiga
Do mesmo modo, é possível escrever a fórmula mínima para o planeta Terra e para uma formar moléculas diferentes com o mesmo número de átomos, apenas
bactéria como a Escherichia Coli. alterando a configuração dos átomos envolvidos.
O homem é uma amostra minimizada do universo! “Somos feitos de poeira cósmica gerada A razão de carbono ser tão especial tem a ver com a sua configuração
nas fornalhas das estrelas” (Cosmos, Carl Sagan). eletrônica. Os elétrons existem em órbitas em torno do núcleo central
De fato, já vimos que mais de 90% de nossa massa corporal é poeira das estrelas, porque e o átomo de carbono tem quatro elétrons de valência em sua camada
todos os elementos, exceto o hidrogênio e o hélio, são criados nas estrelas. As nebulosas são mais externa. Como os átomos atingem a estabilidade com oito elétrons
uma mistura de gás e poeira constituída principalmente por hidrogênio, oxigênio, carbono e na órbita externa (regra do octeto), isto significa que cada átomo de car-
gases de silício. Nas belíssimas fotos obtidas pelo telescópio espacial Hublle, os gases de bono pode formar quatro ligações com os demais átomos circundantes.
carbono e silício são o que dão à nebulosa a sua aparência central de “coluna escura de po- Cada ligação na molécula do metano, por exemplo, é formada por com-
eira”, enquanto o gás hidrogênio lhe confere a coloração vermelha e o gás oxigênio dá o tom partilhamento de elétrons; um do carbono e outro do hidrogênio. Porém,
suave de azul. a capacidade de formar quatro ligações não está restrita ao carbono. É
uma propriedade inerente a cada átomo com quatro elétrons externos,
Discussão do tópico incluindo o silício, o estanho, o germânio e o chumbo. O que é especial
É interessante registrar que Deus optou por utilizar na sua síntese de Adão (creio que assim no carbono e a razão do porque formas de vida baseadas no silício são
podemos nos expressar, sem blasfemar), a argila; que é um material inorgânico realmente abun- restritas à ficção científica, (a vida baseado no chumbo sequer é men-
dante, sem carbono, mas rico em silício e alumínio constituído por alumino silicatos hidratados cionada) é que ele pode formar duplas e triplas ligações que comparti-
[xSiO2.yAl2O3.zH2O], e não um material (orgânico) rico em carbono. Pelo critério da abundância lham mais de um elétron com outro átomo, como mostrado nas molécu-
dos elementos químicos na natureza, toda a nossa estrutura e química deveriam forçosamente las abaixo. (Figura 4)
ser baseadas na química do silício! Note que cada carbono forma quatro ligações (as quatro linhas que
Tudo na Terra é constituído por diferentes combinações de todos os elementos – os quais saem de cada C), mas duas dessas ligações são compartilhadas por
podem ser encontrados na tabela periódica. Considerando que esta contém 118 elementos, é ambos os carbonos na mesma molécula.
278 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 279

Por que é carbono é capaz disso e o silício, não? Embora as ligações -cos e sem dúvida, muitos mais existem na natureza. A síntese orgânica é o ramo da química que
estejam todas desenhadas como linhas retas na figura acima, na reali- mais cresce entre todos. Todo ano, milhares de novos compostos são acrescentados à lista.
dade, elas são iguais. A ligação dupla consiste de dois tipos diferentes O átomo de silício, contudo, possui mais orbitais eletrônicos e todo o átomo é maior, sendo
de ligação. Cada ligação é composta de dois orbitais de elétrons (um de quase impossível que os orbitais exteriores se aproximem entre si o suficiente para formar
cada átomo) que se sobrepõem. A maneira mais fácil de pensar em um uma ligação dupla. É por isso que o dióxido de carbono (CO2) é uma molécula pequena e
orbital sem apelar para a física é imaginá-lo como uma espécie de zona gasosa, constituída por dois átomos de oxigênio, que formam duas ligações duplas com um
embaçada/desfocada como o conjunto de lugares onde é mais provável único átomo de carbono; enquanto o dióxido de silício é uma molécula gigante formada por
de se encontrar um elétron em rápido movimento. Quando dois orbitais um grande número de átomos de oxigênio e silício que se alternam entre si. Assim, diferen-
se sobrepõem, eles têm o dobro do espaço aonde podem se movimen- temente do carbono, o silício não forma ligações duplas e muito menos triplas, o que limita a
tar. A ligação simples é formada pela sobreposição dos dois orbitais quantidade de reações químicas envolvendo os compostos de silício. Pior que isso, restringe
circulares que existem em torno de ambos os átomos. A segunda liga- enormemente a variedade de moléculas possíveis.
ção (dupla) é formada de forma ligeiramente diferente. Os elétrons que As ligações duplas silício-silício existem apenas em condições extremas; porém, como elas
formam essas ligações não estão em um orbital esférico em torno do são bastante instáveis, aproveitarão qualquer chance de se separarem para voltar a formarem
núcleo, mas em orbitais que se projetam acima e abaixo do núcleo em uma ligação simples.
forma de alteres ovais. Quando eles se sobrepõem a ligação química se Duplas ligações carbono-carbono, por outro lado, se formam natural e facilmente e são cruciais
forma acima e abaixo da ligação simples, como mostrado no diagrama para todos os organismos vivos na Terra. Se a vida na Terra fosse baseada no silício, sua química
a seguir. Essas propriedades fazem com que o carbono consiga formar obrigaria que ela fosse construída de um modo totalmente diferente e provavelmente muito bizarro.
uma miríade de moléculas diferentes com o mesmo número de átomos, Finalmente, como resultado do metabolismo do carbono, forma-se o dióxido de carbono que
apenas alterando a configuração espacial desses átomos. por ser um gás tem grande mobilidade; em contrapartida, o dióxido de silício é sólido e é muito
mais difícil de ser removido de onde foi gerado. As propriedades químicas do C, somadas a
estas três dificuldades do Si, indicam que o carbono deve ter preferência apesar do silício ser
cerca de mil vezes mais abundante. Ainda assim a vida se desenvolveu com base no carbono.

A vida é uma coincidência cósmica?


Logo após o Big-Bang (a grande explosão da singularidade que deu origem ao universo) só
foram produzidos átomos de hidrogênio e hélio. Todos os outros elementos químicos tiveram
que ser formados por fusão atômica, nas fornalhas nucleares do interior das estrelas, como
as gigantes vermelhas e supernovas, Inclusive o carbono. Os elementos químicos mais pe-
sados do que o hélio, exigem as condições extremas encontradas no interior dessas estrelas
para se formarem.
No nosso Sol, praticamente não existe carbono, só em estrelas mais pesadas. É que o Sol
encontra-se ainda num estágio anterior, em que hidrogênio é transformado em hélio por fusão
nuclear (é esse processo que produz a energia solar). Quando o hidrogênio for totalmente
consumido, o hélio se fundirá em berílio, em seguida em carbono e em oxigênio como esque-
matizado na figura a seguir.
Figura 5 Hibridização: porque do átomo do
carbono é capaz de formar ligações simples,
duplas e triplas.

Então, porque o C pode formar duplas e triplas ligações e o silício não?


Parte da resposta está no tamanho. O carbono é o menor de todos os áto-
mos com quatro elétrons de valência (periféricos), o que significa que os
elétrons acima e abaixo dos orbitais estão perto uns dos outros o suficiente
para haver interação e a sua sobreposição, formando uma segunda e uma
terceira ligação. Este pormenor é capaz de dar origem a milhões de molécu-
las. Atualmente, são conhecidos mais de 19 milhões de compostos orgâni-
280 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 281

Ou seja, o hélio (He4) sofre uma primeira reação de fusão nuclear e Figura 6 As esferas são formadas por 60 átomos de carbono ligados de modo a formar algo pareci-
produz berílio (Be8); o berílio, por sua vez, se funde com outro núcleo do com uma “bola de futebol”. Sua quantidade é enorme, o equivalente a 15 luas terrestres.
de hélio e produz, finalmente, o carbono. Esta reação só é possível nas “Tais esferas estão aglutinadas, formando um objeto sólido, como laranjas em uma caixa”,
condições extremas de temperatura e densidade existentes no interior afirma o líder do estudo, da Universidade de Keele, Nye Evans. “As partículas que detectamos
de estrelas maciças, e numa fase avançada da sua evolução. são minúsculas, com diâmetros muito menores do que um fio de cabelo, mas cada uma con-
As condições para a formação do carbono e demais elementos quí- tém milhões dessas esferas”.
micos, são de fato, muito específicas. Apesar disso, o carbono é mais A luz emitida pelas esferas de carbono é diferente do que as formas gasosas vistas ante-
abundante do que parece. riormente, o que permite imaginar que o telescópio detectou o material em sua forma sólida.
De fato, o processo de síntese do carbono nas estrelas tem carac- Na Terra, essas esferas poderiam ser usadas como supercondutores; na área médica; como
terísticas desconcertantes. Neste caso, o carbono, o elemento funda- purificadores de água e em blindagem. Elas se formam naturalmente como um gás, que sai
mental para a vida na Terra, é necessário que seu núcleo passe por de velas pegando fogo ou na forma sólida em minerais rochosos. Nunca haviam sido vistas
certo estado intermediário especial, para que ele possa se formar no in- na forma sólida, no espaço (foi utilizado o telescópio espacial Spitzer, da NASA).
terior das estrelas. Esse processo de formação do carbono no interior Esse resultado surpreendente sugere que as esferas de carbono são comuns no espaço,
das estrelas quentes é chamado processo triplo alfa e dá origem a uma po-dendo ser formas importantes do carbono.
forma do núcleo de carbono rica em energia, que é um passo intermedi-
ário entre o núcleo de hélio e o núcleo de carbono, muito mais pesado. O Estado Hoyle: foi o universo criado para a vida baseada em carbono?
Esse estado é chamado estado de HOYLE porque foi o cientista Fred O conceito de nucleossíntese nas estrelas foi estabelecido pelo Professor Hoyle em 1946, for-
Hoyle (1915-2001) do Instituto de Astronomia da Universidade de Cam- necendo uma explicação para a existência de elementos mais pesados que o hélio no universo
bridge, o pioneiro desta descoberta. Ele notou que a produção estelar e basicamente mostrando que elementos críticos como o carbono poderiam ser produzidos
do carbono só era possível porque há uma ressonância ocorrendo em nas estrelas e mais tarde incorporados em outras, bem como em planetas, quando a estrela
um nível de energia particular no carbono, sendo ao mesmo tempo au- “morre”. As novas estrelas formadas recentemente já são formadas com esses elementos pe-
sente qualquer ressonância similar no oxigênio, o que impediu a perda sados e elementos ainda mais pesados são formados a partir deles. Hoyle estabeleceu a teoria
do carbono, que em caso contrário teria em sua totalidade se tornado de que outros elementos raros podiam ser explicados por supernovas, as explosões de estrelas
oxigênio. (Figura 6) gigantes que ocorrem ocasionalmente no universo, cujas temperaturas e pressões são obriga-
Esse, contudo, não é o carbono-12 que conhecemos e encontramos na toriamente requeridas para criar tais elementos.
Terra e do qual tratamos neste artigo, mas um estado especial de alta O processo não é tão simples como parece e depende de uma coincidência notável. Na
energia, ou o carbono no estado Hoyle. A energia normal do carbono é realidade, o núcleo de berílio-8 fica ligado de forma muito precária à terceira partícula alfa.
muito menor que a energia do hélio e do berílio somadas, o que a rigor, Normalmente, esta associação temporária, designada pelos físicos de estado ressonante,
não impossibilita totalmente a formação do carbono, mas a torna extre- desfaz-se rapidamente, resultando de novo em três partículas alfa livres. No entanto, por sor-
mamente improvável de acordo com as leis que regem as reações nucle- te, o estado excitado do núcleo do carbono-12 tem uma energia apenas ligeiramente superior
ares. Desse modo, o carbono praticamente nunca se formaria. à energia do estado ressonante. Assim, quatro em cada 10 mil vezes, o estado ressonante
Os cientistas vinham tentando chancelar experimentalmente o esta- adquire uma energia suficientemente elevada para se reconfigurar e formar esse estado ex-
do Hoyle há quase 60 anos sem sucesso, até que conseguiram. Esse citado do carbono-12.
estado tem uma energia muito específica, medindo 379 KeV a mais do O estado de Hoyle, na realidade, é um estado de ressonância (lembra-se da argila ressonan-
que a energia das três partículas alfa envolvidas da reação Se o estado te de Allah?), o que significa que ele não pode ser localizado espacialmente e tem uma vida
de Hoyle não existisse, as estrelas poderiam gerar apenas quantidades muito curta, determinada pela energia que falta para o limite de emissão da partícula. Apenas
muito pequenas não apenas do carbono, mas também de outros ele- 1 (um) em cada 2.500 estados de ressonância vai de fato decair e gerar um carbono-12 está-
mentos mais pesados, como oxigênio, nitrogênio e ferro. Ou seja, sem vel, como o conhecemos.
esse passo intermediário, o Universo não seria mais do que uma massa Se a energia do estado Hoyle fosse um pouco maior que 379 keV, a quantidade de carbono
gasosa ou gelatinosa sem os elementos mais pesados, a vida tal como a produzido seria demasiado baixa para a vida ser baseada em carbono. O mesmo vale para
conhecemos não seria possível e o Universo com certeza seria totalmen- o oxigênio. Se essa energia fosse menor que 379 keV, então não haveria muito carbono por-
te diferente. Talvez nem existisse. que o hélio seria rapidamente transformado em carbono (seu ciclo de vida seria mais curto)
e como consequência, as estrelas não seriam quentes o suficiente para produzir oxigênio.
“Bolas de futebol” de carbono, orbitando estrelas distantes. Acontece que essa energia é justamente muito próxima da soma do hélio com o berílio! O que
Pela primeira vez, no ano 2010, astrônomos descobriram no espaço, formas era extremamente improvável passa além de ser de provável, uma certeza.
sólidas de carbono como pequenas esferas, no interior de uma vasta nuvem Em simulações num supercomputador, descobriu-se que de (2 a 3) % de alteração na ener-
de partículas que orbita duas estrelas distantes a 6.500 anos-luz da Terra. gia envolvida, acarretaria em problemas com a abundância dos elementos carbono e oxigênio
282 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 283

no universo. Não há nenhuma lei da física que obrigue isso a acontecer. Figura 7 Thomas Gold, um renomado astrofísico austríaco defendeu a possibilidade de vida baseada
Será apenas uma coincidência? O estado de Hoyle é um excelente exem- no silício no interior da Terra, na sua obra A biosfera quente e profunda (Oficina Editorial Via
plo para a teoria de que as constantes naturais (cosmológicas ou não) Óptima, Porto/Portugal-2007), um livro empolgante, porém muito controverso, mas que vale
devem ter precisamente os seus valores como determinados experimen- a pena ler. As formas de vida teorizadas pelo Dr. Gold, baseadas no silício, se existem, seriam
talmente, e não quaisquer outros diferentes, pois caso contrário, não es- mais parecidas com micro organismos capazes de resistirem a enormes pressões e tem-
taríamos aqui para observar o Universo (o princípio antrópico forte). peraturas, vivendo em poros delgados dentro de rochas profundas no interior da Terra. Elas
Para o estado de Hoyle, isso significa que ele deve ter exatamente poderiam retirar energia dos gases dissolvidos e dos minerais circundantes. “É quase ingênuo
a quantidade de energia que ele tem, ou então nós não existiríamos. assumir que toda a vida deva ser baseada no carbono, mesmo na Terra; eu poderia possivel-
Agora nós podemos calcular se, em um mundo diferente, com outros pa- mente fazer boas brincadeiras com a vida baseada em ambos, silício e fósforo”, ele afirma. De
râmetros, o estado de Hoyle teria de fato uma energia diferente quando fato, organismos bizarros têm sido encontrados em anos recentes nas profundezas da crosta
comparado com a massa de três núcleos de hélio. Se isto se confirmar, da Terra. Steve Jones, professor de genética no University College London, disse: “Existe um
os cálculos validariam o princípio antrópico. (Figura 7) universo totalmente desconhecido lá embaixo, que tem produzido organismos com metabo-
A natureza é primorosamente ajustada para a possibilidade de vida no lismos tão estranhos, que por comparação, o homem e os cogumelos seriam quase idênticos.
planeta Terra: se a foça gravitacional fosse reduzida ou aumentada em Só Deus sabe o que mais pode ser encontrado”.
menos que 1%, o Universo não se formaria; por uma minúscula alteração Posteriormente, Isaac Asimov e o astrofísico Carl Sagan no seu livro Cosmos teorizaram
na força eletro-magnética, as moléculas orgânicas não se uniriam. Nas que há sim, possibilidade real de existir vida baseada no Silício e no Germânio; elementos
palavras do físico Freeman Dyson, parece que o “Universo sabia que es- primos do Carbono.
távamos chegando”. O Universo não se assemelha a um lance de dados O silício tende a se polimerizar formando substâncias sólidas insolúveis. Essa sua forte
aleatório. Parece pura e simplesmente proposital. tendência molecular, leva à formação de silicatos, silicones e resinas.
Tanto quanto se pode observar, todas essas quantidades não mudam Apesar de o silício ser quase 1000 vezes mais abundante que o carbono, e encontrado em
nem no espaço nem no tempo. Contudo, especula-se sobre se poderiam toda parte (no quartzo, nos vidros, nas rochas, solos e nas argilas), creio que seja muito im-
variar. Uma possibilidade é que talvez as energias envolvidas sejam di- provável haver vida num ambiente terráqueo tal qual a conhecemos e vivenciamos.
ferentes em várias partes do Universo e nós necessariamente só poderí- Um exercício interessante é especularmos como seria a vida e como seríamos nós, se no lu-
amos nascer naquela região em que houvesse essa coincidência. Outra gar de neurônios de carbono tivéssemos chips de silício. Mais inteligentes? Menos propensos
possibilidade é que as energias variem aos poucos com o tempo. Como às doenças degenerativas do cérebro? Menos agressivos? Menos propensos à religiosidade?
parece que não variaram do Big-Bang para cá, isso só faz sentido em Difícil afirmarmos qualquer coisa.
teorias alternativas em que o Universo é cíclico, com vários Big-Bangs O carbono e o silício pertencem à mesma família química (IVA) da tabela periódica. Por-
se sucedendo um após o outro, sem precisarem ser necessariamente tanto, apresentam propriedades químicas similares. Por exemplo, ambos têm 4 elétrons no
idênticos. Obviamente, só poderíamos nascer numa época em que essa orbital mais externo, que é o responsável por formar ligações químicas com outros elementos
coincidência ocorresse. químicos:
De qualquer forma, é um mistério muito curioso – não tanto pelo misté- C g {[He][1s2][2s22p2]} e Si g{[Ne][3s23p2]}
rio em si, mas porque nele mora a razão por estarmos aqui. Não obstante,
é o único caso em toda a história científica, que tem sido utilizado para Se os orbitais estão ocupados, o átomo é incapaz de reagir como no caso dos gases nobres.
justificar o princípio antrópico. O carbono tem o orbital externo (a faixa de valência) exatamente meio-ocupado e próximo ao
núcleo atômico, o que lhe permite relacionar-se com os outros átomos como um doador ou
Pode haver vida baseada no silício? um receptor de elétrons. Desse modo, ele pode for-mar compostos com quase cada elemento
O primeiro a propor seriamente perante a comunidade científica, a vida da tabela periódica. O orbital mais externo do carbono envolve o seu núcleo e isto permite que
baseada no silício como uma alternativa para o carbono, foi o astrofísi- ele forme ligações fortes. Ele pode ligar-se consigo mesmo e com tão grande poder como ele
co alemão Julius Schneider em 1891. Ele especulou sobre a existência pode ligar-se com qualquer outro elemento químico.
de vida em planetas rochosos do nosso sistema solar. Em seguida, em Já o silício tem um orbital externo que é análogo ao orbital mais externo do carbono. En-
1893, James Emerson Reynolds sugeriu que a vida à base de silício pode tretanto, o orbital externo do silício está mais afastado do seu núcleo e por isso ele não pode
existir, mas a temperaturas extremamente altas, porque os compostos formar ligações tão fortes com os outros átomos ou consigo mesmo. Com o elemento Ger-
de silício são estáveis a pressões e a temperaturas elevadas. Trinta anos mânio, esse problema é ainda mais acentuado.
depois, JBS Haldane sugeriu, ecoando Reynolds, que a vida baseada em Assim, desde que os elétrons mais externos do silício estão mais afastados do núcleo, ele
silício poderia existir nas rochas fundidas no interior da Terra. O seu não é capaz de originar compostos químicos ligados fortemente. De fato, compostos com
manto contém silício suficiente e, como notado acima, os compostos mais de três átomos de silício alinhados são instáveis, a menos que sejam forçados para
de silício são muito estáveis a altas temperaturas. Nos últimos anos, o interior de um sólido compacto com forma cristalina. A intensidade da ligação de dois
284 JACQUES DE MEDINA Considerações sobre a criação do homem a partir da argila 285

átomos de silício (Si-Si) é somente 50% da intensidade da ligação entre A amônia é um parente próximo da água e poderia atuar como sol-
dois átomos de carbono (C-C). Portanto a bioquímica do silício como vente em temperaturas mais baixas dos planetas gigantes gasosos. Os
base para a vida é teoricamente possível, mas muito certamente origina- compostos de silício (silicatos, silanos, silicones), entretanto, não têm
ria criaturas mais frágeis. afinidade pela amônia. No caso da água, apesar de haver grande afini-
A figura seguinte (repetida milhares de vezes) é o melhor que o silício dade pela água, seu poder como solvente é reduzido. O solvente por ex-
pode fazer para encadear os seus átomos juntos. Ele não é simplesmen- celência para o silício é o ácido fluorídrico (HF). Este composto é usado
te capaz de ter variabilidade na formação de cadeias, como é o carbono. para marcar vidros e causticar circuitos nos chips de sílica. O flúor é um
elemento raro e este fato por si só reduz drasticamente a ocorrência de
CH3 CH3 CH3 criaturas baseadas no silício pelo menos na Terra.
| | |
O - Si - O - Si - O - Si - O [3] As moléculas não são comuns no espaço
| | | Se o silício fosse a base da vida em outra parte do cosmos, seríamos
CH3 CH3 CH3 capazes de encontrar evidências dela nos corpos que atingem a Terra
oriundos do espaço exterior. Hidrocarbonetos de todas as espécies, bem
como uma variedade enorme de outras moléculas orgânicas, são encon-
Problemas com a vida baseada no silício trados nos cometas e meteoros. Além disso, veríamos evidências espec-
troscópicas de silício na atmosfera dos planetas no nosso sistema solar
[1] O metabolismo não é bom. e nas nuvens interestelares fora da galáxia Via Láctea. Não importa para
O metabolismo da vida terrestre normal depende das trocas de oxigênio/ onde olharmos, não existe evidência de compostos do silício. Além disso,
dióxido de carbono. Criaturas de silício não seriam capazes de aproveitar a abundância do silício é dez vezes menor que a do carbono: para cada
oxigênio para esta tarefa. Isto porque o silício liga-se tão rigidamente ao átomo-grama de Si, existem 10 átomos-grama de carbono.
oxigênio, que o processo de transporte do oxigênio efetuado pelo carbono
como CO2 é impossível. O equivalente no silício ao dióxido de carbono é o O silício nas esponjas marinhas e nas plantas
dióxido de silício, um sólido ao invés de um gás em todas as superfícies Apesar da incapacidade da vida na Terra ser baseada no silício, isso não
planetárias. Inalar ou exalar SiO2 soa muito desagradável, mas o oxigênio significa que esse elemento não seja importante para a vida carbonada.
quando primeiramente apareceu na Terra, era igualmente ruim. Era um Muito pelo contrário. Para a vida baseada no carbono, o silício é um ele-
veneno. Convertemos oxigênio ao nível molecular em dióxido de carbono mento que tem sua importância.
para a obtenção de energia, Os organismos terrestres desenvolveram uma Por exemplo, as esponjas marinhas retêm 88% do silício do oceano,
complicada cadeia de enzimas que manipulam o oxigênio cuidadosamen- um nutriente fundamental para a proliferação de microalgas (diatomá-
te. Mas existe um preço a ser pago pelo uso do oxigênio deste modo: ceas) e da vida marinha microscópica. O silício faz com que o mar seja
ele não é inflamável, mas é venenoso. Sua ação enferruja metais, torna a mais produtivo e rico em vida, porque facilita a proliferação do plâncton
manteiga rançosa, transforma o vinho em vinagre e nos faz envelhecer. De e das diatomáceas. Essas microalgas absorvem grandes quantidades
todo oxigênio que respiramos 95% é usado para gerar energia necessária de CO2 atmosférico, paliando o efeito estufa e o aquecimento global do
para a vida; mas, os 5% restantes são transformados no organismo em planeta. As esponjas podem incorporar silício durante milênios, enquan-
radicais livres: as formas singlete e triplete; o superóxido, o peróxido, a to as diatomáceas do plâncton só o acumulam durante alguns dias. A
hidroxila e a hidroperoxila. Combatemos esse efeito negativo do oxigênio sapiência da natureza!
sobre o nosso corpo, consumindo antioxidantes. Se não puderem usar o Também já se demonstrou o envolvimento do silício em vários as-
oxigênio como uma fonte de energia, as criaturas de “silício” estarão res- pectos estruturais, fisiológicos e bioquímicos da vida das plantas,
tritas a uma existência difícil de imaginar. com papéis bastante diversos. Ele tem um papel importante nas re-
lações planta-ambiente, pois pode dar à cultura melhores condições
[2] Não existe um bom solvente para o silício para suportar adversidades climáticas, edáficas e biológicas, tendo
Não existe solvente para os compostos do silício, natural e prontamente como resultado final um aumento e maior qualidade na produção.
disponível. Um solvente é uma substância que serve de meio para reações Estresses causados por temperaturas extremas, veranicos, metais
químicas; é capaz de, por dissolução, liberar os nutrientes necessários pesados ou substancias tóxicas, por exemplo, podem ter seus efeitos
para as células dos órgãos. Atua na regulação da temperatura e na evacu- reduzidos com o uso do silício. Um dos efeitos benéficos que se so-
ação dos resíduos do metabolismo. A vida baseada no carbono (70% H2O) bressaem é o seu papel em reduzir a susceptibilidade das plantas a
tem a água para exercer todas estas tarefas. doenças causadas por fungos.
286 JACQUES DE MEDINA 287

O padrão de deposição de sílica nas plantas é biologicamente especí- O longínquo passado do solo
fico sendo possível identificar as plantas pelo exame microscópico das
partículas de sílica. As folhas das urtigas, por exemplo, estão revestidas (A história da sua longa jornada)
de milhares de micro cristais de silício.
A tecnologia baseada no uso do silício na agricultura é limpa e sus- Francisco José Casanova
tentável, com enorme potencial para diminuir o uso de agroquímicos e
aumentar a produtividade através de uma nutrição mais equilibrada e
fisiologicamente mais eficiente, o que significa plantas mais produtivas,
com menos doenças e mais vigorosas (Lima Filho, 2010, Embrapa).

Conclusão do tópico

O silício e o carbono deveriam se equivaler na habilidade para gerar mo-


léculas e formas de vida em condições ambientais não severas, já que a
formação de moléculas complexas é dificultada (mas não impossível!) PEC-COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO O autor discorre sobre a formação dos primeiros solos na Terra,
em ambientes extremos. Entretanto, uma vez que as condições tornem- na Era Média Arqueana do Supereon Pré-Cambriano. Foi nesse tempo re-
-se menos extremas, o carbono tem propriedades intrínsecas para a for- moto, há pelo menos 3000 milhões de anos, quando a Terra tinha somente
mação de vida, que o permitem ultrapassar o silício nesta tarefa. Como 1.55 Ga, que o planeta começou a “produzir” o solo. Hoje, solos remanes-
as plantas exóticas, a vida de silício talvez pudesse florescer num nicho centes daquele tempo ainda podem ser encontrados: são relíquias preté-
muito particular e protegido. ritas de um passado longínquo, testemunhas de importantes eventos que
nos assombram e que tentamos elucidar.

Conclusão final
1 INTRODUÇÃO
Sem mais delonga, encerro estas reflexões com as palavras, muito bem
colocadas de Suzi, et al. (s/data), “Deus inicialmente criou o Universo com O solo é objeto de estudo, de trabalho e meio de vida para muitos. Não
todas as leis físicas e químicas que o regem, as quais o homem sempre obstante, poucos se dão conta que, como tudo que existe, sem exceção,
se esforçou por encontrá-las e desvendá-las. Portanto, Ele não poderia o solo também teve um começo. Obviamente, olhando-o como indivíduo
ter agido de outro modo ao escolher o elemento químico carbono como a único há sempre um começo que se repete sem cessar no tempo e no es-
base da vida quando decidiu criá-la – pelo menos na Terra”. paço. Assim como a vida, aqui referimo-nos ao solo como uma entidade
“De outro modo, qual seria o sentido de criar regras e passar a desobe- que passou a existir e evoluir num dado momento da história geológica da
decê-las? Mostrar Seu poder”? Ele o fez de muitos outros modos!” Terra. Em que época da sua vida o solo apareceu? Onde? Como era esse
“Deus criou o homem e lhe deu o poder também de criar na vida. O solo? Houve solos antes do aparecimento da vida? Se sim, como eram tais
homem, como oleiro próprio, nasce, cresce, amadurece e, com ânimo solos? Como se formaram? E em que época foi isso? Existem evidências
no conhecimento de si mesmo, consegue, com esforços, polir os erros desses solos ainda hoje?
e os defeitos mais importantes, na tentativa de melhorar a si mesmo”. Tais solos, mormente enterrados, ou não, apareceram em superfícies
“Mas, na sua certa impotência, entrega seus problemas a Deus, para de relevo antigas. Mesmo mantidos em superfície e influenciados por
que o ajude quando se sente incapaz nas suas superações, pois, como mudanças ambientais posteriores, eles evidenciam antigos ambientes
humano, não é perfeito” e contêm registros a respeito de clima, cobertura vegetal, formas de re-
E se Deus for uma simples metáfora para o universo? O que de fato, levo, intensidade da pedogênese, bem como taxas de sedimentação vi-
realmente pode significar ser criado à imagem e semelhança de Deus? gentes durante sua formação. São classificados como paleossolos (An-
Este é assunto para outro trabalho. dreis, 1981; Ladeira, 2010; Retallack, 1990; Wright, 1992; Kraus, 1992).
Assim, um paleossolo é um solo originado em tempo geológico preté-
PALAVRAS-CHAVE solo, rito como o resultado de condições ambientais daquela época.
terra, paleossolos, pedologia, Desde os estudos pioneiros de James Hutton em 1795, Frank Leverett
Pré-cambriano, vida em 1898 e John Hardcastle em 1889, que os paleossolos são conheci-
• Referências bibliográficas na página 405.
288 JACQUES DE MEDINA O longínquo passado do solo 289

dos (Retallack, 1990; Andreis, 1981). Hoje, a Paleopedologia é reconhecida como um ramo solos de baixa qualidade. A chave para essa colonização foi a cooperação; mais especificamente,
interdisciplinar da Pedologia, com forte produção científica, mas que ainda está na infância. o aparecimento dos líquens entre 700 e 550 milhões de anos atrás. Os líquens são capazes de co-
Os paleopedólogos pensam que os primeiros solos começaram a se formar no Pré-Cam- lonizar rochas nuas e, ao fazê-lo, produzem ácidos orgânicos que aumentam o intemperismo das
briano (Retallack, 1990) que remonta há mais de 4.500 milhões de anos. Há cerca de 3,8 rochas. Isto significa que eles não somente participaram da gênese dos primeiros solos da Terra,
bilhões de anos atrás, as condições na Terra começaram a se estabilizar. O constante bom- mas também neles se estabeleceram e os modificaram. Ao acelerar a desagregação das rochas,
bardeio de meteoritos em 0.6 Ga de vida da Terra, que fez do planeta um inferno até aquele os líquens liberaram nutrientes para o solo incipiente, tornando-o mais fértil e abrindo o caminho
momento (a temperatura na superfície pode ter chegado a 1200o C, após 500 Ma caiupara para outras formas de vidas e estabelecer na terra. Ao trabalhar em conjunto, estes diversos
70o a 80oC), começou a diminuir e a água líquida pôde se formar (pela condensação do vapor organismos combinaram suas habilidades para colonizar os ermos solos sem vida, que cobriam
d’água atmosférico) originando lagos e mares entre 3.9 e 4.4 Ga atrás, com pH ácido. Isto os continentes meio bilhão de anos atrás. Ainda hoje, os líquens estão entre os organismos mais
marcou um ponto importante na história do solo, pois a água passou a desbastar e a intem- adaptáveis da Terra. Eles foram críticos para a sua colonização pelas plantas.
perizar a crosta rochosa da Terra, gerando a matéria mineral particulada que deu origem aos Uma segunda onda de colonização começou cerca de 440 milhões de anos atrás com a for-
primeiros sedimentos e aos solos. te proliferação dos fungos e das plantas terrestres primitivas, que logo começaram a alterar
Tanto uns quanto outros foram muito diferentes daqueles de hoje em dia, porque nos anos substancialmente o solo primitivo,criando uma estrutura mais acentuada, explica Retallack
inicial e médio (Hadeano e Arqueano) do Pré-Cambriano, não existiam ainda seres vivos e (1990), ajudando na liberação de nutrientes, como o fósforo e o potássio para o solo. Isto
nem vegetação verde. Logo, não havia também matéria orgânica para ser decomposta, de provocou um efeito fertilizador, ao espalhar essa adubação tanto na terra como no mar.
modo que tais solos eram totalmente estéreis. Alguns autores denominam esses materiais A chave para esse poder de fertilização das plantas foram os fungos com as suas micorrizas
de alteração como “protossolos” (Hunt, 1972). alojadas em seus sistemas radiculares. Estas “micorrizas” evoluíram bem antes das plantas de-
Portanto, nesse momento histórico da Terra, também não existia o intemperismo biológico senvolverem raízes (Claire et al, 2010). Muito parecido com o comportamento dos fungos nos
e o químico, de certo envolvia a interação das rochas com os gases quentes da atmosfera líquens, as micorrizas ganharam energia cooperando com as plantas fotossintéticas e, nova-
vigente no período. Apesar deste autor não ter encontrado alguma referência às alterações mente, como com os líquens, os benefícios foram para os dois lados: as micorrizas ganharam
químicas por via úmida, como há 3.8 bilhões de anos já havia água líquida, é crível que o filamentos ampliando o alcance das plantas tornando-as mais estáveis e permitindo-lhes absor-
cenário químico não deva ter sido muito diferente do que existe atualmente, o qual envolve ver nitrogênio e outros nutrientes do solo. Os filamentos das micorrizas também são capazes
basicamente a interação química das rochas com a água através dos conhecidos processos de se entranharem na rocha, desagregando-a e favorecendo a lixiviação de nutrientes, como
químicos da hidrólise (5.5<pH<8.5), da acidólise (pH<5.5) e da alcalinólise (pH>8.5). Aquela, fósforo, cálcio e ferro, ajudando assim o volume de solo a crescer. Acredita-se que essa relação
certamente tinha uma intensidade elevada, pois a temperatura da superfície da Terra era de de mutualismo foi essencial para a evolução das plantas terrestres, uma hipótese reforçada há
70ocentígrados. Por outro lado, o intemperismo físico já devia ser bastante ativo. quinze anos com a descoberta de micorrizas fósseis com 460 milhões de anos de idade; da
Acredita-se que a primeira vida na Terra provavelmente surgiu na água, um pouco mais tar- época anterior à evolução de plantas terrestres. Tais hifas fúngicas fossilizadas e esporos são
de, entre 3,5 a 4 bilhões de anos atrás. Algumas das primeiras evidências vêm de estruturas do Ordoviciano de Wisconsin (com uma idade de cerca de 460 milhões de anos) e assemelham-
fossilizadas que se formaram em costões rochosos e lembram tapetes de micróbios. Esses -se fortemente a micorrizas arbusculares de fungos modernos, indicando que os fungos esta-
seres (procariotas unicelulares e cianobactérias que mais tarde se agruparam formando os vam presentes num momento em que a flora terrestre muito provavelmente consistia apenas
estromatólitos) foram capazes de sair do oceano e se fixarem como biofilmes lodosos nas de plantas briófitas. Assim, estes fungos também podem ter desempenhado um papel crucial
rochas às margens do oceano e de outros corpos d’água. na facilitação da colonização da Terra pelas plantas, apoiando as estimativas moleculares da
Um pouco mais tarde, há 3.0 Ga, aparece o O2 (um evento único que marcou profundamente filogenia de fungos,que coloca a origem dos seus principais grupos terrestres (Ascomycota,
o desenvolvimento da vida, no tocante à energia) cuja concentração aumenta lentamente até Basidiomycota e Glomales) em torno de 600 milhões anos atrás (Claire et al., 2010).
o fim da era Paleozóica (0.6 Ga) quando então sofre um rápido aumento, atingindo há 0.3 Ga Esse relacionamento mutuamente benéfico ajudou as plantas a colonizar a terra antes de
sua maior concentração. terem raízes e antes que houvesse o solo como o conhecemos hoje. Conforme o tempo avan-
Quase desde o momento de sua origem, a vida começou a influenciar – e ser influenciada çava as plantas evoluíram para tornarem-se mais estruturalmente complexas, desenvolvendo
– pelo solo. Por exemplo, aqueles primeiros tapetes microbianos foram construídos a partir extensa rede vascular, folhas e sistemas de enraizamento, o que acarretou em mais matéria
de organismos fotossintéticos, capazes de produzir grandes volumes de material orgânico orgânica no solo e ajudou a controlar a erosão. Hoje, relações simbióticas como estas for-
usando a energia do sol. Esta matéria orgânica acumulou-se gradualmente no litoral, onde se mam a base da ciclagem global de nutrientes, sem os quais morreríamos de fome. Mais de
misturou com os minerais liberados pelo intemperismo das rochas para criar o que foi sem 80% das plantas modernas formam relações micorrízicas com fungos filamentosos que são
dúvida o primeiro solo que podemos chamar verdadeiro. cruciais para a fixação e liberação de nitrogênio no solo. As micorrizas também formam gran-
Mas este não era o solo como o conhecemos, pois não armazenavam água e nutrientes para des redes que estabilizam a estrutura do solo e permitem às plantas se comunicarem, e por
sustentar a vida. A simples estrutura desses solos implicava que eles rapidamente eram drena- isso ganharam o apelido de “internet da Terra”.
dos, perdendo por lixiviação os nutrientes no processo. Devido a isso, a terra permaneceu um Assim, à medida que as plantas gradualmente colonizaram a terra, grandes quantidades
habitat hostil, e a vida ficou restrita onde a água era mais prontamente disponível. Não existe um de matéria orgânica se acumularam no solo, o que aumentou a sua capacidade de armaze-
único organismo que tenha se adaptado de modo a conseguir se afastar da costa e colonizar tais namento de água.
290 JACQUES DE MEDINA O longínquo passado do solo 291

Há uma terceira onda final na evolução dos primitivos solos para os modernos: no intervalo são ricas nos minerais primários dos grupos das olivinas e dos piroxênios, que são termodi-
de tempo entre cerca de 490 e 430 milhões de anos atrás, animais surgiram pela primeira vez namicamente estáveis às altas temperaturas e pressões que prevalecem nas profundidades
a partir dos oceanos e começaram a colonizar a terra, cada vez mais verdejante. Há cerca de onde se encontravam. No entanto, quando expostos a ambientes próximos da superfície, eles
420 milhões de anos atrás, os invertebrados terrestres estavam em pleno desenvolvimento, reagem com a água (salgada ou doce) para formar as conhecidas rochas serpentínicas ou
e em consequência, novamente os solos sofreram profundas alterações. Estes habitantes serpentinito.
terrestres primitivos eram herbívoros e devoravam avidamente os tapetes de algas e líquenes As principais reações químicas que conduzem à serpentinização são (Sleep et al., 2011):
que povoavam a terra, empobrecendo os solos em matéria orgânica e nutrientes. Mas eles
também cavaram e colonizaram o solo, revolvendo-o misturando matéria orgânica morta com Fe2SiO4 (faialita/olivina) + 5Mg2SiO4 (forsterita/piroxênio) + 9H2O
os minerais do intemperismo das rochas dando-lhe uma estrutura ainda mais propícia, aju- g 3Mg3Si2O5(OH)4 (serpentina) + Mg(OH)2 + 2Fe(OH)2
dando assim as plantas a continuar a se desenvolverem e prosperarem longe da água.
Por outro lado, a variedade dos organismos que passaram a viver do e no solo, aumentou Mg2SiO4 + MgSiO3 + 2H2O g Mg3Si2O5(OH)4[olivina + piroxênio + água g serpentina]
rapidamente. Novos invertebrados apareceram, incluindo milípedes, colêmbolos, ácaros e os
ancestrais primitivos das aranhas, entre outros. Desse modo, há cerca de 350 milhões de 3Fe(OH)2 g Fe3O4 + 2H2O + H2
anos atrás, os solos começaram a ser parecidos com o que são hoje, incluindo os pântanos Hidróxido Fe (II) g magnetita + água + hidrogênio
e os solos de florestas. Estamos no final do período Devoniano e segundo Retallak (1990)
“todas as principais classes de solos já tinham aparecido na Terra, com exceção dos solos O hidrogênio molecular liberado durante a serpentinização reduz sulfatos e carbonatos e
de pradaria”. Estes só começaram a aparecer até cerca de 65 milhões de anos atrás, após a gera os gases sulfeto de hidrogênio (H2S) e metano (CH4). Reações secundárias podem ori-
extinção dos dinossauros. ginar hidrocarbonetos de cadeia curta bem como formato e acetato (possívelmente esses
A história do solo desde então tem sido moldada por fatores físicos, químicos e pelos foram os primeiros compostos orgânicos). Às temperaturas abaixo de 150oC, o processo au-
microrganismos, através de uma teia dinâmica de processos interativos que começaram no menta o pH do meio reacional para cerca de 10 e promove a precipitação do cálcio e do carbo-
alvorecer do tempo geológico, bilhões de anos atrás. E essa história continua a se desdobrar nato como carbonato de cálcio. As reações são altamente exergônicas, liberando calor e con-
como uma consequência de nossas ações ao longo dos últimos séculos. tribuindo para a circulação dos fluidos reativos através das fissuras nas rochas. O processo
Os solos Pré-Devonianos foram importantes fontes de informação a respeito das caracte- de alteração química da rocha durantea serpentinização é exergônico, reduz sua densidade,
rísticas de oxirredução da atmosfera quando apareceram. Sua importância reside no fato de aumenta seu volume e promove a sua elevação.
que serviram para identificar o aumento da concentração de O2 na atmosfera, entre 2,45 e 2,2 Dos demais argilominerais, pode-se esperar a formação da clorita em uma maior ou menor
bilhões de anos atrás, o que foi feito pelo monitoramento do aumento do Fe(III) e o surgimen- quantidade, dependendo do ambiente químico; dos minerais [2/1], possivelmente a vermicu-
to das chamadas red beds nesse período (Rye & Holland, 1998; Seanet al. 2013). lita tenha aparecido como interestratificado com a ilita, ao passo que a montmorilonita não
foi favorecida já que sua formação implica na lixiviação completa do íon K+. A caolinita [1/1,]
por sua vez, não deve ter se formado, dadas as severas condições químicas requeridas para
OS PROTOSOLOS E O INTEMPERISMO a sua formação.
Não obstante, essa análise é uma suposição deveras simplista, em vista da diagenesis
Aqueles solos eram constituídos por argilas verdes, constituídas muito certamente por micas e do metamorfismo comumente obscurecerem a assinatura da paragênese, originalmente
ilitas (1M, 1Md e 2M1) e pela glauconita (ilita autígena de sedimentos marinhos), bem como derivada do intemperismo das rochas Pré-cambrianas. O comumente predomínio da ilita é
serpentinas, que são filossilicatos hidratados ricos em magnésio e ferro (II), em regra autígenos, considerado como indicação da transformação diagenetica da esmectita e/ou dos produtos
presentes em rochas alteradas por um processo puramente químico. do intemperismo ricos em Al, inclusive da caolinita (Tosca et al, 2010; Srodon, 1999). Já a
A existência da glauconita nesse período é explicada por uma combinação de alteração presença da glauconita é geralmente atribuída à recristalização de um material precursor rico
física, que pela cominuição das rochas, liberava as micas primárias trioctaédricas, que por em ferro, em condições típicas de redução. Essa reação ocorre na interface da água salgada
lixiviação química do íon K+ pela água da chuva e/ou corrente, originavam a ilita. Os íons rica em K+, com o sedimento para que ocorra a incorporação do íon K+ com a formação da
Mg+2 e Fe+2 também eram liberados da rede cristalina das micas e lixiviados. O Fe (II) no pH glauconita (Meunier e El Albani, 2007). A não detecção da esmectita, mais provavelmente re-
do ambiente da hidrólise precipitava como hidróxido ferroso amorfo e/ou semicristalino, de flete o soterramento na diagenese, e não a sua ausência inicial, pois em condições fracamen-
cor esverdeada, o qual não era oxidado a Fe (III) devido à ausência de oxigênio. Ao ser levada te alcalinas e ricas em metais alcalino terrosos, Ca+2 e Mg+2, a montmorilonita facilmente se
para as partes rasas (de 1 até 300 metros) marinhas, a ilita assim abrigada, se estabilizava forma. De qualquer modo, pode-se concluir que os produtos do intemperismo ricos em argila,
por causa do ambiente salino ligeiramente ácido (pH=6). eram comuns em todo o Proterozóico.
Já o mineral serpentina [Mg3(Si2O5)(OH)4] foi formado por dois processos: o geológico e o Desse modo, considerando os processos de alteração das rochas assinalados anteriormen-
geoquímico atuando tanto no domínio geoquímico da ortomorfia, quanto em ambiente mari- te, pode-se admitir que o solo começou a ser, a existir, na ausência da vida. São os protosso-
nho. O primeiro envolve o processo descrito para a formação da glauconita, e o outro a reação los de Hunt (1972). Só depois de muitíssimo tempo, há cerca de 400 milhões de anos atrás,
entre a água do mar e as rochas aquecidas da crosta inferior e do manto superior. Tais rochas no período Devoniano, os solos começaram a se desenvolver tal qual se vê hoje. Esses solos
292 JACQUES DE MEDINA O longínquo passado do solo 293

tinham cores avermelhada e castanha (devido à oxidação do Fe (II) em O início do verdadeiro solo1
Fe (III), indicando a presença de mais oxigênio na atmosfera devido à
evolução de plantas capazes de realizar a fotossíntese). Os primeiros or- O início da formação da cobertura da Terra pelo solo (pedosfera), apa-
ganismos do solo também se diversificaram nessa época, quando então, rentemente, coincide com as fases iniciais da pedogênese como um pro-
o solo vivo, tal qual nós o conhecemos, começou a se formar. cesso global.
Portanto, os solos tal qual como hoje os observamos, somente surgi- Essa biota era formada por micro-organismos que só poderiam produzir
ram sobre a superfície terrestre a partir do avanço das primeiras plantas uma um solo primitivo; filmes de solo com milímetros de espessura. Estes
sobre aquela, fato que ocorreu no andar Ludloviano do Siluriano; isto é, filmes finos aparentemente se formaram como pequenas áreas sobre a
há 423 a 419 milhões de anos. A partir desse momento, se formaram superfície terrestre abiótica. A cobertura pelo solo real era inexistente. Foi
alguns dos solos com características similares às dos atuais, apesar de uma fase “preliminar” do desenvolvimento do solo. No final da Era Silu-
essas primeiras plantas ainda não apresentarem raízes. As raízes sur- riana, cerca de 400 milhões de anos antes do presente, a biota existente
gem no andar Lochkoviano, no Devoniano,415 milhões de anos atrás. estava ativamente conquistando todo tipo de terreno; principalmente por
Os primeiros perfis de solos surgem então com as primeiras espécies espécies desprovidas de sistemas radiculares e adaptadas à elevada umi-
vegetais que colonizaram a superfície terrestre, as quais aparecem no fi- dade das costas marítimas. Neossolos Flúvicos estavam se formando,
nal do período Siluriano, no qual os primeiros fósseis vegetais terrestres caracterizados pelo acúmulo de matéria orgânica, gleização e constante
foram encontrados. afluxo de sedimentos minerais transportados pela água corrente.
Até o período Devoniano Médio (0.4 Ga), os solos seriam pouco espes- Outros solos incipientes, como Regossolos e Leptossolos, também fo-
sos, devido ao pequeno porte e enraizamento pouco profundo das plan- ram formados em conjunto com os Neossolos Flúvicos; este conjunto
tas, bem como à restrição da ocorrência dos solos aos corpos aquosos. compondo os solos mais antigos da Terra. Esta fase da evolução da
Entre os andares Pragiano e Givetiano (411 a 385) milhões de anos (Al- cobertura do solo pode ser dita “esporádica”, pois as manchas e faixas
geo et al., 2001) surgem as primeiras árvores com raízes de até 3 cm de dessas neoformações eram esporadicamente distribuídas sobre a su-
diâmetro, possibilitando maior independência dessas plantas em rela- perfície fracamente biótica.
ção aos corpos aquosos, as quais, a partir desse momento, irão recobrir Ao final do Devoniano, cerca de 350 milhões anos antes do presen-
a superfície terrestre, e os solos passam a existir sobre toda a superfície te, houve uma mudança drástica da vegetação da Terra: samambaias e
da Terra (Ladeira, 2010). Ainda de acordo com Algeo et al.(2001), com o cavalinhas, plantas de alta produção de biomassa e possuindo raízes,
surgimento das primeiras plantas e vegetais terrestres e, consequente- espalharam-se em condições tropical e subtropical. Foi provavelmente
mente de solos mais espessos, ocorreu uma significativa mudança durante o Devoniano-Carbonífero que solos relacionados com os Fer-
ambiental no final do Siluriano e durante o Devoniano, o que levou a ralssolos, apareceram pela primeira vez.
um aumento significativo na taxa do intemperismo físico e especialmen- A cobertura do solo foi se tornando mais complexa em composição,
te do químico; ao incremento no volume dos solos; às alterações no ci- mas ainda não cobria totalmente a superfície da Terra. Esta fase da evo-
clo hidrológico e a uma maior estabilização das formas de relevo. lução da cobertura do solo pode ser dita como ‘intermitente’.
No andar Givetiano as plantas sofreram um significativo aumento da No Permiano, 285-240 milhões de anos antes do presente, em corres-
profundidade do sistema radicular, passando da altura máxima de dois pondência com a diferenciação dos climas e paisagens da Terra, a co-
para trinta metros, com troncos de até 1,5 metros de diâmetro (Thomas bertura do solo foi enriquecida por novos grupos de solos. Ao mesmo
& Spicer, 1987). A possibilidade de maior distribuição geográfica dos ve- tempo, houve uma maior diferenciação dos grupos já existentes. Assim,
getais vasculares leva a uma efetiva estabilização da paisagem no que os Regossolos e Leptossolos foram enriquecidos de forma significativa
se refere a processos erosivos e ao aumento do desenvolvimento da es- pelos diversos solos dos vastos desertos do Permiano e pelos solos
pessura dos solos, já que o sistema radicular também fica mais denso e congelados durante a glaciação Permiana.
profundo, juntamente com o aumento da massa vegetal (Ladeira, 2010). A intermitente cobertura do solo evoluiu gradualmente para uma co-
A presença de plantas vasculares sobre toda a superfície terrestre pos- bertura contínua. Foi esta quarta etapa da evolução natural que originou
sível de ser colonizada intensificou os processos pedogenéticos por toda a pedosfera contínua.
a superfície, o que provocou significativa redução nos teores de CO2 at- Nas fases subsequentes da evolução dos climas e da biota, a composi-
mosférico, seja associado ao crescimento das primeiras florestas, seja ção da cobertura do solo estava se tornando mais diferenciada. As cinzas
ao incremento das taxas de intemperismo de minerais primários (Berner, de lava vulcânica que foram formadas durante o Terciário e o Pleistoceno
2003; Mintz et al., 2010). Ainda segundo esses autores, esse processo de- deram origem a Vertisols e a Cambissolos. O desenvolvimento mais re-
sempenhou papel fundamental na redução do efeito estufa, resultando na 1. (Baseado em GERASIMOVA e cente é a formação de Chernozems e Kastanozens, que correspondem ao
glaciação do final do Devoniano, entre (377 e 362) milhões de anos atrás. GLAVODSKAYA, 1960 e GENNADIYEV, 1990). desenvolvimento de gramíneas e de paisagens estépicas sobre loesse.
294 JACQUES DE MEDINA O longínquo passado do solo 295

Ao mesmo tempo, houve um maior enriquecimento interno de cada grupo de solos devido Figura 1 Algumas das rochas com A descoberta deste paleossolo em Kwazulu-Natal (ZA), recuou o começo
paleossolos ocluídos, que Crowee seus
às diversas propriedades genéticas dos solos que compõem estes grupos. Esta diversifica- da oxigenação da atmosfera da Terra, para 3.0 Ga; 700 Ma a menos do que
colegas estudaram. Foto: Nic Beukes.
ção está diretamente associada à colonização por esses grupos de novas áreas com diferen- a melhor evidência anterior (datação pela depleção dos isótopos Cr52/Cr53);
tes condições naturais. Assim, os solos Glei e os Gleissolos úmbricos apareceram na zona fato que indica a presença já nessa época, de organismos fotossintetizantes.
boreal, apenas na época das glaciações do Pleistoceno. Javaux et alii (2010) relataram a descoberta de uma população de
Como uma esfera específica da terra, a cobertura do solo começou a se desenvolver, mais grandes (com até cerca de 300μm de diâmetro) microestruturas esferoi-
provavelmente, nos períodos Cambriano e Siluriano da Era Paleozóica,tendo até o presente dais carbonáceas no Mesoarqueaeano do grupo Moodies, na África do
passado por quatro fases distintas de evolução natural: 1) Fase primária e fracamente biogê- Sul; os mais antigos depósitos aluvionarese estuarinos siliciclásticos da
nica; 2) Fase esporádica; 3) Fase intermitente; 4) Fase contínua. Esta sequência pode ter se Terra, com 3.2 bilhões de anos.
repetido em diferentes períodos geológicos. Tais microestruturas foram interpretadas como microfósseis orgâni-
Os diferentes grupos genéticos de solos que formam a cobertura do solo são categorias cos com base em evidências petrográfica e geoquímica para suas endo-
históricas. Cada um deles surgiu em uma determinada época da evolução geológica da Terra. genia e singenia, morfologia, composição orgânica, ultraestrutura celu-
No decorrer da sua evolução histórica, a composição da cobertura do solo foi desenvolvida lar, características taxonômicas de deformação e do contexto geológico
em duas direções: 1) na direção do crescimento do número de grupos genéticos do solo e 2) plausível para a vida, bem como pela falta de explicação abiótica. Suas
na direção da diversificação da composição interna de cada grupo. observações sugerem que microorganismos relativamente grandes coa-
O processo de diversificação no tempo é também característico para as interrelações dos solos bitaram com a fauna microbiana bentônicana zona fótica de ambientes
no espaço, ou seja, para a composição, estrutura e formas geométricas das suas associações. marinhos marginais, 3,2 bilhões de anos atrás.
A evolução histórica da pedosfera está estreitamente ligada à evolução global dos fatores Na Figura 2, de Beraldi-Campesi (2013), vemos que o autor advoga a
pedogenéticos. Esta correlação mostra que a evolução global da cobertura do solo, está re- possibilidade encontrar paleossolos com 3.4 Ga, o que não me parece
lacionada com a evolução dos fatores de pedogênese, é irreversível (GLAZOVSKAYA, 1981). despropositado, haja vista para a descoberta de Crowe et al. (2013). É
Com o surgimento do homem no Pleistoceno, a cobertura de solos da Terra gradualmente notável que o “início do solo” ande par e passo com o início da vida. As
entrou na moderna fase antropogênica de desenvolvimento; fase caracterizada por duas ten- últimas descobertas mostram que assim que uma data recua a outra a
dências opostas de transformação: acompanha. O início da vida vem recuando aceleradamente e já se en-
1) Homogeneização da composição e estrutura da cobertura do solo para uso agrícola, contra em 4.1 Ga! (Harisson, 2015).
visando a formação de uma camada fértil com propriedades úteis para a produção agrícola;
2) Heterogeneização da cobertura do solo, como um resultado da diversidade das ativida- Figura 2 Cronologia sugerida dos eventos
des humanas e da tendência de degradação do solo; que conduzem à exaustão e mesmo a geológicos, biológicos e atmosféricos no
destruição da cobertura do solo. O resultado da influência antropogênica é uma maior diversi- Hadeano, Arqueano e Paleoproterozóico;
Beraldi-Campesi (2013).
dade do solo mer. A magnitude da transformação do solo durante esta fase pode ser compa-
rada em importância com alguns efeitos geológicos sobre a pedosfera. No entanto, no caso
da evolução geológica, a restauração e o crescimento da cobertura do solo levaram centenas
de milhares de anos, uma escala temporal que é inaceitável para a sociedade humana.

OS PRIMEIROS SOLOS da TERRA

Watanabe e colaboradores (2000) encontraram paleossolos carbonáceos com a idade de 2.5 Ga


na província de Mpumalanga na região leste do Transvaal da África do Sul, e sugeriram que a mi-
cro matéria orgânica presente é remanescente de organismos terrestres. Esse resultado coloca o
desenvolvimento da biomassa terrestre 1,4 Ga mais cedo do que o anteriormente relatado.
Em perfis de paleossolos da Finlândia e do Canadá, Stafford (2007), utilizando dados da razão
isotópica [Sm-Nd], concluiu que a pedogênese já estava instalada há 2,35 Ga atrás; i.e., no início da A vida pode ter começado no subsolo profundo
Era Paleozóica. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Copenhague e da Universidade A Bacillus infernus sp. nov. é uma bactéria redutora termofílica, estritamen-
Columbia Britânica (Croweet al., 2013) descobriram e examinaram solos da África do Sul, com 3 te anaeróbica do gênero Bacillus, que vive em áreas terrestres do subsolo
Ga (três bilhões) de anos de idade; os solos mais antigos da Terra. Trata-se das relíquias de solos profundo e mobiliza os íons Fe (III), Mn (IV), e/ou o NO-3 (reduzido a NO-2)
remanescentes, localizados na província de Kwazulu-Natal, África do Sul, que ficaram ocluídos como aceptores de elétrons. Ela foi isolada pela primeira vez nas profun-
em rochas, as quais agiram como uma verdadeira cápsula do tempo, preservando-os (Figura 1). didades de 2,65 a 2,77 km na Bacia Taylorsville do período Triássico, na
296 JACQUES DE MEDINA O longínquo passado do solo 297

Virgínia/EU, e vive e se reproduz em temperaturas de 50° a 70o C. (Boone et CONCLUSÃO


al., 1995). É uma descoberta que causou espanto; realmente extraordinária!
O solo é uma entidade fascinante que jamais deixou de me surpreender.
Quanto mais tento desvendá-lo, mais ele me desconcerta. Pensar que ain-
O EXEMPLO DE MARTE da é possível encontrar solos formados quando a Terra era jovem; ainda
engatinhava, é inacreditável, mas verdadeiro.
Em recentes missões orbitais e dos rovers a Marte, descobriram-se mui- Aproximadamente 75% das rochas expostas na superfície terrestre
tas evidências da formação de argilominerais e outras espécies hidrata- são sedimentares, e como grande parte delas é formada em ambientes
das (como jazidas), formadas quando rochas são alteradas pela presença terrestres sujeitos à pedogênese, os paleossolos são amplamente dis-
de água (Sun & Millikan, 2015); o que parece corroborar os eventos ocor- tribuídos no registro geológico. O seu registro na escala de tempo ge-
ridos na Terra. Marte é dominado por rochas basálticas e seu regolito é ológico também é bastante extenso, indo até o período Pré-Cambriano
rico em minerais facilmente intemperizáveis como anfibólios e piroxênios (Driese et al., 1995; Kraus, 1999; Pierini e Mizusaqui, 2007)).
(McSween, H.Y., 2009). O estudo dessas relíquias do passado longínquo da Terra tem mostra-
Nas condições propícias, esses minerais são fácil e rapidamente do a sua importância para o conhecimento da evolução dos ambientes
transformados em esmectitas, tal qual aqui na Terra. desta,com o passar das Eras geológicas. Os paleossolos são uma janela
A maior parte dessa alteração pode ter acontecido durante a parte aberta para o passado distante, servindo como uma importante ferramen-
mais antiga da história marciana, o período Naquiano, há mais de 3,7 ta para a interpretação de suas variações, como por exemplo, nos estudos
bilhões de anos atrás. Porém, um novo estudo mostra que alterações paleoclimáticos e na elucidação da intrincada questão da origem da vida.
posteriores – nos últimos 2 bilhões de anos ou mais – pode ser mais
comum do que muitos cientistas pensavam. As argilas, que são comu-
mente encontradas dentro e em torno das grandes crateras de impacto, Figura 3 Local onde foi encontrado o
paleossolo com 3 Ga, formado pelo
encontravam-se soterradas e foram trazidas de volta à superfície pelo intemperismo químico já na presença de
impacto. Essa conclusão é particularmente verdadeira para os depó- oxigênio (Mukhopadhyay et al., 2014).
sitos de argila encontrados nos picos centrais das crateras. Estes são
formados quando, na sequência de um impacto, rochas do interior da
crosta são ejetadas para cima trazendo à superfície as camadas que
tinham sido enterradas a muitos quilômetros de profundidade.
Foram encontrados exemplos onde as argilas existem em dunas, so-
los não consolidados ou outras formações não associadas ao leito de
rocha. Em outros casos, elas foram encontradas onde, devido à energia
liberada pelo impacto, as rochas foram derretidas e então ressolidifica-
das após resfriamento. Ambos os cenários sugerem que os minerais
de argila nesses locais são provavelmente “autigênicos”, o que significa
que se formaram no local em algum momento após o impacto ter ocor- Figura 4 Paleossolo intercalado entre
rido; ao invés de serem expostas por aquele. Tais argilas autigênicas calcários marinhos com mais de 300
milhões de anos (Carbonífero do
foram encontradas em crateras bastante jovens, formadas nos últimos
Kansas, EUA).
2 bilhões de anos, ou menos (Vivian et al., 2015).
O mecanismo para a formação destas argilas poderia estar relaciona-
do com o processo de impacto em si, dizem os autores do estudo. Im-
pactos geram calor, o que poderia derreter quaisquer minerais hidrata-
dos bem como o gelo pré-existentes, ou que possam ter existido dentro
da crosta nas suas proximidades. Qualquer água liberada poderia então
se infiltrar e percolar através das rochas circundantes para formar as
argilas. Algumas simulações de impactos sugerem que estas condições
hidrotermais poderiam persistir por talvez milhares de anos, contribuin-
do para condições potencialmente habitáveis.E isso pode ter implica-
ções para a busca de provas de vida pretérita em Marte.
298 JACQUES DE MEDINA 299

30 anos do Laboratório
de Pavimentação da UFRGS

Jorge Augusto Pereira Ceratti

Universidade Federal do Rio Grande RESUMO O trabalho apresenta um histórico do Laboratório de Pavimenta-
do Sul, Porto Alegre, Brasil
ção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, desde sua criação até os
Figura 5 Exemplo da estratigrafia de
paleossolo do Quaternário formado de dias atuais, incluindo a área de Pesquisas e Testes de Pavimentos e o Equi-
sedimentos fluviais. Em Charagua/Bolívia pamento Simulador de Tráfego. São comentadas algumas das principais
(Jan-Hendrik May, 2008). pesquisas realizadas ao longo dos 30 anos de existência do laboratório.

Figura 6 Rocha com 4 bilhões de anos,


fonte de estudos sobre como o primeiro
continente da Terra foi formado (Foto: 1 INTRODUÇÃO
University of Alberta).

Em 2016, o Laboratório de Pavimentação da Universidade Federal do Rio


Grande do Sul estará completando trinta anos de existência.
Neste artigo é descrita a história do Laboratório de Pavimentação (LA-
PAV) e das atividades desenvolvidas na Área de Pesquisas e Testes de
Figura 7 Assinatura espectroscópica
Pavimentos, atualmente incorporada ao LAPAV. São resumidos alguns es-
de argilominerais detectados em
Marte: esmectitas (saponita, beidelita e
tudos em revestimentos delgados e procedimentos para retardamento de
nontronita). reflexão de trincas. Também são mencionados alguns estudos tais como
o efeito da sucção in situ de solos no módulo de resiliência de subleitos.

2 A CRIAÇÃO DO LAPAV

A origem do LAPAV está relacionada ao início da carreira acadêmica do


autor deste artigo.
Em 1979, tendo concluído o mestrado, foi convidado a integrar o cor-
po docente do curso de pós-graduação em Engenharia Civil pelo profes-
sor Jarbas Milititsky, com a incumbência de introduzir no programa da
Área de Geotecnia da pós-graduação o tema Mecânica de Pavimentos e
montar um laboratório de tecnologia de materiais de pavimentos. Nesse
mesmo ano, já contratado pela UFRGS como professor auxiliar, realizou
PALAVRAS-CHAVE retrospectiva, estágio de três meses na área de Geotecnia da COPPE/UFRJ, onde teve
Laboratório de Pavimentação, a oportunidade de acompanhar os estudos e pesquisas em desenvol-
pesquisas, UFRGS 1 vimento sobre Mecânica de Pavimentos que estavam em andamento,
• Referências bibliográficas na página 405.
300 JACQUES DE MEDINA 30 anos do Laboratório de Pavimentação da UFRGS 301

juntamente com o Instituto de Pesquisas Rodoviárias do Departamento Nacional de Estradas Figura 1 O simulador de tráfego 3.1 O simulador de tráfego UFRGS-DAER
da UFRGS/DAER
de Rodagem, o que motivou a desenvolver seus estudos de doutoramento aquela instituição.
Ingressou na COPPE/UFRJ em 1981 para o desenvolvimento do doutoramento. Teve a honra O simulador de tráfego UFRGS-DAER/RS, apresentado na Figura 1, foi projetado
de ser orientado pelo professor Jacques de Medina, pessoa de visão profissional ampla e que por pesquisadores da UFRGS e construído entre 1992 e 1994 pelo DAER/RS.
determinou o caminho que a carreira tomaria.
Tendo retornado em 1986, foi criado o Laboratório de Pavimentação como um anexo ao La- 3.2 A pesquisa sobre pavimentos delgados com basalto alterado
boratório de Mecânica dos Solos, então existente. Desde então, o LAPAV, graças à interação
constante com o meio técnico, apresentou desenvolvimento e crescimento contínuo, sendo Na primeira pesquisa, desenvolvida em cooperação com o DAER/RS, de
que, em 1994, com a criação da área de pesquisas e testes de pavimentos no Campus do Vale maio de 1996 a julho de 1999, o simulador de tráfego atuou em oito se-
da UFRGS e desenvolvimento e instalação de equipamento simulador de tráfego linear, o LAPAV ções teste, cada uma com 20m de comprimento e 3,5m de largura, com-
teve um crescimento espressivo de suas parcerias para a realização de estudos e pesquisas e postas por camada de basalto alterado como base e/ou sub-base e trata-
também aumento significativo de recursos financeiros para isto, o que levou a um reconheci- mento superficial duplo com capa selante como revestimento. Foi usada
mento nacional e internacional, fato que impulsionou ainda mais suas atividades. como subleito uma argila laterítica vermelha, similar aos solos de basalto
A criação e expansão da capacitação do LAPAV e a formação das primeiras parcerias para Tabela 1 Seções teste regionais, classificada como A-7-6(7) de acordo com a AASHTO. A Tabela
a pesquisa no final dos anos 1980 foram determinantes. De convênio celebrado com o Depar- 1 apresenta a natureza e espessuras das camadas nas seções teste.
Seção Origem Espessura do
tamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Estado do Rio Grande do Sul originou-se o teste basalto basalto Em 1998, os resultados obtidos nos ensaios acelerados foram coloca-
alterado alterado (cm)
desenvolvimento de um equipamento simulador de tráfego linear, único na América Latina na dos em prática. Foram construídos 21 quilômetros de uma rodovia de bai-
época, e que permitia estudos em pistas experimentais em escala real, bem como a construção 01 F.1 16 xo volume de tráfego, utilizando a tecnologia desenvolvida no estudo.
de uma área de pesquisas e testes de pavimentos no Campus do Vale da UFRGS, também com 02 E.1 16
parceria da empresa Ipiranga Asfaltos S.A. 3.3 Estudo sobre a influência da sucção no módulo de resiliência de
03 F.1 21
O número de entidades parceiras foi crescendo continuamente, o que elevou a produção cien- solos de subleito.
tífica e tecnológica do LAPAV na forma de resultados de pesquisas, orientações de doutorado, 04 E.1 21

mestrado e iniciação científica, e produção bibliográfica. 05 E.1 16 Nas últimas décadas, tem-se dado importância à avaliação da deformabi-
Atualmente, o LAPAV conta um setor de Preparação de Materiais, um setor de Misturas As- lidade de solos de subleito através de ensaios de laboratório ou de campo.
07 F.1 32
fálticas, um setor de Ensaios Especiais e uma área de Pesquisas e Testes de Pavimentos onde Isto é justificado particularmente em pavimentos com revestimentos
08 E.1 32
atua um equipamento simulador de tráfego. delgados, nos quais a capacidade de suporte e comportamento elástico é
09 E.1 16 fortemente influenciado pelo solo de subleito subjacente.
Solos de subleito compactação são solos não saturados, onde a sucção
3 OS PRIMEIROS ANOS DA ÁREA DE PESQUISAS E TESTES DE PAVIMENTOS tem uma ação consistente na resistência e deformabilidade desses solos.
O módulo de resiliência é sensível ao estado de tensões no subleito e a
No final dos anos 1990, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o Departamento Au- sucção do solo controla o estado de tensões em solos não saturados.
tônomo de Estradas de Rodagem do RS (DAER/RS) celebraram um acordo de cooperação, Devido a isto, é importante quantificar a influência da sucção no módulo
com o objetivo de estudar rochas basálticas alteradas para emprego em rodovias de baixo de resiliência considerado no dimensionamento de novos pavimentos ou
volume de tráfego. restauração de pavimentos existentes.
De 1992 a 2001, foi desenvolvido estudo extensivo (Ceratti et al. 1997, Núñez et al. 1997, Num esforço no sentido de obtenção de módulos de resiliência confiáveis
Núñez et al. 2000) que incluiu: de solos de subleito típicos, com objetivo de dimensionamento de pavimen-
tos, foi desenvolvido um estudo (Núñez et al. 2002, Ceratti et al, 2004) in-
• Caracterização geológico-geotécnica e estudos de laboratório de dez depósitos de rochas cluindo ensaios de laboratório e campo com os seguintes objetivos:
basálticas alteradas localizados no Rio Grande do Sul;
• Desenvolvimento de critério de classificação de rochas basálticas alteradas; • Quantificar os efeitos do teor de umidade e da sucção nos solos no mó-
• Projeto e construção de um simulador de tráfego linear; dulo de resiliência;
• Desenvolvimento de critério de dimensionamento para pavimentos delgados construídos • Analisar o efeito de ciclos de molhagem e secagem e diferentes méto-
com basalto alterado, a partir de ensaios acelerados em pavimentos; dos de compactação no módulo de resiliência de solos;
• Construção e monitoramento de trechos experimentais em rodovias em serviço considerando • Medir a sucção em solos de subleito no campo;
resultados dos ensaios acelerados com o simulador de tráfego. • Comparar módulos de resiliência de solos de subleito determinados em
laboratório e no campo.
302 JACQUES DE MEDINA 30 anos do Laboratório de Pavimentação da UFRGS 303

3.4 Estudo de emprego de geotêxtil em recapeamentos asfálticos.


No subleito das seções de pavimento submetidas aos ensaios acelerados foi utilizado um
solo laterítico. No ano 2000 teve início pesquisa de longa duração com objetivo de ava-
O subleito foi compactado em três camadas de 20cm de espessura. O teor de umidade de liação comparativa de desempenho de recapeamentos asfálticos sobre
compactação variou entre 19% e 22%. revestimentos trincados com e sem a utilização de geotêxteis.
Foram usados dois tipos de geotêxteis (denominados por G 150 e G
Os procedimentos experimentais de Laboratório consistiram de: 150-TF) como camada intermediária em pista experimental ensaiada com
• Preparação e compactação de amostras; o simulador de tráfego e também em um trecho rodoviário submetido a
• Estabelecimento da relação sucção-teor de umidade (curva característica) através da técnica cargas reais de tráfego.
do papel filtro; Uma pista experimental (com 20m de comprimento e 3,5m de largura)
• Determinação do módulo de resiliência em amostras submetidas à secagem, umedecimento, foi construída nas instalações do LAPAV com o objetivo de quantificar a
ou ciclos de umedecimento e secagem, com medição da sucção. eficiência dos geotêxteis. A estrutura do pavimento da pista experimental
era composta por um solo laterítico no subleito, uma sub-base de ma-
Determinações em campo da sucção em solos e deflexões (para determinação de módulos cadame a seco, uma base de brita graduada simples, um revestimento
de resiliência por retroanálise) foram realizadas em pistas experimentais ensaiadas pelo si- em concreto asfáltico trincado de 4,0cm de espessura e uma camada de
mulador de tráfego linear. Foram instalados três tensiômetros nas pistas experimentais, com recapeamento de 5,0cm em concreto asfáltico.
pontas porosas posicionadas 30cm abaixo da superfície da camada de subleito, que mediram Na camada de revestimento em concreto asfáltico de 4,0cm, de forma
a sucção no solo de subleito durante o carregamento e determinação das deflexões. a similar uma camada com trincamento severo, foram serradas áreas de
Durante os períodos de carregamento das pistas experimentais, a sucção nunca foi supe- dimensões de 50cm x 50cm e propagando-se em toda a espessura do re-
rior a 20 kPa, sugerindo que, devido a deficiências de drenagem, o subleito se encontrava vestimento.(Núñez et al. 2008) caracterizaram os materiais utilizados nas
quase saturado. De fato, os valores baixos de sucção corresponderam a teores de umidade camadas do pavimento e detalharam a instalação dos geotêxteis.
superiores a 25%. A pista experimental foi dividida em três zonas. Em duas delas foram
Embora a magnitude da sucção no campo tenha sido relativamente baixa (de 0 a 14kPa), o instalados os geotêxteis entre a camada de revestimento trincada e a
efeito no módulo de resiliência do subleito foi altamente significativo. É importante observar nova camada de concreto asfáltico. Na zona central não foi utilizado o ge-
que o nível de tensões geostáticas atuante no topo do subleito de pavimentos delgados é ge- otêxtil. Foram utilizados dois geotêxteis não tecidos. A Tabela 2 apresenta
ralmente menor do que 10 kPa. No entanto, mesmo valores de sucção tão baixos como 14 kPa as propriedades dos geotêxteis.
representam acréscimos significativos a serem considerados em análises de deformabilidade
elástica de solos. Estes acréscimos são fortemente reduzidos pela elevação do grau de satura-
Tabela2 Propriedades dos geotêxteis
ção, explicando a grande influência da sucção nos solos em seu módulo de resiliência.

Propriedade Unidade G 150 G 150-TF


A relação obtida entre módulo de resiliência e sucção matricial foi:
Peso g/m2 150 150

RM = 142 + 16.9 (μa -μw) (1) Espessura nominal mm 1,5 1,0

Porosidade % 90 70
No modelo (1), RM é o módulo de resiliência obtido por retroanálise em MPa e (μa -μw) é a
Retenção de asfalto l/m2 1.2 1.1
sucção matricial em kPa. A regressão é estatisticamente significante. Contudo, deve ser obser-
Resistência à tração kN/m 8 9
vado que o modelo é válido para valores de sucção entre 0 e 14 kPa.
Comparando resultados de campo com os de laboratório, foi observado que os módulos de Alongamento % 60 60

resiliência obtidos por retroanálise têm boa concordância com aqueles obtidos em amostras Permeabilidade cm/s 4,0 x 10-1 2,7 x 10-1
compactadas em laboratório por amassamento, mas são sensivelmente menores do que os
obtidos em amostras compactadas por processo estáticos ou dinâmicos.
Também, os módulos de resiliência obtidos por retroanálise concordam melhor com resulta- Após o final do carregamento com o simulador de tráfego verificou-se
dos de laboratório em amostras submetidas a processos de secagem ou umedecimento. Ciclos que a área trincada no recapeamento onde foi utilizado o geotêxtil G150
de secagem e molhagem resultam em módulos de resiliência de laboratório consideravelmente foi menor do que a observada na seção onde não foi utilizado geotêxtil.
menores do que os determinados de campo. Pode-se concluir que a utilização do geotêxtil G 150 retardou significante-
A importância da adoção de um sistema de drenagem bem dimensionado e conservado foi mente a propagação de trincas e com isto aumentando a vida do recape-
demonstrada. A sucção nos solos tem considerável efeito na sua deformabilidade. amento asfáltico numa razão de 2.
304 JACQUES DE MEDINA 305

O desempenho do geotêxtil G 150-TF foi inferior ao G 150, sendo a área Figura 2 Desvio de trinca devido ao G 150
Parâmetros de deformação
trincada na seção onde foi utilizado este geotêxtil o dobro daquela onde
foi empregado o G 150-TF, mas apenas 40% do trincamento observado na permanente de solos finos
seção sem geotêxtil. Pode-se então concluir que ambos os geotêxteis atu-
aram efetivamente no retardamento da propagação de trincas, desviando Antonio Carlos Rodrigues Guimarães1
a propagação destas conforme mostra a Figura 2.
Laura Maria Goretti da Motta2

CONSIDERAÇÕES FINAIS 1 IME, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO No presente trabalho foi estudado o comportamento quanto
2 Laboratório de Geotecnia e à deformação permanente de solos finos de diferentes classificações,
A origem do LAPAV está vinculada ao Laboratório de Geotecnia da Pavimentos, COPPE/UFRJ através de ensaios triaxiais de cargas repetidas, utilizando-se variados
Rio de Janeiro, RJ
COPPE existente nos anos 1980, período em que o autor desenvolveu seu estados de tensões, e para um número de ciclos de aplicações de cargas
doutoramento com a orientação do professor Jacques de Medina e onde superior a 150.000. Os solos foram moldados nas respectivas umidades
desenvolveu boa parte de seu trabalho, tendo oportunidade de se familia- ótimas e considerando-se energia de compactação equivalente à do en-
rizar com equipamentos de laboratório, desenvolvimento e montagem de saio Proctor intermediário ou normal. Foram selecionados sete solos fi-
equipamentos e conviver com a equipe de técnicos da época. nos com as seguintes classificações MCT: dois LG', um LA', um NA e um
O LAPAV inicialmente foi idealizado à semelhança do laboratório da NS'. São apresentados os valores das deformações permanentes totais,
COPPE, aplicando-se conhecimentos e ensinamentos transmitidos pelo calculados os parâmetros de deformabilidade Ψi, bem como simulado o
professor Medina, o qual o autor considera seu eterno maestro, e a quem cálculo das deformações permanentes para três níveis distintos de ten-
é extremamente grato. sões: baixo, médio e alto.

1 INTRODUÇÃO

Quando se pretende dimensionar um pavimento através do método meca-


nístico, que utiliza os princípios da mecânica dos pavimentos, deve-se ca-
racterizar de maneira adequada os materiais de pavimentação utilizados,
principalmente através de ensaios de cargas repetidas.
Através destes ensaios pode-se determinar o módulo resiliente de mis-
turas asfálticas e de solos e britas constituintes das demais camadas do
pavimento, sendo estes ensaios bastante divulgados no meio rodoviário na-
cional, existindo um grande número de materiais ensaiados e pelos menos
quinze centros de pesquisas nos quais é possível realizar estes ensaios.
Entretanto, a questão da deformação permanente tanto para misturas
asfálticas quanto para solos e britas ainda não está devidamente inse-
rida no contexto do dimensionamento de pavimentos, principalmente
porque, em geral, há maior preocupação com a questão da fadiga do
revestimento asfáltico.
Desta forma, contribuições para a modelagem da deformação perma-
nente são sempre valiosas no sentido de se ter maior conhecimento do
comportamento especialmente dos solos tropicais.
Com relação aos modelos de previsão da deformação permanente, Gui-
marães (2001) mostrou que os modelos de Uzan (1981) e Tseng Lytton
PALAVRAS-CHAVE solos (1989) não são muito adequados para aplicação em solos tropicais, ten-
finos, deformação permanente, do sido desenvolvido um modelo específico para estes materiais – finos
shakedown ou pedregulhosos –, conforme pode ser visto em Guimarães (2009).
• Referências bibliográficas na página 405.
306 JACQUES DE MEDINA Parâmetros de deformação permanente de solos finos 307

Para a obtenção dos parâmetros de deformabilidade deste modelo são necessárias realiza- A partir da obtenção destes parâmetros foi possível fazer uma previsão da
ções de ensaios de deformação permanente, para diversos estados de tensões, sendo que a deformação permanente acumulada, para um número de ciclos mais elevado
porcentagem de deformação permanente é relacionada ao estados de tensões e número de e variados estados de tensões. Este cálculo permitiu analisar a deformação
aplicação de ciclos de cargas, conforme a Equação 1, que corresponde a uma regressão não li- permanente total em função da classificação MCT dos solos estudados.
near múltipla. Os parâmetros ψi são denominados parâmetros de deformabilidade permanente.

4 RESULTADOS OBTIDOS

4.1 Parâmetros de Deformabilidade Permanente


Onde:
εp(%): Deformação Permanente Específica; A partir do banco de dados gerados nos estudos originais dos trabalhos
ψ1, ψ2, ψ3: parâmetros de regressão; citados foi possível realizar, para cada material, a regressão não linear
σ3: tensão confinante em kPa; múltipla para obtenção dos parâmetros de deformabilidade permanente
σd: tensão desvio em kPa; (Ψi) dos solos disponíveis. Os resultados são apresentados na Tabela 2.
ρ0: tensão de referência, considerada com a pressão atmosférica igual a 100 kPa;
N: número de ciclos de aplicação de carga. Tabela 2 Parâmetros de deformabilidade permanente dos solos estudados.


εp (%)=ψ1 (σ3 )ψ2 . (σd )ψ3 . (N)ψ4
Class MCT
2 MATERIAIS ESTUDADOS ψ1 ψ2 ψ3 ψ4

LG'1 0,206 -0,24 1,34 0,038


Foram selecionados sete solos finos, de variadas regiões do Brasil, com as seguintes classi-
ficações MCT: quatro LG', um LA', um NA e um NS', conforme mostrado na Tabela 1. Tentou-se LG'2 0,643 0,093 1,579 0,055

utilizar solos finos de tal forma a incluir todas as classificações do ábaco. Porém, o banco de NS' 0,244 0,419 1,309 0,069
dados ainda não é suficiente para abranger esta necessidade, e a classe com maior número de NA 0,050 -1,579 1,875 0,064
ensaios realizados observado foi a LG'. LA' 0,021 -0,086 1,37 0,116

LG'4 0,088 -0,146 1,618 0,062


Tabela 1 Materiais utilizados no presente trabalho.
LG'5 0,021 0,606 2,048 0,091

Class MCT Material Referência Nota: Tensões em kgf/cm2

LG'1 Argila de Ribeirão Preto/SP Guimarães (2009)

LG'2 Areia Argilosa/ES Guimarães (2009)


4.2 Aplicações do Modelo
NS' Solo Siltoso Papucaia Guimarães (2009)

NA Areia Fina de Campo Azul/MG Guimarães (2009) A partir dos parâmetros Ψi apresentados na Tabela 2 foi possível cal-
LA' Solo Arenoso Fino Laterítico/ MG Este Trabalho cular a deformação permanente de acordo com o modelo da equação 1,
LG'4 Solo Argiloso Maranhão (EFC) Von der Osten (2012) tendo sido estabelecido três níveis distintos de tensões: baixo (σd = 70 e
σ3 70 kPa), médio (σd = 300 e σ3 100 kPa) e alto (σd = 450 e σ3 140 kPa). A
LG'5 Solo Argiloso Maranhão (EFC) Delgado (2012)
intensidade desses estados de tensões é compatível com as tensões de
trabalho para camadas de um pavimento, desde imediatamente abaixo do
revestimento asfáltico até o topo do subleito, considerando-se eixo rodovi-
3 METODOLOGIA ário padrão de 8,2 tf. Os resultados são apresentados nas Figuras de 1 a 3.
Conforme observado na Figura 1 - caso de estado de tensões baixo -
Os ensaios triaxiais de cargas repetidas foram realizados de acordo com o Procedimento da tem-se que os materiais apresentaram valores de porcentagem de defor-
Rede Temática de Asfalto da Petrobras, sendo utilizado no mínimo 7 ensaios válidos, com dife- mação permanente acumulada inferior 0,7%, que pode ser considerado
rentes estados de tensões. Não há, ainda, no Brasil norma técnica específica para este ensaio. como muito baixa. Para uma camada de pavimento de 20 cm de espes-
Este procedimento permite calcular os parâmetros de deformabilidade Ψi do modelo supracitado. sura esta porcentagem de deformação resultaria em uma contribuição de
apenas 1,4 mm desta camada para o afundamento de trilha de roda total.
308 JACQUES DE MEDINA Parâmetros de deformação permanente de solos finos 309

Figura 1 Variação da deformação permanente Figura 2 Variação da deformação permanente Figura 3 Variação da deformação permanente Figura 4 Variação da deformação permanente
em função do número de ciclos de em função do número de ciclos de em função do número de ciclos de em função do número de ciclos de
carregamento. estado de tensões médio: carregamento. Estado de tensões médio: carregamento. Estado de Tensões Elevado: carregamento. Estado de tensões elevado:
σd = 70 e σ3 70 kPa. σd = 300 e σ3 = 100 kPa. σd = 450 e σ3 140 kPa. σd = 450 e σ3 140 kPa.
Número de Ciclos Elevado (N=107)

Ainda no caso de tensões baixas, pode ser observado na Figura 1 que o solo LG'2 apresen- No caso de projetos reais de pavimentos o número de ciclos de aplicação de cargas pode
tou porcentagem de deformação acumulada muito superior aos demais. A forma das curvas ser bem mais elevado do que aquele utilizado nos ensaios de laboratório. Por este motivo,
indica uma situação de acomodamento das deformações plásticas, ou shakedown, pois estas optou-se por fazer um cálculo das deformações permanentes para um número N de 107,
tendem a se tornarem paralelas ao eixo horizontal (derivada nula). mostrado na Figura 4.
Ou seja, caso as tensões de trabalho destes materiais no campo forem iguais ou inferiores ao
par (70,70) kPa todos os materiais entrarão em shakedown, não havendo motivo para preocupa-
ção quanto a esta variável de projeto. CONCLUSÕES E DISCUSSÕES
Na Figura 2, tem-se a situação de estado médio de tensões, no qual o aspecto não laterítico
dos solos NA e NS' resultaram em deformações permanentes acima de 1,5%, juntamente com O solo de classificação LA' apresentou excelente comportamento quanto à deformação per-
o solo LG'2, enquanto que os demais solos - LG'1, LA', LG'4 e LG'5 - apresentaram porcentagem manente para todos os estados de tensões analisados.
de deformação permanente total inferior a 1,5%. O valor mais baixo de deformação permanente Os solos do grupo LG' podem ter comportamento muito variável, podendo apresentar baixas
foi obtido para o solos LA', indicando tratar-se de um bom material. ou elevadas deformações permanentes, dependendo do estado de tensões utilizado.
Considerando-se que um solo apresenta comportamento excelente quanto à deformação per- O solo NS' analisado apresentou comportamento ruim quanto à deformação permanente, para os
manente se ele se deforma até 1%, ou seja, 2 cm em um corpo-de-prova de 20 cm de altura, os níveis médio elevado de tensões. Quando o número de ciclos de aplicação de cargas atingiu 107,
solos LG'5 e LA' mostraram-se excelentes. a deformação acumulada deste solo atinge o valor de 6% (ou 12 mm), considerada muito elevada.
Os demais solos, porém, apresentaram deformação permanente total não desprezível, sendo O solo de classificação NA apresentou comportamento intermediário quanto à deformação
elevada no caso dos solos LG'2 e NS'. permanente, e mesmo quando o número de ciclos de aplicação de cargas da simulação atingiu
Na Figura 3, tem-se a situação de estado elevado (alto) de tensões, na qual fica bem caracteri- 107 – para o nível mais elevado de tensões – a deformação permanente total permaneceu in-
zado três patamares de deformação permanente distintos. O primeiro inclui os solos NS' e LG'2 ferior a 3% (ou 6 mm). Este fato só será um fator impeditivo de sua utilização em pavimentos
sendo constituído de elevado nível de deformação permanente; o segundo, constituído dos solos para alto volume de tráfego se as demais camadas do pavimento também forem suscetíveis à
LG'1, NA, LG'4 e LG'5 apresentou deformação permanente em torno de 2%; o terceiro inclui apenas deformação permanente.
o solo LA' e apresentou deformação permanente acumulada inferior a 1%, que é muito baixa.
• Referências bibliográficas na página 405.
310 Utilização dos conceitos de payfactor na gestão de obras rodoviárias brasileiras 311

Utilização dos conceitos de pay factor na impactos aos usuários, execução do serviço de pavimentação e a divisão de responsabilidade do
dano eventual entre empreiteiro/órgão rodoviário. Houve a necessidade de melhoria nos critérios
gestão de obras rodoviárias brasileiras de ajuste, e o desenvolvimento de um guia racional para a determinação do índice de ajuste de
pagamento, relacionado à qualidade dos pavimentos flexíveis. Este guia poderá auxiliar os órgãos
Leni Leite rodoviários a incorporar os ajustes de pagamento nos contratos de execução, sendo os mesmos
um reflexo realístico dos ganhos e perdas no desempenho do pavimento. Assim sendo, foi criado
um grupo de pesquisa denominado projeto NCHRP 10-79 que resultou num guia, proposto em
2011, com propósito de estabelecer índices de ajuste de pagamento, relacionados à qualidade
RESUMO Em 2014, dos 1,7 milhões de quilômetros de estradas brasileiras, Consultora, pós-doutora pela dos pavimentos (NCHRP 2011). Para a elaboração deste guia foram investigadas informações
COPPE/UFRJ
apenas 12% eram pavimentados. O modal rodoviário é o indutor do desen- relevantes sobre ajuste de pagamento em pavimentos, foram efetuados levantamentos em ajus-
volvimento e da integração nacional. Mais de 60% dos produtos brasileiros tes existentes, praticados por órgãos rodoviários em diversos estados americanos, avaliando o
escoam por este modal. A extensão de rodovias pavimentadas no Brasil mérito dos mesmos. Além disso, foram propostos ajustes baseados em critérios racionais de
precisa ser aumentada e sua qualidade necessita ser melhorada. A gestão qualidade (NCHRP 2013). Este trabalho tem objetivo de mostrar os tipos de controle de qualidade
de obras com a utilização do conceito do pay factor (índice de ajuste de executados no Brasil, Portugal e EUA, levando em conta as penalidades aplicadas quando a qua-
pagamento) como critério de aceitação/rejeição do serviço, que incide no lidade não alcança os limites impostos pelas especificações de qualidade. Em função do que se
pagamento realizado às empreiteiras, baseado em desempenho, parece ser realiza nos EUA e Portugal em termos de ajuste de pagamento, são feitas considerações de como
ferramenta de gestão interessante de ser adotada para obtenção de melho- este índice de ajuste poderia ser aplicado no Brasil.
res resultados. Este artigo mostra os tipos de controle de qualidade execu-
tados no Brasil, Portugal e EUA, levando em conta as penalidades aplicadas
quando a qualidade não alcança os limites impostos pelas especificações 2 GESTÃO DE QUALIDADE
de qualidade. Nos EUA, já se conta com ferramentas de gestão baseadas
em ensaios de desempenho mecânicos. São feitas considerações de como 2.1 No Brasil
este índice de ajuste poderia ser aplicado no Brasil.
A norma DNIT 11/2004 – PRO auxilia no planejamento e execução de rodovias em todas as ca-
madas, recomendando amostragens e caracterizações dos materiais, conforme especificações
1 INTRODUÇÃO de serviço, bem como a realização de ensaios de desempenho das especificações brasileiras,
identificando as não conformidades a partir de controles estatísticos. O controle de qualidade
No intuito de melhorar as condições do controle da qualidade em obras se limita a ensaios no solo, agregados, ligante e misturas asfálticas. Após a execução, é pre-
rodoviárias, ainda no final dos anos 1980, o antigo Departamento Nacional vista a extração de corpos de prova para controle da granulometria, teor de ligante e grau de
de Estradas de Rodagens (DNER) elaborou trabalhos e pesquisas para o compactação, além da determinação das espessuras. A norma DNIT 031-2006 complementa a
aprimoramento das atribuições de responsabilidades das empresas que gestão da qualidade, efetuando a verificação final da camada de revestimento asfáltico, adicio-
são contratadas para realizarem serviços de pavimentação. Atualmente nando restrições a mistura asfáltica em termos de resistência tração e VAM (vazios do agre-
a norma DNIT 11/2004 – PRO é a ferramenta que especifica a Gestão da gado mineral) mínimos, incluindo restrições de espessura, alinhamento e acabamento de su-
Qualidade em Obras Rodoviárias – Brasil, sendo a norma DNIT 031-2006 perficie com quociente de irregularidade QI inferior ou igual a 35 ou IRI (índice de regularidade)
a que se refere a verificação final da qualidade de revestimentos asfálti- limitado ao máximo de 2,7 m/km. São limitados também índices para condições de segurança
cos. Os órgãos estaduais, também, se baseiam nestas normas do DNIT, a derrapagem, limitando o valor de resistência a Xareia 1,2 mm > HS (altura de areia) > 0,6mm.
incluindo eventualmente outros ensaios de desempenho. Nem sempre as Alguns órgãos rodoviários estaduais, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste incluem a de-
regras contidas nesta norma são cumpridas pelas empreiteiras, e mesmo terminação de deflexão por viga ou FWD, índice de regularidade (IRI) ou QI, e ainda índices de
assim são aceitas pelos órgãos rodoviários o que justifica o mau estado atrito (ensaios de mancha de areia e pêndulo britânico).
de conservação das rodovias brasileiras. O DER-SP inclui ensaios de solos, considerando a classificação MCT, a determinação de defle-
Fatores de ajuste de pagamento em obras rodoviárias são usados exten- xões com viga ou FWD em todas as camadas do pavimento, e ainda condições de acabamento
sivamente nos EUA e Canadá, mas não são empregados na Europa, Ame- e de segurança limitando QI a 35 contagens por km e altura de areia entre 0,6 a 1,2 mm. O DAER
rica Latina, Nova Zelândia e Austrália (NCHRP 2013). Nos EUA, a maior também inclui o IRI como ensaio de aceitação de serviço.
parte dos órgãos rodoviários trabalhava com ajustes de pagamento de- Ferri analisou o controle deflectométrico preconizado pelo DER-SP e considerou o mesmo
senvolvidos empiricamente, com considerações limitadas sob o efeito real PALAVRAS-CHAVE gestão, obra não eficiente. Assim sendo, propos ajustes para elevar o nível de confiabilidade do controle. Ele
da construção do pavimento no desempenho em serviço. Os critérios utili- rodoviária, controle de qualidade, também sugeriu dar preferencia ao uso de equipamentos automatizados como FWD ou LWD
zados não incluíam elementos relevantes, tais como avaliação funcional, pay factor para redução de erros (Ferri, 2014). Silva desenvolveu trabalhos de medidas de deflexão com
312 JACQUES DE MEDINA Utilização dos conceitos de payfactor na gestão de obras rodoviárias brasileiras 313

viga Benkelmann em Minas Gerais que possibilitou a elaboração da espe- Foi feito um cálculo mecanicista com software Alize, fazendo–se variar
cificação técnica RT 02-98 que estabeleceu a obrigatoriedade do controle as espessuras das camadas até o limite de aceitação com penalização
deflectométrico pelo DER-MG (Silva 1998). (camada ligação – 7 até 6,4 cm e camada desgaste – 5 até 4,7 cm), le-
Embora os ensaios constantes de especificações dos órgãos rodoviá- vando em conta o limite final para a espessura total das camadas (Costa
rios brasileiros contemplem requisitos de desempenho importantes, ne- 2013). Na Tabela 1 apresentam-se os dados obtidos. Nesta simulação,
nhum deles apresenta penalidade em caso de não conformidade. Só exis- o critério de ruína que causa maior dano é a deformação permanente,
tem duas possibilidades: serviço é aceito ou rejeitado. chegando-se a obter no caso mais desfavorável uma perda de vida útil
superior a 15% (3 anos).

2.2 Em Portugal
Tabela 1 Cálculo da vida útil com variação de espessura
O órgão rodoviário Estradas de Portugal S.A. preconiza, através do Caderno
de encargos, tipo de obras volume 15.03 – métodos construtivos, os tipo de
controle que devem ser realizados para aceitação do serviço de pavimenta-
ção. Vários controles resultam em penalização ao empreiteiro.
Os resultados da determinação dos valores do IRI por trechos de 100m
são comparados aos valores admissíveis. No caso da irregularidade ex-
ceder o limite estabelecido num valor igual ou inferior a 10% da extensaõ
do lote, esta poderá ser aceita mediante aplicação de uma penalização
calculada de acordo com a equação 1:

penalização = 0,2 x Punit x A (1)

Onde:
Punit = preço unitário da camada
A = área do lote ou da fração do lote não conforme
2.3 Nos EUA
A capacidade estrutural é avaliada por medidas de deflexões por FWD.
Efetua-se uma retroanálise dos módulos de rigidez para cada uma das de- Monismith desenvolveu um procedimento para estabelecer fatores de
formadas características de cada zona homogenea. Faz-se correções de ajuste de pagamento para pavimentos asfálticos usando modelos de de-
temperatura e por fim estima-se o valor médio da vida restante, por trecho sempenho de fadiga e deformação permanente baseado no simulador de
homogeneo. Se o valor médio da vida restante do pavimento executado tráfego pesado – HVS da Caltrans e o programa de teste de acelerado de
for superior a 90% do valor considerado do projeto, a equação (1) é empre- desempenho WesTrack. Para deformação permanente, a influencia do teor
gada para cálculo da penalidade. de asfalto, teor de vazios e granulometria dos agregados são consideradas.
O modelo de desempenho usado para deformação permanente é baseado
Onde: nos dados de desempenho de mistura desenvolvidos no Wes Track, empre-
Punit = somatório do preço unitário das camadas asfálticas gando análise multicamadas elástica representativa da estrutura do pavi-
A = área do lote ou da fração do lote não conforme mento. Para fadiga, são considerados o teor de asfalto, teor de vazios e a
espessura do concreto asfáltico.
Se o valor médio estimado para vida restante for inferior a 90% do valor O modelo de desempenho da fadiga foi originalmente desenvolvido pelo
considerado do projeto, o pavimento deverá ser removido (Ferri ,2014). SHRP, incluindo influencia das temperaturas in situ, foi calibrado pelo sis-
Têm-se ainda as penalizações por diferença de espessura de camada tema de dimensionamento de pavimentos da Caltrans, incluindo variáveis
e de grau de compactação. No caso especifico de diferença de espes- testadas no HVS, para pavimentos novos e recuperados, considerando
sura, as diferenças entre o valor de projeto e valores reais afetam a qua- pavimento um sistema de multicamadas elástico (Popescu 2006).
lidade final do pavimento e a sua vida útil. Costa efetuou uma análise O ajuste de pagamento é calculado numa planilha Excel, mostrada na
para um pavimento típico com camada de ligação com AC 20 de 7 cm de Figura 1, levando em conta as variáveis construtivas consideradas impor-
espessura e camada de desgaste com AC 14 com 5 cm de espessura. tantes para resistência à fadiga e deformação permanente.
314 JACQUES DE MEDINA Utilização dos conceitos de payfactor na gestão de obras rodoviárias brasileiras 315

Figura 1 Cálculo do ajuste de pagamento Caltrans Figura 2 Padrão PBS x Pseudo PBS Figura 3 Relação entre Penalidade/Bônus x
Vida do pavimento

Butts publicou um artigo no TRB mostrando um levantamento efetuado em 2003 em todos Tabela 2 Valores típicos de fatores de ajuste deformação permanente e de trincas térmicas de um pavimento, a par-
de pagamento
órgãos rodoviários estaduais americanos (DOT), quanto aos controles efetuados em labora- tir de projeto de mistura, propriedades do ligante e agregados de uma
tório e in situ, e quanto ao emprego de ajustes de pagamento. Mais que 90% de todos os DOT mistura (as designed) e compará-las com as previsões calculadas pelo
Typical pay adjustment factors
responderam a este questionamento. Verificou-se que menos que 20% dos DOT não utilizavam empreiteiro a partir de valores de qualidade de lotes do pavimento (as
ajustes de pagamento, embora realizassem controle de laboratório e in situ, incluindo, além de Max. Bonus (%), Y1 7 built) determinados a partir das mesmas propriedades (Fugro 2011).
testes de composição da mistura asfáltica, testes de adesividade (Lottman) e medida de pro- Max. Penalty (%), Y2 20 As propriedades dos materiais e as propriedades volumétricas são da-
fundidade de trilha de roda usando simulador Hamburg. As variáveis para cálculo do ajuste de Max. PLD (Years), X1 5 dos de entrada para equação de previsão de Witczak para estimativa
pagamento eram focadas no grau de compactação, granulometria, VMA, teor de asfalto e de Min. PLD (Years), X2 -5
do módulo dinâmico que por sua vez é usado para prever fadiga, de-
vazios, irregularidade, resistência a tração, e ensaio de dano por umidade induzida (Butt 2003). formação permanente e vida útil do pavimento. Finalmente os fatores
PLD for no Bonus, X3 2.5
Challa efetuou um experimento em campo, junto ao DOT de Louisiana de comparação da de ajuste de pagamento (penalidade ou bonus), são derivados das di-
PLD for no Penalty, X4 -2.5
qualidade do pavimento, empregando o critério de qualidade MEPDG padrão baseado em de- ferenças entre a vida útil prevista (as designed) com a calculada pelos
PLD for Remove and Replace, X5 -10
sempenho (PBS), denominado “critério PBS” com o “critério PBS pseudo” idealizado por DOT dados obtidos nos lotes (as built).
Louisiana que inclui medidas de profundidade de trilhas de roda no simulador Hamburg – labo- A diferença de vida prevista PLD é definida como a diferença da vida de
ratory wheel tracker – LWT para altas temperaturas e ensaios de fratura – SCB (semi circular serviço prevista pela misturas as designed com a mistura as built. Este pa-
bending) a temperaturas intermediárias, conforme o fluxograma apresentado na Figura 2. O rametro tem um sinal algebrico dependendo de como a vida prevista as
estudo contemplou monitoramento da pista para verificar qual o critério que efetuou a melhor built for maior ou menor que a vida as design. Sendo assim, se calcula para
previsão de desempenho (Challa 2014). cada tipo de patologia o ajuste de pagamento penalidade/bonus – PF. A
Os resultados obtidos mostraram que LWT e SCB fizeram excelente previsão de desempenho figura 3 mostra a relação entre ajuste de pagamento pay factor com PLD.
e que merecem ser testados em outros trechos com vistas a sua utilização como ensaios de A Tabela 2 mostra valores tipicos dos parametros necessários ao con-
previsão de defeitos. Os dois critérios fucionaram bem para previsão de deformação permanen- junto PF – PLD. O PF final é a soma dos PF de cada defeito (fadiga e
te mas o método padrão não funcionou para previsão de trincas, enquanto que o critério pseudo deformação permanente). Segundo DOT Texas, o sistema de PF utilizado
acertou na previsão. Acredita-se que o método padrão MEPDG não foi calibrado para as condi- atualmente nem sempre resulta em melhoria de desempenho e aumento
ções de pavimento na Louisiana. Recomendou-se a calibração contínua do método MEPDG em de vida útil. Atualmente eles utilizam PF para produção, aplicação de mis-
campo, especialmente para previsão de trincas. tura asfáltica e para irregularidades. Por uma década os resultados foram
O NCHRP Report 704 descreve o desenvolvimento do software contendo programa de favoráveis aos empreiteiros, fornecendo bonus.
qualidade relativa a especificação - QRSS e sua abilidade em conduzir aos ajustes de paga- O uso de PF que continuamente premia os empreiteiros não se justifica
mento e seus cálculos pela comparação do desempenho do pavimento as built com aque- financeiramente, necessitando portanto de mudanças. A revisão do siste-
le projetado (as designed). O programa QRSS é capaz de calcular a previsão da fadiga, ma de ajuste de pagamento resultou em 3 tipos de PF Budhvarapu (2014):
316 JACQUES DE MEDINA Utilização dos conceitos de payfactor na gestão de obras rodoviárias brasileiras 317

• Produção da mistura asfáltica: PF baseado no desvio da densidade da Tabela 3 Ajuste de pagamento estimado em sobre o tema para convencimento da comunidade rodoviária. A implantação deve ser gradual, e
função do PWL
mistura, sendo que o bonus é aumentado para altas densidades; acredita-se que as concessões possam executar de maneira mais racional este tipo de controle
• Aplicação da mistura asfáltica: PF baseado no teor de vazios em cam- que só pode gerar ganhos a durabilidade dos pavimentos.
Typical stepped payment schedule
po, sendo o bonus aumentado para aumento da compactação; Tendo em vista, a experiência americana e portuguesa em estimar ajuste de pagamento para
based on PWL
• Irregularidades: a revisão inclui relações entre as constructed com de- obras rodoviárias, acredita-se que os itens de controle para estimativa de ajuste de pagamento
Estimated PWL Payment factor, %
sempenho em campo. a ser empregado no Brasil podem ser selecionados de diferentes maneiras:
95.0 - 100.0 102

Os levantamentos feitos junto aos DOT americanos quanto ao uso do PF 85.0 - 94.9 100 • Empregar os mesmos itens de controle já empregados pelos DOTs, tais como teor de
levaram aos seguintes resultados (NCHRP 2013): 50.0 - 84.9 90 vazios, teor de asfalto, granulometria, densidade, espessura, irregularidade e capacidade
0.0 - 49.9 70 estrutural (deflexões);
• PF associado a irregularidade é considerado separado dos demais, rela- • Realizar ensaios de previsão em laboratório para resistência a fadiga e deformação
tivos a materiais e construção; permanente em corpos de prova de pequena geometria coletados após contrução do
• PWL (percent within limits) Percentual dentro de limites é o item de me- pavimento. Do mesmo modo como foi feito no DOT Louisiana e que teve sucesso;
dida mais usado para cálculo de PF, exceto para irregularidade, onde a • Uso do módulo dinâmico desenvolvido por Witczak que depende da qualidade dos
qualidade é determinada pelo valor médio; materiais empregados.
• O bônus empregado é de 1 a 15%, sendo que o máximo mais empregado
é de 5%, sendo que no caso da irregularidade é de 15%; A partir do enquadramento dos resultados, ou seja, usando PWL de cada item de controle,
• Para penalidade existe desincentivo e até mesmo o remove e refaz; estudar como este deve ser usado para estimativa do ajuste de pagamento. Este cálculo pode
• Não existe consenso entre os DOT de como combinar os PF individuais se basear nas estimativas já existentes.
referentes a diferentes defeitos, Somente um DOT estabeleceu pesos Os ensaios de laboratório para previsão de defeitos em corpos de prova coletados no pa-
diferentes aos PF individuais; vimento construído ainda devem ser desenvolvidos. Acredita-se que os mesmos possam se
• Resistência, espessura e irregularidade são os itens mais empregados basear nos ensaios de flow number e tração direta.
para o cálculo do PF. De um modo geral os DOT utilizam teor de ligante, A maneira mais fácil de implantação dos ajustes seria utilizar os itens de controle da norma
teor de vazios, VMA, granulometria #8 e # 200, densidade, espessura, DNIT 31/2006, empregar o PWL dos ensais associados aos itens de controle e estabelecer os
irregularidade como itens de determinação do PF; ajustes de pagamento, adaptando as equações empregadas nos EUA.
• Procedimentos com diferentes níveis de complexidade são usados para
determinar a relação entre PF e qualidade: metodos complexos, meto-
dos empiricos e metodos intuitivos; 4 CONCLUSÕES
• PF são determinados por equações advindas de diferentes defeitos.
Existem várias maneiras de se associar ajuste de pagamento ao desempenho de pavimentos.
Exemplo de valores de ajuste de pagamento baseados no PWL de cada EUA têm bastante experiência neste tipo de controle. O Brasil pode aproveitar a experiencia
ensaio crítico apresentado na Tabela 3 (NCHRP 2011). americana para gerar seus próprios ajustes de pagamento em obras rodoviárias.
Os metodos complexos foram desenvolvidos a partir de principios mate- A implantação dos ajustes de pagamento, se considerada interessante pelos órgãos rodoviá-
máticos e de engenharia, incluindo relações de desempenho baseadas em rios brasileiros (estaduais, federais, municipais e concessões), deverá ser gradual e irá neces-
projeto de dimensionamento mecanistico. Estes métodos são denominados sitar de disseminação de conhecimento, empregando a Academia Brasileira, eventos técnicos
especificações relacionados a desempenho anteriormente mencionados. e congressos da comunidade rodoviária.
Os métodos empiricos empregam relações empiricas obtidas por ex-
periencia dos proprios DOT e não por principios de engenharia. Os méto-
dos intuitivos não se baseiam em principios cientificos nem consideram AGRADECIMENTOS
desempenho dos pavimentos mas os mesmos foram empregados com
sucesso por muitos anos. Professora Laura Motta e COPPETEC por possibilitarem a oportunidade de realizar o pós
doutoramento.

3 APLICAÇÃO DO AJUSTE NO BRASIL

A aplicação de ajustes de pagamento em obras rodoviárias não faz parte


da cultura brasileira. Sua implantação irá necessitar de muitas discussões • Referências bibliográficas na página 405.
318 Novo método brasileiro de dimensionamento de pavimentos asfálticos 319

Novo método brasileiro de dimensionamento Desde esta época, muitas teses e dissertações foram desenvolvidas na área de Geotecnia do
Programa de Engenharia Civil da COPPE, que formam uma base de conhecimento e de dados
de pavimentos asfálticos – contribuição de materiais que estão contribuindo para este novo método.
das pesquisas em pavimentos da COPPE Estas contribuições são apresentadas de forma sucinta e “histórica” neste artigo. A figura
central desse desenvolvimento é o professor Jacques de Medina, com sua visão sempre à
frente do seu tempo.
Laura Maria Goretti da Motta

2 AS PRIMEIRAS CONTRIBUIÇÕES

Como sabido, o pavimento é uma estrutura de múltiplas camadas que utiliza em grande parte
solos naturais e combinações destes, sujeita ás cargas externas dos veículos e do clima.
No método de dimensionamento de pavimentos asfálticos tradicional, os solos são esco-
lhidos a partir de ensaios empíricos típicos da Mecânica dos Solos clássica (granulometria,
RESUMO No presente trabalho apresentam-se os conceitos fundamentais Laboratório de Geotecnia e
plasticidade, compactação e CBR), que nem sempre ajudam a selecionar convenientemente os
Pavimentos, COPPE/UFRJ
da Mecânica dos Pavimentos, os ensaios de carga repetida utilizados nos Rio de Janeiro, RJ materiais para o subleito e as camadas.
estudos dos materiais de pavimentação, as ferramentas de análise de ten- A introdução dos conceitos da Mecânica dos Pavimentos, no início dos cursos de mestrado
sões e deformações e as contribuições das teses e dissertações feitas no em 1968, feita pelo professor Medina, trouxe uma nova visão também sobre os materiais a se-
Programa de Engenharia Civil da COPPE, que permitem hoje a proposição rem escolhidos para compor o pavimento.
de um novo método de dimensionamento de pavimentos asfálticos. Todo Medina conceituou a Mecânica dos Pavimentos como:
esse desenvolvimento deve-se à competência e “clarividência” do professor – “Disciplina da Engenharia Civil que estuda o pavimento como sistema em camadas, sujei-
Jacques de Medina, responsável pela formação de dezenas de professores, to as cargas dos veículos. Calculam-se tensões e deformações a partir do conhecimento dos
pesquisadores e engenheiros, projetistas e funcionários de órgãos públicos. parâmetros de deformabilidade de cada material. Verifica-se o N que leva à ruptura por fadiga
o elemento que resiste à tração. Variações sazonais de temperatura e umidade podem ser
consideradas nas respostas às cargas do tráfego. Ensaios dinâmicos de solos, britas e outros
1 INTRODUÇÃO materiais fornecem os parâmetros necessários de deformabilidade (elásticos e plásticos). En-
saios de campo completam os dados experimentais de laboratório necessários aos modelos de
O método de dimensionamento de pavimentos asfálticos novos ainda em desempenho. Novos materiais podem ser analisados. Fazem-se previsões e o empirismo deixa
vigor no país, é um método empírico baseado no ensaio de índice de su- de predominar, mas fica na dose certa”.
porte Califórnia (CBR), criado em 1966 pelo Eng. Murillo Lopes de Souza. Assim, dentro desta visão, as primeiras contribuições importantes na atualização do modelo
Este método deve ser substituído em breve, por um método mecanístico- de comportamento dos pavimentos, entendido como uma estrutura de múltiplas camadas foi
-empírico, em desenvolvimento na Rede Temática de Asfalto que reúne na introdução de novos ensaios de qualificação dos materiais. Introduzidos a partir de 1977, os
várias universidades e o IPR (Instituto de Pesquisas Rodoviárias), coorde- equipamentos de carga repetida para a realização de ensaios de módulo de resiliência de solos,
nados pelo centro de pesquisa CENPES/Petrobras. britas, solos estabilizados e misturas asfálticas e de fadiga permitiram avaliar as característi-
No ano de 1967, o professor Jacques de Medina entra para o corpo cas de deformabilidade de solos e materiais de pavimentação.
docente do Programa de Engenharia Civil da COPPE, nova instituição fun- Destacam-se as seguintes dissertações e teses que marcaram esta nova forma de carac-
dada pelo professor Alberto Luis Coimbra dois anos antes, para implantar terização mecânica dos materiais: triaxial para solos arenosos (Preussler, 1978); triaxial para
a pós-graduação em Engenharia na UFRJ. solos argilosos (Svenson, 1980); coeficiente de Poisson de solos (Trichês, 1985); compressão
Sob a orientação do Medina, a primeira dissertação de mestrado (à diametral para misturas asfálticas (1980); flexo-tração de vigotas para solo-cimento (Ceratti,
época era chamada de tese, independente se de mestrado ou doutorado, 1991); fadiga de misturas asfálticas em compressão diametral (Preussler, 1983) e em flexo-
o que perdurou até a década de 1990) foi defendida em 1971, com o tema -tração (Pinto, 1991).
de estabilização de solos, tratando de areia-cal-cinza volante, pioneira- Para avaliação dos efeitos ambientais, destaca-se a medida de temperatura em revestimen-
mente já falando em aproveitamento de resíduo na pavimentação. O autor tos asfálticos (Motta, 1979).
desta primeira dissertação foi o Eng. Salomão Pinto, do IPR/DNER. PALAVRAS-CHAVE solos O primeiro equipamento triaxial de carga repetida desenvolvido em convênio IPR/ COPPE está
A primeira tese de doutorado em pavimentação foi defendida em 1983: tropicais, mecânica dos mostrado na Figura 1 e começou a operar em 1977, que permitia ensaiar corpos de prova de 5
Método dimensionamento de reforço de pavimentos, autoria de Ernesto pavimentos, dimensionamento, cm de diâmetro e 10 cm de altura. Este foi substituído em 1987 por um de maior dimensão, mos-
Simões Preussler, também sob a orientação de Medina. Medina. trado na Figura 2, para corpos de prova de 10 (ou 15) cm de diâmetro e 20 (ou 30) cm de altura.
320 JACQUES DE MEDINA Novo método brasileiro de dimensionamento de pavimentos asfálticos 321

O primeiro equipamento de compressão diametral de carga repetida, Figura 1 Primeiro equipamento triaxial Figura 5 Modelo físico de pavimentos da 3 TRECHOS EXPERIMENTAIS
de carga repetida para amostras de COPPE desenvolvido por Silva (2009). Foto:
para ensaio de módulo de resiliência de misturas asfálticas e cimentadas,
5x10 (cm) (COPPE, 1977). Carlos Silva (2014)
e também para fadiga, foi montado e começou a operar em 1980. Está Em 1977, a COPPE construiu junto com o IPR o primeiro trecho experi-
mostrado na Figura 3. A automação deste ensaio e também do triaxial foi mental instrumentado do país, que foi implantado na BR 101, em Santa
feita em 2002, pelos engenheiros Ricardo Gil Domingues e Álvaro Augusto Catarina, com seções de diferentes espessuras de areia-cal-cinza vo-
Dellê Vianna (Vianna, 2002). O equipamento de ensaio de vigota por flexo- lante. Este grande experimento auxiliou muito a avaliação desta téc-
-tração (Figura 4) foi montado na década de 1980 e primeiro foi utilizado nica de estabilização com uso de resíduo e mostrou que o pavimento
por Jorge Ceratti (1991) para avaliação de solo-cimento e a seguir para semirrígido resultante tem bom comportamento para rodovia de tráfe-
misturas asfálticas por Salomão Pinto (1991). go pesado (Medina et al, 1977). A instrumentação, embora não tenha
As pesquisas desenvolvidas ao longo destes mais de quarenta anos de funcionado plenamente, foi muito importante e permitiu a comparação
mestrado e doutorado em pavimentação na COPPE se distribuem nas se- com os cálculos numéricos que começavam a ser feitos com o progra-
Figura 2 Equipamento triaxial de carga
guintes linhas: repetida para corpos de prova de 10x20 ou ma FEPAVE2 (Motta, 1981).
Solos tropicais, Materiais para base e sub-base, Ligantes e Misturas Asfálti- 15x 30 (cm) (COPPE, 1987) Em 1991 começava um novo ciclo de implantação de trechos experi-
cas, Mecânica dos Pavimentos, Modelagem computacional, Simuladores de mentais que marcam até hoje a parceria CENPES/COPPE, iniciada em
Tráfego e Trechos Experimentais, Estabilização de Solos; Resíduos e Rejeitos, 1988. O primeiro destes segmentos foi construído em parceria com a Pre-
Rodovia, Aeroporto e Ferrovia e Sistemas de Gerência de Pavimentos. feitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ), com uso de asfalto mais duro
Para o estudo dos solos tropicais incorporou-se desde o início os pro- que o convencional corrente, que na época foi denominado CAP 55. Este
cedimentos do método MCT de classificação de solos desenvolvida em havia sido introduzido na linha de produção da Petrobras em parte devido
1981 por Job Nogami e Douglas Villibor, apresentada de forma consolida- ao empenho do Eng. Jorge Salathé, da PCRJ. Com as altas temperaturas
da em Nogami e Villibor (1995). atingidas pelos revestimentos asfálticos na cidade, medidas por Motta
Figura 6 Trecho experimental Rio-Orla (Foto
A extensão da Mecânica dos Pavimentos do modal rodoviário para o fer- (1979), justificava-se plenamente o uso de ligante mais consistente. Na
cedida por Ilonir Tonial)
roviário também foi uma iniciativa do professor Jacques de Medina aqui Figura 6, mostra-se foto tirada cerca de 17 anos após a implantação, com
no Brasil. Cunhou inclusive o termo “pavimento ferroviário” (Medina, 1988; excelente condição da superfície (notar furos das amostragens do acom-
Medina, 1997). panhamento sistemático). Alguns dados deste segmento estão mostra-
Figura 3 Equipamento de compressão
Centenas de amostras de solos de todo o país já foram ensaiadas na dos em Motta e Leite (2002).
diametral de carga repetida (COPPE, 1980)
COPPE. Análise deste banco de dados foi feita, por exemplo, por Ferreira Depois deste trecho, denominado Rio-Orla, vieram muitos outros, com
(2002, 2008) com redes neurais para previsão de módulo de resiliência. parcerias com outras prefeituras e órgãos estaduais e federais. Algu-
A avaliação da deformação permanente de solos e britas começou a ser mas destas experiências estão relatadas e analisadas em Tonial (2001,
feita de forma sistemática na dissertação de Guimarães (2001). A intro- Tonial et al, 2001).
dução do conceito de shakedown ou acomodamento permite ter critérios A importância dos segmentos experimentais ficou marcante com uso
mais adequados de seleção de materiais para as camadas que evitem o do simulador de tráfego móvel (HVS) para testar estruturas de forma ace-
afundamento de trilha de rodas. O modelo de análise proposto por Guima- lerada. A primeira pesquisa com HVS na COPPE (Fritzen, 2005), testou
rães (2009) está sendo incorporado ao novo método de dimensionamen- quatro soluções de recuperação em trecho concedido à CRT.
to em desenvolvimento. Estes conceitos também estão sendo aplicados Porém, a dimensão das pesquisas com trechos monitorados, cresceu
para escolha de materiais para sublastros de ferrovias em várias obras de forma exponencial quando foi feito o convênio CENPES/COPPE de-
atuais. Substitui com vantagens o uso do CBR. nominado “Projeto Fundão” que implantou mais de 80 segmentos expe-
Para as misturas asfálticas o modelo de ensaio e de critério foi proposto Figura 4 Equipamento de flexo-tração
rimentais de misturas asfálticas a quente e a frio, dentro do Campus da
por Nascimento (2008). de carga repetida para corpos de prova Cidade Universitária da UFRJ (Figura 7). Este projeto, iniciado em 2006,
Mais recentemente, foi construído no Laboratório de Geotecnia da CO- prismáticos COPPE (Ceratti, 1991) foi fundamental para a melhoria da trafegabilidade das principais aveni-
PPE um modelo físico (Figura 5) que permite ensaiar uma seção de pa- das do Campus que estavam em situação precária, beneficiando cerca de
vimento em verdadeira grandeza, com cargas repetidas e possibilidade 60.000 pessoas que estudam e trabalham no Campus. Os frutos técnicos
de variação da umidade das camadas, denominado “tanque-teste” (Silva, deste projeto estão sendo colhidos agora em duas teses de doutorado
2009). Várias pesquisas já foram conduzidas neste modelo que permite (Nascimento, 2015, Fritzen, 2015), resultados usados para obter as fun-
ampliar a escala de laboratório e incluir instrumentação (Bastos, 2010; ções de ajuste campo-laboratório (FCL) do novo método de dimensiona-
Miranda, 2013; Silva, 2014). mento de pavimentos asfálticos em desenvolvimento.
322 JACQUES DE MEDINA Novo método brasileiro de dimensionamento de pavimentos asfálticos 323

Figura 7 Esquema dos trechos monitorados na Cidade Universitária da UFRJ – Figura 8 Configuração original do programa Quando se formou a Rede Temática de Asfalto, a proposição da CO-
Fundão (Fonte: Marcos Fritzen (2015) FEPAVE2 em 1971 ao chegar na COPPE
PPE de aproveitar o SisPav como base para um possível novo método de
dimensionamento de pavimentos asfálticos novos tomou impulso. Este
caminho está sendo atualmente consolidado por um convênio entre a
COPPE e o IPR/DNIT, em fase de elaboração final. O estágio atual será
descrito a seguir.

5 NOVO MÉTODO PROPOSTO

Todo método de dimensionamento mecanístico-empírico de pavimentos


segue o fluxograma mostrado na Figura 9. Trata-se de um método de ve-
rificação: adotam-se espessuras iniciais das camadas, compostas pelos
materiais disponíveis e previamente estudados em laboratório, e, para o
tráfego previsto, no período de projeto, comparam-se os valores calcula-
dos de tensões ou deformações nos pontos críticos com valores admis-
síveis. Caso sejam satisfeitas as condições, aceitam-se as espessuras,
caso não, modificam-se espessuras ou materiais (Motta, 1991).
4 ANÁLISES NUMÉRICAS

Para aplicação adequada dos princípios da Mecânica dos Pavimentos é Figura 9 Fluxograma de um método de dimensionamento mecanístico-empírico de
dimensionamento (Motta, 1991)
necessário se dispor de um programa de cálculo de tensões e deforma-
ções que permita a incorporação dos resultados dos ensaios de laborató-
rio de caracterização mecânica dos materiais. Assim, é possível a consi-
deração da estrutura como um sistema em camadas calculando os danos
críticos em qualquer ponto para poder dimensionar o pavimento, novo ou
as restaurações.
O primeiro programa de cálculo de tensões-deformações de pavimentos
que foi utilizado na COPPE foi um software de elementos finitos deno-
minado FEPAVE2 (Figura 8), desenvolvido em 1968 na Universidade de
Berkeley. Foi doado à COPPE em 1971, enviado pelo professor Carl Monis-
mith ao professor Medina. Na época, o programa fonte veio em forma de
cartões perfurados. É um programa bem elaborado que permite análise
de até 12 camadas, inclusive análise não linear, mas a interpretação se
fazia a posteriori. Como se tinha o programa fonte, durante vários anos
foram feitas várias atualizações à medida que os computadores foram
evoluindo, e também foi possível acrescentar modelos de comportamento
dos solos tropicais, por exemplo. Melhorias da forma de entrada e saída
dos dados foram feitas (Motta, 1991; Silva, 1995; Medina, 1997, Franco,
2004) e durante cerca de 30 anos este programa foi utilizado em teses,
dissertações e projetos. Mas a evolução dos métodos e dos sistemas
computacionais levaram à criação de sistema de dimensionamento pro- Normalmente, admite-se que os pavimentos asfálticos devem atender a
priamente dito: a análise de tensões e deformações já se incorpora a um duas condições estruturais: a fadiga, expressa pela porcentagem de área
conjunto de critérios de decisão e a estrutura testada fica analisada quan- trincada (%AT) e a deformação permanente, expressa pelo afundamento
to à sua vida útil. Assim, foram desenvolvidos o Pave2000 (Franco, 2000) de trilha de roda (ATR), admissíveis ao final do período de projeto. Na Figu-
e o SisPav (Franco, 2007), com conhecimentos desenvolvidos na COPPE ra 10 mostram-se defeitos estruturais causados por fadiga num pavimen-
sobre os materiais e as experiências dos trechos experimentais. to asfáltico em uso em vários níveis de gravidade.
324 JACQUES DE MEDINA Novo método brasileiro de dimensionamento de pavimentos asfálticos 325

Uma das questões mais importantes para o estabelecimento de método Figura 10 Exemplos de porcentagem Figura 11 Função de transferência campo-laboratório (FCL) obtida por Fritzen (2015)
de área trincada
de dimensionamento é a parte “empírica”, que corresponde ao ajuste de
fatores de calibração, também chamados fator-campo-laboratório (FCL)
ou função de transferência. Trata-se de ajustar os danos calculados a par-
tir dos ensaios de fadiga e de deformação permanente de laboratório para
as condições reais de aplicação de cargas no campo.
Os primeiros FCL utilizados no Brasil foram estabelecidos por Pinto
(1991) para curvas de fadiga obtidas por ensaios de compressão diame-
tral e cálculo de tensões-deformações feitos com o FEPAVE2.
Hoje, novos fatores estão estabelecidos para duas situações, a partir
dos trechos do Fundão:
• Módulo dinâmico para as misturas asfálticas, fadiga por tração direta e cál-
culo de tensões-deformações pelo programa LVECD (Nascimento, 2015);
• Módulo de resiliência e fadiga por compressão diametral e análise de
tensões e deformações pelo SisPav modificado (Fritzen, 2015).
Figura 12 Tela do AEMC para duas camadas com alguns dos cálculos do dano para uma
Aqui são apresentados, sucintamente, os desenvolvimentos de Marcos determinada estrutura usada para obter a FCL (Fritzen, 2015)

Fritzen, que, baseado nas proposições de Nascimento (2015), utilizando o


AEMC de Franco (2007) preparado para analisar 110 pontos sob a carga,
percorreu vários passos para definir a função campo-laboratório com os
dados de 45 segmentos do Projeto Fundão. A partir deste, checado para
outros segmentos, Filipe Franco adaptou o programa SisPav, atualmente
designado SisPavBR. Na Figura 12 mostra-se exemplo de um segmentos
analisados por Fritzen (2015).
O SisPavBR é um sistema de dimensionamento de pavimentos asfál-
ticos e poderá vir a ser em breve um novo método brasileiro assim que
testado e validado.
Na Figura 11 mostra-se a função de transferência obtida por Fritzen
(2015) que permite transformar os danos calculados com o AEMC (Figura
12) para porcentagem de área trincada. Assim, o projetista ou o órgão
podem definir qual será a condição final admissível do trecho quanto à fa-
diga. Isto impacta as espessuras calculadas para as camadas em função
das características dos materiais. Na Figura 13 mostra-se um exemplo
de comparação entre área trincada observada e prevista pelo modelo de Figura 13 Exemplo de comparação de área trincada observada e calculada,
ajuste de Fritzen. Nas Figuras 14 a 17 mostram-se algumas telas do Sis- com o tempo (Fritzen, 2015)

PavBR que indicam os dados de entrada da estrutura a ser analisada, dos


materiais e da retroanálise, e a forma de saída dos resultados. Também
gera relatório final com a memória de cálculo.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estamos próximos a definir um novo método de dimensionamento de pa-


vimentos asfálticos brasileiro após 50 anos do estabelecimento do atual
método. A COPPE, pela visão do professor Jacques de Medina e atuação
de mais de uma centena de alunos pode contribuir de forma efetiva para
esta conquista (lamentavelmente não dá para citar todos).Naturalmente
326 JACQUES DE MEDINA 327

Figura 14 Tela de entrada de dados da estrutura


do SisPavBR (Franco, 2015)
Figura 15 Tela do novo programa de retroanálise
do SisPavBR (Franco, 2015)
Metodologia alternativa para projetos de
pavimentos na área de estabilização de solos

José Vidal Nardi

Instituto Federal de Educação, RESUMO A área rodoviária tem buscado um método de mistura mais
Ciência e Tecnologia de Santa Catarina
IFSC, Florianópolis, Brasil
eficaz, que possibilite o reaproveitamento do solo local após um trata-
mento adequado. Geralmente, os métodos tradicionais têm como base o
sistema de coordenadas cartesianas que requerem a execução de gran-
de número de misturas a serem testadas. Um método alternativo para
essas misturas foi desenvolvido para ser utilizado na estabilização de
solos. Consiste no uso dos resultados de ensaios de reduzido número de
Figura 16 Tela de dados do revestimento do SisPavBR Figura 17 Tela de dados do resultado do SisPavBR
versão 2.1.1.0 (Franco, 2015) versão 2.1.1.0 (Franco, 2015)
misturas que, associados matematicamente a superfícies de respostas,
permitem inferir a variação do comportamento do novo material. Este tra-
balho apresenta a utilização dessa nova tecnologia, fazendo-se um para-
lelo entre a Metodologia Tradicional e a Alternativa. O trabalho baseia-se
em dados que envolvem os ensaios laboratoriais de pista experimental e
estudos correlatos. Nesse estudo, o Método Alternativo mostrou ser mais
eficiente que o Tradicional.

1 INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

Atualmente constata-se a existência de teorias que permitem a adaptação


de modelos matemáticos às mais diversas propriedades dos materiais,
é necessário reconhecer a atuação decisiva do CENPES/Petrobras nas suas ações de apoio às inclusive a novos produtos que têm origem em misturas com componen-
pesquisas, investimentos em infraestrutura e equipamentos na COPPE e em várias instituições tes reativos quimicamente entre si. Essas técnicas são baseadas no fato
brasileiras. A Rede Temática de Asfalto, organizada em torno da meta de criar um novo método de que as propriedades dessas misturas dependem exclusivamente das
mecanístico-empírico agregou o esforço coletivo de muitas universidades neste objetivo co- proporções entre os seus componentes, e também nos possibilitam um
mum. A parceria com o IPR/DNIT que se iniciou na década de 1970 e que, mesmo informalmen- planejamento experimental para o delineamento de superfície de resposta
te, nunca deixou de existir, voltou a se oficializar em abril de 2015 com o termo de cooperação aos componentes da mistura. (Cornell, 1990a,b; e Montgomery, 1996).
para estabelecer o novo método de dimensionamento. A utilização do planejamento experimental em misturas vem despertan-
Portanto, é mais que oportuna e justa esta homenagem ao professor Jacques de Medina! do interesse na produção de novos materiais e no melhoramento dos já
existentes. Os métodos de projeto de mistura e superfície de resposta
têm sido empregados em vários problemas da ciência e engenharia de
AGRADECIMENTOS materiais, particularmente na utilização industrial. Esta metodologia tem
aplicações no desenvolvimento de tintas e camadas de cobertura (Cor-
Ao Engenheiro MSc. Marcos Fritzen que, desde 2006, é pesquisador e comandou a construção PALAVRAS-CHAVE estabilização nell, 1990b), na formulação de polímeros (Yang, 1997), surfactantes e
e avaliação de todos os trechos experimentais feitos desde essa época, além de gerenciar o de solos, metodologia de mistura, produtos farmacêuticos (Campisi, 1998), vidros (Piepel, 1997), esmaltes
Setor de Pavimentos do Laboratório de Geotecnia do Programa de Engenharia Civil da COPPE. planejamento experimental cerâmicos (Schabbach, 1999), entre outros.
Ao Engenheiro DSc Filipe Franco, pelos desenvolvimentos dos softwares Pave, SisPav etc. e em misturas, delineamento No exterior, os estudos com misturas experimentais desenvolvidos atra-
infinita paciência de alterá-los permanentemente ao final de cada discussão coletiva. de superfície de resposta, vés das superfícies de resposta têm muito evoluído após 1990 (Cornell,
característica mecânica, 1990a,b; Myers, 1995; Montgomery, 1996 e Deming, 1999), mas nunca re-
• Referências bibliográficas na página 405. resistência à compressão. lacionadas à tecnologia rodoviária, seja no Brasil ou no exterior.
328 JACQUES DE MEDINA Metodologia alternativa para projetos de pavimentos na área de estabilização de solos 329

Assim, a necessidade da verificação das possibilidades da utilização desses novos conceitos percentagem, Y é a quantidade de amostra C (rejeito industrial, cinza) dada em percentagem, Z
tecnológicos foi testada pela primeira vez na área rodoviária em 2001 (Nardi, 2001), tendo sido é a quantidade de amostra D (água de compactação) dada em percentagem e b1, b2, b3, b4, b12,
aprovada, posteriormente, em tese de doutoramento (Nardi, 2004a). Tal procedimento possibi- b13, b14, b23, b24 e b34 são os coeficientes de ajuste da equação obtidos em função dos ensaios
litou o desenvolvimento de uma nova metodologia na estabilização de solos para pavimentos laboratoriais.
rodoviários, sendo denominada por “Metodologia de Restrições Sucessivas sobre Superfícies Importante ter em mente que esses sistemas somente são resolvidos através de softwares,
de Resposta” (Nardi, 2006), chamada neste trabalho por “Metodologia Alternativa”. impraticáveis na forma tradicional (manual).
No Brasil, os estudos das superfícies de respostas dirigidos à estabilização de solos estão
em fase embrionária.
Na área rodoviária, a técnica de projetos de estabilização de solos tem sido utilizada através 3 PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL
de processos de tentativa e erro, consistindo em um método empírico e extremamente traba-
lhoso em laboratório, neste estudo denominado por “Metodologia Tradicional”. 3.1 Misturas estudadas
Este trabalho tem como finalidade fazer um paralelo entre a Metodologia Tradicional e a Me-
todologia Alternativa, permitindo mostrar de forma simples e abreviada as potencialidades de Neste trabalho utilizam-se dados de estudos já mencionados (Nardi, 1985; Nardi, 1987 e Nardi,
ambas. Também se procura provar que a Metodologia Alternativa é mais eficiente que a Me- 2006). A Tabela 1 mostra as composições químicas das Amostras B e C utilizadas, as quais
todologia Tradicional. O trabalho é baseado em dados que envolvem ensaios laboratoriais e com água reagem quimicamente, à temperatura ambiente, formando um produto cimentante,
estudos já existentes (Nardi, 1985; Nardi, 1987 e Nardi, 2006). solidarizando os grãos de areia tidos como inertes e atuando como agregado.

2 TEORIA EXPERIMENTAL Tabela 1 Composição química das amostras B e C

SiO2 Al2O3 Fe2O3 CaO Na2O


A técnica de planejamento de misturas e superfícies de respostas tem sido utilizada nos mais Amostras (%) (%) (%) (%) (%)
diversos processos industriais. Há excelentes subsídios em Box (1978), Piepel (1983), Crosier
(1984), Cornell (1990a,b), Juran (1993), Barros Neto (1995), Myers (1995), Statistica (1995), B 7,58 0,14 <0,01 37,65 <0,01
Khuri (1996), Montgomery (1996) e Deming (1999), embora nunca tenham sido, tais estudos, C 59,04 25,77 7,09 1,92 0,41
direcionados para a área rodoviária. Somente a partir de 2001, trabalhos relacionados a essa
área foram publicados no Brasil (Nardi, 2001; Nardi, 2004a; Nardi et al, 2004d; Nardi, 2004e; e
K2O TiO2 MnO MgO P2O5 P.F.
Nardi, 2006) e no exterior (Nardi et al, 2003; Nardi et al, 2004b e Nardi et al, 2004c). Amostras
(%) (%) (%) (%) (%) (%)
O planejamento de misturas tem como finalidade a seleção das variáveis que afetam signi-
B <0,01 <0,01 <0,01 27,13 <0,01 27,47
ficativamente a resposta, a análise da variação individual de cada componente na região de
validade do estudo e a determinação da composição que otimiza a resposta na propriedade C 2,93 1,30 0,06 0,55 0,07 0,87

de interesse estudada. Para tanto, determina-se um modelo matemático de regressão obtido


através do Método dos Mínimos Quadrados, desenvolvendo dessa forma uma superfície de
resposta a partir dos valores obtidos nos ensaios laboratoriais. Nas Tabelas 2 e 3 visualizam-se as misturas já anteriormente estudadas (Nardi, 1985; Nardi,
Os modelos de regressão mais utilizados são os polinomiais, principalmente os dos tipos 1987 e Nardi, 2006). A amostra de solo é inerte e as componentes que participam das reações
linear, quadrático, cúbico especial e cúbico completo (Cornell, 1990a,b). Para este trabalho, um de cimentação correspondem a cal hidratada, a cinza e a água. São misturas com quatro com-
modelo polinomial do segundo grau (σ*), para quatro componentes (V, X, Y e Z), é definido de ponentes, constituídas por um solo tipo A-3 (Amostra A, solo arenoso, agregado), um produto
acordo com a Equação (1). químico (amostra B, cal hidratada), um rejeito industrial (Amostra C, cinza proveniente de termo-
elétrica) e um líquido (Amostra D, água) para a hidratação e compactação.
(1) σ* = b1V + b2X + b3Y + b4Z + b12VX + b13VY + b14VZ + b23XY + b24XZ + b34YZ
Tabela 2 Misturas desenvolvidas em estudos de pesquisa de estabilização de solo, variando de 2% a 6% de cal.

O modelo polinomial do segundo grau (σ*), para três componentes (X, Y e Z), é definido de
acordo com a Equação (2). Mist. 1 Mist. 2 Mist. 3 Mist. 4 Mist. 5
Amostras
(%) (%) (%) (%) (%)

Cal 2 3 4 5 6
(2) σ* = b1X + b2Y + b3Z + b12XY + b13XZ + b23YZ
Cinza 13 13 13 13 13
Onde: σ* é a resistência mecânica à compressão simples esperada, V é a quantidade de amos- Solo 85 84 83 82 81
tra A (solo) dada em percentagem, X é a quantidade de amostra B (produto químico) dada em
330 JACQUES DE MEDINA Metodologia alternativa para projetos de pavimentos na área de estabilização de solos 331

Tabela 3 Misturas desenvolvidas em estudos de pesquisa de estabilização de solo, variando de 7% a 10% de cal. Figura 1 Resistências à compressão obtém-se um mesmo valor de resistência para cada par de teores dife-
simples em função dos teores de umidade,
rentes de umidade. Igualmente constata-se que cada curva apresenta um
variando entre 2% a 6% as percentagens
Mist. 6 Mist. 7 Mist. 8 Mist. 9 ponto considerado máximo, a partir do qual a incorporação de água é pre-
Amostras de cal nas misturas.
(%) (%) (%) (%)
judicial ao ganho de resistência.
Cal 7 8 9 10 Quando se pretende uma visualização global do estudo laboratorial,
Cinza 13 13 13 13 um entendimento mais detalhado do conjunto total das misturas, e da
Solo 80 79 78 77 potencialidade entre as outras combinações possíveis, somente a fa-
mília de curvas que representa a resistência a compressão simples em
função do teor de umidade, para as 9 dosagem de cal utilizadas no traba-
3.2 Método de ensaio lho, deixa completamente a desejar, em outras palavras, não se utilizam
equações que correlacionem as interações entre as variáveis indepen-
As misturas foram compactadas na energia intermediária, de acordo com a norma DNER-DPT dentes (os 4 componentes: solo, cal, cinza e a água) e a variável de-
ME 48-64, em moldes cilíndricos com 10 cm de diâmetro e 20 cm de altura. Após 28 dias de pendente (a propriedade mecânica referente a resistência à compressão
cura os corpos de prova foram imersos na água por 24 horas, sendo posteriormente testados simples). Logo: necessário seria a elaboração do conjunto de outros grá-
a resistência à compressão simples. O total do trabalho correspondeu à compactação de 9 Figura 2 Resistências à compressão ficos cartesianos que envolvem os diferentes componentes em questão.
simples em função dos teores de umidade, O número seria enorme, e um conjunto de gráficos nada prático na visu-
diferentes misturas, como anteriormente mostradas nas Tabelas 2 e 3. Cada curva foi desen- variando entre 7% a 10% as percentagens
volvida com cinco pontos, sendo cada ponto representado pela média de três corpos de prova. alização global.
de cal nas misturas.
As curvas envolveram 45 pontos, para um total de 135 corpos de prova. A Figura 3 é formada pela resistência máxima (σmax) de cada curva
individual. Tem origem nas leituras efetuadas nas curvas das Figuras 1 e
2, sendo pontualmente delineada em função desses valores.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES O gráfico prevê a existência de misturas que desenvolvem maior ou me-
nor potencialidade em função das percentagens de cal utilizadas. Seus
Os resultados estão materializados em tabelas e figuras, sendo acompanhados pelos respecti- valores são pontuais e nada informam com relação aos outros componen-
vos comentários, forma a qual se pretende expor o trabalho proposto. tes, pois não se dispõem de correlações triaxiais englobando a cal, a cinza
e a água, simultaneamente.
4.1 Resultados e discussão simulando o projeto tradicional Tendo como suporte os dois estudos anteriores (Figuras 1 e 2), fundi-
dos na Figura 3 acima, verifica-se que o valor aproximado de 7% de cal
No processo de estabilização de solos o desenvolvimento de um Projeto Tradicional correspon- hidratada corresponde ao valor otimizado da mistura, o qual proporciona-
de a um procedimento tipicamente empírico, sendo desenvolvido ponto a ponto pelo processo rá para a resistência à compressão simples um valor máximo de 4 MPa,
de tentativas sucessivas. Deseja-se nesse exemplo determinar a potencialidade das misturas aproximadamente. Logo, na Tabela 2 a otimização do estudo correspon-
Figura 3. Resistência à compressão simples
através da característica mecânica dos valores das resistências à compressão simples, culmi- máxima em função do teor individual de cal derá a Mistura 6, constituída por 7% de cal hidratada, 13 de cinza volante
nando na determinação dos valores das percentagens dos componentes que maximizam essa em cada mistura. e 80% de solo tipo A-3. Para saber a percentagem da quarta componente,
característica mecânica no conjunto das misturas. tem-se que efetuar a leitura na curva de compactação da Mistura 6, cor-
Os resultados são visualizados em um sistema de eixos cartesianos na forma tradicional. Po- respondendo ao valor de 6,3 % de água, aproximadamente.
derão ser expressos de várias maneiras, como: a propriedade mecânica escolhida (resistência Obs.: Neste trabalho não foram anexadas tabelas e figuras das curvas
à compressão simples) “versus” o teor de cal, ou o teor de cinza, ou o teor de solo, ou o teor de de compactação devido ao limitado número de folhas.
água na mistura. Na tecnologia rodoviária tem-se como fundamental a curva de compactação,
e a água exercer um papel preponderante na cimentação, a função escolhida foi a resistência à 4.2 Resultados e discussão simulando a metodologia alternativa
compressão simples “versus” teor de umidade.
As Figuras 1 e 2 representam as resistências à compressão simples (σ, MPa) em função Na medida do possível a nova metodologia tem sido exaustivamente tes-
dos teores de umidade das misturas (h%), para diferentes teores de cal (2% a 10%). Têm como tada em vários estudos dirigidos. Também foram utilizados resultados de
finalidade visualizar o comportamento das misturas e verificar onde ocorrem as resistências pesquisas existentes, tendo como finalidade à verificação de sua aplica-
máximas (σmax) em função do aumento gradativo da percentagem de água na compactação bilidade. Igualmente dados experimentais das misturas desenvolvidas na
de cada mistura. construção de pista experimental (Nardi, 1985 e Nardi, 1987), construída
As referidas figuras correspondem a 45 pontos num total de 135 corpos de prova. Confirmam em 1976 sob a responsabilidade do Instituto de Pesquisas Rodoviárias
que para percentagens fixas dos componentes na mistura, quando se varia o teor de umidade, (IPR), foram utilizados e testados na nova metodologia.
A Metodologia Alternativa consiste no uso dos resultados de ensaios
332 JACQUES DE MEDINA Metodologia alternativa para projetos de pavimentos na área de estabilização de solos 333

laboratoriais, obtidos com reduzido número de misturas, os quais são associados a um modelo Figura 4 Representação triangular da entrada no software Statística, na obtenção do modelo quadrático, segun-
superfície de resposta nas dimensões XYZ
matemático e a duas superfícies de resposta, que permitem simular as variações dos compor- do o mostrado na Equação 2, para os três componentes originais (cal, cin-
tamentos mecânicos do novo material a ser desenvolvido. Logo: A metodologia permite deter- za e água), obtém-se o modelo matemático, como apresentado na Equa-
minar os valores das variações das características mecânicas de qualquer produto que tenha ção 4. Representa a resistência à compressão simples esperada (σ*) em
origem na variação das percentagens de seus componentes. A tal procedimento denominamos função das percentagens dos componentes X, Y e Z nas misturas.
por “Metodologia de Restrições Sucessivas sobre Superfícies de Resposta”. A explicação do
desenvolvimento dos cálculos para a execução dessa metodologia poderá ser encontrado em (4) σ* = - 1,54547X - 0,62682Y - 1,02939Z + 0,03813XY + 0,02725XZ +
(Nardi, 2004a; Nardi et all, 2004d e Nardi, 2006). 0,0281YZ
Na Metodologia Alternativa, os resultados laboratoriais das misturas são representados por
um modelo matemático e duas superfícies de respostas, uma plana e outra espacial, estudo Na Figura 4, visualiza-se no gráfico triangular (superfície plana) os efei-
esse desenvolvido, exclusivamente, para ser utilizado na estabilização de solos dirigida à área tos dos três componentes nas dimensões XYZ, interagindo segundo a
rodoviária. Tendo sido alcançado o objetivo na forma tradicional, agora, na forma alternativa, Equação 4. Desta forma, observa-se a variação dos valores da proprie-
o exemplo experimental pretende, também, mostrar ser possível maximizar as propriedades dade mecânica da resistência esperada no produto final, e em função de
mecânicas de novos materiais. Na nova metodologia, dos 45 pontos anteriormente utilizados, qualquer proporção dos componentes que venham a ser utilizados den-
apenas 18 serão necessários. tro da área de validade de contorno das misturas. A partir da elaboração
O desenvolvimento de projetos através da Metodologia Alternativa necessita de uma familia- Figura 5. Representação espacial da desse gráfico, a determinação das percentagens dos componentes, de
superfície de resposta nas dimensões XYZ.
rização teórica bem acentuada com relação a diversos assuntos, como: experiência laboratorial qualquer valor desejado da resistência à compressão, poderá ser determi-
na área de estabilização de solos, noções básicas sobre planejamento e otimização de expe- nada. Basta introduzir na área de contorno de validade do gráfico o valor
rimentos, conhecimento da utilização do software Statistica na área referente a misturas e su- da resistência desejada e ler nos eixos os teores dos componentes cor-
perfícies de respostas (a utilização desse programa requer treinamento anterior), saber utilizar respondentes. Dessa forma elimina-se uma série de ensaios laboratoriais.
e interpretar as superfícies plana e espacial obtidas como respostas dos ensaios laboratoriais A Figura 5 representa a Equação 4 na forma tridimensional (espacial).
e definir áreas de viabilidade econômica das misturas no gráfico triangular. O estudo das lite- Nas Figuras 4 e 5 podem-se perfeitamente visualizar a existência de
raturas referentes ao assunto permitirá o entendimento, passo a passo, do desenvolvimento e um número sem fim de combinações, entre os componentes, que geram
aplicação da Metodologia Alternativa. as propriedades mecânicas do produto final, igualmente desenvolver si-
Utilizando-se dos resultados obtidos em laboratório (18 pontos) como dados de entrada no mulações gráficas na área de validade dos intervalos pesquisados e efe-
Software Statistica, na obtenção do modelo quadrático segundo o mostrado na Equação 1, para tuar estudos de minimização de custos em projetos de misturas (Nardi
os quatro componentes originais (solo, cal, cinza, e água), obtém-se o modelo matemático, et al, 2004d).
como apresentado na Equação 3. Representa a resistência à compressão simples esperada Neste exemplo, a superfície de resposta na forma espacial é caracteriza-
(σ*) em função das percentagens dos componentes V(solo), X(cal), Y(cinza) e Z(água). da por um valor de resistência à compressão máxima estimada (σ*max),
podendo-se determinar as percentagens dos componentes que geram
(3) σ* = 54,864V - 190,213X + 1360,429Y - 18,631Z + 0,314VX - 19,874VY - esse valor, ou melhor: as percentagens dos componentes que otimizam a
2,338VZ - 2,806XY - 0,136XZ mistura. A otimização corresponde à determinação das percentagens que
produzam o valor máximo da resistência na Equação 4, correspondendo a
Importante observar que a propriedade física do produto final, originada nas misturas a se- 1a derivada parcial da referida equação. Logo: os valores que otimizam os
rem estudadas, poderá ser qualquer uma que se tenha interesse em dissecar e utilizar. O trata- componentes são dados por 24,87% de cal hidratada, 49,54% de cinza vo-
mento de equação fora do ambiente tridimensional é um tanto complexo, pois não é possível lante e 25,59% de água na compactação (valores dados em componentes
representá-la na forma gráfica por conter mais de três dimensões. Então quando o número de originais). Tais percentagens, substituídas na Equação 4, predizem o va-
componentes for igual ou maior que quatro, sempre é possível representar, graficamente, a inte- lor da resistência à compressão máxima (σ*max) estimada em 4,11 MPa,
ração dos efeitos entre três componentes nas misturas. Logo, para representar separadamente aproximadamente. Fazendo-se a reversão dos valores das percentagens
a variação da resistência à compressão esperada (σ*) em função da variação das percentagens das coordenadas originais para os valores das percentagens reais, tem-
de quatro componentes, pode-se adaptar quatro novas equações nas dimensões VXY, VXZ, VYZ -se: 6,53% para a cal hidratada, 13,00% para a cinza volante e 80,47% para
e XYZ. Exemplifica-se neste trabalho somente o modelo quadrático nas dimensões XYZ (cal, o solo A-3, definindo a composição que otimiza a referida mistura (com-
cinza e água), que corresponde à interação entre os componentes que reagem, quimicamente, ponentes sólidas). A percentagem de água na compactação será 6,72%,
entre si e usados para solidarizar os grãos inertes da areia. Nessa combinação também está aproximadamente.
inserida a cal, o componente que pesará financeiramente na definição da mistura.
Novamente, utilizando-se dos resultados obtidos nos estudos laboratoriais como dados de
334 JACQUES DE MEDINA Metodologia alternativa para projetos de pavimentos na área de estabilização de solos 335

4.3 Discussão geral 5 CONCLUSÃO

Normalmente os trabalhos de estabilização de solos são desenvolvidos Num mesmo estudo laboratorial, na comparação entre as Metodologias
segundo a metodologia tradicional, a qual requer a confecção de elevado Tradicional e Alternativa obtiveram-se, aproximadamente, os mesmos re-
número de corpos-de-prova. Neste caso 135 corpos de prova, triplicata sultados na determinação das percentagens dos componentes da mistu-
de 45 pontos distribuídos em 9 curvas de compactação. Na Metodologia ra e seus valores para a propriedade mecânica estudada, ou seja, a deter-
Alternativa bastaram 18 pontos (54 corpos de prova), obtendo-se dessa minação da resistência à compressão simples máxima do novo produto
forma um amplo leque de informações na visualização dos gráficos trian- formado. Tal fato é considerado positivo para a Metodologia Alternativa,
gular e espacial, possibilidade essa não concretizada na Metodologia Tra- possibilitando dessa forma a sua utilização como “Metodologia Alternati-
dicional, o que muito deixa a desejar. va para Projetos de Pavimentos na Área de Estabilização de Solos”.
Na Tabela 4 são mostrados os resultados que maximizam a mistura Confirma o modelo matemático adaptado ao projeto que todos os resul-
segundo as Metodologias Tradicional e Alternativa. tados obtidos pela Metodologia Tradicional fazem parte, de uma pequena
área, da superfície de resposta do modelo estudado. Conclui-se ser a Me-
Tabela 4 Comparação entre os resultados obtidos nas Metodologias Tradicional e Alternativa.
todologia Tradicional um caso particular da Metodologia Alternativa.
Simultaneamente, a nova metodologia associa todos os componentes
Cal Cinza Solo Resistência Água
Metodologia da mistura, simulando matemática e graficamente as interações físicas
(%) (%) (%) (%) (%)
das propriedades mecânicas do novo material, em função da variação das
Tradicional 7,0 13,0 80,0 4,0 6,3
percentagens dos componentes participantes nas misturas. Esse fato nos
Alternativa 6,5 13,0 80,5 4,1 6,7 possibilita, após obtenção do modelo, planejar misturas que satisfaçam
propriedades mecânicas desejadas, independentes de estudos laborato-
riais, isto porque as componentes estão matematicamente correlaciona-
Como comprovado, as duas metodologias chegaram, aproximadamen- das entre si. O projeto então se resume, simplesmente, em resolução teó-
te, aos mesmos resultados dos valores das percentagens dos compo- rica de equações. Deverá a mistura escolhida, posteriormente, ser testada
nentes na mistura e aos mesmos valores dos resultados da resistência à em estudo laboratorial para confirmação.
compressão simples máxima. O fato deverá ser considerado significativo Conclui-se: a Metodologia Alternativa mostra-se mais eficiente que a
para o novo procedimento, levando a crer na possibilidade concreta de Metodologia Tradicional, somando-se as vantagens da utilização de sof-
sua utilização como “Metodologia Alternativa para Projetos de Pavimen- tware que permite, em função de dados laboratoriais, a obtenção de uma
tos na Área de Estabilização de Solos”. gama de modelos matemáticos, diferentes superfícies de respostas, me-
O novo procedimento possibilita dissecar, de forma cristalina, as pro- lhor definição da apresentação gráfica, número ilimitado de novas mistu-
priedades cimentantes da mistura, isto porque está baseado numa profun- ras, desenvolver simulações através das equações, efetuar estudos de
da interação entre os dados laboratoriais e o conhecimento de princípios minimização de custos, determinar propriedades mecânicas individuais
matemáticos aplicáveis ao problema em questão. Esse procedimento se e maximizar as mesmas, quando são variadas as proporções dos seus
faz através de conceitos teóricos atualizados e de software apropriados. componentes formadores, no desenvolvimento de novos materiais.
Possibilita efetuar previsões nas propriedades mecânicas dos materiais,
dadas em função de equações que permitem desenvolver simulações na
obtenção de respostas.

• Referências bibliográficas na página 405.


336 Reflexão sobre o dimensionamento de pavimentos rígidos no Brasil 337

Reflexão sobre o dimensionamento deformação unitária no terreno. Dado que este ensaio pode ser trabalhoso, o método admite
que o valor do módulo de reação seja determinado com um procedimento pouco mais simples,
de pavimentos rígidos no Brasil utilizando resultados numéricos para obter um valor estruturalmente equivalente. Como alter-
nativa ao ensaio de prova de carga estática, pode-se ainda utilizar o ensaio do Índice de Suporte
Ernesto Simões Preussler1 Califórnia, cuja precisão é satisfatória para fins de dimensionamento das placas de concreto.
O método de 1984 é uma revisão do método apresentado em 1966. Como principal diferença
Rodrigo Appel Preussler2
nota-se a introdução do já mencionado dano por erosão. Sua importância está no fato de que o
Felipe Camargo3
dano por erosão não pode ser previsto por modelos de fadiga. Outros pontos em que o método
Luiz Guilherme R. de Mello4 de 1984 difere do método de 1966 são (i) a possibilidade de se considerar o tipo e grau de trans-
ferência de carga pelas juntas transversais, (ii) a existência de acostamentos de concreto, (iii) a
contribuição estrutural das camadas de sub-base de concreto rolado ou tratadas com cimento,
(iv) a ação de eixos tandem triplos.
Além disto, o método da PCA também não contempla efeitos de gradientes térmicos, que
podem fazer com que as tensões dobrem em relação ao que se considera aplicando-se apenas
RESUMO No Brasil, atualmente, várias rodovias têm sido feitas com pavi- 1 Dynatest Engenharia
as cargas rodoviárias.
mento de concreto de cimento Portland, devido ao aumento excessivo do 2 Dynatest Engenharia O método apresenta também um discurso retórico sobre a questão do empenamento das
tráfego. Assim, a discussão sobre os critérios de dimensionamento deste 3 Dynatest Engenharia placas de concreto motivadas pela presença de gradientes térmicos nas mesmas, alegando
tipo de estrutura de pavimento é importante. Este trabalho apresenta uma 4 Departamento Nacional de que (pelo menos à época de construção do método) as informações disponíveis sobre medidas
reflexão e a análise crítica de alguns métodos de dimensionamento de Infraestrutura em Transportes (DNIT) de tensões resultantes de empenamento não seriam confiáveis para serem incorporadas no
pavimentos rígidos, como o do DNIT, que se baseia no método norte ame- critério apresentado (Balbo, 2003).
ricano da PCA (Portland Cement Association) de 1966 e o de 1984, e o Dentre outras limitações do método pode-se citar que não é possível considerar faixas mais
método da AASHTO. Mostram-se as diferenças entre eles e sugere-se um largas, diferentes espaçamentos de juntas, bem como não considera o efeito do valor k no topo
caminho a adotar nos projetos. da base. Este efeito está ligado a um aumento da resistência aparente da camada de sub-base
em função da espessura e tipo de material utilizado na camada de base (Roesler et al., 2000).
Alguns projetos consideram também o dimensionamento pelo método da AASHTO 1993,
1 CONSIDERAÇÕES GERAIS DOS MÉTODOS VIGENTES cujas premissas iniciais são os dados referentes ao tráfego previsto ao longo do horizonte de
projeto, expresso pelo Número “N” (número de operações equivalentes do eixo padrão rodoviá-
O dimensionamento de pavimentos de concreto no Brasil vem sendo reali- rio) e a condição de suporte do subleito, mas que também incorporam conceitos como serven-
zado, de maneira geral, em conformidade com a metodologia de cálculo e tia e desempenho, confiabilidade e desvio padrão, além da consideração do efeito do sistema
os conceitos apresentados no Estudo Técnico da ABCP ET-97 – Dimensio- de drenagem e da transferência de carga.
namento de Pavimentos Rodoviários e Urbanos de Concreto pelo Método De acordo com Balbo (2003), essa versão do método da AASHTO apresenta maior consis-
da PCA/1984 e no Manual de Pavimentos Rígidos do DNIT – Publicação tência técnica ao levar em consideração seu modelo empírico anterior e modelos mecanicistas
IPR-714, de 2005. para cálculo de tensões em estruturas de pavimentos de concreto, muito embora o método
O método PCA/84 da Portland Cement Association é um método empíri- ainda se disponha da conversão de todos os eixos previstos para o horizonte de projeto em
co mecanístico voltado para pavimentos de concreto simples com juntas eixos equivalentes de 80 kN (que reflete desempenho funcional durante a AASHO Road Test). O
simples, com juntas e barras de transferência, bem como em pavimentos autor ainda destaca que em função da necessidade ainda de previsão de gradientes térmicos
de concreto continuamente armado, onde a armadura não apresenta fun- em placas de concreto, o referido método emprega os modelos para estimativa desses valores
ção estrutural. em função de parâmetros relacionados ao clima local, porém calibrados para região temperada,
O método verifica, simultaneamente, o consumo de fadiga das placas o que exige a utilização de modelos compatíveis com o clima tropical que contemplem gradien-
de concreto a partir da Lei de Miner, bem como a erosão do sistema de tes térmicos positivos e os efeitos para faixas de variação de temperatura típicos deste clima.
apoio por formação de escalonamentos entre as placas de concreto. A Embora este tipo de abordagem inclua considerações, parâmetros e modelos não considera-
partir de um processo iterativo, procura-se uma espessura que resulte em dos diretamente no dimensionamento pelo Método da PCA, o emprego do método da AASHTO
consumo por fadiga e dano por erosões inferiores a 100%. não tem sido adotado na maior parte dos projetos de pavimentos de concreto no país.
Para o dimensionamento, é utilizado o módulo de reação, que represen- Em simpósio realizado em 2003 na Escola Politécnica da USP, Balbo apresentou descrição
ta as características de resistência das fundações do pavimento. Tal ter- sucinta dos fundamentos dos métodos de dimensionamento de espessuras de placas para
mo, assim como era chamado por Westergaard, é determinado por uma PALAVRAS-CHAVE cimento, pavimentos de concreto com detalhamento dos seus conceitos implícitos e as consequentes
prova de carga estática, medindo a pressão necessária para produzir uma dimensionamento, pavimento limitações, sintetizadas a seguir:
338 JACQUES DE MEDINA Reflexão sobre o dimensionamento de pavimentos rígidos no Brasil 339

• Dimensões das placas de concreto: em função do empirismo do método da PCA e da mode- Figura 1 Em se tratando desse relato, o Método de Monte Carlo será utilizado
lagem numérica usado no método da AASHTO os mesmos restringem-se a placas de dimen- para simular sistemas afetados por aleatoriedade, ou seja, aplica-se um
sões entre 4 e 6 m de comprimento; tratamento estocástico às variáveis que são originalmente consideradas
• Módulo de deformação do concreto: o método da PCA fixou o valor em 28.000 MPa embora determinísticas e, a partir de simulações, avalia-se a resposta do sistema,
os concretos atualmente estejam atingindo valores mais elevados; sendo que este aumento no caso, o método de dimensionamento, para uma variação de parâme-
de rigidez pode implicar em incremento nas tensões no concreto; tros de entrada segundo uma dada distribuição. Informações como CBR
• Módulo de reação do subleito: este parâmetro varia sensivelmente se medido no centro ou no e espessuras das camadas são considerados dados determinísticos,
bordo de uma placa; cujos valores podem apresentar variações in situ intrínsecas dos proces-
• Bases cimentadas aderidas ou não aderidas: essa abordagem é considerada somente no sos construtivos ou por distintas características geotécnicas. Desta for-
método da PCA, sem maiores esclarecimentos com relação a origem dos ábacos utilizados; ma, é necessário especificar um parâmetro de média e um parâmetro de
• Danos nas bases cimentadas e as respectivas consequências: os métodos não verificam a variação para cada uma das variáveis consideradas na análise. A figura
possibilidade de fadiga da camada de base cimentada, o que poderia prejudicar o desempe- a seguir ilustra a simulação de um sistema ou método de dimensiona-
nho do pavimento como um todo em algumas situações; mento de pavimentos a partir da técnica de Monte Carlo. As variáveis
• Modelos de fadiga para concreto: questiona-se se os modelos de fadiga dos métodos obti- de entrada podem ser estabelecidas como CBR do subleito, resiliência
dos nos Estados Unidos há mais de 50 anos por não refletirem a realidade dos materiais que das camadas, ou solicitação de tráfego. Esta última descrita a partir do
efetivamente são utilizados atualmente; número de repetições de um eixo padrão, por exemplo. (Figura 1)
• Gradientes térmicos em placas de concreto: esta importante variável na indução de tensões O diagrama a seguir demonstra a diferença entre o tratamento de uma
nas placas de concreto não é contemplada no método da PCA, sendo considerada no mé- variável determinística e uma variável estocástica.
todo da AASHTO, para a condição de clima temperado, através do modelo experimental de
desempenho; para melhor avaliar as tensões o uso de técnicas numéricas como o Método Variável Determinística Variável Estocástica
• Valor numérico • Distribuição estatística
dos Elementos Finitos, permite análises mais complexas, com diferentes geometrias, consi-
• Parâmetros da distribuição
deração de diferentes cargas, bem como o uso de efeitos de gradientes térmicos na análise (ex: média, desvio padrão, coeficiente de variação)
de tensões (Roesler et al., 2000).

Experiências anteriores com a aplicação do Método de Monte Carlo no


2 Aplicação do Método de Monte Carlo para anteprojetos dimensionamento de pavimentos revelaram a importância de se conside-
rar à variabilidade de dados de entrada e saída dos métodos de dimensio-
A importância da análise estatística em pavimentos está ligada a variações de parâmetros namento, como aponta, por exemplo, Santos (2011). Nota-se que, não só
das estruturas, inerentes ao processo construtivo. A título de exemplo, considerando-se uma a preocupação com a variabilidade dos dados de entrada não é recente,
análise puramente elástica linear, a variação de parâmetros como módulo de resiliência de podendo-se citar trabalhos mais antigos. Suzuki et al. (2001) e Suzuki et
cada camada e espessura podem gerar estruturas de pavimento com respectivos ciclos de vida al. (2004) já apontam para a importância de uma abordagem não deter-
significativamente distintos. Além disso, outras variáveis são tratadas de forma estocástica na minística nos métodos de dimensionamento de pavimentos, dada a va-
literatura, como exemplo, a abordagem de Reigle e Zaniewski (2002), que considera também riabilidade dos parâmetros de entrada e saída. Também nota-se a partir
aspectos de variação da textura superficial de pavimentos e seu efeito nos acidentes gerados, dos mesmos trabalhos, a deficiência de alguns métodos determinísticos
dando assim um viés estatístico aos custos relativos aos usuários. Os autores mencionados em proporcionar níveis adequados de confiabilidade.
utilizam a técnica de simulação de Monte Carlo para obter as respostas esperadas com o tra- Outras experiências relevantes com o uso do Método de Monte Carlo
tamento estocástico mencionado, mostrando que a variação probabilística afeta diretamente o para o dimensionamento de pavimentos podem ser encontradas. Danny
ciclo de vida de estruturas de pavimento. (2012) utilizou esta mesma técnica de simulação para avaliar a confia-
O Método de Monte Carlo é uma técnica de análise que permite solucionar muitas questões bilidade do método MEPDG, resultando não só em modelos específicos
associadas a “probabilidade” através de uma metodologia de amostragem. Este método pode de confiabilidade para os locais estudados e calibrados, como também
ser descrito, de forma matemática, como um método numérico de integração ou de quadratura, a verificação de que o método é adequado para fazer avaliações de
(DUNN, SHULTIS, 2012), o qual está embasado no teorema do limite central. Com um número confiabilidade com o método MEPDG. Dilip e Babu (2013) utilizaram o
suficientemente elevado de simulações, o método pode avaliar características como média e mesmo método acoplado desta vez às cadeias de Markov para avaliar
desvio padrão de variáveis estocásticas. As estimativas obtidas pela técnica de Monte Carlo probabilidade e sensibilidade das variáveis em projetos de pavimentos.
podem ter seu erro reduzido a partir de um aumento do número de simulações utilizadas. Pelo Além de identificar os fatores que mais podem contribuir para a falha
próprio teorema do limite central, os valores devem convergir para médias e desvios padrões de pavimentos, o trabalho verificou novamente que as simulações de
das variáveis estudadas. Monte Carlo são adequadas para se avaliar estruturas de pavimentos.
340 JACQUES DE MEDINA Reflexão sobre o dimensionamento de pavimentos rígidos no Brasil 341

Seguindo uma abordagem similar, Tanquist (2001) utilizou o Método de Monte Carlo para
avaliar também aspectos como dano e fadiga em pavimentos asfálticos. A partir de uma me-
todologia simplificada, o autor pode avaliar efeitos da variação de parâmetros de entrada no
método de dimensionamento e seus respectivos coeficientes de variação.

3 Aplicação da técnica de Monte Carlo em anteprojeto


de pavimento rígido da BR-101/ PE

A verificação da vida útil do pavimento foi realizada novamente com a técnica de simulações
de Monte Carlo. O método de dimensionamento utilizado foi o proposto pela PCA 84, sendo se-
lecionadas as variáveis que receberam o tratamento estocástico: CBR do subleito (capacidade
de suporte), a espessura de placa e a resistência do concreto. Estas variáveis foram escolhidas
por serem as variáveis que afetam a o cálculo de resistência a fadiga e dano por erosão no
método da PCA. A placa com 28 cm de espessura tem uma probabilidade de resistir ao tráfego de projeto de
A capacidade de suporte do subleito, o CBR, foi modelado a partir de uma distribuição normal 88,0% quando submetida ao tráfego do horizonte de projeto de vinte anos. A seguir são apre-
com média 10%, correspondente ao valor encontrado em projeto, de tal forma que 95% dos sentados os dados para o caso de uma placa de 29 cm submetida ao tráfego do horizonte de
cenários simulados têm CBR entre 8% e 12%. A resistência do concreto foi modelada com uma projeto de vinte anos.
distribuição normal tendo média 4,5 MPa e 95% dos casos simulados compreendidos entre
3,82MPa e 5,18MPa.
A espessura da placa de concreto foi também modelada com uma distribuição normal, sendo
simuladas placas de 27, 28 e 29 cm de espessura – antes da aplicação do ábaco que permite
sua otimização em função da utilização de camada de CCR como sub-base, conforme utilizado
no projeto original, cujo emprego resultaria nas seguintes estruturas finais:

Horizonte de Projeto Espessura de Placa Estrutura Combinada

20 27 cm de PCC 10 cm de CCR + 22 cm de PCC

30 28 cm de PCC 10 cm de CCR + 23 cm de PCC

40 29 cm de PCC 10 cm de CCR + 24 cm de PCC

O tráfego foi considerado como determinístico. Dessa forma, o método tem como saída para
cada espessura analisada, o consumo de fadiga que é acumulado seguindo a lei de Miner, sendo
que o projeto é considerado adequado quando resulta em um consumo de fadiga inferior a 100%.
Cada cenário analisado resultou em um dado consumo de fadiga. Neste relatório, são então Para a placa de 29 cm de espessura a probabilidade de se obter um consumo de fadiga de no
apresentados histogramas mostrando a distribuição de consumo de fadiga para os vários ce- máximo 100% é de 97,3% quando submetida ao tráfego do horizonte de projeto de vinte anos.
nários e as respectivas probabilidades de ocorrência. Assim, os resultados para a análise do efeito do incremento da espessura de placa na con-
A seguir é apresentado o histograma de consumo de vida de fadiga para o caso de uma placa fiabilidade do pavimento de concreto no horizonte de 20 anos, expressa pelo risco de ruptura
de espessura de 27 cm submetida ao tráfego do horizonte de projeto de vinte anos. neste horizonte, são resumidos a seguir.
No caso de uma placa com 27 cm de espessura, observa-se uma probabilidade 68% de resis-
tir ao tráfego de projeto, com um consumo de fadiga igual ou inferior a 100%, correspondente Espessura de Placa Probabilidade de Ruptura em 20 anos
ao horizonte de projeto de vinte anos. A seguir apresenta-se o caso de uma placa de 28 cm
27 cm de PCC 32,0%
submetida ao tráfego do horizonte de projeto de vinte anos.
28 cm de PCC 12,0%

29 cm de PCC 2,7%
342 JACQUES DE MEDINA Reflexão sobre o dimensionamento de pavimentos rígidos no Brasil 343

4 Conclusões e recomendações

Os principais resultados observados nesta pesquisa foram:

O dimensionamento dos pavimentos rígidos de forma determinística


pode resultar em estruturas com probabilidades de falha significativas,
ou seja, de 11 a 33%%; esta análise se refere exclusivamente aos riscos
de ruptura em função dos modelos de fadiga empregados, e não pre-
veem a ação combinada de fissuramentos em suas diversas fases e a
infiltração de água, possíveis ocorrências de bombeamento de finos da
base e afundamentos de trilha de roda quando o pavimento é solicitado
pelas cargas em trânsito, bem como os efeitos do intemperismo.

Portanto, os resultados observados permitem recomendar a utilização


de um fator de segurança no dimensionamento do pavimento rígido de
forma a levar em consideração as possíveis variações executivas, tais
como espessura e características mecânicas dos materiais, bem como
variações na capacidade de suporte da fundação.
Sugere-se, preliminarmente, dobrar o horizonte de projeto nos empreen-
dimentos de maior relevância e, no mínimo, incrementar em 50% o hori-
zonte de dimensionamento nos demais empreendimentos, de forma a se
melhorar a confiabilidade da vida útil dos pavimentos.
Ressalta-se que a prática de adotar fatores de confiabilidade no dimen-
sionamento dos pavimentos já é corriqueira em métodos de dimensiona-
mento utilizados em outros países, como no Método da AASHTO.

Também foram analisadas as novas estruturas dentro de seus horizontes de projeto: 30 anos
e 40 anos, sendo os consumos obtidos de 74,22% e 88,44% respectivamente, como demonstra-
do nos gráficos a seguir.
Para se avaliar as diferentes estruturas e os diferentes efeitos de tráfego, são apresentadas
probabilidades de a estrutura resistir às diferentes solicitações na tabela abaixo.

Horizonte de projeto (anos) Espessura (cm) Pruptura a 20 anos Pruptura ao horizonte de projeto

20 27 32,0% 32,0%

30 28 12,0% 25,8%

40 29 2,7% 11,6%

Pode-se perceber que o acréscimo de um centímetro na placa de concreto inicial de 27 cm


resulta em um ganho de 20% na confiabilidade da estrutura para o período de 20 anos. Ao
aumentar novamente a espessura da placa em mais um centímetro, nota-se que o ganho de
confiabilidade é menor (9,3%). • Referências bibliográficas na página 405.
344 Transparency and good governance as success factors in public private partnerships 345

Transparency and good governance as success drive up costs, under-deliver services, harm the public interest, and introduce new opportunities
for fraud, collusion, and corruption.
factors in public private partnerships On the premise that good governance can lead to more successful PPP projects, this paper
reviews some key requirements for good governance in such projects. Because PPPs in infras-
Cesar Queiroz tructure tend to have monopolistic features, good governance in managing them is essential to
ensure that the private sector’s involvement yields the maximum benefit for the society.
Key requirements for good governance in PPP projects include (Queiroz and Izaguirre 2008):
(i) competitively selecting the strategic private investor, (ii) properly disclosing relevant infor-
mation to the public, and (iii) having a regulatory entity appropriately oversee the contractual
agreements over the life of the concession. Additionally, an appropriate legal framework helps
reduce the need for public sector guarantees, thus facilitating the transfer of risks to the private
RESUMO Many governments do not have all the financial resources re- Senior Advisor, Claret Consulting
sector, which is a key feature of PPPs (Queiroz and Lopez-Martinez 2013).
quired to expand, maintain, and operate their country’s transport networks
and other forms of infrastructure. Because of such limited resources and
a search for more investment efficiency, in several countries the private 2 COMPETITIVE SELECTION OF CONCESSIONAIRES
sector has been involved in financing infrastructure through concessions
under a public-private partnership (PPP) program. On the premise that Open and transparent competitive bidding is usually perceived as a prerequisite to ensuring the
good governance can lead to more successful PPP projects, this paper efficient allocation and use of scarce public resources. The World Bank Procurement Guideli-
reviews some key requirements for good governance in such projects. Be- nes recommend the use of international competitive bidding (ICB) to select the concessionaire
cause PPPs in infrastructure tend to have monopolistic features, good go- or entrepreneur under BOO (Build, Own, Operate), BOT (Build, Operate, Transfer), BOOT (Build,
vernance in managing them is essential to ensure that the private sector’s Own, Operate, Transfer) or similar type of concessions for projects such as toll roads, tunnels,
involvement yields the maximum benefit for the society. harbors, bridges (World Bank 2011). The Guidelines state that the ICB procedures may include
several stages in order to arrive at the optimal combination of evaluation criteria, such as the
cost and magnitude of the financing offered, the performance specifications of the facilities
1 INTRODUCTION offered, the cost charged to the user, other income generated by the facility, and the period of the
facility’s depreciation. Competition can help to reduce prices and expand access, and should be
Many governments do not have all the financial resources required to ex- used to the maximum extent possible (Harris 2003). In order to facilitate bid evaluation, it is hi-
pand, maintain, and operate their country’s transport networks and other ghly recommended that a simple criterion be applied to compare the price proposals. Examples
forms of infrastructure. Because of such limited resources and a search of such criterion include minimum toll rate to be charged to the users, minimum annuities to be
for more investment efficiency, in a number of countries the private sector paid by the government to the concessionaire, or maximum present value of the payments to be
has been involved in financing infrastructure through concessions under a made by the concessionaire to the government during the concession life.
public-private partnership (PPP) program. The European Union encourages the use of the ‘competitive dialogue procedure’ for major
Public-private partnerships are long-term associations between the pu- projects (Freshfields Bruckhaus Deringer, 2005). Such competitive dialogue is somewhat similar
blic and private sectors that usually involve the private sector undertaking to the World Bank ICB procedure that involves two stages (World Bank, 2011).
investment projects that traditionally have been executed (or at least fi- Steps in the selection process are likely to include (Queiroz and Lopez-Martinez, 2013):
nanced) and owned by the public sector. The central feature of a PPP is
that the public sector purchases (directly or through user charges) a flow a Advertising – A notice requesting expressions of interest to prequalify should be published
of services rather than building or procuring the physical assets and em- in at least one international newspaper and one of national circulation and should include the
ploying the personnel for its maintenance and operation. scheduled date for availability of prequalification documents.
The archetypical PPP is a Build-Operate-Transfer (BOT) project, where a
private sector company or consortium (the ’concessionaire’) builds, opera- b Investor Feedback – Meeting with selected potential investors/concessionaires to solicit fe-
tes, and transfer the asset back to the public sector at the end of the con- edback on the options being analyzed as well as on the key parameters and assumptions
cession life. The concessionaire sells the final service to the public sector underpinning the conclusions of financial feasibility.
or to the public (i.e., the users) under a government concession.
The impact of PPP projects has been mixed. As stated by McCarthy KEY WORDS PPP projects, c Public Information – Implement an appropriate program to disseminate information to the
(2013), at their best, PPPs can provide rapid injections of cash from pri- transport network, BOT public on the financing and construction of the proposed facility (or project).
vate financiers, delivery of quality services, and overall cost-effectiveness Build-Operate-Transfer
the public sector can’t achieve on its own. But at their worst, PPPs can also
346 JACQUES DE MEDINA Transparency and good governance as success factors in public private partnerships 347

d Prequalification of Concessionaires – Develop operational and financial criteria to be used second phase, around 2008, the selection was carried out by the Sao Pau-
in judging the suitability of prospective bidders, and conduct a transparent pre-qualification lo Stock Exchange (BOVESPA) through an auction (Amorelli, 2009). The
process. Pre-qualification ensures that invitations to bid are extended only to those who process consisted of the following main steps:
have adequate capabilities and resources. Prequalification shall be based entirely upon the
capability and resources of prospective bidders to perform the particular concession con- a Public consultation on the draft bidding documents.
tract satisfactorily, taking into account their (i) experience and past performance on similar b Preparation of the final bidding documents.
contracts, (ii) capabilities with respect to personnel, equipment, and construction, and (iii) c Adopting as the selection criterion the lowest toll rate (as in the first
financial position. All bidders that pass this stage are by definition qualified and should be concession phase).
considered for the next phase. d BOVESPA held a simultaneous auction for seven road concessions, wi-
Figure 1 Toll booth, Rio de Janeiro to Juiz de thout prequalification, defining the bidder offering the lowest toll rate for
e Inviting pre-qualified firms/consortiums to submit bids – Define the procedures for the pre- Fora expressway, Brazil. Good governance each project road, including foreign firms.
helps assure that the minimum possible toll
-qualified bidders to carry out their own due diligence of the proposed project. In addition, a e The bid evaluation committee reviewed compliance of the technical
rates are charged to road users.
Data Room prepared by the Client should be made available to potential investors, to enable Source: Queiroz and Kerali, 2010 offer and bid guarantee of the best-ranked candidate for each project,
them to fully assess the investment opportunity. while other technical offers were not opened.
f Award of each concession contract to the respective lowest bidder, wi-
f Bidders’ review and comments – In order to minimize opportunities for post-bid negotiations thout negotiations.
on substantive issues with the winning bidder, major transaction documents (such as con-
cession contract, shareholders agreement) should be circulated to the bidders for review and Compared to the first phase of road concessions, the innovative appro-
comments before bids are submitted. The clear understanding to bidders should be that the ach used in the second phase showed considerable advantages, by (i) re-
period designated for review and providing comments will be their only opportunity to influen- ducing the time between invitation to bid and contract signing, and (ii)
ce the terms of the bidding process. leading to substantially lower toll rates, with an average of about US$0.02/
car-km, compared to about US$0.04/car-km in the first phase. Additionally,
g Competitive Bidding Process – Once the structure of the transaction has been approved, organi- the sequencing of bidding steps (financial offer first, technical second)
ze a competitive bidding process to award the concession contract to a strategic investor. Steps limited the impact of judicial recourses – a critical factor in traditional ten-
in the bidding process include preparation of the tender documents, administering the offering dering processes in Brazil (Véron and Cellier, 2010). A toll booth showing
period for bidders due diligence, and preparing the bid procedures and selection criteria. toll rates for a concession bid under the first phase is given in Figure 1.
While this innovative approach worked well for these relatively simple
h Bid Evaluation – Evaluate the bids received based on the agreed, transparent selection crite- projects, it is likely that the traditional approach, including prequalification,
ria, and recommend award to the best evaluated bidder. As an example, in the case of road will be the most appropriate for more complex projects.
projects, typically the final selection criterion is based on: (i) the minimum toll rate proposed Nevertheless, the above example illustrates that even in a country with
by the bidders; or (ii) the minimum public contribution, or subsidies, to the construction cost a well established legal framework it is important to keep some flexibility
of the project, which is required by the bidders; or (iii) the minimum availability fee or annuity for applying innovative solutions to specific problems (such as collusion
proposed by the bidders. of potential concessionaires).

i Transaction Closure – The principal parties complete and execute the concession con-
tract, shareholders agreement and other documents necessary for the satisfactory clo- 3 UNSOLICITED PROPOSALS
sing of the transaction.
Unsolicited proposals, which seem attractive to some governments in
j Public disclosure of the concession agreement – By providing a further check on corruption, their wish to accelerate the implementation of infrastructure projects in
this can enhance the legitimacy of private sector involvement. the country, tend to be so controversial (usually involving allegations of
corruption), that in fact they usually take longer to award than an open,
The selection process described above follows general international good practice. However, competitive tender procedure. In theory, unsolicited proposals could gene-
in cases where competition is perceived to be relatively limited and the country environment is rate beneficial ideas; in practice, there have been a number of unfavorable
prone to collusion of prospective bidders, some innovative approach in the procurement pro- experiences, mostly as a result of exclusive negotiations behind closed
cess may lead to better results. A good example is provided in the selection of concessionaires doors. There have been cases where a contract signed between a govern-
under the second phase of the Brazilian federal road concession program. The first phase, in ment and a private company included a clause that prohibits any leakage
the 1990s, had followed a more traditional approach, which led to relatively high toll rates. In the of the signed contract.
348 JACQUES DE MEDINA Transparency and good governance as success factors in public private partnerships 349

Several countries have adopted specific legislation to deal with such proposals, while some the PPP project are made more understandable and accessible to governments, private parties,
governments have simply forbidden unsolicited proposals to reduce public sector corruption and consumers (McCarthy, 2013).
and opportunistic behavior by private sector companies. The general experience with unsolici- Nevertheless, not all concession contracts are open to public scrutiny. Excuses range from a
ted proposals is often negative, reflecting the fact that projects of this type have usually repre- claimed need for confidentiality to the cost of photocopying (The Economist, 2007).
sented poor value for money, and were frequently incompatible with the actual development In one country in Central and Eastern Europe, the main text of a concession agreement was
needs of the countries, and their ability to pay. They also often lead to allegations of corruption. published but key annexes including financial and technical obligations of the concessionaire
Corruption has been shown to be associated with the lack of adequate transport infrastructure were not open to the public. In a Latin American country, the full final draft of the concession
in a country, as well as a low degree of economic development (Queiroz and Visser, 2001). It agreements are published, but the signed version is kept confidential. As a result, potential
is essential to eliminate or minimize the perception, as well as the reality, of corruption in PPP last minute negotiations conducted behind closed doors between the successful bidder (i.e.,
programs so that such programs can best contribute to a country’s economic development. the concessionaire) and the agency responsible for the project, if inserted in the contract, are
Some governments have adopted procedures to transform unsolicited proposals for private not made available to the public or to the other contenders in the competitive bidding process
infrastructure projects into competitively tendered projects. Such countries include Chile, the (Queiroz, 2009). Full disclosure, in every case, increases accountability of both the concessio-
Republic of Korea, the Philippines, and South Africa (Hodges, 2003a and 2003b). How to res- naire and the regulator.
pond to unsolicited bids so as to protect transparency in the procurement process and recogni- Based on a review and an assessment of practices conducted by the World Bank Institute
ze the initiative of the proponent, is typically difficult. The World Bank considers that unsolicited (2013), some key elements of proactive disclosure should be:
proposals should be dealt with extreme caution and does not permit the use of unsolicited
proposals in World Bank-funded projects. • The disclosure of the current PPP contract (identifying any changes made since the contract
A number of approaches on managing unsolicited proposals are available on the World Bank was originally signed) and relevant side agreements including government guarantees, with
PPP in Infrastructure Resource Center for Contracts, Laws and Regulation (World Bank, 2013). minimal redactions which reflect commercially confidential information
Such approaches include: • The disclosure of future stream of payments and government commitments under PPP contracts
• The publication of a summary which provides in plain language the most important elements
a UNCITRAL Approach. UNCITRAL sets out suggested legislative language in provisions 20 to of the contract and project and key information on the rationalization of the project, selection
23 of its Model Legislative Provisions (UNTRICAL 2004). Whenever a host authority receives as a PPP, and procurement
an unsolicited bid, UNCITRAL recommends that the authority first consider whether the pro- • Information on a regular basis on the performance of the project
posal is potentially in the public interest. If so, the authority then requests further information • A process by which information is authenticated/validated
from the proponent in order to make a full evaluation. If the authority decides to go ahead
with the project, it determines whether the project involves intellectual property, trade secrets
or other exclusive rights of the proponent. For projects that do not involve these rights, a full 5 LONG TERM MONITORING OF CONCESSION AGREEMENTS
selection procedure is followed, with the proponent being invited to take part in the selection.
If it does involve the proponent’s intellectual property, a full selection procedure does not More than two centuries ago Adam Smith (1776) wrote that “a high road, though entirely neglected,
need to be followed. In this case, the contracting authority may request the submission of does not become altogether impassable. The proprietors of the tolls upon a high road, therefore,
other proposals, subject to any incentive or other benefit that may be given to the person who might neglect altogether the repair of the road, and yet continue to levy very nearly the same tolls.”
submitted the unsolicited proposal. To avoid such situations, which might occur even today, many countries have established
regulatory agencies that monitor the performance of infrastructure facilities under concession.
b Chilean law approach. Chile has adopted an approach whereby the project proponent is requi- For example in 2001 Brazil established the National Agency for Land Transport, which, inter alia,
red to take part in a fully competitive tender process, but is given bonus points in relation to monitors federal road concessions (Brazil, 2001).
the evaluation (Chile, 1997). Roads and other infrastructure concession contracts typically include required standards for
construction, operation, maintenance, and toll (or fee) collection. For monitoring the quality of
In view of the risks involved with unsolicited proposals, it seems essential that the legal fra- the facility during the life of the concession, several indicators of condition are usual. In the case
mework in each country include a clear provision to deal with this type of offers. of roads, such indicators include roughness, skid resistance, luminescence of pavement markin-
gs, and the presence and condition of signs, lighting, and other safety features.
Monitoring indicators that fall outside the boundaries of acceptability may lead to penalties
4 DISCLOSURE OF CONCESSION AGREEMENTS for the concessionaire. Enforcing such standards helps the government and the users to reap
maximum benefits of PPP projects.
Full disclosure of concession agreements, an indication of good governance, helps ensure that Sensible negotiation of disputes that may occur during the life of a PPP project should as-
the users know what to expect from the facility under concession, thus increasing transparency sure the continuation of services and prevent the collapse of projects and consequent public
in the role of the regulator. Inherent PPP risks can be reduced if the terms, costs, and benefits of waste (UNECE, 2008).
350 JACQUES DE MEDINA 351

6 SUMMARY AND CONCLUSION Previsão de deformações plásticas


This paper presented a review of some key requirements for good governance in PPP projects. em pavimentos asfálticos
Because such projects in infrastructure tend to have monopolistic features, transparency and
good governance in managing them is essential to ensure that the private sector’s involvement Régis Martins Rodrigues
yields the maximum benefit for the public. Good governance in this case requires, inter alia:
(i) competitively selecting the strategic private investor, including the treatment of unsolicited
proposals; (ii) properly disclosing relevant information to the public; and (iii) having a regulatory
entity oversee the contractual agreements over the life of the concession.
It seems fair to conclude that governments willing to implement successful public-private
partnership programs should consider properly implementing the three key factors discussed
in the paper.
Instituto Tecnológico de Aeronáutica RESUMO Apresenta-se um modelo para a previsão dos afundamentos
São José dos Campos, SP, Brasil
em trilha de roda em pavimentos asfálticos, fundamentado em uma in-
terpretação mecanística da fórmula empírica do USACE e na calibração
experimental por meio dos modelos do HDM. Seu grau de generalidade
permite sua aplicação inclusive para o cálculo do PCN de pavimentos ae-
roportuários.

1 INTRODUÇÃO

Um aspecto de primeira ordem, desde sempre reconhecido como funda-


mental para que um pavimento asfáltico tenha desempenho adequado, é
a sua capacidade de resistir às deformações plásticas oriundas da ação
repetida das cargas do tráfego. Seu acúmulo excessivo gera afundamen-
tos nas trilhas de rodas nos pavimentos rodoviários e ondulações nas pis-
tas de pouso e decolagem dos aeroportos, afetando a condição funcional
em termos de segurança (risco de hidroplanagem) e conforto ao rolamen-
to (crescimento da irregularidade longitudinal).
Visando a obtenção de um modelo de previsão suficientemente confiá-
vel, resultados empíricos são aqui utilizados na estruturação de um mo-
PALAVRAS-CHAVE pavimentos delo com bases mecanísticas, de modo que a interação tráfego-estrutura
asfálticos, deformações plásticas, esteja adequadamente considerada ao ponto de o modelo ser aplicável
método ACN-PCN tanto a rodovias como a aeroportos.

• Referências bibliográficas na página 405.


352 JACQUES DE MEDINA Previsão de deformações plásticas em pavimentos asfálticos 353

2 ESTRUTURAÇÃO DO MODELO Figura 2 Seção de pavimento avaliada pela 2.2 Ensaios da C.D.H.
California Division of Highways em 1941.

2.1 Modelo USACE O real significado do modelo USACE em termos da condição do pavi-
mento ao final do período de projeto não é, contudo, muito claro. Em
A fórmula empírica de dimensionamento original do USACE é dada por: 1942, O.J. Porter relatou um teste, realizado em uma pista de pouso em
Sacramento na Califórnia, onde um pavimento, com as características
1 mostradas na Figura 2, foi submetido a cargas repetidas até uma condi-
ção considerada terminal.
onde: As pressões de contato obtidas sob as cargas de roda variaram entre
t = espessura total de pavimento acima do solo de subleito (in); 60 e 70 psi. O tráfego cobriu uma largura entre 5 e 8 ft, a fim de simular re-
P = carga de roda simples aplicada (lb); lações passagem-cobertura típicas. O módulo de elasticidade do revesti-
p = pressão vertical de contato sob a carga P (psi); mento asfáltico será aqui fixado em E1 = 40.000 kgf/cm2, enquanto o mó-
CBR = do solo de subleito (modelo válido para CBR ≤ 12); dulo da base granular (E2) será obtido pela fórmula da Shell, ajustando-se
C = número acumulado de coberturas da carga P. o módulo de elasticidade do solo de subleito (E3) de modo a reproduzir
as deflexões que foram medidas sob as cargas de roda em movimento
A esta fórmula pode-se associar a seguinte interpretação mecanística (D0med na Tabela 3). Os valores de E3 foram ajustados de modo a se
(Figura 1): obter δ0 = D0med. As deflexões foram medidas sob a carga de roda em
movimento de 25.000 lbf, com pressão de contato p0 = 65 psi.
2 O modelo da Figura 1 levou às previsões indicadas por NPmodel para o
número de passagens de carga requerido para que o pavimento atinja a
condição terminal. Como indicado na coluna NPobs da Tabela 4, referente
onde RCS = 0,26 × CBR é a resistência à compressão simples drenada do ao tráfego real observado no experimento, é necessário se ajustar o mo-
solo, em kgf/cm2, e o número admissível de passagens de carga é NP = delo por um fator médio FC = 0,165.
2,5 × C, considerando-se uma relação passagem-cobertura igual a 2,5. Os Este ajuste de uma ordem de grandeza em NP previsto pelo modelo da
dados experimentais do USACE são explicados, portanto por uma relação Figura 1 se deve às seguintes observações feitas no experimento:
entre a tensão vertical máxima de compressão no topo do subleito (σv) e
a resistência do solo. a Sob 5772 passagens da carga de roda de 25.000 lbf, todas as áreas
onde HT ≤ 24 in trincaram e romperam, e aquelas com HT ≤ 32 in apre-
A Tabela 1 mostra os casos analisados e a Tabela 2 mostra os resul- sentaram afundamentos em trilha de roda de até ¾”. Uma espessura to-
tados correspondentes. Considerando apenas os valores médios de RT tal HT de 30 a 32 in seria necessária para que os pavimentos suportas-
= σv/RCS para cada nível de tráfego NP, resulta a relação mostrada na sem NP entre 104 e 2 × 104 repetições sem a ocorrência de trincamento
Figura 1. A tensão vertical máxima de compressão no topo do subleito foi significativo; e
calculada pela equação de Boussinesq, utilizando a espessura equivalen- b Sob a carga de roda de 40.000 lbf o pavimento tinha deflexão sob a roda
te de Odemark com o fator de correção de Nielsen (Ullidtz, 1987). em movimento D0med = 0,14 in com HT = 39 in. Esta seção suportou
8.000 repetições de carga até a condição terminal, definida por trinca-
Figura 1 Interpretação mecanística da eq.(1) mento severo e afundamentos em trilha de roda da ordem de 2 in.

O modelo final que faz a interpretação mecanística do método USACE-


-CBR é dado, portanto, pela expressão:

A eq.(3) está associada a uma condição terminal dada por um afunda-


mento em trilha de roda ATR = 25 mm (1”). Trata-se de uma condição
de deterioração bastante severa, razão pela qual mesmo sob RT = 100%
resulta ainda um valor significativo para NP (183 repetições de carga).
354 JACQUES DE MEDINA Previsão de deformações plásticas em pavimentos asfálticos 355

Tabela 1 Casos analisados na equação (1). Tabela 2 Resultados dos casos da Tabela 1. Este modelo é consistente com as observações de laboratório que
apontam para a inviabilidade de se ter solos submetidos a relações ten-
são-resistência significativamente maiores que 50%, em face da rápida
geração de deformações plásticas sob cargas repetidas resultante, uma
vez que sob RT > 50% ter-se-á NP < 4,4 × 103 operações.
A Figura 3 mostra as relações aqui obtidas a partir dos ensaios e que
foram utilizadas para a obtenção do módulo de elasticidade do solo de
subleito nos casos da Tabela 3 para os quais não estavam disponíveis as
leituras de deflexões do pavimento. Estes resultados estão consistentes
com a validade da relação E3 = 100 × CBR (kgf/cm2) para a condição onde
o solo de subleito é solicitado sob valores muito baixos de tensão vertical
σv, demonstrando comportamento não linear com o aumento de σv.

Figura 3 Análise do solo de subleito (Tabela 3).

Tabela 3 Casos dos ensaios da C.D.H. de 1941 Tabela 4 Análise dos casos da Tabela 3
2.3 Análise do Método do DNER

O Método do DNER se baseia na fórmula original do USACE. Isto signifi-


ca que o método deve ser contra a segurança em muitas situações. Este
aspecto é explorado na Tabela 5, onde uma série de seções de pavimen-
tos flexíveis foi gerada para efeito de análise sob o modelo mecanístico-
-empírico aqui desenvolvido. Os resultados mostram que a condição NP <
NPmodel, onde o tráfego de projeto se torna inferior ao que é previsto pelo
356 JACQUES DE MEDINA Previsão de deformações plásticas em pavimentos asfálticos 357

modelo da eq. (3), é obtida quase sempre. O método estará contra a segurança, portanto, exceto Foi adotada a seguinte forma funcional para a relação entre os afunda-
naquelas situações de projeto onde o CBR do solo de subleito for muito baixo. A má condição mentos em trilhas de rodas e o número acumulado de repetições equiva-
característica dos pavimentos rodoviários no país não se deve, portanto, apenas à sua manu- lentes do eixo-padrão rodoviário de 8,2 tf (fatores de carga da AASHTO):
tenção deficiente, principiando por uma falha de origem, desde a construção. De fato, a práti-
ca da elaboração de projetos utilizando modelos para previsão de desempenho mecanístico- 4
-empíricos mostra que o Método do DNER é contra a segurança em termos de suas exigências
de espessura total de pavimento requerida para proteção do solo de subleito contra acúmulo A eq. (4) foi escrita para duas condições: ATR = 25 mm com N = NP
excessivo de deformações plásticas. da eq. (3) e ATR ao final da vida de serviço, conforme previsto pelo
modelo empírico do HDM. Os valores assim obtidos para β são mostra-
Tabela 5 Análise do método do DNER dos na Figura 4, onde é aparente sua forte dependência da relação de
tensões RT = σv/RCS. Obtendo-se β por meio daquela relação, o valor
de α será dado por:

sendo NP oriundo da eq.(3).

Figura 4 Calibração dos 143 casos pelo HDM

Ensaios triaxiais de cargas repetidas em laboratório mostram a valida-


3 CALIBRAÇÃO PELO HDM
de da relação:

A regressão do modelo HDM do Banco Mundial (Paterson, 1987) para previsão da evolução dos
6
afundamentos em trilhas de rodas em pavimentos asfálticos foi aqui aplicada a uma série de
condições para efeito de se obter um modelo mecanístico-empírico, a partir do modelo da eq.
para as deformações específicas permanentes em materiais granulares
(3), considerado como fornecendo o número acumulado de repetições de carga que é requerido
e solos. Esta relação será funcionalmente consistente com a eq. (4), se
para a geração de um afundamento dado por ATR = 25 mm. Para tanto, 143 casos foram gera-
for razoável escrever B = β. Valores típicos para B são da ordem de 0,12
dos para o cálculo de ATR ao final da vida de serviço nas condições:
e variam entre 0,05 e 0,15 sob tensões verticais da ordem de 15% da re-
sistência não drenada, como citado em Medina (1997) e Ullidtz (1987).
N ao ano (AASHTO) = 5,0 × 104 a 2,5 × 106
A relação obtida na Figura 4 mostra que β = 0,12 está associado a RT =
CBR do subleito = 3 a 17,5
5,6% da resistência à compressão simples drenada, de modo que existe
h1 (CBUQ) = 6,5 a 10 cm
consistência entre o modelo aqui desenvolvido e os resultados daqueles
h2 (Brita Graduada) = 13 a 20 cm
ensaios. Os valores mínimos que são observados em laboratório para β
h3 (sub-base granular) = 12 a 40 cm
(por volta de 0,05) estão associados a solicitações extremamente baixas
do solo, ou seja, quanto RT tende a zero na relação indicada na Figura 4.
358 JACQUES DE MEDINA 359

4 CÁLCULO DO PCN Tabela 6 Resultados do modelo


para RT = 17,4%
Uso do DCP para avaliação do grau
Este modelo indica que relações tensão-resistência no solo de subleito de compactação de um solo na
superiores a 20% implicam em uma seção de pavimento que estará su- Região Oeste de Curitiba/PR
jeita a rápido acúmulo de deformações plásticas sob cargas repetidas,
pois o valor de β será maior que um. De fato, deve-se ter β < 1 em um
pavimento bem projetado e construído, a fim de que a progressão das de- Caio Vinícius Schlogel
formações plásticas seja sob velocidade decrescente ao longo do tempo. Rogério Francisco Kuster Puppi
Esta informação tem particular relevância quando se considera o cálculo Janine Nicolosi Correa
da máxima carga de roda simples, sob pressão de contato p = 12,5 kgf/ Juliana Lundgren Rose
cm2, que o pavimento pode suportar, valor este usado no Método ACN- Ronaldo Luis dos Santos Izzo
-PCN (Aircraft Classification Number – Pavement Classification Number)
da ICAO. A carga que produzir no máximo RT = 20% no topo das camadas
de solos seria uma primeira aproximação neste cálculo. Melhor ainda se
poderia fazer utilizando todo o modelo definido pelas equações (3), (4) e
(5), onde se poderia impor uma condição de desempenho aceitável, em Universidade Tecnológica Federal RESUMO O Dynamic Cone Penetrometer (DCP), ou mais comumente co-
do Paraná, Curitiba, Brasil
função da realidade operacional do aeroporto. A Tabela 6 mostra que, sob nhecido como penetrômetro sul-africano, é um equipamento que vem sen-
RT = 17,4%, resulta: α = 3,405 × 10-5 e β = 0,833. Sob estas condições, um do muito estudado em vários países, principalmente por ser um ensaio
tráfego anual da ordem de 105 repetições de carga (ordem de grandeza rápido, de baixo custo e por ser uma possível alternativa ao ensaio CBR
de operações anuais das aeronaves mais pesadas nos aeroportos mais (California Bearing Ratio), atualmente o principal ensaio utilizado para di-
movimentados) levará, após 20 anos, a afundamentos da ordem de 6 mm. mensionamento de pavimentos. Desta forma, o objetivo deste trabalho
Dado que esta é a espessura de lâmina d´água capaz de potencializar a foi verificar se é possível determinar o Grau de Compactação (GC) por
ocorrência de hidroplanagem sob altas velocidades, poderia ser utilizada meio do uso do (DCP) de uma área dentro do campus da Universidade
como critério de desempenho, de modo que o PCN seria determinado em Tecnológica do Paraná, sede Curitiba. Para o desenvolvimento deste tra-
função da carga que produzir na camada crítica (mais solicitada) a rela- balho obtiveram-se correlações entre os valores obtidos para os ensaios
ção de tensões admissível RT = 17,4%. de compactação e DCP, levando em conta à influência do teor de umidade.
Observou-se que é possível obter uma correlação entre GC e DCP, e por
isso estimar o GC local utilizando-se o DCP. Confirmou-se, também, que
AGRADECIMENTOS o DCP é um método simples e rápido, em relação ao CBR, além de tem
potencial de substituir outros ensaios de campo, com relação à estimativa
Ao professor Jacques de Medina, por toda a inspiração e influência que do grau de compactação do solo.
tem exercido em nossas carreiras e vidas.

1 INTRODUÇÃO

A redução de custos em uma obra geotécnica é, normalmente, efetivada


pela redução ou supressão de ensaios geotécnicos, quer sejam eles de
campo ou de laboratório. Apesar de tal prática se constituir um enorme
erro, este paradigma é comum em obras geotécnicas no Brasil, especial-
mente em obras de pequeno e médio portes. Geralmente, o alto custo dos
ensaios geotécnicos e o curto tempo de execução da obra são as justifi-
cativas para que o controle de qualidade prévio e durante a execução, não
sejam realizados. No entanto, um controle tecnológico adequado pode ser
realizado, utilizando-se diferentes métodos bastanteconhecidos: Ensaio
PALAVRAS-CHAVE DCP, a Percussão (SPT), Ensaio de Cone (CPT), Ensaio Pressiômetro (PMT),
penetrômetro sul-africano, Ensaio Dilatômetro (DMT) e California Bearing Ratio (CBR) e o Dynamic
grau de compactação Cone Penetrometer (DCP).
• Referências bibliográficas na página 405.
360 JACQUES DE MEDINA Uso do DCP para avaliação do grau de compactação de um solo na Região Oeste de Curitiba/PR 361

O ensaio de Penetração Dinâmica (DCP) foi desenvolvido em 1956, na Figura 1 Equipamento DCP Figura 2 Área de Estudo 3 METODOLOGIA
Austrália, modificado em 1969, na África do Sul, e vem sendo cada vez
mais utilizado no Brasil. O DCP é muito utilizado em países Europeus e da 3.1 Área de estudo
América do Norte no âmbito de projeto rodoviários, por ser de baixo custo,
fácil de utilizar e transportar do que outros métodosgeotécnicos. O DCP é Os ensaios foram realizados na área do estacionamento do campus da
um ensaio que permite avaliar o grau de compactação do solo, através da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Curitiba, sede Eco-
avaliação da resistência à penetração e estima, dessa maneira, o módulo ville, a qual doravante será denominada de área de estudo. A área de es-
de deformabilidade da camada compactada. tudo está localizada no extremo oeste da capital do Estado do Paraná,
O penetrômetro sul africano, também como é conhecido o DCP, permi- podendo sua localização (Figura 2a) e dimensões (Figura 2b) serem ob-
te uma caracterização bem definida não apenas de solos naturais, mas servadas na Figura 2.
também de solos mais moles até camadas de solo britado. O relatório de
resultados fornece uma relação da resistência à penetração pela profun- 3.2 Metodologia laboratorial
didade da camada.
Neste trabalho, são apresentados uma metodologia detalhada de exe- Após retirada de amostras deformadas da área de estudo, os seguintes
cução do ensaio DCP in situ, e os resultados obtidos em uma área experi- ensaios geotécnicos normalizados foram realizados com este material:
mental, comparando-os com os resultados obtidos em laboratório. limites de liquidez (ABNT, 1984a; DNER, 1994a); limite de plasticidade
(ABNT, 1984b; DNER, 1994b), densidade real da amostra (DNER, 1994c),
granulometria e sedimentação (ABNT, 1984c), ensaio de compactação
2 CONE DE PENETRAÇÃO DINÂMICA (DCP) (ABNT, 1988; DNER, 1994d) em diferentes umidades. A execução do en-
saio DCP pode ser observado na Figura 3.
O equipamento DCP (Figura 1), consiste de uma haste de aço de 16 mm Como não há normativa brasileira para a realização do ensaio DCP, foi
de diâmetro, com ponta cônica de aço com inclinação de 60º e 20 mm de utilizada a norma do departamento canadense de transporte do estado
diâmetro. O equipamento possui um martelo de 8 kg, que se desloca por de Saskatchewan(SHT, 1992), como base para realização do ensaio em
uma distância de 575 mm do topo da haste até a parte inferior dela. A pe- laboratório e, posteriormente, em campo.
Figura 3 Ensaio DCP laboratorial
netração da ponta de aço é medida por uma régua lateral à haste vertical. Com base nos resultados obtidos no ensaio de compactação (Proc-
O DCP é projetado para penetrar de 800 a 1.200 mm, segundo Kleyn e Sa- tor normal)foi possível se obter um grau de compactação de calibração
vage (1982). Materiais cuja penetração são menores que 800 mm sofrem (GCcalib). O valor de GCcalib é função do resultado do ensaio DCP, que é dado
pouca influência da ação da carga de tráfego. pelo Deslocamento por Impacto(DN), feito em um corpo de prova compac-
Diversos estudos com o DCP já foram realizados no Brasil. Dentre eles, tado com a energia normal, onde a massa específica seca deste corpo de
pode-se citar os realizados pelo Departamento de Estradas e Rodagens prova (MEAS) foi dividida pela massa específica seca máxima (MEASmax)
do Paraná (DER-PR) (Heyn, 1986), Rohm e Nogueira (1990), Oliveira e Ver- obtida do ensaio de compactação (Equação 1).
tamati (1997), Rodrigues e Lucena (1991), Santana et al. (1998) e Cardoso
e Trichês (1998a; 1998b; 1999 e 2000).
O DCP possui vantagens sobre outros ensaios, principalmente devido à 1
sua praticidade. Segundo Selig e Water (1994 apud Berti, 2005), para a re-
alização do ensaio há necessidade de um grupo de dois ou mais operado-
res. Um responsável pelo manuseio e outro(s) pelas leituras, fazendo com A cravação com o DCP foi realizada no centro de cada corpo de
que a perfuração dure, em média, 5 min. Para a realização do DCP não há prova,logo após ao ensaio de compactação, e as leituras da penetração
necessidade de movimentação de terra, facilitando ainda mais o ensaio no corpo de prova foram realizadas a cada golpe. O ensaio foi dado como
e classificando-o como ensaio não destrutivo. O DCP pode substituir o terminado no momento em que as leituras indicavam que a ponta estava
ensaio CBR no projeto e controle tecnológico de pavimentação de vias próxima do fundo do molde. Não se permitiu que a ponta cônica alcanças-
por ser um ensaio tão preciso quanto (Harrison, 1986). Ambos os ensaios se o fundo do molde para que não houvesse dano ao DCP.
podem ser relacionados, resultando em soluções mais confiáveis.
362 JACQUES DE MEDINA Uso do DCP para avaliação do grau de compactação de um solo na Região Oeste de Curitiba/PR 363

3.3 Metodologia in situ Figura 4 Pontos de ensaio DCP Figura 7 Curva de compactação Após realização dos ensaios de granulometria e de limites de Atter-
berg foram realizados os ensaios de compactação (Proctor normal).
Após a realização dos ensaios laboratoriais passou-se para os ensaios de O resultado obtido para este ensaio foi de 27,13% para a umidade ótima e
campo. Foi realizado um (1) ensaio de penetração a cada 10 m de distân- 1,52 g/cm³ para a massa específica aparente seca. O gráfico da compac-
cia na área de estudo, que possui em torno de 5700 m². Os pontos onde tação é apresentado na Figura 7.
foram realizados os ensaios são apresentados na Figura 4. Logo após a compactação, o corpo de prova foi submetido ao ensaio
Durante a realização dos ensaios DCP em campo houve a necessidade DCP. Dessa maneira, foram obtidos diferentes valores de DN (cm/golpe)
de cavar buracos para retirada do material graúdo (brita) que foi depo- para cada diferente ponto de umidade. Na Tabela 2 são apresentados os
sitado na parte superior da área de estudo para servir como pavimento valores de massa específica aparente seca e grau de compactação obti-
(Figura 5). Esse material graúdo pode também danificar o aparelho e in- dos no ensaio de compactação a energia normal.
fluenciar nos resultados finais.
Tabela 2 Resultados de ensaios laboratoriais
Figura 5 Ensaio DCP in situ

Ensaio 1
4. ANÁLISE DE RESULTADOS
w γ DN
(%) (g/cm³) (cm/golpe)
Com base nos ensaios de caracterização do solo coletado, chega-se à
CP1 17,6 1,22 1,04
conclusão de que o material é uma areia fina mal graduada siltosa (SP-
CP2 22,12 1,29 1,03
-SM). O gráfico granulométrico pode ser visto na Figura 6.
CP3 23,77 1,48 1,53
CP4 24,18 1,38 1,35
Figura 6 Curva granulométrica
CP5 27,93 1,47 2,07
CP6 30,21 1,45 4,20
CP7 36,39 1,36 6,50

Ensaio 2
w γ DN
(%) (g/cm³) (cm/golpe)

CP1 15,14 1,24 1,88


CP2 18,19 1,29 0,90
CP3 24,15 1,43 1,57
CP4 27,13 1,52 3,30
CP5 30,73 1,40 8,10

Na Tabela 3 são apresentados os do grau de compactação de calibra-


ção (GCcalib) obtidos no ensaio de compactação a energia normal. O GC foi
Os resultados dos ensaios de limite de liquidez e limite de plasticidade po- obtido pela divisão da massa específica aparente de cada corpo de prova
dem ser observados na Tabela 1. Percebe-se que há influência da fração silte no pela massa específica aparente máxima ensaiada.
solo coletado devido aos valores relativamente altos de índice de plasticidade. O corpo de prova cinco (CP5) foi moldado na umidade ótima, portanto o
DN representado por este ponto foi denominado de DNref (DN referência),
Tabela 1 Resultados dos limites de Atterberg cujo valor foi ensaiado como sendo de 3,3cm/golpe.

Ensaio Resultado (%) Tabela 3 Grau de compactação

Limite de Liquidez 48,94


CP1 CP2 CP3 CP4 CP5
Limite de Plasticidade 28,93 GCcalib (%) 81,66 85,16 94,09 100,00 92,38

Índice de Plasticidade 20,02


364 JACQUES DE MEDINA Uso do DCP para avaliação do grau de compactação de um solo na Região Oeste de Curitiba/PR 365

Na Figura 8, é apresenta a variação do valor do DN em relação ao teor de Figura 8 DN versus Teor de Umidade em Figura 11 Mapa de grau de compactação da Tabela 3 Resultados do cálculo do Grau de Compactação utilizando a Equação 3
comparação com a Curva de Compactação. área de estudo
umidade e em comparação à curva de compactação. Observa-se que não
existe uma tendência singular de variação do DN em comparação com a Pontos Setor 1 Setor 2 Setor 3

curva de compactação, como por exemplo se esperaria do resultado do DN GC DN GC DN GC


ensaio da Agulha de Proctor. Ocorre, que pelos resultados pode-se obser- (%) (%) (%)

var um comportamento de DN no ramo seco da curva de compactação e 1 2,07 0,953 1,67 0,928 2,49 0,975
outro comportamento de DN no ramo úmido da curva de compactação. 2 2,39 0,970 1,99 0,949 2,11 0,956
No presente estudo, adotou-se uma simplificação para a obtenção de
3 *** 0,000 2,85 0,991 *** 0,000
uma relação entre o Grau de Compactação e o resultado do ensaio DCP
4 1,63 0,926 1,63 0,926 2,73 0,986
(DN). Observando o gráfico de GC versus DN (Figura 9) e os valores ex-
perimentais apresentados na Tabela 2, assumiu-se que, no caso da área 5 2,04 0,952 *** 0,000 *** 0,000

de estudo, o teor de umidade do solo variou entre 18 e 27,5%, e que uma 6 2,33 0,967 2,22 0,961 *** 0,000
relação entre o GC e o DN poderia ser obtida diretamente através de uma 7 1,28 0,899 1,91 0,944 *** 0,000
regressão linear do tipo polinomial.
8 2,79 0,988 1,79 0,936 1,39 0,908
Corroborando com a hipótese do teor de umidade do solo da área de
9 2,27 0,964 2,32 0,966 1,07 0,880
estudo ter uma variação limitada, quando da execução dos ensaios DCP
in situ coletou-se amostras superficiais de solo para a determinação do 10 1,76 0,935 1,87 0,942 *** 0,000

teor de umidade, que na média foi de 26%.Assim, ajustou-se uma curva do 11 0,53 0,808 1,15 0,887 1,53 0,919
grau de compactação com 3 pontos da curva de compactação obtidos em 12 1,18 0,890 2,24 0,962 1,65 0,927
laboratórioem relação ao DN, também obtido em laboratório,pontos estes Figura 9 Curva de correlação DN versus GC
13 2,95 0,995 1,85 0,940 *** 0,000
onde o solo encontrava-se com um teor de umidade dentro do limite entre
14 1,39 0,908 0,65 0,828 0,75 0,843
18 e 27,5%. O resultado deste ajuste pode ser observado na Figura 10.
15 0,56 0,814 2,02 0,950 1,52 0,918
A equação obtida foi: 16 1,97 0,947 *** 0,000 *** 0,000

17 2,06 0,953 1,22 0,894 *** 0,000

18 1,65 0,927 1,89 0,943 *** 0,000


2
19 1,72 0,932 *** 0,000 *** 0,000

20 1,32 0,903 *** 0,000


Esta equação foi então empregada nos valores obtidos para DN in situ. 21 1,71 0,932 *** 0,000
Estes valores de DN foram alcançados realizando-se os ensaios DCP em
Figura 10 Curva de calibração 22 *** 0,000 *** 0,000
vários pontos da área de estudo assim como apresentado na Figura 4. Os
23 *** 0,000 *** 0,000
resultados obtidos para GC a partir dos resultados de DN em campo são
mostrados na Tabela 3. 24 1,48 0,915 *** 0,000

Com base nos resultados obtidos para GC foi possível, através de inter-
polação de valores, traçar um mapa do Grau de Compactação da área de *** valores foram eliminados da análise por estarem fora da faixa de umidade estudada,
estudo, que pode ser observado na Figura 11. 18,19%-27,13%

• Referências bibliográficas na página 405.


366 Previsãoda sucção in situ do subleito do Aeroporto Internacional “Nelson Mandela” em Cabo Verde 367

Previsão da sucção in situ do subleito Figura 1 Aeroporto Internacional


Nelson Mandela
2 O PAVIMENTO E O CLIMA

do aeroporto internacional Nelson Mandela O pavimento é uma estrutura em camadas construída sobre um terreno
em Cabo Verde de fundação – o subleito – para melhorar as condições de trafegabilida-
de. Projeta-se o pavimento de modo que os esforços verticais, oriundos
do tráfego (e.g. trens de pouso), transmitidos ao subleito estejam dentro
Carlos Filipe Santos Correia e Silva
da sua capacidade de suporte, compatibilizando-se as deformações da
estrutura com as deformações do subleito.
Medina e Motta (2015) mostram que os elementos do clima são fatores
que afetam o desempenho de um pavimento, como é o caso da precipita-
ção que age aumentando a umidade das camadas inferiores do pavimen-
to, saturando o subleito, o que se reflete num aumento da sua deforma-
bilidade e, consequentemente, numa redução da capacidade de suporte
do mesmo. Em solos não saturados, a água nos vazios encontra-se sob