Você está na página 1de 22

Em E. Z. Tourinho & S. V. Luna (Org.

), Análise do comportamento:
investigações históricas, conceituais e aplicadas (pp. 153-174). São Paulo:
Roca.

CAPÍTULO

Análise do
Comportamento e Terapia
Analítico-comportamental

S ô n ia B e a t r iz M e y e r
G io v a n a D e l P r e t t e
D e n is R o b e r t o Z a m ig n a n i
R o b e r t o A lv es B a n a co
S im o n e N e n o
E m m a n u e l Z a g u r y T o u r in h o

A análise do comportamento pode ser entendida como um


campo do saber que integra produções filosóficas, reflexivas,
interpretativas, empíricas (experimentais e não experimentais)
e aplicadas. Aterapia analítico-comportamental, enquanto uma
de suas aplicações é uma modalidade de psicoterapia que está
baseada no conhecimento produzido pela análise do compor­
tamento. É orientada por um sistema amplo de interpretação
do comportamento humano, que auxilia a compreensão e a
intervenção sobre fenômenos complexos, como os que se
apresentam em ambientes clínicos (Tourinho e Neno Cavalcan­
te, 2001). Terapeutas analítico-comportamentais desenvolvem
um atendimento amparado em filosofia, princípios, conceitos
e métodos da ciência do comportamento (Neno, 2005, Meyer,
1995). Muito frequentemente, sua atuação está também
articulada à produção de conhecimento novo em análise do
comportamento, criando um ambiente de trocas permanentes
entre ciência e aplicação.
154 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

O objetivo deste capítulo é apresentar, resumidamente, os pressupostos filosóficos,


princípios de comportamento e métodos nos quais o terapeuta analítico-com­
portamental se ampara, assim como as intervenções por ele adotadas com aquela
fundamentação.

Pressupostos Filosóficos
Entre os pressupostos filosóficos da terapia analítico-comportamental, é importan­
te ressaltar as noções de comportamento e ambiente e a forma como a abordagem
analítico-comportamental compreende sentimentos, pensamentos e sensações,
partindo de uma visão monista do homem e de uma concepção materialista e
interacionista dos fenômenos psicológicos.
Seu objeto de estudo é o comportamento, entendido como a relação existente
entre a ação de um indivíduo que se comporta e o ambiente no qual está inserido.
Nessa relação, focalizam-se as condições antecedentes que estabelecem a ocasião
para a ocorrência das ações do indivíduo, e as conseqüências que estas produzem
no ambiente. O ambiente com o qual a pessoa interage inclui tanto o organismo
como o meio externo, que corresponde a lugares ou objetos inanimados, e também
às pessoas com as quais ela interage. O ambiente estabelece a ocasião (anteceden­
te) para a ação (resposta) do indivíduo, verbal ou não verbal, que então produz
conseqüências no ambiente, que determinam a probabilidade de ocorrência de
novas ações do indivíduo.
O ambiente determina as ações dos organismos por meio de três processos de
seleção sobrepostos e associados: filogênese, ontogênesee cultura. A filogênese cor­
responde à seleção natural definida por Charles Darwin: por meio de variação e
seleção, indivíduos mais adaptados ao ambiente tendem a sobreviver e a transmitir
seus genes (capacidades, tendências etc.), o que implica uma seleção genética. Em
linhas gerais, a filogênese participa na determinação de comportamentos, produ­
zindo organismos com diferentes estruturas físicas (e, nesse sentido, diferentes
possibilidades para a emissão de respostas) e diferentes graus de sensibilidade aos
eventos ambientais, o que produz efeitos em dois processos de aprendizagem:

• O operante, na medida em que é variada a sensibilidade a determinadas


conseqüências.
• O respondente, que favorece ou não a ocorrência de determinadas respos­
tas incondicionadas (não aprendidas).

Já a ontogênese refere-se à seleção comportamental ao longo da vida do indi­


víduo. Tal seleção se dá por meio da interação entre a aprendizagem respondente
e operante. No primeiro caso, eventos do ambiente adquirem função eliciadora
de respostas do organismo, a partir da associação (por meio de pareamento pavlo-
viano) com eventos que apresentam a mesma função como resultado da filogênese.
A partir da aprendizagem respondente, portanto, novos estímulos passam a con­
trolar as respostas, alterando a reatividade do indivíduo ao ambiente. Já o
segundo processo de aprendizagem é denominado operante por referir-se a inte­
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 155

rações nas quais o indivíduo age (opera) sobre o ambiente produzindo alterações
neste (conseqüências) que, por sua vez, retroagem sobre o organismo, alterando
sua probabilidade de ação futura (Skinner, 1953/1974). Enquanto no processo
respondente o ambiente age sobre um repertório comportamental limitado, filo-
geneticamente determinado, apenas aumentando as possibilidades de controle
pelos estímulos antecedentes, no condicionamento operante há a possibilidade,
por meio do processo de modelagem, da criação de novos repertórios comporta­
mentais e de sua manutenção. É esse mesmo processo, associado à sensibilidade
dos organismos humanos ao reforço de padrões vocais, que permite que um ter­
ceiro nível de seleção atue sobre o comportamento.
Esse terceiro nível é o processo de seleção de práticas culturais. Para Skinner,
as práticas culturais representam casos especiais de aplicação do conceito de
comportamento operante: “é o efeito sobre o grupo, não as conseqüências refor­
çadoras para membros individuais, que é responsável pela evolução da cultura”
(Skinner, 1974/1982). Novas práticas culturais têm origem na variação do compor­
tamento individual, mas são selecionadas por suas conseqüências para o grupo.
Outro pressuposto filosófico da análise do comportamento é a concepção
monista de homem. Os analistas do comportamento partem do princípio de que
o homem é constituído por uma única substância e seu comportamento é um
fenômeno natural, acessível à análise científica. Esta concepção é oposta à deno­
minada dualista, segundo a qual o homem é constituído por duas substâncias,
uma material, outra imaterial. Para o dualismo, fenômenos psicológicos têm origem
na substância imaterial do homem. Nesse caso o comportamento (reconhecido
como um evento material) seria uma manifestação superficial (sintomas externos)
de processos de natureza mental e inobserváveis. No monismo analítico-compor­
tamental, entende-se todo indivíduo como indivisível: o organismo como um todo
opera [sobre] e interage com seu ambiente, mudando o contexto e sendo mudado
em sua totalidade pelas conseqüências produzidas (Chiesa, 1994/1997).
Na prática, a principal decorrência do monismo é o direcionamento da inves­
tigação para variáveis do ambiente que determinam tanto as queixas como as
condições de mudança do cliente. O terapeuta analítico-comportamental estuda
o papel que o ambiente desempenha sobre as respostas do cliente (um ambiente
em que é possível interferir), ao invés de supor a existência de eventos mentais
com possíveis funções causais (Windholz e Meyer, 1994).
Decorre do monismo que sensações, sentimentos e pensamentos são consi­
derados fenômenos (relações) de natureza material, diferenciando-se de outros
tipos de comportamentos apenas porque parte de sua ocorrência (algum estímu­
lo, ou alguma resposta) é privada e, portanto, seu acesso é limitado, sendo
observáveis apenas por um indivíduo. Esses eventos não são considerados como
“causa” de respostas abertas: ambos devem ser explicados com base nos determi­
nantes ambientais, de natureza material. Eventos privados podem participar de
uma diversidade de fenômenos comportamentais, com diferentes graus de com­
plexidade, em um continuum que pode envolver desde fenômenos de base
estritamente filogenética até fenômenos comportamentais complexos, engloban­
do os três níveis de variação e seleção (Tourinho, 2007). Entre os eventos privados
encontram-se as respostas encobertas, que correspondem a ações executadas com
156 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

uma participação tão reduzida do aparelho motor (inclusive a musculatura vocal)


que não são visíveis aos outros. Respostas encobertas podem ser emitidas de modo
a preparar o organismo para a emissão de uma resposta aberta mais precisa (como
o caso do processo de pensamento ou tomada de decisão). Podem, também, ser
emitidas na ausência do estímulo que usualmente controla a resposta aberta, sob
controle de outros estímulos (como na fantasia, no sonho ou na alucinação - con­
forme Skinner, 1974/1982). Entre os eventos privados encontram-se também os
estímulos privados, que são parte do ambiente que se encontra “sob a pele” e que
interage com a ação do indivíduo. O acesso da comunidade verbal a estes eventos
pode ser apenas indireto, a partir das autodescrições do indivíduo no corpo de
quem ocorrem (Tourinho, 2007).
O caráter encoberto de certas respostas é transitório e dependente de certas
condições socioculturais. Como aponta Tourinho (2006), apenas em sociedades
individualizadas os homens são levados a emitir respostas cognitivas na forma enco­
berta (aleitura silenciosa, por exemplo, é incomum em sociedades não individualizadas).
Apenas em sociedades individualizadas, também, os homens são levados a observar
o que se passa com o próprio corpo em episódios emocionais (geralmente porque
essas sociedades exigem uma topografia “autocontrolada”das respostas emocionais).
A emissão de respostas cognitivas na forma encoberta e observação das condições
corporais nos episódios emocionais favorecem uma concepção de sentimentos e
pensamentos como ocorrências internas aos indivíduos, obscurecendo o fato de
que continuam sendo relações com um ambiente externo, físico e social. Uma aná­
lise comportamental desses fenômenos requer, ao contrário, o exame da dimensão
relacionai dos sentimentos e pensamentos. O cliente pode chegar ao atendimento
convicto de que sua tristeza é uma ocorrência interna e imaterial, mas ao terapeuta
analítico-comportamental interessará identificar em que consiste essa tristeza
enquanto relação do cliente com o seu ambiente (mesmo reconhecendo que o in­
divíduo está respondendo a estímulos privados).
Para terapeutas analítico-comportamentais, relatos de sentimentos, pensa­
mentos e sensações são informações relevantes e necessárias para a compreensão
do fenômeno comportamental. Terapeutas investigam e interveem sobre esses
relatos principalmente por quatro razões:

• Muitas vezes, são as respostas e estímulos privados experimentados pelos


clientes que os levam à terapia. Um cliente, por exemplo, pode buscar a
terapia procurando ajuda para “acabar com a ansiedade” ou entender o
porquê de suas “crises de taquicardia”.
• Apesar de a análise do comportamento não compartilhar desse posicionamento,
culturalmente, eventos privados são apontados como motivos dos comporta­
mentos. Assim, é mais provável os clientes descreverem seus sentimentos como
causas que como comportamentos a serem explicados (Banaco, 1993).
• As respostas verbais descritivas de estímulos privados são indicadoras de
eventos ambientais relevantes. Por exemplo, diante do relato de “alívio”
pode-se suspeitar da existência de reforço negativo (retirada de um estímulo
aversivo); diante de “felicidade” ou “prazer”, a ocorrência de reforço positivo
(apresentação de um estímulo reforçador).
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 157

• A história de interação com o grupo social modela a relação do indivíduo


com eventos privados e sua descrição, elementos importantes na constitui­
ção da subjetividade, do autoconhecimento e do autocontrole.

0 interesse do clínico está voltado para a identificação de relações indivíduo-


ambiente, decorrentes da história de vida, e para a proposição de intervenções
efetivas com base nessa identificação (Skinner, 1953/1974). As relações indivíduo-
ambiente associadas à queixa de um cliente são individualizadas, porque todos
os fatores que determinam o comportamento atual - variáveis genéticas e am­
bientais, a história pessoal de interação com o ambiente, a cultura e as condições
ambientais atuais - são combinações pessoa-ambiente peculiares a cada caso
(Hawkins, 1986). Por este motivo, terapeutas analítico-comportamentais realizam
intervenções únicas (“sob medida”), ainda que aparentemente as “queixas” iniciais
dos clientes se assemelhem.
% 978-85-7241-865-2
1

Pesquisa e Terapia Analítico-comportamental


A abordagem analítico-comportamental é empiricamente validada em laboratório
e em situações aplicadas, tais como a clínica, por meio de demonstração de relações
ordenadas entre comportamento e ambiente. Existem vários núcleos de atividades
em análise do comportamento, dos quais destacaremos três por sua importância
direta na prática do analista do comportamento: a pesquisa básica, a pesquisa
aplicada e a prestação de serviços.
O objetivo da pesquisa básica (cujos sujeitos podem ser humanos ou infra-
humanos) é descobrir as leis naturais que regem o comportamento. A lei do
condicionamento operante, por exemplo, não é uma invenção teórica, mas sim
uma formulação derivada de pesquisas empíricas que, repetidamente, têm com­
provado a existência de relações entre respostas e conseqüências por elas produzidas
(Keller e Shoenfeld, 1966).
Apesquisa aplicada, por sua vez, tem como objetivo descobrir e testar diferentes
maneiras pelas quais os resultados encontrados na pesquisa básica podem ser apli­
cados na intervenção frente a problemas humanos relevantes. Uma pesquisa, por
exemplo, pode investigar o comportamento de mentir como uma resposta operan­
te. O primeiro pressuposto que guiaria uma investigação desse tipo é que “mentir”
e “falar a verdade” são formas de o indivíduo interagir verbalmente com o meio
social e físico. Um relato nem sempre corresponde ao (nem sempre está sob con­
trole do) evento descrito, e um relato não correspondente (culturalmente podendo
ser reconhecido como “mentira”) pode se dar por diversas razões. Uma dessas razões
é o indivíduo não ter “se dado conta” de parte do ocorrido e, por isso, apresentar um
relato falso (nesse caso, os estímulos presentes na situação exerceram um controle
fraco sobre o comportamento do indivíduo ou o indivíduo observou apenas parte
dos estímulos presentes). Provavelmente, boa parte do grupo social chamaria esse
tipo de relato não-correspondente de “equívoco”. Outra po§sível fonte de distorções
do relato são as conseqüências providas pelo grupo social para a ação de relatar.
Mentir, em alguns casos, pode produzir conseqüências reforçadoras. Por exemplo,
158 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

quando um adolescente relata que “pega todas” para um grupo de amigos, quando,
de fato, ele nunca teve uma experiência sexual, ele pode produzir a admiração dos
colegas. Nesse caso, um reforçador positivo foi produzido pelo relato falso. Em outros
casos, em um ambiente predominantemente aversivo, um relato “falso” pode evitar
uma punição que seria produzida por um relato fidedigno. Por exemplo, ao relatar que
quebrou um objeto de valor em casa, uma criança pode sofrer violência física, mas
colocar a culpa no cachorro pode evitar essa violência. No caso, o relato falso tem
função de esquiva, pois evita a apresentação de um estímulo aversivo que ocorreria
caso fosse fidedigno*.
Ao pesquisar, portanto, os efeitos das conseqüências sociais sobre o compor­
tamento de mentir, o experimentador pode, por exemplo, escolher investigar a
hipótese de a conseqüência ser um reforço positivo. Para isso, ele pode apresentar
um estímulo reforçador contingente a uma determinada resposta verbal (por exem­
plo, dizer “Brinquei com o brinquedo X”) mesmo quando tal resposta não
descreve o que de fato ocorreu (dizer que brincou quando na verdade não brincou).
Se ocorrer um aumento na frequência do relato de brincar, não correspondente
ao evento brincar, tem-se um modelo empírico, com controle de variáveis, de um
dos fatores que podem agir sobre o comportamento de mentir (esta pesquisa foi
desenvolvida por Ribeiro, 1989).
Por fim, a prestação de serviços consiste na utilização do arcabouço teórico da
análise do comportamento, obtido por meio de pesquisas básicas e aplicadas, para
a solução de problemas humanos, como é o caso da terapia analítico-comporta­
mental. Um terapeuta pode, por exemplo, atender uma criança encaminhada por
mentir aos pais. Se a criança “mente” com frequência, o trabalho do analista do
comportamento é, principalmente, deixar de lado o rótulo “mentir” e investigar
que relação comportamental está em curso na interação da criança com os pais.
A partir do conhecimento da lei do reforço e da maneira pela qual se instala o
comportamento de mentir, ele pode formular hipóteses e planejar intervenções
no atendimento a esta criança, por meio de questões tais como as que seguem:

• Será que a criança aprendeu a observar os eventos de modo a emitir relatos


fidedignos (ou seja, que tipo de história de aprendizagem discriminativa
tem a criança para relatar)?
• Os pais têm a oportunidade de verificar a veracidade dos relatos da criança
(quer dizer, a comunidade verbal tem acesso a esse antecedente)?
• Há reforço por relatar o que os pais “querem” ouvir, mesmo quando esse
relato é incompatível com sua ação (ou seja, sua comunidade verbal refor­
ça o relato por uma topografia específica e não necessariamente pela relação
fidedigna com o antecedente)?

* Um evento ambiental é considerado reforçador positivo quando aumenta a probabilidade fu­


tura de ocorrência da resposta que o produz e reforçador negativo quando aumenta a probabi­
lidade da ocorrência da resposta que o remove. No primeiro caso, fala-se em contingência de re­
forço positivo e, no segundo, de reforço negativo, que pode se dar pela remoção de um estímulo
aversivo presente (fuga) ou pelo adiamento ou cancelamento da apresentação de um aversivo
sinalizado (esquiva).
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 159

• Como esse comportamento se desenvolveu na história de vida da criança?


• O que os pais fazem quando a criança fala a verdade (por exemplo, será que a
magnitude e a frequência de conseqüências positivas por falar a verdade são
menores que para a mentira, tornando o relato verdadeiro menos provável)?
• O que os pais fazem quando a “mentira” é descoberta (há conseqüências
aversivas contingentes e consistentes para o comportamento de mentir)?

Essas são questões que dirigem a uma análise de contingências envolvidas no padrão
comportamental comumente referido pelos rótulos “mentir” ou “dizer a verdade”.
Ainda com relação à prestação de serviços em terapia analítico-comportamen-
tal, a noção de que todo indivíduo é único, tem um repertório de comportamentos
que é único, impede que se estabeleça uma seqüência padronizada de procedi­
mentos, podendo ser até inadequada uma prescrição minuciosa de cada passo da
intervenção clínica. O comportamento do terapeuta não é somente produto de
seu conhecimento teórico; o uso adequado de seu conhecimento depende, em
grande medida, da identificação das contingências associadas aos problemas ou
queixas do cliente, o que norteia o planejamento da interação e das contingências
próprias da relação terapêutica. Em outras palavras, o terapeuta analítico-compor-
tamental é constantemente modelado pela interação entre o conhecimento pro­
duzido pelo sistema cultural da análise do comportamento e as contingências
próprias da situação de intervenção (Tourinho e Neno Cavalcante, 2001). No
exemplo sobre o atendimento à “criança mentirosa”, seria inadequado simplificar
a intervenção valendo-se da regra: “Então vou elogiar a criança quando ela disser a
verdade a mim”. Para o terapeuta entrar em contato com as contingências é ne­
cessário ainda observar outras classes de comportamentos da criança na sessão.
Supondo que a criança toma o terapeuta como modelo, uma possibilidade a ser
testada seria a apresentação de exemplos reais de autorrevelação, utilizando-se
do procedimento de modelação sobre o “dizer a verdade”.
Em clínica, dificilmente um único comportamento é focado. Geralmente, o
que se observa são múltiplos comportamentos, ou melhor, múltiplas classes de
comportamento, alvo da intervenção. Desse modo, enquanto em um experimento
é possível selecionar uma variável independente e observar claramente seus efei­
tos sobre uma variável dependente (uma classe específica de respostas), na
clínica, o número de variáveis e a inter-relação das mesmas dificulta o controle do
tipo “se... então”.
Assim, tanto na pesquisa quanto na intervenção clínica, observa-se e testa-se
o efeito de variáveis múltiplas sobre diferentes (classes de) respostas. No caso de
pesquisas, a preocupação em isolar variáveis é essencial para a produção de vali­
dade interna*, mas essa medida pode reduzir a validade externa dos achados. Em
outras palavras, a perda de validade externa significa que o ambiente controlado,
criado especialmente para a pesquisa, acaba por não corresponder exatamente

* Validade interna refere-se à “capacidade para tirar conclusões sobre relações de causa e efeito de
nossos dados” (Cozby, 2003, p. 102), ao passo que validade externa é “o grau em que os resultados
podem ser generalizados para outras populações ou situações” (p. 102).
160 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

ao ambiente da prática clínica usual. Por outro lado, para se ampliar a validade
interna da pesquisa clínica, o método de trabalho deve envolver múltiplas respostas
e múltiplas causas e um maior controle experimental sobre elas, o que geralmen­
te é bastante complexo, ainda que não inviável.
As origens experimentais da terapia analítico-comportamental são objeto de
críticas equivocadas, até hoje realizadas quando não se conhece profundamente
o panorama atual da prática e da pesquisa clínicas. Por outro lado, essas origens
trouxeram como vantagens uma maior ênfase na formação do terapeuta analítico-
- comportamental. Ele foi treinado a observar comportamentos verbais e não verbais
e a observação, feita no próprio consultório ou em outros ambientes, como a casa
ou a escola, é fonte de dados muitas vezes mais relevantes do que relatos verbais.
Ele deve analisar e entender o que é observado enquanto um processo compor­
tamental formado por contínuas interações e, portanto, sujeito a mudanças. Deve
ser capaz de conduzir o processo terapêutico de forma similar a uma experimen­
tação, mesmo que não controlada, quando observa, levanta hipóteses e, a partir
disso, testa a eficácia de diferentes formas de atuação.

Análise de Contingências
O termo “contingência” significa uma relação de dependência entre eventos. Nes­
te capítulo, utiliza-se a terminologia análise de contingências, em vez de análise
funcional também bastante disseminada na cultura analítico-comportamental,
porque a última se aplica à análise que segue um rigor experimental (manipulação
e controle de variáveis). Como, em clínica, se lida com variáveis múltiplas e pouco
controle sobre elas (especialmente porque se trabalha com informações derivadas
de relato verbal), a terminologia análise de contingências é mais apropriada, cla­
rificando que tal análise não é experimental.
Outra terminologia disseminada é avaliação funcional (Follette, Naugle e
Linnerooth, 2000; Ulian, 2007). No presente capítulo, o termo análise de contin­
gências será também preferido em relação ao termo avaliação funcional uma vez
que toda análise já é uma avaliação, mas nem toda avaliação é uma análise. Ana­
lisar significa decompor o objeto de avaliação em fatores (oposto a sintetizar, que
significaria agrupar fatores para realizar uma síntese), e é isso que se faz em uma
análise de contingências, ao decompor o comportamento em antecedente, res­
posta e conseqüência.
O modelo teórico analítico-comportamental descreve o comportamento em
termos de um processo de seleção pelas conseqüências. Nesse processo, pelo menos
quatro elementos básicos são importantes para a compreensão de um determinado
comportamento: as operações estabelecedoras (OE), que estabelecem determina­
dos estímulos como momentaneamente reforçadores e que evocam o comporta­
mento que no passado foi seguido de tais reforçadores; os estímulos discriminativos
(SD), que estabelecem a ocasião na qual, caso a resposta venha a ser emitida, o estí­
mulo reforçador será produzido; a emissão da resposta (R) pelo indivíduo; e a apre­
sentação de estímulos como efeito da (contingentes à) resposta emitida (SR). Este
modelo teórico é representado pelo paradigma apresentado na Figura 7.1.
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 161

{
OE
SD • R O S r
Figura 7.1 - Esquema representando o paradigma do comportamento operante, em que OE é
uma operação estabelecedora; SD, um estímulo discriminativo; o símbolo • representa uma
função probabilística em que, dadas determinadas circunstâncias, há uma probabilidade de
que uma resposta seja emitida; “R” é a resposta, e a seta à direita indica uma relação de contin­
gência entre resposta e conseqüência, e “SR” é o estímulo produzido pela resposta que, ao
retroagir sobre o organismo, altera a probabilidade de que respostas da mesma classe sejam
emitidas (Follette etal., 2000).

Partindo desse modelo teórico, pode-se imaginar um episódio ideal de inte­


ração do indivíduo com o ambiente, no qual aquele:

• Está suficientemente motivado (há uma operação estabelecedora que torna


algum evento momentaneamente reforçador e, portanto, evoca alguma
resposta do indivíduo para produzi-lo - OE).
• Responde apropriadamente à ocasião (houve uma história anterior que
estabeleceu um controle de estímulos apropriado sobre o responder - SD).
• Apresenta em seu repertório a resposta a ser emitida (R).
• Sua ação produz reforçadores ou evita o contato com aversivos (conse­
qüências produzidas no ambiente que alteram a probabilidade da classe
de respostas).

A queixa trazida pelo cliente ao consultório pode apontar problemas em cada


um dos elos dessa seqüência de eventos. Assim:

• O cliente pode não estar suficientemente motivado para a emissão das res­
postas necessárias em determinadas condições.
• O cliente pode não ter um controle de estímulos apropriado que estabeleça
a ocasião para responder quando o reforçador está disponível (história insu­
ficiente ou ineficaz de reforço diferencial).
• O cliente pode não apresentar o repertório necessário para que sua ação
produza estímulos reforçadores.
• O ambiente (social ou físico) pode dispor conseqüências de maneira incon­
sistente ou dispensar reforçadores para respostas que, a médio ou longo
prazo, podem produzir estimulação aversiva.

Em qualquer caso, o modelo da análise de contingências é a base das inter­


venções do terapeuta. A partir dessa organização, o terapeuta pode ter um
panorama geral do caso clínico, envolvendo a análise tanto da função exercida
pelas respostas-problema do cliente quanto de respostas do cliente que sejam
desejáveis (pois produziriam reforçadores se emitidas em um contexto apropria­
do) e que precisariam ser fortalecidas.
162 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

No processo de interação com o cliente, o terapeuta analítico-comportamen­


tal apresenta uma ampla variedade de comportamentos, classificáveis em quatro
grupos (Ireno, 2007):

• Estabelecimento da aliança terapêutica: comportamentos que levam o


terapeuta a constituir uma audiência não punitiva e um agente reforçador,
gerando um aumento da tolerância do cliente para expor-se a emoções
aversivas.
• Postura profissional: comportamentos compatíveis com o código de ética
da profissão e com o estabelecimento de um contrato de trabalho.
• Coleta de dados: comportamentos do terapeuta de coleta de dados referentes
às queixas apresentadas pelo cliente (situação de vida, experiências passa­
das e atuais, pensamentos e sentimentos), de forma a obter indicações
consistentes das contingências atuantes.
• Procedimentos de intervenção: comportamentos do terapeuta de interven­
ção sobre os comportamentos-alvo do cliente.

Etapas do Processo Terapêutico


Analítico-comportamental*
Nas últimas décadas, muitos autores (por exemplo, Dougher, 2000; Hayes, 1987;
Kohlenberg eTsai, 2001; Pérez-Alvarez, 1996) avançaram na operacionalização dos
processos de uma terapia verbal** de base analítico-comportamental.
Follette, Naugle e Callaghan (1996) apresentaram uma descrição bastante
detalhada das diferentes etapas que ocorrem ao longo do processo de interação
terapeuta-cliente, considerando a relação do principal mecanismo de mudança.
Entende-se, deste ponto de vista, que o comportamento do cliente na sessão é
uma amostra dos padrões de interação que ele estabelece com o seu ambiente
social e que, ao interagir com o terapeuta, são desenvolvidos novos padrões de
interação. A modelagem de repertório social, por meio de reforço diferencial na in­
teração terapêutica, seria então a principal estratégia a ser empregada pelo
terapeuta. Para isso, supõe-se o terapeuta como alguém que pode dispor de re­
forçadores sociais em que o cliente é (ou se torna, ao longo da terapia) sensível.
O processo por meio do qual o terapeuta torna-se uma potencial fonte de refor­
çadores sociais e a maneira com que ele dispõe dessa característica da interação
para produzir mudanças, conforme descritos por Follette et al. (1996), são apre­
sentados a seguir.

* Parte do material apresentado é uma adaptação de outro trabalho de Meyer (2003) e da tese de dou­
torado de Zamignani (2007).
** Grande parte da interação que ocorre em psicoterapia é eminentemente verbal (Pérez-Álvares,
1996), e a prática terapêutica “de gabinete” é a mais divulgada, embora existam outros formatos de
intervenção, como, por exemplo, o atendimento clínico extraconsultório e combinações das duas
modalidades de atendimento (ver Zamignani, Kovac e Vermes, 2007).
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 163

Processo de Reforçamento Social


nas Sessões Terapêuticas Iniciais
De acordo com Follette et al (1996), a forma como o cliente se comporta na interação
direta com o terapeuta é de especial interesse e a história de aprendizagem que ocor­
re ao longo dessa interação é o mecanismo de mudança que ocorre na terapia. O
processo começa desde a primeira sessão, quando o cliente procura o terapeuta. Assim,
o simples fato do cliente ter procurado ajuda, independentemente de qualquer padrão
de comportamento que ele apresente, deve ser alvo de reforço social, via expressões
gerais de suporte ao fato de o cliente estar em terapia, dados os problemas que o
cliente enfrenta. O que faz do terapeuta, nesse momento, alguém que pode dispor de
reforço social é o seu status profissional que, segundo Follette etal (1996), serve como
uma operação estabelecedora, que pode evocar respostas do cliente de se engajar no
tratamento, importantes uma vez que, para alguns clientes, é difícil falar a respeito de
eventos constrangedores, pensamentos, fraquezas pessoais ou erros (Sturmey, 1996).
O reforço social* que o terapeuta deve prover nesse momento parece “não con­
tingente”, uma vez que não é direcionado a nenhuma classe de respostas específica
do cliente. Entretanto, ele é relacionado a uma ampla classe de comportamentos do
cliente de se engajar em um processo de mudança. As classes de resposta a serem
emitidas pelo terapeuta são aquelas necessárias para o processo terapêutico ocorrer
e são constituídas tipicamente por ações e verbalizações do terapeuta que sugerem
cuidado e suporte geral contingente à procura pela terapia (Follette etal.y1996).
A audiência não punitiva é parte importante desse processo inicial. Skinner
(1974) afirma que, para constituir-se como uma alternativa a uma história de inte­
ração com eventos aversivos, o terapeuta ouve o relato do cliente sem nenhum tipo
de crítica ou julgamento. Supõe-se que esse tipo de interação favoreça que o clien­
te fale sobre assuntos “difíceis” - temas ou ações cujo contato ele vinha evitando
porque teriam sido punidos em sua história de vida (Skinner, 1974; Sturmey, 1996;
Vermes, Zamignani e Kovac, 2007). Como efeito desse conjunto de contingências
- o terapeuta se estabelece como ocasião para interações reforçadoras e para a re­
moção do controle aversivo -, o terapeuta, por si só, pode tornar-se um evento
reforçador condicionado, e o contexto da terapia pode tornar-se algo “desejável”.
Não é em todos os casos que respostas de acolhimento e compreensão, sozinhas,
são suficientes para conduzir uma boa intervenção. Banaco (1997), por exemplo,
afirma que, além de o terapeuta oferecer um contexto de acolhimento e compreen­
são, ele deve demonstrar que entende as relações descritas pelo cliente e que
dispõe de estratégias para ajudá-lo. Sturmey (1996), inclusive, aponta que, para
alguns clientes, altos níveis de acolhimento e empatia podem ser contra produtivos,
ofensivos ou culturalmente inapropriados. Isso indica que aquilo que é reforçador

* Vale ressaltar que, ao se falar sobre reforço social, assume-se uma possível função de ações do tera­
peuta. Isso porque, culturalmente, interesse e elogios costumam exercer função reforçadora para as
classes de resposta que a produzem. Entretanto, não se pode perder de vista a noção de que a função
reforçadora de determinados estímulos é idiossincrática, dependendo da história de interação do
cliente com cada classe de ações do terapeuta.
164 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

para um indivíduo pode não ser para outro, cabe ao terapeuta observar os efeitos
de suas intervenções.
O processo pelo qual o terapeuta se estabelece como um reforçador condicio­
nado é chamado por alguns autores de constituição da aliança terapêutica, que
deve ser estabelecida desde muito cedo na terapia: “deve estar claro para o cliente
que suas preocupações estão sendo levadas a sério e tratadas de maneira profissio­
nal” (Sturmey, 1996, p. 73). Como se vê, os desempenhos do terapeuta na constituição
da aliança terapêutica, e a racional para o entendimento da importância dessa
aliança, estão pautados nos princípios da análise de contingências.

Coleta de Informações Necessárias


para a Avaliação Comportamental
Paralelamente ao processo de estabelecimento da aliança terapêutica, desde as pri­
meiras sessões, é necessário que o terapeuta colha informações sobre o cliente, de
modo a construir um panorama geral sobre sua queixa e outros aspectos de seu re­
pertório comportamental. Esse processo de coleta de informações é pautado na
análise de contingências relacionadas à instalação e manutenção dos problemas tra­
zidos pelo cliente como queixa e determinará quais intervenções serão desenvolvidas.
A Figura 7.2, a seguir, baseada no texto de Follette et a l (2000), apresenta as
etapas que compõem, tipicamente, a avaliação comportamental conduzida na
terapia analítico-comportamental. Vale lembrar que o trabalho clínico não é um
processo linear e que as etapas apresentadas não representam necessariamente
uma seqüência temporal de eventos. Follette et a l (2000) afirmam que este ciclo

Figura 7.2 - Etapas da avaliação comportamental (adaptado de Follette etal., 2000).


Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 165

de eventos ocorre quantas vezes for necessário para produzir análises que levem
a intervenções úteis ou a resultados desejáveis.
A primeira etapa da avaliação, destacada por Follette et al (2000), diz respeito à
identificação dos problemas apresentados pelo cliente e à organização deles em tomo
de algum tipo de critério de importância clínica. Habilidades e déficits comportamentais
do cliente, bem como aspectos ambientais facilitadores e problemáticos (tais como
suporte social, saúde, recursos financeiros, disponibilidade e diversidade do ambiente
para prover reforçadores, questões legais envolvidas etc.) são então levantados, em
busca de se estudar as condições disponíveis para a mudança (Follette et al, 2000).
Informações sobre habilidades e metas de mudança ajudam no planejamen­
to de comportamentos alternativos ou incompatíveis com a resposta-queixa, além
de proporcionar informações sobre possíveis fontes de reforço que estariam su-
butilizadas ou indisponíveis (Sturmey, 1996).
Também para Meyer (2003), o primeiro passo para realizar uma análise de
contingências do caso clínico é a identificação dos comportamentos de interesse, o
que deve ser enunciado tanto em termos de comportamentos ou omissão de com­
portamentos, como em termos de classes funcionais mais amplas.
Nesse sentido, a seleção do comportamento para análise e intervenção pode ser
molecular - focada preferencialmente na queixa trazida - ou molar (quando conside­
ra a queixa com relação a outros aspectos da vida do cliente). Já em 1972, Ferster
argumentou que os problemas comportamentais detectados no cliente que busca a
terapia são muito mais abrangentes do que a queixa específica e restrita trazida por
ele. Para Ferster (1972) o terapeuta deveria lidar com o repertório geral de comporta­
mentos do cliente e não atentar, prioritariamente, para a queixa específica
apresentada por ele. Esse repertório geral inclui os excessos e déficits comportamen­
tais, além dos comportamentos “saudáveis” que o cliente tenha de fato aprendido,
mas que por qualquer razão esteja ocorrendo em baixa frequência. Portanto, para
todos os autores citados (Ferster, 1972, Follette etal, 2000, Meyer, 2003, Sturmey, 1996)
em um diagnóstico funcional, característico da terapia analítico-comportamental,
cabe ao terapeuta ampliar o alcance da investigação, abrangendo esse repertório e as
relações entre ele e os eventos reforçadores e punitivos disponíveis no ambiente.
A ampliação da análise para além da queixa inicial implica também na diferen­
ciação entre respostas e classes de respostas. As classes de respostas são conjuntos
de respostas com topografia (especificação da forma do comportamento) diversa,
mas que apresentam a mesma função. Na verdade, topografias iguais podem ter
funções diferentes, e topografias diferentes podem ter funções iguais.
Os comportamentos de interesse devem ser enunciados clara e objetivamente em
termos de ações do cliente, o que inclui identificar e descrever a frequência, duração
ou intensidade com que o comportamento ocorre. O passo seguinte é o da identifi­
cação de relações ordenadas entre variáveis ambientais e o comportamento de
interesse, assim como a identificação de relações entre o comportamento de interes­
se e outros comportamentos existentes. Para isso, coletam-se informações sobre
eventos que antecedem e sucedem o comportamento de interesse, para em seguida
identificar os eventos que, de fato, exercem controle sobre as respostas analisadas.
A queixa do cliente com relação aos eventos antecedentes pode envolver a
falta de eventos antecedentes apropriados para a emissão de respostas que produ­
166 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

ziriam reforçadores (em razão da falta de oportunidade para a emissão de com­


portamentos desejados ou a um ambiente restritivo); pode não existir um controle
discriminativo (o cliente não é capaz de identificar as condições sob as quais certas
classes de comportamentos produziriam reforçadores); ou pode haver um controle
discriminativo inapropriado (é o caso de comportamentos que produzem conse­
qüências desejáveis para o cliente, mas que não são apropriados ao contexto no qual
ocorrem) (Follette et al., 2000). Kanfer e Grimm (1977) acrescentam ainda o caso de
controle inapropriado por estímulos autogerados (o indivíduo nomeia e responde
incorretamente a estados internos).
Com relação ao responder do cliente, podem existir problemas relacionados
a excessos comportamentais (comportamentos que ocorrem com frequência ou
intensidade excessiva); déflcits comportamentais (falta de repertórios importantes,
tais como habilidades sociais, expressão de intimidade etc.) ou a comportamentos
intervenientes (comportamentos que impedem a emissão de outras respostas mais
efetivas para a produção de reforçadores).
Por último, com relação às conseqüências, podem inexistir as conseqüências que
seriam apropriadas para a manutenção do comportamento-alvo; podem ocorrer
conseqüências concorrentes (a mesma ação pode produzir diferentes conseqüências,
gerando situações de conflito) ou pode ocorrer um controle inapropriado pelas
conseqüências (é o caso de comportamentos que produzem conseqüências refor­
çadoras para o indivíduo, mas que podem ser inapropriadas para o grupo, tais como
situações de abuso sexual).

Estratégias Utilizadas para a Coleta de Informações


As principais estratégias utilizadas para a coleta das informações no trabalho
clínico são a entrevista e a observação no contexto da terapia. A coleta de dados
por meio da entrevista clínica é parte integrante de qualquer modalidade de ava­
liação e pode ser inclusive a única estratégia utilizada para este fim. Durante a
entrevista, o terapeuta tipicamente solicita que o cliente relate eventos, sentimen­
tos e pensamentos e que estabeleça relações entre esses eventos.
Entretanto, deve-se levar em consideração que o relato do cliente é, muitas
vezes, impreciso, isto é, nem sempre há correspondência entre o relato (verbal) e
a ocorrência do comportamento relatado (não verbal). O cliente pode não ter
“consciência”, ou seja, não ser capaz de relatar parte dos seus vários comporta­
mentos, ou mesmo, subestimar ou superestimar a frequência de alguns. Por esse
motivo, muitas vezes é interessante solicitar ao cliente uma nova observação, mais
acurada, eventualmente com o uso de registros escritos.
No caso de clientes que chegam à terapia com suas próprias teorias - ineficazes
- sobre o problema (Sturmey, 1996) ou no caso do relato do cliente ser predomi­
nantemente a respeito de eventos encobertos (Banaco, 1993), o terapeuta deve
apresentar questões de reflexão, de modo a produzir informações para uma aná­
lise das contingências e construir um novo repertório discriminativo. À medida
que esse tipo de interação ocorre, o cliente pode passar a estabelecer relações
entre suas ações abertas ou encobertas e eventos ambientais relevantes.
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 167

O relato de eventos privados pode também ser utilizado como estratégia para
obtenção de dados sobre o cliente. Alguns terapeutas solicitam do cliente o relato
de sentimentos, sonhos e fantasias como estratégias para acesso a informações
difíceis de serem obtidas por meio de relato direto (Banaco, 1993; Delitti e Meyer,
1995; Nalin, 1993; Otero, 1993). Uma vez que o cliente tenha descrito eventos deste
tipo, o terapeuta pode então solicitar que o cliente estabeleça relações ou analogias
entre estes eventos e episódios por ele vividos, elaborando, então, interpretações
a partir das contingências em vigor.
Considerando que o comportamento do cliente na interação terapêutica é uma
amostra de padrões de interação que ele estabelece em seu ambiente social, o inte­
resse do terapeuta não deve se resumir aos eventos descritos no relato verbal do
cliente, mas também à forma com que o cliente interage com ele durante a sessão
terapêutica. Nesse sentido Banaco (1993) afirma que, assim como é possível “apri­
morar” o autoconhecimento do cliente a partir do seu relato verbal sobre estados
internos, respostas abertas sutis do cliente podem ser indicativas de estados emocio­
nais. É importante, por esta razão, a identificação, por parte do terapeuta, de
manifestações corporais externas do cliente que podem ser indicativas de sentimen­
tos e emoções e, por conseguinte, de contingências de reforço em vigor na relação
terapêutica ou relacionadas ao tema relatado. Estas respostas podem também sugerir
ao terapeuta informações sobre o impacto que determinados eventos exercem sobre
seu comportamento e sobre a qualidade da relação terapêutica.

A Transposição da Análise de
Contingências para a Intervenção
Follette et al. (1996) afirmam que, a partir de uma etapa inicial de reforço, aparen­
temente não contingente a nenhuma classe de resposta específica, gradualmente
ocorre um afunilamento do foco das conseqüências providas pelo terapeuta du­
rante a sessão terapêutica. Aos poucos, então, o terapeuta passa a dirigir sua
intervenção a aspectos mais específicos do responder do cliente, com vistas à
instalação e manutenção de comportamento e à construção de condições para
a mudança. Esta etapa coincide com a aplicação de procedimentos por parte do
terapeuta a partir da análise de contingências.
Um procedimento comum nas terapias verbais é o desenvolvimento de auto­
conhecimento. A este respeito, De Rose (1997) afirma:

A psicoterapia pode ser entendida, ao menos em parte, como uma


metodologia para refinar o autoconhecimento, especialmente no que diz
respeito ao controle discriminativo exercido pelo mundo privado do
indivíduo. Um dos requisitos para isto provavelmente é que o terapeuta
desenvolva uma sensibilidade para as correlações entre eventos privados e
comportamentos manifestos. Isto permite ao terapeuta inferir aspectos do
mundo privado do cliente a partir de manifestações sutis; com base nestas
inferências, ele pode auxiliar o cliente no treino das discriminações que
ajudam a desenvolver o autoconhecimento... (p. 156)
168 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

De forma similar, Vermes, Kovac e Zamignani (2007) apontam que o trabalho


do terapeuta deveria, como um de seus objetivos, chegar à condição em que o
cliente não precise mais do terapeuta e, para tanto, este deveria favorecer que
o cliente apresentasse a sua própria análise e suas propostas de mudança.
Já os problemas identificados em cada um dos elos da relação comportamental
exigem, do terapeuta, diferentes estratégias de intervenção. No caso de não existirem
eventos antecedentes apropriados para a emissão de respostas, Kanfer e Grimm (1977)
propõem a modificação direta do ambiente atual (o que, segundo Zamignani, Kovac
e Vermes, 2007, é viável apenas por meio de intervenção extraconsultório) ou a busca
por novos ambientes que disponibilizem reforçadores de uma forma mais apropriada.
Follette et al (2000), nesse sentido, sugerem que o terapeuta facilite esta descoberta
pelo cliente e incentive sua participação em ambientes mais ricos em oportunidades
de interação. O terapeuta pode dispor de diferentes estratégias para conduzir o clien­
te em busca de novos ambientes ou grupos sociais. Uma das possibilidades é por meio
da apresentação de uma interpretação, na qual ele pode explicitar as variáveis do
ambiente que impedem a mudança. Outra possibilidade é a recomendação direta de
busca por ambientes alternativos. Esta é, provavelmente, a forma mais “diretiva” e,
talvez, a que produziria mais rapidamente a mudança necessária.
Quando não há um controle discriminativo ou há um controle discriminativo
inapropriado, Follette et al. (2000) recomendam a modelagem de um repertório
discriminativo, de modo que o cliente passe a responder em contextos apropriados
ou desenvolva repertórios comportamentais funcionalmente equivalentes àque­
les que ocorriam em ambientes inapropriados. Kanfer e Grimm (1977) também
sugerem, no caso de controle inapropriado por estímulos autogerados, o desenvol­
vimento de treinos discriminativos, de modo que o cliente venha a nomear mais
apropriadamente seus estados internos. Na terapia verbal, o treino discriminativo
- reforço diferencial de respostas, quando há estímulos apropriados - se aplica
apenas a episódios que envolvem o controle discriminativo sobre respostas sociais
e, mesmo assim, em alguns casos, não é possível dispor, na terapia, de contextos
sociais funcionalmente equivalentes àqueles nos quais ocorre a resposta-proble-
ma do cliente, de modo a fornecer diferencialmente as conseqüências. Cabe ao
terapeuta, nestes casos, o recurso verbal, intervindo por meio de análises inter-
pretativas, apontamentos e feedback sobre a adequação dos eventos relatados
verbalmente pelo cliente.
No caso de excessos comportamentais, Kanfer e Grimm (1977) sugerem o de­
senvolvimento de respostas incompatíveis com a resposta que ocorre em excesso,
o que poderia ser alcançado utilizando-se qualquer um dos procedimentos utili­
zados para o ensino de repertório. Sturmey (1996) defende que, mais do que
meramente remover uma resposta indesejada, o tratamento analítico-comporta-
mental deve ter em vista aumentar a frequência de comportamentos desejáveis.
Para casos em que o problema do cliente envolve déficits comportamentais, Kan­
fer e Grimm (1977) sugerem como intervenção que o terapeuta ofereça informação
sobre o desempenho correto ou sobre padrões sociais para o comportamento apro­
priado a determinadas situações. Além da estratégia proposta por esses autores,
pode-se considerar a modelagem por aproximações sucessivas, estratégia na qual
repostas que se aproximam daquela a ser aprendida são reforçadas socialmente pelo
terapeuta até que o cliente apresente o repertório desejado e produza os reforçadores
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 169

naturais que manteriam a ocorrência do comportamento (Zamignani e Jonas, 2007).


Outra estratégia frequentemente usada no ensino de repertório novo é a modelação,
que consiste em o terapeuta oferecer modelos de respostas para que o cliente os siga.
Quando o terapeuta identifica a existência de comportamentos intervenientes
que impedem a emissão de outras respostas mais efetivas para a produção de
reforçadores, Follette et a l (2000) sugerem que o terapeuta observe a ocorrência
destes comportamentos em exercícios de representação ou mesmo em observação
in vivo. Estas circunstâncias devem, então, ser apontadas para o cliente e o tera­
peuta deve alterá-las, antes que alternativas mais eficazes de respostas venham a
ser estabelecidas. Caso estes comportamentos intervenientes sejam constituídos
por excessos comportamentais, estas classes de respostas que ocorrem em excesso
poderiam ser substituídas por comportamentos mais úteis, utilizando-se para isso
estratégias para a redução e instalação de novas respostas.
Quando o problema do cliente envolve um arranjo problemático de contingên­
cias, Follette et al. (2000) alertam o terapeuta que, se tais condições ambientais não
forem alteradas, o comportamento tenderá a não se manter e a ser substituído por
comportamentos mais problemáticos. Para lidar com esta condição, Kanfer e Grimm
(1977) propõem que o terapeuta estabeleça um rearranjo de contingências. Para
isso, ele deve estabelecer junto ao cliente objetivos de curto prazo e reforçadores
arbitrários intermediários, até que respostas de autogerenciamento do cliente ve­
nham a ser fortalecidas por meio de conseqüências naturais.
No caso de conseqüências concorrentes ou controle inapropriado pelas conseqüên­
cias, Follette et al. (2000) sugerem que intervenções em ambiente natural sejam
desenvolvidas de modo a restringir o acesso ou aumentar o custo de respostas que
envolvam a emissão de comportamentos inapropriados. Em consultório é ainda
possível desenvolver uma análise de conseqüências: terapeuta e cliente identificam
as conseqüências concorrentes, tanto as reforçadoras, que mantêm a resposta,
quanto as aversivas, que produzem efeitos indesejáveis, mas que não têm a função
de punir comportamentos inapropriados. O efeito esperado de tal análise é que as
conseqüências aversivas, que ocorrem no dia a dia do cliente, passem a exercer
função punitiva, levando à redução da resposta que produz tal conseqüência.

Comportamentos do Terapeuta na
Condução de Procedimentos de Mudança
Meyer (2004) propôs uma classificação dos procedimentos básicos empregados
pelos terapeutas para promover mudança de comportamento:

• O terapeuta fornece regras.


• O terapeuta favorece autorregras.
• O terapeuta fornece estimulação suplementar.
• O terapeuta modela repertórios.

Os dois primeiros procedimentos descritos por Meyer (2004) envolvem a espe­


cificação de alternativas de ação ou a elaboração de descrições de contingências,
170 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

seja por meio do fornecimento de conselhos, ordens e descrições de contingências, seja


por meio de incentivo para a construção de autorregras por parte do cliente.
Aterceira estratégia refere-se ao fornecimento de estimulação suplementar pelo
terapeuta. De acordo com Meyer (2004), uma situação complexa é composta por
um grande número de estímulos e, em alguns casos, a queixa do cliente envolve um
responder sob controle discriminativo de apenas uma parte destes estímulos,
gerando uma ação ineficaz para a produção de reforçadores.

O terapeuta então identifica uma propriedade do estímulo discriminativo


que controla uma resposta e torna mais salientes outras propriedades do
mesmo estímulo físico, que já controlam outras respostas. Essas instruções
do terapeuta para que o cliente preste atenção a outros aspectos da mesma
situação pode aumentar a probabilidade de que novos aspectos passem a
controlar o comportamento, (p. 154-155)

O último dos procedimentos descritos por Meyer (2004) consiste da modelagem


de repertórios por meio do resultado direto dos comportamentos do cliente que
ocorrem na interação com o terapeuta, considerando o argumento apresentado por
Follette etal. (1996) e por Kohlenberg (1986), de que os comportamentos do cliente
que ocorrem durante a sessão terapêutica são uma amostra de sua forma de agir em
outros contextos. A modelagem direta de comportamentos envolve desde a audiên­
cia não punitiva do terapeuta, que seleciona e fortalece respostas de aproximação
e autoexposição do cliente, até a seleção de outras respostas sociais do cliente, por
meio de reforço diferencial.
As diferenças nas estratégias propostas por Meyer (2004) apontam para o debate,
dentro da aplicação da análise do comportamento, referente ao controle por regras.
Alguns autores defendem que o controle por regras é uma forma eficaz de controle
do comportamento humano (por exemplo, Catania, 1999); outros questionam a
ênfase nesse tipo de controle na relação terapêutica (por exemplo, Guedes, 1993).
Meyer (2004) apresentou a argumentação encontrada na literatura de que este tipo
de procedimento é especialmente importante nos casos em que “as conseqüências
do comportamento são muito adiadas ou escassas, tornando-se, portanto, ineficazes
na modificação de comportamentos, ou quando os comportamentos que seriam
modelados pelas contingências em vigor são indesejáveis” (p. 152). Regras apresen­
tadas pelo terapeuta podem especificar claramente uma ação que o cliente deveria
seguir, ou prescrever uma tarefa terapêutica (nesses casos, seriam regras específicas),
ou, de forma mais genérica, especificar o resultado a ser atingido, em vez da topo­
grafia da ação a ser executada (regra genérica).
Discutindo as diferentes possibilidades de utilização da análise de contingências
no contexto clínico, Sturmey (1996) considera que a interpretação de contingên­
cias pode ser utilizada como tratamento, ou como um dos componentes do
tratamento. Posição semelhante é adotada por Meyer (2004), ao afirmar que a aná­
lise de contingências feita pelo terapeuta com seu cliente seria um procedimento
de fornecimento de regras. O terapeuta, neste caso, deveria levar o cliente a desen­
volver uma análise de contingências do próprio comportamento e ajudá-lo a usar
essa análise para mudar seu próprio comportamento. Para isso, ele pode apresentar
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 171

a análise de contingências para o cliente ou trabalhar colaborativamente com este


para desenvolver uma análise compartilhada. Goldiamond (1975) recomenda que
o cliente seja conduzido a elaborar sua própria análise, ao invés de recebê-la pron­
ta, o que implica uma participação mais ativa do cliente no próprio tratamento.
Guedes (1993), por sua vez, critica o modelo de intervenção com base no con­
trole por regras. Esta autora afirmou que “contingências artificiais da sessão têm
pouca chance de competir com as contingências, em geral, mais antigas, mais
significativas e mais freqüentes na vida do sujeito” (1993, p. 84), e que a generali­
zação a partir de conselhos ou regras só é possível para pacientes cujo repertório
de comportamentos de “seguir regras” é bastante fortalecido.
Meyer (2004) e Zamignani e Jonas (2007) acrescentam outros problemas que
podem envolver o seguimento de regras. Um destes problemas é o risco de que o
indivíduo venha a responder sob controle da regra e deixe de emitir respostas de
observação dos eventos que controlariam naturalmente a resposta em questão. Tal
fenômeno tem sido denominado na literatura de pesquisa básica como insensibili­
dade às contingências. Estes autores apontam também que, quando conseqüências
sociais (implícitas ou claramente descritas na regra), competem com as conseqüên­
cias naturais do comportamento descrito na regra, as primeiras podem sobrepujar
as conseqüências naturais do responder, fazendo com que o indivíduo siga regras
sob controle de aprovação social e não da contingência natural do comportamento
especificado pela regra. O fornecimento de regras (principalmente as que especifi­
cam a topografia da resposta a ser emitida) pode prover pouca oportunidade para
a construção do repertório necessário para o desenvolvimento de autonomia do
cliente. Alguns estudos (citados em Meyer, 2005) apontam ainda uma maior frequên­
cia de respostas de resistência ou oposição do cliente quando o terapeuta age de
forma mais diretiva.
O feedback diferencial, por sua vez, com vistas a manter certos padrões de
comportamento e diminuir a probabilidade de ocorrência de outros, não garante
a generalização do comportamento para outros contextos, que não a interação
terapêutica. Especialmente quando se trata de conseqüências providas à descrição
de comportamentos do cliente que não ocorrem na sessão, há certa dificuldade
técnica para que o comportamento verbal (fortalecido na sessão) venha a contro­
lar o comportamento não verbal em outro contexto.
Meyer (1995) afirma que o conhecimento e a aplicação dos princípios básicos do
comportamento, assim como a relação desses princípios com as práticas (técnicas e
procedimentos), devem existir para que um trabalho terapêutico seja considerado
consistente com a análise do comportamento. Conceitos tais como reforço, extinção,
punição, controle de estímulos, generalização e outros devem fornecer a estrutura
conceituai para o desenvolvimento da prática do terapeuta analítico-comportamental.
Autores como Cahill, Carrigan e Evans (1998), Follette et al. (1996), Goldfried
e Davidson (1976) e Rosenfarb (1992) consideram que o fortalecimento de uma
ampla gama de comportamentos é pré-requisito para o engajamento do cliente
no trabalho, mas não é suficiente para que ocorram mudanças efetivas, sendo
necessário o reforço contingente à emissão de comportamentos alternativos,
considerados mais satisfatórios. Ao mesmo tempo, é fundamental que o terapeu­
ta apresente conseqüências diferentes daquelas encontradas no ambiente natural
172 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

do cliente - as quais têm mantido seus comportamentos-problema (Folette et al,


1996; Rosenfarb, 1992).•
Em resumo, diversos processos comportamentais podem ser responsáveis por
mudanças que ocorrem na psicoterapia. Mudanças podem ocorrer por meio da alte­
ração do controle por regras e autorregras, por adição de estimulação suplementar,
mas também por meio da modelagem de novos comportamentos na relação terapêu­
tica. O mais provável é que os vários tipos de procedimentos estejam envolvidos nos
processos de mudança, em proporções diferentes, conforme o terapeuta e o cliente.
Assim, a terapia analítico-comportamental é uma forma de prestação de serviços
que utiliza o arcabouço teórico da análise do comportamento e o conhecimento de
pesquisas básicas e aplicadas para a solução de problemas humanos. Intervenções
de terapeutas analítico-comportamentais são baseadas em filosofia, princípios,
conceitos e métodos da ciência do comportamento e incidem sobre as relações do
cliente com o seu ambiente, incluindo as relações que definem seus sentimentos e
suas cognições, com a participação de eventos (estímulos e respostas) públicos e priva­
dos. Para isso, a análise de contingências é o instrumento básico e imprescindível,
seja na avaliação da queixa do cliente, seja no delineamento, aplicação e avaliação
da própria intervenção. A intervenção pode ser dirigida a diferentes componentes da
tríplice contingência, ou seja, mudanças podem ser propostas para alterar antece­
dentes, respostas ou conseqüentes. Os comportamentos do terapeuta durante as
sessões para atingir tais objetivos podem ser classificados como fornecimento de
regras, favorecimento de autorregras, fornecimento de estimulação suplementar e
modelagem de repertórios.
978-85-7241-865-2

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BANACO, R. A. O impacto do atendimento sobre a pessoa do terapeuta. Temas em Psicolo­
gia, v. 2, p. 71-79,1993.
BANACO, R. A. Tendências neo-behavioristas na terapia comportamental: uma análise
sobre a relação terapêutica. In: CASTRO, P. F. (coord.). Anais do I Encontro sobre Psi­
cologia Clínica da Universidade Mackenzie, p. 36-43,1997.
CAHILL, S. P.; CARRIGAN, M. H.; EVANS, I. M. The relation between behavior theory and
behavior therapy: challenges and promises. In: PLAUD, J. J.; EIFERT, G. H. (eds.). From
Behavior Theory to Behavior Therapy. Boston: Allyn and Bacon, 1998. p. 294-319.
CATANIA, A. C. Aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
CHIESA, M. Radical Behaviorism: the Philosophy and the Science. Boston: Authors Coope­
rative, Inc., Publishers, 1994. Tradução de H. J. Guilhardi e P. P. Queiroz. Texto
publicado no Boletim Informativo ABPMC, n. 11, jan. 1997, tradução do cap. 9
COZBY, P. C. Métodos de Pesquisa em Ciências do Comportamento. São Paulo: Atlas, 2003.
Tradução de P. I. C. Gomide; E. Otta.
DE ROSE, J. C. C. O relato verbal segundo a perspectiva da análise do comportamento:
contribuições conceituais e experimentais. In: BANACO, R. A. (org.). Sobre Compor­
tamento e Cognição. v. 1. cap. 17. Santo André: Arbytes, 1997.
DELITO, M.; MEYER, S. B. O uso de encobertos na prática da terapia comportamental. In:
RANGÉ, B. (org.). Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátri­
cos. Campinas: Editorial Psy, 1995.
DOUGHER, M. J. Clinical Behavior Analysis. Reno: Context, 2000.
FERSTER, C. B. An Experimental Analysis of Clinical Phenomena. The Psychological Record,
v. 22, p. 1-16,1972.
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental ■ 173

FOLLETTE, W. C.; NAUGLE, A. E.; CALLAGHAN, G. M. A radical behavioral understanding of


the therapeutic relationship in effecting change. Behavior Therapy, v. 27, p. 623-641,1996.
FOLLETTE, W. C.; NAUGLE, A. E.; LINNEROOTH, P. J. N. Functional alternatives to traditio­
nal assessment and diagnosis. In: DOUGHER, M. J. (ed.). Clinical Behavior Analysis,
Reno: Context, p. 99-125, 2000.
GOLDFRIED, M. R.; DAVIDSON, G. G. Clinical Behavior Therapy. Nova York: Holt, Rinehart
e Winston, 1976.
GOLDIAMOND, I. Alternate sets as a framework for behavioral formulation and research.
Behaviorism, v. 3, p. 49-86,1975.
GUEDES, M. L. Equívocos da terapia comportamental. Temasem Psicologia, v. 2, p. 81-85,1993.
HAWKINS, R. P. Selection of target behaviors. In: HAYES, S. C.; NELSON, R. O. (eds.). Con­
ceptual Foundations o f Behavioral Assessment. Nova York: Guilford, 1986. p. 331-385.
HAYES, S. C. A contextual approach to therapeutic change. In: JACOBSON, N. S. (org.).
Psychoterapists in Clinical Practice: Cognitive and Behavioral Perspectives. Nova York:
Guilford Press, 1987. p. 327-387.
IRENO, E. M. Formação de Terapeutas Analítico-comportamentais: Efeitos de um Instru­
mento para Avaliação de Desempenho. São Paulo: USP, 2007. Dissertação (Mestrado)
- Psicologia Clínica. Universidade de São Paulo, 2007.
KANFER, F. H.; GRIMM, L. G. Behavior Analysis: Select Target Behaviors in the Interview.
Behavior Modification, v. 1, p. 7-28,1977.
KELLER, F. S.; SHOENFELD, W. N. Princípios de Psicologia. São Paulo: Herder, 1966. Tradução
de C. M. Bori; R. Azzi.
KOHLENBERG, R. J.;TSAI, M. (1987). Psico terapia Analítica Funcional. Santo André: ESETec,
2001. Tradução de F. Conte; M. Delliti; M. Z. Brandão; P. R. Derdyk; R. R. Kerbauy; R.
C. Wielenska; R. A. Banaco; R. Starling.
MEYER, S. B. Quais os requisitos para que uma terapia seja considerada comportamental?,
1995. Disponível em http://www.cemp.com.br/. Acesso em 17/11/2008.
MEYER, S. B. Análise funcional do com portam ento. In: COSTA, C. E.; LUZIA, J. C.;
SANT’ANNA, H. H. N. (org.). Primeiros Passos em Análise do Comportamento e Cog-
nição. Santo André: ESETec, p. 75-91, 2003.
MEYER, S. B. Processos comportamentais na psicoterapia. In: CRUVINEL, A. C.; DIAS, A. L.
F.; CILLO, E. N. (org.). Ciência do Comportamento. Conhecer e Avançar. 1. ed. Santo
André: ESETec, v. 4, p. 151-157, 2004.
MEYER, S. B. Regras e auto-regras no laboratório e na clínica. In: ABREU-RODRIGUES, J.;
RIBEIRO, M. M. (orgs.). Análise do Comportamento: pesquisa, teoria e aplicação.
p. 211-229, Porto Alegre: Artmed, 2005.
NALIN, J. O uso da fantasia como instrumento na psicoterapia infantil. Temas em Psicologia,
v. 2, p. 47-56, 1993.
NENO, S. Tratamento Padronizado: Condicionantes Históricos, Status Contemporâneo e (in)
Compatibilidade com a Terapia Analítico-comportamental. Belém: UFPA, 2005. Tese
(Doutorado). Programa de Pós-graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento.
Universidade Federal do Pará, 2005.
OTERO, V. O Sentimento na psicoterapia comportamental infantil: envolvimento dos pais
e da criança. Temas em Psicologia, v. 2, p. 57-64,1993.
PÉREZ-ALVAREZ, M. P. La Psicoterapia desde el Punto de Vista Conductista. Madrid: Biblio­
teca Nueva, 1996.
RIBEIRO, A. F. Correspondence in children’s self-report: tacting and manding aspects. Jour­
nal of Experimental Analysis o f Behavior, v. 51, n. 3, p. 361-367,1989.
ROSENFARB, I. S. A behavior analytic interpretation of the therapeutic relationship. The
Psychological Record, v. 42, p. 341-354,1992.
SKINNER, B. F. Verbal Behavior. Nova Jersey: Prentice-Hall, 1957.
174 ■ Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

SKINNER, B. F. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Edart, 1974. Tradução de J.


C. Todorov; R. Azzi. Publicado originalmente em 1953.
SKINNER, B. F. Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix, Edusp. Tradução de M. P. Vilalobos,
1982. Publicado originalmente em 1974.
STURMEY, P. S. Functional Analysis in Clinical Psychology. Oxford: John Wiley & Sons, 1996.
TOURINHO, E. Z. Mundo interno e autocontrole. Revista Brasileira de Análise do Compor­
tamento, v. 2, n. 1, p. 21-36, 2006.
TOURINHO, E. Z. Conceitos científicos e “eventos privados” como resposta verbal. Interação
em Psicologia, v. 11, n. 1, p. 1-9, 2007.
TOURINHO, E. Z.; CAVALCANTE, S. N. Por que terapia analítico-comportamental. Campinas:
ABPMC Contexto, v. 23, n. 10, 2001.
ULIAN, A. L. Uma Sistematização da Prática do Terapeuta Analítico-comportamental: Sub­
sídios para a Formação. São Paulo: USP, 2007. Tese (Doutorado) - Universidade de São
Paulo, 2007.
VERMES, J. S.; KOVAC, R.; ZAMIGNANI, D. R. A relação terapêutica no atendimento clínico
em ambiente extra-consultório. In: ZAMIGNANI, D. R.; KOVAC, R.; VERMES, J. S. (orgs.).
A Clínica de Portas Abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento tera­
pêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório. São Paulo: Paradigma/
ESETec, 2007.
WINDHOLZ, M. H.; MEYER, S. B. Terapias Comportamentais. In: ASSUMPÇÃO JR., F. B.
Psiquiatria da Infância e da Adolescência. São Paulo: Santos e Maltese, 1994.
ZAMIGNANI, D. R. O Desenvolvimento de um Sistema Multidimensional para a Categori-
zação de Comportamentos na Interação Terapêutica. São Paulo: USP, 2007. Tese
(Doutorado) - Universidade de São Paulo, 2007.
ZAMIGNANI, D. R.; JONAS, A. L. Variando para aprender e aprendendo a variar: Variabilidade
comportamental e modelagem na clínica. In: ZAMIGNANI, D. R.; KOVAC, R.; VERMES,
J. S. A Clínica de Portas Abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento
terapêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório. São Paulo: Paradigma/
ESETec, 2007.
ZAMIGNANI, D. R.; KOVAC, R.; VERMES, J. S. A Clínica de Portas Abertas: experiências e
fundamentação do acompanhamento terapêutico e da prática clínica em ambiente
extraconsultório. São Paulo: Paradigma/ESETec, 2007.