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Brasil Seikyo - Edição 1618 - 01/09/2001 - pág.

C7 - Caderno Soka

Brasil Seikyo - Caderno Soka

Você é budista em todos os momentos?

Antes de discorrer sobre o tema proposto


no título, gostaria de agradecer aos Deixo aqui meu profundo respeito aos
e-mails, cartas e telefonemas nossos companheiros profissionais que
manifestando apoio e concordância com a utilizam a técnica da neurolingüística de
matéria publicada neste Caderno no mês forma correta e dentro dos limites de
passado. Muito obrigado! aplicabilidade. É nessas pessoas que
podemos confiar.
Com aquela matéria, não tive a intenção de
ferir suscetibilidades, tampouco atingir Agora, abordarei aqui um outro tema
aqueles profissionais sérios — psicólogos e polêmico, no qual tive a oportunidade de
psicoterapeutas — que utilizam a dialogar longamente nas reuniões do
neurolingüística como uma das tantas Departamento de Juristas, realizada na
técnicas existentes para a solução de última quinta-feira de cada mês. É uma
problemas específicos. reflexão sobre nossas próprias convicções
filosóficas e, quem sabe, do por quê não
Em nossa organização, existem muitos concretizamos todos os objetivos que
desses profissionais sérios, nossos almejamos, mesmo praticando
companheiros que aplicam a corretamente (ou achando que
neurolingüística como uma de suas praticamos?).
ferramentas.
Nós, budistas, muitas vezes lamentamos
Insurjo-me, sim, contra aqueles que por nossos objetivos não serem
querem fazer da neurolingüística uma concretizados. Fique claro que, se
panacéia, ou seja, um remédio para todos recitamos o Daimoku e o Gongyo ao
os males, uma solução para todos os Gohonzon muitas coisas em nossa vida
problemas, e a usam a ponto de deixar começam a mudar para melhor, mesmo
margem ao entendimento de que poderia sem percebermos. Esses são os benefícios
substituir a prática do Daimoku pela inconspícuos ou imperceptíveis. Porém,
simples eficácia de seus resultados. Sob o para transformarmos o carma fundamental
ponto de vista budista, a aplicação da da nossa vida, é necessário um profundo e
neurolingüística nesse sentido é constante esforço visando a aprimorar
totalmente inconcebível, pois está fundada nossa prática e quebrar os paradigmas que
na aplicação de uma técnica de efeito sem trazemos do passado.
causa, ou seja, no combate ao efeito e não
à causa, o que contraria os ensinos de Sabemos que o valor fundamental do
Nitiren Daishonin, que se baseia na lei de Budismo de Nitiren Daishonin é a
causa e efeito. dignidade de todas as formas de vida, seja

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ela animal, mineral, vegetal ou humana. E o causa e efeito. Ou seja, todo efeito é
presidente Ikeda vem dialogando há mais resultante de uma causa. E esse efeito,
de quarenta anos com as autoridades uma vez manifestado, imediatamente se
mundiais com esse mesmo objetivo: transforma em uma nova causa e assim
valorizar a dignidade da vida. sucessivamente.

Proponho, então, nessa nossa reflexão, Uma vez que nada acontece por acaso,
imaginarmos a seguinte situação: Uma tudo tem uma relação causal, ao
mulher é estuprada por um perigoso praticarmos o aborto, tirando uma vida
bandido. Desse estupro resulta uma sadia, não estaríamos fazendo uma causa
gravidez. O que você a aconselharia fazer, negativa e deixando de transformar o mau
considerando que o nosso Código Penal carma do passado, postergando-o para o
não pune os chamados “abortos futuro? Além disso, não sabemos se esse
necessários”, nesse caso resultante de carma se manifestará novamente em uma
estupro? Você a aconselharia fazer o circunstância pior no futuro.
aborto? E se ela fosse sua parente?
Imagine carregar no ventre o filho de um Se a vida é o bem mais importante que
bandido. Mas, afinal, aquela criança, que existe para o budismo, ao praticarmos o
está sendo gerada, também não é uma aborto, ainda que autorizado pelas leis,
vida? E ela tem culpa da forma que foi estamos agindo verdadeiramente como
gerada? Temos o direito de acabar com seguidores do Budismo de Nitiren
ela? O Código Penal brasileiro diz que sim. Daishonin e discípulos do presidente
Ikeda?
Se as questões forem decididas levando
em conta somente os aspectos práticos Não quero manifestar aqui minha posição
entre as pessoas envolvidas, poderíamos pessoal com relação ao aborto. Tampouco
até concordar com o Código Penal, que discutir se é válido ou não. O que pretendo
não pune o aborto. Porém, como budistas, com esse exemplo é demonstrar que
precisamos visualizar não somente os muitas vezes cometemos equívocos de
envolvidos. Devemos levar em conta o avaliação e pensamos e agimos
princípio da lei de causa e efeito num contrariando os ensinos de Nitiren
contexto mais amplo, apesar de a primeira Daishonin, impulsionados pelos
reação em uma situação como essa ser de paradigmas sociais. Talvez seja essa a
total revolta. Eis a diferença entre razão de não transformarmos nosso mau
escuridão e iluminação! carma criado no passado, pois por um lado
fazemos boas causas quando recitamos o
As relações entre as pessoas ocorrem Daimoku, por outro fazemos más causas
quando existem nelas o que chamamos no por acalentarmos no coração um
budismo de “kenzoko”, traduzido como sentimento contrário à verdadeira filosofia
“relação mística” ou “relação causal”. de vida.
Jamais podemos nos esquecer que tudo
que nos acontece está embasado na lei de

Daniel Gomes da Costa (771476-9) / pág. 2.


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Como o espaço não permite aprofundar


mais no assunto, muita coisa deixou de ser
colocada, o que poderá ensejar mau
entendimento. Por essa razão, caro leitor,
tome minhas palavras como uma reflexão
de como anda nossa prática. Sugestões,
escreva para: juridico@bsgi. org.br

Daniel Gomes da Costa (771476-9) / pág. 3.