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Pio Penna Filho


Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.
Doutor em História pela Universidade de Brasília e Pesquisador do CNPq.

Os Arquivos do Centro de
Informações do Exterior (CIEX)
O elo perdido da repressão

O principal objetivo deste artigo é apresentar The main purpose of this paper is to present
o acervo do Arquivo do Centro de Informações the Archive of the Centro de Informações do
do Exterior (CIEX). Criado no âmbito do Ministério Exterior (CIEX). Established under the Ministry of
das Relações Exteriores e atuando no sistema Foreign Affairs and coordinated by the National
coordenado pelo Serviço Nacional de Informações Intelligence Service (Serviço Nacional de
(SNI), o Centro funcionou entre 1966 e 1988 e Informações - SNI), the Center operated from 1966
teve como principal motivação para o seu to 1988 and its initial main task was monitoring
estabelecimento o monitoramento das atividades the activities of exiled by the Brazilian
dos brasileiros exilados pela ditadura militar. military dictatorship.
Palavras chave: Regime Militar, Keywords: Military Regime, CIEX, Itamaraty,
CIEX/Itamaraty, Repressão political repression

D
entre os chamados arquivos da cular por muitos anos,, mesmo a após
repressão,, há um expressivo e consagrada redemocratização do país.
singular conjunto de documen- Este acervo foi guardado como segredo
tos, no volumoso mas ainda fechado acer- de Estado por seus responsáveis. Trata-
vo da ditadura, que compõe um arquivo se dos documentos produzidos pelo Cen-
peculiar, tanto pela natureza dos seus do- tro de Informações do Exterior (CIEX), um
cumentos quanto pelo órgão responsável centro especializado criado no Ministério
por sua existência e que, afinal, conse- das Relações Exteriores em conformida-
guiu se manter num anonimato espeta- de com os desígnios do Serviço Nacional

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de Informações (SNI). Seus objetivos OS SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO E A

eram plenamente compatíveis com os in- REPRESSÃO

S
teresses da ditadura, ou seja, sua fun-
em informações , a repressão
ção era correlata e complementar aos
muito dificilmente alcançaria o
outros sistemas de informações então
grau de eficiência que obteve. A
vigentes: a estabilidade do regime, que
natureza do regime instaurado em 1964
a cada ano se sustentava mais e mais na
implicou a montagem de um amplo e com-
repressão aos seus opositores.
plexo sistema de informações,, que teve
Com a atuação do CIEX,, a repressão aca- como objetivo primordial a manutenção
bou extrapolando as fronteiras nacionais. do novo regime sob comando militar. Pau-
Para tanto, o regime militar se serviu de latinamente, os militares constituíram um
um dos mais respeitados serviços diplo- amplo sistema de informações que abran-
máticos do mundo: o Itamaraty. Operan- gia todo o país e mais, extrapolava em
do em conjunto com o SNI, o Itamaraty muito os seus limites territoriais. Isso
destacou alguns dos seus quadros para decorreu da decisão do regime em con-
atuar no plano externo, monitorando dis- centrar seus esforços não só na repres-
cretamente as atividades de brasileiros são propriamente dita, isto é, nas medi-
no exterior e acompanhando qualquer das policiais tradicionais, mas também
movimentação contrária – ou que fosse no plano das informações, com coleta e
considerada como tal – ao governo mili- análise cada vez mais especializadas.
tar. As equipes do Ministério das Rela-
Quando analisamos comparativamente
ções Exteriores foram eficientes: produ-
a atuação da ditadura brasileira com
ziram mais de oito mil documentos ao
as outras ditaduras do Cone Sul, um
longo de vinte anos de trabalho, boa par-
dos dados que impressionam é justa-
te deles dedicados à espionagem de ci-
mente a eficiência do regime brasilei-
dadãos brasileiros que foram exilados ou
ro, que se manteve quase sempre um
que partiram espontaneamente do Bra-
passo à frente dos movimentos contrá-
sil e tiveram que viver o amargor e as
rios , que tentaram, de diversas manei-
dificuldades da vida no estrangeiro.
ras, travar uma luta sempre desigual
Esse acervo, ainda pouquíssimo explora- frente a um regime que endurecia e
do, é parte valiosa da história política brutalizava toda uma sociedade. Isso
recente do Brasil. Por pouco não foi per- se revela, por exemplo, num quadro
dido ou mantido devidamente “esqueci- comparativo de mortos e desapareci-
do” da memória nacional. Trata-se de uma dos sensivelmente menor no Brasil ,
história que,, para o bem do Brasil,, deve frente a casos como o da Argentina e
ser revelada, justamente para que não do Chile. Em parte,, isso foi resultado
possa se repetir. da repressão prévia, consistente e qua-

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se totalitária a que chegamos naque- Os objetivos principais desse sistema, ao


las difíceis décadas. contrário dos serviços de informação de
Estados democráticos, que em tese pos-
Para tanto, um amplo sistema de infor-
suem como atribuição principal a defesa
mações foi montado,, com o objetivo ex-
do Estado contra ações de natureza es-
plícito de combater as diversas
púria (como ações terroristas, especula-
agremiações políticas que surgiram no
ções financeiras, ingerências externas e
país na segunda metade da década de
inserção estratégica internacional), eram
60, utilizando-se de instrumentos de in-
o de eliminar ou neutralizar os grupos (e
teligência para monitoramento e anteci-
pessoas) considerados subversivos e o de
pação das ações das esquerdas. Os ten-
zelar pela manutenção dos sucessivos
táculos desse sistema iam além das fron-
governos autoritários que se revezaram
teiras nacionais e contaram com a ínti-
no poder entre 1964 e 1984.
ma colaboração de importantes autorida-
des civis nacionais que compartilhavam O órgão centralizador desse sistema foi
do ideário autoritário tão característico o Serviço Nacional de Informações, cria-
daquele contexto histórico. do pela Lei 4.341, de 1964. O SNI pro-

Livreto da DSI/MRE, com a relação dos presos políticos trocados no seqüestro do embaixador
suíço Giovanni Enrico Bucher e banidos para o Chile. Rio de Janeiro, 1971. Acervo SNI .

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duzia, centralizava e sistematizava as características básicas dos órgãos de in-


informações processadas pelos serviços formação que operavam no Brasil foi o
secretos dos ministérios militares e pe- fato de que agiam com relativa autono-
las Divisões de Segurança Interna (DSI), mia no plano institucional, não sendo
criadas no âmbito dos ministérios civis e incomum o fato de manterem uma espé-
pelas Delegacias de Ordem Política e cie de competição para ver quem obteria
Social (DOPS) e Departamento de Polícia maiores e melhores resultados. Na ver-
Federal. A rigor, o SNI havia sido criado dade, esta parece ser uma característica
como um órgão diretamente subordina- universal atinente aos serviços dessa na-
do à Presidência da República,, e deveria tureza, uma vez que o mesmo fenômeno
se ater a assuntos relacionados à segu- é relatado na literatura estrangeira.
rança nacional. Os artigos 2 e 3 da Lei
Até o momento, a estrutura mais conheci-
que criou o SNI estipulam que:
da da Comunidade Nacional de Informações
“Artigo 2 o – O Serviço Nacional de In- considerava o SNI como o elemento cen-
formações tem por finalidade tral da “inteligência” brasileira, cujos ór-
superintender e coordenar, em todo gãos auxiliares eram: o Centro de Informa-
o território nacional, as atividades de ções do Exército (CIE), o Centro de Infor-
informação e contra-informação, em mações da Marinha (CENIMAR), o Centro
particular as que interessam à Segu- de Informações e Segurança da Aeronáuti-
rança Nacional. ca (CISA), as diversas Divisões de Seguran-

Artigo 3 o – Ao Serviço Nacional de ça Interna (DSI) e o Centro de Informações

Informações incumbe especialmente: da Polícia Federal (CI/DPF). Todos esses

assessorar o Presidente da Repúbli- organismos atuavam na produção/coleta de

ca na orientação e coordenação das informações e ação direta de repressão no

atividades de informação e contra- plano interno, objetivando descobrir e eli-

informação afeta aos ministérios, minar os focos de resistência à ditadura,

serviços estatais, autônomos e enti- por mais tênues que fossem. Para o de-

dades paraestatais”. 1 sempenho dessas funções, um dos méto-


dos mais utilizados foi a tortura física e
O SNI rapidamente se constituiu num gi-
psicológica, em alguns casos levada às últi-
gantesco órgão repressivo. Gigantesco e
mas conseqüências.
com elevado grau de autonomia na es-
trutura de poder erigida a partir de 1964. Mas o sistema ia bem além do que de-
Contudo, o SNI, apesar de ser o órgão terminava a legislação que o instituiu.
centralizador do sistema de informações, Nesse sentido, se pensarmos em termos
não era o único a operar e nem tampouco da legislação vigente à época da sua cri-
o único a desfrutar de autonomia no ação, o SNI e seus congêneres não pode-
âmbito governamental. Aliás, uma das riam atuar no plano externo, haja vista

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que sua atuação era, por força de lei, ção para serem desenvolvidos no Brasil.
restrita ao território nacional . Contudo, Mas não eram só os ativistas e militan-
não foi o que se passou. A repressão tes políticos que eram perseguidos e
atuou também com muita desenvoltura monitorados pelo Centro. Quase todo
no plano externo, ao arrepio da lei bra- brasileiro no exterior passou a ser visto
sileira e do direito internacional. como um suspeito em potencial, princi-
palmente aqueles que se dirigiam para
É sobre a atuação deste elo perdido da
países ou regiões consideradas como áre-
comunidade nacional de informações que
as subversivas, seja no Leste europeu ou
trata este pequeno artigo. A revelação de
em países que ainda respeitavam a exis-
sua existência e a análise de seu funciona-
tência de agrupamentos políticos de es-
mento e modus operandi certamente aju-
querda, como o Uruguai ou o Chile antes
dará a esclarecer e a melhor compreender
dos seus respectivos golpes.
um período vivo na história do Brasil re-
cente, ainda hoje presente, de diversas O CIEX não surgiu do nada e nem tampouco
maneiras, na vida política nacional. foi criação exclusiva do SNI. O Ministério
das Relações Exteriores já detinha alguma
O CIEX E A REPRESSÃO experiência no monitoramento das ativida-
ALÉM - FRONTEIRAS des de militantes do Partido Comunista Bra-

P
sileiro no exterior – e, de forma geral, de
aralelamente à atuação dos ser
análise da atuação do movimento comunis-
viços de informação que atua
ta internacional, sobretudo após o final da
vam no plano interno, o regime
Segunda Guerra Mundial e o início da Guer-
militar criou uma agência especializada
ra Fria. Não é à toa que o Arquivo do
para atuação no plano externo. Até hoje
Itamaraty possui um fantástico acervo so-
relativamente ignorado pela historiografia
bre as atividades dos partidos comunistas
sobre o Golpe de Estado de 1964, o Cen-
na América Latina, com especial ênfase
tro de Informações no Exterior (CIEX) é
para a região do Cone Sul. A partir da Em-
o que poderíamos chamar de “o elo per-
baixada em Montevidéu,, foram montados
dido” do sistema. O CIEX recebeu a in-
diversos dossiês e análises sobre as ativi-
cumbência de acompanhar as atividades
dades do movimento comunista na Améri-
dos “subversivos” brasileiros que, ape-
ca do Sul, com destaque para a Argentina
sar do exílio, continuavam protestando
e o próprio Uruguai.
contra a falta de liberdade política no
Brasil, denunciando os maus tratos im- Na América do Sul, por exemplo, Monte-
postos pelo regime contra os seus opo- vidéu e Buenos Aires eram capitais vis-
nentes ou mesmo conspirando em outros tas como centros de irradiação de ativi-
países e articulando o lançamento de dades e propaganda consideradas comu-
ações de guerrilha ou atos de contesta- nistas. 2 Não foi por acaso que a primeira

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e mais importante atuação do CIEX te- perto praticamente todas as atividades


nha ocorrido no Uruguai. Além de aquele dessas lideranças no exterior. Uma visi-
país ser considerado democrático em ta, uma reunião, um encontro, qualquer
“excesso”, foi para lá que se retiraram atitude era monitorada e as informações
os primeiros exilados da ditadura militar seguiam para os escritórios da agência
brasileira. Os primeiros informes produ- central do SNI e dos demais órgãos mili-
zidos pelo CIEX, sobretudo nos volumes tares,, para manter sempre atualizados
1 e 2, contendo mais de mil documen- os dossiês dessas personalidades.
tos, estão bem concentrados no
Contudo, muitos outros cidadãos brasilei-
monitoramento das atividades dos brasi-
ros foram monitorados pelo governo bra-
leiros que se encontravam no Uruguai.
sileiro no exterior. Políticos insuspeitos do
À frente do Centro,, encontravam-se di- ponto de vista ideológico, como o ex-pre-
plomatas de carreira do Ministério das sidente Juscelino Kubitschek de Oliveira,,
Relações Exteriores que atuavam em também foram minuciosamente
sintonia com o SNI e com os demais ór- monitorados, além de outros políticos
gãos de informações. Ressalte-se que como os ex-deputados Cibillis Viana, Neiva
não era uma função obrigatória e que Moreira e Miguel Arraes; intelectuais e
todos que serviram no CIEX o fizeram de escritores como Antônio Callado, Caio Pra-
livre e espontânea vontade. Aliás, é voz do Júnior, Florestan Fer nandes, Celso
corrente no Itamaraty entre os diploma- Furtado e Fernando Henrique Cardoso.
tas que se lembram da existência do
Além de personalidades conhecidas,
Centro, assim como da DSI, que aqueles
como as acima citadas, militantes políti-
que foram lotados nesses órgãos eram,
cos, estudantes e pessoas comuns que
geralmente, vistos com desconfiança ou
discordavam da ditadura militar também
reserva pelos colegas.
tinham suas atividades no exterior vigia-
Dentre os políticos brasileiros mais visa- das. Enfim, o CIEX, enquanto agência res-
dos pela espionagem política e pelas for- ponsável pelo acompanhamento de ativi-
ças da repressão encontravam-se o ex- dades políticas e/ou consideradas subver-
presidente João Goulart e o ex-governa- sivas e ameaçadoras ao regime atuando
dor do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, a partir de outros países, acabou por de-
assim como boa parte daqueles que pri- senvolver um sofisticado aparelho de co-
vavam de sua intimidade. Eram vistos leta e distribuição de informações, que
como articuladores políticos perigosos, eram destinadas em sua quase totalida-
enfim, uma ameaça à nova ordem políti- de para as agências diretamente ligadas
ca que estava se estabelecendo no país. à repressão política no Brasil, como o
Milhares de informes foram produzidos Serviço Nacional de Informações, o Cen-
e revelam que o CIEX acompanhava de tro de Informações e Segurança da Aero-

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náutica (CISA), o Centro de Informações Buenos Aires, Santiago, Paris, Praga, Mos-
do Exército (CIE) e o Centro de Informa- cou e, após a Revolução dos Cravos, Lis-
ções da Marinha (CENIMAR), como se boa. No leste europeu,, havia um acompa-
pode observar analisando a relação de nhamento mais intensivo, haja vista que pra-
difusão de documentos produzidos pelo ticamente todos os brasileiros que optas-
CIEX ao final deste artigo. sem por viver ou estudar em países da
Cortina de Ferro eram vistos como suspei-
Outro aspecto relevante de se observar na
tos de comprometimento ideológico. Além
análise da atuação do CIEX é que o Centro
disso, merece destaque o fato de que al-
cresceu e se diversificou à medida que a
guns países daquela região, como a então
ditadura se tornava mais radical e
Tchecoslováquia, eram pontos estratégicos
repressora. Suas atividades também po-
por serem países pelos quais transitavam
dem ser medidas pela presença de brasi-
frequentemente brasileiros que exerciam
leiros em determinado país. Assim, onde
atividades políticas consideradas subversi-
havia maior concentração de exilados era
vas em Cuba ou mesmo no Leste europeu.
onde o Centro mais atuava. Nesse sentido,
as embaixadas ou escritórios mais ativos As atividades do CIEX de coleta e
envolvidos no monitoramento de brasilei- processamento de informações eram, de
ros eram, além da de Montevidéu, as de certa maneira, complementadas pelos

Presos políticos trocados no seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig
von Holleben e banidos para a Argélia. Rio de Janeiro, 1970. Acervo SNI .

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ofícios, telegramas e outros documentos Já o modus operandi do CIEX revela o


remetidos ao Ministério das Relações total desrespeito a consagradas garanti-
Exteriores pelas diversas embaixadas as legais, além de uma sofisticada e efi-
brasileiras espalhadas ao redor do mun- ciente rede de espionagem, impossível de
do. O arquivo do Itamaraty está repleto ser montada sem atuação conjunta com
de exemplos desse tipo de fonte. A preo- agências congêneres nos países onde
cupação excessiva com a “ameaça comu- operava. Havia infiltração de agentes
nista” muitas vezes era revelada na for- entre grupos de exilados, violação de
ma da mais pura e simples delação, fre- correspondência, intercâmbio de informa-
quentemente baseada em ilações abso- ções com outros órgãos de inteligência,
lutamente subjetivas. observação permanente de pessoas, den-
Essa característica chama a atenção para tre outras atividades.
um problema de primeira grandeza quan-
A análise da atuação do CIEX revela mais
do se trata de trabalhar com fontes des-
do que uma faceta da repressão. Revela
sa natureza. Os documentos do CIEX se-
também o comprometimento do Itamaraty
guiam a padronização instituída pelo SNI
com o regime militar de 1964, aliás, como
que determinava um modelo geral para
não poderia deixar de ser. Até pouco tem-
elaboração e classificação de documen-
po atrás,, era comum representantes da
tos. Assim, os informes eram avaliados
diplomacia brasileira, e mesmo alguns aca-
pelo grau de confiabilidade das informa-
dêmicos, afirmarem que o Ministério das
ções neles contidas e recebiam uma si-
Relações Exteriores havia “sobrevivido” ao
gla correspondente, sendo que nesse sis-
regime de exceção mais ou menos incólu-
tema a avaliação A1 indicava, para os
me, ou seja, que não havia colaborado di-
padrões do SNI, uma fonte cem por cen-
retamente com a repressão. Tal fato, efe-
to segura,, enquanto que a avaliação C3
tivamente, não ocorreu. Houve uma inten-
já correspondia a uma fonte bem menos
sa atividade de espionagem e
confiável (as avaliações eram A1, A2, A3,
monitoramento das atividades até mesmo
B1, B2, B3, C1, C2 e C3). O maior pro-
da vida pessoal de muitos brasileiros que
blema é que mesmo os documentos ava-
se encontravam exilados após o Golpe de
liados como A1 pelos agentes não podem
Estado de 1964 em diversos países, fato
e não devem ser considerados de forma
que contou, inclusive, com a colaboração
alguma como plenamente confiáveis pe-
de outros governos.
los historiadores ou pesquisadores que
trabalham com essas fontes. Todas elas Os próprios funcionários do Itamaraty pas-
necessitam, sempre que possível, confir- saram pelo calvário dos expurgos no perí-
mação por meio de cruzamentos de da- odo inicial do Golpe de Estado. Vários Me-
dos ou utilização de dados complementa- morandos internos comprovam o compor-
res com o cotejamento de outras fontes. tamento bastante agressivo que alguns di-

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plomatas adotaram frente a colegas e ou- dos muito distintos das atividades relaci-
tros funcionários que eram simpatizantes onadas à repressão.
do pensamento de esquerda. Uma vez ins-
Outro aspecto a salientar é que a pes-
tituído, o CIEX também passou a exercer
quisa relativa às atividades do CIEX está
a função de “dedo duro”, elaborando
demonstrando o quão sofisticado foi o
dossiês e agindo como um tentáculo do SNI
aparelho de repressão montado pela di-
dentro do Itamaraty.
tadura militar. Ou seja, bem antes de
Ademais, era também função do CIEX a iniciativas conjuntas dos sistemas de in-
produção de informações sobre algumas formações dos países do Cone Sul terem
áreas peculiares relacionadas à atuação do sido implementadas, como a famosa Ope-
Ministério das Relações Exteriores, como ração Condor, o Brasil já atuava no pla-
assuntos ligados à segurança nacional, no externo com grande desenvoltura. É
subversão, terrorismo, corrupção, imagem de se supor, e com um alto grau de pro-
do Brasil no exterior e contra-informação. babilidade, que a produção de tantos
documentos a partir do exterior só pode-
Quando analisamos em perspectiva o que
ria ter sido levada a efeito a partir da
foi produzido pelo Centro ao longo de sua
colaboração efetiva de outros governos
existência, observamos uma evolução no
ou setores e instituições governamentais
que diz respeito às suas funções e obje-
de outros países que partilhavam de uma
tivos ao longo do tempo. Se,, inicialmen-
ideologia em comum.
te,, o maior volume de informes fazia re-
ferência, como já citado, à atuação dos OS SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO E A
exilados brasileiros, com o passar do HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

M
tempo e o processo de distensão política
uito embora a bibliografia re
em andamento se consolidando como
ferente ao Golpe de 1964
posição de governo (principalmente com
seja ampla e compreenda
o governo Geisel e com a Anistia), ocor-
trabalhos de natureza diversa, não se
reu um redirecionamento das atividades
pode dizer o mesmo sobre a temática
do CIEX, que passaram a refletir novas
peculiar aos órgãos encarregados da re-
preocupações. Assim, mesmo que o Cen-
pressão. Observa-se aqui, obviamente,
tro continuasse mantendo vigilância so-
que dificuldades relacionadas ao acesso
bre atividades “subversivas”, o destaque
às fontes vêm atuando como elemento
passou para as análises de conjuntura
de maior constrangimento para uma me-
internacional, análises de processos po-
lhor compreensão sobre o tema.
líticos de países que mais interessavam
ao Brasil, temas como direitos humanos, Existem, contudo, alguns poucos traba-
atuação dos Estados Unidos na América lhos que abordam diretamente a temática
Latina e uma série de outros temas, to- da atuação dos serviços secretos. Em

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1983, a jornalista Ana Lagôa publicou senvolve e discute conceitos importantes


“SNI: como nasceu, como funciona”, pela relacionados às atividades de inteligên-
editora Brasiliense. No livro, Lagôa faz cia, além de dedicar boa parte do livro à
uma análise da atuação do SNI e da dou- análise da situação atual da agência central
trina de segurança nacional, sustentan- de informações no Brasil, ou seja, da ABIN.
do que esta é base ideológica da criação Com relação ao CIEX, todavia, não há uma
do SNI. Não há referências no que diz única citação. É como se o órgão nem se-
respeito às atividades do CIEX, embora quer houvesse existido e feito parte ativa
a autora seja a única a reconhecer a exis- do esquema de informações no Brasil.
tência do Centro e incluí-lo no cronograma
Um autor que trouxe mais novidades so-
da comunidade de informações. 3

E
bre a ação do SNI foi Lucas Figueiredo.
m 2001, o professor Carlos Com o livro “Ministério do Silêncio – a
Fico, da Universidade Federal história do serviço secreto brasileiro: de
do Rio de Janeiro, publicou Washington Luís a Lula, 1927-2005”,
“Como eles agiam – Os subterrâneos da Figueiredo, utilizando-se de várias entre-
Ditadura Militar: espionagem e polícia vistas com pessoas diretamente ligadas
política”, obra na qual faz uma aguçada ao antigo SNI e de fontes impressas so-
e sofisticada análise da atuação dos ór- bre vários momentos de sua existência,
gãos de repressão, com especial desta- produziu uma valiosa contribuição que
que para as atividades da DSI do Minis- nos permite uma visão em perspectiva da
tério da Justiça, uma vez que o profes- atuação da principal agência de informa-
sor teve acesso à documentação daque- ções do Brasil, ou simplesmente, o “ser-
la DSI. Sobre o CIEX, o autor utiliza al- viço”. Uma das observações destacadas
guns documentos que fazem referência pelo autor é a da atuação anterior ao
àquele órgão, os quais lhe foram, inclu- regime de 1964 de um serviço dessa
sive, repassados pelo autor deste proje- natureza e também da sua deformação,
to. Entretanto, a atuação do Centro não se podemos assim chamar, ao longo do
foi objeto de estudo sistematizado. 4
tempo. 5 Ambas as características estão
também presentes no caso do CIEX.
Outro livro publicado sobre o tema dos
serviços de informação foi “SNI & ABIN”, Os quatro livros citados acima sintetizam
de Priscila Carlos Brandão Antunes. Na o estágio atual do conhecimento no Bra-
obra,, a autora faz uma contextualização sil sobre as atividades de inteligência e
histórica sobre as origens do SNI, sua informações. Além deles, ainda podemos
formação e atuação. Há, igualmente, uma citar duas dissertações de mestrado vol-
breve análise da atuação das agências tadas para a análise da mesma temática.
de informação das três armas, quais se- Elas têm o grande mérito de abordar as-
jam: CIE, Cenimar e CISA. A autora de- pectos específicos da temática em discus-

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são. Porém, nenhuma das duas mencio- sário tomar o cuidado de proceder à aná-
na o CIEX, seja na estrutura da comuni- lise sempre considerando um conjunto de
dade de informações, seja na sua atua- documentos relativos a determinado as-
ção durante o regime militar. 6 sunto, uma vez que essa atitude possibi-
lita compreensão mais completa com re-
De acordo com essa breve exposição do
lação ao assunto.
estágio atual do conhecimento histórico
sobre o tema em discussão,, evidencia- Outra característica desse tipo de traba-
se, pois, a originalidade da temática lho investigativo é a necessidade de cru-
apresentada. As atividades do CIEX, a des- zamento dos dados, tarefa que requer a
peito de sua importância para o esquema sistematização das informações contidas
da repressão política no Brasil, continu- nos informes,, com acurada leitura de
am obscurecidas pela falta de pesquisa, fontes bibliográficas, artigos em jornais
até agora ainda justificada pelo impedi- e revistas e depoimentos de pessoas en-
mento de consulta às fontes primárias. volvidas. Como o volume da documenta-

A natureza dessas fontes exige um tra- ção é de considerável dimensão, o tra-

balho meticuloso de análise. Por um lado, balho necessariamente exigiria a elabo-

a linguagem utilizada pelos serviços de ração de fichas específicas, contendo

informação geralmente possui certos có- nomes e locais das pessoas citadas, o

digos que dificultam a compreensão do que permitirá identificar os objetivos das

seu exato significado, uma vez que quem investigações do CIEX e acompanhar pas-

produz um documento dessa natureza so a passo a estratégia montada pelo

sempre tem o cuidado para que a infor- Centro para acompanhar/monitorar os

mação seja objetiva e enxuta no sentido seus alvos. Assim, o cruzamento desses

de que ela se torne de fácil compreen- dados com informações obtidas em ou-

são para quem participa do esquema, mas tras fontes permitirá avaliar o alcance e

dificultosa para quem está de fora, ins- eventuais desdobramentos das atividades

tando os pesquisadores a um trabalho do CIEX, como por exemplo, a sua efeti-

sistemático de análise. va participação na desarticulação de


ações pensadas a partir do exterior.
Há ainda que se considerar que os infor-
mes, geralmente, não possuem assinatu- Eventualmente, seria possível checar os
ra, numa deliberada decisão de não re- dados encontrados nos informes consul-
velar o nome dos agentes envolvidos. Do tando relatos de exilados brasileiros que
ponto de vista metodológico,, deve ser foram monitorados pelo Centro e que te-
igualmente observado que os informes, nham sido publicados. Outra possibilida-
tomados de forma isolada, não permitem de seria, uma vez identificado determina-
uma análise consistente dos serviços de do ativista, e tendo ele recebido atenção
informação. Assim, é mais do que neces- especial do CIEX, tentar localizá-lo e

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entrevistá-lo. Depoimentos dessa nature- possam se dedicar à investigação sobre


za certamente ajudarão a compor um qua- a temática dos serviços de informação e
dro mais exato da ação desenvolvida pelo da repressão aos movimentos de esquer-
Estado contra seus cidadãos no exterior. 7 da e à sociedade efetuados pelo regime
Evidencia-se a carência e precariedade militar. É muito recente a abertura dos
do material no que diz respeito especifi- arquivos nacionais referentes a esse
camente ao tema da espionagem e da tema, sendo relevante observar que, até
atuação dos órgãos de informação com- agora, somente a documentação relativa
ponentes da Comunidade Nacional de In- a algumas das delegacias do DOPS e das
formações. Isto se deve, naturalmente, Divisões de Segurança Internas (DSI) de
ao problema do acesso às fontes primá- alguns poucos ministérios foi liberada
rias e orais para que os historiadores para consulta.

Tabela 1
Documentos Sigilosos Difundidos pelo CIEX (1966-1986)

Ano Documentos Ano Documentos

1966 515 1977 339


1967 647 1978 029

1968 747 1979 251


1969 490 1980 211
1970 501 1981 187

1971 602 1982 173


1972 690 1983 161
1973 656 1984 147

1974 665 1985 211


1975 366 1986 095
1976 464

Total 8147
Fonte: Documentação do Centro de Informações do Exterior.

pág. 90, jul/dez 2008


R V O

Tabela 2
Destino dos Documentos do CIEX por Órgãos de Cúpula do Governo e da
Comunidade Brasileira de Infor mações (1966-1986)

Órgão de Destino Documentos

Presidência da República (PRESREP) 01

Gabinete do Ministro de Estado das Relações Exteriores (DSI/MRE) 07

Gabinete do Ministro de Estado da Aeronáutica (GABMAER) 80

Serviço Nacional de Informações (SNI) 7215

Centro de Informações do Exército (CIE) 5048

Estado Maior do Exército (SE-I/EME) 5231

Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica 3199

Estado Maior da Aeronáutica (2a Seção/EMAER) 4371

Centro de Informações da Marinha (CIM) (sic) 3883

Estado Maior da Armada (EMA/M-20) 1906

Estado Maior das Forças Armadas (FA-21/EMFA) 638

Divisão de Segurança e Informações do Ministério das

RelaçõesExteriores (DSI/MRE) 1115

Centro de Informações da Polícia Federal (CI/DPF) 800


Fonte: Documentação do Centro de Informações do Exterior.
Obs.: Um único documento era usualmente destinado a mais de um órgão, portanto, isso explica o número maior de
documentos acima citado do que o total de documentos produzidos conforme a tabela 1.

N O T A S
1. Lei Federal 4.341, de 13 de junho de 1964.
2 . O Arquivo do Itamaraty, infelizmente, continua virtualmente fechado para pesquisas. O
Ministério das Relações Exteriores possui dois arquivos: o Arquivo Histórico do Itamaraty
(AHI), localizado no Rio de Janeiro, mantém em seu acervo a documentação que vai do
período colonial/Império até aproximadamente 1945/47. Já o Arquivo do Ministério das
Relações Exteriores (AMRE), localizado em Brasília, possui em seu acervo a documenta-
ção posterior ao período anteriormente citado. Há dificuldades para acesso aos dois
acervos, contudo, o de Brasília é o mais fechado. Sobre o acervo do Arquivo do Itamaraty
ver: PENNA FILHO, Pio. “A pesquisa histórica no Itamaraty”. Revista Brasileira de Política
Internacional, Ano 42, n º 2, 1999, p. 117-144.

Acervo, Rio de Janeiro, v. 21, n o 2, p. 79-92, jul/dez 2008 - pág. 91


A C E

3 . LAGÔA, Ana. SNI: como nasceu, como funciona . São Paulo: Brasiliense,1983.
4 . FICO, Carlos. Como eles agiam – Os subterrâneos da Ditadura Militar: espionagem e
polícia política . Rio de Janeiro: Record, 2001.
5 . FIGUEIREDO, Lucas. Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto brasileiro: de
Washington Luís a Lula, 1927-2005 . Rio de Janeiro: Record, 2005.
6 . EMILIO, Luís Antonio Bitencourt. O poder legislativo e os serviços secretos no Brasil,
1964-1990 . Brasília: Universidade de Brasília, 1992. Dissertação de Mestrado. QUADRAT,
Samantha Viz. Poder e informação: o sistema de inteligência e o regime militar no Brasil .
Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ, 2000. Dissertação de Mestrado.
7. É sugestivo o exemplo do exilado José Maria Rabêlo, o qual sugere, acertadamente, em
seu livro de memórias que “vivemos no exterior sob a vigilância constante dos serviços
secretos brasileiros, numa página vergonhosa de nossa História, que precisa ser levantada
em toda sua extensão”. Ao escrever essas palavras, Rabêlo o fez citando a atuação de
agentes do SNI e do CENIMAR, os quais eram eventualmente identificados por militantes
exilados. Contudo, mal tem consciência José Maria Rabêlo que o CIEX também o monitorava,
enviando informações para os demais órgãos de segurança. A citação sobre José Maria
Rabêlo é um exemplo de como o trabalho de cruzamento de dados é útil para o desenvol-
vimento de qualquer pesquisa sobre esse tema e de como entrevistas com exilados poderáo
trazer à tona novas informações e análises sobre a atuação da espionagem brasileira con-
tra exilados no exterior. Sobre a obra ver: RABÊLO, José Maria & RABÊLO, Thereza. Diáspora:
Os longos caminhos do exílio. São Paulo: Geração Editorial, 2001, pg. 80.

Recebido em 27/11/2008
Aprovado em 06/02/2009

pág. 92, jul/dez 2008