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ARTIGOS

A inserção do estoicismo no Direito Romano


Clássico: os rescritos do Imperador Marco Aurélio
sobre Direito de Família e direito à liberdade
Andityas Soares de Moura Costa Matos1
Pedro Savaget Nascimento2

Resumo: O objetivo deste trabalho é abordar rescritos do imperador Marco Aurélio


que possibilitaram a aplicação jurídica de postulados do estoicismo, humanizando a con-
dição jurídica das famílias e dos escravos romanos. Primeiramente, será apresentado um
estudo geral da filosofia estoica e sua penetração no Direito Romano para possibilitar,
em um momento posterior, a análise individualizada dos rescritos imperiais de Marco
Aurélio.

Palavras-chave: Direito romano. Estoicismo. Hermenêutica jurídica. Justiça.

Abstract: This paper intends to address the Emperor Marcus Aurelius’ rescripts, which
made possible the legal implementation of Stoic principles, scoping the humanization of
the legal condition of roman families and slaves. Primarily, a general study concerning
Stoic philosophy and the influence of its doctrine in Roman law will be presented to al-
low, in a later moment, the individualized analysis of Marcus Aurelius’ imperial rescripts.

Keywords: Roman Law. Stoicism. Legal interpretation. Justice.

1
Graduado em Direito, Mestre em Filosofia do Direito e Doutor em Direito e Justiça pela Faculdade de
Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor Adjunto de Filosofia do Direito e
disciplinas afins na Faculdade de Direito da UFMG. Membro do Corpo Permanente do Programa de Pós-
Graduação em Direito da Faculdade de Direito da UFMG. Professor Titular de Filosofia do Direito no
curso de Graduação em Direito da FEAD (Belo Horizonte/MG). Autor de ensaios jusfilosóficos tais como
Filosofia do direito e justiça na obra de Hans Kelsen (Belo Horizonte, Del Rey, 2006) e O estoicismo
imperial como momento da ideia de justiça: universalismo, liberdade e igualdade no discurso da Stoá em
Roma (Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2009).
2
Graduado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG. Mestrando em Direito e Justiça no Programa
de Pós-Graduação em Direito da Faculdade de Direito da UFMG. Linha de Pesquisa: Direito, Razão e
História. Projeto de Pesquisa: Hermenêutica como Instrumento de Realização da Justiça, sob orientação
do Professor Doutor Andityas Soares de Moura Costa Matos.

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1. Introdução
A doutrina filosófica do estoicismo se inseriu na sociedade romana imperial quando
se aplicou sua noção universalista de justiça ao Direito Romano, “concebendo a liberdade
como pura interioridade do ser pensante e a igualdade como atributo que identifica a razão
humana e a razão divina”.3 Orientado pela filosofia estoica, o ius romanum experimentou
grandes evoluções nos institutos que envolvem as pessoas, a família, a propriedade, a
sucessão, os testamentos, a justiça civil e a justiça criminal.4 Ressalte-se, porém, que tais
novidades jurídicas não poderiam acontecer sem a atuação dos juristas e imperadores que,
aliando sua orientação filosófica ao poder político, conseguiram humanizar os antigos – e
rígidos – institutos de Direito, para aproximá-los do ideal de justiça estoico, que preza a
igualdade, a liberdade e a universalidade. O presente artigo pretende analisar as inovações
introduzidas no Direito Romano pelo imperador Marco Aurélio, reconhecido historica-
mente por sua convicta orientação estoica.5 Mais especificamente, pretende-se analisar as
decisões de Marco Aurélio em Direito de Família – acerca da condição da mulher e dos
filhos – e no Direito à Liberdade – no que tange à situação jurídica dos escravos.
Para possibilitar a ampla compreensão do tema ora proposto, o artigo oferecerá, pri-
meiramente, um panorama das principais noções filosóficas do estoicismo, sobretudo no
campo da ética. Em seguida, procurará identificar a influência do estoicismo nos princí-
pios do Direito Romano Clássico, que envolvem a noção de justiça e a interpretação jurí-
dica. A partir dessas noções preliminares, o presente trabalho passará ao estudo casuístico
de rescritos do Imperador Marco Aurélio em Direito de Família e Direito à Liberdade.

2. O estoicismo
A escola do estoicismo começou a se desenvolver em 321 a.C. em Atenas, como ins-
tituição erudita e centralizada fundada por Zenão de Cício e desenvolvida pelos filósofos
Cleantes e Crisipo. Sua doutrina inicial é bastante abrangente, dotada de trabalhos volta-
dos para conhecimentos abstratos a partir da criação de conceitos que tentam explicar o
cosmos, a natureza, além das teorias da lógica e da linguagem, buscando, constantemente,
conciliar as formas de conhecimento já existentes. Os estoicos gregos mantêm a unicidade
do mundo, da linguagem e da racionalidade, em um sistema próprio, que funde conceitos
opostos em cada esfera do pensamento, evitando as contradições da lei filosófica com a
realidade grega.
Uma das principais contribuições filosóficas do estoicismo foi o desenvolvimento da
Ética, baseada no conceito da vida conforme a natureza, ou seja, “a ativa conformação de

3
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 4.
4
LAFERRIÈRE, Louis Firmin Julien. Mémoire concernant l’influence du stoicisme sur la doctrine des
jurisconsultes romains. Paris: Elibron Classic Series, 2005, p. 9.
5
BIRLEY, Anthony. Marcus Aurelius: una biografia. Tradotto da Cristina De Grandis. Milano: Rusconi
Libri, 1990, p. 265.

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um agente livre a uma ordem que é desenvolvida intensivamente da tendência à razão”.6
Viver conforme a natureza seria, para o homem, estar em conformidade com a sua con-
dição interna de ser humano livre e racional e em “harmonia com a Natureza como um
todo”.7 Na fase inicial do estoicismo, predominava a noção de que apenas o sábio, em ple-
na conformidade com a razão, poderia dominar a arte da boa vida, agindo virtuosamente
em todas as áreas de sua vida, estando, dessa forma, imune às doenças da alma.
No campo do pensamento político, a doutrina estoica foi responsável pelo aprofunda-
mento da noção de cosmopolitismo, que já havia sido desenvolvida pela filosofia cínica.
Segundo Zenão, o foco da República não deveria ser um Estado individual ou uma cidade,
mas uma comunidade muito mais ampla, que abarcasse toda a raça humana. A cosmópole
zenoniana não aceita a divisão das pessoas em grupos que seguem diferentes leis políticas,
pois todos devem seguir o mesmo modo de vida e compartilhar uma lei comum.8 Segundo
Cícero, o progresso da sociedade comum dos homens pode ser traçado a partir do amor
natural dos pais em relação aos filhos, que constitui a base do sentimento de fraternidade
entre os homens9. O sábio estoico, portanto, deve sempre preferir a lei comum, ditada
pelos liames naturais entre os homens e baseada na razão, à lei arbitrariamente positivada
pelo legislador.
Devido a seu respeito às tradições, a sua preocupação com a virtude social e à visão da
vida como uma série de deveres que devem ser cumpridos, o estoicismo gozou de grande
aceitação dentre os romanos. A doutrina estoica sofre um processo de aclimatação em
Roma, o que se deve a Panécio, Possidônio e Hécaton. Este “distinguia entre as perfeitas
virtudes teoréticas – sabedoria, justiça, coragem e temperança – e as não teoréticas. Estas
seriam acessíveis a todos os homens, ao contrário das primeiras, exclusivas dos sábios”.10
Assim, pôde-se conceder um caminho de virtudes aos homens comuns, sem alterar o con-
teúdo principal da filosofia estoica, o que foi determinante para a aceitação das ideias do
Pórtico em Roma.
Com a crescente latinização da doutrina, os ensinamentos da Stoá passaram a se vol-
tar mais à vida prática, com Cícero, Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio. Elaborou-se um
sistema humanista próprio, que aliava a eloquência à sabedoria11 e que se fazia por meio
de uma produção fortemente retórica voltada, sobretudo, aos interesses forenses: era ne-
cessário à sua doutrina, “ao mesmo tempo em que tocava o coração, ser convincente e
persuasiva”.12

6
ILDEFONSE, Fréderique. Os estóicos I: Zenão, Cleantes, Crisipo. Tradução de Mauro Pinheiro. São
Paulo: Estação Liberdade, 2007, p. 144.
7
SELLARS, John. Stoicism. Berkeley: University of California Press, 2006, p. 125.
8
SELLARS, John. Stoicism. Berkeley: University of California Press, 2006, p. 129.
9
CÍCERO, Marcus Tullius. De finibus, XIX. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University
Press, 1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_finibus.htm>. Acesso em: 18 maio
2011.
10
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 57.
11
BRIDOUX, André. Le stoicisme et son influence. Paris : Librairie Philosophique, 1966, p. 158.
12
BRIDOUX, André. Le stoicisme et son influence. Paris : Librairie Philosophique, 1966, p. 158.

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Alia-se a filosofia à política, pois em Roma a utilização de preceitos filosóficos para
fins “apolíticos sob a forma de literatura era sinal de debilidade”.13 Ressalte-se que gran-
de parte das figuras políticas romanas passaram a se educar de acordo com preceitos da
filosofia helênica, e a doutrina estoica era o sistema filosófico de maior proeminência nos
altos círculos sociais na Roma imperial. Por essa razão, o estoicismo se insere no sistema
jurídico romano com naturalidade, uma vez que os “romanos viam os gregos como seus
antepassados na seara filosófica [...], assim, nada mais natural para o jurista romano do
que buscar fundamentação última da sua arte jurídica nos ensinamentos dos pais funda-
dores em matéria cultural”.14

3. A influência do estoicismo no direito romano


A doutrina estoica pode ser amplamente aplicada ao Direito Romano graças ao espíri-
to criador de juristas e imperadores de forte orientação filosófica. Mas, antes de uma aná-
lise mais aprofundada das decisões jurídicas de um dos reformadores do ius romanum, o
imperador Marco Aurélio, é importante compreender, em linhas gerais, como se deu a in-
serção da noção de justiça, igualdade e universalidade do estoicismo no Direito Romano.
A influência do Pórtico15 no corpo do Direito em Roma é observável logo nas primei-
ras linhas do Corpus Iuris Civilis, por meio da concepção de Jurisprudência para Ulpia-
no: “Jurisprudência é o conhecimento das coisas divinas e humanas, a arte do justo e do
injusto.”16 Nesse conceito, subjaz a ideia totalizante do Direito, que não pode se limitar
apenas a conhecer a licitude, pois deve tratar também daquilo que é ilícito.
Observa-se nessa máxima grande simetria com a noção de sabedoria ensinada pelo fi-
lósofo Crisipo, como [...] ciência daquilo que se deve fazer, daquilo que não se deve fazer
e daquilo que não se encontra em nenhum dos dois casos, ou ciência daquilo que é o bem,
daquilo que é o mal e daquilo que não é nenhum dos dois, própria do ser vivo racional,
por natureza político [...].17
Ademais, quando Possidônio definiu o que é dialética, usou uma conceituação bas-
tante símile: “Dialética é a ciência do verdadeiro e do falso, e do que não é verdadeiro
nem falso.”18

13
MOMMSEN, Theodor. The history of Rome – book V. Tradução de Purdie Dickinson. 1856. Disponível
em: http://www.gutenberg.org/ebooks/10705. Acesso em: 12 jun. 2011.
14
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 287.
15
Utilizar-se-ão, neste artigo, como sinônimos para “Escola Estoica” os nomes “Stoá” e “Pórtico”. “Stoá” é
o termo que deu nome à escola filosófica do estoicismo, pois o fundador da escola, Zenão, reunia-se com
seus alunos na stoá poikilé, termo traduzido para o português como “pórtico das pinturas”.
16
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 1.1, Tomo 1, p. 6.
17
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 290.
18
DIÔGENES-LAÊRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988. p. 196.

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Ulpiano ensina, em sua caracterização dos aspectos gerais do Direito, que o me-
lhor significado de justiça é “vontade constante e perpétua de dar a cada um o que
é seu”. 19 Os elementos “constância” e “perpetuidade” na definição se relacionam ao
fato de a virtude ser um hábito, na visão dos estoicos, que deve ser praticado incessan-
temente. Dessa forma, a ação do homem justo deve se realizar,“[...] mediante uma es-
colha correta, perseverança, fidelidade e imparcialidade”. 20 Até aqueles que dominam
a teoria nada podem alcançar sem a constância e a firmeza dos atos, pois, na visão de
Cícero, “[...] nem médicos, nem generais, nem oradores podem atingir qualquer sinal
de sucesso sem experiência e prática, não importa quanto conheçam a teoria de sua
profissão [...]”.21
Nessa esteira, a famosa expressão jurídica do Direito Romano, fruto também do
engenho do jurisconsulto Ulpiano, e que pode ser encontrada em muitos livros de
Instituições do Direito Civil moderno: “Estes são os preceitos do Direito: viver ho-
nestamente, não causar danos a outros e dar a cada um o que é seu”. 22 Sem embargo,
essa é uma expressão de direito que decorre da mais pura doutrina estoica.
Viver honestamente significa, de acordo com a Stoá, ater-se à natureza, estar em
conformidade com o logos universal, o que se exprime muito bem na definição de
Diógenes Laércio:
Por isso, o bem supremo pode ser definido como viver segundo a natureza, ou, em
outras palavras, de acordo com nossa própria natureza e com a natureza do universo,
uma vida em que nos abstemos de todas as ações proibidas pela lei comum a todos,
idêntica à reta razão difundida por todo o universo e idêntica ao próprio Zeus, co-
mandante de tudo o que existe. 23

Entretanto, o honeste vivere dos gregos não coincide completamente com o viver
de acordo com a natureza dos romanos, uma vez que estes, dotados de maior prati-
cidade, afirmavam que nem todos os atos lícitos são honestos. 24 Exemplo elucidante
desse entendimento entre os romanos é a conhecida máxima de Paulus: “nem tudo
que é lícito é honesto”. 25
Já o segundo e terceiro princípios, alterum non laedere e suum cuique tribuere,
relacionam-se à concepção de justiça e repartição dos bens sociais, segundo a qual

19
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 1.1, pr., Tomo 1, p. 6.
20
DIÔGENES-LAÊRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 210.
21
CÍCERO, Marcus Tullius. De officiis. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University Press,
1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_officiis.htm>. Acesso em: 18 jun. 2011.
22
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 1.1.6, Tomo 1, p. 6.
23
DIÔGENES-LAÊRTIOS. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988, pp. 201-202.
24
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 293.
25
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto,50.17.144, tomo 3, p. 943.

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deve-se atribuir a cada pessoa aquilo que de direito é seu, conforme a visão de Andi-
tyas Matos:
Diferentemente do primeiro conceito, o alterum non laedere não possui significação
individual, mas coletiva, eis que busca regular as relações sociais entre os cidadãos. Em
suma, ele nos manda tratar o homem como homem, respeitando os seus direitos priva-
dos, dentre os quais sobressai a liberdade e a sua expressão concreta, a propriedade. Esta
também é tutelada pelo suum cuique tribuire, preceito que confere relevo à proteção do
que pertence a cada um segundo a justiça, determinando, no direito positivo, o respeito
às obrigações.26

Em linhas ainda mais gerais, Alexandre Correa afirma que a consciência da pree-
minência dos fins coletivos que se realizam sem violentar a liberdade individual, dando-
lhe, pelo contrário, a mais alta expressão,
inspira, igualmente aos estoicos a nova teoria do Direito, que sobrepõe a equidade ao
exame do elemento subjetivo e moral à letra da lei, reclamando, em todas as relações
jurídicas, a observância dos princípios morais invariáveis e permanentes que decorrem
da natureza humana.27

Dessa forma, é certo inferir que os preceitos alterum non laedere, e suum cuique
tribuerenão podem derivar senão da concepção universalista desenvolvida pelos estoicos
antigos, que passa a ter uma característica utilitária e afeita ao Direito positivo em Roma.
O universalismo da Stoá se consolida no ius romanum no respeito aos direitos coletivos,
que devem se manifestar sem prejuízo às liberdades privadas.
Em termos mais práticos, no campo da aplicação do direito, é possível dizer que o
estoicismo arrefece as instituições jurídicas, sendo força fundamental no processo de hu-
manização no tratamento dos escravos e na despatriarcalização da posição da mulher na
sociedade. Isso porque os juristas passaram a basear seu entendimento na noção estoica
de lei comum, que passou a prevalecer no Direito Romano clássico:
[...] a noção de que o Direito Romano deveria se tornar uma lei comum (koinòs nómos),
o que impediu os romanos de transformarem o seu sistema jurídico em um ordenamen-
to mecânico e rotineiro que apenas servisse para a defesa de privilégios de casta. Ao
contrário, conscientes da missão universalizante de seu direito, os juristas da República
começaram a concebê-lo como um sistema de princípios aptos a harmonizar as contra-
dições intrínsecas ao próprio ordenamento, sobressaindo a ideia de equidade posta pelo
direito pretoriano.28

26
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 294.
27
CORRÊA, Alexandre Augusto de Castro. O estoicismo no direito romano. 1950. 123 f. Dissertação para o
concurso à Livre Docência de Direito Romano. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São
Paulo, 1950, p. 37.
28
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 296.

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A ideia de preeminência dos fins coletivos surge no Direito Romano em oposição à
normatividade estrita da Lei das XII Tábuas, automática, arbitrária e a serviço do patri-
ciado. Cícero, em declaração de não conformismo, defende que as leis constitucionais são
criadas visando igualdade entre os homens, para que todos falem com a mesma voz, e as-
severa que o Direito que não se orienta pela equidade não pode ser chamado de Direito.29
Quebra-se a legitimidade do Direito anterior, e começa a prevalecer o ethos estoico, que
considera a necessidade de alcançar um resultado justo, que evite o rigor jurídico excessi-
vo, conforme a expressão célebre: “summum ius summa iniuria”.30 Daí vem o fundamento
a partir do qual a Jurisprudência utiliza uma lógica própria, orientada axiologicamente:
A lógica está na base da Ciência do Direito como na de qualquer outra ciência; porém a
iurisprudentia não é uma ciência de pura lógica, mas de justiça. Por isso, os juristas têm
a sua lógica, no sentido de que os seus argumentos estão sempre orientados e informa-
dos por considerações de justiça; e com este alcance, a sua lógica é inexorável; não se
presta a incertezas. Os princípios e as regras de Direito Romano Clássico nunca se apli-
cam mecanicamente, com uma lógica pura, inflexível, pois os iurisprudentes compreen-
diam bem que isso podia conduzir, por vezes, a um resultado aberrante e inoportuno.31

Dotada da lógica de justiça, a interpretação no Direito Romano apela à medição en-


tre o “direito positivo e o direito que radica na consciência jurídica coletiva, diferente
da compreensão exegético-positivista que se impôs desde os começos do século XIX”.32
Impera, portanto, a concepção de Direito Natural, o mesmo que vis naturae para Cícero e
lex naturae para Sêneca.33 Os juristas fazem do direito uma ciência de aplicação de caráter
racional, servindo-se da teoria para dirigir e modificar a vida cotidiana. Foi promovendo
uma aliança constante entre a teoria e a prática que esses juristas moldaram seu gênio
criativo, tornando-se “legisladores da sociedade civil no mundo romano e verdadeiros
fundadores da ciência do direito tanto do mundo antigo quanto da modernidade”.34
A partir dessa concepção, é relevante que se volte a atenção àquelas pessoas que,
investidas da autoridade estatal, puderam dar força jurídica às próprias convicções, mo-
dificando as instituições de um império de enormes proporções e influenciando o Direito
até os dias de hoje. Assim, a efetivação dos direitos radicados na consciência coletiva
dependia intrinsecamente da mediação dos agentes políticos e dos intérpretes do direito.
O presente trabalho passa, portanto, ao estudo das inovações no ius romanum trazidas
pelo imperador Marco Aurélio, governante do Império Romano entre 161 a.C e 180 d.C.,
especificamente, nos casos jurídicos em que o imperador decidiu em última instância,

29
CÍCERO, Marcus Tullius. De officiis, II, 12. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University
Press, 1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_officiis.htm>. Acesso em: 19 jun. 2011.
30
CÍCERO, Marcus Tullius. De officiis, I,10,33. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University
Press, 1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_officiis.htm>. Acesso em: 19 mar.
2011.
31
CRUZ, Sebastião. Direito Romano (Ius Romanum). 4. ed. Coimbra: Dis Livro, 1984, p. 288.
32
JUSTO, A. Santos. Direito Privado Romano – I. 4. ed. Coimbra: Coimbra Editora. 2008, p. 53.
33
LAFERRIÈRE, Louis Firmin Julien. Mémoire concernant l’influence du stoicisme sur la doctrine des
jurisconsultes romains. Paris: Elibron Classic Series, 2005, p. 20.
34
LAFERRIÈRE, Louis Firmin Julien. Mémoire concernant l’influence du stoicisme sur la doctrine des
jurisconsultes romains. Paris: Elibron Classic Series, 2005, p. 24.

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possibilitando a aplicação dos princípios de universalismo, igualdade e liberdade estoicos
para humanizar a família romana ou a situação jurídica dos escravos.

4. Os rescritos de Marco Aurélio


A estrutura institucional da Roma imperial não previa a distinção entre os três poderes
do Estado, como se dá nos Estados ocidentais contemporâneos. Na verdade, o imperador
concentrava tanto o poder de julgador em última instância, como o poder de legislar dire-
tamente, pelas constituições imperiais. O princeps exercia o papel de positivador de direi-
to por meio da outorga das Constituições Imperiais, “lex em que se manifesta a vontade
do imperador”.35 Nessa esteira, Ulpiano afirma que “o que agrada o príncipe tem força
de lei”,36 ou seja, a lex decorre da vontade e gênio criador do imperador. Quanto à forma
de sua manifestação jurídica, as Constituições Imperiais podiam ser éditos, mandatos,
decretos ou rescritos, passando a valer como fonte de direito caso contivessem preceito
inovador ou contrário à normatividade vigente.
Rescritos do imperador, segundo Moreira Alves, são:
[...] respostas que, sobre questões jurídicas, o imperador dava a particulares, ou a magis-
trados e a juízes; no primeiro caso eram subscriptiones, porque eram escritas abaixo da
pergunta, para que a resposta desta não se separasse; no segundo, epistulae, pois eram
redigidas em carta.37

A designação de processo per rescriptum princeps era apenas possível nas seguintes
hipóteses: quando a questão litigiosa não estava sujeita à jurisdição ordinária; caso a re-
solução do litígio fosse duvidosa, quer pela confusão do direito existente, quer pela difi-
culdade de aplicá-lo ao caso correto; na hipótese de inexistência de norma jurídica aplicá-
vel.38 Em linhas claras, os rescritos são respostas a casos particulares que, em forma, são
semelhantes às sentenças judiciais em Direito Civil dos dias de hoje: apresentam os fatos,
demonstram os direitos e prolatam a decisão. Já quanto à capacidade de vincular todo
ordenamento, seria correto compará-los aos Acórdãos de Suprema Corte Constitucional.
Os rescritos imperiais, além de decidir casos concretos, passavam a ser utilizados
como padrão interpretativo para novos casos – isso porque possuíam força legal. No caso
específico dos rescritos de Marco Aurélio, há uma rica oportunidade para a Filosofia do
Direito: é possível analisar as decisões que partiram do gênio criador daquele que era
conhecido como imperador-filósofo, de orientação reconhecidamente estoica, único dos
estadistas romanos a deixar um legado à filosofia estoica: as Meditações – um clássico do

35
JUSTO, A. Santos. Direito Privado Romano – I. 4. ed. Coimbra: Coimbra Editora. 2008, p. 87.
36
“Quod principi placuit, legis habet vigorem” (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann
y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto,
1.4.1)
37
ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. 14. ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2007, p. 39.
38
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Codex, 1.21 e 1.22.6.

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estoicismo imperial. Seguindo as lições de Sêneca,39 Marco Aurélio não resumia suas con-
vicções filosóficas ao campo meramente reflexivo, elaborando rescritos em que conferia
caráter prático aos ensinamentos da Stoá, muitas vezes contra o rigor do Direito Romano,
visando à humanização dos institutos jurídicos. Necessário ressaltar que Marco Aurélio
faz parte de um momento único da história romana, quando houve a sucessão ininterrupta
de cinco governantes “honestos, trabalhadores e patrióticos”,40 na denominada Era dos
Antoninos.41

4.1. Rescritos sobre direito à liberdade


Neste ponto do trabalho, serão estudados os rescritos imperiais de Marco Aurélio que
tratam da situação jurídica dos escravos em Roma. A escravidão, apesar de não consistir
na única fonte laboral da Roma antiga, era elemento essencial na cultura e na economia
do Império Romano. Considerando esse aspecto obscuro da sociedade e visando a uma
maior humanização da situação do escravo, Ulpiano ensina a seguinte ficção jurídica: “A
escravidão é uma instituição do direito das gentes, pela qual alguém é submetido, contra
a natureza, ao domínio de outro.”42 Por isso, o escravo não é qualificado no Corpus Iuris
como uma besta humanoide, mas como um ser sujeito a deveres, protegido pelo direito, ao
qual devia o senhor dispensar um tratamento minimamente piedoso. Embora nao propu-
sessem a abolição imediata desse instituto social, os estoicos romanos tratavam-no como
essencialmente contrário à natureza,43 sendo correto ao mestre “tratar os escravos como
se trata os empregados”.44
Posto isto, passemos ao estudo dos rescritos de Marco Aurélio em Direito à Liberdade.
O caso do testamento de Valerio Nepote,45 de interpretação bastante complexa, che-
gou ao conhecimento do imperador, sendo posteriormente transmitido no Digesto pelas
palavras do jurisconsulto Marcello. Em um determinado momento de sua vida, o cida-
dão romano Valerio Nepote fez testamento, no qual instituiu herdeiros, deixou legados e

39
As obras de Sêneca, considerado o grande filósofo da Roma imperial, eram ostensivamente estudadas
por Marco Aurélio, segundo seu próprio testemunho dado a seu correspondente e professor de retórica
Frontão. FRONTO, Marcus Cornelius, The Correspondence with Marcus Aurelius Antoninus. Cambridge:
Harvard University Press, p. 29.
40
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.
p. 68.
41
Os imperadores Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio foram responsáveis por um
momento de relativa paz interna no Império Romano, em que se consolidaram os limites do Império,
desenvolveram-se as artes e a cultura. É possível afirmar que se tratou do apogeu territorial, econômico e
cultural de Roma.
42
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 1.3.2, Tomo 1, p. 9.
43
ARNOLD, Edward Vernon. Roman Stoicism. Cambridge: Harvard University Press, 1911, p. 279.
44
CÍCERO, Marcus Tullius. De Officiis. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University Press,
I.13.41.
45
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 28.4.3.

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3
manumitiu46 alguns escravos. Em momento posterior, o próprio testador apagou do tes-
tamento o nome de todos os herdeiros, bem como o nome de apenas um dos escravos
manumitidos, deixando o restante intacto.
Importante ressaltar que, no direito vigente à época, era considerado revogado o testa-
mento caso o próprio testador destruísse o instrumento, rompesse o selo das testemunhas
ou se simplesmente apagasse o nome dos herdeiros instituídos.47 Portanto a aplicação
lógica rigorosa do direito deveria determinar que fossem também canceladas as manu-
missões, e todos os bens fossem arrecadados pelo Fisco na condição de caducos, isso
porque, sendo considerado inválido o instrumento do testamento, também se invalidariam
as manumissões nele contidas.
Ver-se-á, portanto, que a decisão prolatada não foi uma aplicação silogística do direito
vigente. Marcus Aurelius analisa primeiro a parte do instrumento em que o testador insti-
tuíra herdeiros e que foi totalmente apagada. Nesse ponto, não restou dúvida ao julgador,
que decidiu a favor do Fisco romano, dando pleno efeito à manifestação de vontade do
testador: “Valerio Nepote, tendo mudando de vontade, abriu seu testamento e apagou o
nome dos herdeiros; segundo a Constituição de meu Divino Pai, não parece que sua he-
rança pertença aos que tinham sido anteriormente instituídos.”48
Dessa forma, foi reconhecida a caducidade dos bens, que passaram a integrar o patri-
mônio público. Resta clara a tendência de que, em se tratando de direitos patrimoniais, o
direito de arrecadação do Fisco advindo da caducidade dos bens deveria prevalecer sobre
o interesse patrimonial das partes que tiveram seus nomes apagados do testamento.
Faltava ainda decidir acerca da validade do restante do testamento, ou seja, os legados
que não tinham sido apagados e as manumissões. Em respeito ao princípio do contra-
ditório, há muito tempo consagrado no Direito Romano, o imperador chamou à fala os
advogados do Fisco e o advogado de um dos legatários:
E aos advogados do fisco Marco disse: “vos parece que aquele que apagou o nome dos
herdeiros queria que valesse o testamento?” Cornelio Prisciano, advogado de Ladeão [o
legatário] disse: “o testador apagou somente o nome dos herdeiros.” Calpunio Longino,
advogado do Fisco, disse: “não pode ser válido testamento algum que não tenha herdei-
ro.” Prisciano retrucou: “mas o herdeiro manumitiu alguns escravos e deixou legados.”49

46
Manumissão, no Direito Romano significa a concessão da liberdade ao escravo, que pode ocorrer mediante
o pagamento do próprio escravo pelo seu valor de compra, pela liberalidade do proprietário ou por
determinação testamentária.
47
ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 121.
48
“Cum Valerius Nepos mutata voluntate et inciderit testamentum suum et heredum nomina
induxerit, hereditas eius secundum divi patris mei constitutionem ad eos qui scripti fuerint
pertinere non videtur”. (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas
de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 28.4.3.)
49
“Et advocatis fisci dixit: ‘Vos habetis iudices vestros’. Vibius Zeno dixit: ‘Rogo, domine
imperator, audias me patienter: de legatis quid statues?’ Antoninus Caesar dixit: ‘Videtur tibi
voluisse testamentum valere, qui nomina heredum induxit?’ Cornelius Priscianus advocatus
Leonis dixit: ‘Nomina heredum tantum induxit’. Calpurnius Longinus advocatus fisci dixit:
‘Non potest ullum testamentum valere, quod heredem non habet’. Priscianus dixit: ‘Manumisit
quosdam et legata dedit.’” CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen.
Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 28.4.3.

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De um lado, os advogados do Fisco defendiam a invalidade do testamento, sob o ar-
gumento de que a exclusão dos herdeiros afetava o instrumento como um todo, seguindo
o entendimento jurídico vigente. De outro lado, o advogado do legatário afirmava que a
existência de outras manifestações no instrumento apontaria sua validade. Marco Aurélio
assim decidiu:
O caso presente parece-me que admite a mais humana interpretação, para que julgue-
mos que Nepote quisera tornar inválido apenas o que apagou. “Apagou também o nome
do escravo que quisera que fosse livre”. Antonino respondeu, por rescrito, que aquele
escravo, sem embargos, deveria ser livre, o que certamente determinou a favor da liber-
dade.50

Resta claro que o imperador utiliza o já então consagrado princípio da autonomia da


vontade para declarar a invalidade dos pontos que o testador apagou. Entretanto mesmo
esse princípio fundador do ius civile não pôde prevalecer sobre a causa da liberdade, em
sua concepção. Ou seja, uma vez declarada a manumissão em testamento, esta não pode
ser invalidada em momento posterior, consagrando a liberdade como valor inatacável,
mesmo se opondo a antigos valores de base civilista. Há, neste caso, aplicação do princí-
pio de ius libertatis, de inspiração estoica, que determina que “na dúvida, deve-se privile-
giar a interpretação que realiza a liberdade”.51
O imperador Marco Aurélio aplicou o Direito de forma heterodoxa em outras oportu-
nidades, sempre visando privilegiar a causa da liberdade em detrimento de qualquer outra.
Destaque-se o caso da Sucessão de Virginio Valente52, em que um cidadão romano deixou
testamento no qual libertava escravos, uns por manumissão direta – sem estabelecer qual-
quer condição – e outros por meio da manumissão por fideicomisso.
A manumissão por fideicomisso era figura jurídica típica do Direito no império e
ocorria quando “o proprietário, em testamento, ao invés de declarar diretamente que, de-
pois de sua morte, o escravo se tornaria livre, recomendava ao herdeiro que o libertasse, o
que fazia com que o escravo somente se tornasse livre quando o herdeiro lhe concedesse
a alforria”.53
Entretanto, no momento do falecimento de Virginio Valente, não lhe restava nenhum
herdeiro dentre os contemplados em testamento. Mais uma vez, o direito vigente deveria
determinar que fosse invalidado todo o testamento, prejudicando os escravos manumiti-
dos em seu direito à liberdade. Mais que isto, os bens passariam à tutela de um adminis-
trador do Estado, que deveria vendê-los, arrecadando o valor ao Fisco.

50
“Causa praesens admittere videtur humaniorem interpretationem, ut ea dumtaxat existimemus
nepotem irrita esse voluisse, quae induxit”. Nomen servi, quem liberum esse iusserat, induxit.
Antoninus rescripsit liberum eum nihilo minus fore: quod videlicet favore constituit libertatis.”
(CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García
Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 28.4.3)
51
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 308.
52
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta 3.11.1
53
ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 820.

PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 3


5
Mas, na decisão dada em rescrito, o imperador determinou a libertação dos escravos
que receberam a manumissão direta, como se a herança tivesse sido aceita por herdeiro
constituído em testamento. Foi aplicado, em relação aos escravos manumitidos direta-
mente, o instituto da adiction bonorum, “pelo qual o escravo se colocava no lugar do
herdeiro para conseguir a liberdade per universitatem”,54 garantido em forma de princípio
nas Instituições de Gaius: “Uma nova forma de sucessão aparece através de uma Consti-
tuição do Divino Marco. Aqueles que forem libertados pelos seus donos em testamento
não aceito pelos herdeiros, deverão receber a propriedade para que sua liberdade possa
ser preservada”.55
Não apenas isso, o imperador ainda determinou ao administrador dos bens que
“aqueles a que se rogou ao herdeiro que tivessem sido manumitidos, conseguirão por ti
a liberdade”.56 O Fisco, nesse caso, poderia ter percebido maiores arrecadações com a
venda dos escravos, mas essa, na interpretação do imperador, não seria a decisão mais hu-
mana. Marco Aurélio considerava a liberdade um bem superior, como declara no rescrito:
“a causa da liberdade deve ser preferida em relação a uma vantagem pecuniária”.57
Em outro rescrito semelhante, no caso do escravo Tofimo,58 tem-se uma liberdade
concedida por fideicomisso a um escravo cuja função era administrar as contas de deter-
minado cidadão romano. Com a morte do dono, pairaram as seguintes dúvidas: o escravo
deveria ser manumitido antes ou depois da prestação de contas? E, ainda, deveria ser
obrigado a restituir eventuais diferenças no patrimônio, no caso de má administração? O
rescrito responde a essas perguntas de forma bastante clara, conforme se vê no texto de
Ulpiano:
Se tiver sido dada a liberdade puramente desejada por fideicomisso, sabendo-se que
o escravo tinha administrado contas, respondeu por rescrito o Divino Marco, que não
havia de demorar a liberdade, mas sim que imediatamente se deveria nomear árbitro que
examinasse as contas. Dizem assim as palavras do rescrito: “Parece mais equitativo que,
por razão de fideicomisso, seja dada a Tofimo a liberdade, que se sabe, foi dada a ele
sem a condição de prestar contas: e não seria humano que por uma questão pecuniária se
causasse mora à liberdade; mas, decretada esta, o Pretor deverá nomear imediatamente
um árbitro, ante o qual o escravo preste com fidelidade a conta, tendo em vista que ad-

54
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 310.
55
“Accessit novus casus successionis ex constitutione divi Marci. nam si hi qui libertatem
acceperunt a domino in testamento, ex quo non aditur hereditas, velint bona sibi addici
libertatium conservandarum causa, audiuntur”.(CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel,
Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898.
Institutiones, 3.9.1)
56
“[...] hi autem quos heres rogatus est manumittere a te libertatem consequantur [...]” (CORPUS
IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral.
Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Institutiones 3.11.1)
57
“[...] commodo pecuniario praeferendam libertatis causam”. (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad.
Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-
1898. Instituta 3.11.1)
58
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 40.5.37.

36 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010


ministrou”. Assim, pois, será ele obrigado a prestar contas; mas nada se adiciona sobre
se deverá restituir também os restantes; e não creio que tenha que ser obrigado; pois
depois de obtida a liberdade não pode ser demandado pelo que fez durante a escravidão.
Mas deve ser obrigado pelo Pretor a restituir os documentos das contas e as coisas e
quantidades que delas retêm, e também a dar explicação sobre cada coisa.59

Vê-se, nesse caso, novamente, a consonância da decisão em rescrito com o ideário


estoico, que garante a igualdade entre os homens e que se manifestou claramente no Di-
reito Romano, no princípio de prevalência da condição menos onerosa para a concessão
da liberdade.
Em uma lição de Papiano, relata-se um caso em que o Imperador garantiu mais um
avanço ao direito à liberdade. Frente à proibição constitucional de manumitir escravo
que se encontrasse na prisão, Marco Aurélio admitiu uma exceção, garantindo que se “a
liberdade tiver sido dada em testamento, e no tempo da prisão, com razão deverá constar
que foi manumitido”.60
Para chegar a essa conclusão, lançou mão de um complexo raciocínio jurídico, com-
parando o caso a uma manumissão testamentária concedida a um escravo dado em garan-
tia. O direito então vigente determinava que, uma vez liberada a garantia, deveria ser li-
bertado o escravo. A prisão e a garantia seriam uma condição analogicamente equivalente.
Dessa forma, uma vez extinta a pena de prisão, o escravo poderia ser libertado.
Essa sofisticada analogia iuris demonstra que o imperador sabia bem que o Direito
Romano, que sempre legitimou a escravidão, também fornecia elementos interpretativos
para legitimar a liberdade. A analogia iuris, meio de interpretação jurídica de influência
helênica, decorre da prevalência da equidade no Direito Romano. A doutrina estoica, se-
guida com firmeza por Marco Aurélio, defendia que a igualdade entre os homens se justi-
ficava tanto pelo conhecimento da Física – pois todos os homens compartilham o mesmo
pneuma, ou força vital –, quanto pela noção política de cosmópolis e de lei comum.
O caso do escravo Primitivo,61 reportado pelo jurisconsulto Ulpiano, é também rico
em inovações. Aqui se analisa a situação legal de um escravo que se confessou autor de

59
“Si pure data sit fideicommissa libertas et is servus rationes administrasse dicatur, divus
Marcus rescripsit moram libertati non esse faciendam, ex continenti tamen arbitrum dandum
esse, qui computationem ineat. Verba rescripti ita se habent: “Aequius videtur Trophimo ex
causa fideicommissi praestari libertatem, quam sine condicione reddendarum rationum datam
esse constat, neque humanum fuerit ob rei pecuniariae quaestionem libertati moram fieri. Qua
tamen repraesentata confestim arbiter a praetore erit dandus, apud quem rationem, quam
administrasse eum apparuit, ex fide reddat”. Tantum igitur rationes reddere cogetur. Sed an
et reliqua restituere debeat, nihil adicitur, nec puto cogendum: nam de eo, quod in servitute
gessit, post libertatem conveniri non potest. Corpora plane rationum et si quas res vel pecunias
ex his detinet cogendus est per praetorem restituere: item de singulis instruere.” (CORPUS
IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral.
Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 40.5.37)
60
“Plane si testamento libertas data sit et eo tempore, quo aditur hereditas, tempus vinculorum
solutum sit, recte manumissus intellegetur”. CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann
y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto,
40.19.33.
61
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 48.18.27.

PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 3


7
um homicídio que não cometera e que perseverava em sua falsa demonstração, temendo
voltar ao poder de seu antigo dono.
Quando Volconio Saxa, o Governador da Província62, interrogou os supostos cúm-
plices do crime, descobriu que Primitivo havia mentido “temerariamente a seu próprio
respeito”, entendendo que a melhor saída seria ser condenado, para não sofrer um severo
castigo de seu proprietário. Ante o caso, Marco Aurélio ordenou a Saxa: [...] podes, pois,
fazer-lhe a graça do decreto, e mandar que seja desalgemado por ofício, adicionando a
condição de que nunca volte ao poder de seu senhor, o qual temos por certo que, tendo
recebido o preço, estará privado de bom grado de tal escravo [...].63
Inicialmente, o imperador decidiu pela invalidade da falsa confissão, pois, para a
doutrina do estoicismo, as declarações são palavras vazias quando não correspondem ao
estado físico da alma. Também determinou que o escravo não mais voltasse ao poder do
antigo dono, considerado injusto e desumano. Desse rescrito, Ulpiano retira uma valiosa
nova regra processual: “[...] o Governador da Província não pode restituir a liberdade
àquele que condenou, porque não pode revogar sentença sua ainda que seja pecuniária.
Então que se dirá? Que deve escrever ao príncipe, caso depois lhe conste a inocência de
alguém que parecia culpado”.64
Aparece uma regra nova, em que se faculta ao Governador da Província requerer a re-
vogação de seus próprios atos pelo Imperador, visando à reparação de injusta condenação
de inocente. Tem-se luminosa demonstração da tendência simplificadora que as ideias do
Pórtico operaram sobre o sistema de Direito Romano, que foi progressivamente perdendo
seu formalismo em favor das concepções de Direito Natural.
A sucessão de rescritos favoráveis à causa da liberdade, concedidos por Marco Auré-
lio, ampliou o direito dos escravos, evidenciando a prevalência da liberdade sobre quais-
quer outras causas. O termo “Constituição do Divino Marco” passou a ser paradigma
interpretativo para os juristas cujas obras estão compiladas no Corpus Iuris, mais especifi-
camente no título que trata das liberdades dadas por fideicomisso. Ademais, é visível que
os rescritos de Marco Aurélio são invocados com grande frequência pelos jurisconsultos
romanos, sobretudo em causas em que decidem a favor da liberdade, em diversas passa-
gens do Digesto.65

62
O Governador da Província exerce poder sobre território não totalmente pacificado fora da Península
Itálica, sendo indicado diretamente pelo imperador. Possui, além de imperium, iurisdictio, aplicando as
normas de Direito Romano nos pleitos entre indígenas da cidade, adaptando o direito clássico à realidade
da província. CRUZ, Sebastião. Direito Romano (Ius Romanum). 4. ed. Coimbra: Dis Livro, 1984, p. 76.
63
“Potes itaque decreti gratiam facere et eum per officium distrahi iubere, condicione addita,
ne umquam in potestatem domini revertatur, quem pretio recepto certum habemus libenter tali
servo cariturum” (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de
Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 48.18.27)
64
“Sed praeses provinciae eum quem damnavit restituere non potest, cum nec pecuniariam
sententiam suam revocare possit. Quid igitur? Principi eum scribere oportet, si quando ei, qui
nocens videbatur, postea ratio innocentiae constitit”. CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel,
Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898.
Digesto, 48.18.27.
65
Nesse sentido, ver: CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de
Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 40.3.2; 40.4.5; 40.4.56; 40.5.2;
40.5.3; 40.5.30.16; 40.5.37; 40.8; 40.9.17; 40.9.30; 40.16.2.

38 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010


Seguindo essa tendência pró-liberdade, os juristas romanos desenvolveram algu-
mas regras de interpretação que foram compiladas por Laferière:66
(i) “É dito vulgarmente que, dada a liberdade sob várias condições, atender-se-á à
condição mais leve, se as condições tiverem sido fixadas separadamente [...]”67

(ii) “Sempre quando duvidosa a interpretação relativa à liberdade, deve-se responder a


favor da liberdade.”68

(iii) “Muitas coisas são constituídas contra o rigor do direito e em favor da liberdade.”69

(iv) “[...] uma vez proferida a sentença a favor da liberdade, esta não deve ser revogada.”70

Neste item do trabalho, pôde-se compreender, a partir do estudo de alguns casos,


que as evoluções no Direito à Liberdade partiram de conclusões racionalmente pondera-
das, com base em um conhecimento filosófico que prima pela universalidade, igualdade
e conformidade à natureza. No próximo item será demonstrado que essas mesmas con-
cepções do estoicismo também tiveram um papel reformador nos institutos jurídicos de
Direito de Família.

4.2. Rescritos sobre Direito de Família


A família romana, rígida e baseada na autoridade do pater familias passou por um
processo de despatriarcalização sob a influência do Pórtico, principalmente no que tange
à situação da mulher e dos filhos. O princípio da autonomia individual sob a influência
do estado passa a prevalecer sobre o poder pátrio e sua vontade despótica, conciliando os
direitos naturais invioláveis da família com o exercício do poder paterno e do poder de
testar.71
Na fase romana do estoicismo, Cícero identifica que, depois do dever moral à família,
o maior de todos é aquele que se deve dispensar aos pais, “pelos serviços que nos pres-
taram sob a mais pesada obrigação”,72 aos filhos e ao resto da família, “que dependem

66
LAFERRIÈRE, Louis Firmin Julien. Mémoire concernant l’influence du stoicisme sur la doctrine des
jurisconsultes romains. Paris: Elibron Classic Series, 2005, p. 33.
67
“Vulgo dicitur sub pluribus conditionibus data libértate levissimam condictionem spectandam esse”.
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 40.4.45, Tomo 3, p. 225.
68
“Quotiens dubia interpretatio libertatis est, secundum libertatem respondendum est”. CORPUS IURIS
CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona:
J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 50.17.20, Tomo 3, p. 946.
69
“Multa contra iuris rigorem pro libertate sunt constituta”. CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel,
Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898.
Digesto, 40.5.24, Tomo 3, p. 231.
70
“Semel pro libertate dictam sententiam retractare non oportet” CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad.
Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-
1898. Digesto, 4.3.24, Tomo 1, p. 358.
71
LAFERRIÈRE, Louis Firmin Julien. Mémoire concernant l’influence du stoicisme sur la doctrine des
jurisconsultes romains. Paris : Elibron Classic Series, 2005, p. 69.
72
CÍCERO, Marcus Tullius. De officiis. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University Press,
1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_officiis.htm>. Acesso em: 18 maio 2011.

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apenas de nós para mantê-los e não podem ter outra proteção”.73 De igual modo, Epicteto
ensina que a afeição familiar é boa e natural, aconselhando ainda que o pai esteja junto ao
leito dos filhos doentes, quebrando o padrão romano de delegar essas tarefas aos servos.74
Sêneca, por sua vez, compara as tarefas do imperador às de um bom pai, admitindo, inclu-
sive, que o filósofo lamente, moderadamente, a perda dos entes queridos.75
Acompanhando a evolução social, passam a ser reconhecidos direitos sucessórios aos
parentes laterais, sendo estes chamados à sucessão após os filhos e os herdeiros legítimos,
admitindo-se na sucessão os parentes naturais até o sétimo grau.76 Igualmente, na época de
influência do estoicismo imperial, o casamento sine manu, formado pelo consentimento,
passa a ter reconhecimento jurídico, uma vez que “a vontade, a intenção entre as partes é
mais importante e deve prevalecer sobre as formas de sua realização”.77
Claro que essas mudanças não vieram a tolher o pátrio poder a ponto de não restar au-
toridade ao senhor da casa, pois “se o filho está sob sua potestade, se não guarda o respeito
devido ao pai, não se lhe proíbe castigá-lo com o direito de pátrio potestade”.78 Contudo
tal poder sujeitou-se a certas limitações, como a vedação ao pai de exercer poder de morte
sobre os filhos adúlteros a partir da Lex Julia de adulteriis, bem como a determinação de
que “os filhos não podem ser transferidos pelos pais, nem a título de venda, nem como
doação, nem por garantia, ou de outro qualquer modo”.79 Segundo o jurisconsulto Marcia-
no, o “pátrio poder deve ser exercido com piedade e não pode consistir em atrocidades”.80
Dadas essas explicações iniciais, passa-se ao estudo individualizado dos rescritos de
Marco Aurélio em Direito de Família.
O caso do matrimônio de Flavia Tertula81 é um bom exemplo de aplicação de prin-
cípios de doutrina estoica para efetivação da justiça no Direito Romano. Trata-se de um
rescrito que julga procedente o pedido de declaração de legitimidade de um casamento
contraído entre Flavia Tertula e seu tio materno.

73
CÍCERO, Marcus Tullius. De officiis. Tradução de Walter Miller. Cambridge: Harvard University Press,
1913. Disponível em: <http://www.constitution.org/rom/de_officiis.htm>. Acesso em: 18 maio 2011.
74
REYDAMS-SCHILS, Gretchen. The roman stoics: self, responsibility, and affection. Chicago: The
University of Chicago Press, 2005, p. 121.
75
REYDAMS-SCHILS, Gretchen. The Roman stoics: self, responsibility, and affection. Chicago: The
University of Chicago Press, 2005, p. 135.
76
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 4.3.24, Tomo 3, p. 358.
77
CORRÊA, Alexandre Augusto de Castro. O estoicismo no direito romano. 1950. 123 f. Dissertação para
o concurso à Livre Docência de Direito Romano. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São
Paulo/SP, p. 90.
78
“Si filius tuus in potestate tua est, res adquisitas tibi alienare non potuit: quem, si pietatem
patri debitam non agnoscit, castigare iure patriae potestatis non prohiberis” CORPUS IURIS
CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral.
Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Codex, 8.46.3, Tomo 3, p. 358.
79
CORRÊA, Alexandre Augusto de Castro. O estoicismo no direito romano. 1950, 123 f. Dissertação para o
concurso à Livre Docência de Direito Romano. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São
Paulo/SP, p. 89.
80
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 48.9.5, Tomo 4, p. 901.
81
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 23.5.7, p.121.

40 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010


No período imperial, o casamento entre cognatícios era vedado “caso um dos parentes
colaterais estivesse afastado um grau apenas do antepassado comum”. 82Como os avós de
Flavia eram também genitores de seu consorte, fica claro que os antepassados comuns
estavam afastados em apenas um grau do marido. Ficava, portanto, caracterizada a exis-
tência de impedimento absoluto ao matrimônio, pois em Roma sequer existia a figura do
impedimento relativo.
O casamento estava eivado do vício do incestum iure civile, o que ensejaria, em regra,
a declaração de nulidade do casamento e a ineficácia dos atos efetivados em matrimônio,
pois a norma então cogente é de que em “Roma, o casamento nulo não produz, em regra,
nenhum efeito”.83 Dessa forma, a decisão juridicamente mais ortodoxa deveria considerar
que os filhos tidos no matrimônio de Flavia Tertula com seu tio materno fossem conside-
rados ilegítimos, pois frutos de casamento nulo de pleno direito.
No entanto o rescrito de Marco Aurélio decide de forma inovadora, contrariando as
regras de Direito de Família em voga:
Nós nos inclinamos a teu favor, tanto pela larga duração do tempo que, ignorando o
Direito, permaneceste em matrimônio com teu tio materno, quanto porque foste casada
por tua avó, tanto pelo número de vossos filhos, e, por isso, concorrendo todas essas
coisas em uma só, confirmamos o estado de vossos filhos tidos neste matrimônio, que se
contraíra há quarenta anos, ao mesmo que se legitimamente tivessem sido concebidos.84

A primeira questão factual analisada por Marco Aurélio no rescrito é o desconheci-


mento do direito pelos consortes, que permaneceram casados por um longo tempo. Certa-
mente, o imperador considera que o casamento fora contraído de boa-fé, sem que houves-
se entre os contraentes a intenção de defraudar o direito. Não há oposição entre a situação
do casal e o princípio jurídico do honeste vivere ou, nos termos do filósofo Crisipo, a vida
conforme a natureza, que é pautada pela virtude.
Em segundo lugar, é apreciado o fato de a avó de Tertula, além de ter conhecimento
do parentesco, ter tomado parte na celebração, o que demonstra sua anuência. Impossível,
segundo o entendimento de Marco Aurélio, portanto, que se levantasse a hipótese de dano
à entidade familiar, uma vez que a celebração ocorreu com plena aprovação daqueles que
supostamente se sentiriam ofendidos, entes protegidos pelas normas de impedimento.
Finalmente, o imperador aborda a questão dos vários filhos nascidos desse matrimô-
nio, pessoas inocentes que sofreriam uma severa diminuição em seu status jurídico caso
fosse declarada a ineficácia da união. O não reconhecimento estaria em desacordo com a
máxima do suum cuique tribuere, uma vez que os filhos viveram toda sua vida acreditan-
do gozar de status de legitimidade.

82
ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 650.
83
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 1.10.12.
84
“Movemur et temporis diuturnitate, quo ignara iuris in matrimonio avunculi tui fuisti, et quod
ab avia tua collocata es, et numero liberorum vestrorum: idcirco que cum haec omnia in unum
concurrunt, confirmamus statum liberorum vestrorum in eo matrimonio quaesitorum, quod
ante annos quadraginta contractum est, perinde atque si legitime concepti fuissent” (CORPUS
IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral.
Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 23.5.7 )

PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 4


1
Considerando a concorrência de “todas essas coisas em uma só” o imperador dá pro-
cedência ao pedido. Destarte, admite que, mesmo que a forma do matrimônio seja contrá-
ria àquela prescrita em lei, o conjunto da obra é benéfico, está de acordo com a natureza,
em um modo de pensar que está ainda mais claro nas suas Meditações: “Até os acidentes
dos produtos da natureza têm sua graça e sedução. [...] Muitos exemplos, embora longe de
um belo aspecto quando examinados em si mesmos, não obstante, como consequências de
obras da natureza, concorrem para a beleza e atração do conjunto”.85
Ademais, o imperador visivelmente procurou prolatar a decisão mais benéfica, que
causasse menor dano, em filiação ao entendimento de que o direito deve servir essencial-
mente à justiça. O direcionamento do Direito de Família à ética estoica fez com que os
ritos e formas fossem perdendo a importância, e o resultado jurídico disso é observado na
definição jurídica de casamento, construída anos depois: “O casamento é união do homem
e da mulher, o consórcio de toda a vida, a comunicação do direito divino e do humano.”86
Tem-se, ainda, como influência do estoicismo no Direito de Família, o aparecimento da
figura do usus, uma forma de matrimônio configurada pelo tempo de convivência, que
dispensa qualquer formalidade (que se assemelha ao moderno instituto da união estável).
Essas modificações decorrem do posicionamento aprendido com a Stoá de que “não há
oposição ontológica entre o direito natural e o direito positivo, de modo que ambos são
espécies de um gênero maior: o direito em geral”.87
No caso da custódia de Domitia88, um marido requer a obtenção de guarda da mulher
da qual havia se divorciado, sob a alegação que ela estaria esperando um filho seu. A base
jurídica do pedido era o poder marital (manus) do marido sobre a esposa, que, com o ca-
samento, passava a participar na família in loco filiae. Entretanto é importante esclarecer
que a extinção do vínculo marital, pela morte, disfarreatio ou remancipatio extinguia tam-
bém a manus. Posto isso, veja-se como se deu a interpretação do caso na íntegra:
Parece que Rutilo Severo [o antigo consorte] deseja uma coisa nova: que se ponha guar-
da à mulher, que dele havia se divorciado, e que assegura que não está grávida. Por isso,
ninguém se admirará se nós também dermos novo conselho e remédio. Assim, se ele
persiste na mesma petição, é mais conveniente que se eleja a casa de uma mulher muito
honesta, à qual vá Domitia, e que ali a inspecionem três parteiras provadas, tanto por
seus conhecimentos, quanto por sua integridade, escolhidas por ti, Pretor. Se, verdadei-
ramente, ou todas, ou duas delas se manifestarem que ela parece grávida, então se deve-
rá obrigar a mulher à guarda, como se ela mesma o tivesse pedido. Se assim não parecer,
considero que isso envolva a má vontade e má estima do marido, de modo que não sem
razão possa se considerar que solicitou isto para inferir alguma injúria à mulher. Isso

85
MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1973. V. 5. 2, p. 279.
86
“Nuptiae sunt coniunctio maris et feminae et consortium omnis vitae, divini et humani iuris
comunicatio” (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de
Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 23.2.1)
87
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 298.
88
CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del
Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Digesto, 25.4.1.

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porque, se todas ou a maioria das parteiras manifestarem que Domitia não está grávida,
Rutilo não terá causa alguma para custodiá-la.89

A determinação de que se realizasse a perícia para determinar se Domitia estava mes-


mo grávida é prova do processo de despatriarcalização do Direito. Isso porque a palavra
do marido em nada superou à da mulher perante o juízo. A ordem de que a verdade fosse
sistematicamente apurada pela perícia está em acordo com o caráter empírico da tarefa
epistemológica do estoicismo, que determina que se aceitem como verdadeiras apenas as
impressões adequadas: aquelas vívidas, claras e distintas; que por si só sejam comprova-
damente acuradas.90
Assim, as ideias de liberdade, personalidade e individualidade contidas no estoicismo
ajudaram a emancipar a mulher, limitando o poder despótico do pater familias. Segundo
Andityas Matos,

[...] o pátrio poder, por exemplo, foi sendo gradualmente limitado pela jurisprudência
clássica, eis que a autoridade de vida e de morte de que o pai gozava no tempo das XII
Tábuas ofendia o princípio básico da dignidade da pessoa humana. O verdadeiro poder
não está na força e na ameaça, ensinam os estoicos, e sim na autoridade moral do sábio.91

Outro aspecto de mudança do período é a progressiva diminuição da instituicionali-


zação da família, a partir da prevalência dos laços naturais em detrimento dos laços agna-
tícios (colaterais maternos), como evidencia o senatus consultus Orfitiano, promulgado
durante o governo de Marco Aurélio. Ressalte-se aqui que, diferentemente dos rescritos,
os senatus consulta são leges de autoria do Senado, mas consideramos oportuno relacio-
ná-lo à convicção pessoal do imperador. Isso porque a própria denominação de princeps
decorre da expressão princeps senatus, ou seja, líder do Senado, que tinha a prerrogativa
de dar a primeira palavra na discussão de qualquer matéria em pauta no Senado.92 Nor-

89
“Novam rem desiderare Rutilius Severus videtur, ut uxori, quae ab eo diverterat et se non
esse praegnatem profiteatur, custodem apponat, et ideo nemo mirabitur, si nos quoque novum
consilium et remedium suggeramus. Igitur si perstat in eadem postulatione, commodissimum
est eligi honestissimae feminae domum, in qua Domitia veniat, et ibi tres obstetrices probatae
et artis et fidei, quae a te adsumptae fuerint, eam inspiciant. Et si quidem vel omnes vel duae
renuntiaverint praegnatem videri, tunc persuadendum mulieri erit, ut perinde custodem
admittat atque si ipsa hoc desiderasset: quod si enixa non fuerit, sciat maritus ad invidiam
existimationemque suam pertinere, ut non immerito possit videri captasse hoc ad aliquam
mulieris iniuriam. Si autem vel omnes vel plures non esse gravidam renuntiaverint, nulla causa
custodiendi erit” (CORPUS IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de
Ildefonso L. García Del Corral. Barcelona: J. Molinas, 1889-1898..Digesto, 25.4.1)
90
SELLARS, John. Stoicism. Berkeley: University of California Press, 2006, p. 64.
91
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 311.
92
WOLFF, Hans Julius. Roman law: an historical introduction. Norman: University of Oklahoma Press,
1951, p. 14.

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3
malmente o princeps “propunha num discurso o projeto, e os senadores sistematicamente
aprovavam”.93 O senatus consultus Orfitiano foi promulgado com a seguinte redação:
[...] é de efeito do senatus-consultus Orfitiano, aprovado no tempo do divino Marco e no
consulado de Orphito e Rufo, que os filhos devem suceder à herança da mãe que morrer
intestada, e que esta herança legal é garantida quer seja filho ou filha, e que têm prefe-
rência sobre os parentes consanguíneos e agnados da falecida mãe [...].94

Ao chamar preferencialmente os filhos à sucessão da mãe natural em relação aos ag-


nados, o senatus consultus Orfitiano traz mais uma inovação, pois, dessa vez, a garantia
jurídica aconteceu com a aquiescência do Senado romano.
A valorização da mãe se insere em um movimento geral de “progressiva equalização
entre homens e mulheres, que se fundava na ética igualitarista da Stoá, para a qual não
há diferenças fundamentais entre ambos os gêneros”,95 que devem se inserir na mesma
categoria de cidadãos da Cosmópolis estoica.

5. Conclusão
Não se propôs, neste trabalho, a ideia de que o imperador Marco Aurélio desejasse
o completo desaparecimento das figuras jurídicas da escravidão ou do pátrio poder, o
que possivelmente tornaria inviável a manutenção do Império Romano. Certamente, as
concepções do estoicismo romano de fase imperial que o motivaram não podem ser consi-
deradas genuinamente revolucionárias; seriam certamente mais adequadamente descritas
como reformadoras, mesmo porque seus idealizadores, em grande maioria, ocupavam
uma posição elevada na hierarquia social romana.
O que motivou Marco Aurélio foi certamente a possibilidade de aplicação da doutrina
filosófica do estoicismo ao mundo jurídico, dando a maior efetividade possível à noção
estoica de igualdade. Isso porque o Imperador não demonstrava em suas cartas pessoais96
qualquer apreço aos rigores excessivos do Direito ou à retórica, mas revelava dedicação
de boa parte de seu tempo livre ao estudo de filósofos estoicos, principalmente Sêneca.
No âmbito do Direito à Liberdade, proferiu decisões que ajudaram a consolidar o
entendimento de que os escravos são de fato sujeitos de direitos, seres racionais que estão

93
Os senatus-consulta passaram a ter força legislativa no Império a partir de Otaviano, permitindo que o
Senado figurasse na nova constituição política como órgão legislativo. A partir de Adriano, já não era
o Senado que estabelecia a norma, mas o imperador. Apresentava-se perante o Senado, propunha num
discurso o projeto, e os senadores sistematicamente aprovavam. CRUZ, Sebastião. Direito Romano (Ius
Romanum). 4. ed. Coimbra: Dis Livro, 1984, p. 74.
94
“[...] senatus consulto Orphitiano effectum est, quod latum est Orphito et Rufo consulibus,
divi Marci temporibus. et data est tam filio quam filiae legitima hereditas, etiamsi alieno iuri
subiecti sunt: et praeferuntur et consanguineis et adgnatis defunctae matris [...]” (CORPUS
IURIS CIVILIS. Ed. e trad. Kriegel, Hermann y Osenbruggen. Notas de Ildefonso L. García Del Corral.
Barcelona: J. Molinas, 1889-1898. Instituta, 3.4)
95
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. O estoicismo imperial como momento da ideia de justiça:
Universalismo, Liberdade e Igualdade no discurso da Stoá em Roma. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009,
p. 298.
96
FRONTO, Marcus Cornelius, The Correspondence with Marcus Aurelius Antoninus. Cambridge: Harvard
University Press.

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sujeitos a uma condição anômala de restrição de liberdade. Aplicou, dessa forma, insti-
tutos inovadores ao Direito Romano, como a adictio bonorum e a analogia jurídica, em
entendimentos que contrariaram o rigor do direito, mas que se conformam à ética estoica.
Já nas ações que envolviam a família romana, as lições da Stoá ensinavam que as conven-
ções artificiais criadas pelo Direito não poderiam prevalecer sobre os laços naturais que
compunham a entidade familiar. Assim, o pátrio poder passa a ser norteado pela piedade,
e não por uma autoridade desmedida. Exemplo disso, o senatus consultus Orfitiano veio
a privilegiar os filhos na sucessão ab intestatio.
Aliando a doutrina do Pórtico à tradicional concepção de mundo romana, Marco Au-
rélio participou de uma tendência histórica de inserção da Filosofia no mundo do Direito.
Do presente estudo, é possível retirar a lição de que os fatores explicativos da evolução
jurídica “estão situados no reino das ideias, crenças positivas e sistemas de normas aceitos
pelos indivíduos”,97 abrindo espaço para que posteriores análises das sentenças, rescritos
e leis em Direito Romano possam ser feitas individualmente, em interpretações que con-
siderem a orientação filosófica dos jurisconsultos e estadistas romanos.

97
SZTOMPKA, Piotr. A sociologia da mudança social. Tradução de Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1998, p. 398.

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5
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